quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Joni Mitchell - Shine

5/10
Hear Music
2007
www.jonimitchell.com



Depois de uma longuíssima ausência (na altura, anunciada como uma retirada em acerbo desapontamento com a indústria discográfica) de quase uma década sem gravações - o último registo gravado, Taming the Tiger, é de 1998 - a canadiana Joni Mitchell é trazida de novo à ribalta pela mão da Hear Music. O crescimento da editora subsidiária da cadeia de cafés Starbucks - além de Mitchell, o "plantel" conta com outros veteranos consagrados, casos de Paul McCartney, Bob Dylan e Willie Nelson, por exemplo - é caso paradigmático do peso actual dos nichos "independentes" do mercado norte-americano e da emancipação de um conceito de edição musical adaptado às exigências da geração digital e, sobretudo, autónomo dos canais de distribuição das majors. Terá sido esse, de resto, o melhor pretexto para convencer uma Joni Mitchell cansada das editoras a desistir da deserção que anunciara em 2002. Assegurada essa autonomia face ao "inimigo" - o que, em paralelo, até serviria como uma espécie de desforra justiceira para Mitchell (embora as diferenças na filosofia mercantilista entre uma grande editora e uma empresa multinacional não sejam óbvias) - importaria perceber se o distanciamento de anos não tolheu a verve de uma das cantautoras-ícone da década de 70.

Sem rodeios: a voz não tem, nem poderia ter, o mesmo brilho de outros tempos. Shine mostra-nos um registo vocal competente, é certo, mas (muito) longe da cativante ductilidade e da chama entusiasta de outrora, antes revelando uma voz "poluída" e algo cansada - basta comparar a revisão de "Big Yellow Taxi" de agora com a original, de 1970. Depois, em termos orgânicos, o disco parece envolto na indefinição identitária que caracterizou o percurso da cantora, depois da aclamação como trovadora na década de 70. À inequívoca perda de peso mediático de então - o que a afastou dos grandes públicos que conquistara - juntou-se a afirmação das electrónicas da década de 80, um óbice para o som genuinamente acústico de Mitchell. A década de noventa tentou sanar esses prejuízos à custa de um refinamento pseudo-elitista - dir-se-ia próximo das órbitas do jazz-canção - que tem, agora, o seguimento natural. Liricamente ou musicalmente, Shine soma pouco mais do que trivialidades ao catálogo de Joni Mitchell confirmando que, como é natural numa carreira com mais de três décadas, o caminho para os mais inspirados momentos faz-se recuando no tempo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

José González - In Our Nature

7/10
Peacefrog
2007
www.jose-gonzalez.com



Sueco com raízes parentais na Argentina, José González conseguiu projecção além-fronteiras, há dois anos, com o mesmo disco que, um par de anos antes, o havia consagrado na sua terra natal. Veneer surgiu, então, como um verdadeiro manifesto de preito às virtudes da música acústica, assim provando as potencialidades comerciais de um conceito pop distante dos artifícios de estudo e cosméticas próprias dos grandes mercados. Reduzir canções ao cerne primário da combinação voz/guitarra - no padrão de González também com a ajuda de uma discreta comitiva de percussões - é um exercício arriscado porque, na ausência de adornos e com o consequente minimalismo estrutural, as melodias devem ser pensadas para uma exposição crua e despida.

Nesse particular, a música acústica é uma faca de dois gumes: ou as composições vencem as delicadas exigências desse formato mínimo, assim se afirmando como canções de méritos artísticos sem discussão (porque dispensam enfeites de qualquer espécie e valem por si mesmas); ou, por oposição, falham quando chamadas a mostrar-se na essência mais esqueletal. In Our Nature, segundo álbum de González, está no primeiro desses pólos definidores. Tal como no antecessor, as peças são uma afirmação de identidade: González é, de facto, o trovador moderno por excelência, o tímido realista das emoções cantadas ao ouvido. "Down the Line", "Killing For Love" e "Teardrop" (revisão do clássico dos Massive Attack) formam a tríade de pedras angulares de um edifício de sons que, não sendo tão estimulante quanto o primeiro (talvez por ter-se esvaziado o efeito surpresa), conserva os feitiços de afinidade com o ouvinte. Intimismo é o sinónimo.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Múm - Go Go Smear the Poison Ivy




Quando os islandeses Múm (ou, se preferirmos o grafismo dos discos, múm) se estrearam nas lides discográficas, há sete anos, revelando a ambivalência estética de um conceito electrónico que combinava a complexidade estrutural da IDM e do glitch - aí colhendo, embora em cadências mais lentas, ensinamentos de Autechre ou de Aphex Twin - com inteligentes fragmentos de pura delicadeza melódica (sublinhados pelas vocalizações casuais), poucos deixaram de se render. De então para cá e até este álbum, a definição musical do quarteto não se desviou desse pressuposto de fazer da "micro-electrónica" (por inerência do detalhismo orgânico das peças) o esteio de conteúdos que são pop - porque apelam a estímulos imediatas do ouvinte - sem o serem formalmente - porque trazem revestimentos algo complexos - mas que, acima disso, articulam o escapismo e hipnose de um conto de fadas com a erudição e complexidade da música "cerebral". Por isso, cada disco dos Múm era um esfíngico labirinto de sons a sugerir duas dimensões: ora estimulavam pelo impressionismo, agarrando o ouvinte pelo cérebro, ora encantavam pela fábula, trazendo a primeiro plano utopias de criança.

Go Go Smear the Poison Ivy, quinto registo de estúdio, convoca os mesmíssimos postulados de complexidade estrutural e de conceito formal - o que, por si só, enquanto indício de uma certa resistência à inovação, não seria bom prenúncio. Pior do que isso, o álbum foi criado sob um condicionalismo decisivo para o esvaziamento das fantasias características dos Múm: a indisfarçável ausência do canto de menina sonhadora de Kristín Anna Valtýsdóttir. A omissão dessa substância intrínseca à magia habitual dos Múm (e a consequente substituição por vozes dos dois géneros), não sendo um desfalque irreparável, atirou o som do grupo para um espaço de alguma indefinição, à procura do enlace certo entre ciências electrónicas e vozes mais "adultas". A coisa nem sempre resulta tão bem como na espacial "Dancing Behind My Eyelids" mas, ainda assim, o álbum tem algumas coisas boas, atrás de dois pecadilhos: não foram aproveitadas as mudanças no alinhamento da banda para dar ao som dos Múm a transformação que urgia fazer e, a outro nível, parece difícil imaginá-los nesta mistura sem a voz de Valtýsdóttir. O disco é coisa apenas para seguidores, portanto.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

PJ Harvey - White Chalk

8/10
Island
2007
www.pjharvey.net



Embora as primeiras audições deste White Chalk indiciem uma sonoridade bem diferente, seguindo a onda de rumores que antecipou este disco como uma espécie de viragem anatemática de Polly Jean Harvey em relação ao passado de diva do rock independente, a verdade é que, decifradas as entranhas do oitavo álbum da compositora britânica, se percebe que a mudança é apenas um subterfúgio formal. É verdade que, no lugar das canções agitadas pelas guitarras e pela voz crua - coisas absolutamente emblemáticas do percurso de Harvey - surgem agora composições isentas de electricidade e voltadas, sobretudo, para o intimismo.

As mãos de Harvey esculpem no piano (o instrumento maior do disco) a delicada raiz melódica das canções, quase ao jeito de uma confissão resignada (por oposição à animosidade e sedição de outros momentos) que, a despeito de lograr alma bastante para ter expressão de per si, ganha outra amplitude graças aos celestiais arranjos (cortesia da mágica alquimia de John Parrish) e, surpresa maior, ao impacto vocal de Harvey, aqui capaz de desdobramentos em tons mais altos do que os que conhecemos antes. Essa elasticidade vocal reforça a "espiritualidade" e o personalismo do disco e, en passant, qual comovente eufonia de sereia sombria, seduz-nos para um tenso refúgio de desolações alvas, onde a rebelião dos indomáveis (como o sangue de PJ Harvey) se faz numa vogante dança de espectros. Tranquilize-se o espírito. A melancolia não é mera retórica. White Chalk mostra que, afinal, ela pode ser apenas a rebeldia a olhar para dentro de si e a aceitar os fantasmas.

Posto de escuta Sítio da 7digital

Ecce Homo

Duas sugestões para uma boa contextualização dos valores humanistas. Por um lado, as incongruências identitárias da espécie humana, a claustrofobia esquizofrénica de si mesmo, no novo vídeo dos Liars. A outro nível, a desdramatização do bizarro enquanto aceitação da diferença. É a sugestão dos Animal Collective.


