domingo, 13 de maio de 2007

The Cinematic Orchestra - Ma Fleur

7/10
Ninja Tune
Symbiose
2007
www.cinematicorchestra.com



Após cerca de oito anos de convergências com o selo Ninja Tune, período esparsamente preenchido com um quarteto de álbuns que se fecha com este Ma Fleur, os The Cinematic Orchestra são um dos mais dúcteis conceitos sonoros da editora londrina. Fazendo jus às sugestões cinematográficas do nome de baptismo, o colectivo liderado pelo versátil Jason Swinscoe demonstrou, desde os primeiros passos do seu percurso, uma afinidade quase umbilical com as formas de som afinadas para musicar filmes. Não é que eles sejam propriamente requisitados pela indústria do cinema, antes escolheram essa causa como escola inspiradora (Swinscoe afirmou recente que este álbum é a banda sonora de um filme imaginário...) e, conferindo-lhe uma roupagem muito próxima das órbitas pelo menos na palpitação rítmica) ou das várias ciências electrónicas que delas respiram, solidificaram um traço sonoro próprio. Com estas premissas, os tomos anteriores mostravam vestígios de um colectivo a testar várias substâncias e temperos e esse apuro estético deu ensejo a álbuns com vizinhanças (nem sempre proveitosas) entre o downbeat, o jazz, o pós-rock, o experimentalismo e a música ambiental. Ma Fleur parece o epílogo (talvez não definitivo) dessas deambulações cuja depuração levou o grupo a centrar-se fundamentalmente na escrita, prescindindo de grande parte dos ingredientes especulativos do passado. No geral, o álbum retém (como não podia deixar de ser) as medidas cinematográficas habituais - embora num formato mais minimalista - mas deixa a (afável) impressão de que, mais do que meramente encerrar música de fundo, há aqui lugar para peças com outras riquezas.

Frog Eyes - Tears of the Valedictorian

8/10
Absolutely Kosher
2007
www.myspace.com/
frogeyes



Embora não tendo chegado à dimensão mediática de outros colectivos canadianos, os Frog Eyes estão nestas andanças desde 2001 e vêm desenhando um trajecto interessante e com substância. Escutando a música deste quarteto, tornam-se evidentes as referências estruturais a Nick Cave (não tanto no registo vocal mas especialmente na predisposição desconsolada do rock), aqui sombreadas pela dose certa de psicadelismo (no mesmo jeito Bowie que também inspira os conterrâneos Arcade Fire) e com um mosaico de sons "poluído" por insinuações instrumentais importadas do pós-rock. Nesse particular, de resto, sem perderem o sentido melódico, as composições sobem a fasquia do desprendimento formal (por comparação com trabalhos anteriores) e, ao mesmo tempo, demonstram uma impressiva volatilidade estética. Isso confere a Tears of the Valedictorian um eclectismo pouco notado nas primeiras audições mas que, dissimulado na falsa sensação de ruína das canções (em alguns casos, como na modelar "Bushels", quase é "oferecida" ao ouvinte uma ilusória escolha entre o desabamento e o escapismo), se torna a força motriz do disco. Denso e abarrotado de nuances (quase barroco), Tears of the Valedictorian é, por isso, um disco para ser escrutinado com tempo e minúcia, até que compassadamente se dividam as suas múltiplas camadas de som, seus enlaces pouco convencionais e estímulos emocionais e se desvendem, em triunfantes revelações, os filamentos de um grande disco.

Posto de escuta Bushels

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Micro Audio Waves - Odd Size Baggage

8/10
Magic Music
2007
www.microaudiowaves.com



A electrónica não é propriamente uma doutrina exercitada com grande sapiência cá no burgo e, de entre um punhado de estetas meritórios do género que emergiram do anonimato nos últimos anos, ressurge o nome dos Micro Audio Waves. Ao terceiro fascículo de um percurso consagrado, no essencial, à descoberta das potencialidades da pop sintética, são claros os sinais de concretização (e definição de métodos) de uma linguagem até aqui confinada à natural curiosidade pelo experimentalismo. Afinal, essa propensão pela experiência mais não foi do que uma etapa primária (e indispensável) do processo de construção e refinamento da identidade sonora do trio que, sem amortecer a ousadia e a orientação pelo risco, se manifesta neste Odd Size Baggage com um sentido estético apuradíssimo, preciso nos enlaces orgânicos e, sobretudo, dimensionado em canções equidistantes da electro-pop e do clássico exercício experimental. As composições são da melhor electrónica que se tem ouvido por cá e, em favor da dinâmica do disco, tomam as mais discrepantes formas proporcionadas pela era digital, assim assegurando uma ímpar modernidade e, em consequência, as oportunas oscilações de expressão (nesse particular, os vocais de Cláudia Efe estão melhores do que nunca!) que mantêm o ouvinte "agarrado" do princípio ao fim. Um dos melhores nacionais do ano.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Björk - Volta

7/10
One Little Indian
Universal
2007
www.bjork.com



Conhecida (e apreciada) pela camaleónica e nada ortodoxa capacidade de se reinventar a todo o momento, a islandesa Björk tornou-se, nos anos mais recentes, um dos ícones mais reverenciados da pop. Divisora de opiniões, ela integra, afinal, o restrito lote de artesãos a que poucos ficam indiferentes, não sendo de espantar a expectativa que o seu décimo álbum de estúdio (descontando a parceria com o marido Matthew Barney no filme Drawing Restraint 9, de 2005) suscitou na comunidade melómana. Depois de ter testado, com a elegância costumeira, a elástica potência da sua voz nas quase-canções de Medúlla, há três anos, Björk retoma alguns dos pressupostos da sua identidade musical, pontuados aqui pelo reencontro com a electrónica e um certo formalismo (se é que isso é possível com Björk...) e pela reconciliação com a versatilidade estética dos melhores instantes da sua carreira. Nesse particular, Volta convoca passados e futuros na forma de sons com pressupostos e latitudes bem diversas, propondo-nos o devaneio da conjugação do puro tribalismo (sabor transversal ao álbum) com a electrónica extrovertida (o single "Earth Intruders", com a percussão dos Konono n.º 1, é exemplo), ou da fragilidade do experimentalismo com ciências asiáticas (escutem-se "I See Who You Are" e "My Juvenile", com a chinesa Min Xiao-Fen); no caldeirão cabem ainda a oportunidade do jazz vanguardista (como na cinematográfica "Vertebrae by Vertebrae" ou na plácida "Pneumonia"), a exaltação do noise (no festim de "Declare Independence", ao lado de Brian Chippendale, dos Lightning Bolt), o flirt com África ("Hope", com a inconfundível kora do maliano Toumani Diabaté) ou o cortante e soturno romantismo ("The Dull Flame of Desire", com os vocais andróginos de Antony Hegarty). Os delírios electrónicos têm a mão de Marc Bell (repetente nestas andanças) e a arrumação da casa é do ubíquo Timbaland. No global, a despeito de um punhado de adições oportuníssimas ao já preenchido ideário de Björk e da dimensão "fresca" que a islandesa sempre põe no que faz, Volta deixa a impressão de que as construções provindas dessas ideias raramente são tão consequentes como se imporia e, por isso, se assemelham a bosquejos inacabados das canções que podiam ter sido. O que, sendo uma deformidade indisfarçável, no caso de Björk, é traço típico (às vezes, com medidas de mérito) e, também neste caso, não potenciador de unanimidade.

