terça-feira, 4 de setembro de 2007

Liars - Liars





Depois de um álbum (Drum's Not Dead, de 2006) marcado por um fio narrativo e uma lógica sequencial intrínseca ao formulismo dos discos conceptuais - facto algo descontextualizado do catálogo prévio dos Liars e que parecia desviá-los do destino que haviam anunciado nos registos anteriores - o quinteto nova-iorquino retoma uma passada mais "natural" e, com ela, reinventa a essência da sua identidade musical. Deixando de lado uma parte importante das vaidades e dos devaneios de grandiosidade estética que, a despeito da excelência do álbum, enchiam o antecessor, Liars mostra um colectivo à procura de arrumar o seu som numa encruzilhada entre o cada vez mais "seco" (por exaustão de ideias) manancial das várias escolas dance-punk (e respectivas derivações de segunda geração) e o desejo de arrumar essas referências e o código musical num registo mais consentâneo com as mentes despertas do novo século e a própria necessidade da banda de regenerar as suas energias. De resto, Drum's Not Dead terá sido, em si mesmo, uma etapa desse processo de reinvenção de padrões, sugerindo alguma da experimentação e do desprendimento formal que, agora, volvido um ano, deixa ecos nas texturas de Liars.

Nesse particular, o novo opus desvenda, por detrás de estruturas rítmicas simples, um acrescido compromisso de forma nas canções que, bem longe dos modelos convencionais, encontram aqui estruturas mais definidas, sem dispensarem o cardápio de ruídos e "anomalias" sonoras que habitavam, sem regra, os ambientes de Drum's Not Dead. E, pelo meio, há incontáveis importações de outros estilos, mais ou menos óbvias, com qualquer coisa da angularidade do art-rock, das reverberações abatidas do shoegaze e das gradações do krautrock. E, como é timbre dos Liars, os ingredientes para um desafio recheadíssimo estão todos cá, em mais uma clara demonstração de que eles estão no pelotão da frente do rock (?) contemporâneo, graças a uma incrível capacidade para dar um toque de qualidade (e inovação) a tudo o que escrevem. Vá-se lá saber onde é que eles vão parar depois desta surpresa rock...

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Luke Vibert - Chicago, Detroit, Redruth

6/10
Planet Mu
2007


Apesar das suas inúmeras personas artísticas - o rapaz também assina, entre outros pseudónimos, como Wagon Christ, Ace of Clubs, Spac Hand Luke, Plug, Kerrier District, Butler Kiev ou Amen Andrews - e da extensa discografia a elas associada, foi com o nome próprio que o britânico Luke Vibert se afirmou como protagonista maiúsculo do orbe electrónico. Tentado pelos diferentes ares da música sintética, Vibert leva quase duas décadas a disciplinar uma verve capaz de se expressar em estéticas várias, desde o drum'n'bass escolástico - de que foi um dos pioneiros mais relevantes - ao experimentalismo da música ambiental e às tendências correntes da culture club britânica. Chicago, Detroit, Redruth, quarto registo com a assinatura Luke Vibert, é mais uma achega para uma obra aberta a diversos estilos e subdivisões. De resto, é notória uma certa inconstância estrutural no alinhamento desta edição, daí derivando uma inferência de contraste: Chicago, Detroit, Redruth é álbum dinâmico e transversal às várias identidades estéticas de Vibert - e, também por isso, revela-se um disco pouco coeso e de linguagens com congruência incerta. E, embora a diversidade (ou fusão de identidades?) possa ser vista como factor galvanizante por muitos (inclusivamente, como motivo potenciador do surgimento de algumas pérolas como as superlativas "Rapperdacid", "Brain Rave" ou "Argument Fly") e seja, em rigor, um atestado das aptidões mutantes de Vibert, acaba por sair penalizada a harmonia do conjunto, na medida em que não chega a perceber-se uma causa unificadora.

domingo, 2 de setembro de 2007

Milanese - Adapt

7/10
Planet Mu
2007
www.mr-ion.com



Sendo umas das individualidades mais respeitadas do cada vez menos clandestino universo do grindcore do Reino Unido dos últimos anos, tem faltado a Steve Milanese um álbum que afirme categoricamente em disco as valências de um produto musical talhado para arrebatar os frequentadores dos clubes underground de Londres. Depois de um par de álbuns em que ficaram explícitas, ainda que com uma expressão diminuta, as electrónicas abrasivas que o produtor inglês professa esplendidamente ao vivo, algures entre as órbitas distorcidas do grime - com batidas ruidosas, vozes filtradas e ambientes sombrios - e a referência subliminar às envolvências mais "pacíficas" da revolução contemporânea do dubstep, Adapt recolhe algumas remisturas do anterior longa-duração (Extend, de 2005) e três peças novas. No fundo, este mini-álbum parece moldado à medida de um maior reconhecimento dos méritos de Milanese; ao lado da deliciosa tríade de originais - sem dúvida, a abrir o apetite para um próximo álbum - desfila um punhado de remixes de escol, coisas assinadas pelos conterrâneos Mark Bell (pioneiro da IDM sob o nome Clark), Nathan Jonson (o criador por detrás do conceito Hrdvision) e DJ Distance (produtor destacado da escola dubstep), entre outros. Bastante congruente e robusto na substância, Adapt desvenda alguns planos imagéticos menos conhecidos da música de Milanese e, sugerindo pontes para outras derivações estéticas (como, a título de exemplo, nas revisões breakcore sugeridas por Hrdvision e Clark ou, em ondas diferentes, a magnífica versão de DJ Distance para "Dead Man Walking"), estende decisivamente o virtuosismo das composições originais. E dá a Milanese um óptimo cartão de visita para mostrar a desconhecedores.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

St. Vincent - Marry Me

8/10
Beggar's Banquet
2007
www.ilovestvincent.com



Embora faça com este disco o seu debute discográfico a solo, Annie Clark vem fruindo, nos últimos anos, da fertilíssima experiência de partilhar palcos (e públicos) com personagens relevantes do meio musical contemporâneo. Senão, veja-se: ela empresta habitualmente a sua guitarra ao numeroso combo dos Polyphonic Spree e, em palco, também integrou a banda de suporte das digressões do mediático Sufjan Stevens e, mais recentemente, tocou com os Arcade Fire. Dito isto, não é surpresa que este Marry Me desvende um jogo de estilos indie pop bastante diversificado, com gradações suficientemente suaves e equilibradas para não causar atropelos estéticos no alinhamento e, sobretudo, para definir uma linguagem própria. Depois, as composições, mesmo partindo de uma base acústica de construções mais ou menos "típicas" da guitarra ou do piano, estão recheadas de condimentos que as desviam das convenções, ora introduzidos pelos arranjos de cordas que envolvem os trechos, ora chamados pelo uso sensato de electrónicas em fundo. A mistura irrepreensível - suportada por uma voz harmoniosa (e elástica) como poucas, algures entre o registo colorido de Leslie Feist e as contrições de Beth Gibbons - insinua uma majestade orgânica (e instrumental) que, afinal, não pretende atingir e esse é o encanto de Marry Me. Num exercício quase tântrico, Annie Clark vai manobrando, com sapiência, meras sugestões e lampejos dessa grandeza, construindo um tomo orquestral mas intimista e com os contrastes emocionais certos para enredar o ouvinte numa teia de seduções. E fazer um disco assim, um prodígio romântico e ácido no mesmo fôlego, não é para todos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

VHS or Beta - Bring On the Comets

5/10
Astralwerks
2007
www.vhsorbeta.com



Apesar de serem recorrentemente "desalinhados" (ou diminuídos) das correntes recentes de revitalização do dance-punk (onde os compatriotas !!!, Radio 4 ou The Rapture, por exemplo, são vozes dominantes) pelo facto de se colarem a estéticas próprias das vagas mainstream e pela particularidade de, um par de álbuns medianos, não ter revelado a grande canção, deles sempre se conheceu um mais ou menos anunciado fraquinho pelo lado mais dançável (ou mais funk?) do rock e da pop. De resto, essa tendência vem sendo sublimada pelo quarteto americano e parece encontrar agora, ao terceiro título, a solidez estrutural que faltou antes. Descendente natural de uma série de sons oriundos dos anos oitenta, pelo menos da cultura europeia de clube da época (The Cure e Duran Duran são luminárias reais), Bring On the Comets é um puro exercício retro, com guitarras angulares e sintetizadores a coser as texturas, refrões (tendencialmente...) orelhudos e um atractivo impulso dançante. Mas, tal como nos trabalhos anteriores, a despeito do sensível crescimento orgânico que aqui demonstram, os VHS or Beta continuam a viver de um discurso demasiado atado às suas referências e cujo alcance pouco mais faz do que esgotar-se em pastiches avulsos delas.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Super Furry Animals - Hey Venus!

