quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Duran Duran - Red Carpet Massacre

7/10
Epic
Sony BMG
2007
www.duranduran.com



A dada altura da década de oitenta os britânicos Duran Duran eram o símbolo máximo da pop europeia no que toca à exploração acertada das virtudes da imagem ao serviço da música. Não só ficaram célebres algumas realizações do agrupamento no capítulo dos vídeoclipes - pioneiros no aproveitamento de uma dimensão visual então pouco "rentabilizada" da indústria musical (muitas vezes, em apoio à sétima arte) - como também fez história o conceito indumentário de Simon LeBon e companhia. Tais condimentos estéticos, medidos na exacta proporção de qualquer manual de como fazer uma super-estrela, serviram como o complemento perfeito para o punhado de singles que projectaram o grupo para a primeira linha da música inglesa e para uma fase de grande fulgor mediático que duraria até pouco mais de meio da década. Embora nunca tenham vivido um período de cessação efectiva de actividades, os Duran Duran conheceram, depois desse auge, um balbuciante fluxo de edições que, invariavelmente, ora os foi empurrando para uma (injusta) meia-luz mediática, sobretudo pela ausência de canções inspiradas o suficiente para induzir a propulsão necessária em sentido contrário, ora os "diluiu" nos projectos musicais paralelos dos seus membros. A recuperação do tempo, do espaço e do dinheiro perdido, veio a conta-gotas e sem grande brilho, em razão das sucessivas alterações no alinhamento da banda e da indiferença de críticos e públicos à música que os Duran Duran iam oferecendo.

Astronaut, de há três anos, marcou a primeira reunião em disco do quinteto fundador dos Duran Duran desde 1986 (Notorious, desse ano, contara ainda com Andy Taylor em quatro trechos), mas não foi o exercício regenerador que, porventura, os cinco tinham imaginado. Três anos volvidos, nada melhor do que recorrer às alquimias do produtor do momento (Timbaland, pois então) e à caneta de Justin Timberlake para somar a notícia à música. E, se o efeito mediático dessas colaborações estaria afiançado, dando à partida um crédito de curiosidade à segunda etapa do "regresso" dos Duran Duran, impor-se-ia perceber em que medida o envolvimento dessa dupla valeria à personalidade sonora dos britânicos. Em boa verdade, resulta surpreendentemente bem a "modernização" que Timbaland opera nas texturas do grupo, renovando-lhe algumas das causas identitárias e trazendo-as ao que hoje se escuta, sem as contaminar e, acima disso, sem lhes subtrair arrojo e os finos sabores a alternativo que, mesmo nos dias áureos como figura mainstream, nunca saíram da ementa rítmica da banda. Depois, as canções desvendam uma (inesperada) criatividade, não necessariamente no sentido de se distanciarem do ideário Duran Duran que é conhecido, mas enquanto produtos sólidos de um desejo de reafirmação ("Nite Runner" ou "Skin Divers" são belíssimos exemplos de novos atalhos). E, como em todos os fôlegos de renascimento, há ápices de entusiasmo e instantes de menor inspiração, o que não impede Red Carpet Massacre de ser o melhor que os Duran Duran escreveram em anos e uma boa surpresa do que Simon LeBon e seus pares ainda têm para dar ao mundo pop.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Guitarra estrela...

Depois de se ter tornado um protagonista relevante no orbe electrónico com a alcunha Mondo Grosso, tendo erguido uma discografia consistente nas áreas do house ligeiro, do chill out ou do acid jazz, o japonês Shinichi Osawa lançou recentemente o primeiro registo de originais com o seu nome de baptismo (depois de dois mix LP's). O avanço inicial do álbum é uma revisão do clássico "Star Guitar", dos Chemical Brothers (é parte de Come With Us, de 2002), e conta com convidadas de nomeada, no vídeo e nas vozes. Nem mais nem menos: as nova-iorquinas Au Revoir Simone. Vale a pena ver e escutar. Outros trechos do registo The One estão disponíveis no MySpace de Osawa, basta clicar aqui.


segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Okkervil River - The Stage Names

8/10
Jagjaguwar
2007
www.okkervilriver.com



Dos três discos anteriores destes texanos, já se conheciam as habilidades de Will Sheff na hora de passar a palavras as casualidades do quotidiano, sempre num registo pautado por um certo negrume e por quimeras desordenadas, no limiar da depressão que não transpõe a derme. Ainda assim, embora subscrevendo essa submissão "natural" aos arbítrios do destino e, sobretudo, essa introspecção consciente sobre as suas próprias limitações enquanto personalidade humana, Sheff não fez da música dos Okkervil River um mero lenitivo de depressões pessoais, optando por usar a canção folk-rock noutras dimensões mais abertas e, dessa forma, eximindo-se dos clichés auto-centrados. O que não tinha ficado claro nos três registos anteriores da banda é que, além da perícia nas letras, também houvesse em Sheff e seus pares matéria melódica muito competente. E, embora Black Sheep Boy, de há dois anos, tivesse demonstrado um crescimento notório nesse particular, trazendo os Okkervil River a uma órbita mediática que não tinham experimentado antes, The Stage Names é o definitivo exercício de maturação do septeto. A nota de destrinça face ao antecessor é a franquia emocional deste álbum, claramente a apostar em ambientes menos introspectivos, graças à limpidez da produção e dos arranjos e, também, a composições mais escorreitas e animadas. O desfecho é, naturalmente, uma forma de expressão mais pop do que em qualquer outro registo dos Okkervil River. E isso não é, neste caso, sinónimo de cedências ou aligeiramento das capacidades artísticas que a banda sempre revelara; é, isso sim, como muito bem desvenda The Stage Names, o encontro dos poemas de Sheff com o equivalente musical que há muito mereciam. Excelentes notícias, portanto.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Boys Noize - Oi Oi Oi

7/10
Edição de autor
Flur
2007
www.myspace.com/
boysnoizemusic



Embora se trate de um tipo de som talhado essencialmente para os apreciadores dos sons electrónicos e, por essa via, acabe por estreitar as suas próprias margens de progressão noutros públicos, a música do projecto Boys Noize tem vistas largas na hora de escolher referências estéticas. Afinando pelo mesmíssimo conceito estrutural que consagrou recentemente gente como os Digitalism, os Simian Mobile Disco, os MSTRKRFT (estes há mais tempo) ou Justice, por exemplo, Alex Ridha - é ele o mentor escondido no epíteto Boys Noize - explora as ambiguidades (e consequentes pontos de convergência e divisão) entre a padronização mais consensual da chamada música de dança e a perversidade do experimentalismo inflamador. De resto, Oi Oi Oi, debute discográfico deste produtor alemão, terá sido pensado como uma obra intencionalmente perversa na essência, como bem convém à estética maximal que por aí anda e assenta, sobretudo, numa predisposição para potenciar o lado mais agreste (e ácido) dos sons digitais. Visto (e escutado) sob esse pressuposto, percebe-se melhor a matriz esdrúxula que as composições desvendam em cada uma das suas substâncias, desde os sintetizadores incrivelmente distorcidos (ou retorcidos?), às linhas de baixo a carregar nos graves e às estruturas repetitivas e insistentes. Todavia, o recurso à panóplia de manobras de diversão maximal não esconde a venturosa personalidade do álbum e o espírito subliminarmente ecléctico das propostas, a insinuar importações dos Daft Punk e outras derivas menos "clássicas". Traços de originalidade ligados a correntes de alta voltagem, está bom de ver.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Animais artificiais...e pop de estirpe!

Eles são uma das revelações do ano na música francesa e foram apresentados com o tema "U Turn (Lilly)", parte do filme Je vais bien ne t'en fait pas, de Philippe Lioret, do ano transacto. A canção é ilustrada com excertos da película (onde brilha a belíssima Mélanie Laurent) e faz parte do muito interessante álbum da banda parisiense Aaron (Artificial Animals Riding On Neverland), lançado no início do ano. Vale a pena escutar. O resto do álbum pode ser ouvido aqui.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Venetian Snares - My Downfall (Original Soundtrack)

7/10
Planet Mu
2007
www.venetiansnares.com



Embora tenha experimentado um trajecto consistente desde as fundações, o canadiano Aaron Funk (é ele quem assina como Venetian Snares) apenas viu reflexos mediáticos do seu trabalho há um par de anos, com o impressivo Ross Csillag Allat Szuletett, opus magno do seu catálogo, onde ensaiou afinidades improváveis entre a sua hiperactiva e impaciente máquina de beats e fragmentos de música erudita - alguns dos quais importados de Béla Bartók - ou da órbita jazz. Não obstante a aparente "conflitualidade" estética dos géneros, a verdade é que a mescla, além de empreender genuínas pérolas (a título de exemplo, escute-se "Öngyilkos Vasárnap" e a magnífica integração de um sample de "Gloomy Sunday", clássico de Billie Holiday, de 1933), também mostrou o engenho de Funk na hora de afinar convergências e montar cenários comuns entre a "agressividade" típica das suas electrónicas breakcore e a oposição plácida dos elementos clássicos.