Liars "Plaster Casts of Everything"



Animal Collective "Peacebone"

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Pekos & Yoro Diallo

8/10
Yaala Yaala/Drag City
AnAnAnA
2007
www.dragcity.com



Por mais selectivos que sejamos, a cada dia somos insistentemente bombardeados pelas massivas doses de informação veiculadas pelos chamados "canais oficiais". A despeito da serventia dessa comunicação, muitas vezes discutível - pelo menos do ponto de vista das motivações mercantilistas que lhes podem estar subjacentes - é normal que, a todos os níveis, escapem produtos valiosos ao "olho" dominador dos mercados. Felizmente, mesmo no orbe musical, nem todos os espíritos se rendem a essa visão necessariamente limitada e à correspondente cultura de conformismo das linguagens dominantes e partem à busca de artes deixadas à margem.

Foi com esse alento peregrino que Jack Carneal, admirador confesso da música feita no Mali, se mudou de armas e bagagens para essa república da África Ocidental; e veio a descobrir que, além das mediáticas criações de gente ilustre como Toumani Diabaté, Oumou Sangare, Ali Farka Touré ou Salif Keita - os "monstros" de exportação da música maliana - há um submundo musical nos caminhos pobres, longe das técnicas e revestimentos dos estúdios. Pekos & Yoro Diallo é música feita para embalar gentes passadiças e mercados de rua, com instrumentos (os ngonis electrizados, a percussão tribalista e a voz cavernosa) e ritmos de ocasião, e o dinamismo próprio do mais genuíno dos exercícios de "improviso". Tudo gravado com impolidez em rústicas cassetes perdidas no tempo, agora compiladas pelo selo Yaala Yaala (criado por Carneal para estas revelações). E a descoberta, não obstante o ingénuo repicar das "composições", desvenda tanta paixão, fruição e pureza que não pode deixar de ser considerado um achado imprescindível e uma preciosa extensão ao cancioneiro maliano mais conhecido dos melómanos do setentrião. O filão do Mali não se esgota naqueles que, "sustentados" pelas máquinas editoriais, se tornaram os ícones consagrados. Vivas a Jack Carneal por nos lembrar isso!

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Vertigens civilizacionais

O teledisco para o segundo avanço - sugestivamente baptizado como "Hollow Men" - do recém-editado novo disco dos britânicos Gravenhurst, The Western Lands, é um exemplo de quanto o complemento cenográfico pode trazer novas dimensões de contexto à canção como produto artístico de per si e, mais do que isso, pode oferecer outra saliência à mensagem que ela veicula.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Murcof - Cosmos

6/10
Leaf
2007
www.murcof.com



Conhecendo-se o passado de Fernando Corona e sabendo-se que este terceiro disco do mexicano teve como premissas inspiradoras algumas visitas a planetários do Velho Continente, faz todo o sentido que o título de baptismo da obra antecipe um sentido musical abertamente "cosmológico". Afinal, não é segredo para ninguém que, depois das façanhas menos notadas (pelo menos, fora do seu país) no Nortec Collective - onde, ao lado de gente célebre da electrónica mexicana, converteu a música tradicional a andamentos mais dançáveis - Corona se converteu à exploração de dimensões mais espaciais da techno minimalista. Foi assim que, como Murcof, fundou um derivado electrónico (e vanguardista) da música clássica contemporânea, não no sentido académico da expressão, antes na sua acepção mais escapista e intimista, algures entre o minimalismo orgânico e os planos espaciais de som.

E se a dupla prévia de álbuns fez doutrina dessa estética, mostrando-nos uma fusão cada vez mais depurada (e, consequentemente, um casamento com menos antagonismos) de ingredientes estruturalmente díspares, este Cosmos reforça a ideia de que estamos perante um artífice conhecedor da autoridade cenográfica da música em duas vertentes: a acústica e a sintética. E das vantagens no seu enlace, como bem se percebe no processamento das sinfonias de bolso dos instrumentos, da sua acomodação à estética espacial que norteia o disco e ao nervo aspergido pelas batidas electrónicas. De um garbo irrepreensível, ainda assim não escapando a algumas derivações mais próximas da escola ligeira do chill out, Cosmos é, sem alarido renovador, uma achega congruente à discografia de Murcof. E isso quer dizer que, mesmo tratando-se de um exercício executado em volta de um ideário que vai acusando princípios de cristalização (e, por isso, gerador de alguma monotonia), estamos perante uma combinação de sons de vanguarda suficientemente fértil para "agarrar" os seguidores mais indefectíveis.

Posto de escuta Sítio da Boomkat

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Thurston Moore - Trees Outside the Academy

7/10
Ecstatic Peace
2007
www.ecstaticpeace.com



Não deixa de ser sintomático de uma certa reafirmação artística que, depois da retoma mediática, no ano transacto, dos Sonic Youth (com Rather Ripped), um dos seus mentores tenha decidido resgatar os galões de compositor a solo. Em boa verdade, Thurston Moore não escrevia sozinho um disco de canções desde Psychic Hearts, registo com mais de uma década, embora se tenha entregado, além dos Sonic Youth, a uma série de projectos paralelos, casos dos Dim Star ou dos trabalhos instrumentais conjuntos com William Winant e Tom Surgal. Consagrado como um dos ícones improváveis do orbe indie e um eremita inquieto na hora de passar à canção as desventuras da vida, Moore encontra no espaço solitário deste Trees Outside the Academy a zona útil para sondar com mais propriedade as possibilidades acústicas da meditação. Trata-se, sobretudo, de um registo erguido em volta da guitarra acústica (nesse particular, fugindo dos paradigmas estruturais mais eléctricos dos Sonic Youth), da voz confessional, dos soberbos complementos do violino de Samara Lubelski e da percussão expedita de Steve Shelley. A estes companheiros de gravação, juntam-se as aparições pontuais de J Mascis (Dinosaur Jr.), Christina Carter (voz dos Charalambides, em "Honest James"), John Moloney (percussionista dos Sunburned Hand of the Man, em "Wonderful Witches") e Leslie Keffer, homem do ruído, a emprestar uma espécie de intermezzo breve em "Off Work".

Acústico na essência, apesar das inevitáveis presenças de fragmentos mais eléctricos, Trees Outside the Academy não é (nem terá sido pensado como tal) uma renovação de princípios; as orientações estruturais das composições são as mesmas que servem os Sonic Youth há um quarto de século e isso é, bem vistas as coisas, o melhor atestado de validade que pode fazer-se à música de Thurston Moore. E a pergunta que Moore colocava a si mesmo, aos treze anos, rusticamente registada na última faixa do disco, sobre o porquê de procurar (e gravar) sons casuais à sua volta, continua a ter réplicas impressivas hoje. Afinal, é essa verve fortuita que ainda lhe encaminha os dedos na hora de combinar acordes numa guitarra. Mesmo que ela seja acústica.

domingo, 16 de setembro de 2007

Benjamin Biolay - Trash Yéyé




Quem escuta a música de Benjamin Biolay tem algumas dificuldades, pelo menos nas primeiras audições, em associar a sensibilidade artística do compositor gaulês ao mau génio que tantas vezes lhe é atribuído (e que alguns pormenores da sua vida pessoal concretizam). Canções como as de Trash Yéyé, sexta obra de um percurso discográfico com cinco anos, não parecem fruto de uma mente isolada e separatista face ao cancioneiro tradicional da chanson française que, queira ou não admiti-lo, é a sua luminária basilar. Ainda assim, justiça lhe seja feita, Biolay ergueu para si uma identidade que não se fecha em reminiscências de Gainsbourg ou Ferré, nem teme proferi-las em tons mais negros e abraçando temáticas de recorte existencialista, as mais das vezes em volta de episódios de amores frustrados. Servidas por uma voz sussurrante e, sobretudo, por arranjos com certas derivações de talhe sinfónico, dir-se-ia que as peças de Biolay se acham num elegante registo de pop de câmara que não impede incursões oportuníssimas por outras órbitas estéticas, sejam elas do jazz formalmente ligeiro ou da electrónica (ouça-se, como exemplo, a bem dançável "Qu'est-ce que ça peut faire"). E, mérito inegável (e típico) do cantautor, essas variações de forma das canções não trazem sombra de incongruência ao disco, antes lhe acrescentam a diversidade própria dos álbuns recheados de surpresas. Mesmo não sendo tão inspirado quanto Negatif (2003), opus maior do catálogo Biolay, Trash Yéyé é um nobre exercício do que deve ser a pop a preto e branco e um generoso exemplo do que vai valendo actualmente a música francesa.

