sexta-feira, 20 de julho de 2007

Terry Riley - Les Yeux Fermés & Lifespan

7/10
Elision Fields
2007
www.terryriley.com



A música do compositor norte-americano Terry Riley já não esconde enigmas para os melómanos mais atentos, ou não fosse ele um vetusto criador de 72 anos que esteve no pelotão pioneiro da escola minimalista californiana e que, entre outras démarches visionárias, foi um dos precursores da lógica de repetição (e encadeamento) de segmentos na construção de uma melodia. Desde cedo versando o vanguardismo e a exploração das potencialidades meditativas da música - a que não são estranhos os seus frequentes refúgios na paz espiritual da Índia - a discografia de Riley é um dos mais fecundos patrimónios da música contemporânea e tem merecido inúmeras revisitações e referências. Nesta edição, são resgatados dois vinis da década de 70. O primeiro, Les Yeux Fermés, originalmente editado em 1972 (para uma obscura curta-metragem francesa), contém duas peças ambivalentes. Enquanto "Journey From the Death of a Friend" é uma composição típica do guru do minimalismo, com as inconfundíveis sequências de loops de orgão e camadas sobrepostas de sons orgânicos, a soberba "Happy Ending" mostra exercícios (pouco convencionais) em volta do saxofone soprano, ecoante e hipnótico, sobre belíssimas texturas de teclas processadas. As restantes seis composições do alinhamento reportam a Lifespan (de 1974), trilha sonora da película homónima com Klaus Kinski, e conduzem-nos a ambientes menos divagantes (em razão da menor extensão das faixas) mas não menos estimulantes, como é patente na irresistível "In the Summer", com fraseados de orgão atados entre si pela mestria no uso do delay e diversos adornos electrónicos a borbulhar, ao lado do mantra vocal de Riley. Coisa para fazer salivar os adeptos do vanguardismo, da (des)construção ou do improviso. E para relembrar, mesmo com as descontinuidades próprias de uma edição conjunta de duas obras sem simetria estética ou conceptual, uma das figuras emblemáticas da música do nosso tempo.

Become Not - Become Not

5/10
Ed. Autor
2007
www.myspace.com/
becomenot



As primeiras notas de "Unhappy Ending Movie", trecho de abertura do primeiro álbum do trio lisboeta Become Not, deixam no ar o prenúncio (confirmado no resto do alinhamento) de um som com profunda inclinação intimista e que aposta sobretudo na simplicidade estrutural das composições para lá chegar. Paulo Baeta (guitarra), João Guerreiro (voz) e JP (sintetizadores) abreviam o processo de construção melódica à dimensão mais introspectiva que se pode tirar da guitarra acústica, assim delineando os contornos misantrópicos das canções; depois, além da presença vocal com expressividade desencantada (pontualmente a resvalar para um ou outro cliché "meloso" que diverge do propósito ambiental das composições), desvendam-se curiosos jogos de galanteio entre a acústica e as envolvências espectrais dos sintetizadores. Estas, em jeito de catarse, são o utilíssimo complemento escapista de Become Not e, não fosse o caso de quase sempre se esconderem atrás das demais ferramentas, seriam a matéria definidora de uma identidade sonora mais consistente. Porque aí reside o busílis do álbum. A despeito de alguns momentos de efeito generoso, mormente os ápices em que as texturas se desprendem da voz e alcançam vida própria na incerteza da elevação instrumental (como no caso da peça de abertura ou de "You Never Were", os momentos altos do álbum), não chega a descortinar-se a solução identitária para a indecisa equação de estilos dos Become Not. E isso porque não é fácil conciliar, sem danos colaterais, o mais "clássico" dos registos de cantautor (em entendimento certo das virtudes etéreas da música ambiental) com um dispensável subterfúgio pseudo-romântico/baladeiro (que chega a lembrar os instantes mais chorosos dos Extreme). E mesmo uma produção cristalina não esconde o incómodo dessas impurezas.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Lindstrom & Prins Thomas - Reinterpretations

7/10
Eskimo
Ultima
2007
www.eskimorecordings.com



Dois anos correram desde que Hans-Peter Lindstrom e Prins Thomas editaram, com êxito assinalável, um registo homónimo que corria, de uma assentada, as várias coordenadas e derivações da geração disco. Furtando-se aos clichés mais vulgares do género e, sobretudo, demonstrando a saudável visão ecléctica que uma obra nesse estilo recomendaria, a dupla norueguesa fez, nesse trabalho conjunto, o justo reconhecimento de uma estirpe de sons dançáveis muitas vezes conotada com a face mais kitsch dos clubes nocturnos. Se a obra-mãe alinhava, na essência, por uma certa padronização do disco sound na sua dimensão mais "clássica", no fundo arrumando as construções melódicas em compassos funk importados da moda dos 70's, a revisão agora apresentada aposta em ondas menos anacrónicas e vincadamente mais próximas da cultura dançante contemporânea. E isso traduz-se, na maior parte das peças "novas" (algumas delas até já haviam sido publicadas em vinil), num investimento mais efectivo em ferramentas próprias das pistas de dança actuais, ou seja, numa métrica de pulsação mais forte e em texturas mais preenchidas. Neste caso, a reciclagem das estruturas originais não lhes deslustra minimamente os atributos e, ao acrescentar outras nuances rítmicas e vigor, acaba por desvendar energias e potencialidades que tinham ficado latentes no primeiro trabalho.

Posto de escuta Sítio da Soul Seduction

terça-feira, 17 de julho de 2007

Fennesz Sakamoto - Cendre

7/10
Touch
AnAnAnA
2007
www.touchmusic.org.uk



Por definição técnica, ou por obra do mero preconceito conceptual que a ela se colou com a passagem do tempo, a música ambiental foi sendo progressivamente menorizada pelos mais diversos estratos de melómanos, em virtude de, alegadamente, apenas se prestar ao revestimento sonoro de espaços. Assim, o género habituou-se a sorver uma forte componente "cénica", aí colhendo as coordenadas estruturais decisivas para o seu sucesso como música de fundo (de resto, sublinhado em inúmeros registos cinematográficos), falhando, ainda que involuntariamente, outras importantes dimensões enquanto produto artístico.

Esse rótulo inelutável foi ciclicamente somado, mormente a partir do final da década de noventa, as mais das vezes em clara desconsideração pelos méritos de alguns criadores, a uma prole imensa de seguidores dos icónicos Brian Eno e/ou Harold Budd. Acima de uma trupe de escol da manipulação digital de sons - onde figura gente talentosa como Ulf Lohmann, Alva Noto, Markus Guentner, Reinhard Voigt, Klimek, Benoît Pioulard, Taylor Deupree ou Chihei Hatakeyama - o guitarrista vienense Christian Fennesz, por força de um sólido percurso de uma década, viria a tornar-se porta-estandarte de uma "silenciosa" segunda vaga de valorização da música ambiental contra o cepticismo das massas críticas. Para servir essa causa, depois de um disco separador de águas como foi Venice (2004), nada melhor do que uma joint venture com o japonês Ryuchi Sakamoto, virtuoso clássico do piano e admirador confesso da experiência com outros sons (relembrem-se, a propósito disso, os encontros oportuníssimos com as abstracções de Alva Noto). Neste caso, a parceria não é inesperada nem pioneira. A dupla Fennesz/Sakamoto já havia editado, há dois anos, Sala Santa Cecilia, uma peça única gravada por ocasião de um festival europeu e que deixara pistas para episódios futuros. Cendre retoma as mesmas definições texturais, conjugando a linguagem directa do piano de Sakamoto, quase sempre em melodias descontínuas de intenso efeito dramático, com impressivos enxertos de sons manipulados habilmente por Fennesz, ora oriundos de ruídos ocasionais e dos dribles glitch, ora provindos de guitarras em hipnose. É certo que a combinação nem sempre disfarça a rigidez natural de duas linguagens cujo enlace não é ingénito mas que, em razão da perícia dos intérpretes, acaba por traduzir-se numa experiência com instantes de pura elevação e elegância.

