quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Ghost - In Stormy Nights

7/10
Drag City
AnAnAnA
2007
www.dragcity.com/
bands/ghost.html



De entre os melómanos que ainda não conhecem os Ghost, poucos adivinhariam as origens nipónicas desta trupe se acaso se limitassem a conjecturar a partir da audição deste In Stormy Nights. A mais primária das impressões do álbum, notória desde os primeiros segundos, é a inclinação instrumental para um estranho folk negro, aqui e ali medieval, seja no recurso a um arsenal sónico apropriado (banjos, flautas, alaúdes e tablas), seja no canto de trovador maníaco-depressivo. A essas substâncias, soma-se a atracção pelo noise exploratório e pelo improviso, usados como o condimento tonificador dos ambientes amplos do disco. Talvez por isso, haja uma envolvência cinematográfica no som do tomo, embora sem orientação definida. Parece que o que importa aos Ghost é construir um todo de peças de medida larga, com evidentes repercussões na propulsão emocional do disco, mas sem importar o dimensionamento certo das partes. É assim que, por vezes, se desproporciona a combinação entre o noise paranóico e o folk deslavado, resvalando o disco para alguma agressividade sonora que, não sendo totalmente descabida, acaba por ofuscar o conceito global e a excelência melódica das peças.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

P.G. Six - Slightly Sorry

7/10
Drag City
AnAnAnA
2007
www.perhapstransparent.com/
pgsix.htm



Praticamente desconhecido fora do mercado americano, Pat Gubler promete seduzir outros públicos, no primeiro registo pela Drag City. A proposta é, como saberão os conhecedores da obra anterior do músico, uma colecção de canções sóbrias, talvez já não tão centradas na vocalização e nos artefactos de cordas - a harpa era companhia recorrente - antes se procurando o conforto de composições precisas, com uma estrutura mais definida. Nesse sentido, Slightly Sorry é um disco transparente, aposta na limpidez da produção para destacar os elementos sónicos dos trechos e, assim, expõe um corpo de melodias maduras, muito bem construídas e com um fino sabor a intemporalidade folk. E isso é, em plena euforia mediática do movimento freak folk a que depressa colarão (indevidamente) Gubler, uma declaração de genuinidade. Dele, e da música americana com charme orgânico. Desengane-se o ouvido que, à primeira audição, detecta alguma indefinição estilística no álbum. Esmiuçado com mais detalhe, o disco mostra o fio condutor de um compositor expedito, normalmente amigo do exploração sonora, e que aqui se entrega aos ritos (e instrumentos) tradicionais para fazer boa música.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Jesu - Conqueror




Depois da passagem pelos Napalm Death, facto que lhe conferiu alguma notoriedade junto dos fãs do death metal, e de ter ajudado a fundar os Godflesh, entretanto extintos em 2002, o britânico Justin Broadrick criou o projecto Jesu. Centrando-se nas vertentes mais ambientais do metal, mormente fazendo uso de riffs de guitarra em delay - assunto típico do drone metal - e de cadências tardas, o colectivo Jesu foi-se tornando um dos expoentes do doom europeu, atraindo atenções para um som hipnótico, com algum aparato industrial e feito em repto a qualquer formato pré-concebido. Contudo, o efeito surpresa do início já se esfumou e, pior do que perceber que a banda não optou por se reinventar, é sentir que, mesmo quando segue o paradigma que construiu, não é já capaz de suscitar o mesmo suspense emotivo de outros momentos. Assim se explica, também, a manifesta letargia de Conqueror, em tudo semelhante aos dois registos anteriores, mas apostando numa produção mais polida e em tons menos agrestes. O som é necessariamente menos cru e ganha em ordenação melódica o que perde nas descargas eléctricas. Uma questão de gosto, portanto...