7/10
Rough Trade
2007
www.superfurry.com



Genuínos herdeiros da mais fina tradição do pop-rock britânico, os galeses Super Furry Animals chegam ao oitavo capítulo do seu percurso discográfico com as certezas de uma linguagem respeitada. Acatando os ensinamentos da britpop (especialmente as reminiscências sessentistas dos Beatles) e, sobretudo, não temendo expor a veia "clássica" e generalista do rock ligeiro à sua feição mais esquizofrénica, Gruff Rhys e seus pares construíram uma identidade sonora com alguma sofisticação, uma escrita cuidada e uma capacidade natural para a reinvenção a cada trecho. Não surpreende, portanto, que este Hey Venus! - alegadamente o relato musicado das sortes de uma moça em transição de uma pequena comunidade para uma grande urbe - traga a mesmíssima atitude a que eles nos habituaram, investigando os extremos formais da canção pop mais simples. E, nesse particular, onde outros resvalam para o cliché e, consequentemente, se deixam tomar por fórmulas previsíveis, a experiência dos Super Furry Animals revela-se inesperadamente profícua na simplicidade, sugerindo um espectro pop bem mais lato do que teoricamente se preveria possível. E isso é conseguido à custa dos ingredientes costumeiros do quinteto galês (ou, por extensão, do par de registos a solo de Gruff Rhys) e, ainda que em Hey Venus! eles soem menos fantasistas do que noutros momentos, há aqui argumentos estranhamente dançáveis e de apego imediato que, mesmo que não persuadam os menos partidários da pop ou aqueles que vêm à procura de revoluções no ideário, seguramente funcionam como tese de validação do méritos possíveis do género. E, pela mão dos Super Furry Animals, a pop nunca é púbere e/ou descartável.

Posto de escuta Sítio da 7digital

sábado, 25 de agosto de 2007

Caribou - Andorra

7/10
Merge Records
2007
www.caribou.fm



Previamente dado a conhecer ao mundo sob o epíteto Manitoba - designação de que teve de prescindir, com dois álbuns editados, depois de algumas querelas forenses à volta do pseudónimo artístico do cabecilha dos Dictators - o canadiano Dan Snaith rebaptizou, em 2004, o seu conceito musical, socorrendo-se do título de uma canção célebre dos Pixies. Rapidamente sacralizado junto do escol crítico (não tanto nas massas populares...), sobretudo depois da edição de Up in Flames (2003), segundo opus onde revelou traços essenciais de um som com afinidades jazz (ou derivações Motown?) e com queda para as electrónicas sonhadoras, bem ao jeito daquilo a que as convenções costumam chamar dream pop psicadélico, Snaith é, hoje, figura de proa da música canadiana. Cultor das melodias como esteios estruturais de qualquer esquema compositivo, é nelas que Snaith deposita a subsistência das canções deste disco. Seguindo o rasto do antecessor (The Milk of Human Kindness, de 2005), Andorra é uma confiante sinfonia de tons pop, recordando os ornamentos exuberantes de alguns dos artesanatos sonoros dos 60's ou dos tricotados krautrock dos 70's, algo bem distante das electrónicas introvertidas e irresolutas do início de carreira. Ao mesmo tempo, para além de despontar um notório acréscimo de confiança nas capacidades vocais, revela-se, por detrás de extravagantes texturas que combinam instrumentos reais e feitiçarias sintéticas, uma escrita segura nas suas fantasias, contagiante e rítmica, pejada de cores e multiforme. A mistura pode nem sempre sair bem apurada, resvalando aqui e ali para um certo enfado e inconsequência (pormenores particularmente penalizadores da coda "Niobe") que a excelência da produção e o bom senso de atalhar o disco nos nove trechos não escondem. Ainda assim, não falta em Andorra matéria para uns quantos deslumbramentos...

Posto de escuta Melody DayAfter HoursEli

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Piana - Eternal Castle




Foi um encontro casual com Katsuhiko Maeda (mentor do projecto World's End Girlfriend), por ocasião da gravação do seu álbum Farewell Kingdom (2000), que fez o obséquio de apresentar a voz da nipónica Naoko Sasaki ao mundo melómano fora das fronteiras do Japão. De então para cá, a jovem cantora/compositora vem firmando o seu nome na povoada cena internacional da pop ambiental recorrentemente rotulada de etérea e, antes deste Eternal Castle, editou um par de registos marcados pelo desprendimento de formas das composições. Conjugando o apuro estético que herdou da formação clássica de pianista com as influências colhidas junto das melhores escolas da melodia "flutuante" (nesse particular, os instrumentais chegam a sondar ambientes de enlevo nórdico de uns Sigur Rós), Sasaki cruza elementos acústicos (pianos e cordas várias) com interferências digitais deambulantes. Depois, junta-lhes cantos de pura eufonia, com o doce acanhamento e a fragilidade de cristais de uma infância esperançosa (os trejeitos vocais são próprios de uma petiz cantora) que, com uma magnífica versatilidade, acomoda em tecidos orgânicos densos, é certo, mas leves o suficiente para tentar (e conseguir) a levitação. Cândido, onírico e apaixonante pelo fausto sensorial que deriva das construções melódicas, Eternal Castle é um álbum para escutar como um cortejo de utopias e pode muito bem ser, a despeito de um ou outro cliché tonal, o impulso derradeiro para a afirmação internacional de uma visão aprimorada (leia-se reciclagem sintética da pop clássica de câmara) do novo electro-pop japonês e de uma das suas mais insignes intérpretes. Argumentos para isso não lhe faltam.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

M.I.A. - Kala

7/10
Interscope
2007
www.miauk.com



Tendo-se apresentado ao mundo com a surpreendente caixa de ritmos (e melodias) que fora Arular (2005), Maya Arulpragasam (vulgo M.I.A.) deu-nos um dos mais peculiares exercícios de miscigenação cultural da música contemporânea, facto devidamente consagrado nas listas de melhores registos de há dois anos. Nesse disco, a cantora britânica (nascida no Sri Lanka) dissimulou a evidente inclinação kitsch das composições (de resto, devidamente suportada na "máquina" visual que identifica o conceito M.I.A....) num saudável revestimento orgânico que conjugava coordenadas de contágio dançante com ingredientes oriundos das várias escolas funk e hip-hop e algumas frequências afro-brasileiras. A receita é a mesma neste Kala, embora a proposta vá um pouco mais além na "globalização" das matérias invocadas. Senão, veja-se: além do imprescindível funk carioca (substância preponderante no primeiro disco), há sons de Bollywood, samples disfarçados de New Order, candomblés, sons de vídeo-jogo, raps aborígenes, hip-hop nova-iorquino, reggae adulterado e muitos outros micro-sons. O busílis da mescla é que, ao contrário do que M.I.A. e Diplo (o americano é produtor) haviam conseguido no debute, ainda que seja notório o alargamento da gama de influências, não se vislumbra neste Kala o mesmo feitiço melódico que era a escora segura para a prolixidade estética do conjunto em Arular. Sendo, assim, órfão de uma vocação melódica mais convincente (o traço típico de Arular tem descendência segura em "Hussel" ou "Come Around") e de um apuramento de conceitos com outra coerência, o disco acaba por assemelhar-se mais a uma amálgama casual de ideias vindas de um mente prolífica (e desregrada) do que propriamente a um trabalho concluso. Vale como atestado de continuidade ou, se quisermos, como documento de transição para ambições de (ainda) maior eclectismo, com as permeabilidades que isso acarreta.