Posto de escuta AwareHaruKokoro

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Dungen - Tio Bitar

7/10
Subliminal Records
2007
www.dungen-music.com



Interessado pela música tradicional do seu país desde tenra idade, o sueco Gustav Ejstes (é ele o mentor por detrás do pseudónimo Dungen), foi gradualmente cultivando uma estética sonora que, além de integrar substâncias conotadas com a folk escandinava (os instrumentos de sopro ou os violinos - a mais recente adição de Ejstes - são exemplo disso), encerra estruturas e harmonias importadas do rock progressivo "clássico" (nesse particular, as composições fazem lembrar, a espaços e com a devida distância, os Jethro Tull) e breves incursões pelo hard rock mais eléctrico. Atrás disso, para somar a dose certa de contemporaneidade (ou, se pensarmos em Zappa ou Captain Beefheart como luminárias de eleição, podemos falar em antologia) e, em simultâneo, dar às texturas formas livres, ao jeito de uma incansável jam session, Ejstes tornou-se um esteta admirador do psicadelismo - escutem-se as interacções modelares da vibrante "Mon Amour". Neste quarto opus, a proposta não difere substancialmente dos trabalhos prévios, especialmente do notável Ta Det Lugnt, de 2004, embora se desvende, com a irrepreensível competência técnica do costume (e o delírio hendrixiano da guitarra de Reine Fiske), uma proximidade maior com as convenções do cancioneiro pop. Essa ligeiríssima (mas notória) derivação estrutural, se bem que não comprometa as habituais convulsões métricas e os arranjos progressivos dos trechos, acaba por abrir fendas no mágico hermetismo do som Dungen. Ou isso ou, como é igualmente plausível, já estamos familiarizados com esta música e se sumiu a impressão de novidade que, antes, nos tomara de surpresa. O que não quer dizer que não haja neste Tio Bitar matéria mais do que suficiente para tratar com reverência. O acid rock está vivo.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Mário Laginha Trio - Espaço




Se há perspectivas artísticas que levianamente tendem a reflectir nos produtos artísticos de per si, descurando paralelismos latentes (e consequentemente ignorando concordâncias mais ou menos óbvias) que se podem traçar entre as várias formas de arte como mecanismos superiores de comunicação e linguagem, não é esse o caso do último opus de Mário Laginha. Obra encomendada por ocasião da Trienal de Arquitectura em Lisboa, Espaço é um exercício de composição que, ao lado dos códigos criativos habituais no trabalho do músico/compositor, sugere algumas incursões por conceitos caros à arquitectura; apontem-se, a título meramente exemplificativo dois pontos de contacto entre música e arquitectura, tão bem explorados neste disco: a lógica de oposição (ou disposição) de planos para ocupar o espaço - que, na música tem paralelo abstracto na dinâmica silêncio-som - ou outras disposições mais modernas, como a noção de assimetrias, tão em voga na arquitectura contemporânea - musicalmente representados pela estruturação dissonante das melodias. Em oito peças, cada uma com a sua própria natureza "espacial" e geometria (e consequente insinuação imagética), algures entre a orgânica livre do jazz e os paradigmas conceptuais que, da arquitectura, se projectam na música (planos, superfícies e espaços baralhados num simbólico universo de sons), Laginha e compinchas (Bernardo Moreira, ao contrabaixo, e Alexandre Frazão, na bateria) experimentam as imensas coincidências entre dois idiomas artísticos que encontram, no espaço (leia-se também, no silêncio), o vazio inspirador onde depositam lastros e confidências a que dão a forma de arte. E dessa interacção activa com o vácuo, do estímulo inadiável para o preencher, nascem, em instantes felizes, as mais esplêndidas obras. E Espaço, com o jeito científico de um compositor que, aqui, lê pentagramas como se fosse um aprendiz clandestino de arquitectura, é uma delas.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Mice Parade - Mice Parade

6/10
Fat Cat
Flur
2007
www.fat-cat.co.uk



Não deixa de ser sintomático de uma certa intenção reconstrutiva que um projecto musical com quase dez anos de actividade e seis discos no bornal, apenas utilize um título homónimo no sétimo trabalho da sua existência. Numa interpretação conceptualmente mais estreita, dir-se-ia que as convenções do orbe musical aconselham que isso suceda com o primeiro disco, quando, por detrás da música, estão intérpretes à procura de um espaço de afirmação. Não é esse, todavia, o caso do nova-iorquino Adam Pierce. Com nome consolidado na cena pós-rock americana sob o epíteto Mice Parade e tendo-se afirmado como emblema das electrónicas cruzadoras de géneros e do experimentalismo com diversos sabores electro-jazz, Pierce construiu uma identidade sonora a que, depois da génese puramente instrumental, foi paulatinamente acrescentando vozes (a sua e a de convidados). Depois de dois trabalhos em que, em paralelo com esse processo de integração da voz, as composições adquiriram progressivamente uma disposição muito próxima da estrutura verso-refrão, Mice Parade surge como um verdadeiro álbum de canções e, nesse sentido, é o corolário entusiasmado da redefinição estética iniciada há três anos. E assim se percebe que, no capítulo rematador dessa (re)parametrização pop, longe dos desígnios instrumentais do passado, Pierce tenha usado o título homónimo, como que certificando definitivamente a nova identidade (irreversível?) de Mice Parade, com vozes (a de Pierce e a pontual presença de amigas ilustres: Laetitia Sadier, dos Stereolab, e Kristín Anna Valtýsdóttir, dos Múm) a tempo inteiro. Depois, sobra a excelência orgânica do disco, talvez o título mais bem produzido do percurso Mice Parade, que, retendo a presença liderante da percussão e as abstracções orgânicas de outros tempos, abre ângulos para um interessante pacto entre a sobriedade vocal e a prudente extravagância das texturas. Ainda assim, uma ou outra construção melódica mais bem conseguida (como, por exemplo, "The Last Ten Homes") não afastam a ideia de que, atrás das vozes, estão peças com um generoso potencial escapista e que, em razão da interferência vocal, perdem parte significativa desse vigor.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Smashing Pumpkins - Zeitgeist




Se fizermos uma decomposição ideológica da cover do trabalho de renascimento (depois das inconciliáveis dissensões de há sete anos atrás) dos Smashing Pumpkins, com a Estátua da Liberdade a afundar-se em águas rubras, facilmente se precipitam algumas ilações. A primeira, e mais óbvia, é a de que, pela primeira vez no percurso da banda, o assunto político se torna matéria de capa (e, por essa via, se faz objecto consciencializado), como se se tratasse de declaração auto-consciente e crítica de uma América descrente de si mesma. Mais do que isso, a associação entre o simbólico afundamento de um dos mais relevantes ícones identitários da América (e, por inerência, do tão propalado "mundo livre") e o título (zeitgeist é expressão roubada ao romantismo alemão e que traduz, grosso modo, o entendimento intelectual e cultural das sociedades numa determinada era), é demonstrativa de um desassossego que transcende as fronteiras do estado americano e ganha medidas planetárias. É neste condicionalismo político e espírito de alerta que fervem as composições de Zeitgeist. E este tipo de protagonismo panfletário não é, nunca foi, o terreno mais fértil para os Smashing Pumpkins. Ou para Billy Corgan.

Ao mesmo tempo, o abrupto (mas não inesperado) termo de actividade dos SP, e as subsequentes reacções dos seus ex-integrantes, pôs a nu aquilo que já se sabia: eles não eram mais do que um plano quase autocrata de um homem com visão artística mas com um feitio danado. Na ressaca do projecto que o elevou ao estatuto de estrela rock, Corgan tentou reciclar ideias nos insípidos Zwan (outra das suas criações auto-centradas), primeiro, e no destempero electrónico de uma aventura a solo (The Future Embrace, de 2005), depois. Atrás dessas tentativas, além do cepticismo da crítica e da produção artística pouco mais do que decepcionante, veio o inevitável afastamento das órbitas mediáticas. E não foi por acaso que, no mesmo dia do lançamento do seu trabalho a solo, Billy Corgan fez questão de anunciar uma bizarra "reunião" dos SP - dela constava, além de Corgan, apenas o baterista Jimmy Chamberlin! Neste regresso, afinal o único caminho fiável para o desejado renascimento mediático de Corgan, os SP são apenas, ainda mais do que antes, um quintal de Corgan. Ainda assim, se os traços "clássicos" dos SP (guitarras afiadas, pulso firme e amplitude) moram aqui, parece faltar o compromisso melódico doutros tempos e, sobretudo, a versatilidade estética que fez dos Smashing Pumpkins um dos mais entusiasmantes ensembles da música americana da década de 90. O vigor de Zeitgeist acaba no rock de arena - e aí marca alguns pontos decisivos para não ser um fiasco - e pouco (ou nada) explora outras dimensões da identidade passada dos Smashing Pumpkins. E, para se arriscar o resgate de um nome com tal sucesso (e peso mediático), a memória não é recurso para usar-se com meias medidas.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Interpol - Our Love to Admire