Electrelane - No Shouts, No Calls

6/10
Too Pure
Popstock
2007
www.electrelane.com



O percurso das inglesas Electrelane, com um quarteto de álbuns no histórico, é prova plausível de que não é preciso ser-se um artífice com competência técnica superlativa para merecer a atenção do orbe melómano. Escrutinada sob um ponto de vista meramente técnico, a obra das quatro raparigas de Brighton desvenda, aqui e ali, algumas minudências de tosca execução instrumental e isso é, como nos tomos anteriores, particularmente sensível neste No Shouts, No Calls. Não obstante o inevitável embaraço estrutural que tal facto projecta nas composições, sobrando a sensação de que, de certa forma as Electrelane ainda andam a apalpar terreno à procura de poiso estável, a verdade é que é precisamente essa rusticidade uma das mais-valias do quarteto e um dos seus traços identitários mais proveitosos. Ao mesmo tempo, neste quarto trabalho, as meninas devolvem-se ao formato pop mais convencional (sem renunciarem à luminária decisiva do krautrock), resgatando uma presença (muito) mais efectiva da voz de Verity Susman (em comparação com o laboratório de sons de Axes) e, sobretudo, usando o experimentalismo e abstracção apenas como matéria colateral (mais sentida na segunda metade do disco). Nesse sentido, No Shouts, No Calls é um dos mais acessíveis exercícios das Electrelane mas, ainda assim, mesmo dando provas de uma delimitação mais concreta da estética predilecta do quarteto, não passa despercebida a inconsistência de uma escrita capaz de produzir momentos altos ("The Greater Times" ou a instrumental "Tram 21") e de, com a mesma presteza, resvalar para a vulgaridade.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Dean & Britta - Back Numbers

7/10
Rounder
2007
www.deanandbritta.com



As origens da dupla Dean Wareham e Britta Phillips remontam aos já extintos Luna, projecto que Wareham fundou depois do conflituoso (e intempestivo) encerramento de actividade dos Galaxie 500, volvido um percurso de meia década que se revelaria, a posteriori, um vaticínio para o punhado de bandas da geração seguinte do movimento dream pop. Também integrados nessa corrente, sendo dela um dos ícones mais sólidos e relevantes, os Luna deixaram um legado paradigmático de como se vertem emoções no acto de escrever uma canção, com uma noção irrepreensível de elegância e, sobretudo, com uma crença ferrenha nas aptidões sedutoras do retro. Essas são também as premissas do segundo trabalho de Dean e Britta juntos depois do fim dos Luna e surge na linha do que se ouvira no comovente L'Avventura (2003), repetindo a produção requintadíssima de Toni Visconti, sempre a rebuscar o encanto melódico das composições da dupla. Estruturalmente, a despeito do inconfundível garbo das composições (e das já habituais versões...), o disco desvenda poucas novidades para quem conhece o passado destes senhores, algumas vezes comparados ao par esboçado por Lee Hazlewood (ele sim uma luminária incontornável de Wareham) e a sua diva de sempre, Nancy Sinatra. Salvaguardadas as diferenças, Back Numbers é, na essência, um produto que se afigura como a sequência lógica da criação de dois artífices que, sendo cultores de costumes sonoros de outras épocas, os arrumam no justo preito da modernidade com um gostinho especial a nostalgia.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Son Volt - The Search

7/10
Red Ink
2007
www.sonvolt.net



Para aqueles que ainda não o sabem, o project Son Volt deriva dos extintos Uncle Tupelo, colectivo que na primeira metade da década de noventa sacudiu a cena folk-rock norte-americana. Com a extinção da banda ainda antes de meia década volvida, Jeff Tweedy ergueu o conceito Wilco, hoje por hoje um dos mais reputados ensembles do seu país, e Jay Farrar criou os (muito menos) mediáticos Son Volt. Não sendo um disco formalmente inovador, The Search (quinto registo da banda) não deixa de mostrar uma certa renovação da paleta de sons da banda, mormente na importação de novas dimensões sónicas com as teclas de Derry Deborja, e na reassunção do mais genuíno espírito do rock americano (ouça-se, a título de exemplo, a faixa título), nisso se distanciando subliminarmente dos trabalhos mais recentes. Além dessa convicta "abertura" dos princípios estruturais das composições, assim adquirindo a música dos Son Volt renovado vigor expansivo em comparação com outros momentos do seu percurso, a voz de Farrar surge resoluta como poucas vezes, dando corpo a alguns dos melhores enlaces harmónicos da carreira do grupo. Ainda assim, a despeito do sentido de proporção de The Search e da sua validade como declaração de sobrevivência de uma banda alérgica a conformismos estéticos, o álbum não foge a um ou outro instante mais previsível. E esse embaraço insofismável faz desta colecção de canções, não aquele rebento da mais fina estirpe da música americana que podia ter sido, mas um puro (e saudável) exercício de transição.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Dinosaur Jr. - Beyond

8/10
Fat Possum Records
2007
www.dinosaurjr.com



Embora nunca tenham realmente sumido de cena - o que terá obrigado J. Mascis (guitarra e voz), Murph (bateria) e Lou Barlow (baixo) a uma difícil ginástica mental de resistência a inúmeras agitações "internas" - a reputação dos Dinosaur Jr. junto das gerações mais juvenis não faz justiça aos préstimos de um trio que, durante a segunda metade da década de 80, desempenhou um papel decisivo na reconversão da estética punk e escancarou portas para a eclosão do movimento grunge. De então para cá, por acção da insaciável urgência editorial em construir novos símbolos ou em razão de um punhado de álbuns menos inspirados, os Dinosaur Jr. foram empurrados, pelo mesmíssimo orbe que sacralizou o (muito rentável) simbolismo de Kurt Cobain como porta-bandeira de uma geração que muito lhes deve, para uma imerecida marginalização. Beyond chega aos escaparates depois do prolongado silêncio de uma década sem edições e merece duas leituras. Se o escutarmos como mero produto da cena rock contemporânea, o álbum revela-se um óptimo exercício de redenção do rock'n'roll puro e insuspeito, em resposta às incontáveis derivações recentes de nostalgia do imaginário rock setentista ou oitentista. Ao invés disso, se o acolhermos como declaração de três estetas maduros, sem dívidas temporais e perseverantes na defesa de um estilo que, tendo passado de moda, não é um género "morto", depressa se percebe a injustiça que foi termos esquecido que estes dinossauros quarentões não pereceram na era jurássica e estão aí para as curvas. Rock musculado e de compêndio.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Eluvium - Copia

7/10
Temporary Residence
Sabotage
2007
www.eluvium.net



Não é notícia inesperada que, ao terceiro registo de um percurso incidente sobre as diversas dimensões ambientais da música, Matthew Cooper tenha decidido imprimir um impulso clássico às suas composições. Em boa verdade, a sua música, nunca perdendo o vínculo à muitas vezes desconsiderada família ambiental, sempre revelou um compositor com engenhos para outra profundidade, coisa que, de resto, ensaiou com resultado dúbio na experimentação drone etéreo de Talk Amongst the Trees (2005). Contudo, já aí se desvendava uma reconstrução das causas primárias do conceito Eluvium, bem além do clássico minimalismo do piano que mostrara no debute. Esse redimensionamento volta a ser uma premissa e é levado a efeito prescindindo das pontuais distorções do tomo anterior e, sobretudo, operando enlaces harmónicos próximos da faustosa erudição clássica, com cordas, teclados e sopros. Apesar da formatação instrumental mais ambiciosa, as composições não esquecem o afecto pelo minimal ("Radio Ballet" é modelo dessa gramática sonora) e pela dimensão plástica da música, erguendo plácidas construções de sons que interagem romanticamente com o espaço, em razão das preciosas desmarcações das ressonâncias e da lenta progressão cénica dos diversos instrumentos. O desfecho tem, em turva ambivalência, qualquer coisa de pastoral e de majestático, bem ao jeito dos costumes sónicos da sétima arte. E Copia confirma as credenciais de Cooper como um dos mais notáveis artesãos do género, dando asas à crisálida que se escondia nos opus prévios e que haverá de, prosseguindo a tendência de expansão consciente e esteticamente coerente, conjugar as atmosferas emocionais que aqui são aludidas num código ainda mais impressivo.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Black Rebel Motorcycle Club - Baby 81