Posto de escuta Sítio da 7digital

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Prinzhorn Dance School - Prinzhorn Dance School




Dois pormenores podem acelerar conclusões precipitadas sobre este disco. O primeiro deles, e mais imediato, está no nome do par britânico feito por Tobin Prinz e Suzi Horn. De gente (e música) depositada sob o nome de "escola de dança" seria natural esperar-se um trabalho de cariz dançável e não é isso, nem por sombras, aquilo que eles se propõem fazer. A segunda particularidade que nos remeteria, ao engano, para o âmbito da música "dançável" (ainda que nas vertentes experimentalistas, e não necessariamente electrónicas na essência, que convivem de perto com outras estirpes de som), é o facto de eles serem apadrinhados pela DFA que, como sabe quem segue de perto o fenómeno musical, é o quintal editorial de James Murphy. Nesse aspecto, de resto, o conceito Prinzhorn Dance School não encontra paralelo no catálogo do selo nova-iorquino. O contraste nota-se especialmente no minimalismo estrutural da música assinada por Prinz e Horn (por oposição ao colorido orgânico de uns Black Dice ou Rapture), ao jeito de uma versão ainda mais esqueletal e despojada dos The Kills. A fórmula não é propriamente original - fraseados repetitivos e não muito elaborados de guitarra/baixo e pontuação tosca mas firme da bateria - e, a despeito de ser executada com uma dose de credulidade que suscita entusiasmos nas primeiras audições do disco, acaba por enredar as composições num irónico espartilho. Aquilo que supostamente deveria funcionar como a força motriz das peças, o seu hiperbólico minimalismo, torna-se, afinal, na mais ingénua castração das suas potencialidades.

E o disco segue assim: as vozes debitam algumas banalidades num registo próximo do spoken word protestante, incapazes de descolarem de um monocordismo alarmante; a bateria cinge-se a fazer uma escolta meramente metronómica das insinuações melódicas da guitarra, sem rasgos de exaltação; o baixo e a guitarra (mais casual) são o acontecimento relevante de Prinzhorn Dance School, especialmente o baixo de Horn, a dar o tom e a dirigir as composições para a ordenação melódica que, infelizmente, não chegam a ter. Fazem lembrar os Young Marble Giants e têm a atitude do início de carreira dos The Fall - e isso será suficiente para apaixonarem muitos e afastarem outros tantos - mas talvez lhes falte trocar a presunção minimalista por uma orgânica mais preenchida para elevarem os seus (bons) expedientes e atitude a um estrato mais consentâneo com os méritos que neles se adivinham. E a plenitude potencial destas canções é espreitada apenas de soslaio.

sábado, 18 de agosto de 2007

Portugal. The Man - Church Mouth

7/10
Fearless Records
2007
www.portugaltheman.net



É mais que provável que as afinidades imediatas dos americanos Portugal. The Man com a nossa pátria lusa acabem precisamente no título de baptismo que escolheram. Reunido no Alasca no início do novo século, o trio - foi temporariamente um quarteto, por ocasião do recrutamento do percussionista Jason Sechrist, para se juntar aos co-fundadores John Gourley (guitarra/voz), Zach Catothers (baixo/voz) e Wes Hubbard (teclas/voz), até à deserção deste último - encontrou fonte de projecção no espaço cibernético, aí semeando o embrião das suas ideias musicais. Durante o ano de 2004 e aos poucos, as composições disponibilizadas na web deram azo a um calmo burburinho à volta da música do trio e a sequência de eventos culminaria com o debute discográfico Waiter: "You Vultures!". Embora o disco não tenha merecido especial atenção dos grandes mercados, talvez por estar envolvido numa certa indefinição idiomática entre diversas opções de revisitar o rock independente clássico e moldá-lo em sonoridades hodiernas (leia-se Beatles vs Black Sabbath vs. T-Rex vs. Mars Volta), já aí se desvendavam algumas das matérias essenciais de Gourley e companhia. E, nesse particular, Church Mouth abrevia indefinições, corrige alguns excessos vocais do antecessor e, en passant, mostra uma escrita vigorosa e reforçada pelo facto de encontrar pontos de equilíbrio mais consistentes e uma orientação melódica mais precisa. Mais um panfleto, este com méritos de evidente crescimento artístico dos protagonistas - quiçá a caminho de um grande disco, assim sejam eles capazes de aprimorar o pendor experimentalista - no estafado furor revivalista que despontou no orbe rock dos últimos anos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Pan Sonic - Katodivaihe

8/10
Blast First Petite
Matéria Prima
2007
www.phinnweb.org/panasonic



As latitudes escandinavas não são propriamente terreno muito fértil para a música electrónica mas, de entre alguns honrosos intérpretes de excepção nesse estilo, destaca-se o projecto finlandês Pan Sonic (inicialmente o nome era grafado Panasonic). Espaço criativo dividido por Mika Vainio e Ilpo Väisänen há mais de uma década, tornou-se célebre a visão expansionista com que o duo estuda as potencialidades da techno minimal em combinação com texturas importadas do universo industrial, do hardcore digital ou mesmo do noise e do glitch. Katodivaihe é mais um exercício de tons analógicos inquietantes e peças fracturadas e cíclicas, sem traços melódicos definidos (nem sequer insinuados), antes denunciando um pendor de certa austeridade orgânica, na linha de depuração estética que a extensa discografia do conceito vem demonstrando nos últimos anos. Cada vez mais próximos das órbitas IDM mais caliginosas, Vainio e Väisänen (ajudados pontualmente pelo violoncelo lúgubre de Hildur Gudnadottir) prescrevem, aqui, dois tipos de construções: as mais ritmadas e ruidosas, também mais hostis para os tímpanos (como nas galopantes repetições de "Lähetys"), e as menos sequenciais, marcadas pela dispersão das texturas ("Hertsilogia" é paradigma disso) e pelos efeitos cerebrais (ouça-se a magnífica "Hyönteisistä"). Em qualquer dos casos, o desembaraço, a experiência e o conhecimento profundo das possibilidades da música sintética são notórios, desembocando em sensações auditivas (e mentais) que, não sendo de consumo imediato nem isento de vertigens, deixam sinuosos reflexos de êxtase na mente. Algures entre o ruído quase sádico e a filigrana digital da contemplação, está o lado negro da techno.

Posto de escuta Sítio da Boomkat

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Night of the Brain - Wear This World Out

6/10
Station 55
Flur
2007


O chileno Cristian Vogel tem carreira feita no universo das experiências electrónicas, seja a nome próprio - foi assim que assinou as obras mais relevantes de um percurso com uma década e meia (como, a título de exemplo, Specific Momentific (1996), documento essencial das descendências de Brian Eno) - ou em parceria com Jamie Lidell no extinto projecto Super_Collider. Tendo em conta esse passado, o conceito Night of the Brain, com claríssima vocação rock (pelo menos na definição da era embrionária dos Sonic Youth), é uma transição surpreendente. Não sendo caso único neste ano - Harvey Basset, outro nome da música "de dança", já nos mostrara, num formato distinto, idêntica predisposição nos planos de Map of Africa - nem se tratando necessariamente da desistência de Vogel da identidade musical que edificou (está previsto um novo opus a solo para o final do ano), Wear This World Out é, sobretudo, a resposta natural a uma mente inquieta que, pontualmente, renova excitações noutros sabores musicais, bem distantes do techno cristalizado.

Para concretizar esse desvio, Vogel (aqui nas incumbências de guitarrista/vocalista) mudou-se para Barcelona e reuniu um quarteto prometedor de músicos: a navarra Merche Blasco, a Burbuja emergente de Espanha, mexe electrónicas e dá voz; Cristobal Massis, académico chileno do jazz empresta percussões; Mike Hermann, figura destacada do underground digital berlinense (sob o cognome Intercooler), é o baixo. Musicalmente vacilantes entre o romantismo despojado e o paranóico exercício de misantropia, as composições assentam em estruturas simples, com algumas variações rítmicas e heterogeneidade própria da interferência de músicos com "escolas" díspares. Ainda assim, a despeito das aptidões que a mescla demonstra em alguns instantes mais soltos do disco (como na quase-progressiva "Ghosts"), grande parte do alinhamento perde verosimilhança enquanto aplicação rock, em razão da indeterminação estética do disco e, acima disso, da conotação com fraseados melódicos e texturas mais próprias da música electrónica (como na curiosa "Connecting Changes" ou, ainda mais, no trip-hop de "Winter Wine").