8/10
Capitol
2007
www.interpolnyc.com



Já estão demasiado gastos os argumentos que, desde os primeiros passos dos Interpol, buscaram simetrias entre os nova-iorquinos e o legado de dramatismo e tensão negra do rock dos Joy Division. As referências dessa herança contagiam de uma forma insofismável a obra de Paul Banks e seus pares, é certo, mas não são estorvo para a estruturação de um som próprio e, sobretudo, para a afirmação de um jeito peculiar de musicar despojadamente a melancolia. Nesse particular, Our Love to Admire, terceiro registo do quarteto, revela-se menos espartano do que os antecessores, se atentarmos na diligência da produção de Rich Costey (as suas coordenadas anteriores apontam ao universo dos Muse e dos Franz Ferdinand) a acrescentar magnitude e subtileza orquestral à identidade dos Interpol, sem ofender minimamente as causas ensimesmadas a que eles nos habituaram. No resto, os nova-iorquinos são fieis à cartilha pós-punk do costume: linhas de guitarra a riscar o padrão melódico das composições, sintetizadores itinerantes (e escondidos) num mosaico de paredes de som e emoções, baixos de tons negros e percussões claustrofóbicas. Conceptualmente (e instrumentalmente) mais expressivo e uns furos acima da constância rítmica dos antecessores, Our Love to Admire é, por isso, o mais arriscado dos registos dos Interpol e, embora não manifeste a excelência melódica do magnífico Turn on the Bright Lights (2002), é uma peremptória ultrapassagem ao conformismo de Antics (2004) e abre subliminarmente outros ângulos para o porvir da banda. Aos mais cépticos nestas coisas de estreias em selos major, recomendam-se visitas repetidas à grandiosa "Pioneer to the Falls", ao deleite cavalgante de "Mammoth", à subversão pop de "Rest My Chemistry" e ao experimentalismo ecoante de "Wrecking Ball". Dá para não ficar rendido?

sábado, 7 de julho de 2007

Justice - †




Ao escutar as primeiras notas do álbum de estreia do duo parisiense Justice, depressa se percebe ao que eles vêm. Xavier de Rosnay e Gaspard Augé são a nova sensação do agitado universo de música de dança no seu país, muito por culpa do furor que inesperadamente rodeou o mp3 e o vídeo de "D.A.N.C.E.", antecipadamente "descobertos" por vários utilizadores da blogosfera. Não é que a dupla francesa fosse propriamente desconhecida - eles haviam protagonizado alguns remixes mais ou menos conhecidos junto dos públicos europeus - mas seria esse alvoroço cibernético a aguçar a curiosidade da falange crescente de fãs sobre o esperado debute discográfico. Pois bem, ele está aí e mostra uma interessantíssima deriva disco, não tanto no jeito "conformista" celebrizado pelos conterrâneos Daft Punk - que, afinal, recolocaram o disco sound no mapa (se é que ele alguma vez tinha saído de lá...) - mas com um fôlego declaradamente mais ruidoso e rebelde (punk?). As linhas de baixo são, como se impõe a discípulos da disco, uma substância incontornável, cuidadosamente trabalhada e transversal a um alinhamento que demonstra uma saudável alternância rítmica, sempre subjacente a um certo psicadelismo funk e onde as vozes (muitas vezes escondidas atrás de vocoders) se inscrevem sem defeitos. É, de resto, aí que se distingue, na singular noção de equilíbrio da mistura e, sobretudo, na precisão com que, partindo de referências históricas indisfarçáveis, constrói uma vibrante escultura de sons que, não sendo substancialmente inovadora, consegue o singular fito de nos lembrar que, também nos armários da música de dança, podem existir esqueletos do rock. Ou não estivesse contaminado pela admiração de Gaspard Augé pelos Metallica.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

The Chemical Brothers - We Are the Night




As tendências mais dançantes da música electrónica, embora tendo conhecido um boom que, sucessivamente, as fez chegar a públicos mais latos por altura dos 90's, não pareciam destinadas às grandes arenas. Por força das limitações próprias da tecnicidade inerente ao manuseamento digital do som e da proporcional dificuldade em ampliá-lo a outros níveis de projecção, não se antevia, à época, que o género viesse a "crescer" a ponto de alguns dos seus intérpretes mais saudados merecerem figuração relevante nos cartazes dos principais festivais musicais à escala planetária. A verdade é que, paulatinamente, as desconfianças face às reais possibilidades da electrónica sobreviver em cima dos palcos maiores se foram esbatendo e esse facto deve-se, em grande parte, ao trabalho pioneiro dos britânicos Tom Rowlands e Ed Simons. Eles, os Chemical Brothers, não só fizeram prova da sustentabilidade ao vivo da música dançante fora do habitat natural (as pistas de dança) como a transpuseram, sem perda da electrizante eficácia, para grandes espaços. Ultrapassada essa barreira (muitas vezes com a utilíssima ajuda de alguns amigos da cena rock), a dupla chega, volvido um percurso de década, com o firme estatuto (e responsabilidade) de liderança dessa vaga expansionista da música de dança.

Depois de uma série de edições - com o imprescindível Dig Your Own Hole, de 1997, à cabeça - que firmaram os caracteres de um som próprio (a que as convenções chamaram Big Beat) com um nervo trip hop muito especial, cérebro funk estaladiço e os inconfundíveis saracoteios das beats, o sexto registo dá mostras de uma cautelosa reciclagem de processos. Manifestamente menos nervoso, We Are the Night desvenda um código menos fervoroso dos irmãos químicos, como que sugerindo uma declaração, senão de contraste, pelo menos de divergência em relação ao discurso modelar da dupla britânica. Ao invés do turbilhão de ventos digitais e percussões impetuosas a que nos habituaram, o disco surpreende pela certa placidez contemplativa das peças (algumas delas podem chamar-se "canções"), às vezes roçando um minimalismo estrutural não esperado e, sobretudo, demonstrando uma evidente vontade de marcar distâncias para a nova vaga noisy da electrónica dançante (leia-se Digitalism ou Justice). Nesse particular, "Battle Scars", com a voz grave de Willy Mason, ou "The Pills Won't Help You Know", com os Midlake, são claros exemplos da rebuscada auto-revisão que, indirectamente, também acaba por contagiar as composições de passada mais acelerada. Depois de comandarem a redefinição da electrónica como estilo de grandes públicos, os Chemical Brothers retomam a saga, sugerindo, no meio da imensa poeira mediática que tomou o género de assalto, outras órbitas para a música da dança. E, mesmo apontando a medidas mais cerebrais, We Are the Night não deixa de ser cativante.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Bexar Bexar - Tropism

6/10
Team Judas
Own Records
2007
www.westernvinyl.com



Em tempos, o guru Brian Eno terá dito que a música ambiental é tanto mais valiosa quanto mais for capaz de apelar, sem se desvirtuar a si mesma, a múltiplas dimensões da atenção do ouvinte, ora estimulando a sua plenitude sensorial, ora desfilando na mera condição de "objecto" despercebido. A definição assenta como uma luva às texturas minimalistas do texano Bexar Bexar, perfeitamente ambivalentes nessa dupla condição. As guitarras acústicas dão o filamento primário às construções, deixando vácuos em aberto que são preenchidos por camadas espectrais de elegantíssima electrónica borbulhante. É esse exercício de equilíbrio entre o laconismo das guitarras - afinal, o sublinhado corpóreo do disco - e a abstracção digital (por vezes, partindo do mero uso da estática) que produz as sugestões melódicas de Tropism, não necessariamente fiéis a uma estruturação rígida e, sobretudo, urdidas com um precioso sentido da importância do detalhe. Nesse particular, o álbum suplanta decisivamente a irresolução do seu antecessor (Haralambos, de 2003), indo mais além nos preciosismos de (des)construção dos mais singelos acordes de guitarra (o verniz digital eleva-os da mundanidade) e prescindindo do casualismo beats do debute. Profundamente reflexivo, Tropism é, acima de tudo, o lugar plácido onde fortuitamente se encontram múltiplas dimensões do mesmo espírito criativo, como que fervilhando em combustão de ansiedades, aí se evaporando rumo a um repouso pensante e imune à gravidade. Pena é que, nesse intrincado processo, Bexar Bexar não destine mais tempo ao apuro das melodias e, por isso, com uma ou outra excepção, os trechos acabam por resvalar irremediavelmente para uma mediania à qual não estariam obrigados.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