The Shins - Wincing the Night Away

8/10
SubPop
2007
www.theshins.com



O esplêndido single de avanço ("Phantom Limb") caiu como sopa no mel, especialmente para aqueles que, familiarizados com os dois álbuns prévios dos The Shins, vêem neles uma referência incontornável e esperavam ansiosamente o terceiro disco. Ele está aí e não só secunda a excelência do single como revalida as certezas deixadas pela banda no passado. Não é exagero dizer-se que, no idioma pop dos The Shins, não cabem canções medianas nem momentos ocos. Se isso não bastasse, ainda se nota neste Wincing the Night Away um refinamento das texturas que, a despeito de alguma complexidade harmónica, conseguem a proeza de soar simples, graças ao polimento da produção e ao pólo de equilíbrio do disco, aquela sensação de que, a par e passo com os prevalecentes fraseados pop, há uma presença periférica menos eufórica, quase sempre conjugada em dialecto electrónico. Nisso, o disco é uma ambivalente e irresistível aventura onírica (a poética de James Mercer ajuda) e um manifesto sólido de uma banda prestes a ser acolhida por públicos maiores e a tomar o protagonismo que as suas aptidões merecem.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Jay-Jay Johanson - The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known




No final da década de noventa, Jay-Jay Johanson servia a fria melancolia da Escandinávia no formato pop e despontava no resto da Europa com Whiskey (1996), explorando sonoridades densas e atmosféricas. Mais de uma década depois, o sueco mantém-se fiel a esse mesmo padrão, jogando com a sofisticação sintética de uma synth-pop de tons taciturnos, vocalizações andróginas de cariz romântico e uma estética híbrida de algumas feições da electrónica ambiental, com o trip-hop como luminária primaz. Senhor de uma voz que não permite confusões e que bem ficaria nas canções clássicas dos mesmos crooners que indirectamente o influenciam, Johanson, como eles, deposita alma nas canções. Isso faz dele um intérprete de emoções credíveis e de canções sólidas nesse sentimentalismo mas que, ainda que construídas com inteligência, não sacodem significativamente o universo pop e tampouco somam valências aos predicados montados pelo músico no passado. Em todo o caso, The Long Term Physical Effects... está aí para não deixar Johanson cair no esquecimento.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Adolfo Luxúria Canibal + António Rafael - Estilhaços

8/10
Transporte de Animais Vivos
2007



Integrado no ciclo Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre no Porto, o espectáculo de spoken word Estilhaços partiu da homónima colecção de poemas de Adolfo Luxúria Canibal, editada pela Quasi em 2003. Previsto inicialmente para uma exibição única, a boa recepção do público determinaria a reposição do recital, primeiro no Porto, e noutras cidades nacionais, depois. Chega agora à forma de disco. Tal como nas apresentações públicas, junta-se a Adolfo o teclista dos Mão Morta, António Rafael. É ele o sujeito criador do soberbo manto musical que envolve as palavras de Adolfo, seja no piano, quando se justifica um registo mais clássico e conservador, seja no sintetizador e nas programações, quando o diálogo com as letras obriga a outro caleidoscópio de tons e dimensões sonoras. No resto, Adolfo não traz histórias novas, são as letras já lidas e ouvidas e que, vestidas pela música de Rafael, ganham novas medidas, ao jeito de ásperos retratos de um mundo sufocante e cru, glosado pelo sinuoso intelecto de um observador infiltrado. O preto cáustico é a cor destas palavras canibais. As notas de Rafael, os plácidos abutres que levam o último naco da alma estremecida.

Hella - There's No 666 in Outer Space

6/10
Ipecac
2007
www.hellaband.com



Poucos protagonistas do mundo musical, por mais experimentais que sejam, se aproximam do camaleonismo sonoro dos americanos Hella. A consistência não é certamente um dogma para eles, ou não fossem senhores de um trajecto pautado pela negação da previsibilidade (nas composições) e pela instabilidade (na formação da banda). Zach Hill e Spencer Seim são os únicos fundadores que ainda estão no projecto e, nesta primeira gravação para a Ipecac, recrutaram três novos elementos. Primeira diferença óbvia: a voz - que o estreante Aaron Ross aproxima de Bixler-Zavala em muitos momentos - está em todas as faixas, coisa não vista antes nos Hella; e é precisamente do acondicionamento entre voz e a costumeira anarquia instrumental da banda que deriva um certo formulismo mais próprio do rock progressivo. Necessariamente com menos potencial para surpreender, There's No 666 in Outer Space acaba por renunciar voluntariamente a uma parte imprescindível do corpo conceptual que distingue os Hella dos outros. E isso, não obstante a maturidade instrumental do álbum, é o mesmo que ficar a marcar passo. Além do mais, a esfera rock experimental/progressivo não estava orfã de outros Mars Volta. Se calhar, ficará é a lamentar o sumiço dos Hella...