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Architecture in Helsinki - Places Like This




Surgindo depois do lançamento de uma versão remisturada do álbum anterior a este (por gente como DAT Politics, DJ Mehdi, Isan ou Hot Chip) que prenunciava um certo desígnio de redimensionamento das electrónicas mínimas do início de carreira para escalas mais ambiciosas, o terceiro registo de originais dos Architecture in Helsinki vem confirmar o propósito expansionista que o octeto (agora sexteto) australiano já tentara no segundo opus. A manobra encerraria sempre o risco de hipotecar parte significativa do charme pop-sinfónico do grupo, ou não fossem precisamente a intimidade e a prudência das texturas as mais-valias primárias do seu som. E se In Case We Die demonstrou ser possível franquear o universo melódico a amplitudes de optimismo mais largo, sem se perder a honestidade da proposta, este Places Like This soa algo forçado nesse intento. A insistência em sublinhados psicadélicos (mimetismo desvirtuado dos Flaming Lips?) menos congruentes do que no passado e, sobretudo, o pendor sistémico das canções para se abeirarem de convenções pop mainstream (o disco chega a trazer à memória os B52's, especialmente na primeira metade) e de um conformismo instrumental não conhecido na banda, são as fendas por onde se somem energias desaproveitadas. Um passo atrás.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Original Silence - The First Original Silence

8/10
Smalltown Superjazz
Trem Azul
2007


Quando se usa o epíteto de "super-banda" para caracterizar um colectivo de músicos ilustres, invariavelmente o peso da adjectivação deriva mais da majestade individual de cada um dos protagonistas de per si do que propriamente da expressão ou perduração do conjunto. E, as mais das vezes, como comprovou a história recente do fenómeno musical, esses sacralizados colectivos são de vigência curta, raramente durando além de um ou outro episódio discográfico pontual e um punhado de actuações quase casuais. The First Original Silence é outra achega para a lista das constelações notáveis - ver-se-à depois se vem para durar. O rol de músicos é maiúsculo e reúne figuras de proa do orbe rock experimental com sumas gentes do universo jazz vanguardista. Senão, veja-se quem eles são: Thurston Moore, guitarra sobrevivente dos Sonic Youth, Jim O'Rourke, prolífico guru da cena indie (aqui ao comando das electrónicas), Mats Gustafsson e Paal Nilssen-Love, compinchas (saxofone e bateria, respectivamente) nos imponentes The Thing, Massimo Pupillo, guitarrista dos italianos Zu e Terrie Ex, libertino punk dos The Ex.

De militantes tão dedicados às feições free da música não seria de esperar outra coisa que não o que se escuta aqui, uma sessão (dividida em duas peças) de incansável e agitado improviso, onde é possível sentir a interacção e a dinâmica entre os músicos e um soberbo sentido de coesão estética. De facto, ainda que sendo um exercício de pura especulação (o encontro dos músicos aconteceu num festival italiano e sem ensaios ou composições prévias) e, nessa condição, se perceba a propensão desregrada de cada um dos discursos individuais envolvidos, The First Original Silence desvenda um idioma uno, a aproximar-se da bizarra liquidez da cacofonia e, sobretudo, segurando o interesse do ouvinte no suspenso efeito-surpresa. Sem qualquer compromisso melódico - jamais a melodia poderia subsistir na colisão espasmódica entre o noise rock e o jazz livre - o disco é arquitectado essencialmente na tensa concatenação de ideias, com os zénites e sinergias a aparecerem no momento certo e sem ponta de estagnação, mesmo naqueles instantes em que a placidez toma conta do festim. Em suma, um assombroso exemplo das virtudes da música improvisada (suplantando o bom trabalho que Moore, O'Rourke e Gustafsson fizeram com o Diskaholics Anonymous Trio e antes da estreia em disco dos OffOnOff, com a outra metade-trio dos Original Silence, lá para o Outono) e um registo autêntico de músicos que não se ficam pelos ajustes na hora de inventar sem regulamento e sem pauta. Venha de lá o encore...

domingo, 12 de agosto de 2007

Chuchurumel - Posta Restante

7/10
Edição de Autor
2007
www.chuchurumel.com



Concebido como se fosse uma colecção de cartas musicadas com destinatários escolhidos entre um rol de entidades (pessoas e estímulos) que, de uma forma ou de outra, marcaram o percurso do conceito Chuchurumel, o segundo álbum imaginado pelos guardenses César Prata e Julieta Silva retoma algumas das pistas sugeridas pelo trabalho de estreia. Não é difícil descodificar a fórmula musical desvendada por Posta Restante; ela é, sobretudo, alicerçada no conhecimento profundo das mais arreigadas tradições musicais lusas - onde, de resto, a dupla recolhe algumas das substâncias cruas mais valiosas do seu som (os fraseados melódicos da concertina, da sanfona, da ocarina ou da gaita-de-foles são exemplos) - e na competentíssima integração dessas matérias nos reflexos de modernidade das programações e dos sons processados. Embora não seja fácil domar uma linguagem assim atemporal, com os olhos a venerar o passado e as mãos a esculpir o presente de amanhã, o novo opus dá mostras, não havendo abrandamento da cisma experimentalista que se conhecera no debute, da afinação do discurso (por comparação com No Castelo de Chuchurumel). Com efeito, o pacto do tradicional com o contemporâneo é muito mais espontâneo e eloquente, produzindo uma obra de consistência assinalável e em que as fragrâncias de modernidade já não parecem furos no manto de memórias. Organicamente fértil e construído com uma sensibilidade rara, Posta Restante é um dos mais sólidos argumentos que a música tradicional viu serem escritos em seu favor nos últimos anos. E, ironia suprema dos talentos de César Prata e Julieta Silva, a melhor defesa dos ensinamentos etnográficos e da imprescindível fecundidade da tradição é, afinal, servida em revestimentos da mais fina modernidade. (Bons) sinais dos tempos...

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Guitar - Dealin With Signal and Noise

6/10
Onitor
2007
www.onitor.de



Mesmo não merecendo créditos nas listas de melhores discos dos últimos anos, o germânico Michael Lückner vem construindo, em passinhos de lã, uma entidade musical consistente sob o nome Guitar. Apesar de, em determinados momentos do seu trajecto, essa solidez estética ter sido razoavelmente posta em cheque, em razão de uma ou outra digressão pontual por paisagens de sons diferentes, é hoje claro que, usando a guitarra como ferramenta condutora e sempre com um fundo orgânico de electrónicas várias e ruído, Lückner encontrou o seu equilíbrio num registo melancólico e algo resignado, com um punhado de referências estruturais importadas do shoegaze. Sem guardar imprevistos na estrutura, a surpresa deste Dealin With Signal and Noise chega na versão (algo vacilante) da celebérrima "Just Like Honey", dos Jesus and Mary Chain (ironicamente, a faixa aparece creditada a Lückner no disco...). No resto, nada de especialmente novo: repetem-se os favores vocais da japonesa Ayako Akashiba (o contraponto para a certa insipidez verbal de Peter Marchese, a outra voz do álbum) e as melodias mergulhadas em ruído, as malhas de guitarra - ouçam-se a interessante fantasia de feedback de "Ballad of the Tremoloser" e a construção melódica minimalista de "Live at Hotel Palestine" - e as ondulantes presenças do ruído. Mesmo assim, não obstante o conforto de uma ou outra peça bem conseguida, Dealin With Signal and Noise pouco acrescenta ao dote já conhecido de Lückner.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Zita Swoon - Big City

7/10
Chikaree Records
Sabotage
2007
www.zitaswoon.com



O belga Stef Kamil Carlens, o guru-fundador dos Zita Swoon e antigo baixista dos dEUS, não é homem de lugares estacionários. Para ele, a música é fecunda enquanto linguagem-reflexo de vários estímulos e influências e, nessa condição, deve ser um produto dinâmico e livre de formatações. Comummente catalogada como parte da comuna pop belga, em boa verdade há na música dos Zita Swoon numerosas referências estéticas além dessa, ora colhidas junto da folk americana (até mesmo da escola blues), ora repescados da fina tradição da chanson française e da soul music ou mesmo de planos vários do funk e do reggae. Big City, quarto registo do grupo (com o nome Zita Swoon), confirma a lhaneza do discurso acústico que se conhecera nos capítulos antecessores, ainda que surja envolto numa aura mais positiva do que A Song About a Girls (2005) e, sobretudo, numa paleta de géneros um pouco mais larga. Feito de canções de recato e sem cosméticas supérfluas (como, de resto, é o timbre dos Zita Swoon), o disco desvenda uma concentração mais consistente das inúmeras ideias por detrás da escrita e é, nesse sentido, a mais recta colecção de canções de Carlens. Não obstante a uniformidade estética que, a espaços, pode aqui confundir-se com alguma monotonia - pela omissão de contrastes - Big City deixa uma certeza: Stef Kamil Carlens é um escritor de elegias a merecer vivas de outros públicos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Thomas Fehlmann - Honigpumpe

