quarta-feira, 21 de março de 2007

Springintgut - Park and Ride

7/10
City Centre Offices
Matéria Prima
2007
www.myspace.com/
springintgut


Apesar de ser filho do seminal filão electrónico alemão e de já ter tocado com os conterrâneos F.S. Blumm e Mouse on Mars e com os americanos The Books, Andreas Otto é uma incógnita fora do seu país. Park and Ride é a segunda gravação que lança, a primeira ulterior à emigração para Amesterdão, e expõe um mosaico curioso de construções sintéticas, em exploração das possibilidades retóricas da electrónica minimalista. Trata-se, sobretudo, de um exercício espontâneo do mais artesanal e básico princípio da criação musical, a busca de melodias naturais e verosímeis, independentemente da sua fundamentação estrutural. Neste caso, as matérias são maquinais e provêm dos mais elementares caracteres do minimalismo, combinados com a erudição de um domador experimentado e engenhoso a sugerir, nos conflitos sónicos dos trechos, a dualidade do título. É como se, no mesmo universo (no disco e cá fora), existisse uma improvável camaradagem entre o torpor e quietude das introspecções (a pausa, o intervalo, o "park") e a euforia corrompida da urbanidade (a viagem, a lida, a "ride"). No final, essa ambivalência fecha o disco à austeridade e frieza típicas neste género de produtos, envolvendo-o numa saudável atmosfera de subjectividade. As aparições pontuais da guitarra de F.S. Blumm e dos vocais de Kazumi (na pérola "Precastor") são somente ornamentos colaterais desse saboroso princípio de incerteza.

terça-feira, 20 de março de 2007

Rodrigo Amado, Kent Kessler & Paal Nilssen-Love - Teatro

8/10
European Echoes
2007
www.rodrigoamado.com



É sabido que do saxofonista Rodrigo Amado não deve esperar-se previsibilidade. Notabilizado por, em diversas ocasiões, optar pela especulação livre do improviso em detrimento da segurança de composições antecipadamente escritas, o músico reafirma essa tendência neste Teatro, ao lado do contrabaixo do americano Kent Kessler e da bateria do norueguês Paal Nielssen-Love, cúmplices usuais do seminal Ken Vandermark. As quatro peças aqui registadas são o resultado de uma sessão improvisada antes da actuação do trio, no festival Spectrum de 2004, no Teatro de S. João, no Porto. A ciência dominante, como não poderia deixar de ser, é o free jazz mais cru, sem arrebiques formais e subordinado a um discurso informe e assente unicamente na convocação dos mais puros instintos dos músicos e na interacção entre os fraseados de cada instrumento. A fórmula é, necessariamente, destemida, mais a mais sabendo-se que Amado e seus pares nunca haviam tocado em trio, mas a verdade é que a coisa dá bom resultado e impressionam a fluência sinérgica dos trechos e a sua feracidade estilística, ao jeito de exercícios íntegros de modernidade e alusão clássica. Sem voz líder, o disco consagra um trio em estado selvagem (no sentido mais libertário e criativo do termo) mas com identidade madura, provinda da conformidade de conceitos dos músicos, como se esta primeira vez juntos em trio, gravada para a posteridade, fosse afinal o epílogo de uma conivência antiga.

segunda-feira, 19 de março de 2007

The Apples in Stereo - New Magnetic Wonder

7/10
Yep Roc
Simian
2007
www.applesinstereo.com



Em condições normais, um disco com duas dúzias de faixas é um despautério. Porém, no caso dos Apples in Stereo, colectivo de Robert Schneider em silêncio há cerca de cinco anos, a proposta acaba por ser a réplica certa ao longo silêncio do músico que apenas conheceu intermissão com Expo, gravado há um par de anos sob o alter-ego Marbles. Retomado o percurso dos Apples, é reavido o andamento pop sessentista que prevalecia nos outros álbuns do colectivo, aqui com cores mais garridas, ainda que retendo as mesmas influências (um pouco mais abstractas e distantes) dos Beach Boys e dos Beatles. Ao mesmo tempo, as canções parecem fiéis a uma matriz criativa distinta, com outra propensão melódica e redutora (não castradora) dos abusos psicadélicos do passado. Em consequência, as texturas de sons de New Magnetic Wonder são mais imediatas, dir-se-ia que assumidamente mais pop multiusos, o que não deve ser tomado como sinónimo de cedências, antes como avivamento de substâncias que sempre estiveram na música dos Apples e que saem a ganhar da útil (e quase despercebida) protecção da electrónica. A mesma que, nos brevíssimos instantâneos que intercalam com as canções mais "convencionais", faz contraponto do conformismo teórico do disco e abre janelas para um escapismo conveniente, em ressaca da adocicada descarga de regozijo.

domingo, 18 de março de 2007

Andrew Bird - Armchair Apocrypha

8/10
Fat Possum
AnAnAnA
2007
www.andrewbird.net



Se bem que só tenha pulado do anonimato com Andrew Bird & The Mysterious Production of Eggs, de há dois anos, este senhor já por cá anda há mais de uma década e, volvido todo esse tempo, ainda reserva alguns trunfos na manga. Se bem que, no essencial, este Armchair Apocrypha não encerre argumentos muito diferentes do seu antecessor (ou dos demais álbuns), é perceptível uma tendência para ornar as canções com uma vibração rock um tanto mais substancial, pelo recurso a guitarras menos curtidas no estúdio e mais extrovertidas e eléctricas. A elas, juntam-se os imprescindíveis pizzicatos de violino e os assobios, companhias inseparáveis das melodias nostálgicas de Bird, que, mesmo tratando-se de matérias frequentes no cancioneiro do músico, sempre renovam a elegância, a ponto de sugerirem identidades novas. Devem-se, por isso, louvores à destreza de compositor de Andrew Bird e ao verosímil impulso para sonhar que mora nos vagares das melodias suspensas e de como, sem consentir adulterações, esse encanto se mantém mesmo quando se exprime na aparência de uma canção simples. Com o toque de Midas que já foi de Jeff Buckley.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Panda Bear - Person Pitch




Ao que parece o rapaz encantou-se por Portugal e, segundo rezam as crónicas, comprou uma casinha na capital cá do burgo, para os lados do Bairro Alto. Foi lá que, aproveitando um hiato na actividade dos Animal Collective, o baterista do ensemble americano, Noah Lennox, gravou o mais recente produto do alter-ego artístico, Panda Bear. Person Pitch é, por isso mesmo, o desfecho de um processo de criação pessoal, mas esse individualismo, contrariando todas as teses conhecidas, não se cinge à introspecção, pelo menos na acepção mais egocêntrica da expressão. Pelo contrário, a música de Lennox, neste disco, desvenda um mundo sonoro peculiar, temperado com curiosidades técnicas de deliciosa extravagância (estupenda manipulação de samplers!) e alimentado pela bizarra verve do músico, afinal o reflexo imaginário de um denominador comum entre a matriz melódica do vanguardista Scott Walker e a comunidade vocal dos Beach Boys. E, de permeio, o experimentalismo com o ruído e as matérias de síntese ou o detalhismo na construção, não são menos do que arestas alternadas de um entendimento único de como fazer música jovial (bem açucarada) e tremendamente contagiante, com inovação, frescura de conceitos e credibilidade. Tudo numa série de canções do melhor que se ouviu neste ano.