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Pop Levi - Return to Form Black Magick Party

7/10
Counter Records
Ninja Tune
2007
www.poplevi.com



Com um percurso dividido entre o experimentalismo progressivo dos Super Numeri e a electro-pop mediática do quarteto Ladytron, não era imediatamente perceptível a instrução de Pop Levi noutros sons. Pois bem, depois de escutar The Return to Form Black Magick Party tornam-se notórias as tangências das canções com as referências confessadas de Levi que, sem colagens, aproveita uma entidade vocal algures entre John Lennon, Ozzy Osbourne e Robert Plant, e soma-lhe um concentrado musical cheio de balanço rock' n'roll, alguma extravagância pop (tão descomprometida que quase não se leva a sério) e suculentos detalhes de desarranjo psicadélico. É certo que Levi nem sempre se sai a contento na gestão desses sons e influências; daí deriva alguma indefinição identitária da sua música que podia confundir-se, nas primeiras audições, com um eclectismo não confirmado pelo alinhamento do disco. Ainda assim, louve-se a aptidão de Levi para fazer de canções rock pouco inovadoras, por acção dos tais preciosos enxertos, algo mais do que simples memórias de outros tempos. É esse o feitiço negro(?) do álbum.

Bloc Party - A Weekend in the City

6/10
V2
Edel
2007
www.blocparty.com



Depois de, com o disco de estreia de há dois anos, em plena eclosão da maré cheia de novos protagonistas no rock britânico, terem suscitado uma desmedida onda de entusiasmo à sua volta, coisa em muito ajudada pela inclusão de "Banquet" numa campanha publicitária da Vodafone, chega a hora dos Bloc Party se exporem à prova do segundo álbum. E a primeira impressão que fica de A Weekend in the City é a disparidade com o antecessor. É notória a escusa do quarteto a repetir os métodos de Silent Alarm e fazem-se imediatas as evidências disso: a voz de Okereke é mais ortodoxa, apenas a espaços tenta a irreverência do debute, e as composições testam uma matriz diferente, mais experimental, com outros ingredientes sonoros (nem sempre pertinentes) e uma dimensão rítmica distinta. Tal propósito reformista seria, em teoria, o caminho para suprir alguns equívocos estruturais da música dos Bloc Party e afastá-los da moda seguidista do rock bretão recente, em busca de uma identidade própria que subliminarmente se percebia em Silent Alarm. Por ora, a construção desse novo ego, tem uma eficácia incerta: neste padrão (mais reflexivo), sem parte das substâncias fulcrais do debute e ainda um pouco às apalpadelas, os Bloc Party perderam a chispa.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

The Klaxons - Myths of a Near Future

8/10
Universal
2007
www.klaxons.net



Um punhado de singles, lançados ainda no ano transacto, atiraram para cima dos londrinos Klaxons a atenção da comunidade melómana e revelaram um som geneticamente ligado ao arrebatamento energético e ritmos urgentes do punk, reconvertido às proposições recentes do rock mais dançante. Tambem cabe a electrónica mais optimista, portanto. A sempre prestes tentação dística da crítica depressa lhes colou um letreiro: precursores do "nu rave". De facto, não pode negar-se que Myths of a Near Future é festivo, às vezes imbecilmente jubiloso, e transmite vibração positiva em dose maciça, seja pelas vocalizações dobradas, pela percussão frenética ou pela junção psicadélica da guitarra e dos sons de síntese. Ainda que num ou noutro ápice o disco se mostre levemente iterativo, é a sublime produção que arruma a charanga eufórica do jovem quarteto no sítio mais oportuno, moderando os desconchavos e impondo critério ao turbilhão de energias. E é a mão dessa rédea que pode muito bem fazer dos Klaxons a versão mais crua e aberrante dos Franz Ferdinand. Ou a irónica (e prazenteira) nova sensação do não-rock produzido no caldeirão rock.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Benjy Ferree - Leaving the Nest