Posto de escuta Sítio da Virgin

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

The Go! Team - Proof of Youth

7/10
Sub Pop
Edel
2007
www.thegoteam.co.uk



Tendo começado como o projecto individual de Ian Parton e merecido, então, o comentado elogio público de John Peel, foi como sexteto que o conceito The Go! Team ganhou expressão mediática significativa, um par de anos depois, mormente com o lançamento do primeiro longa-duração Thunder, Lightning, Strike, de 2004. Essa edição pusera a nu uma miríade electrizante de referências na construção de canções, quiçá não muito bem arrumadas (e essa deliciosa desarrumação era um dos regalos do disco), mas demonstrando uma frescura de espírito louvável e, sobretudo, uma forma despreocupada de mostrar exuberância juvenil (não confundir com ingenuidade técnica!) na arte de compor peças capazes de se manifestarem em várias linguagens estéticas.

Proof of Youth é um digno sucessor desse entendimento lato do indie rock, sublinhando convicções experimentalistas e livres a ponto de cruzarem coordenadas funk com percussões isentas de escola ou, com a mesma solicitude, casarem substâncias hip hop com festins rock e corais de cheerleaders. Depois, as peças beneficiam de uma produção apuradíssima na hora de ordenar substâncias e lhes dar corpo, pronunciando-lhes o lastro melódico com a inteligente incorporação de arranjos sintéticos ou apontamentos de trompete. Em termos técnicos, o disco pede meças ao antecessor e somente fica aquém em dois aspectos: não tem o efeito novidade do primeiro e, em derivação directa desse facto, acaba por encerrar uma escrita igualmente festiva mas menos brilhante. Ilação incontornável: Proof of Youth é mais um produto sequencial (um picar do ponto editoral) do que propriamente um exercício evolutivo. O que, no caso destes ingleses mirabolantes, nem sequer é uma má notícia.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Novo EP single dos Battles


Novo vídeo e single dos Battles, para um aditamente editorial ao magnífico longa-duração Mirrored, lançado já este ano. Chama-se "Tonto" e apresenta (também lhe dá nome) o novo EP da banda, a chegar às lojas em finais de Outubro. O disco, além do original já incluído no álbum, traz revisões de Four Tet e The Field para a mesma canção e vem acompanhado de um DVD promocional. Eis a capa e alinhamento:



01. Tonto
02. Tonto (The Field Remix)
03. Tonto (Four Tet Remix)
04. Tonto (Live at FRF 07)
05. Leyendecker (Live at FRF 07)
06. Leyendecker (DJ Emz Remix Feat. Joell Ortiz)

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Siouxsie - Mantaray




Consagrada ao lado dos Banshees - o colectivo que chefiou, com inúmeras convulsões internas, durante cerca de duas décadas - como um dos ícones mais emblemáticos a emergir das fileiras do punk londrino da ressaca da década de 70, Siouxsie Sioux (Susan Janet Dallion no B.I.) teve ainda nos The Creatures, ao lado do então cônjuge e parceiro criativo Budgie (também fora percussionista dos Banshees), outro dos momentos capitais de construção da identidade sonora que se revela neste Mantaray. Se a primeira (e mais saliente, pelo menos em termos de impacto mediático) experiência com os Banshees lhe trouxe a irreverência e o sentido de urgência eléctrica do punk herdeiro dos Sex Pistols, a mutação para os The Creatures alargou o espectro "gótico" que estivera presente nas composições desde o primeiro instante, permitindo-lhe ir ao encontro da flexibilização do registo vocal (aí se revelando uma cantora efectiva) e, sobretudo, da exploração livre de outros formatos rítmicos.

Foram precisos trinta anos para, depois da recente separação de Budgie, Siouxsie tomar as rédeas da primeira produção verdadeiramente a solo. E Mantaray é ensejo para desvendar uma artesã segura do seu estatuto e das virtudes de cada episódio do percurso artístico, coisa que transparece na confiança do disco, sem hesitações na hora de coligir as matérias quintessenciais do passado e, mais do que isso, a somar-lhes, radicalismos à parte, uma ou outra insinuação original e um revestimento mais moderno. Às coordenadas contingentes dos Banshees e aos subterfúgios hipnóticos dos Creatures, Mantaray junta laivos da cultura suburbana corrente e algumas derivações estéticas bem apuradas pela produção, do rock pulsante da extraordinária "Into a Swan", ao preito a Shirley Bassey de "Here Comes That Day", ao piano catártico de "If It Doesn't Kill You" ou "Heaven and Alchemy", ao minimalismo desconcertante de "Drone Zone". Bom regresso.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Animal Collective - Strawberry Jam




Já não pode negar-se, mesmo sob os entusiasmados atropelos ao bom senso que as opiniões de massa como generalizações instantâneas tendem a quase sempre encerrar, que o mundo indie ficou diferente depois do surgimento dos Animal Collective. Com um punhado de álbuns pautados essencialmente por uma barroca (porque exuberante e "anormal") revisão dos ideários pop-rock, Panda Bear e Avey Tare (com a ajuda de Geologist e Deakin) ergueram uma estética cultora da transversalidade da música e, sobretudo, do experimentalismo em busca de convergências entre estilos. No decurso da evolução dessa linguagem, desde as deliciosas desproporções e desalinhos de Here Comes the Indian (2003), trabalho com que se mostraram às gentes melómanas, ou, se preferirmos um recuo mais distante, desde as gravações de 2001 que foram lançadas no ano transacto sob o título Hollindagain, até à grandeza de Feels (2005), é notória a depuração de formas das composições e a consequente emancipação de um pendor melódico concreto - outrora um mero ingrediente clandestino atrás do tropel dissonante das texturas.

Foi assim que, como muito bem sublinha este Strawberry Jam, o crescimento da melodia aproximou os Animal Collective dos paradigmas "clássicos" de canção, não esvaziando minimamente a superabundância orgânica das peças, sempre servidas por electrónicas extáticas e instrumentações intencionalmente "poluídas" e no limite do excesso. Pois é desses desmandos que se faz a melhor música dos Animal Collective e é com eles que o universo periférico (e bizarro) de Panda Bear e Avey Tare ganha forma. Como se o surrealismo (ou, por intimidades directas, o subconsciente) pudesse ter um equivalente em forma de música, assim soam as transcendentes construções de Strawberry Jam, pejadas de excitantes alucinações, de sons quebradiços e ebulientes e de referências escapistas. Desta vez, porém, não obstante essa irreverência estética a que já chamaram neopsicadelismo estar intacta, o nervo melódico dos Animal Collective surge mais disperso (ou menos inspirado?) e, mesmo nunca caindo no conformismo, parece ser menos orientado do que em Feels. Seja isso sinal de uma passagem retrocedente ou sugestão de uma via alternativa, a incerteza melódica é o mais natural dos reflexos colaterais da cavalgante torrente criativa do quarteto. A diferença é que eles já a disfarçaram (ou domaram) bem melhor no passado.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

They Might Be Giants - The Else

5/10
Zoe Records
2007
www.theymightbegiants.com



De John Flansburgh e John Linnell não se espera música para tirar o mundo dos eixos, ou não andassem eles nestas proezas da música há cerca de um quarto de século e não tivessem, no decurso desse respeitável trajecto, desvendado todas as faces da música em que acreditam. Rebentos apartados da geração pós-grunge mais ou menos celebrizada pelas ondas mediáticas da MTV da década de noventa, os They Might Be Giants foram-se mantendo sucessivamente à margem da leveza estética e simplicidade estrutural dos seus pares geracionais, optando por conjugar os modelos indie pop mais ligeiros tão em voga na época com um sentido artístico mais refinado e uma dose sóbria de humorismo e ironia - pormenor pelo qual viriam a ser facilmente reconhecidos mais tarde. Nesse sentido, ainda que nunca tenham escrito um álbum verdadeiramente separador de águas (leia-se, livre de contaminações) em relação à leva de música ligeira dos 90's, assim não chegando a distanciar-se da vaga simplista do mainstream, os They Might Be Giants foram capazes de ciclicamente introduzir factores de revitalização do seu som e subliminares alterações de identidade.