Nada fazia prever que, depois do revés criativo que fora Howl em 2005, os Black Rebel Motorcycle Club fossem capazes de resgatar o melhor da sua essência rock. Se aquele trabalho mostrava uma estranha propensão para buscar uma espécie de álgebra espiritual - matéria improvável (quase indecifrável) para roqueiros de gema como estes californianos - baralhando a identidade do par de álbuns que os apresentaram ao universo rock, este Baby 81 dispensa a abordagem acústica do antecessor e retoma o discurso dominado pelas distorções. No fundo, Howl foi o resultado necessário e natural da purgação mental de Robert Levon Been e seus pares, depois do assalto mediático da comunidade alt rock, firmando o imprescindível exercício de equilibrismo emocional da banda e lavagem de ideias, antes da reconciliação com os princípios primários do seu som. Bonança antes da tempestade. Todavia, eles não se ficam apenas pela retoma estética; além do resgate das distorções, do feedback e até de algum psicadelismo - substância preciosa para a definição de uma identidade própria - trazem no bornal uma escrita de confiança renovada, com linguagens diversas (por vezes, um tanto desfocadas da concordância estrutural do disco) e, sobretudo, com o reajuste mais oportuno (o regresso do baterista Nick Jago foi uma ajuda...) das potencialidades criativas da banda. Mesmo sem aspirações revolucionárias, Baby 81 é exemplo paradigmático de que, por mais repercussões conjunturais que avancem sobre uma banda, a solução para um bom disco rock pode estar, ao invés de qualquer deriva pontual (ou tentativa de "crescimento"), no ponto de partida.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Blonde Redhead - 23




Depois de Misery is a Butterfly, sexto álbum dos Blonde Redhead discretamente publicado há cerca de três anos pela mão da 4AD, já se previa que o trio viesse, em futuros lançamentos, a fortalecer a (mais ou menos) assumida viragem dream pop do seu som, afastando-se ainda mais dos preceitos da gestação que, muitas vezes, precipitaram alguns cotejos com a fase púbere dos Sonic Youth. Bastante apartado do temperamento cáustico e experimental desses tempos, 23 é sobretudo um enredo harmónico construído em volta da voz melico-doce da nipónica Kazu Makino - ela divide o trio com os gémeos italianos Amadeo e Simone Pace - e o enlace voz-matéria instrumental mostra um certo refinamento pop, não necessariamente sinónimo de aligeiramento estético, antes repercussão inevitável do namoro (mais ou menos intuitivo) com o formato shoegaze. Tal acidente formal - desfecho natural do rumo evolutivo do grupo - nem sequer fecha as portas a aparições pontuais de substâncias electrónicas, mas cede (bem) a prioridade às causas de arte emocional das guitarras. Pena é que sobre a impressão de que, não obstante a beleza desprendida de algumas destas composições e os méritos de homogeneidade do álbum (também produtores de uma importuna sensação de omissão de contrastes), os Blonde Redhead pareçam reféns do polimento imoderado do seu som, dando mostras de maior transigência com o polimento de estúdio ou de uma escrita mais cortês e conformista, em prejuízo manifesto da mágica personalidade fracturante que tão bem desvendavam em Melody of a Certain Damaged Lemons (2000). Ainda assim, há em 23 pretextos mais do que suficientes para dar crédito aos Blonde Redhead e, quiçá, carimbar-lhes a passagem para outros palcos.

Posto de escuta 23SilentlyPublisher

sábado, 28 de abril de 2007

Clique na imagem para ampliarHonoré Daumier, The Uprising (1860)

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Ran Slavin - the Wayward Regional Transmissions




Embora o glitch não seja uma vulgar ciência de sons ou um formato de aceitação simples, a verdade é que entre os estetas do género se encontram alguns ícones redondos da música electrónica, mormente os precursores Richard D. James (Aphex Twin) ou o projecto britânico Autechre que, no dealbar da década de noventa, seguindo as pistas deixadas pelas pesquisas espaciais de gente como Brian Eno, alargaram o espectro tonal da música de base analógica a qualquer interferência sonora imaginável. Assim se fez uma filosofia de cariz experimentalista, sem espartilhos formais, e cuja orgânica mais não era do que um emaranhado meticulosamente montado de microscópicas partículas de som, coladas ou sobrepostas, ordenadas e sem perderem a dispersão, como se se combinassem anormalidades para chegar a uma peça com um sentido metafórico de canção. O israelita Ran Slavin é um discípulo do regimento glitch e junta à manipulação electrónica do género um punhado de utilíssimas inspirações orientais, quase sempre servidas pelas cordas do ud (instrumento egípcio) ou da bulbultarang (utensílio indiano), também pela guitarra tradicional ou pelos samples. O desfecho é algo críptico e demora a decifrar; mas, uma vez entrados nos dédalos codificados deste The Wayward Regional Transmissions, sem saídas de emergência, resta-nos mergulhar sem reservas, qual roedor de laboratório nas mãos invisíveis da ciência, e desvendar uma miríade de sensações auditivas que tanto nos levam ao tortuoso e árido Médio Oriente, como nos põem placidamente em cima de uma nuvem cinzenta de impurezas. Com chancela de um selo luso.

Smartini - Sugar Train

6/10
Edição de Autor
2007
www.smartini.org



Depois de alguns anos de estrada, o quarteto minhoto Smartini decidiu-se pelo debute no mercado discográfico, aventurando-se numa edição própria. Logo nas primeiras audições, mesmo sem a cábula do press release de Sugar Train, percebe-se que a música deles busca o mesmo fôlego que, duas décadas atrás, fez dos Sonic Youth uma espécie de pioneiros na especulação rock do ruído e na experimentação vanguardista com a dissonância melódica, a desarmonia induzida e o feedback. Tais ingredientes fazem também a massa sónica dos Smartini, com o imperativo das guitarras a fazer-se notar, qual cicerone estruturalmente hesitante entre o estampido e a quietude. Dessa irresolução formal da guitarra, afinal a fonte para as descontinuidades preenchidas inteligentemente pelo espargimento do feedback e demais matérias de acaso sónico, com o patrocínio conveniente do baixo e das percussões, nasce um fluido sonoro organicamente rico, é certo, com alguns laivos (mais ou menos envergonhados) de progressismo, mas que, a despeito da competência técnica das composições, não descola peremptoriamente das referências originais. E isso torna-se uma inferência subliminarmente castradora do notório engenho dos Smartini a projectar (e desvendar) ambientes de sons ensimesmados, mas sem sombra de estagnação e, sobretudo, com a ginástica emocional suficiente para crescerem na mente. Assim os Smartini tentem a emancipação que lhes fervilha nas veias - e que, reconheça-se, seria sempre difícil no primeiro disco - e encontrarão em si mesmos algumas das mais sumarentas assimetrias do rock português contemporâneo. A promessa ficou, esperemos por novos capítulos.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Tarwater - Spider Smile

7/10
Morr Music
2007
www.tarwater.de



O duo berlinense Tarwater é um caso curioso de construção estética. A electrónica é, desde as primícias do seu percurso, a prerrogativa dominante das estruturas melódicas, muitas vezes apenas instrumentais mas guardando um vínculo distante (quase conjectural) com o formato canção. Todavia, se os primeiros passos de Bernd Jestram e Ronald Lippok (também envolvido no pós-rock dos To Rococo Rot) mostravam uma certa primazia das formas descontínuas de sondar o lado negro do dub e, ao mesmo tempo, opunham bandos sonoros (às vezes, formalmente inconciliáveis) de escolas diversas da electrónica, assim clivando diferenças sistémicas para a mais convencional das matrizes de composição, os trabalhos mais recentes desvendam a harmonização dessas premissas com aquilo que pode chamar-se de fôlego pop. O estúdio (e a preciosa alquimia que aí se produz) continua a ser um condutor incontornável, ou não dependessem estas composições de uma cuidada edição de sons e, sobretudo, da identidade orgânica dos elementos de síntese, mas é sem reservas que a dupla berlinense assume definitivamente o que se adivinhara no álbum anterior, acomodando-se a num registo mais próximo da matriz verso-refrão tradicional. No fundo, percebe-se que essa predisposição para reduzir a ambiguidade formal das composições, não lhes subtraiu o vigor hipnótico ou a excelência sónica do costume - com aquela elegância que faz lembrar os Velvet Underground, como que renascidos na cena electrónica independente alemã - e isso é uma qualidade deste Spider Smile que, vendo emendadas algumas deficiências menores, poderá render uma obra maior no futuro.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Arctic Monkeys - Favourite Worst Nightmare