Posto de escuta Sítio da Boomkat

quinta-feira, 15 de março de 2007

Do Make Say Think - You, You're a History in Rust


7/10
Constellation
2007
www.domakesaythink.com



Está provado que coisa publicada com o selo Constellation não faz caso de convenções ou modelos. À editora canadiana importa, essencialmente, não o mercantilismo cego, mas firmar-se como delegação representativa de um segmento sonoro à margem das poderosas correntes comerciais e fiel a outros princípios. Foi com esse espírito que acolheram, há quase uma década, os conterrâneos Do Make Say Think. De então para cá, o ensemble tem erguido uma colecção de registos consistentes e, à quinta estância desse caminho evolutivo, já não há mistérios nem factos ocultos na sua música. Notícias novas deste You, You're a History in Rust são as primeiras incursões verbais da carreira dos DMST, cortesia esporádica dos vocais dos Akron/Family, acrescentados cautelosamente (quase como abstracções) às composições. Em tudo o mais, são conservadas as virtudes modelares do grupo: melodias errantes e densas, crescendos incertos das guitarras, as duas baterias em canais separados e uma atmosfera nostálgica e espacial. E, mais do que isso, o disco é testemunho de uma banda que, sem atalhar a inata complexidade do seu discurso, consegue o raro fito de convocar os nossos sentidos mais simples.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Hipnótica - New Communities For Better Days

8/10
Metropolitana
Som Livre
2007
www.hipnotica.net



Repetindo a produção de Wolfgang Schloegl, dos austríacos Sofa Surfers, o quinteto lisboeta Hipnótica chega ao quarto fascículo do seu trajecto com o discernimento próprio de um colectivo que, volvida mais de uma década da sua génese, achou um nicho particular na música lusa. Depois de algumas oscilações (ou princípios de incerteza) estética, progressivamente afastados com o passar dos anos e a práxis de palcos e estúdios, a identidade sonora do grupo é, hoje, uma certeza com substância. Se, há três anos, Reconciliation fora jornada peremptória desse crescimento, confirmado recentemente na infalível ambivalência dos sons de Pele, fita de Fernando Vendrell, o corolário é exposto agora. Apresentando uma banda mais segura das valências de um registo sonoro que, tendo um híbrido trip-hop jazz como solução dominante, não descarta intersecções com outros ensinamentos, venham eles da electrónica mais imaterial (quase a chamar para a abstracção) ou de uma intuída proximidade com as escalas do rock experimentalista, New Communities For Better Days é o opus mais maduro dos Hipnótica. E o sentido de novas comunidades do título é levado à letra pelos lisboetas que, abrindo o estúdio a lucrativos auxílios de terceiros (de entre eles, sobressaem os metais de Abdul Moimême) somam cores virgens a uma proeza que deve reservar-lhes honras de figuração nos sumários best de fim de ano. Com justiça.

Posto de escuta Sítio Oficial

terça-feira, 13 de março de 2007

Shining - Grindstone

8/10
Rune Grammofon
2007
www.shining.no



Side-project com alguns elementos dos escandinavos Jaga Jazzist, o conceito Shining mostrou, nos três discos anteriores a este Grindstone, ser um intrigante mutante. Com uma impressionante (e também saborosamente perturbadora) queda para desmontar qualquer noção preconcebida de música, os noruegueses atribuem-se um raro idioma sonoro, em longitudes díspares dos ambientes da casa-mãe. Sob este outro baptismo, a doutrina maior é o rock (progressivo, vanguardista ou voraz), não nos caracteres formais mais habituais, antes em exercícios de patrocínio de um art-jazz libertino, remendando-lhe os desvarios e corrigindo rotas. Nota-se uma propensão metal mais flamejante do que em anteriores trabalhos que, mesmo tendo as rédeas das texturas do disco, não atrapalha a interferência de outras forças dominadas pela banda, além do citado experimentalismo jazz, a abstracção electrónica - a luzir como cristais nos espaços negros do álbum - os arranjos barrocos - a lembrar as evasões de Bach - ou o canto lírico afiado. Acima de tudo, sobrevém um fenómeno raro: os contrastes ensaiados pelos Shining, se inicialmente ameaçam asfixiar o ouvinte em múltiplas contingências, acabam por refractar para um espaço comum, deixando no ar a excitação da cumplicidade.

LCD Soundsystem - Sound of Silver




Ainda sob os efeitos mediáticos da impressiva adesão dos públicos (e de um quinhão muito significativo da massa crítica) ao produto primeiro sob a sigla LCD Soundsystem, James Murphy e Tim Goldsworthy voltam a mostrar-se. Não chegou o fôlego a regular-se, depois da sessão aeróbica de 45:33, lançada no ano transacto, e já o par de músicos recicla os nutrientes sónicos da estreia, dando-nos nova dose da mesma sintaxe sonora que inteligentemente recolhia as modas recentes da dança (e dos incontáveis rótulos pós-qualquer coisa) na cena nova-iorquina - hoje por hoje, a grande maçã é um dos mais inventivos palcos da orbe musical - e as combinava com atenciosas memórias de outras ondas, sejam elas da síntese Kraftwerk ou dos ácidos de pista dos 80's. Sound of Silver é, assim, segunda pescaria num lago de ideias temporalmente extenso e, mesmo não vincando diferenças estruturais para o antecessor, revela uma certa refinação dos códigos LCD Soundsystem, rumo a um registo mais detalhista e que convive melhor com ocasos esporádicos da voz (efeito colateral de 45:33?). E com o desencanto irrequieto do rock. Porque música de dança com mais rock do que isto, não há.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Arve Henriksen - Strjon

7/10
Rune Grammofon
2007
www.arvehenriksen.no



Depois da nobilíssima visão de um mundo a duas cores com que tão sublimemente nos tinha seduzido em Chiaroscuro, sugerindo, através das diversas mutações do seu trompete, uma espécie de maniqueísmo emocional, entre o silêncio (o escuro) e o som (o claro), o norueguês Arve Henriksen decidiu desenredar outra face do seu jazz de vanguarda. Fazendo-se acompanhar por Helge Sten, mais conhecido como Deathprod, companheiro nos Supersilent, o trompetista oferece-nos um vocabulário mais espacial, sendo menos notória a arquitectura de sobreposição de camadas de som do trabalho anterior. Desta vez, os estímulos instrumentais aparecem de forma esparsa, ao jeito de vozes isoladas casualmente em consonância e cuja emancipação (e respiração própria) é, afinal, a declaração conceptual do minimalismo na forma de Strjon. Curioso é perceber que, não obstante esse lastro minimalista que, em certos ápices é puxado ao limite, as composições seguram firmemente a densa musicalidade (e meditação) de Henriksen, mesmo que sem o esplendor prévio, graças à notável produção fastasmática de Sten.

Posto de escuta Sítio da Boomkat

Gui Boratto - Chromophobia

8/10
Kompakt
2007
www.guiboratto.com.br



Apesar de o seu nome não ter sido ainda decifrado nos palanques do mainstream, o DJ paulista Gui Boratto tem atraído a deferência da imprensa alemã especializada em música electrónica. Chromophobia, primeiro álbum do brasileiro, prolonga os atributos que se ouviram em alguns singles do ano transacto, investindo na mesma receita house minimalista que, a despeito dos múltiplos desenvolvimentos estruturais das composições, não compromete o notável sentido de coesão do ópus. E se essa ligação sistémica entre os trechos podia, à partida, induzir alguma monotonia, a arte de Boratto introduz o pêndulo emocional certo: um tricotado complexo de sons divergentes, entre a euforia e o sinistro, algo que eleva os tons do disco a um estado de suspensão permanente e alguma opacidade. Absorvido nessa hipnose, o ouvinte é sujeito a exóticas construções de sons mecânicos (mas com denotação emocional), com crescendos cheios de acrobacias e algumas surpresas (a excelência do acompanhamento de guitarra, em "Xilo", e, logo a seguir, a única manifestação vocal do tomo, em "Beautiful Lie", são exemplos paradigmáticos). Com este leque de dons, Chromophobia experimenta a certeza de que do mínimo também se pode fazer magia.