The Else, décimo segundo tomo do cancioneiro do grupo, vem confirmar o entusiasmo tangencial (mas nunca escondido) de Flansburgh e Linnell pelas feições melódicas da pop de grande escala; e fá-lo à custa dos ingredientes dinâmicos e da imaginação de outros discos, escorregando para a previsibilidade estrutural e, consequentemente, para a monotonia. Declaradamente feito de canções lacónicas e partidárias de uma incómoda norma de pastiche dos momentos áureos da banda - ainda que reciclados para os padrões do mainstream corrente - The Else tem algum do aparato conveniente à pop moderna, mas fica bem aquém da exigência daqueles que esperam mais do que uma mera solução de continuidade.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

{F.E.V.E.R.} - 4st

7/10
Raging Planet
2007
www.myspace.com/feveronline



As palavras do press-release do disco de debute dos lisbonenses {F.E.V.E.R.} sugerem um rótulo para a música que eles subscrevem que, além de permitir um leque largo de especulações, é demonstrativo de uma postura inovadora que, em certa medida, encontra paralelo na música do quinteto. Rock SciFi experimental é a pomposa expressão com que eles se saíram para definir um registo sonoro híbrido (em toda a dimensão da palavra) e que, pela riqueza das texturas, obriga a dissecações por partes. 4st é, antes de mais, um disco rock sem remorso, mesmo que o discurso eléctrico das distorções nem sempre encontre porto firme e acabe vacilando numa gama intencionalmente incerta de tons, umas vezes mais abrasivo (a importar estruturas do metal mais ou menos galopante ou das disfunções de uns Deftones) - e aí o disco marca pontos decisivos - noutras mais próximo dos embalos melódicos (e de menor expressão) de uns Linkin Park. Depois, é também um álbum experimental porque as composições não receiam testar convivências e/ou contrastes entre matérias nem sempre miscíveis, seja no resvalo pop de um ou outro instante vocalizado, na integração de abstracções electrónicas que infiltram diferentes pulsações ou mesmo no freio induzido por ápices mais atmosféricos. Sobra ainda uma produção manifestamente a tentar os limites e a render a acústica "habitual" de um disco rock, envolvendo cada pormenor das composições na tal cosmética scifi, com vocais distorcidos, percussões trabalhadas, baixo grave e mosaicos electro de alcance hipnótico.

Com uma muito interessante sequência de construções e as transformações rítmicas e volubilidade estética necessárias para "prender" o ouvinte da primeira à última nota, apenas parece faltar a 4st uma escrita que melhor aproveite a profusão de (boas) ideias e que deixe de lado uma ou outra impureza cliché. Mas, para primeiro disco de uma das sumas revelações da música lusa dos últimos tempos, a coisa é bastante promissora.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Liars - Liars





Depois de um álbum (Drum's Not Dead, de 2006) marcado por um fio narrativo e uma lógica sequencial intrínseca ao formulismo dos discos conceptuais - facto algo descontextualizado do catálogo prévio dos Liars e que parecia desviá-los do destino que haviam anunciado nos registos anteriores - o quinteto nova-iorquino retoma uma passada mais "natural" e, com ela, reinventa a essência da sua identidade musical. Deixando de lado uma parte importante das vaidades e dos devaneios de grandiosidade estética que, a despeito da excelência do álbum, enchiam o antecessor, Liars mostra um colectivo à procura de arrumar o seu som numa encruzilhada entre o cada vez mais "seco" (por exaustão de ideias) manancial das várias escolas dance-punk (e respectivas derivações de segunda geração) e o desejo de arrumar essas referências e o código musical num registo mais consentâneo com as mentes despertas do novo século e a própria necessidade da banda de regenerar as suas energias. De resto, Drum's Not Dead terá sido, em si mesmo, uma etapa desse processo de reinvenção de padrões, sugerindo alguma da experimentação e do desprendimento formal que, agora, volvido um ano, deixa ecos nas texturas de Liars.

Nesse particular, o novo opus desvenda, por detrás de estruturas rítmicas simples, um acrescido compromisso de forma nas canções que, bem longe dos modelos convencionais, encontram aqui estruturas mais definidas, sem dispensarem o cardápio de ruídos e "anomalias" sonoras que habitavam, sem regra, os ambientes de Drum's Not Dead. E, pelo meio, há incontáveis importações de outros estilos, mais ou menos óbvias, com qualquer coisa da angularidade do art-rock, das reverberações abatidas do shoegaze e das gradações do krautrock. E, como é timbre dos Liars, os ingredientes para um desafio recheadíssimo estão todos cá, em mais uma clara demonstração de que eles estão no pelotão da frente do rock (?) contemporâneo, graças a uma incrível capacidade para dar um toque de qualidade (e inovação) a tudo o que escrevem. Vá-se lá saber onde é que eles vão parar depois desta surpresa rock...

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Luke Vibert - Chicago, Detroit, Redruth

6/10
Planet Mu
2007


Apesar das suas inúmeras personas artísticas - o rapaz também assina, entre outros pseudónimos, como Wagon Christ, Ace of Clubs, Spac Hand Luke, Plug, Kerrier District, Butler Kiev ou Amen Andrews - e da extensa discografia a elas associada, foi com o nome próprio que o britânico Luke Vibert se afirmou como protagonista maiúsculo do orbe electrónico. Tentado pelos diferentes ares da música sintética, Vibert leva quase duas décadas a disciplinar uma verve capaz de se expressar em estéticas várias, desde o drum'n'bass escolástico - de que foi um dos pioneiros mais relevantes - ao experimentalismo da música ambiental e às tendências correntes da culture club britânica. Chicago, Detroit, Redruth, quarto registo com a assinatura Luke Vibert, é mais uma achega para uma obra aberta a diversos estilos e subdivisões. De resto, é notória uma certa inconstância estrutural no alinhamento desta edição, daí derivando uma inferência de contraste: Chicago, Detroit, Redruth é álbum dinâmico e transversal às várias identidades estéticas de Vibert - e, também por isso, revela-se um disco pouco coeso e de linguagens com congruência incerta. E, embora a diversidade (ou fusão de identidades?) possa ser vista como factor galvanizante por muitos (inclusivamente, como motivo potenciador do surgimento de algumas pérolas como as superlativas "Rapperdacid", "Brain Rave" ou "Argument Fly") e seja, em rigor, um atestado das aptidões mutantes de Vibert, acaba por sair penalizada a harmonia do conjunto, na medida em que não chega a perceber-se uma causa unificadora.

domingo, 2 de setembro de 2007

Milanese - Adapt

7/10
Planet Mu
2007
www.mr-ion.com



Sendo umas das individualidades mais respeitadas do cada vez menos clandestino universo do grindcore do Reino Unido dos últimos anos, tem faltado a Steve Milanese um álbum que afirme categoricamente em disco as valências de um produto musical talhado para arrebatar os frequentadores dos clubes underground de Londres. Depois de um par de álbuns em que ficaram explícitas, ainda que com uma expressão diminuta, as electrónicas abrasivas que o produtor inglês professa esplendidamente ao vivo, algures entre as órbitas distorcidas do grime - com batidas ruidosas, vozes filtradas e ambientes sombrios - e a referência subliminar às envolvências mais "pacíficas" da revolução contemporânea do dubstep, Adapt recolhe algumas remisturas do anterior longa-duração (Extend, de 2005) e três peças novas. No fundo, este mini-álbum parece moldado à medida de um maior reconhecimento dos méritos de Milanese; ao lado da deliciosa tríade de originais - sem dúvida, a abrir o apetite para um próximo álbum - desfila um punhado de remixes de escol, coisas assinadas pelos conterrâneos Mark Bell (pioneiro da IDM sob o nome Clark), Nathan Jonson (o criador por detrás do conceito Hrdvision) e DJ Distance (produtor destacado da escola dubstep), entre outros. Bastante congruente e robusto na substância, Adapt desvenda alguns planos imagéticos menos conhecidos da música de Milanese e, sugerindo pontes para outras derivações estéticas (como, a título de exemplo, nas revisões breakcore sugeridas por Hrdvision e Clark ou, em ondas diferentes, a magnífica versão de DJ Distance para "Dead Man Walking"), estende decisivamente o virtuosismo das composições originais. E dá a Milanese um óptimo cartão de visita para mostrar a desconhecedores.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