7/10
Domino
2007
www.arcticmonkeys.com



Depois de terem assegurado um lugar na história como o mais mediático dos fenómenos musicais a provir do espaço cibernético - lembre-se que estes audazes britânicos tiveram no MySpace o veículo primário de divulgação da sua música e a fonte dos ecos que os trariam, mais tarde, ao primeiro contrato discográfico - os Arctic Monkeys apresentam-se para o segundo acto, engalanados por uma série de galardões com que a indústria discográfica louvou a meteórica ascensão do grupo ao sucesso. Se à responsabilidade dessa escalada rápida juntarmos a expressão comercial do álbum de estreia (foi "apenas" o debute mais vendido da história da música britânica...), percebe-se o quanto poderiam pesar os ombros de Alex Turner e seus pares, na hora de escrever novas canções. Porém, depois de escutar este Favourite Worst Nightmare, parece claro que a banda não acusou essa pressão extra e, com o mesmo propósito quase niilista com que sucessivamente vem rejeitando os requisitos do protagonismo mediático (vejam-se as últimas aparições deles em cerimónias públicas), mostra o desprendimento exibido no primeiro título. O que é o mesmo que dizer que, rejeitando qualquer "obrigação" de maturação (leia-se evolução) do seu som ou dos princípios básicos das canções - apesar de uma ou outra breve sugestão subliminarmente mais experimental - os Arctic Monkeys oferecem-nos mais do mesmo. E, no caso deles, isso é sinónimo de garra, de hedonismo e de compromisso com uma estética que, não sendo facto novo, presta serviço útil na revitalização de um pop-rock britânico menos conformista (nos últimos anos) mas ainda carente de símbolos.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Feist - The Reminder

6/10
Universal
2007
www.listentofeist.com



Não bastava apenas o facto de ela ser presença regular nas actividades do seminal colectivo Broken Social Scene, e, antes disso, ter tocado com Peaches (nesse tempo, Fesit respondia pelo nome de Bitch Lap Lap...) ou Gonzales, também a moça se deu a um percurso a solo que, mais do que meramente estimular os melómanos curiosos por estas coisas dos side projects, a estabeleceu como uma das marcas mais relevantes da música canadiana. O terceiro título de originais confirma aquilo que já se sabia dela: é senhora de uma voz melíflua como poucas e usa-a com a agilidade de uma cantora/compositora versada em diversos estilos sonoros, sempre reduzidos a formas minimalistas e com embalos importados do jazz ou da folk tradicional. A surpresa deste The Reminder está na revisão de "See-Line Woman", peça conhecida na voz de Nina Simone, apresentada numa suculenta dimensão tribalista-gospel e re-grafada como "Sea Lion Woman". Nas demais peças do alinhamento, ainda que com o esperado (e bem-vindo) investimento nas múltiplas possibilidades do espectro emocional da voz de Feist, com uma ou outra excepção útil (o piano bar e a construção harmónica de "1234" é uma delas...), desvenda-se uma escrita menos inspirada - porque pende para espaços afastados da rústica sedução que se lhe conhecia - do que no sublime Let it Die, de há três anos. Efeito conjuntural do debute numa major ou não, a verdade é que The Reminder, não sendo um álbum despiciendo, pouco soma à família de recursos de Feist e, por isso, a reboque dos instantes mais oportunos, suprirá apenas minimamente os ansiosos apetites daqueles que esperavam um Let it Die, Vol. II.

Posto de escuta MySpace de Feist

sábado, 21 de abril de 2007

Kosheen - Damage

5/10
Universal
2007
www.kosheen.com



Sediado em Bristol, no Reino Unido, o trio Kosheen é um exemplo de consistência criativa (o que também pode ser lido como imobilismo estético), sempre fiel ao intrincado mundo da electrónica contemporânea (o que nem quer dizer que eles fechem olhos à iluminação de referências passadas, mormente da década de oitenta), com jogos de beats e programações modernas e uma orgânica sonora a combinar os ingredientes sintéticos de Markee Substance, a guitarra eléctrica de Darren Decoder e a voz da galesa Sian Evans. No resto, a receita de Damage é percorrer o ideário normal da synth-pop, subliminarmente menos coincidente com a órbita drum'n'bass que esteve na génese do trio e assente num registo vocal amigo do ouvido (e, curiosamente, próximo dos formatos de géneros mais mainstream) e em construções orgânicas férteis em contrastes e detalhes tónicos. Coisa parecida, pode dizer-se, com uma improvável mestiçagem entre os Depeche Mode, os Everything But the Girl e os Morcheeba. A fórmula funciona melhor quando o trio apela a universos emocionais mais sinistros (como na esplêndida "Wish You Were Here") e, nesses instantes, as composições conseguem desviar-se dos banais estereótipos que, nos trechos mais expansivos ("Like a Book" à cabeça), as empurram para uma escusada banalidade pop, ofuscando inclusivamente um ou outro ápice de feliz enlace orgânico. Em consequência, Damage não escapa aos mesmo prejuízos formais que se percebiam noutros trabalhos e, pior do que isso, deixa-se domar por uma sucessão de concessões pop, tornando-se uma escuta apenas compensadora para os indefectíveis seguidores.

Posto de escuta DamageOverkillThief

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Nine Inch Nails - Year Zero




Com o lançamento antecedido por uma campanha de marketing sem precendentes no percurso do projecto Nine Inch Nails, Year Zero chega aos escaparates rodeado pelo alvoroço e expectativa da extensa legião de fãs de Trent Reznor. Aparentemente construído em redor do conceito orwelliano de um mundo à beira do colapso social e com a fanática vertigem do terrorismo biológico apenas contida pelo uso generalizado de drogas governamentalmente prescritas e com efeitos alucinatórios, o álbum é um retrato esquizofrénico, revoltado e fatalista de uma época algures no futuro. Essa descrença distópica (e o vanguardismo estrutural) não é toada nova na música de Reznor, embora Year Zero demonstre uma vitalidade não sentida nos últimos registos NIN, mormente na articulação entre a doutrina rock industrial psicótico-vanguardista e as matérias orgânicas de medidas largas, experimentais e delirantes. Nesse particular, as composições fazem prova de uma depuração diferente das fórmulas industriais do som de Reznor, não no sentido de agravar o discurso eléctrico das guitarras, antes buscando a acidez e as convulsões mutantes da electrónica de arame farpado como discurso dominante. Essa preferência nem sempre traz conforto aos trechos, por vezes somando uma dose de inconveniência estética que lhes encobre a essência e, ainda que tendo em conta a expansão estrutural evidente em relação aos últimos títulos, Year Zero é, como o título ironicamente sugere (ele é também o primeiro pós-desintoxicação de Reznor), apenas o capítulo zero de um novo mundo NIN. Por ora, parte dos esteios desse mundo, a espaços gloriosamente entrevistos neste disco, ainda estão no casulo...

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Christ. - Blue Shift Emissions




Por detrás da enfática alcunha de Christ. (assim mesmo, com o ponto no fim) está o produtor escocês Christopher Horne, responsável pela engenharia sonora de alguns trabalhos dos Boards of Canada na década de noventa. Blue Shift Emissions é o segundo álbum em nome próprio e, tal como o antecessor, revela uma ambígua identidade ambiental e, ao jeito dos melhores produtos IDM, assenta numa cuidada estruturação orgânica (nesse particular, encontram-se laivos de sons analógicos processados com qualquer coisa de retro) e em jogos harmónicos complexos e com atmosferas espaciais. Não fosse a perícia melódica de Horne (e a forma "natural" como se desenham os encadeamentos melódicos do disco) e o generoso investimento cosmético que as composições denunciam poderia tornar-se factor de hermetismo e, por conseguinte, converter a audição do álbum numa experiência de decifração menos espontânea. A sobreposição da melodia face à complexidadade das técnica de estúdio é, de resto, a energia motriz de Blue Shift Emissions, um dos mais "simples" e imediatos produtos do orbe IDM experimental nos últimos tempos, a que só parece faltar um pouco mais de arrojo e imprevisibilidade na escultura de novas ideias. Ainda assim, insinuações como as da pérola "Vernor Vinge" provam que há aqui matéria em potência. Coisa para dar melhores frutos no futuro.