The Polyphonic Spree - The Fragile Army

7/10
TVT Records
2007
www.thepolyphonicspree.com



De uma trupe com cerca de duas dúzias de músicos é natural que se espere um som de largo espectro, rico em pormenores e com diversas interferências estéticas. Mesmo no caso dos Polyphonic Spree, onde há uma cabeça pensante (o "maestro" é Tim DeLaughter), a mescla de substâncias promete, senão veja-se: uma dezena de vozes, muitas vezes a recordar o canto erudito de um grupo coral (ou, no contraponto menos "formal" de algumas faixas, a folga de uma cantiga de ocasião num acampamento de amigos), conciliadas com o dinâmico suplemento instrumental próprio de um ensemble numeroso. Mais do que propriamente se render à convincente dose de espiritualidade positiva que se canta de uma ponta à outra deste The Fragile Army (terceiro registo do colectivo), ao jeito de uma curiosa fusão entre o universo do pop-rock sinfónico (leia-se, de formatação Broadway) e os corais religiosos, quem escuta o disco fica também "amarrado" à abundância de detalhes instrumentais que povoam os encadeamentos harmónicos do disco. É aí, de resto, que se encontra o paralelo justo para a exuberância vocal das composições, coisa em que, a espaços, o álbum traz à memória a grandiosidade estética dos canadianos Arcade Fire ou o recato psicadélico dos Flaming Lips, embora nem sempre com a mesma fertilidade. Ainda assim, mesmo sem conter ingredientes substancialmente diferentes daqueles que o grupo serviu antes, esta colecção de canções é, talvez, o passo mais seguro (e mais figurativo) do percurso dos Polyphonic Spree.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Goran Bregovic - Karmen (With a Happy End)




Se há compositor imediatamente associado aos sons dos Balcãs, ele é o bósnio Goran Bregovic. A "culpa" desse nexo instantâneo é dos inesquecíveis trilhos sonoros que imprimiram outras dimensões do bizarro aos ímpares universos das fitas do premiado realizador sérvio (também ele, um músico) Emir Kusturica. Dono de uma extensa discografia dedicada essencialmente à divulgação da música cigana da sua terra-natal, Bregovic acabaria por afirmar-se como um dos mais respeitados compositores do leste europeu e, por inerência, um dos porta-vozes da herança musical e cultural dos Balcãs. Ele é um genuíno esteta do alcance celebrativo dos clássicos ensembles de sopros da europa oriental - legado histórico das grandes orquestras militares dos decanos impérios - e dos sublinhados corais da mais pura tradição das festas gitanas. No novo trabalho, o maestro inspirou-se na intemporal ópera de Bizet e reconta a história do amor impossível entre a caprichosa Carmen (a cigana, lá está!, que captura os homens pelo coração) e o pacato sargento Don José, imprudentemente vencido pelos dilemas morais de uma paixão obsessiva. As referências estruturais à obra de Bizet ficam-se, sobretudo, pelo vago recurso a um ou outro apontamento melódico próximo dos fraseados originais e, claro, nas insinuações cenográficas que rapidamente se instalam no ouvinte conhecedor do libretto primário. Mais do que isso, Karmen (With a Happy End) desvenda uma curiosíssima (e elegante) volubilidade emocional, como se os trechos marcassem o compasso dos sentimentos de um enredo que afinal não existe, pontuando-lhe altos e baixos e, com isso, configurando as chicanas de um argumento imaginário. No final, o remate festivo de "Lamour" é insuspeito: na Karmen de Bregovic não há lugar para as lágrimas da desventura. De ópera só um bocadinho, porque a charanga não pode parar!

Posto de escuta (Real One Player) Gas GasPampur GalbenoKoferi

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Neurosis - Given to the Rising

8/10
Neurot
2007
www.neurosis.com



Desde os primeiros riffs de Given to the Rising (nono álbum de estúdio em nome próprio) se percebe porque é que os californianos Neurosis se tornaram, decorrida cerca de uma vintena de anos desde o debute discográfico, um dos ensembles mais entusiasmantes e influenciadores da cena metal. Steve Von Till e seus pares são inventores para quem o conformismo nunca foi opção e, por isso, o lastro da identidade mutante que criaram tem suscitado um largo espectro de seguidores e sub-géneros. Para eles, não é um devaneio ambíguo mesclar, na mesma composição, coordenadas góticas e/ou industriais com sons atmosféricos, ou misturar melodias instrumentais funéreas (muitas vezes com laivos de rock progressivo) com o mais acerbo (e "pesado") e sombrio ritualismo pagão. Tampouco a estrutura métrica das peças é linear, alternando entre as texturas ambientais ao jeito de negros sermões cheios de espiritualidade (os vagarosos compassos de Stephen O'Malley inspiram-se aqui) e as pujantes implosões de guitarra, ora pausadas e cíclicas, ora tentando outro nervo. Mas, mais do que apenas gerirem equilibradamente este extenso rol de substâncias, os Neurosis erguem uma obra de intensidade sufocante e com uma escrita de contrastes irrepreensíveis. Given to the Rising é, assim, mais uma afirmação peremptória de estatuto e dilata distâncias para os mimetistas do costume. Vinte anos depois, os Neurosis não saíram do auge.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Dntel - Dumb Luck




De Jimmy Tamborello sabemos mais ou menos o que podemos esperar, não fosse ele um dos mais renomados protagonistas da moderna cena indie-electrónica americana. As inúmeras identidades artísticas pensadas ou partilhadas por ele - além dos conceitos Dntel e James Figurine, divide os The Postal Service com Ben Gibbard (Death Cab For Cutie) e Jenny Lewis - denunciam, de resto, um pretexto comum: a electrónica como ferramenta básica para a construção de abstracções em volta da definição paradigmática de canção pop. Todavia, foi a progressiva conquista de espaço mediático do projecto The Postal Service - nesse particular, a sintonia com o consagrado Gibbard rendeu sinergias decisivas - que escancarou as portas da comunidade melómana para as tapeçarias digitais de Tamborello. Não fora isso e poucos saberiam que este é já o segundo tomo do projecto Dntel, o primeiro pela major Sub Pop, depois de Life is Full of Possibilities, lançado há meia dúzia de anos. Nesse registo, sob causas minimalistas importadas da escola glitch e aspergimentos de amplas camadas sintéticas de som, desfilavam construções orgânicas com um fio melódico subtil. Esse quadro estético é repetido neste Dumb Luck, um trabalho que sublinha a sagacidade especulativa da escrita de Tamborello e que confirma a utilidade da sua visão onírica e dispersa da pop. Mais surpreendente do que isso é a mágica alquimia dos inúmeros estímulos sonoros que parecem desabar avulsamente em cima das melodias, em retalhos fortuitos, como que casualmente desprendidos de um universo paralelo, ao jeito de deus ex machina redentores. A esse festim digital (com um ou outro desarranjo momentâneo) juntam-se algumas vozes ilustres: Lali Puna, Jenny Lewis, Conor Oberst (Bright Eyes), Mia Doi Todd e Edward Droste (Grizzly Bear). Pena é que, debaixo de semelhantes substâncias e de um aparato cosmético tão inteligentemente urdido, nem sempre existam fraseados melódicos com proporcional inspiração.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Editors - An End Has a Start

6/10
Pias
Edel
2007
www.editorsofficial.com



Justamente consagrados, depois de um debute discográfico promissor (The Back Room, de 2005), como uma das mais estimulantes surpresas da música britânica contemporânea, os Editors acabaram por tornar-se herdeiros quase "naturais" de uma linhagem sonora com ramificações no pós-punk britânico professado por gente como os Echo & The Bunnymen, os Joy Division ou os The Chameleons, sobretudo na incontestável predisposição para colher ensinamentos na cartilha do rock de tons escuros. Os ecos desse referencial estético voltam a propagar-se imparavelmente no alinhamento deste An End Has a Start, deixando a incómoda impressão de um certo imobilismo que facilmente pode confundir-se com fidelidade à fórmula de sucesso da estreia. De facto, o segundo tomo dos Editors acaba por pôr a nu um facto ironicamente embaraçoso: a banda está refém de uma linguagem própria que construiu (indo bem além do mero mimetismo das óbvias referências "históricas" de The Back Room) mas a que parece, agora, incapaz de somar novas virtudes ou, mais do que isso, de evitar o auto-plágio. E, para um segundo disco, esperava-se um pouco mais de substância e é difícil ser-se indulgente com a mediania que reveste, com uma ou outra excepção, este grupo de canções.