Sabendo-se dessa expressão simbólica que Ross Csillag Allat Szuletett tem no catálogo de Aaron Funk, é de uma sublime ironia que o primeiro álbum em que são retomados alguns pressupostos conceptuais desse disco seja baptizado de My Downfall (Original Soundtrack). Não se tratando de uma banda sonora para a sétima arte, é como se voluntariamente o músico/compositor assumisse o casamento breakcore/clássica como um retórico declínio da sua arte e, perante ele, se propusesse erguer um acompanhamento musical ilustrativo. Efectivamente, tal como já o tinham sido as causas criativas de Ross Csillag Allat Szuletett, as revelações deste My Downfall são de algum alheamento face ao mero uso do breakcore de per si nas composições, denunciando um artífice em busca de outras linguagens e renovando as sinergias com os formatos clássicos de música, aqui sobretudo marcadas pelo envolvimento cenográfico e pelas construções harmónicas de cordas. O anunciado "declínio" é, afinal, um exercício de continuidade de Ross Csillag Allat Szuletett e isso são óptimas notícias para os adeptos de Venetian Snares. Se Aaron Funk continuar a censurar-se e a inventar as suas próprias "decadências" como nesta obra, o mais provável é que, impelido por ele enquanto figura de proa do movimento, o breakcore dê o salto emancipador que sempre adiou. My Downfall pode não ser disco para puristas desta estética - não o é, na essência - mas destapa virtudes artísticas e potencialidades que o género não deve ignorar. E não há qualquer decadência em admiti-lo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Tropa Macaca - Marfim




Olhando o passado recente de ambos os protagonistas no underground da música nacional, não podia esperar-se que o debute discográfico como Tropa Macaca trouxesse a Joana da Conceição (chamam-lhe Ju-Undo) e André Abel (também assina como Símio Superior) algum senso convencionalista. Para eles, pouco importa o conceito de composição enquanto processo construtivo, talvez por ser racional demais; preferem ver a música como uma fruição subversiva do ruído e outros estímulos, quase casualmente conjugados. Dir-se-ia, nesse sentido, que os Tropa Macaca produzem música "incidental", tão episódica quanto pode ser a captação de uma qualquer causa (ou coisa) inspiradora. E tudo, mesmo tudo, pode ter servido de inspiração a este Marfim, apresentado em sumptuoso vinil branco, a comunicar-nos esse método de criação quase fortuito, recheado de especulações e derivas, sobretudo tentando retratar ondas, tensões e oscilações que, livremente, ocorrem indiferentes (e imunes) ao processo. É como se esta "música" já estivesse perante nós, mesmo antes de Joana e André a inscreverem nos tímpanos e isso confere a Marfim uma intimidade rara neste conceito sonoro. A orgânica das electrónicas e das máquinas (de Ju-Undo) é absolutamente esdrúxula, não tem epicentro nem coordenadas, é uma fera anidiana num indomável tropel sem regra de ritmo ou tom (ou rumo). A ela, junta-se a guitarra eléctrica (de Símio Superior) transfigurada, quase irreconhecível num disfarce de coisa electrónica (sublime a alquimia de efeitos!), afinal a mais conveniente veste para se juntar à extática fantasia de ruídos. E o pacto entre máquinas e guitarra conhece, agora, convergências mais firmes do que no passado do duo tirsense, num trio de peças contagiadas pelo psicadelismo e pelo desejo mutante.

"Tronco Nu", primeira aresta do LP, cresce do frio minimalismo para a fantasia tortuosa mas catártica, fechando-se a si mesmo em aliterações inflamadas da guitarra, sob o metrónomo das texturas electrónicas. Quase vinte minutos depois, entramos na "Zona do Bicho" ao som de um sucedâneo de vergastas e assim se desfia a composição, pendular e domadora, até o bicho electrónico se agitar em convulsões, se insurgir irascível, antes de se deixar tomar pela fadiga e amansar, com o chicote a zurzir. "Poço da Morte" é o mais escuro e labiríntico dos ensaios, a trazer à memória fragmentos ácidos dos Wolf Eyes, de pura abstracção e subliminar hostilidade, ao jeito de uma marcha militar doentia, ferina e aguda. No final, sobra a sensação de um abalo cerebral que impressiona e, em último caso, escrutina a validade de Marfim como um dos melhores produtos de vanguarda da música portuguesa dos últimos anos. Falta saber se os melómanos lusos (e não só) estão prontos para ir à tropa...

sábado, 10 de novembro de 2007

A Place to Bury Strangers




O aparato com que estes debutantes se apresentam sob o epíteto de banda mais volumosa de Brooklyn, por si só, é demonstração de uma postura ambivalente: ou a afirmação é pejada de arrogância (e espírito provocador) típica de recém-chegados à cena rock ou, pelo contrário, é sintomática da confiança que o grupo deposita na matéria criada. Ao mesmo tempo, dessa afirmação identitária derivam duas outras reflexões indirectas: uma é do domínio da contextualização, ao situar a música dos A Place to Bury Strangers no cenário criativo de uma das cidades da Grande Maçã, alinhando-os geograficamente com o berço de projectos como os Clap Your Hands Say Yeah, as Au Revoir Simone, os Oneida ou os Black Dice (todos de Brooklyn); a outra, mais eloquente quanto ao produto musical de per si, reside na utilização do trio nova-iorquino de um adjectivo conceptualmente tão encriptado para etiquetar a sua música. Volumosa.

Dizem os dicionários que, quando associada a vibrações sonoras, essa adjectivação exprime um som forte e cheio. E, de facto, assim são as substâncias do disco, em volumes altos, distorções redundantes e pedais, efeitos e ruídos. E densidades importadas do shoegaze. Coisa mais ou menos normal, depois da aventura (falhada?) de Oliver Ackerman, guru do projecto, nos precocemente extintos Skywave, onde se entretinha a descobrir os manuais da dream pop de olhos no chão. Agora, a tecedura é outra. E as influências primazes estão fora da América. Com os Jesus and Mary Chain (estes acima dos outros), os My Bloody Valentine ou os Spacemen 3 como luminárias, Ackerman e seus pares, partem em busca da pedra filosofal - o que é o mesmo que dizer de um novo Psichocandy. Afinal, os Jesus and Mary Chain também tiveram na estreia o auge de um percurso de quinze anos! Claro que comparar o primeiro opus dos A Place To Bury Strangers com uma obra tão emblemática quanto essa pode ser uma deriva de entusiasmo exagerado, mas não deixa de ser verdade que o disco capta como poucos (e foram muitas, imensas, as tentativas passadas de o fazer) a feição mais electrizante, misantrópica e perturbada do shoegaze. E tecnicamente o conceito é simples: texturas de guitarra em distorções ecoantes e filtradas por efeitos de pedal, feedback e estática, linhas de baixo robustas e um sentido colateral de percussão. Depois, a voz é volante, vagueia como um espectro e, mesmo num registo aparentemente estéril e sem ansiedade, tem o condão de imprimir um romantismo depressivo (e surpreendentemente "melódico") às canções. Melhor sucedâneo para saudosistas dos Jesus & Mary Chain não há, mesmo que trepando algumas décimas na escala de dBs.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Youssou N'Dour - Rokku Mi Rokka

6/10
Nonesuch Records
2007
www.youssou.com



Embora Youssou N'Dour seja um daqueles artesãos de música que imediatamente é conotado com o nicho generalista da world music - preguiçosa tipificação que pouco mais faz do que juntar na mesma estirpe tudo o que está nas margens das latitudes e longitudes da primeira linha da música mainstream - a verdade é que, também ele, adquiriu uma projecção mediática além desses mercados "secundários". E isso deveu-se, em primeira instância, à exposição crescente da sua voz na segunda metade da década de oitenta, mormente em discos consagrados de Paul Simon (Graceland, de 1986) e Peter Gabriel (So, do mesmo ano) e, também, ao activismo pelos direitos humanos que o levaria a dividir palcos, numa digressão da Amnistia Internacional de 1988, com gente como Bruce Springsteen, Tracy Chapman, Sting e o próprio Peter Gabriel. Paulatinamente, a música de N'Dour adquiriu expressão planetária, galgando as fronteiras do Senegal e, num plano mais ambicioso, vencendo barreiras estéticas próprias do som africano. A consagração internacional, em 1994, no celebérrimo dueto com Neneh Cherry (em "Seven Seconds", parte integrante do álbum Wommat) constituiu o corolário lógico de um percurso sempre em ascensão e confirmava, se dúvida ainda houvesse, as novas afinidades com correntes de som bem distantes das suas raízes m'balax (fusão de harmonias pop com colorações rítmicas afro-caribenhas) no grupo popular Super Étoile de Dakar.