7/10
Kompakt
2007
www.flowing.de



Não obstante o facto de o seu nome estar ligado a alguns dos epicentros marcantes da electrónica europeia dos últimos trinta anos (mormente os injustamente subvalorizados Palais Schaumburg), o suiço Thomas Fehlmann apenas despontou para o mediatismo com o projecto The Orb, já na década de 90. Foi aí que, ao lado de gente como Alex Paterson, assinou trabalhos pioneiros na área do house medido para ambientes after-party. Na substância, o conceito produziu um punhado de álbuns dados a descobrir virtudes atmosféricas na música dançável, baixando-lhes o ritmo, introduzindo-lhes estruturas rítmicas próximas do dub e adicionando-lhes ensinamentos importados dos universos escapistas de Brian Eno. Honigpumpe (traduz-se "bomba de mel") completa uma tríade de álbuns a solo do produtor helvético e retoma as causas dos Orb. É um disco magnetizante na forma como desenha atmosferas com uma curiosa tensão melódica entre a volatilidade dos ambientes e a densidade dos pedaços mais dançáveis. Essa ambivalência estética, aqui sopesada com um equilíbrio notável (créditos à produção!), é o garante da fluidez de um disco que, lançando mão de camadas repetitivas de som (a lógica 4/4 é a regra), não chega a soar iterativo. E, afinal, Fehlmann mostra-nos, com a sapiência de um mestre sabido, que é entre a evocação nostálgica de paisagens sonoras e o nervo hipnótico da dança que se acham alguns dos lugares mais estimulantes da música electrónica.

domingo, 5 de agosto de 2007

Alog - Amateur

6/10
Rune Grammofon
AnAnAnA
2007
www.alog.net



Foi precisamente há dois anos que, sem grande aparato mediático e com a edição de um álbum (o premiado Miniatures) verdadeiramente definidor de uma linguagem musical singular, Esper Sommer Eide e Dad-Are Haughan saltaram do anonimato dos cenários frios da Noruega. Nesse disco, o terceiro do percurso sob a designação Alog, apresentaram as premissas de uma forma curiosa de pensar a música electrónica, sem amarras estéticas e, acima de tudo, ensaiando a dinâmica de um exercício improvisado sob mosaicos de sonho de criança. Ao lado das mais variadas infusões de sons pouco "musicais", surgiam arquitecturas digitais de excelente efeito e elementos acústicos sem objectivos perfeccionistas. A combinação é retomada neste Amateur, onde se sublinha a natureza "amadora" do universo Alog, pelo menos no carácter amorfo (desprovido de forma) e quase tosco com que se juntam as variadíssimas fontes de som, muitas vezes com sabores de improviso (como no delírio de percussão de "A Throne For the Common Man") ou, noutros casos, pejadas de assimetrias melódicas. As vozes, raras mas quase sempre em corais pastoris, têm o condão de dimensionar a música para uma quimera incerta, suportada, de resto, por intervenções mais pontuais da electrónica (por comparação com trabalhos prévios). No fundo, Amateur, sendo um exercício mais especulativo - e menos melódico - do que o antecessor, é, também, mais um capricho de ingénua (porque exploratória) composição electro-acústica do que propriamente uma obra digital ultimada (aqui, a electrónica é ferramenta de filtro para os sons originais, não é matéria de base) e, nesse aspecto, destaca-se da restante obra do catálogo Alog. E, como é habitual nos discos de Eide & Haughan, partilham o mesmo alinhamento instantes de pura magia experimentalista ("Son of King" ou "The Future of Norwegian Wood" são dois bons exemplos) com despautérios despropositados (veja-se o quase-silêncio de "Sleeping Instruments). Sinais de inconsistência que, mesmo penalizando o desempenho do álbum como peça inteira, não deslustram a marca diferencial do universo Alog.

Laub - Deinetwegen




Sediados em Berlim, e portanto rodeados por uma das mais estimulantes escolas da electrónica europeia, dificilmente Jürgen Kühn e Antye Greie-Fuchs (também assina, a solo, como AGF) não cederiam ao impulso da música digital. As primeiras expressões artísticas de um percurso que conta mais de uma década de actividade como Laub, já mostravam apetites pelo experimentalismo em volta de entrechos electrónicos. Se, nos discos anteriores, o minimalismo (ou austeridade) estrutural das composições desvendava afinidades com a pop electrónica, sobretudo na forma como a voz convertia as peças a convenções não percebidas na porção orgânica, este Deinetwegen evidencia uma depuração diferente. Sem recorrer a samples, o duo germânico propõe-nos uma desconstrução da estética blues. A adição de inúmeros apontamentos de guitarra - como se imporia em qualquer trabalho gravitando nessa órbita - não só acrescenta afectividade às texturas como, acima disso, desvia os exercícios vocais de Greie-Fuchs do torpor do costume, levando-a para um registo mais emotivo (escute-se, a título de exemplo, a sublime "Sommer 2006"). Não sendo os blues, pelo seu poroso espiritualismo, a mais natural fonte de sinergias com os tecidos frios da dupla alemã, a verdade é que a combinação se revela, a espaços, uma surpresa aprazível e, a despeito de uma outra peça desfocada, vale a pena espreitar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Tomahawk - Anonymous

6/10
Ipecac
Sabotage
2007
www.ipecac.com



Embora o nome de Mike Patton roube a quase totalidade do protagonismo do projecto Tomahawk, não fosse ele um das personagens mais prolíficas e um dos ícones da cena rock actual (apesar da débâcle recente da identidade Peeping Tom), a verdade é que o mentor da ideia é Duane Denison, guitarrista que ganhou notoriedade nos Jesus Lizard. Foi, de resto, uma digressão de Denison, ao lado de Hank Williams III, que o expôs ao lado "conformista" da tradição musical norte-americana (leia-se música country e diversas variantes da folk) e o motivou a procurar energias nativas mais rebeldes e espontâneas. Anonymous é precisamente o fruto das inspirações colhidas por Denison no contacto com os sons de alguns rituais e celebrações tribais. Academicamente, este tipo de (re)interpretações/adaptações/fusões de sons autóctones não é uma originalidade - ainda que esteticamente díspar, tem paralelo, por exemplo, no trabalho dos Sepultura com as tribos Xavantes para o seminal Roots - e normalmente resulta numa obra de coesão forçada, seja pela dispersão das fontes ou pelo presumível antagonismo entre linguagens antigas e perspectivas artísticas correntes. No caso de Anonymous, essa desarmonia estrutural é notória também na formatação das composições, umas mais próximas da tensão frenética típica dos Tomahawk, psicadélicas e libertinas, outras abeirando-se de um registo brando e próprio de praxes meditativas. Em qualquer dos casos, Denison, Stanier (é uma das forças vivas dos Battles) e Patton propõem-nos uma transfiguração da banda, decididamente menos eléctrica e à procura de pontos de equilíbrio entre os estímulos da tradição índia e o experimentalismo abstracto da marca Tomahawk. Na mescla, apesar do muito razoável alcance de alguns momentos, acabam por perder-se virtudes de ambos.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Fridge - The Sun

6/10
Domino
AnAnAnA
2007
www.myspace.com/
fridgemusic



Embora para muitos o conceito Fridge não seja mais do que uma mera incógnita, foi nele que o (hoje) consagrado Kieran Hebden (o cérebro da insígnia Four Tet) fez o tirocínio nas lides musicais, ao lado do baterista Sam Jeffers e do baixista Adem Ilhan (também ganhou notoriedade solo com a assinatura Adem). Curiosamente, a reputação crescente dos trajectos individuais de Hebden e Adem e a confirmação das suas competências como produtores viriam a votar ao quase esquecimento o título Fridge, facto comprovado pelo pousio de seis anos que antecedeu este The Sun. Pode, portanto, falar-se da reunião de um trio de amigos e da regeneração de uma fórmula musical que, em finais da década de 90, embora partindo de uma formação clássica de trio rock, aproveitou o embalo da moda experimentalista do pós-rock - pelo menos no seu desembaraço formal - reformatando-o pelo prisma da electrónica minimalista que, entre outras luminárias, buscava no jazz (e na subsequente integração de diversos condimentos instrumentais) a referência quintessencial. O longo interregno de seis anos (e a consequente separação de águas entre o folk de vanguarda de Adem e as propostas de anarquismo orgânico de Hebden) parece não ter deprimido fatalmente a empatia musical que unia os músicos e, nesse particular, o disco dá provas de razoável sobrevivência do discurso "histórico" dos Fridge. Ainda assim, um ou outro instante inspirado (como "Oram" ou "Eyelids"), não evitam a conclusão de que a mescla nem sempre soa tão genuína como noutros tempos e parece respirar segundo a regra equilibrista (entre pesados egocentrismos) do ora-agora-brilhas-tu-ora-agora-brilho-eu, o que, em último caso, atravanca as reais hipóteses de The Sun se afirmar como obra de estética definida ou como declaração de válido renascimento dos Fridge.