Posto de escuta MySpace

domingo, 24 de junho de 2007

Júlio Pereira - Geografias

8/10
Som Livre
2007
www.juliopereira.pt



Volvidos cerca de trinta e cinco anos de um percurso extremamente coerente e, sobretudo, fiel a uma filosofia permanente de redescoberta, Júlio Pereira conserva intactos os atributos que dele fizeram um dos compositores e instrumentistas imprescindíveis do cancioneiro luso contemporâneo. Dedicado estudioso das raízes da canção popular portuguesa e dos seus instrumentos tradicionais (o cavaquinho é-lhe, de resto, imediatamente associado desde o ímpar êxito comercial de Cavaquinho (1981)), Júlio Pereira retoma, no novo disco, um amor antigo (e que nunca deixou para trás), resgatando o bandolim (um dos seus "sete instrumentos"...) para o reunir, em enlaces oportuníssimos e bem gizados, com a guitarra portuguesa. O pacto instrumental, ainda que exibindo traços referenciais da música tradicional portuguesa (o fado, as modinhas minhotas ou o corridinho algarvio, por exemplo) e das habituais afinidades com os ritmos africanos ou as melodias orientais, guarda um transbordante sentido de universalidade, tocando com jeito leve de pincel, uma infinidade de ângulos e latitudes sonoras. Essa transversalidade é tónico dominante de Geografias e, não obstante o consequente (e inevitável) alargamento do espectro estético do disco e suas soluções acústicas, o registo nunca perde o norte e desvenda uma impressionante homogeneidade. E, claro está, a luminosa verve de Júlio Pereira continua a presentear-nos com belíssimas estrofes melódicas e rendilhados de cordas, a que se juntam, pontualmente, os coloridos vocais de Sara Tavares, Marisa Pinto (do projecto Donna Maria) e Isabel Dias (da trupe minhota Raízes). Geografias é, assim, um produto do engenho descobridor de Júlio Pereira que, não se confinando à erudição reconhecida do músico nas raízes dos sons lusos (e não só), se abalança num imaculado manifesto de homenagem à música de outras paragens. Assim se faz, com um brilhantismo raro, a mais genuína das globalizações. E se desenham, em vibrações de cordofones, mapas de outras geografias.

Posto de escuta MySpace de "Geografias"

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Montag - Going Places

6/10
Carpark Records
2007
www.montag.ca



Ainda que ciclicamente ignorado pelos primeiros mercados da indústria discográfica no exterior do seu país, o canadiano Antoine Bédard (o homem que assina como Montag) vem construindo um interessante ânimo reformista dos paradigmas da canção pop. Embora conhecendo, há cerca de cinco anos, uma jornada inicial (apenas com edição nacional canadiana) formalmente menos resoluta e especialmente vocacionada para o experimentalismo com as texturas electrónicas que, ainda hoje, pontuam o seu trabalho, Bédard foi avançando para peças menos abstractas, adaptando as suas especulações digitais a formatos mais próximos da ideia de "canção". Alone, Not Alone, de 2005, dava já sinais firmes e inquestionáveis de uma mistura de sons mais estruturada, embora a primazia das matérias de síntese ainda encobrisse o fôlego pop das composições. Para superar essa relativa opacidade dos trechos (as mais das vezes, em claro prejuízo da sua eficácia melódica), nada melhor do que chamar alguns amigos do orbe musical. A lista é interessante: Owen Pallett (o bizarro trovador do projecto Final Fantasy), as Au Revoir Simone ("meninas bonitas" da indie pop americana corrente), Anthony Gonzalez (o francês que, depois da partida de Nicolas Fromageau, assumiu sozinho os ambientes do conceito M83), Amy Millan (a voz dos conterrâneos Stars) e Victoria Legrand (voz dos Beach House e sobrinha do compositor francês Michel Legrand).

No global, Going Places embrulha num revestimento electrónico de fino recorte (não obstante um ou outro exagero kitsch de sons de vídeojogo - ouça-se "Best Boy Electric"), um interessantíssimo sublinhado 60's e pontuais momentos de impacto cinematográfico (com a orgânica de pequenas sonatas), umas vezes tentando reflexos mais amplos e grandiosos, noutras buscando um certo resguardo minimalista. Um pormenor: a faixa título do disco é (alegadamente) um mosaico de sons recolhidos numa convocatória aberta (no sítio do músico) a todos os que quiseram dar o seu contributo. A apreciação que é devida a esse trecho serve também de resumo às artes do álbum: sopros curiosos sobre formas modernas da pop com alguns méritos (as melhores faixas são as que contam com presenças vocais além do monótono registo de Bédard), mas nem todos necessariamente (ou igualmente) profícuos.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

The White Stripes - Icky Thump

8/10
XL Recordings
Popstock
2007
www.whitestripes.com


A importância da dupla White Stripes na história recente do rock tem tanto de inegável como de improvável. Com um punhado de registos sólidos e uma das canções rock da década ("Seven Nation Army", é claro) no bornal, Meg e Jack White firmaram uma estética própria e um estilo peculiar de versar os cânones do rock clássico (leia-se Led Zeppelin, por exemplo). Pode dizer-se que eles representam um dos mais suculentos paradoxos retro-modernistas da música contemporânea, no sentido de mesclarem uma certa nostalgia do rock de medidas largas de outras eras com uma impressiva capacidade para emendarem esse impulso seguidista com uma escrita crua (no seu minimalismo psicadélico), simples e versátil. Icky Thump, sexto registo de originais, segue as mesmas premissas de Get Behind Me Satan (2005), exercitando as potencialidades eclécticas de uma fórmula sonora que, parecendo organicamente destinada à misantrópica intimidade do rock de garagem, depressa transborda esse perímetro estético imaginário. Para esse efeito, ao invés da aposta preferencial do antecessor numa ferramenta acústica (piano) para a construção das melodias, o novo opus procura reaver o alvoroço eléctrico da guitarra nessa atribuição. Necessariamente mais "pesado" e mais próximo dos genes Stripes - o que pode ser interpretado como um manifesto de subsistência face às dúvidas que se levantaram sobre o futuro da dupla, mormente depois do êxito do side project de Jack White, os Raconteurs - Icky Thump regenera o ideário blues. E fá-lo, sem perder o fio de prumo habitual, somando novos azulejos ao mosaico de sons (nesse particular, a estreia das gaitas de fole com duas caras - na pastoral "Prickly Thorn, But Sweetly Worn" e na avariada "St. Andrews (This Battle is in the Air)" e os sopros mariachi são modelares) e aceitando interferências de outros universos (a revisão de "Conquest", cantada por Patty Page nos 50's, ou a quase "metaleira" "Little Cream Soda" são sobressaltos bem-vindos). O mais acertado epítome para Icky Thump faz-se em poucas palavras: basta dizer-se que os Stripes estão de volta e tão eléctricos e cativantes como nas primeiras núpcias. O que é o mesmo que afirmar que não dá para ficar indiferente.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Digitalism - Idealism

7/10
Virgin
2007
www.thedigitalism.com



Diz-se que os rapazes deixaram saudades por cá, depois da apresentação pública do seu primeiro álbum no festival Creamfields, em Maio passado, no Parque da Bela Vista. São de Hamburgo e professam uma sonoridade muito próxima do electroclash (de resto, assumem essa a referência estrutural como uma doutrina), coisa típica numa metrópole onde tem recrusdescido, por oposição à electrónica de cânone de Berlim, uma vaga regeneradora do dance-rock que tem, agora, no duo Digitalism um dos vértices mais expressivos. Jens Moelle e Ismail Tuefecki são adeptos de um curioso cruzamento entre o fôlego desregrado (e alucinantemente robótico) da electrónica rave (é aí que o digitalismo demonstra o seu verdadeiro vigor) e os incitamentos hedonistas do rock (eles até já nos tinham dado versões remisturadas de Franz Ferdinand ou dos Klaxons...). Embora tendo sido erguido em torno de uma fórmula substancialmente pouco inovadora (por vezes, a coisa "tresanda" a Daft Punk ou Chemical Brothers), Idealism não se fecha na revisitação de conceitos e, mais do que isso, afoita-se numa perigosa - pelo risco evidente de inconsistência - mescla de estéticas dançantes, do minimalismo à disco, do house à vanguarda. A ironia suprema é que é o rock (directamente ou como miragem à distância de uma memória) a matéria unificadora da mistura. E o seu certificado de consistência. Afinal, basta um disco bem construído para desmontar as teses maniqueístas que cavam distâncias entre a música para as pistas de dança e o rock.