Hoje, com mais de vinte discos editados e um trajecto irrepreensível no desejo de casar cadências e sabores africanos tradicionais com adornos importados da modernidade (chame-se-lhe "experimentalismo"), N'Dour é um seguro baluarte do que vale a pop africana ou, numa esfera mais íntima, do que é digna a diversidade sonora do Senegal. Ele tem, afinal, um duplo protagonismo: enquanto embaixador de linguagens ancestrais, transporta substratos do mais fino atavismo e tradição e, ao mesmo tempo, soma-lhes um espírito renovador. As vantagens conceptuais dessa mescla, como os altos e baixos da discografia de N'Dour confirmam, nem sempre são certos. Em boa verdade, Rokku Mi Rokka não é, nem de perto nem de longe, um disco magno. A presença incrivelmente catalizadora do ngoni de Bassekou Kayate - um dos sublimes instrumentistas da corrente cena maliana - não chega, em grande parte do álbum, para corrigir a decepção das melodias. Um recurso tão magicamente engenhoso quanto a voz de N'Dour - lembrem-se as sublimações derivações sufi do antecessor Egypt, de 2004 - merece outro serviço. E isso, a despeito da produção hábil do disco e de alguns instantes de boa poda ("Sama Gàmmu", "Létt Ma" ou "Dabbaax"), não chega para fazer de Rokku Mi Rokka um documento à altura do melhor Youssou N'Dour.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Depois dos ventos...

Depois de ter assentado a poeira levantada pelos novos ventos do rock contemporâneo, sobraram entusiasmos exacerbados - em que cada novo disco era uma espécie de balsâmo messiânico em salvamento do rock - e ondas de consagração hiperbólicas de algumas bandas que, sujeitas, depois disso, à exigência de dar continuidade a boas primeiras impressões, resvalaram irremediavelmente para a mediania (ou pior). Uma das interessantes excepções foram os suecos The Hives que, chegados ao quarto álbum de um percurso de passos discretos mas firmes, parecem ter assistido incólumes a esses exageros instantâneos e à lógica rei-morto-rei-posto da crítica e ressurgem, agora, com uma linguagem convicta e pronta a receber a atenção (e o crédito) que já lhe era devida. "Tick Tick Boom" é primeiro avanço do surpreendente The Black and White Album, lançado entre nós no final de Outubro.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Om - Pilgrimage

7/10
Southern Lord
2007
www.holymountain.com/om



O prelúdio da aventura dos Om nas lides musicais confunde-se com a cessação de actividades dos respeitados Sleep, agrupamento stoner californiano que, durante a década de noventa, ajudou à emancipação de uma linguagem musical que, à época, ficava na sombra de outros géneros rock mais condizentes com as formatações mainstream. Pese embora essa resistência dos públicos que, em último caso, atrasou a emergência de Al Cisneros (voz, baixo), Matt Pike (guitarra), Justin Marler (guitarra, abandonaria o ensemble em 1992) e Chris Haikus (bateria) como figuras relevantes do rock alternativo mais pesado, os Sleep firmaram um som de alucinações cruas e lentas, cravadas a guitarras possantes e insistentes e vocalizações guturais. A dissolução da banda, algures em 1997, no seguimento de uma sucessão de desentendimentos com a London, mormente a recusa da editora em produzir Dopesmoker como uma peça única de sessenta e três minutos (o título seria lançado em 2003, no formato original apresentado pelos Sleep), deixou o orbe stoner órfão de uma das suas mais capazes descendências. E foi apenas alguns anos mais tarde que Al Cisneros e Chris Haikus - que, entretanto, tinha passado pelos The Sabians, com Justin Marler - convergiram recursos no projecto Om, pondo o definitivo ponto final no percurso dos Sleep.

De então para cá, e com dois álbuns editados antes deste Pilgrimage, os Om vêm tentando definir uma identidade musical própria, algures entre a necessária demarcação do legado Sleep e a reinvenção de si mesmos sob as restrições de fazer música com apenas dois instrumentos. Variations on a Theme, de 2005, dava já sinais subliminares de outras demandas estéticas, embora com o mesmo revestimento ácido que celebrizara os Sleep e, nesse sentido, era mais um exercício de continuidade do que propriamente a declaração de identidade dos Om. Conference of the Birds, do ano seguinte, muito por culpa da seminal "At Giza", redefiniu o paradigma dos Om, desvendando um som mais contemplativo e, sobretudo, uma estruturação melódica que, retendo as energias negras e os compassos repetitivos do passado, emprestava outro cuidado à construção e ao detalhe. Esses pormenores são particularmente notórios em "Pilgrimage", a peça que abre o álbum homónimo, bem ao jeito de um extenso mantra, cheio de espiritualidade psicadélica, construído sobre um fraseado do baixo, filigranas de percussão tribal e verbalizações sussurradas. Sem princípio, meio ou fim claros e sem coordenadas para orientar o ouvinte, o resultado é uma copiosa reticência...ou uma suculenta incerteza. Os dois trechos seguintes, claramente mais carnais (e próximos das recordações Sleep), mostram a face acerba da espiritualidade, elevando volumes e distorções em volta de uma colérica viagem de riffs repetitivos e detonações de bateria que, afinal, se revelam um cântico de catarse. E a coisa termina como começou, com uma revisão do tema principal. O retorno aquieta o espírito atordoado pelo remoinho de emoções, devolvendo-o à contemplação do desfile sarcástico dos fantasmas que desaparecem de mansinho. Como se cá não tivessem estado.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Sigur Rós - Hvarf/Heim

6/10
EMI/XL Records
2007
www.sigur-ros.co.uk



Dificilmente o novo trabalho dos Sigur Rós se tornaria um acontecimento mediático extraordinário pela música nele contida, em virtude do duplo CD dos islandeses vir recheado de material já conhecido dos indefectíveis da banda. O primeiro disco (Hvarf), com apenas cinco faixas para trinta e cinco minutos de música, dá porte de estúdio a algumas composições que a banda mostrou em palco nos últimos anos mas que não conseguiram espaço em gravações anteriores (faça-se a excepção a "Von", recuperada do debute discográfico homónimo). Na essência, o quinteto de peças não foge muito da matriz característica do cancioneiro Sigur Rós; hoje por hoje, contando mais de uma década de actividade, os islandeses são uma entidade reconhecida do pós-rock contemplativo, feito de melancolias planantes, com forte impacto cénico e pejadas de insinuações "orquestrais". Depois, há o mágico falseto de Jon Birgisson, afinal o mediato cicerone para o glacial (e, porque não dizê-lo, labiríntico) universo de sonhos que a caravana de instrumentos tão bem desenha acima da vulgaridade. O único óbice, de resto perfeitamente notório neste Hvarf, é que a consistência e a fidelidade estética dos Sigur Rós ao estilo que fundaram começa a confundir-se com estagnação e, em consequência, acaba por revelar algum conformismo e inaptidão da banda para derivar por outros atalhos do seu próprio cardápio de ideias. Valha-nos a particularidade de o segundo disco (Heim) destapar revisões acústicas de alguns dos temas mais conhecidos dos islandeses, com a bem-vinda ajuda das cordas e alquimias das compatriotas Amiina. Aí, sem o alarde cosmético dos efeitos de estúdio, percebe-se melhor o sucesso da equação Sigur Rós. Mostradas na sua dimensão mais visceral, as canções seguram uma impressiva carga emotiva e convertem-se num curioso exercício de música de câmara, onde o recato e a intimidade somam outros planos às melodias verbalizadas sem mácula por Birgisson. E, com essa renovada estruturação, até esquecemos por momentos que já conhecíamos estas canções e que a fórmula já está um bocadinho gasta...

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Devastations - Yes, U

6/10
Beggars Banquet
2007
www.devastations.net


Apesar de terem as suas raízes na Austrália, os Devastations radicaram-se em Berlim ainda numa fase prematura do seu percurso, talvez em busca da emancipação mediática das apressadas (e castradoras) comparações com que a imprensa especializada do seu país os considerava a nova descendência de Nick Cave. É certo que não devem desconsiderar-se algumas analogias estruturais entre a proposta musical deste trio e o legado das melancolias Cave, mas a música dos Devastations sempre foi mais do que um mero pastiche desse substrato. Neste terceiro registo são peremptórias as afirmações de identidade do trio aussie, desde logo na reinvenção de uma estética outrora tingida por insinuações "góticas" e por uma toada baladeiro-depressiva (no que também lhes rendeu algumas comparações com os Tindersticks) e, agora, importadora de um certo vanguardismo instrumental, seja pela incorporação de ruídos etéreos (muito ao estilo dos capítulos berlinenses de Bowie) ou pela introdução de electrónicas espectrais. Também o registo vocal de Conrad Standish (uma das vozes do trio) está menos mimético (em Coal, de 2006, ele parecia um sucedâneo de Stuart Staples) e menos rígido, ensaiando inflexões tonais não conhecidas antes. Porém, apesar das vantagens orgânicas que essas variações trouxeram à música dos Devastations, Yes, U revela alguns auges de criatividade ("Black Ice", "Rosa", "The Pest" ou "Mistakes"), num misto trip-hop-slowrock sombrio, mas desaponta a maior parte do tempo, mormente na previsibilidade ou, mais do que isso, na monotonia das composições.

Posto de escuta MySpace

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Duas faces dos novos sons da América

Exercício alucinante de colagens vídeo, o novo clip dos Black Dice representa uma curiosíssima transposição do universo de esquizofrenias sónicas do grupo nova-iorquino para os domínios da imagem. E o resultado é, como é regra na música dos Black Dice, um desafio a qualquer convenção estética. O álbum chama-se Load Blown.