Posto de escuta EyelidsOramInsects

domingo, 29 de julho de 2007

Bernardo Sassetti - Dúvida

8/10
Trem Azul
2007



Em paralelo com o percurso de escrita "académica" que o sancionou como um pianista jazz de escol e um dos mais talentosos compositores lusos da sua geração, Bernardo Sassetti tem vindo progressivamente a afirmar-se também na incumbência de produzir música de alcance cénico, para povoar ambientes do cinema e/ou do teatro. O acontecimento mais recente é este Dúvida, pensado para musicar a peça homónima de John Patrick Shanley, levada à cena no teatro Maria Matos, com encenação de Ana Luísa Guimarães e com Eunice Muñoz e Diogo Infante a encabeçarem o elenco de autores. Com a companhia oportuníssima da Sinfonietta de Lisboa (sob a direcção de Vasco Pearce de Azevedo), o registo é o mais clássico dos trabalhos do pianista, com o piano a desfiar os fraseados nucleares de cada peça, as mais das vezes numa inquietante oratória de placidez minimalista (nesse particular, as notas esparsas do piano encontram simetrias com a métrica despojada que conhecemos em Alice), a propor um nebuloso jogo coloquial com os acrescentos orquestrais e com o silêncio - aqui usado como sala de respiro onde as composições ganham novos fôlegos e regeneram causas. Nostálgico, nervoso e subliminarmente sombrio, Dúvida deixa-nos tão perto da fantasia romântica quanto do arquejo medroso da incerteza (como no texto original) e isso, com a espantosa noção de proporção de Sassetti, é a iniciação infalível para uma experiência auditiva única.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Nina Nastasia & Jim White - You Follow Me

8/10
Fat Cat
Flur
2007
www.myspace.com/
ninanastasia



A viver um momento especialmente criativo da sua carreira, ainda que raramente notada pelos grandes públicos, a nova-iorquina Nina Nastasia é uma das mais assombradas descendentes da fina tradição folk da música americana. Com um quarteto de discos religiosamente leais a uma certa solenização crua da melancolia, da mágoa e da desilusão, feita sobretudo à custa de composições que, construíam melodias minimais em volta da tensão vocal da compositora, depois adquirindo amplitude em altivos arranjos semi-orquestrais, a música de Nastasia já não guarda segredos. Esse intimismo quase pastoral é retomado neste You Follow Me. Jim White, excelso baterista dos Dirty Three (ao lado de Mick Turner e Warren Ellis) e parceiro de gravação desde os tempos de Run to Ruin (2003), é aqui mais do que um figurante e co-assina as peças do alinhamento, precipitando sobre as composições uma brilhante vocação arrítmica (por vezes, confunde-se com dissonância), em certos momentos a roçar o improviso ou o ligeiro psicadelismo. Tudo coisas que jogam maravilhosamente com a afectuosa amargura do canto e dos dedilhados de Nastasia.

Desde que os primeiros acordes do disco se espalham no ar, se percebe que You Follow Me é também o mais despido dos álbuns de Nina Nastasia, sem os característicos arranjos de opus anteriores. Reduzidas a um esqueleto de cumplicidades inatas entre voz, bateria e guitarra, as canções habitam um espaço de empatias naturais entre os dois músicos e consomem energias fortuitas (por isso tão encantadoras) do contratempo entre o recato confessional de Nastasia e o nervo inquieto de White. E perceber como, ao contrário do que seria expectável, a vitalidade da percussão excitada de White - do melhor que se ouviu nos últimos tempos em disco, a repescar alguma da feitiçaria dos Dirty Three - não corrompe minimamente o intimismo de Nastasia e, ao invés, lhe injecta uma silhueta de esperança, é uma das melhores surpresas que este ano discográfico nos trouxe.

Posto de escuta Sítio da Fat Cat

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Pelican - City of Echoes

5/10
Hydra Head
2007
www.pelicansong.com



O terceiro registo do quarteto Pelican é demonstrativo do apuramento incerto que a música destes californianos vem registando desde o debute discográfico de há quatro anos, com o pesado Australasia. Já aí a comunidade melómana vira neles o rótulo art-metal, pela mescla instrumental de riffs importados do género doom com uma propensão melódica próxima do escapismo pós-rock ou das escalas progressivas. Essa mistura, as mais das vezes trazida à colação no registo de contrastes ou na lógica de crescendos demorados que celebrizou os compatriotas Isis (no caso dos Pelican sem a voz, é claro), seria retomada no segundo opus do grupo, The Fire in Our Throats Will Beckon the Thaw, com a novidade da introdução pontual da guitarra acústica. Notoriamente menos grave do ponto de vista das distorções, ainda que sob a mesmíssima moldura conceptual, o álbum destapava o desejo do quarteto de buscar outra amplitude cénica (e espessura artística) para a sua música, sem minorar a vocação metal que lhe corre nas veias e, sobretudo, apelando à transcendência intimista. City of Echoes mostra-nos outra face desse polimorfismo gradual dos Pelican. Não se trata propriamente de qualquer corte radical com o passado mas o novo registo mostra-nos música enredada nas contingências próprias de outras incertezas estéticas, algures no gume entre o metal rústico (embora, aqui, ele raramente se revele na plena expressão) e a libertação espiritual das texturas pós-rock. Na tentativa de tornar essa "evolução" menos errante (e, talvez, menos metal...), a opção pela redução do tempo médio dos trechos parece natural mas, não obstante a utilidade, a espaços, de alguma subtileza, não deixa de dissipar-se parte significativa do alcance das composições.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Matthew Dear - Asa Breed

8/10
Ghostly International
2007
www.matthewdear.com



Apesar de alguns dos seus heterónimos gozarem de um certo impacto mediático (o conceito techno minimalista Audion é a sua manifestação mais conhecida) nas esferas da música electrónica "dançável", é com o próprio nome que Matthew Dear tem assinado as propostas mais consistentes (e quiçá mais "convencionais") de um percurso essencialmente dedicado à investigação das potencialidades criativas da música de orgânica digital. Este álbum, como de resto já antecipara o registo anterior com esta assinatura, desvenda uma propensão pop que não tem paralelo nos demais alter-egos artísticos de Dear e que, ainda que ancorada nos mesmos princípios orgânicos, assenta num registo mais lacónico, ao jeito do formato canção (por oposição às fórmulas habitualmente estendíveis da cartilha techno), com o necessário investimento na voz. Se bem que esse propósito mais imediatista desbrave outras faces do ideário do músico/produtor, mormente enquanto belíssimo exercício especulativo de depuração dos conceitos techno rumo a uma coisa maior (quando se chega ao final de Asa Breed já só restam sombras abstractas desse ponto de arranque), há também, no reverso, uma subliminar constrição do alcance cerebral da música de Dear. Mas, afinal, aqui não joga a identidade Audion. O que, em face dos sólidos atributos destas canções, só vai desiludir aqueles que, sendo admiradores do discurso minimalista de outros trabalhos, talvez não encontrem aqui o desafio do costume. Os outros facilmente se renderão a uma escrita que, não patenteando certezas estéticas, é um deleite urdido em volta das dúvidas.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Radical Face - Ghost

7/10
Morr Music
2007
www.radicalface.com



Tendo-se dado a conhecer numa parceria criativa que dividiu com o amigo Alex Kane, no radioso conceito musical a que decidiram chamar Electric President, Ben Cooper destapou, aí, algumas das linhas com que se cosem as suas fantasias pop. Agora entregue a trabalhos solitários, o músico persegue o mesmo ideário para a construção de melodias, justapondo matérias acústicas e digitais e servindo-se de idêntica noção de detalhe nas texturas (numa mescla instrumental bastante rica) e, sobretudo, de singular sentido de dimensionamento das composições. Montado sobre uma trama de cumplicidades "naturais" entre a formatação típica da folktrónica contemporânea, a mais expressiva pop de câmara (com a projecção orquestral que se impõe) e a música feita para sonhar (nesse aspecto, vêm repetidamente à memória os fraseados melódicos de Ben Gibbard), Ghost põe em prática os vários motivos da escrita escorreita de Cooper. Ele é um melancólico mas a sua música encerra alguma ambivalência emocional, algures entre o recato das noites num lugar ermo e a excitante celebração da alvorada. Ainda assim, sob uma produção que, a espaços, arrisca a excentricidade e a euforia (confirmados na exaltação vocal dos refrões), as composições não chegam a desviar-se da rota intimista e contemplativa que melhor serve estes relatos de assombrações. E mesmo que nem todas as peças induzam a empatia imediata da soberba "Welcome Home", estas fábulas são tão plácidas e leais que apetece fazer amigos entre os fantasmas...