Posto de escuta Sítio da Boomkat

domingo, 17 de junho de 2007

Maher Shalal Hash Baz - L'Autre Cap




Apesar de algumas visitas recentes à Ásia, os nipónicos Maher Shalal Hash Baz são pouco mais do que desconhecidos na sua terra natal. Não obstante esse facto, a verdade é que Tori Kudo e seus pares, sediados na Escócia, contam já mais de duas décadas de uma estranha (e não menos efectiva) militância de uma temática sonora que transcende fronteiras estéticas ou referências culturais. É, sobretudo, uma irónica atracção pelo "erro" (conceito caro aos universos jazzísticos de improvisação em que Kudo cresceu musicalmente e que é assumido pelo próprio como a maior das suas utopias) que faz da música dos Maher Shalal Hash Baz um híbrido ímpar e virtualmente inclassificável. Debaixo de um manto de nostalgia que não passa despercebido, L'Autre Cap é, ao jeito de outros produtos do ensemble japonês, uma colecção de breves retalhos onde convivem (e disputam ambientes emocionais) um genuíno fôlego rock (coisa mais intuída do que assumida, ao jeito de um desejo reprimido que jamais abandona a mente), o desprendimento de uma big band (com os sopros adultos e o embalo jazzy) e uma nebulosa aptidão para o psicadelismo mais recatado. Pouco importa o rigor técnico - é sabido que Tori Kudo recruta alguns não-músicos para o colectivo! - quando o que se busca é a essência da criatividade, mesmo que ela seja mostrada em infalível cacofonia e na mais ingénua (e, por isso, tocante) imperfeição e sem contaminações técnicas. E das mais rudimentares ferramentas (e artífices) podem, afinal, nascer ápices do mais cortês encantamento.

Posto de escuta Sítio da Boomkat
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Júlio Pomar, D. Quixote e os Carneiros (1963)

sábado, 16 de junho de 2007

Black Diamond Heavies - Every Damn Time




Deles se conhecem as origens americanas sulistas, lá do mesmo estado do Tennessee historicamente castigado pelos confrontos da Guerra da Secessão e onde, rezam as crónicas, se propagou um fôlego criativo quase ímpar na história da música americana, desde os primeiros anos do século XX. Do simbolismo da capital Nashville (ainda hoje considerada a metrópole por excelência da música country dos Estados Unidos), ao recrudescimento de Memphis (ventre de B.B. King e do seminal selo Sun, durante anos a casa editorial de gente como Johnny Cash, Muddy Waters, Howlin' Wolf ou Elvis Presley) como um dos estandartes do movimento blues, o estado dos voluntários é, hoje, um dos pontos cardeais de algumas das expressões musicais mais genuínas da alma americana. Sediados na facção oriental de Nashville (embora com proveniências díspares dos seus integrantes), os Black Diamond Heavies começaram por ser um trio, até o guitarrista Mark Holder renunciar à vida errante de músico, depois da edição do EP You Damn Right, de 2004. De então para cá, John Wesley Myers (teclas e voz), senhor de um portento vocal vizinho de Tom Waits, e Van Campbell (baterista) entregaram-se sozinhos ao encargo de escrever (e interpretar) blues de garagem, reduzidos aos aromas mais crus e penetrantes do género e embrulhados num invólucro de pura jam session. Quem os viu ao vivo (e já passaram por cá, no Festival Internacional de Blues de Coimbra), sabe do que estes dois virtuosos são capazes de fazer sem aparato (não precisam de mais de 15 m2 de palco...), e munidos apenas das mais singelas ferramentas da tradição blues. Esse espírito é também a medula de Every Damn Time, com rebeldes e acerbas discussões de sons, na toada sincopada de padrões blues, entre o velhinho Fender Rhodes (ou outras teclas) de Myers e a enleante percussão de Campbell. É daí que emerge um fluido tremendamente consistente e ruidoso, um misto de composições originais e duas revisões, com impressionante crueza e desembaraço. E força sedutora para trazer os blues para o novo século. Único senão para este tesouro improvável: a colagem abusivamente evidente de Myers às entoações cavernosas e diversas nuances vocais de Tom Waits.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Queens of the Stone Age - Era Vulgaris

7/10
Interscope
2007
www.qotsa.com



A conturbada deserção de Nick Oliveri, há três anos, suscitou uma miríade de dúvidas sobre as reais possibilidades dos Queens of the Stone Age escaparem incólumes a um desfalque no seu núcleo criativo. Em boa verdade, Josh Homme já nos habituou a baralhar o alinhamento do ensemble a seu bel-prazer mas, sabendo-se que a assinatura do baixista se emparelhara com a dele nos instantes mais inspirados do percurso do colectivo (R, de 2000, e o mediatíssimo Songs For the Deaf, de 2002), a saída de Oliveri nunca seria comparável à partida de um mero músico de suporte. Ainda assim, ao segundo registo de estúdio depois desse episódio, no encalço das derivações espirituais de Lullabies to Paralyze, perdidas as hipérboles de Oliveri (aparentemente sem sucedâneo à vista...), o som dos QOTSA não denuncia outros prejuízos colaterais e, acima disso, retém os agentes "clássicos" do rock arenoso do grupo (riffs crus e percussões maquinais), mesmo quando sonda espaços menos comuns ao universo Homme (a magnífica revisão da velhinha "Make It Wit Chu", peça registada numa das Desert Sessions, ou "Suture Up Your Future" são bons exemplos). Ele é um dos raros espíritos aduncos da cena musical contemporânea e patrocina, com alguns tentáculos de uma mesma identidade sonora (Queens of the Stone Age, Eagles of Death Metal, as Desert Sessions e a decana instituição dos Kyuss), um dos espólios quintessenciais do rock 'n' roll despudorado e hedonista, longe de modas, interventivo e de pulso imparável. E mesmo que Era Vulgaris não chegue ao auge de outros álbuns, está aí para demonstrar que o mais genuíno rock se escreve assim, sem apelo nem agravo. E que Josh Homme continua a ser um dos seus mais engenhosos anti-heróis.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Battles - Mirrored

9/10
Warp Records
Symbiose
2007
www.myspace.com/battlestheband



Quando o rock é complexo e feito de uma teia de elementos sonoros que se entrecruzam com virtuosismo, sapiência técnica e, sobretudo com um sentido geométrico de progressismo (as mais das vezes, usando a lógica de crescendos e retornos ao ponto de partida), normalmente cola-se-lhe o rótulo de math rock. No fundo, essa família de sons não mais é do que uma derivação das estirpes genuínas do rock progressivo, aproveitando dimensões alternativas (ou outras nuances estéticas) do mesmo conceito artístico de construção musical. Com o primado da tecnicidade (por oposição ao imediatismo), não estranha que o rock "matemático" se tenha tornado um género quase sempre demasiado encriptado para o comum ouvinte e, consequentemente, tenha colhido apenas o restrito reconhecimento de alguns melómanos fetichistas destas coisas do preciosismo técnico. Ao mesmo tempo, o sucessivo aparecimento de escolas menos "académicas" de fazer rock (e, portanto, mais acessíveis aos grandes públicos) ajudou a cavar o fosso entre as massas e o progressivo, quase votando ao esquecimento o legado histórico de King Crimson, Yes, Captain Beefheart ou Zappa que, afinal, serviu de luminária (mais ou menos assumida) a algumas das tendências posteriores.

A surpresa de Mirrored não está (nem tentou estar) num qualquer fôlego de homenagem emendadora dessa injustiça. Mais do que fazer isso, os quatro integrantes dos Battles, peritos óbvios no manejo dos conceitos de música progressiva (e, dentro desta, do nicho math), impressionam pela capacidade de introduzir ideias frescas em fórmulas de composição algo desgastadas (em razão do tal "esquecimento"). O álbum é, como não podia deixar de ser, maioritariamente instrumental (as vozes, arrebatadas e sem verbalizações, aparecem esporadicamente) e combina guitarras ansiosas e percussões frenéticas (do melhor que se ouviu nos últimos tempos) com electrónicas de filigrana pouco formal. Apesar desse pacto de substâncias estar subjacente à insistência em padrões "matemáticos" e, portanto, exposto ao risco da complexidade técnica obstar à intimidade com o ouvinte, a verdade é que as composições revelam um sentido melódico invulgar em produtos desta estirpe, por força das soberbas abstracções que, passando quase despercebidas sob o caudal dominante das "canções", acabam por somar-lhes dimensões diferentes e que as afastam da insensibilidade da técnica de per si. É aí que reside o segredo dos Battles, no convite irrecusável à redescoberta das inúmeras minudências e estratos em cada peça. E em perceber que, sendo técnico e preciso, Mirrored não deixa de ser tremendamente irresistível e compensador.