Posto de escuta Sítio da Smallfish
Clique na imagem para ampliarArshile Gorky, Water of the Flowery Mill (1944)

terça-feira, 17 de abril de 2007

Low - Drums and Guns

8/10
Sub Pop
2007
www.chairkickers.com



Embora sendo reconhecidos essencialmente por uma franja periférica das comunidades melómanas, eles levam já catorze anos no activo (não parece, pois não?) e esse tempo foi o bastante para porem de pé um sólido catálogo de canções e, sobretudo, firmarem um traço inconfundível na forma como elevam a melancolia a estados etéreos. Foi com o soberbo Things We Lost in the Fire (2001) - injustamente ignorado por muitos mortais - que definitivamente se tornaram figuras de proa do movimento a que as convenções chamaram slowcore. Desenganem-se aqueles que procuram neste Drums and Guns um sucessor semelhante ao anterior The Great Destroyer. Com efeito, o novo opus colhe diversas referências estruturais das órbitas pós-rock (coisa mais ou menos recorrente no percurso da banda) mas fá-lo com um sentido minimalista distinto das instrumentalizações luminosas do antecessor e, consequentemente, aponta a um espaço emocional mais negro, fragmentado e fatalista, de resto o habitat natural dos melhores momentos da banda. E Drums and Guns é robustíssimo manifesto das aptidões dos Low, levitando em terna melancolia, como só eles a sabem escrever.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Au Revoir Simone - The Bird of Music

6/10
Moshi Moshi
2007
www.aurevoirsimone.com



Não é facto novo que a metrópole de Nova Iorque, muitas vezes pomposamente citada como capital do mundo, se tornou o símbolo do empório cosmopolita por excelência e ponto de convergência de migrações, primeiro dos peregrinos da Revolução Industrial, depois dos perseguidores multinacionais do sonho americano e, mais recentemente, do movimento yuppie da alta finança e dos novos-ricos. As repercussões históricas dos consequentes cruzamentos de culturas e gerações, tornaram a Grande Maçã um verdadeiro mosaico de culturas (confirmadas na miríade de comunidades estrangeiras que proliferam nos arrabaldes da cidade), de pulsares e emoções distintos. Foi nesse ambiente estruturante que cresceu a tríade Au Revoir Simone. Não é que a sua música seja o mais fiel representante dessa "transnacionalidade" ou sequer demonstre sinais de algum atavismo. Pelo contrário, The Bird of Music, recurso elogiado pelo cineasta David Lynch, é moderno e perfeitamente actual. E ser moderno, na Nova Iorque de hoje, significa (como tão bem Lynch nos habituou) ter aptidão para captar o lastro de melancolia que deriva das fracturas identitárias da cidade que não dorme (Sinatra lembrava) e, ao mesmo tempo, encontrar laivos de esperança entre os inúmeros caracteres de uma construção social com clivagens depressivas e estímulos contrastantes. E as Au Revoir Simone, munindo-se apenas de ingredientes sintéticos, agarram essa essência nuclear de Nova Iorque, cruzando os estados misantrópicos em que a mente (e o indivíduo) se refugia na melancolia e no isolamento com o confiante ânimo de quem presume a efemeridade das coisas e, por arrastamento, a transitoriedade do desgosto. É assim que esta música se afirma, ambivalente nas substâncias psíquicas, mas empenhada na regeneração das suas próprias inquietudes e desilusões, ao jeito da mesma cura que os Stereolab encontraram para as tonturas de Londres, embora com uma alquimia instrumental diferente. Aqui, bastam umas batidas (se não fosse a datada caixa de ritmos a coisa podia soar melhorzinho...) e fraseados melódicos de sintetizador para elevar a moral do mais esmorecido nova-iorquino. E isso, mesmo sem uma inspiração especial na composição, chega para lembrar que a languidez de espírito é um lugar estranho. E, afinal, não é só em Nova Iorque que, como dizem as Au Revoir Simone, tomorrow is eventual...

sábado, 14 de abril de 2007

Moskitoo - Drape




Desde os primeiros ecos dos acordes flutuantes e frios das texturas sintéticas deste Drape, somos ilusoriamente conduzidos a um universo de sons (e, principalmente, sensações) em tudo simétrico aos ambientes oriundos do setentrião europeu, mormente àquela dispersão hipnótica que tem guias na música da Escandinávia. Contudo, esta descoberta da 12K, selo do nova-iorquino Taylor Deupree, vem na linha de outras que recentemente surgiram no catálogo da editora e é importada do Japão. Sanae Yamasaki é a mulher multi-instrumentista por detrás destes muros de som e, no primeiro registo discográfico do seu percurso, investe num conceito minimalista de fazer música electrónica, com um entendimento melódico docemente inocente, quase infantil e, ao mesmo tempo, aludindo à abstracção pop como objecção escapista. É, de resto, nos instantes em que o álbum se torna mais contemplativo que melhor denuncia a congruência e o detalhismo das teias de construções harmónicas, férteis na combinação de minúsculas células orgânicas (à cabeça, os sons processados) e pedaços de som que renovam identidades na mistura ordenada. Sons de expressionismo abstracto como se fossem extraídos de uma tela de Pollock repassada pela frieza da sépia electrónica de Eno.

Posto de escuta Sítio da Smallfish

Matthew Herbert - Score




Embora mantendo uma cadência regular de edições discográficas com versatilidade suficiente para lhe garantir a filiação nos mais diversos ramos da música de cariz electrónico e experimental (e não só), o DJ, produtor e compositor britânico Matthew Herbert - que também assina com alter-egos como Radio Boy, Transformer, Doctor Rockit ou Wishmountain - revela em Score uma faceta menos divulgada do seu trabalho. No fundo, a edição contempla uma safra de dezassete composições especialmente preparadas para a sétima arte, ao longo de uma década de paralelismos com a indústria cinematográfica independente. A escuta desta compilação apanha desprevenidos os melómanos mais identificados com o habitual registo de house (des)construtiva e microscópica de Herbert, tal a disparidade dos universos aqui invocados. Ao invés das habilidades com o sampler e a máquina de beats, a proposta assenta num desfile de canções mais "convencionais", com a projecção espacial e amplitude próprias de música para filmes. Nesse sentido, algumas das peças abeiram-se de registo pastiche do som big band do orquestral Goodbye Swingtime, de 2003, mas sem presenças vocais. Necessariamente menos monolítico do que um disco pensado integralmente no mesmo espaço temporal, o tomo merece uma escuta que, não sendo irresistivelmente sedutora para os admiradores do som habitual de Herbert, cuidará de melhor divulgar outros vectores da sua verve. Coisa para curiosos, portanto.