St. Vincent - Marry Me

8/10
Beggar's Banquet
2007
www.ilovestvincent.com



Embora faça com este disco o seu debute discográfico a solo, Annie Clark vem fruindo, nos últimos anos, da fertilíssima experiência de partilhar palcos (e públicos) com personagens relevantes do meio musical contemporâneo. Senão, veja-se: ela empresta habitualmente a sua guitarra ao numeroso combo dos Polyphonic Spree e, em palco, também integrou a banda de suporte das digressões do mediático Sufjan Stevens e, mais recentemente, tocou com os Arcade Fire. Dito isto, não é surpresa que este Marry Me desvende um jogo de estilos indie pop bastante diversificado, com gradações suficientemente suaves e equilibradas para não causar atropelos estéticos no alinhamento e, sobretudo, para definir uma linguagem própria. Depois, as composições, mesmo partindo de uma base acústica de construções mais ou menos "típicas" da guitarra ou do piano, estão recheadas de condimentos que as desviam das convenções, ora introduzidos pelos arranjos de cordas que envolvem os trechos, ora chamados pelo uso sensato de electrónicas em fundo. A mistura irrepreensível - suportada por uma voz harmoniosa (e elástica) como poucas, algures entre o registo colorido de Leslie Feist e as contrições de Beth Gibbons - insinua uma majestade orgânica (e instrumental) que, afinal, não pretende atingir e esse é o encanto de Marry Me. Num exercício quase tântrico, Annie Clark vai manobrando, com sapiência, meras sugestões e lampejos dessa grandeza, construindo um tomo orquestral mas intimista e com os contrastes emocionais certos para enredar o ouvinte numa teia de seduções. E fazer um disco assim, um prodígio romântico e ácido no mesmo fôlego, não é para todos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

VHS or Beta - Bring On the Comets

5/10
Astralwerks
2007
www.vhsorbeta.com



Apesar de serem recorrentemente "desalinhados" (ou diminuídos) das correntes recentes de revitalização do dance-punk (onde os compatriotas !!!, Radio 4 ou The Rapture, por exemplo, são vozes dominantes) pelo facto de se colarem a estéticas próprias das vagas mainstream e pela particularidade de, um par de álbuns medianos, não ter revelado a grande canção, deles sempre se conheceu um mais ou menos anunciado fraquinho pelo lado mais dançável (ou mais funk?) do rock e da pop. De resto, essa tendência vem sendo sublimada pelo quarteto americano e parece encontrar agora, ao terceiro título, a solidez estrutural que faltou antes. Descendente natural de uma série de sons oriundos dos anos oitenta, pelo menos da cultura europeia de clube da época (The Cure e Duran Duran são luminárias reais), Bring On the Comets é um puro exercício retro, com guitarras angulares e sintetizadores a coser as texturas, refrões (tendencialmente...) orelhudos e um atractivo impulso dançante. Mas, tal como nos trabalhos anteriores, a despeito do sensível crescimento orgânico que aqui demonstram, os VHS or Beta continuam a viver de um discurso demasiado atado às suas referências e cujo alcance pouco mais faz do que esgotar-se em pastiches avulsos delas.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Super Furry Animals - Hey Venus!

7/10
Rough Trade
2007
www.superfurry.com



Genuínos herdeiros da mais fina tradição do pop-rock britânico, os galeses Super Furry Animals chegam ao oitavo capítulo do seu percurso discográfico com as certezas de uma linguagem respeitada. Acatando os ensinamentos da britpop (especialmente as reminiscências sessentistas dos Beatles) e, sobretudo, não temendo expor a veia "clássica" e generalista do rock ligeiro à sua feição mais esquizofrénica, Gruff Rhys e seus pares construíram uma identidade sonora com alguma sofisticação, uma escrita cuidada e uma capacidade natural para a reinvenção a cada trecho. Não surpreende, portanto, que este Hey Venus! - alegadamente o relato musicado das sortes de uma moça em transição de uma pequena comunidade para uma grande urbe - traga a mesmíssima atitude a que eles nos habituaram, investigando os extremos formais da canção pop mais simples. E, nesse particular, onde outros resvalam para o cliché e, consequentemente, se deixam tomar por fórmulas previsíveis, a experiência dos Super Furry Animals revela-se inesperadamente profícua na simplicidade, sugerindo um espectro pop bem mais lato do que teoricamente se preveria possível. E isso é conseguido à custa dos ingredientes costumeiros do quinteto galês (ou, por extensão, do par de registos a solo de Gruff Rhys) e, ainda que em Hey Venus! eles soem menos fantasistas do que noutros momentos, há aqui argumentos estranhamente dançáveis e de apego imediato que, mesmo que não persuadam os menos partidários da pop ou aqueles que vêm à procura de revoluções no ideário, seguramente funcionam como tese de validação do méritos possíveis do género. E, pela mão dos Super Furry Animals, a pop nunca é púbere e/ou descartável.

Posto de escuta Sítio da 7digital

sábado, 25 de agosto de 2007

Caribou - Andorra

7/10
Merge Records
2007
www.caribou.fm



Previamente dado a conhecer ao mundo sob o epíteto Manitoba - designação de que teve de prescindir, com dois álbuns editados, depois de algumas querelas forenses à volta do pseudónimo artístico do cabecilha dos Dictators - o canadiano Dan Snaith rebaptizou, em 2004, o seu conceito musical, socorrendo-se do título de uma canção célebre dos Pixies. Rapidamente sacralizado junto do escol crítico (não tanto nas massas populares...), sobretudo depois da edição de Up in Flames (2003), segundo opus onde revelou traços essenciais de um som com afinidades jazz (ou derivações Motown?) e com queda para as electrónicas sonhadoras, bem ao jeito daquilo a que as convenções costumam chamar dream pop psicadélico, Snaith é, hoje, figura de proa da música canadiana. Cultor das melodias como esteios estruturais de qualquer esquema compositivo, é nelas que Snaith deposita a subsistência das canções deste disco. Seguindo o rasto do antecessor (The Milk of Human Kindness, de 2005), Andorra é uma confiante sinfonia de tons pop, recordando os ornamentos exuberantes de alguns dos artesanatos sonoros dos 60's ou dos tricotados krautrock dos 70's, algo bem distante das electrónicas introvertidas e irresolutas do início de carreira. Ao mesmo tempo, para além de despontar um notório acréscimo de confiança nas capacidades vocais, revela-se, por detrás de extravagantes texturas que combinam instrumentos reais e feitiçarias sintéticas, uma escrita segura nas suas fantasias, contagiante e rítmica, pejada de cores e multiforme. A mistura pode nem sempre sair bem apurada, resvalando aqui e ali para um certo enfado e inconsequência (pormenores particularmente penalizadores da coda "Niobe") que a excelência da produção e o bom senso de atalhar o disco nos nove trechos não escondem. Ainda assim, não falta em Andorra matéria para uns quantos deslumbramentos...

Posto de escuta Melody DayAfter HoursEli

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Piana - Eternal Castle




Foi um encontro casual com Katsuhiko Maeda (mentor do projecto World's End Girlfriend), por ocasião da gravação do seu álbum Farewell Kingdom (2000), que fez o obséquio de apresentar a voz da nipónica Naoko Sasaki ao mundo melómano fora das fronteiras do Japão. De então para cá, a jovem cantora/compositora vem firmando o seu nome na povoada cena internacional da pop ambiental recorrentemente rotulada de etérea e, antes deste Eternal Castle, editou um par de registos marcados pelo desprendimento de formas das composições. Conjugando o apuro estético que herdou da formação clássica de pianista com as influências colhidas junto das melhores escolas da melodia "flutuante" (nesse particular, os instrumentais chegam a sondar ambientes de enlevo nórdico de uns Sigur Rós), Sasaki cruza elementos acústicos (pianos e cordas várias) com interferências digitais deambulantes. Depois, junta-lhes cantos de pura eufonia, com o doce acanhamento e a fragilidade de cristais de uma infância esperançosa (os trejeitos vocais são próprios de uma petiz cantora) que, com uma magnífica versatilidade, acomoda em tecidos orgânicos densos, é certo, mas leves o suficiente para tentar (e conseguir) a levitação. Cândido, onírico e apaixonante pelo fausto sensorial que deriva das construções melódicas, Eternal Castle é um álbum para escutar como um cortejo de utopias e pode muito bem ser, a despeito de um ou outro cliché tonal, o impulso derradeiro para a afirmação internacional de uma visão aprimorada (leia-se reciclagem sintética da pop clássica de câmara) do novo electro-pop japonês e de uma das suas mais insignes intérpretes. Argumentos para isso não lhe faltam.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

M.I.A. - Kala

7/10
Interscope
2007
www.miauk.com



Tendo-se apresentado ao mundo com a surpreendente caixa de ritmos (e melodias) que fora Arular (2005), Maya Arulpragasam (vulgo M.I.A.) deu-nos um dos mais peculiares exercícios de miscigenação cultural da música contemporânea, facto devidamente consagrado nas listas de melhores registos de há dois anos. Nesse disco, a cantora britânica (nascida no Sri Lanka) dissimulou a evidente inclinação kitsch das composições (de resto, devidamente suportada na "máquina" visual que identifica o conceito M.I.A....) num saudável revestimento orgânico que conjugava coordenadas de contágio dançante com ingredientes oriundos das várias escolas funk e hip-hop e algumas frequências afro-brasileiras. A receita é a mesma neste Kala, embora a proposta vá um pouco mais além na "globalização" das matérias invocadas. Senão, veja-se: além do imprescindível funk carioca (substância preponderante no primeiro disco), há sons de Bollywood, samples disfarçados de New Order, candomblés, sons de vídeo-jogo, raps aborígenes, hip-hop nova-iorquino, reggae adulterado e muitos outros micro-sons. O busílis da mescla é que, ao contrário do que M.I.A. e Diplo (o americano é produtor) haviam conseguido no debute, ainda que seja notório o alargamento da gama de influências, não se vislumbra neste Kala o mesmo feitiço melódico que era a escora segura para a prolixidade estética do conjunto em Arular. Sendo, assim, órfão de uma vocação melódica mais convincente (o traço típico de Arular tem descendência segura em "Hussel" ou "Come Around") e de um apuramento de conceitos com outra coerência, o disco acaba por assemelhar-se mais a uma amálgama casual de ideias vindas de um mente prolífica (e desregrada) do que propriamente a um trabalho concluso. Vale como atestado de continuidade ou, se quisermos, como documento de transição para ambições de (ainda) maior eclectismo, com as permeabilidades que isso acarreta.