sábado, 10 de março de 2007

Arcade Fire - Neon Bible

8/10
Universal
2007
www.arcadefire.com



Quando estes canadianos mostraram ao mundo a primeira das suas criações, há dois anos, poucos não se renderam a uma estética que, sendo pop nas causas primárias, guardava distâncias saudáveis para os canais mainstream e, mais do que isso, depressa se tornou um novo paradigma do género, ao promover uma redefinição antológica da canção pop. Tamanha conquista, conseguida com o recurso a infalíveis medidas para dimensionar as melodias a um lirismo ímpar e à dose exacta de experimentalismo como saída de emergência de um caos controlado, deixou-lhes em mãos a complicada missão de escrever um segundo tomo de canções com a elevação do anterior. Neon Bible repete as noções, sempre em busca do hino pop de volume épico, e prova que o seu antecessor não foi apenas um feliz acaso. Mas, mais do que meramente repisar o trajecto de Funeral, o sucessor abre-se a outra extroversão, mostrando composições mais amplas, com arranjos eruditos, sendo "Intervention", gravada com a acústica especial do interior de uma igreja, exemplo categórico de uma certa majestade pop de que os Arcade Fire são figuras redentoras. E para levar a cabo essa incumbência messiânica, nada melhor do que uma bíblia de néon, cujo brilho se revela na forma de esplêndidas canções.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Air - Pocket Symphony

6/10
Astralwerks
EMI
2007
www.talkiewalkie.co.uk



Depois da aceitação quase universal de uma certa sacralização da electrónica plácida de J.B. Dunckel e Nicolas Godin, no seguimento do seminal debute com Moon Safari (1998), o peso mediático de cada edição dos franceses multiplicou-se exponencialmente. Na mesma medida, ao passo que se reproduziam inúmeros projectos de réplica dos Air (Kid Loco, Zero 7, St. Germain, Flunk, Sia ou Koushik, para citar alguns), com impressões variáveis, a dupla projectava gradualmente outros critérios, procurando arrumações diferentes para um som essencialmente voltado para o relaxe no sofá. A prudência contemplativa do anterior Talkie Walkie é coisa repisada no novo disco, quiçá reforçada, e isso é demonstração de um conformismo imprevisto, confirmado pela matriz estrutural do trabalho, sem sombra de mudanças drásticas em relação ao antecessor. Louva-se o recurso a instrumentos orientais que soma, em algumas peças de Pocket Symphony, uma alavanca instrumental útil mas que, mesmo com a aparição esporádica de Jarvis Cocker e Neil Hannon, não é suficiente para afastar o sabor generalizado a mediania.

!!! - Myth Takes

8/10
Warp Records
2007
www.chkchkchk.net



Eles tinham colhido os encómios da crítica com o álbum anterior, de há três anos, tornando-se uma espécie de líderes underground do movimento revivalista que o rock contemporâneo vem ensaiando, a várias vozes, nos anos mais recentes. Todavia, a reciclagem dos !!! nunca cedeu a copismos mais ou menos óbvios e, mesmo absorvendo porções espessas dos assuntos sonoros dos anos 70 (os Gang of Four como luminária maior), nunca perdeu de vista a definição de uma identidade própria. E, ao terceiro registo, a evolução desse processo identitário segue a propensão revelada antes, a mesma elegante predisposição para sentir melodias num espaço dividido entre o espasmo funk e as sucessões disco, nas mais variadas dimensões rítmicas. Myth Takes é, porém, diligente na busca de espaços comuns com outras sonoridades, fazendo mais pompa (e circunstância) da pronúncia dançante dos trechos, é certo, mas não se furtando ao contacto com as órbitas costumeiras de experimentação. Sólido, menos cerebral e mais físico do que os antecessores e, sobretudo, muito bem escrito, difícil mesmo será encontrar, este ano, um disco dance-punk mais viciante do que este.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Grinderman - Grinderman

6/10
Mute Records
2007
www.myspace.com/
grinderman


Demasiado remotas são as memórias de garagem de Nick Cave, do tempo em que ele e os compinchas dos The Birthday Party revolviam as entranhas mais negras do punk e expunham o seu lado mais corrosivo, em lentas e depressivas combustões. Volvidas mais de duas décadas do último acorde dessa trupe, Nick Cave é, hoje, um cinquentão ícone de outras andanças, apartadas dessa deflagrante rebeldia e vizinhas das órbitas mais melódicas da melancolia. Todavia, em Grinderman, fazendo-se rodear de companheiros dos Bad Seeds, ele parece querer recuperar o tal feixe de ideiais mais eléctricas dos Birthday Party, se não na crueza rústica (quase agressividade) típica de músicos rockeiros em génese - essa seria impossível de resgatar - pelo menos na predisposição para agarrar um som esteticamente mais solto e com pouco verniz de produção. Afinal, um código sonoro domado por Cave há uns largos anos atrás mas que, crivado pela poética contemporânea do músico (substância melancólica que, na maior parte dos trechos, avança sobre a tentada ousadia rock), não chega a ser igualmente impressivo. E a promessa eléctrica esfuma-se num alinhamento com Nick Cave a mais para ser baptizado de Grinderman.


quarta-feira, 7 de março de 2007

Mika - Life in Cartoon Motion

5/10
Island Records
2007
www.mikasounds.com



Ele é a mais recente sensação pop no Reino Unido. Nascido no Líbano, Mika Penniman subscreve uma fórmula musical simples, produzida deliberadamente para agradar às massas e que se socorre do cardápio completo de ingredientes de um blockbuster feito à medida: estruturas melódicas de chapa, refrões orelhudos e cores instrumentais garridas. A essas impressões, acresce uma assinatura vocal a enlaçar as memórias de Freddy Mercury e os falsetes de Jake Shears. No final, somadas as parcelas, Life in Cartoon Motion não é disco para tirar o planeta da órbita normal e, se como produto mercantil tem o sucesso garantido nas tabelas de vendas, não traz coisas especialmente novas, a despeito de uma ou outra ideia benigna e isolada. Todavia, na maior parte dos casos, esses factos felizes acabam convertidos em peças exageradas e que se enredam irremediavelmente nos seus próprios despautérios, encobrindo o mérito da semente original. E a pertinência pop de Mika. Sobreprodução ou propensão comercial, é pena que para fabricar uma réplica multiusos de Robbie Williams, se subjuguem às regras comerciais alguns esboços razoáveis de canções pop.

U-Clic - Console Pupils

6/10
NorteSul
2007
www.u-clic.com



O press release de lançamento do primeiro trabalho dos U-Clic não demora muito a situá-los entre dois marcos que, supostamente, são os extremos da extensa gama de influências dos nabantinos: Kraftwerk e Sonic Youth. Já se conheciam essas referências desde quando, há cerca de um par de anos, o projecto dava os primeiros passos em palco, num formato visualmente enriquecido pela projecção de vídeos, então se convertendo numa saborosa surpresa electrónica, com um espaço sónico povoado por algumas concessões ao punk. No entanto, pese embora a expectativa da edição discográfica, a demorada gestação do álbum e, pior ainda, as sucessivas protelações da sua publicação, acabaram por tornar Console Pupils algo anacrónico, não por insuficiência das composições, mas porque o contexto presente é díspar daquele que lhes deu origem. Além desse indisfarçável atraso face às preferências dos públicos, mesmo considerando que há nele matéria suficiente para validar o trabalho dos U-Clic, o disco não evita outra mácula. Entendida ou não como limitação de formato, a verdade é que, lembrando o trio nas outras dimensões além do áudio, a identidade registada no disco parece bem mais curta daquela que têm em cima do palco.

terça-feira, 6 de março de 2007

Tinariwen - Aman Iman

8/10
Independiente
2007
www.tinariwen.com



A música dos malianos Tinariwen é de uma simplicidade desarmante. A substância dominante é aquela mágica tradição serenateira dos antigos mercadores tuaregues que, com melodias da mais elementar pureza (e inocência) criativa, desviavam da mente as intempéries e a aridez das intermináveis travessias do Saara. Os Tinariwen fazem parte, ao jeito do saudoso Farka Touré, de uma nova tribo de poetas sonhadores e herdeiros da resistência dos caminhantes nómadas do deserto, com a mesma eloquência nos riffs singelos das cordas da guitarra, a que se juntam as vozes ululantes e desprendidas das cantadeiras de ocasião e as palmas festivas a arredar as agruras. Na generalidade, a mistura de ingredientes é semelhante à do par de discos já editados pelo septeto africano, mas Aman Iman é ainda mais espontâneo e cru, guardando a espiritualidade pagã e ousadia tribal da música africana, e incorporando-as no rock ocidental de cartilha. E música deste primor e credulidade, além de nos conquistar irremediavelmente, reporta-nos ao improvável concílio de duas fantasias geograficamente desunidas: a quintessência do rock e os ventos do deserto. Os Tinariwen são os cicerones da união.