domingo, 22 de julho de 2007

Map of Africa - Map of Africa

7/10
Whatever We Want
Flur
2007
www.myspace.com/
mapofafricatheband



Não é facto virgem que a música de dança contemporânea vem sendo, há uns anos a esta parte, o campo de oportunidades usado por uma curiosa (e pouco coordenada) vaga de protagonistas reinventores à procura de novos conceitos estéticos, ora invocando memórias respeitadas de tendência dançante e dando-lhes o toque de modernidade, ora importando (e conjugando) discursos de outras estirpes de som. Assim, já não surpreende que, de tempos a tempos, alguns DJ's invistam nesse incerto propósito de experimentar soluções alternativas para um género algo dado à inércia, desse modo vencendo preconceitos estéticos e ensaiando proximidades mais ou menos felizes com outros géneros musicais. Map of Africa é exemplo paradigmático dessa filosofia e, ao contrário do que o seu nome automaticamente faria supor, não é uma síntese da música do continente negro; ao invés disso, trata-se de uma colecção de amores (ilegítimos?) que Harvey Basset (sim, o ecléctico DJ Harvey, convidado regular das sessões londrinas Ministry of Sounds) e Thomas Bullock (uma das metades do projecto Run-N-Tug, expert na ciência do remix), dois vultos salientes da actual cena club nova-iorquina, partilham pelo rock. Nesse sentido, Map of Africa mostra um pendor contra natura de Harvey e Bullock, no sentido de que as composições louvam o legado rock setentista (e suas descendências posteriores), entre a configuração arty progressiva de uns Pink Floyd, o ênfase eléctrico dos Black Sabbath ou a indulgência dos Dire Straits, executado na sacra trindade instrumental guitarra eléctrica/baixo/bateria, por oposição à esperada determinação digital dos DJ's britânicos. A revisão de "Black Skin Blue Eyed Boys", original dos Equals, faz anúncio desses parâmetros e serve de mote para a mistura de estilos (entre o ontem e o amanhã) que lhe segue no alinhamento e que, partindo do tal património rock, vai paulatinamente evoluindo para outros planos, desde os blues ao funk, da jornada dub progressiva ao desarranjo estrutural do psicadelismo. No final, a despeito da inevitável descontinuidade estética que uma mistura tão ambiciosa sempre arrastaria, fica a impressão de que, mais do que ser uma declaração acabada de novos costumes, Map of Africa é um profícuo laboratório de assimilação de ideias e ensaios, em volta de ideários de culto. Vale essencialmente pela fascinante incerteza da descoberta.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Terry Riley - Les Yeux Fermés & Lifespan

7/10
Elision Fields
2007
www.terryriley.com



A música do compositor norte-americano Terry Riley já não esconde enigmas para os melómanos mais atentos, ou não fosse ele um vetusto criador de 72 anos que esteve no pelotão pioneiro da escola minimalista californiana e que, entre outras démarches visionárias, foi um dos precursores da lógica de repetição (e encadeamento) de segmentos na construção de uma melodia. Desde cedo versando o vanguardismo e a exploração das potencialidades meditativas da música - a que não são estranhos os seus frequentes refúgios na paz espiritual da Índia - a discografia de Riley é um dos mais fecundos patrimónios da música contemporânea e tem merecido inúmeras revisitações e referências. Nesta edição, são resgatados dois vinis da década de 70. O primeiro, Les Yeux Fermés, originalmente editado em 1972 (para uma obscura curta-metragem francesa), contém duas peças ambivalentes. Enquanto "Journey From the Death of a Friend" é uma composição típica do guru do minimalismo, com as inconfundíveis sequências de loops de orgão e camadas sobrepostas de sons orgânicos, a soberba "Happy Ending" mostra exercícios (pouco convencionais) em volta do saxofone soprano, ecoante e hipnótico, sobre belíssimas texturas de teclas processadas. As restantes seis composições do alinhamento reportam a Lifespan (de 1974), trilha sonora da película homónima com Klaus Kinski, e conduzem-nos a ambientes menos divagantes (em razão da menor extensão das faixas) mas não menos estimulantes, como é patente na irresistível "In the Summer", com fraseados de orgão atados entre si pela mestria no uso do delay e diversos adornos electrónicos a borbulhar, ao lado do mantra vocal de Riley. Coisa para fazer salivar os adeptos do vanguardismo, da (des)construção ou do improviso. E para relembrar, mesmo com as descontinuidades próprias de uma edição conjunta de duas obras sem simetria estética ou conceptual, uma das figuras emblemáticas da música do nosso tempo.

Become Not - Become Not

5/10
Ed. Autor
2007
www.myspace.com/
becomenot



As primeiras notas de "Unhappy Ending Movie", trecho de abertura do primeiro álbum do trio lisboeta Become Not, deixam no ar o prenúncio (confirmado no resto do alinhamento) de um som com profunda inclinação intimista e que aposta sobretudo na simplicidade estrutural das composições para lá chegar. Paulo Baeta (guitarra), João Guerreiro (voz) e JP (sintetizadores) abreviam o processo de construção melódica à dimensão mais introspectiva que se pode tirar da guitarra acústica, assim delineando os contornos misantrópicos das canções; depois, além da presença vocal com expressividade desencantada (pontualmente a resvalar para um ou outro cliché "meloso" que diverge do propósito ambiental das composições), desvendam-se curiosos jogos de galanteio entre a acústica e as envolvências espectrais dos sintetizadores. Estas, em jeito de catarse, são o utilíssimo complemento escapista de Become Not e, não fosse o caso de quase sempre se esconderem atrás das demais ferramentas, seriam a matéria definidora de uma identidade sonora mais consistente. Porque aí reside o busílis do álbum. A despeito de alguns momentos de efeito generoso, mormente os ápices em que as texturas se desprendem da voz e alcançam vida própria na incerteza da elevação instrumental (como no caso da peça de abertura ou de "You Never Were", os momentos altos do álbum), não chega a descortinar-se a solução identitária para a indecisa equação de estilos dos Become Not. E isso porque não é fácil conciliar, sem danos colaterais, o mais "clássico" dos registos de cantautor (em entendimento certo das virtudes etéreas da música ambiental) com um dispensável subterfúgio pseudo-romântico/baladeiro (que chega a lembrar os instantes mais chorosos dos Extreme). E mesmo uma produção cristalina não esconde o incómodo dessas impurezas.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Lindstrom & Prins Thomas - Reinterpretations

7/10
Eskimo
Ultima
2007
www.eskimorecordings.com



Dois anos correram desde que Hans-Peter Lindstrom e Prins Thomas editaram, com êxito assinalável, um registo homónimo que corria, de uma assentada, as várias coordenadas e derivações da geração disco. Furtando-se aos clichés mais vulgares do género e, sobretudo, demonstrando a saudável visão ecléctica que uma obra nesse estilo recomendaria, a dupla norueguesa fez, nesse trabalho conjunto, o justo reconhecimento de uma estirpe de sons dançáveis muitas vezes conotada com a face mais kitsch dos clubes nocturnos. Se a obra-mãe alinhava, na essência, por uma certa padronização do disco sound na sua dimensão mais "clássica", no fundo arrumando as construções melódicas em compassos funk importados da moda dos 70's, a revisão agora apresentada aposta em ondas menos anacrónicas e vincadamente mais próximas da cultura dançante contemporânea. E isso traduz-se, na maior parte das peças "novas" (algumas delas até já haviam sido publicadas em vinil), num investimento mais efectivo em ferramentas próprias das pistas de dança actuais, ou seja, numa métrica de pulsação mais forte e em texturas mais preenchidas. Neste caso, a reciclagem das estruturas originais não lhes deslustra minimamente os atributos e, ao acrescentar outras nuances rítmicas e vigor, acaba por desvendar energias e potencialidades que tinham ficado latentes no primeiro trabalho.