A outro nível, uma nota de destaque para o primeiro avanço de Invitation Songs, dos The Cave Singers. Eles vêm da mesma Seattle que tornou célebres as flanelas grunge mas estreiam-se em disco com uma sedutora proposta de folk psicadélico, como bem fica demonstrado nesta "Dancing on Our Graves". O vídeo é construído em volta de uma cenografia retro a preto e branco que serve como uma luva ao conceito musical do trio americano.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Soulwax - Most of the Remixes...

7/10
Parlophone
EMI
2007
www.soulwax.com



O generalizado aplauso com que os públicos europeus se foram sucessivamente rendendo ao trabalho dos irmãos Dewaele (Stephen e David), primeiro enquanto animadores nocturnos e editores de sets - é deles a celebérrima chancela das edições 2Many DJ's - e, depois, nas incumbências de banda de corpo inteiro (com o epíteto Soulwax) e de produtores/remisturadores de elite, não foi mais do que uma consagração natural. Com um estilo muito peculiar (e, em grande parte, inovador...) de emprestar ritmos próprios da música de dança a estímulos e canções importadas das órbitas rock ou da pop, estes intrépidos belgas ergueram uma assinatura respeitada no orbe electrónico das remisturas que, posteriormente, ampliaram e assumiram como identidade criativa nas suas próprias composições como Soulwax. Most of the Remixes... é um paradigmático exemplo da alquimia da dupla nas remisturas, ao compilar grande parte das reconstruções mais significativas dos últimos anos, algumas das quais dispersas em edições avulsas. Aqui, mais do que meras intervenções pontuais nas peças originais de LCD Soundsystem, Klaxons, Gossip, DJ Shadow, Gorillaz, Daft Punk ou Robbie Williams (entre outros) desvendam-se recriações autênticas, pouco restando das canções primitivas além da sugestão melódica, como se tivessem sido desmontadas em partes para, depois, merecerem nova montagem (e identidade). É, de resto, essa premissa (des)construtiva e, sobretudo, a aptidão para encontrar novos ordenamentos e lógicas para canções pré-existentes que faz dos manos Dewaele dignos representantes do melhor que se faz no capítulo das remisturas. Esta compilação prova-o à saciedade. E ainda traz um mix extra, num segundo disco, com pérolas não reveladas no primeiro. Tentador!

Posto de escuta MySpace

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Norberto Lobo & Lobster



Mudar de Bina
8
/10
Bor Land
2007
www.norbertolobo.com


Sexually Transmitted Electricity
7
/10
Bor Land
2007
www.wearelobsters.com


Com sete anos a divulgar protagonistas menos conhecidos da música portuguesa, muitas vezes atrevendo-se à exposição de uma erudição estética que não encontra muitas saídas editoriais no estreito (e ainda muito arreigado em convenções) mercado discográfico português, o selo nortenho Bor Land é já um marco assinalável. Com mais de trinta títulos reunidos em volta de uma filosofia que, ao invés de promover denominadores estéticos comuns entre os artistas publicados, a Bor Land aposta essencialmente em abrir portas (e mentalidades) a músicos criativos e em busca de um espaço de reconhecimento. E, mesmo que alguns deles não venham a dar o "salto" mediático (como sucedeu com Old Jerusalem) que a sua música parece supor, ficará sempre a certeza de que a congruência editorial faz da Bor Land um precioso recanto onde têm o seu porto seguro algumas das fantasias experimentalistas mais originais da música que se faz por cá. Estão aí mais dois exemplos que, com premissas estruturais radicalmente diferentes (o acústico celestial de Norberto Lobo em oposição ao eléctrico libidinoso dos Lobster), certificam as vistas largas da editora e nos mostram dois caminhos alternativos para excitar os tímpanos.

Norberto Lobo é um lisboeta que a Bor Land apresenta ao mundo editorial com este Mudar de Bina. Sem ornamentos de estúdio além daqueles estritamente necessários para ambientar as texturas da guitarra clássica, o álbum desvenda sobretudo a intimidade e a alma de música genuinamente pessoal, quase individualista. Trata-se, de facto, de um exercício sem suporte para o guitarrista, apenas ele, o instrumento e a música. Trazida assim a primeiríssimo plano a vitalidade das estruturas harmónicas, dos arpejos e das melodias (porque são elas, afinal, o esteio disto tudo), percebe-se que, mais do que ser apenas uma manifestação dos esperados sentimentalismos individuais e contemplações que normalmente "poluem" este tipo de obras, o disco é também uma agradável surpresa pelo desembaraço com que sugere outros planos de emoção mais extrovertidos, menos pessoais e mais abertos. Essa dinâmica no pendor emocional das composições, ora fechadas e "egoístas", ora coloridas e contagiantes, afasta o preconceito previamente engatilhado de que música feita apenas de guitarra não é de consumo fácil. Norberto Lobo prova-nos o contrário. Se isso não chegar para convencer os mais resistentes, há ainda outro desafio em Mudar de Bina: descobrir como tão bem se conjugam as linguagens da tradição (a relembrar os legados de John Fahey ou Robbie Basho) e do popular (há aqui duas revisões de canções do povo) com um gracioso traço de modernidade.

A capa do disco dos Lobster desmonta qualquer ilusão: a música de Guilherme Canhão (guitarra) e Ricardo Martins (bateria) não é para meninos de coro. Deles se conhecia o estilo incendiário com que tomaram alguns palcos por aí e que agora tem descendência em disco. Desenganem-se aqueles que imediatamente associam Guilherme Canhão à placidez e aos ambientes canónicos do pós-rock de '86, lançamento do ano transacto da netlabel Merzbau. Aqui, a guitarra surge pujante e esquizofrénica, corrosiva e disforme, cortante e hedónica. O lastro da percussão não é menos imparável, cheio de arritmias e acelerações, pausas antes da fuga em frente e muitos, muitos espasmos. Depois, o opus dos Lobster tem inúmeros parentescos formais, acolhendo caoticamente e num deleite psicadélico coordenadas de várias escolas rock (com mais ou menos peso), do punk aliterante e urgente, do noise ácido ou da ordenação artística do math rock e, claro, doses espessas das energias próprias deste duo. Sexually Transmitted Electricity é um pungente ataque aos tímpanos - porque é "doloroso" e não se absorve imediatamente - e um quebra-cabeças. Mas não deixa a recompensa por dar. Enfim, um abanão musical tão intenso e incitante que faz lembrar (com quase o mesmo resultado final) aquelas estaladas de fêmea despeitada que, as mais das vezes, acabam redimidas debaixo dos lençóis. Sem queixas dos efeitos secundários, o último dos Lobster é um potente orgasmo eléctrico.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

To Rococo Rot - abc123




Tendo sido, desde as primícias, definido objectivamente pelos seus integrantes como um conceito artístico à procura de explorar as múltiplas potencialidades multimédia e demais dimensões "visuais" do produto musical e suas convergências com outras artes digitais, o trio berlinense To Rococo Rot acabou por assumir-se como um dos vectores pioneiros do experimentalismo electrónico contemporâneo na Europa. Pegando em derivações mais ou menos transparentes da face mais "robotizada" do krautrock clássico e em inúmeros estímulos do pós-rock e das escolas menos formais da música electrónica e moldando-os numa filosofia devota da abstracção transgressora de barreiras estéticas, Stefan Schneider e os irmãos Robert e Ronald Lippok (mais tarde, este viria a criar descendências com o projecto Tarwater) ergueram uma discografia vedada às convenções e, sobretudo, marcada pela "intelectualização" (no bom sentido) das construções. Disco após disco, os To Rococo Rot afinaram uma álgebra própria, muito próxima dos recortes cíclicos de uns Tortoise (a comparação está gasta...), com interessantíssimos encadeamentos de filigrana digital da melhor estirpe e samples analógicos adulterados. Ao escutar este abc123 (um mini-álbum de oito faixas em vinte minutos), três anos volvidos desde o último trabalho do trio, percebe-se que o filão está longe da lassidão, mesmo que as peças do alinhamento praticamente prescindam dos típicos ingredientes analógicos (restou apenas um sintetizador Yamaha Vss30). A primazia pelo digital parece ter devolvido os To Rococo Rot ao seu mais fino substrato de criatividade e isso são óptimas notícias para aqueles melómanos que apreciam a arte-experiência e música electrónica que desafia o cérebro.