Rjd2 - The Third Man

6/10
XL Recordings
2007
www.rjd2site.com



Depois de terminado o compromisso com o selo Def Jux, uma das primeiras confissões de Jon Krohn (aka Rjd2) remetia para a vontade do músico em redireccionar a sua música e embarcar numa rota pop. Ora, sabendo-se que os códigos pop não rimam especialmente bem com samples nem com electrónica de gueto, o produtor deixou de lado uma parte significativa da sua identidade, apostando, em The Third Man, numa orgânica instrumental menos sintética (com a excepção das batidas) e, outro facto novo, juntando vocais seus às composições. Além disso, a luminária hip hop, sempre presente nos trabalhos anteriores, foi igualmente dispensada, em favor de construções alinhadas com as essências pop mais convencionais e, por inerência, menos flexíveis. Tal perda de elasticidade é empolada pelo registo vocal que, ao somar um espectro tonal estreito, acaba por reduzir a eficácia das melodias, excepção feita à oportunidade de "Beyond the Beyond". O saldo final, ponderados os óbices e as virtudes do disco, suscita uma reflexão: Rjd2 continua a ser, mesmo com um ou outro exagero, um malabarista de sons de escol. E o novo tomo é uma simpática colecção de vestígios para um acontecimento maior que ele terá na forja.

sábado, 3 de março de 2007

Explosions in the Sky - All of a Sudden I Miss Everyone

6/10
Temporary Residence
2007
www.explosionsinthesky.com



Apesar da suposta liberdade conceptual adstricta à noção primeira de pós-rock, a verdade é que o género se deixou envolver por alguma inércia criativa, muito por culpa da banalização (e posterior cristalização) dos princípios que estiveram na base da sua afirmação. O último registo dos Explosions in the Sky, um dos mais estimados representantes do género, vem revalidar essa hipótese. Embora optando por uma estética mais simples e, consequentemente, menos contígua do paradigma habitual, não há nada em All of a Sudden I Miss Everyone que os texanos não tenham experimentado antes. Distorções (menos frequentes), alternâncias de tempo, arritmias, guitarra, baixo e bateria continuam a ser as matérias do código sonoro dos Explosions in the Sky, sujeitas à formatação do costume. Sem sequer contemplar o esboço de um rasgo desviante desse trilho, o disco torna-se, necessariamente, formulista e previsível e daí derivam duas ilações. Os seguidores indefectíveis da banda, não verão sombra de pecadilho no decalque de ideias e render-se-ão incondicionalmente; os adeptos da reciclagem de conceitos, provavelmente darão uma chance ao disco mas vão deixá-lo cair rapidamente.

Mira Calix - Eyes Set Against the Sun

7/10
Warp
2007
www.miracalix.com



Passados sete anos da estreia em disco, a sul-africana (radicada no Reino Unido) Chantal Passamonte persegue um ideário musical semelhante ao começo de carreira, embora o apresente com um invólucro sonoro diferente e mais ambicioso. É exactamente essa particularidade que sobressai no terceiro registo assinado como Mira Calix. Em concreto, as fundações de Eyes Against the Sun têm o mesmíssimo pressuposto meditacional, fazendo uso de um posicionamento minimalista e hesitante de sons e silêncios e do vanguardismo característico da sua música, assente essencialmente numa mistura circular de três ingredientes: sons naturais (ao jeito da musique concrète), instrumentalizações clássicas e vozes processadas. Mais melódico do que os antecessores, o disco faz-se menos frio e técnico, por força de um investimento inferior nas beats experimentais, em favor dos arranjos da London Sinfonietta e da assimilação mais conveniente dos vocais. No final, não sendo um disco de soluções convencionais, nem de canções em sentido estrito, e apostando numa produção que lhe salienta a pronúncia rústica e fragmentária, pode tornar-se uma experiência auditiva estranha para aqueles que buscam sensações imediatas.

Posto de escuta MySpace de Mira Calix

sexta-feira, 2 de março de 2007

Patrick Wolf - The Magic Position

8/10
Universal
2007
www.patrickwolf.com



Não era difícil prever que, depois do panegírico (justo) que a crítica especializada consagrou a Wind in the Wires, publicado há um par de anos, o jovem Patrick Wolf fosse à procura de uma coisa maior. Em boa verdade, o curso ascendente da sua música faria supor essa intenção, se mais não fosse, ao menos pelo seu conhecido padrão de auto-exigência. E os resultados dessa depuração recorrente permitiram-lhe a rara veleidade de chegar, em apenas três álbuns, ao mais maturado dos estados da pop, em que o som toca a sumptuosidade dos clássicos, em vários registos, mantendo distâncias para a tentação do mainstream. É, afinal, essa a grande vitória deste The Magic Position, a fuga inteligentíssima aos lugares comuns e à incipiência das soluções orelhudas e, a despeito disso, a conservação de um certo imediatismo, segurado na arrumação melódica do disco, nos magníficos arranjos - as cordas são o pêndulo tragicómico - e numa produção que aprecia cortes modernos, de talhe electrónico. E sair dessa missão ordenadora com um opus que repassa cuidadosamente todos os elementos essenciais a um disco pop da mais virtuosa casta, é obra!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

The High Llamas - Can Cladders

6/10
Drag City
AnAnAnA
2007
http://www.highllamas.com/



Ao oitavo álbum, não há imprevistos nas melodias dos ingleses High Llamas e isso é uma ilação ambivalente. Eles continuam a assinar uma pop plácida, harmoniosa e sem sobressaltos mas a que parece faltar faísca, coisa particularmente notória neste registo. Esse vício deriva, na essência, do monocordismo vocal de Sean O'Hagan, afinal o nexo de similitude dos trechos do disco, uma vez que a porção instrumental se rege por alguma diversidade tonal e uma dose saudável de inconstância rítmica. Felizmente, num ou noutro ápice de Can Cladders a voz desvia-se do canto cristalizado que se pressente nas primeiras notas e, nesses momentos, as composições revelam abertamente uma elegância pouco percebida. Ainda assim, o conceito estético do álbum demonstra um facto inédito nos High Llamas, a abertura para um assomo de recreação, não apregoado, é certo, mas escondido nas texturas dos trechos (ou entreaberto em "Rollin' ", a faixa mais desembaraçada de todas). No final, a ciência destes britânicos sai aprovada com nota mediana, a que melhor traduz uma trupe de artistas que, se bem que mostre potencial para outras sortes, teima em ser certinha demais.

Kaiser Chiefs - Yours Truly, Angry Mob

5/10
Universal
2007
www.kaiserchiefs.co.uk



Depois da frustração, já este ano, da segunda colheita dos conterrâneos Bloc Party, com quem os Kaiser Chiefs haviam dividido o protagonismo de liderança de uma nova leva da pop britânica, temia-se que o desafio do segundo álbum (e as consequentes exigências mediáticas) se tornasse uma cilada para o modelo do quinteto inglês. Yours Truly, Angry Mob está aí para confirmar que, no lugar da efervescente espontaneidade do debute, em que as construções pareciam mais obra de impulsos sem rede do que propriamente de elaborados processos de ponderação técnica, mora agora uma escrita vulgar e de formas previsíveis. Depois, não obstante a largueza musculada das composições, manifestamente pensadas para aventuras em arenas maiores do que as do circuito alternativo, a percepção que sobra da audição do disco é a de um alinhamento feito de colagens de si mesmo, com o patrocínio dos formulismos de consumo rápido mais óbvios e longe dos instantes luminosos da estreia. Ricky Wilson canta, em dado momento do disco, everything is average nowadays. Serve o capuz aos Kaiser Chiefs, também.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Menomena - Friend and Foe

8/10
Barsuk
2007
www.menomena.com



O terceiro álbum dos americanos Menomena promete tirar o trio do anonimato. Nos discos anteriores, eles haviam explorado com alguma segurança, ainda que com a impolidez típica de uma coisa nova, uma determinada forma de malabarismo com as programações numa órbita pop pouco óbvia. Na sequela, a fórmula é relativamente semelhante mas o desfecho é mais consequente e é-o porque, primeiro, as diversas texturas instrumentais demonstram uma aderência maior entre si, reforçando a vivacidade sonora do disco e, depois, porque as programações são um recurso menos utilizado. A maturação de princípios também acontece na voz, claramente mais modular, rumo a uma definição harmónica mais consistente e, consequentemente, a composições mais completas. Além disso, mesmo sem reduzir o espírito militante da abstracção, afinal a essência mais atraente dos primeiros registos, a música dos Menomena ganha em Friend and Foe outras dimensões, ou seja, eles descobriram o ânimo melódico certo para a divagação da sonda exploratória do costume. E com ele veio uma fresca e prazenteira rotação psych-pop.