Posto de escuta AtlasTontoTIJ

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Apparat - Walls

7/10
Shitkatapult
Flur
2007
www.apparat.net



Depois de ter conseguido, no ano transacto, um impacto impressivo na órbita pop digital, ao lado da compatriota Ellen Allien (ver Orchestra of Bubbles), o alemão Sascha Ring está de volta por conta própria. Apesar das inúmeras solicitações e parcerias dos últimos anos, o músico não deixou de compor a título pessoal e Walls não é mais do que uma recolha de material acumulado desde a gravação do EP Silizium (2005). Nas palavras de Ring, a escolha do alinhamento do álbum não esteve subjacente a nenhum critério estético definido a priori, embora se perceba nas peças do alinhamento uma inclinação pop a que não serão estranhas as últimas manifestações do seu percurso. Todavia, esse pendor mais "convencional" (por oposição a outros trabalhos da sigla Apparat) não ofusca a costumeira diversidade estrutural das peças, tão certas a buscar enlaces harmónicos, ora partindo do mais cru esqueleto de minimalismo IDM, ora usando os mais expansivos e intrincados revestimentos digitais. Como se esperaria, é precisamente aí que reside o argumento mais convincente deste Walls, na caótica e frenética candura das texturas orgânicas (sempre foi essa a substância mais relevante da música Apparat), quase sempre contemplativas e mergulhadas na aura de intangibilidade que Sascha Ring vem aperfeiçoando nos últimos tempos. A ligação à terra é prescrita pelas vocalizações (dele ou de Raz Ohara) que, quando presentes, desviam o disco da órbita mais confortável (coisa particularmente evidente no single "Holdon", com Ohara) e nem sempre assentam bem no espectro largo e informal das construções rítmicas, diminuindo-lhes a luminosidade. A despeito dessas minudências técnicas, há em Walls um raro alinhamento de pequenas delícias sonoras que, se pontualmente não encantam à primeira audição, acabam por justificar algumas visitas atentas.

domingo, 10 de junho de 2007

Kalabrese - Rumpelzirkus

8/10
Stattmusik
2007
www.myspace.com/kalaspatz



Dele pouco mais se conhecia do que um 12'' ("Chicken Fried Rice", editado há três anos pela Perlon) que conheceu relativo êxito além das fronteiras helvéticas, especialmente à custa do magnífico loop de guitarra processada que dava corpo ao tema-título. Já aí, nesse quarteto de composições, se adivinhavam, ainda que com uma expressão menos apurada, as premissas estéticas de um idioma sonoro afecto à matriz sincopada do house minimalista, mas com inúmeras referências colhidas noutros universos. Em compassos lentos, quase arrastados, o suiço Sascha Winkler (é ele o cientista por detrás do cognome Kalabrese) acerca-se de um certo padrão abstracto da música funk "clássica", captando-lhe as dimensões de relaxe (derivações do genoma dub) e embrulhando-as num curioso mosaico digital (embora muitas das substâncias investidas sejam mais orgânicas do que soam), com algo de futurismo e, ao mesmo tempo, de ciência antiga. Ouça-se, a título de exemplo, a assombrosa construção de blues e anémico tribalismo de "Heartbreak Hotel". E assim segue a caravana de canções, livre e pejada de surpresas, sem formalismos técnicos, com inventividade e um harmonioso sentido de proporção. Sem uma pérola imediatamente contagiante como "Chicken Fried Rice", Rumpelzirkus é, sobretudo, um produto monolítico e vale-se da soberba consistência (e do element of surprise) para evitar o enfado dos padrões 4/4 e, mais do que isso, fazer dessa estruturação rítmica um esteio útil para noções desenvoltas de canção, a fazer lembrar o melhor de Matthew Herbert ou Ricardo Villalobos. Mas com uma identidade própria e que, mais tarde ou mais cedo, gozará do reconhecimento que lhe é devido.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

The Field - From Here We Go Sublime




Embora tendo nome feito no universo techno, as mais das vezes na pouca mediatizada atribuição de produtor, a obra própria do sueco Axel Willner (sob o pseudónimo The Field) resumia-se, antes deste álbum, a dois 12" (Things Falling Down, de 2005, e Sun & Ice, do ano seguinte). Partindo do mesmo corpo conceptual dessas edições (e até repetindo três composições do segundo), onde o minimalismo era uma premissa teórica, ainda que usada apenas como consistente ponto de partida para as construções rítmicas, e, sobretudo, demonstrando uma mestiçagem de sub-géneros inesperadamente profícua, From Here We Go Sublime não é espaço para manobras previsíveis. E, mais do que perceber-se que da equilibradíssima mistura resulta mais do que a mera soma cosmética de partes, o álbum desvenda uma coerência estrutural rara em produtos desta estirpe sonora. Aqui, sob a régua das cadências minimalistas techno e house (que não são o metrónomo exclusivo do alinhamento), cabem arcos de pura sedução ambiental (são eles os indutores da "profundidade" estética do disco), em jeito de pano de fundo, e pontuais samples de voz. O resto é apurado ao sabor da espessura emocional de cada composição, invocando a lógica de crescendo (continua a ser uma das mais apelativas formas de expressão das escolas de música dançável), os loops repercutentes e justapostos e os préstimos de diferentes escalas de programação (ora microscópica ora de medidas largas). O desfecho é um dos mais íntegros exercícios de música digital dos últimos anos, cruzando estéticas e referências e, acima disso tudo, demonstrando uma ampla visão artística, um profundo conhecimento técnico das ferramentas aplicadas e a inventividade própria de um idioma que, não tendo caracteres substancialmente "novos", acaba por moldar-se num discurso que ecoa na mente como se acabado de inventar.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Jeff Buckley - So Real: Songs From Jeff Buckley

5/10
Sony BMG
2007
www.jeffbuckley.com



Já se escoou mais de uma década desde o misterioso desaparecimento de Jeff Buckley e o seu legado musical continua a ser revisitado ciclicamente ao sabor da avidez comercial. Embora tendo editado apenas um álbum em vida, o lendário Grace (1994) - sacralizado depois da morte do músico como o título revolucionário que, à época, não chegou a ser - Buckley depressa se tornou, em moldes semelhantes ao mito mediático erguido em volta da herança e das memórias de Kurt Cobain, um exemplo paradigmático de quão rentável pode ser um cantautor que morre aos trinta anos. Além desse disco de debute, entretanto reeditado em versão "melhorada", a Columbia lançou, sempre com a orientação artística (e copioso enriquecimento) da mãe Mary Guibert, uma tríade de álbuns ao vivo, reedições com o selo Legacy (da Columbia) e uma colecção de esboços das não findas sessões de gravação do sucessor de Grace. E talvez a gula não termine ainda neste So Real cujo mérito maior é, mostrando algumas das canções emblemáticas do curto percurso de Buckley e duas gravações não editadas antes (cabe no alinhamento uma previsível revisão de "I Know It's Over" dos Smiths), mostrar porque a visão e as aspirações artísticas de Buckley são, hoje, um valor consolidado dos cânones da música, mesmo com as suas incongruências e incompletudes. E esse recurso, a música por si só, vive além do seu criador, tem fôlego próprio, e dispensa a obsessão editorial que, mais do que homenagear o património "clássico" de Jeff Buckley, o vulgariza por exaustão.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Marilyn Manson - Eat Me, Drink Me

7/10
Nothing Records
2007
www.marilynmanson.com



No hiato de quatro anos desde a última edição discográfica do muito discutido (e controverso) Marilyn Manson (Brian Warner no B.I.), a vida pessoal do músico experimentou algumas convulsões, a mais mediática das quais foi o súbito remate do envolvimento de sete anos (dois em laço matrimonial) com a voluptuosa playmate Rita Von Teese e a posterior aproximação à actriz Evan Rachel Wood. Essa promiscuidade emocional não terá sido indiferente à composição de Eat Me, Drink Me, um registo revelador de uma impressão mais pessoal (é Manson que assina todas as composições, com ajudas pontuais de Tim Skold) e intimista e que, nas palavras do próprio músico, é "o álbum da sua vida". No fundo, contrariando a linha de personas (o anticristo de Anti-Christ Superstar, o Omega 5, de Mechanical Animals, o holocausto de Holy Wood ou a estrela decadente e impudica de The Golden Age of Grotesque) com que consecutivamente se afirmou como símbolo de uma certa degeneração hedonista e iconoclasta (o que, ironicamente, veio a fazer dele próprio um ícone...), Manson aparece agora sem a máscara de uma personagem projectada para um determinado fim mediático. Nesse sentido, Eat Me, Drink Me desvenda a autenticidade por detrás do conceito e das pantomimas, coisa que faltou noutros trabalhos e que, em último caso, certifica um músico crente na sua arte (e inerentes idiossincrasias) e que, refeito dos ecos do massivo tropel condenatório que se seguiu ao massacre de Columbine (1999), ressurge num registo mais imediato (também estruturalmente menos "pesado"). Ainda que retendo os ritualismos de celebração do lado negro da vida e as metáforas góticas, as canções fogem da previsibilidade dos últimos álbuns, sem os riffs ziguezagueantes e a percussão pendular (essa combinação alimenta "Are You the Rabbit?" e, menos notoriamente, "Mutilation Is The Sincere Form Of Flattery", as duas faixas mais próximas dos cânones Manson) nem os exageros cosméticos do costume e, sobretudo, dando provas de um compromisso melódico mais efectivo, longe da pompa industrial dos trabalhos anteriores (a excepção, à Nine Inch Nails, é "You and Me and the Devil Makes 3"). Afinal, há vida por detrás dos disfarces e há alguma música além da ira gratuita. A assinatura do opus mais consistente da demónica sigla MM nos anos mais recentes é, afinal, de Brian Warner.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Modest Mouse - We Were Dead Before the Ship Even Sank