Posto de escuta Sítio da Soul Seduction

terça-feira, 17 de julho de 2007

Fennesz Sakamoto - Cendre

7/10
Touch
AnAnAnA
2007
www.touchmusic.org.uk



Por definição técnica, ou por obra do mero preconceito conceptual que a ela se colou com a passagem do tempo, a música ambiental foi sendo progressivamente menorizada pelos mais diversos estratos de melómanos, em virtude de, alegadamente, apenas se prestar ao revestimento sonoro de espaços. Assim, o género habituou-se a sorver uma forte componente "cénica", aí colhendo as coordenadas estruturais decisivas para o seu sucesso como música de fundo (de resto, sublinhado em inúmeros registos cinematográficos), falhando, ainda que involuntariamente, outras importantes dimensões enquanto produto artístico.

Esse rótulo inelutável foi ciclicamente somado, mormente a partir do final da década de noventa, as mais das vezes em clara desconsideração pelos méritos de alguns criadores, a uma prole imensa de seguidores dos icónicos Brian Eno e/ou Harold Budd. Acima de uma trupe de escol da manipulação digital de sons - onde figura gente talentosa como Ulf Lohmann, Alva Noto, Markus Guentner, Reinhard Voigt, Klimek, Benoît Pioulard, Taylor Deupree ou Chihei Hatakeyama - o guitarrista vienense Christian Fennesz, por força de um sólido percurso de uma década, viria a tornar-se porta-estandarte de uma "silenciosa" segunda vaga de valorização da música ambiental contra o cepticismo das massas críticas. Para servir essa causa, depois de um disco separador de águas como foi Venice (2004), nada melhor do que uma joint venture com o japonês Ryuchi Sakamoto, virtuoso clássico do piano e admirador confesso da experiência com outros sons (relembrem-se, a propósito disso, os encontros oportuníssimos com as abstracções de Alva Noto). Neste caso, a parceria não é inesperada nem pioneira. A dupla Fennesz/Sakamoto já havia editado, há dois anos, Sala Santa Cecilia, uma peça única gravada por ocasião de um festival europeu e que deixara pistas para episódios futuros. Cendre retoma as mesmas definições texturais, conjugando a linguagem directa do piano de Sakamoto, quase sempre em melodias descontínuas de intenso efeito dramático, com impressivos enxertos de sons manipulados habilmente por Fennesz, ora oriundos de ruídos ocasionais e dos dribles glitch, ora provindos de guitarras em hipnose. É certo que a combinação nem sempre disfarça a rigidez natural de duas linguagens cujo enlace não é ingénito mas que, em razão da perícia dos intérpretes, acaba por traduzir-se numa experiência com instantes de pura elevação e elegância.

Posto de escuta AwareHaruKokoro

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Dungen - Tio Bitar

7/10
Subliminal Records
2007
www.dungen-music.com



Interessado pela música tradicional do seu país desde tenra idade, o sueco Gustav Ejstes (é ele o mentor por detrás do pseudónimo Dungen), foi gradualmente cultivando uma estética sonora que, além de integrar substâncias conotadas com a folk escandinava (os instrumentos de sopro ou os violinos - a mais recente adição de Ejstes - são exemplo disso), encerra estruturas e harmonias importadas do rock progressivo "clássico" (nesse particular, as composições fazem lembrar, a espaços e com a devida distância, os Jethro Tull) e breves incursões pelo hard rock mais eléctrico. Atrás disso, para somar a dose certa de contemporaneidade (ou, se pensarmos em Zappa ou Captain Beefheart como luminárias de eleição, podemos falar em antologia) e, em simultâneo, dar às texturas formas livres, ao jeito de uma incansável jam session, Ejstes tornou-se um esteta admirador do psicadelismo - escutem-se as interacções modelares da vibrante "Mon Amour". Neste quarto opus, a proposta não difere substancialmente dos trabalhos prévios, especialmente do notável Ta Det Lugnt, de 2004, embora se desvende, com a irrepreensível competência técnica do costume (e o delírio hendrixiano da guitarra de Reine Fiske), uma proximidade maior com as convenções do cancioneiro pop. Essa ligeiríssima (mas notória) derivação estrutural, se bem que não comprometa as habituais convulsões métricas e os arranjos progressivos dos trechos, acaba por abrir fendas no mágico hermetismo do som Dungen. Ou isso ou, como é igualmente plausível, já estamos familiarizados com esta música e se sumiu a impressão de novidade que, antes, nos tomara de surpresa. O que não quer dizer que não haja neste Tio Bitar matéria mais do que suficiente para tratar com reverência. O acid rock está vivo.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Mário Laginha Trio - Espaço




Se há perspectivas artísticas que levianamente tendem a reflectir nos produtos artísticos de per si, descurando paralelismos latentes (e consequentemente ignorando concordâncias mais ou menos óbvias) que se podem traçar entre as várias formas de arte como mecanismos superiores de comunicação e linguagem, não é esse o caso do último opus de Mário Laginha. Obra encomendada por ocasião da Trienal de Arquitectura em Lisboa, Espaço é um exercício de composição que, ao lado dos códigos criativos habituais no trabalho do músico/compositor, sugere algumas incursões por conceitos caros à arquitectura; apontem-se, a título meramente exemplificativo dois pontos de contacto entre música e arquitectura, tão bem explorados neste disco: a lógica de oposição (ou disposição) de planos para ocupar o espaço - que, na música tem paralelo abstracto na dinâmica silêncio-som - ou outras disposições mais modernas, como a noção de assimetrias, tão em voga na arquitectura contemporânea - musicalmente representados pela estruturação dissonante das melodias. Em oito peças, cada uma com a sua própria natureza "espacial" e geometria (e consequente insinuação imagética), algures entre a orgânica livre do jazz e os paradigmas conceptuais que, da arquitectura, se projectam na música (planos, superfícies e espaços baralhados num simbólico universo de sons), Laginha e compinchas (Bernardo Moreira, ao contrabaixo, e Alexandre Frazão, na bateria) experimentam as imensas coincidências entre dois idiomas artísticos que encontram, no espaço (leia-se também, no silêncio), o vazio inspirador onde depositam lastros e confidências a que dão a forma de arte. E dessa interacção activa com o vácuo, do estímulo inadiável para o preencher, nascem, em instantes felizes, as mais esplêndidas obras. E Espaço, com o jeito científico de um compositor que, aqui, lê pentagramas como se fosse um aprendiz clandestino de arquitectura, é uma delas.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Mice Parade - Mice Parade

6/10
Fat Cat
Flur
2007
www.fat-cat.co.uk



Não deixa de ser sintomático de uma certa intenção reconstrutiva que um projecto musical com quase dez anos de actividade e seis discos no bornal, apenas utilize um título homónimo no sétimo trabalho da sua existência. Numa interpretação conceptualmente mais estreita, dir-se-ia que as convenções do orbe musical aconselham que isso suceda com o primeiro disco, quando, por detrás da música, estão intérpretes à procura de um espaço de afirmação. Não é esse, todavia, o caso do nova-iorquino Adam Pierce. Com nome consolidado na cena pós-rock americana sob o epíteto Mice Parade e tendo-se afirmado como emblema das electrónicas cruzadoras de géneros e do experimentalismo com diversos sabores electro-jazz, Pierce construiu uma identidade sonora a que, depois da génese puramente instrumental, foi paulatinamente acrescentando vozes (a sua e a de convidados). Depois de dois trabalhos em que, em paralelo com esse processo de integração da voz, as composições adquiriram progressivamente uma disposição muito próxima da estrutura verso-refrão, Mice Parade surge como um verdadeiro álbum de canções e, nesse sentido, é o corolário entusiasmado da redefinição estética iniciada há três anos. E assim se percebe que, no capítulo rematador dessa (re)parametrização pop, longe dos desígnios instrumentais do passado, Pierce tenha usado o título homónimo, como que certificando definitivamente a nova identidade (irreversível?) de Mice Parade, com vozes (a de Pierce e a pontual presença de amigas ilustres: Laetitia Sadier, dos Stereolab, e Kristín Anna Valtýsdóttir, dos Múm) a tempo inteiro. Depois, sobra a excelência orgânica do disco, talvez o título mais bem produzido do percurso Mice Parade, que, retendo a presença liderante da percussão e as abstracções orgânicas de outros tempos, abre ângulos para um interessante pacto entre a sobriedade vocal e a prudente extravagância das texturas. Ainda assim, uma ou outra construção melódica mais bem conseguida (como, por exemplo, "The Last Ten Homes") não afastam a ideia de que, atrás das vozes, estão peças com um generoso potencial escapista e que, em razão da interferência vocal, perdem parte significativa desse vigor.