Posto de escuta e-Card do disco

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Shitdisco - Kingdom of Fear

7/10
Fierce Panda
2007
www.shitdisco.co.uk



O andamento new rave é uma das modas do ano no Reino Unido. Depois dos Klaxons se terem apresentado ao mundo como figuras de proa dessa vaga de sons, reunindo o histórico das propensões recentes (e não tão recentes, afinal o punk também mora aqui...) do rock britânico e um curioso flirt com as ondas dançantes dos 80's ou com qualquer outra colagem descomprometida da electrónica, nada mais natural do que a chegada de outros filiados da mesma corrente criativa. Os escoceses Shitdisco são os senhores que se seguem e, abrigados na pretensa "novidade" energética do new rave - vistas bem as coisas, o formato é apenas uma derivação fogosa da matriz dance-punk - apostam na construção de peças ligeiras, portanto sem sombra de pretensiosismos desnecessários, e cuja valência mais explícita (e argumento identitário) é o contágio imediato das composições. Esteticamente coerentes e bem estruturadas na sua simplicidade (não confundir com escassez de recursos), as canções evitam inteligentemente os clichés e, mais do que isso, à custa de refrões e linhas melódicas impacientes e delirantes (nisso eles vão mais longe do que os Klaxons e abeiram-se dos conterrâneos Franz Ferdinand), espicaçam o mais pudico dos corpos, expondo-o ao desleixado deslumbramento de Kingdom of Fear. Efeito secundário inescapável: agitação dos ossos numa qualquer pista de dança.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Kings of Leon - Because of the Times




Tendo sido um dos mais credíveis protagonistas da safra de noviças tendências revivalistas do rock contemporâneo, inclusivamente superando a sempre crítica incumbência do segundo álbum com a distinção conhecida, há dois anos, o colectivo Kings of Leon chega ao terceiro álbum com a segurança do caminho percorrido e, sobretudo, com o estatuto de setentista orgulhoso. De resto, essa predisposição retro e a assinatura declaradamente sulista destes americanos é mantida em Because of the Times, afinal são esses os combustíveis essenciais da produção dos Kings, embora se sinta que, não obstante a diversidade estética do disco, grande parte das canções roçam uma inesperada banalidade. Não é que os irmãos (e primo) Followill não empreguem os postulados do costume, nem se trata de desconsiderar os préstimos recreativos destas composições. Todavia, ao invés de aproveitarem a evolução natural do som de garagem que os lançou, como tão bem arriscam nas últimas quatro faixas do álbum, os Kings aparecem na pele de artífices de rock de arena, alargando o espectro sonoro a uma problemática (porque subliminarmente castradora da tal identidade garagista e independente) sofisticação de estúdio e a uma escrita supostamente mais "cuidada", sem as suculentas "impurezas" de outros registos. Mais retórico do que prático, esse exercício de depuração não acrescenta inspiração às composições (o single "On Call" é exemplo paradigmático), resultando num corpo de canções de entretenimento garantido (não se esperava outra coisa dos Kings) mas menos valioso do que era suposto esperar.

Posto de escuta Knocked UpFansThe Runner

quarta-feira, 11 de abril de 2007

CocoRosie - The Adventures of Ghosthorse and Stillborn

7/10
Touch & Go
2007
www.cocorosieland.com



Ao terceiro disco das manas Casady, não é já surpresa que a música delas nos reporte para o recente orbe sonoro da weird folk, novel movimento da música americana consagrado a sons amigos da exploração e do experimentalismo e que, bebendo das correntes decanas da folk, as (re)formatam com a modernidade do ruído e de vocalizações e instrumentalizações menos comuns. Nesse particular, Bianca e Sierra têm sido reconhecidas como protagonistas importantes dessa evolução desde a improvável popularidade da "impolidez" acústica de La Maison de Mon Rêve (2004), álbum de estreia onde mostravam uma oportuníssima combinação entre o intimismo da dream pop reduzida à essência minimalista e a construção de ambientes de puerilidade amadurecida (essa aparente antítese é encómio recorrente de Björk), com contrastes emocionais algures entre o sonho de criança e o plácido voyeurismo sexual. No todo, The Adventures of Ghosthorse and Stillborn supre as insuficiências da escrita do laboratorial Noah's Ark, afirmando-se como sequência lógica do crescimento de ideias que aí se adivinhava e abrindo-se, sem beliscar minimamente as substâncias nucleares do conceito, a um namoro antigo da dupla: o hip-hop. A congruência dessa fusão (nem sempre declarada abertamente nas faixas), é, de resto, um precioso indutor da coesão do disco e razão extra para (re)descobrir o universo de ilusão das Casady.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

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Carl Holsoe, Vilostunden

Bright Eyes - Cassadaga

6/10
Saddle Creek
2007
www.thisisbrighteyes.com



Depois de assentados os arraiais da desmesurada vaga de consagração geral subsequente à dupla edição do acústico I’m Wide Awake It’s Morning e do sintético Digital Ash in a Digital Urn, já lá vão dois anos, Conor Oberst e os seus Bright Eyes estão de volta. E se aquele par de discos, a despeito dos reconhecidos atributos, parecia revelar sinais de alguma irresolução estética da banda face a dois caminhos alternativos, Cassadaga dissipa dúvidas (se é que realmente existiram) e é um claro enunciado de canções folk-country, na linha do que previamente anunciara o EP Four Winds. A somar aos eventos costumeiros da música de Oberst, revelam-se vozes de suporte, arranjos de cordas e alguns tricotados de guitarra eléctrica, indícios de um cuidado acrescido no detalhe e, em simultâneo, de uma perspectivação menos intimista da composição. Essa "abertura" na produção tem repercussões díspares nas canções e, contrariando os paradigmas de Oberst, são precisamente os trechos mais introvertidos a perder força, em favor dos instantes mais volumosos. Em todo caso, não obstante a proporção correctíssima das faixas (mesmo nos momentos de medidas largas) e a sua passada firme, algo no disco sugere um subliminar amolecimento da verve de Oberst que nem os novos artifícios de estúdio chegam a disfarçar. No lugar da ousadia folk que até chegou a render-lhe o pomposo cognome de "novo Dylan", surge agora um simpático compromisso orquestral que, mesmo conseguindo alguns instantes de mérito, deixa a sensação de constranger ideias a uma maturação forçada e antes do prazo.

Pantha du Prince - This Bliss




Trazido para o mediatismo mais expressivo no ano transacto, por ocasião do lançamento de remixes pontuais de Depeche Mode e pelo 12" Lichten/Walden, o germânico Hendrik Weber apresenta agora o seu segundo trabalho sob o pseudónimo Pantha du Prince. A órbita sonora de This Bliss não diverge substancialmente das referências anteriores do músico, mantendo o investimento em formas minimalistas da música techno e, sobretudo, apostando na sondagem das possibilidades melódicas (e, por derivação em cascata, das multiplicações emocionais) de construções em crescendo. Esse é o denominador estrutural comum do disco, também a sua garantia de integridade formal (não confundir com formulismo), assente numa matriz técnica impregnada de efeitos delay e linhas de baixo sintético, afinal os traços identitários de Weber. Depois, a impressão labiríntica das composições, gloriosamente ambivalente nas valências de causa sedutora e factor de dúvida sistemática, alimenta os jogos emocionais de melodias não lineares, consequentes na incerteza e resolutas a circunscrever-se numa lógica de retorno ao ponto de partida. Enfim, Weber assume-se como especulador de corpo inteiro, cultor de uma ciência espacial e própria (que não deixa, por isso, de ser "emprestada"), num vaso de sons onde cabem, com dosagens imprecisas e repetições, a sci-fi de Brian Eno, as cores electro dos OMD e as substâncias dançantes de Villalobos. Coisa suficiente para animar a curiosidade dos mais pintados.

sábado, 7 de abril de 2007

Amon Tobin - Foley Room

8/10
Ninja Tune
2007
www.amontobin.com



Um foley room é, no jargão cinematográfico, uma sala destinada à edição de efeitos sonoros para posterior incorporação em conteúdos vídeo. Inspirado nesse conceito, o sapiente DJ Amon Tobin, respeitado cultor das técnicas de manipulação de samples, promove, no quinto álbum editado pela Ninja Tune, uma mudança nas causas primárias da sua música. Com efeito, segundo a ficha técnica de Foley Room, ao invés da tradicional manipulação de sons colhidos em vinis antigos, o músico optou pela recolha de sons reais, através do recurso a microfones de alta definição. Não é o mais típico exercício de música concreta - essa não é a causa primária de Tobin - até porque as substâncias originais ficam "disfarçadas" num hábil jogo de transfiguração digital que, em último caso, lhes dá o talhe certo para construções drum'n'bass e de ambientes sinistros. Úberes em preciosos detalhes e assentes num método muito eficaz de sobreposição de sons, as composições demonstram um notável sentido de organização e domínio da interacção de diversos estímulos sonoros com o espaço (e o silêncio). Além disso, a meticulosa exploração dos paradigmas clássicos da acústica cinematográfica (universo caro a Tobin), ao encontro da consistência rítmica que faltou noutros trabalhos, faz de Foley Room um dos mais íntegros exercícios do percurso do produtor e uma experiência auditiva que, mesmo não sendo uma obra de originalidade ímpar, se torna verdadeiramente compensadora.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Maxïmo Park - Our Earthly Pleasures