7/10
Domino
Edel
2006
www.benjyferree.com



Trazido ao orbe da música pela mão de Brendan Canty, percussionista dos Fugazi que conheceu ocasionalmente quando trabalhava em Los Angeles e que o encorajou a mostrar ao mundo as suas gravações pessoais, o americano Benjy Ferree estreia-se agora em disco. Ao escutar Leaving the Nest percebe-se a compostura e a sinceridade de um compositor que não era suposto sê-lo e de composições que não eram para mostrar. Guardada a feição intimista das canções e, por via dela, revelado um miolo melódico essencial, o álbum torna-se uma peça cativante, não tanto pela originalidade dos timbres evocados, mas pela quase-ingenuidade das estruturas, mínimas e a sondar espaços comuns aos White Stripes, aqui e ali, e com a melhor tradição da música americana como pano de fundo. Predominantemente acústico, Leaving the Nest faz jus à sugestão simbólica da capa e mostra-nos um trovador solto, sem pretensões e que, a despeito de não inovar, encontrou um nicho sónico significante para musicar as suas emoções. E explora-o dando ao mais genuíno dos códigos americanos a forma de boas canções pop.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Jóhann Jóhannsson - IBM 1401: A User's Manual

6/10
4AD
Popstock
2006
www.johannjohannsson.com



Jóhann Johánsson é um homem ocupado. Além de liderar a Kitchen Motors, etiqueta islandesa responsável por algumas das mais curiosas (des)construções musicais do cenário electrónico escandinavo, faz parte dos versáteis Apparat Organ Quartet, quinteto dedicado a uma cartilha electro-rock robótica. Como se isso não bastasse, o nome de Johánsson é presença recorrente nos créditos de fundos musicais para cinema e teatro. É, de resto, essa a vertente mais explorada nesta edição, partindo da electrónica mínima de um velho computador IBM, rumo a um desígnio sinfónico (de feição cinematográfica) dificilmente antevisto numa matéria tão artesanal e que, não fora o precioso complemento da secção de cordas da Filarmónica de Praga, dificilmente teria a amplitude que o produto final apresenta. Ainda assim, a despeito da majestade melódica que, a instantes, o disco irradia (por vezes só tangencialmente) nada é especialmente novo na essência e, destapada a curiosidade de descobrir como casam os elementos em jogo (máquina e cordas), pouco mais romantismo sobra. O que não obsta a que uma ou outra peça possa despertar alguma comoção nos tímpanos mais empedernidos.

Anabela Duarte - Machine Lyrique

7/10
Dargil
2006
www.anabeladuarte.com



Anabela Duarte não gosta que se confundam estas canções com a estética cabaret. E, de facto, embora interpretadas num registo solto e sem rigorismos excessivos, há nestas peças algo mais do que a mera boémia que ressalta da primeira audição. Cada vez mais ligada à música lírica, a ex-vocalista dos Mler If Dada não disfarça o gozo que lhe dá emprestar a sua voz a uma máquina de sons e palavras de Kurt Weill e Boris Vian. Do primeiro, além dos preciosos acordes da maior parte das peças do alinhamento, Anabela Duarte capta a alma cénica e o balanço teatral das canções, coisa que vem dos trabalhos conjuntos do compositor alemão com Brecht. De Vian, anarquista surreal e desorganizado compulsivo, guarda-se em Machine Lyrique o imaginário irreverente, o antagonismo social orgulhoso e a dissolução de espírito. E nada melhor do que o tiple de Anabela Duarte, elástico, versátil (entre os timbres solene e trocista) e completamente descomprometido, para servir esta colecção de teatro musicado, a que o piano de Ian Mikirtoumov fornece as costuras e o fraseado melódico.

The View - Hats Off to the Buskers

7/10
1965 Records
2007
www.theviewareonfire.com



Logo nos primeiros segundos de Hats Off to the Buskers se percebe ao que vêm os escoceses The View. Rock aberto e galopante, no melhor jeito pop-punk dos Libertines, ou não fosse Pete Doherty uma espécie de guru deste quarteto, tendo-os inclusivamente convidado para abrirem os concertos da mais recente digressão dos Babyshambles. Além dessa evidente comparação (não só contextual, mas suportada também na reverência aos Clash ou aos Kinks), outros apontam-lhes semelhanças com os Oasis, embora tais pontos de contacto sejam menos categóricos, mesmo retendo a ideia de que Owen Morris (produtor de Definetly Maybe) figura nos créditos da produção. Mais importante do que detectar parecenças, existam elas ou não, há em Hats Off to the Buskers espaço para a definição de uma identidade própria, capaz de sacar a tradição melódica da Escócia e acomodá-la a um formato rock urbano e urgente que, mesmo não sendo especialmente inovador ou decisivo, tem o préstimo magno de resumir, em pouco mais do que quarenta minutos, a essência da história recente do rock britânico. E com um delicioso sotaque caledónio.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Field Music - Tones of Town