Posto de escuta Sítio da 7digital

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Prinzhorn Dance School - Prinzhorn Dance School




Dois pormenores podem acelerar conclusões precipitadas sobre este disco. O primeiro deles, e mais imediato, está no nome do par britânico feito por Tobin Prinz e Suzi Horn. De gente (e música) depositada sob o nome de "escola de dança" seria natural esperar-se um trabalho de cariz dançável e não é isso, nem por sombras, aquilo que eles se propõem fazer. A segunda particularidade que nos remeteria, ao engano, para o âmbito da música "dançável" (ainda que nas vertentes experimentalistas, e não necessariamente electrónicas na essência, que convivem de perto com outras estirpes de som), é o facto de eles serem apadrinhados pela DFA que, como sabe quem segue de perto o fenómeno musical, é o quintal editorial de James Murphy. Nesse aspecto, de resto, o conceito Prinzhorn Dance School não encontra paralelo no catálogo do selo nova-iorquino. O contraste nota-se especialmente no minimalismo estrutural da música assinada por Prinz e Horn (por oposição ao colorido orgânico de uns Black Dice ou Rapture), ao jeito de uma versão ainda mais esqueletal e despojada dos The Kills. A fórmula não é propriamente original - fraseados repetitivos e não muito elaborados de guitarra/baixo e pontuação tosca mas firme da bateria - e, a despeito de ser executada com uma dose de credulidade que suscita entusiasmos nas primeiras audições do disco, acaba por enredar as composições num irónico espartilho. Aquilo que supostamente deveria funcionar como a força motriz das peças, o seu hiperbólico minimalismo, torna-se, afinal, na mais ingénua castração das suas potencialidades.

E o disco segue assim: as vozes debitam algumas banalidades num registo próximo do spoken word protestante, incapazes de descolarem de um monocordismo alarmante; a bateria cinge-se a fazer uma escolta meramente metronómica das insinuações melódicas da guitarra, sem rasgos de exaltação; o baixo e a guitarra (mais casual) são o acontecimento relevante de Prinzhorn Dance School, especialmente o baixo de Horn, a dar o tom e a dirigir as composições para a ordenação melódica que, infelizmente, não chegam a ter. Fazem lembrar os Young Marble Giants e têm a atitude do início de carreira dos The Fall - e isso será suficiente para apaixonarem muitos e afastarem outros tantos - mas talvez lhes falte trocar a presunção minimalista por uma orgânica mais preenchida para elevarem os seus (bons) expedientes e atitude a um estrato mais consentâneo com os méritos que neles se adivinham. E a plenitude potencial destas canções é espreitada apenas de soslaio.

sábado, 18 de agosto de 2007

Portugal. The Man - Church Mouth

7/10
Fearless Records
2007
www.portugaltheman.net



É mais que provável que as afinidades imediatas dos americanos Portugal. The Man com a nossa pátria lusa acabem precisamente no título de baptismo que escolheram. Reunido no Alasca no início do novo século, o trio - foi temporariamente um quarteto, por ocasião do recrutamento do percussionista Jason Sechrist, para se juntar aos co-fundadores John Gourley (guitarra/voz), Zach Catothers (baixo/voz) e Wes Hubbard (teclas/voz), até à deserção deste último - encontrou fonte de projecção no espaço cibernético, aí semeando o embrião das suas ideias musicais. Durante o ano de 2004 e aos poucos, as composições disponibilizadas na web deram azo a um calmo burburinho à volta da música do trio e a sequência de eventos culminaria com o debute discográfico Waiter: "You Vultures!". Embora o disco não tenha merecido especial atenção dos grandes mercados, talvez por estar envolvido numa certa indefinição idiomática entre diversas opções de revisitar o rock independente clássico e moldá-lo em sonoridades hodiernas (leia-se Beatles vs Black Sabbath vs. T-Rex vs. Mars Volta), já aí se desvendavam algumas das matérias essenciais de Gourley e companhia. E, nesse particular, Church Mouth abrevia indefinições, corrige alguns excessos vocais do antecessor e, en passant, mostra uma escrita vigorosa e reforçada pelo facto de encontrar pontos de equilíbrio mais consistentes e uma orientação melódica mais precisa. Mais um panfleto, este com méritos de evidente crescimento artístico dos protagonistas - quiçá a caminho de um grande disco, assim sejam eles capazes de aprimorar o pendor experimentalista - no estafado furor revivalista que despontou no orbe rock dos últimos anos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Pan Sonic - Katodivaihe

8/10
Blast First Petite
Matéria Prima
2007
www.phinnweb.org/panasonic



As latitudes escandinavas não são propriamente terreno muito fértil para a música electrónica mas, de entre alguns honrosos intérpretes de excepção nesse estilo, destaca-se o projecto finlandês Pan Sonic (inicialmente o nome era grafado Panasonic). Espaço criativo dividido por Mika Vainio e Ilpo Väisänen há mais de uma década, tornou-se célebre a visão expansionista com que o duo estuda as potencialidades da techno minimal em combinação com texturas importadas do universo industrial, do hardcore digital ou mesmo do noise e do glitch. Katodivaihe é mais um exercício de tons analógicos inquietantes e peças fracturadas e cíclicas, sem traços melódicos definidos (nem sequer insinuados), antes denunciando um pendor de certa austeridade orgânica, na linha de depuração estética que a extensa discografia do conceito vem demonstrando nos últimos anos. Cada vez mais próximos das órbitas IDM mais caliginosas, Vainio e Väisänen (ajudados pontualmente pelo violoncelo lúgubre de Hildur Gudnadottir) prescrevem, aqui, dois tipos de construções: as mais ritmadas e ruidosas, também mais hostis para os tímpanos (como nas galopantes repetições de "Lähetys"), e as menos sequenciais, marcadas pela dispersão das texturas ("Hertsilogia" é paradigma disso) e pelos efeitos cerebrais (ouça-se a magnífica "Hyönteisistä"). Em qualquer dos casos, o desembaraço, a experiência e o conhecimento profundo das possibilidades da música sintética são notórios, desembocando em sensações auditivas (e mentais) que, não sendo de consumo imediato nem isento de vertigens, deixam sinuosos reflexos de êxtase na mente. Algures entre o ruído quase sádico e a filigrana digital da contemplação, está o lado negro da techno.

Posto de escuta Sítio da Boomkat

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Night of the Brain - Wear This World Out

6/10
Station 55
Flur
2007


O chileno Cristian Vogel tem carreira feita no universo das experiências electrónicas, seja a nome próprio - foi assim que assinou as obras mais relevantes de um percurso com uma década e meia (como, a título de exemplo, Specific Momentific (1996), documento essencial das descendências de Brian Eno) - ou em parceria com Jamie Lidell no extinto projecto Super_Collider. Tendo em conta esse passado, o conceito Night of the Brain, com claríssima vocação rock (pelo menos na definição da era embrionária dos Sonic Youth), é uma transição surpreendente. Não sendo caso único neste ano - Harvey Basset, outro nome da música "de dança", já nos mostrara, num formato distinto, idêntica predisposição nos planos de Map of Africa - nem se tratando necessariamente da desistência de Vogel da identidade musical que edificou (está previsto um novo opus a solo para o final do ano), Wear This World Out é, sobretudo, a resposta natural a uma mente inquieta que, pontualmente, renova excitações noutros sabores musicais, bem distantes do techno cristalizado.