M. Rosner - Morning Tones

7/10
Apestaartje
2007
www.pablodali.net



Umas gotas de electrónica aguda e notas soltas de guitarra, em crescendo incerto, abrem o segundo registo do australiano M. Rosner. Não sendo novidade para quem tiver tomado contacto com Alluvial, tomo de debute editado há um par de anos, a fórmula repete-se no novo trabalho e, com ela, Rosner retoma a propensão para um certo experimentalismo minimalista, reunindo o binómio tons digitais-elementos acústicos, quase sempre numa curiosa alternância coloquial. A mistura de Morning Tones recorre a uma paleta de sons pouco convencionais, especialmente na porção digital dos trechos, e isso, aliado à utilização de uma pouco palpável matriz rítmica e à interacção insistente com o silêncio e o vácuo, pode tornar a audição do disco num desafio para ouvintes menos preparados para a experiência. A despeito dessa resistência inicial dos tímpanos, muito própria do contacto com produtos desta estirpe, descobre-se em Morning Tones um estímulo por detrás da muralha de sons processados que, mais do que apenas firmar o computador no estatuto de instrumento emancipado, mostra que ele também pode servir de unidade a retalhos sonoros com outras origens. E o tecido final é, enfim, uma vereda para a meditação.

Scorsese, finalmente...

Foram ontem atribuídos os Óscares do cinema americano e confirmou-se aquilo que se esperava: nenhuma surpresa relevante. Babel, de Iñarritu, e Cartas de Iwo Jima, de Eastwood, passaram ao lado das principais categorias e, no extremo oposto, Martin Scorsese teve, finalmente, a sua noite de consagração. Justíssima a sua designação para melhor realizador do ano com The Departed - Entre Inimigos. Nas categorias performativas individuais, duas construções magníficas, de longe as minhas preferências pessoais do ano, levadas à tela por Helen Mirren (The Queen, A Rainha) e Forest Whitaker (The Last King of Scotland, O Último Rei da Escócia) foram muito justamente distinguidas. O Óscar mais cobiçado da noite premiou The Departed - Entre Inimigos como a fita magna do ano. Confesso que tinha um fraquinho por Little Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris e que também gostei imenso do sublime Letters From Iwo Jima, Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood, mas não deixa de ser justa a escolha da película de Scorsese. Vistas bem as coisas, já era tempo de os senhores da Academia reconhecerem a carreira de um realizador que nos deu obras-primas como Taxi Driver (1976), Raging Bull(1980), Goodfellas (1990) ou Casino (1995). Nas categorias de representação de suporte, Alan Arkin, na pele de um conservador e áspero avô, acabou por ser a bandeira de Little Miss Sunshine na noite, roubando a estatueta a Djimon Hounsou, brilhante em Blood Diamond, Diamante de Sangue. Nas senhoras, Jennifer Hudson (Dreamgirls) era a favorita e ganhou, mas Adriana Barraza e Rinko Kikuchi (ambas em Babel) ou a surpreendente revelação de Abigail Breslin (a minha favorita), a pequenita que enche a tela de Little Miss Sunshine, também mereceriam a distinção. Nas categorias técnicas, o último conto de fadas de Guillermo del Toro (El Laberinto del Fauno, O Labirinto do Fauno) foi agraciado pela Fotografia, Caracterização e pela Direcção Artística. O prémio para o argumento original foi, como não podia deixar de ser, para Michael Arndt, argumentista de Little Miss Sunshine.

Veja a lista completa de premiados, clicando aqui.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Electric Willow - Mood Swing

7/10
Transporte de Animais Vivos
2007
www.myspace.com/
electricwillowband



Já não é facto novo - porque se conhece o seu passado nos Caffeine - mas ainda causa algum arrepio a semelhança de timbre vocal entre Cláudio Mateus e o Lou Reed dos tempos Velvet Underground. É, de resto, indiscutível a influência desse prestimoso legado na música dos Electric Willow, o que não quer dizer que o trio luso se confine a ele como fonte única de inspiração ou formatação. Nesse particular, é notório o crescimento de Mateus como compositor, agora mais destro a moldar o discurso da sua música a um certo desígnio intimista e pessoal, sem prescindir da militância a uma folk qualquer, daqui ou d'além Atlântico. Mais do que meramente buscar o resguardo daquelas influências, coisa que os deixaria perigosamente perto da tentação do recalque, os Electric Willow mostram soluções essencialmente acústicas, arrumadas por uma produção exímia (do melhor que se tem ouvido por estas bandas) e demarcam-se das referências. Mood Swing é, sobretudo, produto de um colectivo maduro e ciente de que um dos melhores prazeres da música está na melodia.

Deerhunter - Cryptograms




Dizem os dicionários que criptograma é um documento escrito com caracteres secretos e, portanto, de árdua descodificação. A escolha do epíteto para baptizar o primeiro registo do quinteto Deerhunter pela Kranky não vem a despropósito e, escutando atentamente este Cryptograms, notam-se duas identidades no alinhamento e qualquer uma delas com encriptação própria. A metade inicial, de matriz manifestamente menos imediata e espacial, revela uma curiosa perspicácia para incorporar fragmentos da doutrina pós-punk e o fino traço da fantasia electrónica, como nas utopias de Eno, de criatividade vaga e com tendências disformes. No segundo pólo, abre-se a janela pop do colectivo, não no sentido mais óbvio da pop precipitada e rudimentar, antes seguindo os trilhos ensimesmados do shoegaze. As canções tornam-se mais abertas (também mais estruturadas), por oposição a uma certa excentricidade orgânica da outra metade, têm mais voz e menos escapismo electrónico. No final, a bipolarização não é sinónimo de psiques dúbias, nem de acidentes de identidade; pelo contrário, é indício de um colectivo com linguagem própria e que, a despeito de um ou outro delito mínimo e próprio de um código musical lato, espelha apuradamente o alinhamento entre inocência e tensão que, em tempos, fez dos Sonic Youth um símbolo.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Old Jerusalem - The Temple Bell

8/10
Bor Land
2007
www.myspace.com/oldj



O muito aguardado regresso de Francisco Silva, hoje por hoje reconhecidamente o melhor cantautor melancólico português, é exactamente aquilo que se esperava que fosse: um alinhamento de canções ordenadas em melodias gentis e que, com desassombro, se assumem confessionais. É esse o credo fundamental do ente Old Jerusalem, enfim existir como plácido sedimento das inclinações emocionais e das derivações irresolutas da mente observante de Francisco. Nesse sentido, The Temple Bell é o cúmplice musicado das contemplações de uma alma cheia de poética, consciente da sua fraqueza e vulnerabilidade e que, esgueirando-se ao mais prosaico jeito de contar (as suas?) histórias, toca o auditor naquilo em que lhe é igual, sem empolamentos: a tangibilidade. E só assim fazem sentido as belíssimas harmonias de Old Jerusalem, tão humildes e pessoais que parecem nossas, tão tímidas a manifestar-se e simultaneamente tão genuínas como uma súplica, sem destinatário concreto, qual oração em busca da mão incerta do divino. Tamanha devoção, com o embalo das cordas e da voz de Old Jerusalem, no jeitinho arenoso da folk íntima da América, transforma-se, afinal, na mais primorosa das serenatas à melancolia.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Julie Doiron - Woke Myself Up