Posto de escuta Sítio da 7digital

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Jens Lekman - Night Falls Over Kortedala

8/10
Secretly Canadian
Flur
2007
www.jenslekman.com



Tendo conhecido um arranque algo irresoluto (começou a tocar e compor a convite de amigos), com edições avulsas e um pseudónimo (Rocky Dennis) pelo meio, o sueco Jens Lekman não parecia voluntariamente destinado ao estrelato no meio musical. Ainda assim, as primeiras impressões do quinteto de EP's que antecederam o primeiro registo a solo (depois confirmadas em When I Said I Wanted to Be Your Dog, de 2004), deixavam já indícios de um artesão intuitivamente instruído em vários planos de uma lógica pop madura (e instrumentalmente pujante, dir-se-ia mesmo "orquestral") e longe dos vícios de simplismo estrutural tão comuns no género. O coro de encómios que se seguiu à edição do álbum - muitas vezes colocando o sueco num feliz entroncamento estético entre Rufus Wainwright, Scott Walker (dos primórdios), os Magnetic Fields e Morrissey - não foi, portanto, mais do que o reconhecimento de um compositor com pedigree. Neste segundo tomo com material original - a colecção Oh You're So Silent Jens, de 2005, era uma mera recolha de material anterior ao álbum de estreia - Lekman envolve melancolias numa embalagem sonora mais luminosa, num claro sinal do estado de maturação a que chegou a sua escrita. É notório que, mais do que apresentar apenas a sequência presumível da arte intimista do primeiro registo, o cantautor sueco testa aqui outras ambições, mormente através da injecção de charme e fulgor que os arranjos emprestam às melodias. Depois, Night Falls Over Kortedala encerra um mérito raro: da pomposa mescla de estilos, ao invés de qualquer ressalto incongruente, sobra afinal a sensação de uma escrita genuinamente coerente e dinâmica. Sem euforias desmedidas ou cedências ao facilitismo, Lekman sublinha as suas próprias convicções (aqui e ali, com a ajuda da conterrânea Sarah Assbring, aka El Perro Del Mar) e põe à prova um ideário de música pop que, além de se revelar tremendamente cativante, sai aprovado com a distinção de um belo disco.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Diálogos Atípicos

O primeiro avanço para o novo (e quinto) disco de Scout Nibblet (This Fool Can Die Now) é demonstrativo de como a melancolia (e a tomada de consciência da perda e da ausência) pode ser pano de fundo para uma melodia simples e bem construída. Nesta canção, a voz de companhia, num diálogo surrealista entre a protagonista e uma personificação da morte (coisa que repesca o imaginário de O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman), é Will Oldham (ele dá a sua voz a mais três temas no álbum). Não é à toa que esta inglesa tem sido considerada o reflexo britânico de Cat Power; aqui, são notórias as referências aos momentos mais taciturnos da americana. E também se expõe o lado mais sereno de Nibblet, por oposição à escrita mais acerba que desvenda noutras composições.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Sean Riley & The Slowriders - Farewell

7/10
Lux/NorteSul
2007
www.myspace.com/
seanrileymusic



Depois de um longo período em que imperou uma lógica quase caciquista na música portuguesa (escondida atrás de uma pretensa defesa da língua pátria) e em que os regentes editoriais torciam o nariz a quase tudo o que fosse cantado em inglês, os últimos anos vêm comprovando a inutilidade dessa obstinação nacionalista e assistimos a um furor de lançamentos a que não estávamos habituados e que, paulatinamente, inundou o mercado nacional de projectos musicais não cantados em português. No meio disto tudo, porque parece ter-se passado do oito aos oitenta (coisa típica da nossa patológica condição de adeptos de extremos), importará separar o trigo do joio no exagero de lançamentos desta vaga moderna da música portuguesa. Nesse particular, a cidade de Coimbra - de onde vêm estes Sean Riley & The Slowriders - tem sido berço de alguns dos acasos mais felizes, como os Bunnyranch, os Wray Gunn (e o descendente Legendary Tiger Man, de Paulo Furtado) ou os d3ö. Chega-nos agora este Farewell, primeira aventura discográfica de um trio de músicos que, tendo surpreendido públicos locais, promete não passar despercebida a outras audiências.

Os argumentos musicais de Farewell são uma mistura de tempos e cosmos, ora buscam substratos da América profunda dos cantautores, da folk radicada nas heranças incontornáveis de Tim Buckley ou Leonard Cohen, ora se rendem às essências mais recentes dos efluentes do património blues (leia-se Mark Lanegan ou Howe Gelb) e, mais tangencialmente, à weird folk de Devendra Banhart. São, sobretudo, canções sem presunção e subjacentes à sobriedade acústica que melhor lhes convém, valendo-se das superlativas melodias da voz enleante de Sean Riley (o rapaz canta com as certezas de um veterano!) e do belíssimo acompanhamento instrumental de Bruno Simões (baixo e percussões) e do ex-Bunnyranch Filipe Costa (teclas, harmónica e bateria). Farewell pode não ter canções para tirar o mundo dos eixos, provavelmente nem chegará a ser motivo para sacudir as consciências (ou mover coordenadas) do definhado panorama do songwriting em Portugal mas é seguro que desvenda uma das mais interessantes revelações lusas dos últimos tempos. E isso, por si só, convida a uma visita.

Posto de escuta Sítio da MúsicaOnline

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Dave Gahan - Hourglass

7/10
Virgin
2007
www.davegahan.com



Ninguém discordará da influência decisiva dos Depeche Mode no alargamento da expressão mediática da electrónica pop, mormente a partir da segunda metade da década de oitenta, depois do pioneiro trabalho de sapa de gente ilustre como os germânicos Kraftwerk que, uns anos antes, abriram mentalidades e deram corpo a uma matriz sintética de fazer música. Na mesma medida, é difícil imaginar os Depeche Mode a desbravar terreno nos principais mercados e canais de distribuição sem a voz carismática e assombrada de David Gahan, o melhor complemento para os espaços de espiritualidade negra e alguma descrença da escrita de Martin L. Gore. Seria, de resto, essa feição espectral e subliminarmente sombria do canto de Gahan a influenciar inúmeras descendências, directas e indirectas, tanto no cosmos electrónico como, a outros níveis, no farto orbe rock. A estreia a solo de Gahan surgiria depois do renascimento dos Depeche Mode que, posteriormente à edição de Ultra (1997), assistiram à rápida degradação pessoal de Gahan (com drogas e um suicídio tentado pelo meio) e à iminência do fim de actividades da banda. Paper Monsters foi escrito, em parte, durante a reabilitação de Gahan mas seria apenas editado em 2003, já depois da retoma dos Depeche Mode. Estruturalmente pouco distante das molduras sonoras dos Depeche Mode, o registo mostrava competências de composição de Gahan (até então um recurso inexplorado nos Depeche Mode) e serviu, sobretudo, como exercício de catarse mental em electrónicas atmosféricas, ora servidas em baladas, ora moldadas com revestimentos rock.

Quatro anos depois, Hourglass vem mostrar que a aventura de escrever canções em nome próprio não foi episódio isolado de Gahan e, mais do que isso, o músico britânico dá aqui provas de um efectivo crescimento enquanto compositor. Mais electrónico do que o antecessor, o álbum desvenda um esquizofrénico jogo de texturas em volta da identidade sombria mais confortável a Gahan. No fundo, Hourglass abeira-se mais do legado Depeche Mode, embora estas canções subsistam sem a inevitabilidade de um refrão orelhudo - coisa típica nas composições de Martin L. Gore para os DM. Trata-se, acima de tudo, de um disco redentor, fruto de uma alma resgatada de um poço de decadências, ciente das suas máculas e com ânimo para olhar em frente. Ao mesmo tempo, ironia das ironias, Dave Gahan revela, do lado de fora da casa Depeche Mode, que a escrita dele também cabe lá dentro. Falta saber se Martin L. Gore acha piada ao remoque.

domingo, 21 de outubro de 2007

Burnt Friedman - First Night Forever

7/10
Nonplace
Flur
2007
www.burntfriedman.com



Há quem diga que Burnt Friedman é um workaholic verdadeiramente obcecado pela produção de música. A verdade é que este prolífico germânico vem construindo, desde os finais da década de noventa, um interessantíssimo catálogo, tanto a título pessoal como ao lado de Atom Heart, no projecto Flanger. Mais recentemente dividiu o espaço criativo do aclamado colectivo Nine Horses com gente como David Sylvian e Steve Jansen, aí desenvolvendo alguma proximidade com estruturas mais convencionais de canção, por oposição ao cancioneiro mais "espacial" e difuso do jazz de vanguarda dos Flanger ou aos pilares de especulação dub que são os seus discos a solo. Essas raízes rítmicas (e electrónicas) estão presentes neste First Night Forever, onde sobressai menos o inevitável substrato dub e surge um revestimento que se diria importado das tendências soul mais modernas. E para melhor se mexer nesses ambientes, nada melhor do que convocar os favores vocais de quem dá cartas na matéria. O australiano Steve Spacek, luminária incontornável da electro-soul hodierna, está cá e, além dele, aparecem outros ajudantes: Enik, voz convidada em trabalhos dos extintos Funkstörung, duas vozes emergentes da música alemã - a cantora Barbara Panther (com álbum próprio à porta..) e Daniel Dodd-Ellis - e Theo Altenberg, um multifacetado artista berlinense que, com um registo vocal entre os graves cavos e roucos de Tom Waits e as inflamações hedonistas de James Brown, dá ao disco os momentos mais arrebatados.