Para concretizar esse desvio, Vogel (aqui nas incumbências de guitarrista/vocalista) mudou-se para Barcelona e reuniu um quarteto prometedor de músicos: a navarra Merche Blasco, a Burbuja emergente de Espanha, mexe electrónicas e dá voz; Cristobal Massis, académico chileno do jazz empresta percussões; Mike Hermann, figura destacada do underground digital berlinense (sob o cognome Intercooler), é o baixo. Musicalmente vacilantes entre o romantismo despojado e o paranóico exercício de misantropia, as composições assentam em estruturas simples, com algumas variações rítmicas e heterogeneidade própria da interferência de músicos com "escolas" díspares. Ainda assim, a despeito das aptidões que a mescla demonstra em alguns instantes mais soltos do disco (como na quase-progressiva "Ghosts"), grande parte do alinhamento perde verosimilhança enquanto aplicação rock, em razão da indeterminação estética do disco e, acima disso, da conotação com fraseados melódicos e texturas mais próprias da música electrónica (como na curiosa "Connecting Changes" ou, ainda mais, no trip-hop de "Winter Wine").

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Architecture in Helsinki - Places Like This




Surgindo depois do lançamento de uma versão remisturada do álbum anterior a este (por gente como DAT Politics, DJ Mehdi, Isan ou Hot Chip) que prenunciava um certo desígnio de redimensionamento das electrónicas mínimas do início de carreira para escalas mais ambiciosas, o terceiro registo de originais dos Architecture in Helsinki vem confirmar o propósito expansionista que o octeto (agora sexteto) australiano já tentara no segundo opus. A manobra encerraria sempre o risco de hipotecar parte significativa do charme pop-sinfónico do grupo, ou não fossem precisamente a intimidade e a prudência das texturas as mais-valias primárias do seu som. E se In Case We Die demonstrou ser possível franquear o universo melódico a amplitudes de optimismo mais largo, sem se perder a honestidade da proposta, este Places Like This soa algo forçado nesse intento. A insistência em sublinhados psicadélicos (mimetismo desvirtuado dos Flaming Lips?) menos congruentes do que no passado e, sobretudo, o pendor sistémico das canções para se abeirarem de convenções pop mainstream (o disco chega a trazer à memória os B52's, especialmente na primeira metade) e de um conformismo instrumental não conhecido na banda, são as fendas por onde se somem energias desaproveitadas. Um passo atrás.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Original Silence - The First Original Silence

8/10
Smalltown Superjazz
Trem Azul
2007


Quando se usa o epíteto de "super-banda" para caracterizar um colectivo de músicos ilustres, invariavelmente o peso da adjectivação deriva mais da majestade individual de cada um dos protagonistas de per si do que propriamente da expressão ou perduração do conjunto. E, as mais das vezes, como comprovou a história recente do fenómeno musical, esses sacralizados colectivos são de vigência curta, raramente durando além de um ou outro episódio discográfico pontual e um punhado de actuações quase casuais. The First Original Silence é outra achega para a lista das constelações notáveis - ver-se-à depois se vem para durar. O rol de músicos é maiúsculo e reúne figuras de proa do orbe rock experimental com sumas gentes do universo jazz vanguardista. Senão, veja-se quem eles são: Thurston Moore, guitarra sobrevivente dos Sonic Youth, Jim O'Rourke, prolífico guru da cena indie (aqui ao comando das electrónicas), Mats Gustafsson e Paal Nilssen-Love, compinchas (saxofone e bateria, respectivamente) nos imponentes The Thing, Massimo Pupillo, guitarrista dos italianos Zu e Terrie Ex, libertino punk dos The Ex.

De militantes tão dedicados às feições free da música não seria de esperar outra coisa que não o que se escuta aqui, uma sessão (dividida em duas peças) de incansável e agitado improviso, onde é possível sentir a interacção e a dinâmica entre os músicos e um soberbo sentido de coesão estética. De facto, ainda que sendo um exercício de pura especulação (o encontro dos músicos aconteceu num festival italiano e sem ensaios ou composições prévias) e, nessa condição, se perceba a propensão desregrada de cada um dos discursos individuais envolvidos, The First Original Silence desvenda um idioma uno, a aproximar-se da bizarra liquidez da cacofonia e, sobretudo, segurando o interesse do ouvinte no suspenso efeito-surpresa. Sem qualquer compromisso melódico - jamais a melodia poderia subsistir na colisão espasmódica entre o noise rock e o jazz livre - o disco é arquitectado essencialmente na tensa concatenação de ideias, com os zénites e sinergias a aparecerem no momento certo e sem ponta de estagnação, mesmo naqueles instantes em que a placidez toma conta do festim. Em suma, um assombroso exemplo das virtudes da música improvisada (suplantando o bom trabalho que Moore, O'Rourke e Gustafsson fizeram com o Diskaholics Anonymous Trio e antes da estreia em disco dos OffOnOff, com a outra metade-trio dos Original Silence, lá para o Outono) e um registo autêntico de músicos que não se ficam pelos ajustes na hora de inventar sem regulamento e sem pauta. Venha de lá o encore...

domingo, 12 de agosto de 2007

Chuchurumel - Posta Restante

7/10
Edição de Autor
2007
www.chuchurumel.com



Concebido como se fosse uma colecção de cartas musicadas com destinatários escolhidos entre um rol de entidades (pessoas e estímulos) que, de uma forma ou de outra, marcaram o percurso do conceito Chuchurumel, o segundo álbum imaginado pelos guardenses César Prata e Julieta Silva retoma algumas das pistas sugeridas pelo trabalho de estreia. Não é difícil descodificar a fórmula musical desvendada por Posta Restante; ela é, sobretudo, alicerçada no conhecimento profundo das mais arreigadas tradições musicais lusas - onde, de resto, a dupla recolhe algumas das substâncias cruas mais valiosas do seu som (os fraseados melódicos da concertina, da sanfona, da ocarina ou da gaita-de-foles são exemplos) - e na competentíssima integração dessas matérias nos reflexos de modernidade das programações e dos sons processados. Embora não seja fácil domar uma linguagem assim atemporal, com os olhos a venerar o passado e as mãos a esculpir o presente de amanhã, o novo opus dá mostras, não havendo abrandamento da cisma experimentalista que se conhecera no debute, da afinação do discurso (por comparação com No Castelo de Chuchurumel). Com efeito, o pacto do tradicional com o contemporâneo é muito mais espontâneo e eloquente, produzindo uma obra de consistência assinalável e em que as fragrâncias de modernidade já não parecem furos no manto de memórias. Organicamente fértil e construído com uma sensibilidade rara, Posta Restante é um dos mais sólidos argumentos que a música tradicional viu serem escritos em seu favor nos últimos anos. E, ironia suprema dos talentos de César Prata e Julieta Silva, a melhor defesa dos ensinamentos etnográficos e da imprescindível fecundidade da tradição é, afinal, servida em revestimentos da mais fina modernidade. (Bons) sinais dos tempos...

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Guitar - Dealin With Signal and Noise

6/10
Onitor
2007
www.onitor.de



Mesmo não merecendo créditos nas listas de melhores discos dos últimos anos, o germânico Michael Lückner vem construindo, em passinhos de lã, uma entidade musical consistente sob o nome Guitar. Apesar de, em determinados momentos do seu trajecto, essa solidez estética ter sido razoavelmente posta em cheque, em razão de uma ou outra digressão pontual por paisagens de sons diferentes, é hoje claro que, usando a guitarra como ferramenta condutora e sempre com um fundo orgânico de electrónicas várias e ruído, Lückner encontrou o seu equilíbrio num registo melancólico e algo resignado, com um punhado de referências estruturais importadas do shoegaze. Sem guardar imprevistos na estrutura, a surpresa deste Dealin With Signal and Noise chega na versão (algo vacilante) da celebérrima "Just Like Honey", dos Jesus and Mary Chain (ironicamente, a faixa aparece creditada a Lückner no disco...). No resto, nada de especialmente novo: repetem-se os favores vocais da japonesa Ayako Akashiba (o contraponto para a certa insipidez verbal de Peter Marchese, a outra voz do álbum) e as melodias mergulhadas em ruído, as malhas de guitarra - ouçam-se a interessante fantasia de feedback de "Ballad of the Tremoloser" e a construção melódica minimalista de "Live at Hotel Palestine" - e as ondulantes presenças do ruído. Mesmo assim, não obstante o conforto de uma ou outra peça bem conseguida, Dealin With Signal and Noise pouco acrescenta ao dote já conhecido de Lückner.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Zita Swoon - Big City