8/10
Memphis Industries
2007
www.field-music.co.uk



Pouca gente terá notado, mas estes rapazes editaram um disco em 2005. O azar deles foi a bicefalia desse ano no nordeste britânico, na época em que os suspiros dos melómanos ingleses se fixavam no impacto dos Futureheads ou dos Maximo Park. Para repôr a justiça universal, chega agora o segundo tomo dos Field Music. Se o debute homónimo havia conseguido uma agradável impressão, trazendo à memória ápices de melodias mais amistosas dos XTC, a sequela não se limita a isso, a começar na elasticidade das texturas de revestimento das canções. Os instrumentais são um altar de sons a exaltar o cerne fundamental da equação sónica do colectivo britânico: as cordas. A guitarra é a substância maior, quase sempre em serviço progressivo, mas há outras matérias de adopção, como breves trechos de pop de câmara (embora menos se notem as referências Beach Boys do primeiro disco) ou bosquejos vanguardistas. Tamanha complexidade torna o som dos Field Music menos imediato mas, ainda que com uma ou outra hipérbole pelo meio, resultado do método tentativa-erro que tão bons resultados dá com a filigrana deles, Tones of Town é um manifesto oportuníssimo.

Norah Jones - Not Too Late

6/10
Blue Note
2007
www.norahjones.com



Ao terceiro álbum, Norah Jones decidiu dar-nos o mais pessoal dos seus registos. Ao contrário do par de álbuns antecessores, Not Too Late é inteiramente feito de canções originais, assinadas a meias com o parceiro Lee Alexander e gravadas no seu estúdio caseiro. Volvidos quatro anos da súbita promoção ao estrelato, é mais do que natural esse impulso regenerador de uma jovem protagonista que, chegada aos píncaros, ensaia agora passadas diferentes para o seu trajecto. Sem o amparo do esplêndido contributo do produtor Arif Mardin, falecido no último Verão, as canções de Not Too Late, ainda que conservando o encanto sedoso da voz, parecem estruturalmente menos aconchegantes, em resultado de uma produção mais despojada e voltada para a experiência. Nesse sentido, o álbum revela um certo desprendimento em relação ao passado recente e mostra uma dupla à procura de outros estímulos ("Sinkin' Soon" - pesca nas conjugações Waits - e "My Dear Country" são os exemplos mais notórios) mas que, em última análise e a despeito da utilidade dessa intenção, não se aparta decisivamente dos usos recentes e, pior do que isso, não chega a captar-lhes o fascínio essencial.

Kristin Hersh - Learn to Sing Like a Star

8/10
Yep Roc
2007
www.throwingmusic.com



A gravilha na voz é coisa genética de Kristin Hersh e tem sido, entre outras minudências, uma das armas de arremesso da massa crítica do fenómeno musical, sempre renitente em aceitá-la como cantora na acepção literal da palavra. A fina ironia no baptismo do novo opus é a réplica subtil de Hersh ao cepticismo de quem olha para ela e esquece que já conta mais de duas décadas de gravações, desde os tempos dos consistentes Throwing Muses. Mas a ironia vai mais longe. Os acordes de Learn to Sing Like a Star são um cenário de emoções cruas para as palavras, tão impulsivas quanto a timbre usual de Hersh, assentes numa medula rock gerada no feliz encontro entre a melodia acústica e frágil e o abalo amordaçado da electricidade. Com arranjos resolutos, pianos, violinos e violoncelos. Depois, a simbiose entre os ambientes do disco e o canto inquietante de Hersh é do melhor que se escutou no percurso da autora, confirmando retoques preciosos nas suas aptidões criativas. Por essas e outras, Hersh nem precisa de cantar como uma estrela. Afinal, a voz dela tem mais sumo assim empoeirada.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