No resto, First Night Forever é matéria típica de Friedman: batidas habilmente manipuladas em torno de uma curiosa mescla entre elementos acústicos (cordas e metais) e sintéticos, a proporção equilibrada na justaposição das várias camadas e estilos e, sobretudo, uma arrumação de ideias irrepreensível. "Chaos Breeds", trecho que fecha o álbum (é também a faixa de maior extensão), é exemplo paradigmático das inúmeras sugestões estéticas do novo opus de Friedman e de algumas reciclagens que ele impôs à sua cartilha de início de carreira. Em virtude disso, First Night Forever é testemunho de um espírito que não dorme sob os louros do passado. E que é capaz de reinventar as suas magias e nos dar um dos seus melhores trabalhos dos últimos tempos.

Posto de escuta Sítio Oficial

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Einstürzende Neubauten - Alles Wieder Offen

8/10
Potomak
2007
www.neubauten.org



Pode não parecer mas a verdade é que estes senhores berlinenses já andam nisto há quase três décadas. Eles foram actores principais no advento da música industrial na Europa, não apenas pelo simbolismo artístico-performativo dos seus espectáculos - pormenor que rapidamente os distinguiu dos seus pares geracionais - mas, sobretudo, pelos condicionalismos estruturais da música que vêm subscrevendo desde então, o que lhes permitiu pôr de pé uma discografia de ímpar consistência. A evocação da teatralidade da música, o encanto pelo experimentalismo, a vocação puramente artística, as afinidades com o improviso como berço de ideias e uma predisposição irónica para desmontar qualquer preconceito estético fizeram dos Einstürzende Neubauten um dos ensembles com maior culto nas esferas alternativas europeias e, simultaneamente, distinguiram Blixa Bargeld e compinchas como ícones da sobrevivência num habitat rock bem longe dos canais dominantes do mainstream. Banda de culto, é o epíteto que costuma colar-se a estas gentes.

O facto de Alles Wieder Offen ("novamente tudo aberto") ter sido inteiramente financiado por seguidores da banda através de uma colecta de fundos lançada no sítio oficial do grupo teutónico é sintomático do desencanto dos EN face ao mercado editorial e da importância dos novos canais de comunicação para fazer chegar aos fãs a música menos divulgada nos grandes mercados (vide última edição dos Radiohead). De resto, este álbum é o corolário de uma extensa série de gravações que a banda dedicou em exclusivo aos adeptos registados no seu sítio, reforçando uma proximidade entre músicos/ouvintes que nenhum outro formato editorial permite. Nesse particular, a banda "abriu" o estúdio aos fãs, disponibilizando imagens de webcam das gravações e deu-se à interactividade com os internautas em conversações online. Visto por este prisma, o novo opus dos Einstürzende Neubauten não podia ter melhor baptismo; trata-se, de facto, de um segundo preâmbulo da banda, especialmente voltada para si mesma e para a convergência com as massas críticas de suporte. E torna-se evidente neste Alles Wieder Offen, do ponto de vista da definição técnica do disco, uma flexibilização da matriz sonora das composições (naquilo que pode ser visto como um reflexo natural das inúmeras horas de sessões de improvisação que antecederam a gravação do disco) e um desprendimento temático, em contraponto com a rigidez (técnica e conceptual) de Perpetuum Mobile, editado pela Mute há três anos. No fundo, os Einstürzende Neubauten não tentam revolucionar o seu próprio cosmos - seria difícil fazê-lo de forma credível ao fim de tanto tempo - tampouco de o desmistificar dos seus enigmas; aquilo que Alles Wieder Offen nos mostra é uma banda com uma incrível capacidade regenerativa e que, mesmo prescindindo de parte importante da crua sedição de há uns anos (crescimento consciente, dir-se-ia...), soa tão cativante e catártica como sempre. Um regresso de mão cheia.

Posto de escuta Sítio Oficial do Disco

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A menina dança?

O novíssimo single de Roisin Murphy - segundo avanço para o mais recente registo a solo (Overpowered), editado entre nós nesta semana - tem todos os condimentos para ser o descendente directo do mediatíssimo "Sing It Back", canção que deu aos Moloko uma projecção incrível nos clubes nocturnos no final da década de noventa. A cartilha é a mesma: estrutura rítmica pulsante, sensualidade na voz e um refrão a entrar directamente no ouvido. Um convite para dançar, portanto. Fica aí o vídeo de "Let Me Know".

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Underworld - Oblivion With Bells

6/10
ATO
Edel
2007
www.underworldlive.com



Não são raros os casos de projectos musicais que, depois do impacto do aparecimento e de uma ascensão meteórica ao estrelato e aos principais circuitos de concertos do planeta (alguns, porventura, até "desalinhados" do seu conceito artístico), se vêm envolvidos na incerteza estética que deriva directamente da pressão mediática e do estatuto consagrado. Assim aconteceu com os Underworld, trio londrino sacralizado durante grande parte da década de noventa como um dos estandartes da electrónica europeia, com repercussões repetidas nos mercados discográficos. Depois de dois discos (como duo) marcados pela contingência de definir uma identidade, o impressivo testemunho de Dubnobasswithmyheadman (1993, o primeiro como trio) separou águas e distinguiu, então, Karl Hyde (voz), Rick Smith (guitarra) e Darren Emerson (electrónicas) da música de dança da época, erguendo uma identidade sonora que desvendava um jeito pioneiro de cruzar os coloridos new wave da década de oitenta com uma visão peculiar sobre as "novas" tendências do acid house, da música techno ou mesmo do dub. Nesse particular, já aí o trio vincava o cariz iconoclasta da sua música, afirmado definitivamente com Second Toughest in the Infants, três anos depois. E, aos poucos, ao lado de outros protagonistas que ajudaram a levar a electrónica aos grandes festivais europeus - gente como os conterrâneos Chemical Brothers ou Prodigy - os Underworld foram construindo uma discografia sólida que conheceu ponto alto (em termos comerciais) no single "Born Slippy", de 1999, integrado na banda sonora do filme Trainspotting.

De então para cá, a par do esfumar da efémera febre difusora da electrónica que os levara a um sucesso difícil de sustentar nesse povoado orbe, as mudanças conceptuais da música sintética acabaram por, a pouco e pouco, "marginalizar" a noção musical do trio. Além disso, a deserção em 2000 de Emerson - para muitos o propulsor da música dos Underworld - deixaria a Rick Smith e Karl Hyde o encargo custoso de assegurar a continuidade do conceito e, mais do que isso, de tentar readequá-lo a um mundo electrónico que se aprontava para o esquecer. A Hundred Days Off (2002), primeiro tomo a dois, acabou por ser o tirocínio necessário numa nova realidade, dando mostras de um fôlego renovador algo irresoluto. Assimilada com segurança a nova matriz de criação de música, Smith & Hyde revelam neste Oblivion With Bells o desejo de fazer um disco além das conjunturas do momento, olhando o passado (o seu e o de outros) e não apontando directamente para as pistas de dança. O objectivo era ambicioso (talvez demais para um banda que esteve à beira do naufrágio) e, embora a espaços o disco deixe sugestões interessantes para a sobrevivência futura dos Underworld, fica uma impressão clara: com o propósito de reunir canções que os distanciassem do património do grupo, primeiro, e da monotonia generalizada da música de dança corrente, depois, Oblivion With Bells fica perdido num estranho limbo estético entre uma coisa e outra. O que quer dizer que, mesmo tratando-se de um registo competente, nem se chega à elite electrónica de hoje, nem honra os melhores instantes da marca Underworld.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Efterklang - Parades

8/10
Leaf
Flur
2007
www.efterklang.net



Há discos (e bandas) que facilmente nos remetem, mesmo antes do apelo da "febre" rotular sobre o género musical, para uma qualquer paragem geográfica, seja por reunirem alguns fragmentos identitários próprios dos costumes de uma determinada região do planeta ou, em alternativa, mesmo não sendo oriundos desse ponto específico que sugerem subliminarmente, por trazerem em si os estímulos mentais certos para uma viagem imaginária. O som dos dinamarqueses Efterklang acaba por ser sintomático dessas duas vertentes; é música pousada na enigmática frieza escandinava, nas correntes frias do Árctico e nas aragens gélidas da montanha. Mas é também muito mais do que isso. Cenicamente sugestiva, a música do colectivo nórdico começou por apresentar-se com potencial tímido, há coisa de três anos, com o debute Tripper a conjugar tricotados pragmáticos de micro-electrónica com um senso ambiental (e hipnótico) de exorcizar melodicamente a alva austeridade da geografia. Ainda que com texturas díspares (e a evidência de um impacto mediático inferior), a micro-melancolia musicada dos Efterklang expunha, então, traços paralelos com parte das utopias dos islandeses Sigur Rós, mesmo que num registo mais conciso e minimalista.