7/10
Chikaree Records
Sabotage
2007
www.zitaswoon.com



O belga Stef Kamil Carlens, o guru-fundador dos Zita Swoon e antigo baixista dos dEUS, não é homem de lugares estacionários. Para ele, a música é fecunda enquanto linguagem-reflexo de vários estímulos e influências e, nessa condição, deve ser um produto dinâmico e livre de formatações. Comummente catalogada como parte da comuna pop belga, em boa verdade há na música dos Zita Swoon numerosas referências estéticas além dessa, ora colhidas junto da folk americana (até mesmo da escola blues), ora repescados da fina tradição da chanson française e da soul music ou mesmo de planos vários do funk e do reggae. Big City, quarto registo do grupo (com o nome Zita Swoon), confirma a lhaneza do discurso acústico que se conhecera nos capítulos antecessores, ainda que surja envolto numa aura mais positiva do que A Song About a Girls (2005) e, sobretudo, numa paleta de géneros um pouco mais larga. Feito de canções de recato e sem cosméticas supérfluas (como, de resto, é o timbre dos Zita Swoon), o disco desvenda uma concentração mais consistente das inúmeras ideias por detrás da escrita e é, nesse sentido, a mais recta colecção de canções de Carlens. Não obstante a uniformidade estética que, a espaços, pode aqui confundir-se com alguma monotonia - pela omissão de contrastes - Big City deixa uma certeza: Stef Kamil Carlens é um escritor de elegias a merecer vivas de outros públicos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Thomas Fehlmann - Honigpumpe

7/10
Kompakt
2007
www.flowing.de



Não obstante o facto de o seu nome estar ligado a alguns dos epicentros marcantes da electrónica europeia dos últimos trinta anos (mormente os injustamente subvalorizados Palais Schaumburg), o suiço Thomas Fehlmann apenas despontou para o mediatismo com o projecto The Orb, já na década de 90. Foi aí que, ao lado de gente como Alex Paterson, assinou trabalhos pioneiros na área do house medido para ambientes after-party. Na substância, o conceito produziu um punhado de álbuns dados a descobrir virtudes atmosféricas na música dançável, baixando-lhes o ritmo, introduzindo-lhes estruturas rítmicas próximas do dub e adicionando-lhes ensinamentos importados dos universos escapistas de Brian Eno. Honigpumpe (traduz-se "bomba de mel") completa uma tríade de álbuns a solo do produtor helvético e retoma as causas dos Orb. É um disco magnetizante na forma como desenha atmosferas com uma curiosa tensão melódica entre a volatilidade dos ambientes e a densidade dos pedaços mais dançáveis. Essa ambivalência estética, aqui sopesada com um equilíbrio notável (créditos à produção!), é o garante da fluidez de um disco que, lançando mão de camadas repetitivas de som (a lógica 4/4 é a regra), não chega a soar iterativo. E, afinal, Fehlmann mostra-nos, com a sapiência de um mestre sabido, que é entre a evocação nostálgica de paisagens sonoras e o nervo hipnótico da dança que se acham alguns dos lugares mais estimulantes da música electrónica.

domingo, 5 de agosto de 2007

Alog - Amateur

6/10
Rune Grammofon
AnAnAnA
2007
www.alog.net



Foi precisamente há dois anos que, sem grande aparato mediático e com a edição de um álbum (o premiado Miniatures) verdadeiramente definidor de uma linguagem musical singular, Esper Sommer Eide e Dad-Are Haughan saltaram do anonimato dos cenários frios da Noruega. Nesse disco, o terceiro do percurso sob a designação Alog, apresentaram as premissas de uma forma curiosa de pensar a música electrónica, sem amarras estéticas e, acima de tudo, ensaiando a dinâmica de um exercício improvisado sob mosaicos de sonho de criança. Ao lado das mais variadas infusões de sons pouco "musicais", surgiam arquitecturas digitais de excelente efeito e elementos acústicos sem objectivos perfeccionistas. A combinação é retomada neste Amateur, onde se sublinha a natureza "amadora" do universo Alog, pelo menos no carácter amorfo (desprovido de forma) e quase tosco com que se juntam as variadíssimas fontes de som, muitas vezes com sabores de improviso (como no delírio de percussão de "A Throne For the Common Man") ou, noutros casos, pejadas de assimetrias melódicas. As vozes, raras mas quase sempre em corais pastoris, têm o condão de dimensionar a música para uma quimera incerta, suportada, de resto, por intervenções mais pontuais da electrónica (por comparação com trabalhos prévios). No fundo, Amateur, sendo um exercício mais especulativo - e menos melódico - do que o antecessor, é, também, mais um capricho de ingénua (porque exploratória) composição electro-acústica do que propriamente uma obra digital ultimada (aqui, a electrónica é ferramenta de filtro para os sons originais, não é matéria de base) e, nesse aspecto, destaca-se da restante obra do catálogo Alog. E, como é habitual nos discos de Eide & Haughan, partilham o mesmo alinhamento instantes de pura magia experimentalista ("Son of King" ou "The Future of Norwegian Wood" são dois bons exemplos) com despautérios despropositados (veja-se o quase-silêncio de "Sleeping Instruments). Sinais de inconsistência que, mesmo penalizando o desempenho do álbum como peça inteira, não deslustram a marca diferencial do universo Alog.

Laub - Deinetwegen




Sediados em Berlim, e portanto rodeados por uma das mais estimulantes escolas da electrónica europeia, dificilmente Jürgen Kühn e Antye Greie-Fuchs (também assina, a solo, como AGF) não cederiam ao impulso da música digital. As primeiras expressões artísticas de um percurso que conta mais de uma década de actividade como Laub, já mostravam apetites pelo experimentalismo em volta de entrechos electrónicos. Se, nos discos anteriores, o minimalismo (ou austeridade) estrutural das composições desvendava afinidades com a pop electrónica, sobretudo na forma como a voz convertia as peças a convenções não percebidas na porção orgânica, este Deinetwegen evidencia uma depuração diferente. Sem recorrer a samples, o duo germânico propõe-nos uma desconstrução da estética blues. A adição de inúmeros apontamentos de guitarra - como se imporia em qualquer trabalho gravitando nessa órbita - não só acrescenta afectividade às texturas como, acima disso, desvia os exercícios vocais de Greie-Fuchs do torpor do costume, levando-a para um registo mais emotivo (escute-se, a título de exemplo, a sublime "Sommer 2006"). Não sendo os blues, pelo seu poroso espiritualismo, a mais natural fonte de sinergias com os tecidos frios da dupla alemã, a verdade é que a combinação se revela, a espaços, uma surpresa aprazível e, a despeito de uma outra peça desfocada, vale a pena espreitar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Tomahawk - Anonymous

6/10
Ipecac
Sabotage
2007
www.ipecac.com



Embora o nome de Mike Patton roube a quase totalidade do protagonismo do projecto Tomahawk, não fosse ele um das personagens mais prolíficas e um dos ícones da cena rock actual (apesar da débâcle recente da identidade Peeping Tom), a verdade é que o mentor da ideia é Duane Denison, guitarrista que ganhou notoriedade nos Jesus Lizard. Foi, de resto, uma digressão de Denison, ao lado de Hank Williams III, que o expôs ao lado "conformista" da tradição musical norte-americana (leia-se música country e diversas variantes da folk) e o motivou a procurar energias nativas mais rebeldes e espontâneas. Anonymous é precisamente o fruto das inspirações colhidas por Denison no contacto com os sons de alguns rituais e celebrações tribais. Academicamente, este tipo de (re)interpretações/adaptações/fusões de sons autóctones não é uma originalidade - ainda que esteticamente díspar, tem paralelo, por exemplo, no trabalho dos Sepultura com as tribos Xavantes para o seminal Roots - e normalmente resulta numa obra de coesão forçada, seja pela dispersão das fontes ou pelo presumível antagonismo entre linguagens antigas e perspectivas artísticas correntes. No caso de Anonymous, essa desarmonia estrutural é notória também na formatação das composições, umas mais próximas da tensão frenética típica dos Tomahawk, psicadélicas e libertinas, outras abeirando-se de um registo brando e próprio de praxes meditativas. Em qualquer dos casos, Denison, Stanier (é uma das forças vivas dos Battles) e Patton propõem-nos uma transfiguração da banda, decididamente menos eléctrica e à procura de pontos de equilíbrio entre os estímulos da tradição índia e o experimentalismo abstracto da marca Tomahawk. Na mescla, apesar do muito razoável alcance de alguns momentos, acabam por perder-se virtudes de ambos.