7/10
Jagjaguwar
2007
www.juliedoiron.com/



Os Eric's Trip já se desuniram há mais de uma década e deles restam apenas reminiscências de um colectivo inventor de alguns momentos inspirados do rock alternativo do Canadá. O percurso de Julie Doiron a solo, depois de ter emprestado voz e baixo aos Eric's Trip, é dominado pela pronúncia acústica e simplicidade. Para as gravações deste Woke Myself Up, Doiron fez-se rodear dos antigos companheiros de estrada, como que tentando resgatar a ciência do colectivo, e isso traz uma achega relevante às texturas minimalistas habituais das suas composições, somando-lhes substância. De toda a maneira, esse acrescento não adultera a feição confessional dos trechos, por força de uma produção equilibrada que, manejando com engenho os elementos, dispõe as diferentes variáveis instrumentais em função do intento ambiental de cada composição. Dessa forma, o alinhamento reparte-se entre canções íntimas e quase resumidas ao binómio voz-guitarra e outras que, buscando planos emocionais com extensão diferente, melhor se servem com as atribuições de uma banda. Em qualquer dos casos, a fina e penetrante verve de Julie Doiron - que agora até já é rotulada de freak folk - é o ingrediente dominante e isso é, como se sabe, um activo precioso demais para ser desconhecido.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Deerhoof - Friend Opportunity

8/10
Kill Rock Stars
2007
www.myspace.com/deerhoof



Oferecer aos tímpanos um novo opus dos Deerhoof é sempre um acto revelador. Apesar de eles já contarem mais de uma década de existência, a sua música é tão plausivelmente viçosa que, mesmo sem mudar na essência a disposição dos ingredientes, nunca deixa de causar algum espanto. No fundo, o som deles é hermético nos seus próprios postulados e fórmulas e cria uma invulgar imunidade a influências externas. Por inerência, aquilo que, noutros casos, se converteria num perigoso imobilismo, no caso dos Deerhoof - porque o filão privado de conceitos é riquíssimo e nem chega a abrir espaço para o mero corta-cola - é sinal de inconformismo com o seu "eu" e, consequentemente, de reinvenção constante, sob o mesmo paradigma. Friend Opportunity não foge a essa tendência recorrente do seu percurso e, associando composições de aparente superficialidade pop, pelo menos tão pop quanto se pode ser no cosmos Deerhoof, a outros momentos de maior embevecimento experimentalista (com menos ruído) e desejo descontrutivo, comprova a exímia arte do (agora) trio em imprimir características diferentes à sua personalidade sónica, mesmo quando ela se mostra no mais imediato dos seus registos. Efeito colateral óbvio: Friend Opportunity pode tornar-se um caso sério de sedução.

Dr. Salazar - Antes e Depois

6/10
Edição de Autor
dist. Musicactiva
2007
www.myspace.com/drsalazar1


Ao escutar Antes & Depois, tomo de estreia dos Dr. Salazar, pula na memória a mais sensível das referências da banda amadorense, os Mão Morta. A simetria é mais evidente nos vocais de Manuel d'Albuquerque, tão desabridos quanto os melhores momentos de Adolfo Luxúria Canibal, sempre mais próximos da oratória do que do canto. A poética não encontra tabus, é directa (menos figurada do que nos Mão Morta) e, em claro propósito sedicioso, não enjeita um ou outro lance mais polémico. É, contudo, na porção instrumental que o disco vinca a sua personalidade. A sonoridade é crua e confina com a dinâmica estrutural do metal industrial, com riffs abertos e cadências de galope firme, imperando o refinado sentido de proporção da banda na forma como se combinam essas substâncias, com óbvias benfeitorias da produção. Escutando o álbum de fio a pavio, percebe-se, ainda assim, que o corpo conceptual das composições, não sendo estéril, é espartano demais para se livrar da previsibilidade. Mas há, em Antes e Depois, matéria suficiente para dar crédito aos Dr. Salazar e ficar atento aos próximos capítulos.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

At Swim Two Birds - Returning to the Scene of Crime

6/10
Green Ufos
AnAnAnA
2007
www.myspace.com/
atswimtwobirds



As referências anteriores de Roger Quigley apontam para os The Montgolfier Brothers, não os irmãos inventores do balão, mas o duo de Manchester partilhado com Mark Tranmer. Em termos genéricos, não há divergências estéticas fundamentais entre o conceito solista e o outro. No fundo, Returning to the Scene of the Crime, segundo álbum sob o epíteto At Swim Two Birds, confina-se às mesmíssimas orientações estruturais na composição, apostando na construção de canções plácidas e pessoais, verosímeis na prostração confessional que apregoam e, como bem convém a um produto destes, resumidas, quase em exclusivo, à mínima textura dialogante entre guitarra e voz. Essa toada reforça-lhes a honestidade, é certo, mas acaba por destapar algumas mínguas na composição que, em último caso, são pólo de iteração. Não é que as canções de Quigley sejam más, longe disso, mas, se há ápices em que chegam a convencer pela proba simplicidade, outros existem em que essa modéstia, com o estorvo da repetição, deriva perigosamente para a banalidade. Ainda assim, tomado o peso de ambos, o saldo confirma um álbum acima do serviço mínimo.


Bracken - We Know About the Need




Chris Adams é metade do centro criativo dos Hood e estreia-se a solo aproveitando o crescimento mediático da casa-mãe dividida com o irmão. Desenganem-se os que vierem, na audição deste We Know About the Need, em busca de um mero pastiche da música contemplativa a que os Hood nos habituaram. Embora esse sentido meditativo na forma de fazer música encontre paralelos no universo Bracken, há uma notória reconversão de princípios. Onde se supunha encontrar a recompensa pastoral tão típica dos Hood, há lugar para uma fracturante distorção electrónica, manifestamente imprimida na bateria de samples e programações que enchem os trechos e que, mais do que revigorarem o conceito, lhe acrescentam alguma nébula. Nesse sentido, Adams captura a vibração mais perversa que os Hood nunca tiveram, molda-a para separar águas e, por isso, chega a um desfecho sem consenso: os admiradores desassombrados de fórmulas de pop sintética e sem definição (Xiu Xiu nas coordenadas), pejada de estática e glaciares, podem encontrar aqui o éter. Os outros, mais conservadores, não ouvirão além de um exercício algo desolado, hiperbólico, denso e impenetrável. Em qualquer dos casos, We Know About the Need é demasiado difuso e experimental para povoar as mesmas escalas dos The Hood. E nesses ensaios toca em lugares-comuns do pós-rock em que outros dançam melhor...