Esse substrato de primor no detalhe, embora tenha feito dos Efterklang um dos objectos de predilecção das massas críticas (especialmente na Dinamarca), tardou a atingir proporção semelhante junto dos públicos, talvez por faltar às primícias o vigor emocional que contrabalançasse o pragmatismo técnico. Percebendo essa insuficiência, os Efterklang abriram paulatinamente a sua música a conteúdos instrumentais fora da órbita digital (as cordas e os metais, por exemplo) e somaram-lhe luminosidade e amplitude. Under Giant Trees, EP de Abril deste ano, anunciava já essa reparametrização, deixando indícios de um natural crescimento que tem agora descendência em álbum. No lugar do "academismo" minimalista do início de carreira, existe neste Parades uma escrita viva e de espírito sinfónico, algo progressiva (segundo a lógica do crescendo) e a esquivar-se de paradigmas, mas intensamente contemplativa e hipnótica. Mais do que ser um elegantíssimo passo em frente no (ainda) curto caminho de um dos mais promissores colectivos da música europeia contemporânea, o disco é uma deliciosa transgressão de fronteiras estéticas ou rótulos (baralhando também as considerações "geográficas" do início deste texto) e um exercício extraordinário do que deve ser a pop (?) abrangente e pós-modernista.

Os labirintos coloridos dos Efterklang

Já está entre nós o novíssimo álbum dos dinamarqueses Efterklang e, confirmando sinais de maturação das últimas manifestações do grupo, é um portento de bem escrever canções pop. Fica aí um exemplo, o primeiro single, "Mirador", cujo vídeo apela a uma labiríntica narrativa animada pelos mesmos motivos que ilustram o álbum.

domingo, 14 de outubro de 2007

The Fiery Furnaces - Widow City

7/10
Thrill Jockey
Dwitza
2007
www.thefieryfurnaces.com



Por esta altura, não é crível que os manos Friedberger sejam ainda surpresa para qualquer melómano atento a estas coisas dos sons mais alternativos. Afinal, eles são protagonistas de primeira linha da moderna música americana, em razão da generosa discografia que vêm erguendo em volta de um conceito musical pródigo na mescla de estilos. Apesar da indisfarçável sobreposição do rock, com interessantíssimas insinuações importadas das escalas progressivas (com qualquer coisa do kraut), a música de Matthew e Eleanor vale também pelo apurado sentido de arrumação das diversas camadas do órgão, do piano, da percussão, da guitarra e, mais notoriamente, das linhas melódicas verbalizadas por Eleanor. São, de resto, as expressões vocais que fazem o contraponto "sensato" à aparente esquizofrenia do turbilhão de instrumentais que desfilam por trás, coisa particularmente evidente neste Widow City. Os arranjos somam caos e projecção, desmontando qualquer convenção do que deve ser uma canção pop, seja por força das arritmias que aparecem no instante menos esperado, seja pela parafernália de ingredientes que se juntam à charanga, aqui e ali. Bizarria à prova de banalidade, portanto. Ainda assim, não sendo disco de consumo imediato - dificilmente sairá música superficial da sociedade destes irmãos - Widow City encerra algumas das composições mais acessíveis e enérgicas do cancioneiro Fiery Furnaces. E isso não quer dizer que a dinâmica experimentalista não more aqui. A charada é inteira e parece rebuscar os vigores de início de carreira. O que, no caso dos Friedberger, depois de um ou outro episódio mais desfocado, é um óptimo desígnio.

sábado, 13 de outubro de 2007

Radiohead - In Rainbows

6/10
Edição Digital Online
2007
www.inrainbows.com



Embora o disco só chegue fisicamente até nós na primeira semana de Dezembro, a versão "cibernética" do sétimo álbum dos Radiohead foi disponibilizada pela banda e já permite uma primeira apreciação daquele que será o núcleo duro da edição final. Por ora, uma dezena de canções - grande parte delas já conhecidas (pelo menos num estado mais ou menos embrionário) daqueles que acompanham de perto o percurso dos Radiohead ao vivo - acabam por mostrar o colectivo britânico mais à procura de dar outra exposição a algumas composições que têm acompanhado o seu percurso do que propriamente a dar-nos material "original". Claro que In Rainbows não deixa de ser um disco dos Radiohead e, nesse sentido, seria sempre um acontecimento relevante, em função da rendição generalizada da crítica a Thom Yorke e seus pares, especialmente depois da criação de verdadeiros monumentos do rock alternativo contemporâneo (casos de OK Computer, de 1997, ou Kid A, de 2000). Falta saber se o álbum está à altura dessa responsabilidade.

Marcado por uma aparente discordância estética entre as peças - coisa mais ou menos recorrente na discografia dos Radiohead - In Rainbows é , também por isso, um álbum que apetece desfiar até ao mais pequeno detalhe. Nesse particular, embora esta recolha de canções acabe por encaixar no incómodo (e injusto) protagonismo inferior de gravação de B-sides, não foram negligenciadas as causas idiossincráticas da música dos Radiohead, mesmo que apareçam com uma coesão menos conseguida. Afinal, estamos a falar de uma banda que recusou ter a sua música no iTunes precisamente por defender um sentido monolítico de álbum, por oposição à venda avulsa de faixas. É nesse aspecto que In Rainbows não sai favorecido da comparação com outros momentos Radiohead, por não ter uma narrativa aglutinadora das composições em volta de uma causa maior ou, se esse denominador comum existe, é demasiado permeável a contaminações e contrastes de estilos. Ouça-se, a título de exemplo, a desarmonia entre o fulgor beat de "15 Step" e o galope quase stoner-grunge-rock de "Bodysnatchers". E o dilema prossegue: a balada acústica "Nude", a "clássica" indie "Weird Fishes/Arpeggi", a escapista "All I Need", a acústica barroca "Faust Arp", a nervosa "Reckoner", o conformismo pop de "House of Cards", a excelência das estruturas de "Jigsaw Falling Into Places" e o desprendimento intimista de "Videotape". Em todo o caso, é bom ver que algumas destas canções saíram da prateleira, desde que isso não signifique um amolecimento da verve subversiva que trouxe os Radiohead ao patamar de qualidade em que estão hoje.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Wyatt & Ayers



Comicopera
7
/10
Domino
2007
www.strongcomet.com/wyatt


The Unfairground
7
/10
Tuition
2007
www.kevin-ayers.com


Ironia dos tempos, o lançamento quase coincidente dos novos discos de Kevin Ayers e Robert Wyatt, ex-membros insignes dos incontornáveis Soft Machine, quase insinua uma "reunião" casual. E se esta quase simultaneidade não concretiza aquela que seria uma óptima notícia para fãs de longa data - afinal eles não gravam nada juntos há quase três décadas! - pelo menos tem o mágico condão de nos permitir um emparelhamento imaginário de dois senhores do mundo art rock.

Dos dois, Robert Wyatt é o que vem mantendo um ritmo de edições mais certo e Comicopera é um exercício de continuidade na esteira do antecessor Cuckooland, repetindo as colaborações de Brian Eno, Phil Manzanera e Paul Weller. O jazz livre de atilhos é a luminária de um disco dividido em três actos e que não se impõe fronteiras estéticas e, bem ao jeito da sorumbática esquizofrenia de Wyatt (eventual reminiscência do passado com os Soft Machine), é um deleite experimental, num equilíbrio movediço entre cacofonia e a elegância melódica. E traz os poemas acerbos do costume, como o tímido álbum contestatário de um homem que, preso a uma cadeira de rodas há mais de vinte anos, nunca deixou que o infortúnio lhe poluísse o espírito crítico.

O regresso de Kevin Ayers tem o impacto de pôr termo ao silêncio de cerca de uma década e meia em que o músico se escondera. Feito de canções escritas sem o fito na edição, The Unfairground é um disco penetrante pelo seu pessoalismo e revelador, ao contrário do discurso "virado para fora" de Wyatt, de reflexões interiores. E é nesse intimismo que o disco surpreende, voltando costas à previsível toada de desencanto e desvendando uma sincera exaltação de relatos da vida como ela é. Aí, Ayers mostra uma voz com alguns desdobramentos emocionais e, sobretudo, nutrida com o optimismo próprio de um homem em paz com a vida. Os arranjos são altivos e estendem as canções a outras amplitudes, transformando-as de simples registos isolados de crooner em peças de pop de elite.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Beirut - The Flying Club Cup

8/10
4AD
Popstock
2007
www.beirutband.com



Poucos foram aqueles que não juntaram a sua voz ao imenso (e generalizado) panegírico com que foi recebido Gulag Orkestar, disco de estreia do norte-americano Zach Condon (o homem por detrás do conceito Beirut), editado no ano transacto. A inopinada ascensão do prodigioso cantor/compositor/multi-instrumentista simbolizou, afinal, o exemplo acabado de como é possível emergir, do (muitas vezes) impermeável universo indie, um talento (mesmo que muito jovem - à data do debute discográfico, Condon tinha dezanove anos!) de dimensão maior. Mais curioso do que esse facto, foi perceber-se que música assim "atípica" - porque não estruturalmente compaginável com os padrões pop - também pode trepar vedações e afirmar-se nos palcos mainstream. Claro que o mérito deve ser imputado à graciosidade da escrita de Condon, à sua voz ímpar e à magnífica interpretação do que deve ser uma canção em todas as suas dimensões: melodia, palavra com ritmo (não tanto pelo conteúdo lírico) e arranjos. A essas traves-mestras promissoras e tão sabiamente postas ao serviço de um jeito especulador (porque experimental) de escrever canções, Condon somou, então, a admiração pelos folclores gitanos dos Balcãs, pormenor que o emparelhou com os conterrâneos DeVotchKa, pelo menos enquanto cultor da world music e das imensas potencialidades rítmicas da miscigenação com a folk tradicional americana.