Depois de uma certa glorificação junto dos circuitos alternativos da música americana, na sequência da edição, em 2004, do dinamicamente melancólico Good News For People Who Love Bad News (aquele que foi considerado o corolário "natural" de um percurso relativamente consistente de mais de uma década a meia-luz), os Modest Mouse achavam-se num momento crítico do seu percurso. Conhecidas as várias possibilidades e dimensões de uma fórmula sonora essencialmente nutrida a malabarismos de guitarra e valendo-se dos múltiplos caracteres vocais de Isaac Brock, dois atalhos alternativos se abriam para eles no último álbum: ou repisavam a linguagem do antecessor, assim pondo à prova os ganhos de popularidade de então e expondo-se ao óbvio risco de mimetismo e inércia criativa, ou arregaçavam mangas em manobras reinventivas para investigar novos rumos para um som algo "gasto" e, no âmbito dessa experimentação, suscitariam uma vigilância mais severa de críticos e melómanos, em face da tentação do mainstream. Em qualquer dos casos, We Were Dead Before the Ship Even Sank mereceria sempre um escrutínio controverso e dificilmente agradaria a gregos e troianos. Em face dessa dúvida existencial e deixando de estar confinado às mutações abrasivas (e mais experimentais) das primícias, o novo opus dos Modest Mouse afigura-se o registo mais pop do seu percurso (não necessariamente no sentido mais "convencional" e depreciativo do termo), até porque aglutina as tendências sad da lírica de Brock com um optimismo sonoro (coisa que já se adivinhava no disco anterior) não escutado antes, pelo menos com esta amplitude. Conseguida a expansão estrutural do som (a integração do guitarrista Johnny Marr (ex-Smiths) desempenhou papel crucial nessa equação), falta apenas deixar que esse fôlego trepador contagie também a escrita. Afinal, convivem em We Were Dead Before the Ship Even Sank alguns momentos do escol Modest Mouse ("Dashboard" ou "Fly Trapped in a Jar", por exemplo) com peças demasiado monótonas ("Fire it Up", "Missed the Boat" ou "We've Got Everything") para não penalizarem a apreciação global do disco.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Bonde do Rolê - With Lasers




Trio de universitários de Curitiba, os Bonde de Rolê são um dos mais recentes fenómenos da música ligeira do Brasil (a par das Cansei de Ser Sexy) e, desde a sua "descoberta" pelo americano Diplo (ele próprio, um admirador do funk carioca dos morros), não mais cessou o tropel em volta deles e a consequente projecção mediática. Revelando, tal como as CSS, algum desprendimento face aos costumes "clássicos" da música brasileira (guardam apenas referências subliminares ao funk mais festivo, de percussão em algazarra) e apontando, sobretudo, para padrões sonoros do outro hemisfério, With Lasers é uma curiosa fusão entre exercícios de sampling com epicentro no heavy metal oitentista (as aparições são mais do que pontuais) e uma delirante profusão de beats e tresvarios digitais. Dir-se-ia que, nesse ponto, o disco desvenda uma estruturação decisivamente marcada pelo urbanismo actual, com a inevitável atracção pela vulgaridade (escutem-se as letras, pejadas de vacuidades e incipiências) e descontextualização cultural e descurando o sentido melódico típico da história das últimas décadas da música brasileira. Pior do que isso, na tentativa de suscitar um novo paradigma sonoro de festa de rua, assente essencialmente numa nem sempre lucrativa promiscuidade estética, os Bonde de Rolê perdem-se na sua própria algaraviada rústica e kitsch, precipitando um desfile de canções inconsequentes e cujo préstimo se fica pelo serviço mínimo para algumas pistas de dança. De toda a maneira, o que se esperava de um trio que, nas palavras da vocalista Marina Vello, busca inspiração numa vizinhança errática entre Christina Aguilera, Sleater-Kinney, Motorhead e Venga Boys?

domingo, 3 de junho de 2007

The National - Boxer

8/10
Beggars Banquet
Popstock
2007
www.americanmary.com



Quando eles editaram, há um par de anos, o orgulhoso Alligator (terceiro tomo do seu percurso), emprestando à pop a imponência da solenidade e o recato clássico de uns Tindersticks (nesse particular, os vocais de Matt Berning aceitam algumas coordenadas de Stuart Staples) ou dos momentos mais soturnos de Nick Cave, Leonard Cohen ou dos American Music Club, então apanhando desprevenidos os críticos e os melómanos mais atentos às margens do mainstream, percebeu-se que havia nos The National sustento para uma obra maior. Não é surpresa, portanto, que o sucessor desse trabalho reforce a convicção de que estamos perante um dos ensembles mais inspirados (e de crescimento mais consistente) do cenário rock alternativo americano das últimas temporadas. Boxer é feito de canções erguidas sobre uma base acústica (piano e/ou guitarra) de castiça intimidade (a que melhor serve às temáticas de privação que povoam a imagética emocional do disco), com uma escrita garbosa e, sobretudo, capaz de produzir uma saudável distância para os clichés depressivos que normalmente pontuariam este tipo de canções. Para esse facto, concorre decisivamente a assimétrica alquimia dos arranjos orquestrais do australiano Padma Newsom (dos Clogs) que, sem roubar as canções à órbita intimista e misantrópica (quase sempre direccionada para as depressões da urbanidade), lhes soma uma frágil e trémula luminosidade, ao jeito de factor redentor. E é, também, essa ambivalência emocional das canções, entre a desolação e as probabilidades da esperança mais esquiva (mas sempre presente), que faz deste Boxer uma das mais virtuosas colecções de canções deste ano.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Throbbing Gristle - Part Two: The Endless Not




Desde 1982 que não havia notícias dos londrinos Throbbing Gristle. O segundo acto do agrupamento (sugestivamente baptizado Part Two...), de per si, seria suficiente para suscitar alguma curiosidade em torno do novo trabalho de um colectivo que, no período dourado de expressão industrial do rock na Europa, se fixou como um dos seus mais perversos protagonistas. Com um código sonoro substancialmente mais tortuoso, vanguardista e corrosivo do que o "convencionalismo" dos Young Gods ou dos Einstürzende Neübaten à data, Genesis P-Orridge (hoje Breyer P-Orridge) e seus acólitos preferiram, com o pretexto de uma pretensa liberdade criativa e anti-tabus, abrigar-se sob uma imagética nazista e recorrentes alusões líricas a serial killers, erguendo à sua volta um coro de contestatários que, em efeito contrário, viria a seduzir uma geração de misfits sequiosos de sensações musicais diferentes das da onda punk. Essa nada ortodoxa exploração das potencialidades visuais (e de sugestão temática) da imagem tinha reflexos na cacofónica e sinuosa noção de música do quarteto, exorbitando as fronteiras do conceito industrial - porque nele recolhia as referências estruturais (os drones excêntricos de guitarra, a experimentação digital corrupta e vanguardista e a projecção espacial dos sons) - a favor de uma maníaca, angustiante e depressiva aleatoriedade de sons.

Essas premissas, válidas há um quarto de século atrás, repetem-se neste Part Two: The Endless Not, uma espécie de ensaio dadaísta de música, sem regras e altivo a expor os choques internos entre máquinas e mantras digitais, quais animais-fantasma abespinhados e em assombrada peleja (especialmente notória na arrepiante e paranormal "Lyre Liar"), desconfortáveis no imaterialismo da sua condição. Sons volantes (de almas movediças) estilhaçam-se mutuamente, sublinhando a transgressão ruminante dos samples (a voz de P-Orridge, único elo de aproximação do tomo a dimensões "físicas", é menos usada do que antes) e a impenetrabilidade do disco. Com os mundos fechados, a porta entreaberta para o ouvinte é uma suscitação visceral, uma palpitação mista de medo e desafio. Lá dentro, em orbes de descomunal estranheza (e incontornável (es)pasmo), cabe de tudo um pouco e, embora uma ou outra composição derrape nas suas próprias incertezas e se auto-emascule (até porque a preterição dos abrasivos mais fortes do passado é indisfarçável...), Part Two: The Endless Not funciona como enunciado seguro de um colectivo que, tendo inscrito o nome no mosaico dos notáveis do género industrial, se apresenta agora para o recolocar na órbita certa.