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Ghost - In Stormy Nights

7/10
Drag City
AnAnAnA
2007
www.dragcity.com/
bands/ghost.html



De entre os melómanos que ainda não conhecem os Ghost, poucos adivinhariam as origens nipónicas desta trupe se acaso se limitassem a conjecturar a partir da audição deste In Stormy Nights. A mais primária das impressões do álbum, notória desde os primeiros segundos, é a inclinação instrumental para um estranho folk negro, aqui e ali medieval, seja no recurso a um arsenal sónico apropriado (banjos, flautas, alaúdes e tablas), seja no canto de trovador maníaco-depressivo. A essas substâncias, soma-se a atracção pelo noise exploratório e pelo improviso, usados como o condimento tonificador dos ambientes amplos do disco. Talvez por isso, haja uma envolvência cinematográfica no som do tomo, embora sem orientação definida. Parece que o que importa aos Ghost é construir um todo de peças de medida larga, com evidentes repercussões na propulsão emocional do disco, mas sem importar o dimensionamento certo das partes. É assim que, por vezes, se desproporciona a combinação entre o noise paranóico e o folk deslavado, resvalando o disco para alguma agressividade sonora que, não sendo totalmente descabida, acaba por ofuscar o conceito global e a excelência melódica das peças.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

P.G. Six - Slightly Sorry

7/10
Drag City
AnAnAnA
2007
www.perhapstransparent.com/
pgsix.htm



Praticamente desconhecido fora do mercado americano, Pat Gubler promete seduzir outros públicos, no primeiro registo pela Drag City. A proposta é, como saberão os conhecedores da obra anterior do músico, uma colecção de canções sóbrias, talvez já não tão centradas na vocalização e nos artefactos de cordas - a harpa era companhia recorrente - antes se procurando o conforto de composições precisas, com uma estrutura mais definida. Nesse sentido, Slightly Sorry é um disco transparente, aposta na limpidez da produção para destacar os elementos sónicos dos trechos e, assim, expõe um corpo de melodias maduras, muito bem construídas e com um fino sabor a intemporalidade folk. E isso é, em plena euforia mediática do movimento freak folk a que depressa colarão (indevidamente) Gubler, uma declaração de genuinidade. Dele, e da música americana com charme orgânico. Desengane-se o ouvido que, à primeira audição, detecta alguma indefinição estilística no álbum. Esmiuçado com mais detalhe, o disco mostra o fio condutor de um compositor expedito, normalmente amigo do exploração sonora, e que aqui se entrega aos ritos (e instrumentos) tradicionais para fazer boa música.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Jesu - Conqueror




Depois da passagem pelos Napalm Death, facto que lhe conferiu alguma notoriedade junto dos fãs do death metal, e de ter ajudado a fundar os Godflesh, entretanto extintos em 2002, o britânico Justin Broadrick criou o projecto Jesu. Centrando-se nas vertentes mais ambientais do metal, mormente fazendo uso de riffs de guitarra em delay - assunto típico do drone metal - e de cadências tardas, o colectivo Jesu foi-se tornando um dos expoentes do doom europeu, atraindo atenções para um som hipnótico, com algum aparato industrial e feito em repto a qualquer formato pré-concebido. Contudo, o efeito surpresa do início já se esfumou e, pior do que perceber que a banda não optou por se reinventar, é sentir que, mesmo quando segue o paradigma que construiu, não é já capaz de suscitar o mesmo suspense emotivo de outros momentos. Assim se explica, também, a manifesta letargia de Conqueror, em tudo semelhante aos dois registos anteriores, mas apostando numa produção mais polida e em tons menos agrestes. O som é necessariamente menos cru e ganha em ordenação melódica o que perde nas descargas eléctricas. Uma questão de gosto, portanto...

The Shins - Wincing the Night Away

8/10
SubPop
2007
www.theshins.com



O esplêndido single de avanço ("Phantom Limb") caiu como sopa no mel, especialmente para aqueles que, familiarizados com os dois álbuns prévios dos The Shins, vêem neles uma referência incontornável e esperavam ansiosamente o terceiro disco. Ele está aí e não só secunda a excelência do single como revalida as certezas deixadas pela banda no passado. Não é exagero dizer-se que, no idioma pop dos The Shins, não cabem canções medianas nem momentos ocos. Se isso não bastasse, ainda se nota neste Wincing the Night Away um refinamento das texturas que, a despeito de alguma complexidade harmónica, conseguem a proeza de soar simples, graças ao polimento da produção e ao pólo de equilíbrio do disco, aquela sensação de que, a par e passo com os prevalecentes fraseados pop, há uma presença periférica menos eufórica, quase sempre conjugada em dialecto electrónico. Nisso, o disco é uma ambivalente e irresistível aventura onírica (a poética de James Mercer ajuda) e um manifesto sólido de uma banda prestes a ser acolhida por públicos maiores e a tomar o protagonismo que as suas aptidões merecem.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Jay-Jay Johanson - The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known




No final da década de noventa, Jay-Jay Johanson servia a fria melancolia da Escandinávia no formato pop e despontava no resto da Europa com Whiskey (1996), explorando sonoridades densas e atmosféricas. Mais de uma década depois, o sueco mantém-se fiel a esse mesmo padrão, jogando com a sofisticação sintética de uma synth-pop de tons taciturnos, vocalizações andróginas de cariz romântico e uma estética híbrida de algumas feições da electrónica ambiental, com o trip-hop como luminária primaz. Senhor de uma voz que não permite confusões e que bem ficaria nas canções clássicas dos mesmos crooners que indirectamente o influenciam, Johanson, como eles, deposita alma nas canções. Isso faz dele um intérprete de emoções credíveis e de canções sólidas nesse sentimentalismo mas que, ainda que construídas com inteligência, não sacodem significativamente o universo pop e tampouco somam valências aos predicados montados pelo músico no passado. Em todo o caso, The Long Term Physical Effects... está aí para não deixar Johanson cair no esquecimento.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Adolfo Luxúria Canibal + António Rafael - Estilhaços

8/10
Transporte de Animais Vivos
2007



Integrado no ciclo Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre no Porto, o espectáculo de spoken word Estilhaços partiu da homónima colecção de poemas de Adolfo Luxúria Canibal, editada pela Quasi em 2003. Previsto inicialmente para uma exibição única, a boa recepção do público determinaria a reposição do recital, primeiro no Porto, e noutras cidades nacionais, depois. Chega agora à forma de disco. Tal como nas apresentações públicas, junta-se a Adolfo o teclista dos Mão Morta, António Rafael. É ele o sujeito criador do soberbo manto musical que envolve as palavras de Adolfo, seja no piano, quando se justifica um registo mais clássico e conservador, seja no sintetizador e nas programações, quando o diálogo com as letras obriga a outro caleidoscópio de tons e dimensões sonoras. No resto, Adolfo não traz histórias novas, são as letras já lidas e ouvidas e que, vestidas pela música de Rafael, ganham novas medidas, ao jeito de ásperos retratos de um mundo sufocante e cru, glosado pelo sinuoso intelecto de um observador infiltrado. O preto cáustico é a cor destas palavras canibais. As notas de Rafael, os plácidos abutres que levam o último naco da alma estremecida.

Hella - There's No 666 in Outer Space

6/10
Ipecac
2007
www.hellaband.com



Poucos protagonistas do mundo musical, por mais experimentais que sejam, se aproximam do camaleonismo sonoro dos americanos Hella. A consistência não é certamente um dogma para eles, ou não fossem senhores de um trajecto pautado pela negação da previsibilidade (nas composições) e pela instabilidade (na formação da banda). Zach Hill e Spencer Seim são os únicos fundadores que ainda estão no projecto e, nesta primeira gravação para a Ipecac, recrutaram três novos elementos. Primeira diferença óbvia: a voz - que o estreante Aaron Ross aproxima de Bixler-Zavala em muitos momentos - está em todas as faixas, coisa não vista antes nos Hella; e é precisamente do acondicionamento entre voz e a costumeira anarquia instrumental da banda que deriva um certo formulismo mais próprio do rock progressivo. Necessariamente com menos potencial para surpreender, There's No 666 in Outer Space acaba por renunciar voluntariamente a uma parte imprescindível do corpo conceptual que distingue os Hella dos outros. E isso, não obstante a maturidade instrumental do álbum, é o mesmo que ficar a marcar passo. Além do mais, a esfera rock experimental/progressivo não estava orfã de outros Mars Volta. Se calhar, ficará é a lamentar o sumiço dos Hella...

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Pop Levi - Return to Form Black Magick Party

7/10
Counter Records
Ninja Tune
2007
www.poplevi.com



Com um percurso dividido entre o experimentalismo progressivo dos Super Numeri e a electro-pop mediática do quarteto Ladytron, não era imediatamente perceptível a instrução de Pop Levi noutros sons. Pois bem, depois de escutar The Return to Form Black Magick Party tornam-se notórias as tangências das canções com as referências confessadas de Levi que, sem colagens, aproveita uma entidade vocal algures entre John Lennon, Ozzy Osbourne e Robert Plant, e soma-lhe um concentrado musical cheio de balanço rock' n'roll, alguma extravagância pop (tão descomprometida que quase não se leva a sério) e suculentos detalhes de desarranjo psicadélico. É certo que Levi nem sempre se sai a contento na gestão desses sons e influências; daí deriva alguma indefinição identitária da sua música que podia confundir-se, nas primeiras audições, com um eclectismo não confirmado pelo alinhamento do disco. Ainda assim, louve-se a aptidão de Levi para fazer de canções rock pouco inovadoras, por acção dos tais preciosos enxertos, algo mais do que simples memórias de outros tempos. É esse o feitiço negro(?) do álbum.