Essa admiração por sons de além-fronteiras tem continuação lógica neste The Flying Club Cup, maioritariamente escrito em França (para onde o músico se mudou por uma temporada) e, por isso, influenciado pelo clássico glamour da chanson française à Jacques Brel (esqueça-se por momentos que ele até era belga!), mas sem prescindir dos metais "balcânicos", dos acordeões e dos esplendorosos arranjos (aqui são responsabilidade de Owen Pallett, do projecto Final Fantasy). A oportuníssima charanga de Gulag Orckestar não foi obra do acaso e, mais do que isso, demonstra agora o acerto de coordenadas e a redefinição estética própria da maturação de conceitos. E era mesmo isso que faltava às canções de Zach Condon para se imporem definitivamente como produtos artísticos de primeira água, simples nos processos e irresistivelmente amplas nos enlaces e na envolvência dos sons. Enfim, é esta a fibra de Beirut, uma assinatura pouco reverente a cânones e, sobretudo, excitada no prazer da descoberta. E pela mão de Zach Condon sabe muito bem descobrir a magia da melhor filigrana indie pop do ano.

Posto de escuta Sítio da 7digital

domingo, 7 de outubro de 2007

Clã - Cintura

6/10
EMI Portugal
2007
www.cla.pt



Com uma identidade sonora erguida, em pezinhos de lã, em volta das várias famílias linguísticas da pop - num percurso que, aqui e ali, tentou incursões por formas de expressão alternativas - os Clã chegam ao quinto registo de estúdio como a mais firme força do presente panorama pop nacional. Esse amadurecimento gradual de processos teve zénite generalizadamente reconhecido em Rosa Carne (2004), obra magna na consistente discografia da banda e testemunho inequívoco de duas realidades inseparáveis de Manuela Azevedo, Hélder Gonçalves e seus pares: a rara sensibilidade para convocar estilos melódicos variados e, sobretudo, a percepção de quão importante é juntar a essas melodias o manejo competente da língua portuguesa. Nesse particular, os Clã vêm contando com poemas de gente cuja caneta vale ouro, como Carlos Tê, Arnaldo Antunes ou Sérgio Godinho.

Cintura traz o ónus de ser o capítulo seguinte de um álbum tão completo quanto Rosa Carne e, se comparado com este, desvenda fórmulas e estruturas mais leves (ou menos amplas), numa orgânica que, nunca prescindindo da excelência dos arranjos (afinal, esse é um dos traços característicos dos Clã), se revela mais aberta e imediata. É aí que Cintura se mostra luminoso, é certo, mas acaba por resvalar, mormente na segunda metade do alinhamento (depois de um promissor quarteto de abertura com "Vamos Esta Noite", "Adeus Amor (Bye, Bye)", "Tira e Teima" e "Fábrica de Amores"), para uma mediania que os arranjos não chegam a disfarçar. É que, com Rosa Carne, eles habituaram-nos a esperar mais.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Os Sigur Rós em casa

O regresso dos islandeses Sigur Rós acontecerá ainda neste Outono e com um projecto ambicioso. Além do novo álbum, baptizado Hvarf-Heim, a banda vai aventurar-se nas edições vídeo, com o lançamento de Heim. Segundo informações divulgadas no MySpace do ensemble escandinavo, o filme cobrirá não apenas os vulgares excertos de actuações da última digressão dos Sigur Rós, mas mostrá-los-á em moldes próximos do formato documentário, a mostrar a banda "por dentro". Mais pormenores sobre o filme, podem ser consultados aqui. Fica o trailer de apresentação. Venha o álbum também.


quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Fink - Distance and Time

8/10
Ninja Tune
2007
www.finkworld.co.uk



Se não é surpreendente que apareçam na cena musical, de forma repetida, imensos casos de intérpretes que fazem derivar a sua estética de eleição entre várias possibilidades formais de escrever música, assim afirmando a miscigenação de géneros - o que, muitas vezes, dá origem a novas famílias de som - já não é tão comum que o mesmo músico seja capaz de interromper anos de fidelidade a um determinado estilo, para ensaiar um novo "começo" de percurso numa onda completamente diferente. Pois, foi exactamente isso que sucedeu com o britânico Finian Greenhall, o homem por detrás de Fink, que, depois de ter firmado uma marca segura no universo electrónico do trip hop ambiental, testemunhada num par de EP's e um longa-duração (Fresh Produce, de 2000), se tornou num cantautor acústico.

Biscuits For Breakfast, do ano transacto, pôs termo a um longo interregno sem gravações e foi o primeiro manifesto da metamorfose estética de Fink, apostando, sobretudo, em canções com uma orgânica assente no esqueletal trio guitarra/baixo/bateria. A canção quente na canção nua, despida de artifícios e manobras de diversão, a buscar as chagas negras de amores perdidos e os brilhos claros das sensações de resguardo, assim é o propósito deste Distance and Time, como era do antecessor, ainda que aqui se perceba a natural depuração da fórmula, a multiplicar construções sobre as traves seguras do debute discográfico, uma óptima resposta face ao desafio sempre custoso do segundo álbum. O resultado é música de elegante leveza acústica mas com o insustentável peso de trazer emoção nas cordas (aí, dir-se-ia que estas canções são sublimemente pessoais) e de a envolver, atrás da pele de simples trova de folk urbana, numa série de magnetismos orbitais, sejam eles da mais fina soul ou das hipnoses tímidas do dub. Afinal, a cultura de clube também serve à música acústica. E quem melhor do que Fink para a concretizar com garbo?

Posto de escuta Sítio da 7digital

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Iron & Wine - The Shepherd's Dog

8/10
Sub Pop
2007
www.ironandwine.com



Sendo quase unanimemente reconhecido, desde o início do seu percurso, como um dos mais finos herdeiros das tradições "clássicas" da música americana (pelo menos, enquanto invenção solitária para voz e guitarra), Sam Beam construiu, atrás do nome Iron & Wine, uma discografia reveladora de um salutar engenho para crescer em volta desse entendimento minimalista da folk. Vistas por esse prisma, parecem distantes no tempo (e no conceito) as gravações caseiras de The Creek Drank the Cradle (2002), título com que se apresentou ao mundo musical e que era reflexo, acima de tudo, de uma extraordinária capacidade para interpretar, com o intimismo exigido, os códigos genéticos mais profundos da musicalidade americana. O sucessor, Our Endless Numbered Days, lançado dois anos depois, mostrava já uma estética mais madura e própria da "profissionalização", embora ainda muito centrada no formato voz-guitarra. De resto, esse paradigma seria apenas sacudido no mini-álbum conjunto com os Calexico, In the Reins (2005); a colaboração somou ao universo Beam as dimensões instrumentais de um trabalho de banda, afastando-se da identidade minimalista que Beam havia erguido.

The Shepherd's Dog segue essa tendência natural de crescimento e, não perdendo o núcleo vital da escrita de Beam, desvenda uma estruturação orgânica bem longe do minimalismo de outros discos. Aqui, em contraste com a tradicional dualidade voz-guitarra, cabe um corpo completo de instrumentistas com pianos, guitarras, percussões, acordeões, órgãos, harmónicas e xilofones. Daí decorre um som mais espesso - o que não quer dizer que seja menos melancólico - e, sobretudo, mais expansivo. A par dessa reformatação orgânica, há também algumas derivações estéticas muito curiosas (que funcionam como preciosas achegas anti-estagnação), como a espontaneidade quase africana da magnífica (e inesperada) "House by the Sea", a invenção reggae de "Wolves (Song of the Shepherd's Dog)" ou o acaso rock'n'roll de "The Devil Never Sleeps". Em tudo o mais, The Shepherd's Dog é um puro Iron & Wine. O que, nos dias de hoje, é sinónimo de música que, crescendo instrumentalmente, não foi contaminada na sua natureza essencial. Única diferença: aquele Sam Beam que, sozinho no quarto, esboçou as primeiras canções de Iron & Wine, agora tem a companhia de amigos. Venham mais cinco...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Guerras de paredes vazias

Reconhecido como um dos activistas apolíticos mais acesos do orbe rock contemporâneo - tendo inclusivamente fundado o movimento Axis of Justice, com o guitarrista Tom Morello - Serj Tankian (vocalista dos mediáticos System of a Down) apresta-se para editar, em finais de Outubro, o seu primeiro trabalho a solo, Elect the Dead. Depois de um primeiro avanço pouco prometedor ("Unthinking Majority"), chega-nos o segundo cartão de visita do longa-duração. "Empty Walls", canção urdida em volta do ideário típico que serve de moldura aos SOAD, vem com um vídeo-clip que faz um polémico (e sempre actual) metaforismo sobre a inanidade dos conflitos bélicos.