The Partisan Seed - Visions of Solitary Branches

8/10
Transporte de Animais Vivos
2007
www.honeysound.com



Quando se soube que, depois de Fantôme Intro das Waltz (2003), um dos mais inspirados trabalhos de estética alternativa alguma vez feitos cá no burgo, o colectivo Kafka se extinguiu, podia adivinhar-se que Filipe Miranda não fecharia aí a loja. Havia (e há) no mentor e vocalista da banda barcelense um talento raro para escrever hinos da melancolia e canções de honestidade arrepiante. Essa faceta é ainda mais sentida em Visions of Solitary Branches, uma colecção de composições espartanas, instrumentalmente frugais e construídas em torno da voz. Os sons que a suportam, sejam do esqueleto de guitarra (amante inescusável de qualquer trovador solitário que se preze), sejam dos apoios sonoros casuais, seguem os tons enleantes do canto, sempre hipnótico e suspenso, portador de um discurso que vai além das palavras. Há alma nestas canções que, sendo despidas de artifícios, se resumem a um minimalismo próprio do género, mas nunca deixam de ser consequentes. Música que nos faz assim recostar e pesar as pequenas coisas da vida é docemente perturbante. E arrepia como Old Jerusalem. Também por isso, é difícil prescindir de Visions of Solitary Branches.

Clap Your Hands Say Yeah - Some Loud Thunder




Foi o burburinho da blogosfera que lhes fez grande parte da reputação e os atirou para os palcos mediáticos da cena nova-iorquina, primeiro, e do mercado americano, depois, em resposta a uma edição de autor homónima que depressa se tornou um dos títulos mais requisitados de 2005. Não sendo um exemplo de originalidade, o disco projectava-se no referencial de coordenadas dos Violent Femmes ou dos Talking Heads, encontrando aí vida própria e uma curiosa (e talentosa) fórmula para a construção de canções de fino recorte. Some Loud Thunder é o sucessor e leva-nos, desde os primeiros acordes, para outras paragens. Decididamente mais experimentais (não necessariamente melhores...) e, por isso, mais errantes, as novas composições parecem enredar-se a si mesmas num novo paradigma de cadências mais lentas, arestas limadas pela produção e texturas menos rock. E diminuir a porção de deliciosa energia e laconismo rock da estreia, afinal o catalisador da sua frescura, é um risco muito penalizador do som dos CYHSY. Fica a esperança de que eles retomem a descoberta de si mesmos (de que o álbum de debute é um manifesto), antes de partirem para a redescoberta experimental do seu som. Ainda é cedo para aparecerem outros Flaming Lips.

Mudança gráfica no apARTES

Está completa a primeira fase da revisão gráfica que tinha previsto fazer no apARTES. A ideia base desta "limpeza" visual foi, antes de mais, tentar agilizar os conteúdos gráficos, permitindo com isso um acesso mais célere ao blog e, consequentemente, uma experiência de utilização mais agradável para o utilizador. Seguir-se-ão, a breve prazo, outras actualizações, especialmente no anexo da Grafonola, espaço que permitia a audição de algumas faixas dos discos apresentados no apARTES. Por ora, essa secção deixou de estar disponível mas espero devolvê-la a este espaço tão rapidamente quanto possível, sem prejuízo de se manterem os costumeiros postos de escuta em cada um dos artigos publicados.

Além da nova cara do blog, a terceira desde o nascimento deste espaço, junta-se também uma lista de hiperligações para outras fontes de informação sobre música e outras artes. Como julgo ser compreensível nesta fase inicial, a lista é necessariamente curta mas não estanque, já que outros links serão gradualmente somados, sempre que tal se justifique. E que o tempo o permita.

De resto, a actividade normal do apARTES seguirá, na devoção crítica sobre a música. E de olho de soslaio sobre as outras manifestações artísticas. Em jeito de balanço, volvidos mais de dois anos desta aventura pela blogosfera, rendo-me a todos os que por cá passaram. O contador diz-me que são já mais de trinta e três mil. A todos, o meu sincero agradecimento pelas visitas, pelas leituras, pelos comentários, pelos emails. Por tudo.