6/10
Warp Records
2007
www.maximopark.com



Depois do colapso criativo do segundo disco dos Bloc Party ou dos Kaiser Chiefs, ambos deste ano, fez-se luz sobre o potencial intrínseco à nova vaga do rock britânico. A verdade é que, uma vez esgotado o efeito novidade dos primeiros capítulos de uma série de bandas promissoras, assim precipitadas para um estrelato prematuro (e talvez assimétrico dos seus méritos artísticos), se instalou o desencanto geral face à banalidade dos sempre problemáticos segundos discos. Os Maxïmo Park, porventura os menos mediatizados sujeitos da onda de excitação inicial, não escapam a esse fado decrescente, embora segurem razoavelmente a eficácia na construção de canções de craveira pop demonstrada no debute. É esse, de resto, o lema dominante de Our Earthly Pleasures, com um punhado de trechos afinados pelo sentido de urgência herdado das referências punk da banda e alguns instantes orelhudos de pura pop instantânea, fórmula com resultados muito proveitosos no single de avanço "Our Velocity". Como seria expectável, a notória modéstia estrutural do disco não é estorvo para soluções de colagem rápida ao tímpano. E quem mais não procura do que esse imediatismo (ou sensacionalismo?) encontra nos Maxïmo Park um dos fornecedores mais aptos do momento.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Trans Am - Sex Change

5/10
Thrill Jockey
2007
www.transband.com



Com mais de uma década consagrada ao apuro de uma fórmula investigadora das simetrias possíveis entre a electrónica (como esteio inspirador) e os fraseados eléctricos de guitarra, de que, de resto, foram praticamente pioneiros, os Trans Am dão mostras, no mais recente opus, de uma inquietante estagnação. Não é apenas o facto de eles insistirem em não reciclar a malha estrutural das composições, a esse nível já se percebeu que não são prováveis grandes transformações, mas também o esbanjamento (com breves excepções) de um impressionante potencial criativo. De resto, Sex Change é, uma vez mais, prova cabal desse virtuosismo conceptual (e da curta destreza da banda para domar essas energias num método mais proveitoso), ao correr, com idêntico mérito mas sem deslumbre, referências sonoras de origens múltiplas, do funk à música negra, da disco ao metal progressivo de peso. Ainda assim, se visto como mera solução seguidista do corpo teórico do costume, o álbum acaba por revelar-se menos incipiente, o que é o mesmo que dizer que, confinando a exigência apenas ao universo Trans Am e esquecendo outras tendências, Sex Change se mostra testemunho efectivo de fidelidade a um compromisso estético.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Bebel Gilberto - Momento

6/10
Ziriguiboom
2007
www.bebelgilberto.com



Apesar de trazer no sangue um traço genealógico a que é impossível ficar-se indiferente, ou não fosse ela descendente dos lendários João Gilberto e Miúcha, Bebel Gilberto consegue, ao terceiro álbum, distanciar-se desse honroso ónus do apelido. Com um percurso marcado pela sobriedade e, sobretudo, por uma coerência estética assinalável, a cantora foi, passo a passo, fundando um espaço sonoro próprio e emancipado das referências familiares, sendo Momento a expressão amadurecida de uma das mais ilustres intérpretes das novas tendências da música brasileira. Sem perder de vista as alusões cariocas, afinal elas são a matéria essencial das canções (mesmo na belíssima revisão de "Night and Day", de Cole Porter), o disco demonstra o cosmopolitismo natural de uma cidadã nova-iorquina e adepta de um eclectismo cruzador de referências dos dois hemisférios da América e de escolas musicais diversas, devidamente ilustradas pela participação nas gravações do colectivo brasileiro Orquestra Imperial ou dos americanos Brazilian Girls. Tecnicamente próximo do primor, só parece faltar ao álbum uma dose maior de arrojo na composição, algo que melhor sirva a voz de Bebel e a (suposta) corrente de boas ideias de que, neste trabalho, apenas se vislumbram breves sugestões.

Adult. - Why Bother?

7/10
Thrill Jockey
2007
www.adultperiod.com



Com quatro discos no bornal, a dupla Nicolas Kuperus e Adam Lee Miller persegue um ideário de alguma perversão conceptual. Com efeito, a proposta é essencialmente electrónica, no entanto é servida em modulações negras (no sentido mais abtracto e "desconstrutivista" do adjectivo), com um quinhão relevante de psicadelismo (na feição mais convencional) e a irreverência própria das escolas sonoras pós-punk. De resto, este Why Bother? acentua essa tendência desviante do som da dupla, em resposta à formatação da electrónica para regime de dança, aqui usada como mera referência colateral e subordinada a uma estética onde prevalece a linguagem sintética (a ajudar, o projecto deixou de contar com a guitarra de Samuel Consiglio), é certo, mas onde o entendimento melódico é provocatório e pouco amistoso de tímpanos certinhos. Mérito maior do álbum, além de um muito razoável engenho na composição e do discernimento com que foge aos lugares comuns próprios deste género, é a credibilidade do enlace entre a frieza crua e maquinal do tecido sintético, a desafiar os limites da paranóia, e o discurso verdadeiramente riot dos vocais de Kuperus. Coisa para punks com o laptop debaixo do braço.

domingo, 1 de abril de 2007

The Besnard Lakes - The Besnard Lakes Are the Dark Horse

8/10
Jagjaguwar
2007
www.thebesnardlakes.com



A mediatização do fenómeno Arcade Fire trouxe forçosamente consigo um acréscimo de curiosidade pela música de Montreal, não tanto motivada por aquele fetichismo geográfico que muitas vezes toma de assalto o interesse dos melómanos, mas antes pelo natural e óbvio desejo de descoberta de outros descendentes da mesma corrente criativa. Os The Besnard Lakes, ao segundo álbum do seu trajecto, assumem esse protagonismo e mostram-nos uma colecção de canções de pop larga e minuciosa na exploração de atributos de pormenor. Sobra a impressão de que as oito peças do alinhamento de The Besnard Lakes Are the Dark Horse foram construídas fazendo uso de alguma familiaridade com as harmonias vocais dos Beach Boys (ou de Brian Wilson), mesmo que repassadas sob o efeito de ansiolíticos, e com um tecido instrumental rico em camadas de guitarra (foi você que pediu qualquer coisinha de My Bloody Valentine?) e uma porção infalível (e contida) de psicadelismo. Tudo devidamente arrumado numa tocante atmosfera de redenção sentimental. Como se uma qualquer calamidade iminente, não tendo acontecido, se insinuasse irreversivelmente na mente através do alento emocional da música. E essa repercussão é, afinal, uma premissa dos grandes discos.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Kieran Hebden & Steve Reid - Tongues




O casual encontro entre o percussionista Steve Reid e o mentor do projecto de electrónica abstracta Four Tet, Kieran Hebden, conhece novo desenvolvimento, depois do imprevisto sobressalto que as sessões improvisadas registadas no duplo The Exchange Sessions, do ano transacto, conseguiram junto da comunidade melómana. Reid é um consagrado do orbe clássico do jazz - ainda que no injustamente "relativizado" papel de assistente de Ornette Coleman, Sun Ra, Miles Davis, James Brown ou Fela Kuti - e procura, neste Tongues, convergências com uma estética electrónica fiel à fruição na informalidade (aí residindo um importante factor de paridade entre os universos representados pelos dois músicos) e os sons de síntese, substâncias obviamente mais caras aos mundos de Hebden. No fundo, a proposta não diverge substancialmente dos trabalhos anteriores, assemelhando-se à continuidade lógica do entrosamento entre dois músicos que, sendo cultores de idiomas e gerações sonoras distintas, parecem ter encontrado uma linguagem comum. Pena é que Reid e Hebden se tenham imposto um certo pragmatismo temporal, ao contrário do que acontecera nas gravações da Exchange, trinchando os improvisos em volta dos cinco ou seis minutos. Com isso, os trechos resultam mais lacónicos e "convencionais", assim prescindindo de parte nuclear dos processos de especulação e experimentalismo, mormente através do abreviamento dos ciclos de crescimento das ideias. E esse (dispensável) compromisso de urgência, em último caso, subtrai algum fascínio às peças, não obstante a riqueza conceptual do disco.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Pole - Steingarten