Bloc Party - A Weekend in the City

6/10
V2
Edel
2007
www.blocparty.com



Depois de, com o disco de estreia de há dois anos, em plena eclosão da maré cheia de novos protagonistas no rock britânico, terem suscitado uma desmedida onda de entusiasmo à sua volta, coisa em muito ajudada pela inclusão de "Banquet" numa campanha publicitária da Vodafone, chega a hora dos Bloc Party se exporem à prova do segundo álbum. E a primeira impressão que fica de A Weekend in the City é a disparidade com o antecessor. É notória a escusa do quarteto a repetir os métodos de Silent Alarm e fazem-se imediatas as evidências disso: a voz de Okereke é mais ortodoxa, apenas a espaços tenta a irreverência do debute, e as composições testam uma matriz diferente, mais experimental, com outros ingredientes sonoros (nem sempre pertinentes) e uma dimensão rítmica distinta. Tal propósito reformista seria, em teoria, o caminho para suprir alguns equívocos estruturais da música dos Bloc Party e afastá-los da moda seguidista do rock bretão recente, em busca de uma identidade própria que subliminarmente se percebia em Silent Alarm. Por ora, a construção desse novo ego, tem uma eficácia incerta: neste padrão (mais reflexivo), sem parte das substâncias fulcrais do debute e ainda um pouco às apalpadelas, os Bloc Party perderam a chispa.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

The Klaxons - Myths of a Near Future

8/10
Universal
2007
www.klaxons.net



Um punhado de singles, lançados ainda no ano transacto, atiraram para cima dos londrinos Klaxons a atenção da comunidade melómana e revelaram um som geneticamente ligado ao arrebatamento energético e ritmos urgentes do punk, reconvertido às proposições recentes do rock mais dançante. Tambem cabe a electrónica mais optimista, portanto. A sempre prestes tentação dística da crítica depressa lhes colou um letreiro: precursores do "nu rave". De facto, não pode negar-se que Myths of a Near Future é festivo, às vezes imbecilmente jubiloso, e transmite vibração positiva em dose maciça, seja pelas vocalizações dobradas, pela percussão frenética ou pela junção psicadélica da guitarra e dos sons de síntese. Ainda que num ou noutro ápice o disco se mostre levemente iterativo, é a sublime produção que arruma a charanga eufórica do jovem quarteto no sítio mais oportuno, moderando os desconchavos e impondo critério ao turbilhão de energias. E é a mão dessa rédea que pode muito bem fazer dos Klaxons a versão mais crua e aberrante dos Franz Ferdinand. Ou a irónica (e prazenteira) nova sensação do não-rock produzido no caldeirão rock.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Benjy Ferree - Leaving the Nest

7/10
Domino
Edel
2006
www.benjyferree.com



Trazido ao orbe da música pela mão de Brendan Canty, percussionista dos Fugazi que conheceu ocasionalmente quando trabalhava em Los Angeles e que o encorajou a mostrar ao mundo as suas gravações pessoais, o americano Benjy Ferree estreia-se agora em disco. Ao escutar Leaving the Nest percebe-se a compostura e a sinceridade de um compositor que não era suposto sê-lo e de composições que não eram para mostrar. Guardada a feição intimista das canções e, por via dela, revelado um miolo melódico essencial, o álbum torna-se uma peça cativante, não tanto pela originalidade dos timbres evocados, mas pela quase-ingenuidade das estruturas, mínimas e a sondar espaços comuns aos White Stripes, aqui e ali, e com a melhor tradição da música americana como pano de fundo. Predominantemente acústico, Leaving the Nest faz jus à sugestão simbólica da capa e mostra-nos um trovador solto, sem pretensões e que, a despeito de não inovar, encontrou um nicho sónico significante para musicar as suas emoções. E explora-o dando ao mais genuíno dos códigos americanos a forma de boas canções pop.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Jóhann Jóhannsson - IBM 1401: A User's Manual

6/10
4AD
Popstock
2006
www.johannjohannsson.com



Jóhann Johánsson é um homem ocupado. Além de liderar a Kitchen Motors, etiqueta islandesa responsável por algumas das mais curiosas (des)construções musicais do cenário electrónico escandinavo, faz parte dos versáteis Apparat Organ Quartet, quinteto dedicado a uma cartilha electro-rock robótica. Como se isso não bastasse, o nome de Johánsson é presença recorrente nos créditos de fundos musicais para cinema e teatro. É, de resto, essa a vertente mais explorada nesta edição, partindo da electrónica mínima de um velho computador IBM, rumo a um desígnio sinfónico (de feição cinematográfica) dificilmente antevisto numa matéria tão artesanal e que, não fora o precioso complemento da secção de cordas da Filarmónica de Praga, dificilmente teria a amplitude que o produto final apresenta. Ainda assim, a despeito da majestade melódica que, a instantes, o disco irradia (por vezes só tangencialmente) nada é especialmente novo na essência e, destapada a curiosidade de descobrir como casam os elementos em jogo (máquina e cordas), pouco mais romantismo sobra. O que não obsta a que uma ou outra peça possa despertar alguma comoção nos tímpanos mais empedernidos.

Anabela Duarte - Machine Lyrique

7/10
Dargil
2006
www.anabeladuarte.com



Anabela Duarte não gosta que se confundam estas canções com a estética cabaret. E, de facto, embora interpretadas num registo solto e sem rigorismos excessivos, há nestas peças algo mais do que a mera boémia que ressalta da primeira audição. Cada vez mais ligada à música lírica, a ex-vocalista dos Mler If Dada não disfarça o gozo que lhe dá emprestar a sua voz a uma máquina de sons e palavras de Kurt Weill e Boris Vian. Do primeiro, além dos preciosos acordes da maior parte das peças do alinhamento, Anabela Duarte capta a alma cénica e o balanço teatral das canções, coisa que vem dos trabalhos conjuntos do compositor alemão com Brecht. De Vian, anarquista surreal e desorganizado compulsivo, guarda-se em Machine Lyrique o imaginário irreverente, o antagonismo social orgulhoso e a dissolução de espírito. E nada melhor do que o tiple de Anabela Duarte, elástico, versátil (entre os timbres solene e trocista) e completamente descomprometido, para servir esta colecção de teatro musicado, a que o piano de Ian Mikirtoumov fornece as costuras e o fraseado melódico.

The View - Hats Off to the Buskers

7/10
1965 Records
2007
www.theviewareonfire.com



Logo nos primeiros segundos de Hats Off to the Buskers se percebe ao que vêm os escoceses The View. Rock aberto e galopante, no melhor jeito pop-punk dos Libertines, ou não fosse Pete Doherty uma espécie de guru deste quarteto, tendo-os inclusivamente convidado para abrirem os concertos da mais recente digressão dos Babyshambles. Além dessa evidente comparação (não só contextual, mas suportada também na reverência aos Clash ou aos Kinks), outros apontam-lhes semelhanças com os Oasis, embora tais pontos de contacto sejam menos categóricos, mesmo retendo a ideia de que Owen Morris (produtor de Definetly Maybe) figura nos créditos da produção. Mais importante do que detectar parecenças, existam elas ou não, há em Hats Off to the Buskers espaço para a definição de uma identidade própria, capaz de sacar a tradição melódica da Escócia e acomodá-la a um formato rock urbano e urgente que, mesmo não sendo especialmente inovador ou decisivo, tem o préstimo magno de resumir, em pouco mais do que quarenta minutos, a essência da história recente do rock britânico. E com um delicioso sotaque caledónio.