7/10
Scape
2007
www.pole-music.com



A música de Stefan Betke é daquelas coisas que não têm definição imediata mas o produtor berlinense tem-se mantido fiel a uma estética que fez dele um dos símbolos da esfera IDM, família de música minimalista de produção sintética. Depois de uma tentativa menos bem conseguida de juntar ingredientes típicos do hip-hop às suas construções, registada no álbum homónimo de 2003, Betke regressa ao habitat onde respira melhor. A fórmula Pole é redundante, não no sentido depreciativo da expressão, mas porque a estruturação melódica do trabalho assenta fundamentalmente num método circular, com pontos de partida e chegada consonantes - privilégio de loops meticulosos - e a insistência na redução da electrónica à sua dimensão mais orgânica. A novidade deste Steingarten, porém, está na adesão às causas mais atmosféricas, por oposição ao habitual primado da desconstrução do dub. Não é que essa regra seja largada definitivamente, pois as referências são notórias nos detalhes das peças do alinhamento, mas há uma reordenação do perfil das composições rumo a uma tapeçaria de sons fragmentada (por definição) e, ainda assim, capaz de promover estados zen. E esses argumentos, tão bem aduzidos em trechos como "Jungs" ou "Winkelstreben", raras vezes foram antes ouvidos (e sentidos) no trabalho de Betke. Para escutar em abstracção.

Posto de escuta Sítio da Boomkat

terça-feira, 27 de março de 2007

Blasted Mechanism - Sound in Light

8/10
Universal
2007
www.blastedmechanism.com



Com mais de uma década de estrada e palcos, os Blasted Mechanism rendem-se definitivamente ao impulso místico da sua música. Se essa afinidade com o lado espiritual esteve sempre presente nos trabalhos anteriores, ou não fossem eles cultores de um qualquer tribalismo futurista (ou, à falta de melhor definição, de um interesse quase "religioso" por civilizações, criaturas e idiomas esquecidos ou imaginados), nunca como no duplo Sound in Light/Light in Sound ela se declarou tão abertamente. Em vinte e cinco trechos, a sofisticação do som rústico e tribal continua a ser a imagem de marca da banda, com as costumeiras influências de tons oriundos das mais diversas latitudes e géneros, do dub-funk mais esotérico, ao rock incendiário, à electrónica de absorção rápida (matéria menos tímida do que no passado) e às mais itinerantes formas de expressão musical, agregadas sob o signo da unificação espiritual das gentes do mundo ("unite the tribes"). Além desse desígnio redentor - coisa messiânica a que só um conceito conceptualmente nómada como os Blasted Mechanism se poderia propor - o improviso e a experimentação firmam um paradigma novo no grupo, especialmente no segundo disco (com mais dez composições), onde se revelam inúmeros alvitres sobre os atalhos vindouros do som da banda. Afinal, é essa porta escapista a saída que há-de levá-los à próxima mutação...

domingo, 25 de março de 2007

Dälek - Abandoned Language

8/10
Ipecac
2007
www.deadverse.com



O percurso do projecto Dälek está nos antípodas da invasão de simplismo que tomou conta do hip-hop de massas nos últimos anos. A DJ Oktopus e MC dälek, elementos criativos do conceito, pouco importam as modas ou os quesitos do mercado discográfico. Fiéis a uma estética própria que lhes valeu o respeito da comunidade underground, atingem, ao quarto registo de estúdio, o auge de maturação que se adivinhava antes, prosseguindo na exploração de sinergias improváveis entre o underground rap e uma miríade de sons importados de universos paralelos ao género. Este Abandoned Language é um exercício de pura integridade criativa, deixando de lado as guitarras eléctricas que, com eficácia variável, eram parte significativa do guião de trabalho anteriores, e trocando-as por armações de outras cordas (e até metais), ora melodicamente plácidas (com qualquer coisa de jazz de vanguarda nos saxofones), ora abeirando-se do psicadelismo (ou, em certos ápices, de uma saborosa "desorientação" tonal, cortesia das cacofonias do convidado Rob Swift, dos X-ecutioners). No fundo, o disco é uma das mais consistentes alavancas para o crescimento de uma cultura sonora de margem e certifica os Dälek como um dos sujeitos proeminentes (e imperdíveis!) dessa família.

sexta-feira, 23 de março de 2007

The Astroboy - A Derrota da Engrenagem



O homo sapiens vive, desde a génese do pensamento racional, uma decana disputa entre razão e emoção, com o paradoxo de, sendo o Homem o único animal dotado de raciocínio lógico e conclusivo, ele também dar corpo à mais indecisa das espécies. A invenção do computador, entre outras coisas, somou matemática à irresolução, tentando uma solução para o dilema ancestral. O primeiro disco do projecto The Astroboy (aka Luís Fernandes, guitarrista dos bracarenses Frequency) está conceptualmente envolvido nesta discussão, opondo o discurso desumanizado das engrenagens, leia-se o computador, à emoção tipicamente humana dos ambientes sonoros vagos e informes do pós-rock. De certa maneira, A Derrota da Engrenagem tenta o que outros ensaiaram antes, por isso repassando lugares visitados na iconografia de, por exemplo, Keith Fullerton Whitman, no apelo ao contraste entre sons de síntese e de música concreta (o ruído manipulado é uma matéria bem-vinda!), com os ritmos vintage da velhinha Roland TR606 e o discurso presente da guitarra eléctrica. No final, completamente mergulhados no fluxo hipnótico de sons, de torpor branco, já nem nos lembramos, em razão das diligências da emoção, da demanda primária desta navegação em espaço incerto e cai no esquecimento (ou convenientemente para lá é empurrada pela razão) a necessidade de uma resposta. Por fim, as notas aeriformes do álbum são apenas ensejo para prolongar o recontro de todas as indecisões para além do instante de desligar temporariamente o computador. E a solução existencial fica por achar.

quinta-feira, 22 de março de 2007

RTX - Western Xterminator

5/10
Drag City
AnAnAnA
2007
www.myspace.com/rtx


Estranha sensação a de escutar a primeira faixa do alinhamento do segundo álbum dos RTX. Por momentos, somos levados a crer que Jennifer Herrema e seus pares encontraram um novo maná neste Western Xterminator, com rufos ecoantes e flautins em cadência lenta, à maneira de uma oração folk de psicadelismo pastoral. Mas, esgotados esses cinco minutos de surpresa, logo se franqueiam os acordes eléctricos do costume, a percussão assertiva e a voz mais conforme com os padrões clássicos do hard rock. E, então, se percebe que a gracinha dos RTX é apenas uma pantomima isolada, nada que belisque a subsistente máquina eléctrica dos RTX; em boa verdade, se a escrita de Herrema sobreviveu à deserção de Neil Hagerty, antigo parceiro dos Royal Trux, então não há criatura mortal (ou força cósmica) capaz de suster o frémito das suas ideias e, por consequência, de a arredar do estatuto de ídola régia do rock de que Courtney Love era herdeira natural. Nem que para isso seja necessário levar o som do grupo para um discurso claramente mais mainstream e que, à falta de melhor paralelo, busca coordenadas nos clichés instrumentais dos ZZ Top, Aerosmith (!) ou Guns n' Roses. Divertido e hedonista mas com pouquíssimo sumo. Ao menos a senhora tem melhores vocais do que Axl...

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