E a ti, S., uma vénia diferente.
Por seres quem és, o apARTES será sempre teu.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Carla Bruni - No Promises

7/10
Naïve/EM
2007
www.carlabruni.com



Um ex-supermanequim a aventurar-se no mundo das canções é coisa bastante para instigar os mais fundos partidarismos e preconceitos da massa crítica do fenómeno da música. Foi nesse ambiente de sobranceria generalizada que apareceu Quelq'un m'a dit, em 2003, o debute nestas lides da italiana Carla Bruni. Olhada de soslaio por antecipação, foi a credulidade das canções que firmou, a posteriori, o cunho de uma cantora/compositora hábil no desenho de melodias plácidas, em composições de pop recatada, voz de cicio e bons arranjos. No segundo trabalho, a divergência mais clara vem dos poemas, ao invés do francês do antecessor, este disco acolhe textos de Emily Dickinson, William Butler Yeats, Walter de Maré ou Christina Rosseti (indicados a Bruni pela amiga Marianne Faithful), necessariamente cantados em inglês. Além da conversão ao britanismo na linguagem, também nas texturas de som se nota uma certa metamorfose, notoriamente a chegá-las aos padrões blues americanos - para trás fica o legado da chanson française), de guitarras dialogantes, mas sem beliscar o minimalismo em que melhor assenta a pedra angular destas canções: a voz.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Alasdair Roberts - The Amber Gatherers

7/10
Drag City
AnAnAnA
2007
www.alasdairroberts.com



Além da inconfundível presença vocal de tons altos e afinação extrema, a música do escocês Alasdair Roberts confunde-se com loas de outras eras, como se fora anacrónica, uma espécie de subterfúgio para um trovador deslocado no tempo. The Amber Gatherers não se arreda da costumeira toada arcaica e minimalista de Roberts, embora se perceba, na estrutura melódica das composições, um compromisso renovado com inspirações mais luminosas, depois da negrura de No Earthly Man (2005), colecção de baladas soturnas sobre a morte. O adorno das canções é mínimo e esse é o paradoxo da imponência quase-silente dos trechos, em torno de um núcleo quintessencial (Roberts, a ciência da música tradicional e a guitarra), com ligeiríssimas infiltrações (o banjo, as palmas ou a percussão contingente). O desfecho é uma lição folk que, por despertar das prateleiras de um antiquário erudito nos usos antigos, pode trazer a aparência de soar imprópria para ouvidos hodiernos. Ou pouco esmaltada para os freak folks. E seguir esse impulso instante seria recusar a estas belas canções a oportunidade que merecem. Sem reservas.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Of Montreal - Hissing Fauna, Are You the Destroyer?


8/10
Polyvynil
2007



Discursar sobre Of Montreal e reduzir o conceito à persona de Kevin Barnes é uma inevitabilidade. Projecto pós-extinção dos Elephant 6, de cujas mesmíssimas ruínas surgiram outros colectivos importantes como os Neutral Milk Hotel, os Beulah ou os Apples in Stereo, só para citar alguns, a sigla Of Montreal é o abrigo da verve de Barnes. Integralmente escrito por ele, Hissing Fauna, Are You the Destroyer? vem na esteira do seminal Satanic Panic in the Attic (2004), obra maior do catálogo de Barnes, e do seu sucessor (Sunlandic Twins, de 2005), na construção daquilo a que o autor chama uma "electro-cinematic avant disco". Psicadélico, é certamente. Os sintetizadores tentam o fausto de uma mistura de sons cheia de sabores, a raiar o surrealismo, o sustentáculo mais oportuno para as melodias. Aí, não há lugar para convenções, Barnes é um rebelde e não perfilha regras, prefere dar corpo a uma pop de doces dislates e mantimentos sintéticos, num galanteio destapado com o legado disco dos oitentas e, porque não dizê-lo, com as luminárias de Bowie (é fantasma repetente no percurso de Barnes), dos Beatles, de Beck ou de Brian Wilson. Com um imaculado gosto a concentrado.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Jazz Iguanas - Jazz Iguanas


7/10
Cobra Records
2006
www.myspace.com/jazziguanas



A nota de lançamento do projecto Jazz Iguanas vale-se de uma máxima do ficcionismo de Phillip K. Dick, controverso novelista americano e pirrónico convicto da espécie humana e seu futuro. Na citação, Dick espia o cepticismo idiossincrático da sua órbita criativa, o mundo dos "falsos humanos" e das objectividades meramente virtuais. Ao escutar Jazz Iguanas, identidade alternativa de Miguel Pedro e António Rafael (músicos dos Mão Morta), percebe-se a correlação com esse orbe futurista de Dick, sob a dominância de caracteres maiuscúlos de som sintético, friamente programados para governar os estímulos orgânicos das composições. É, nesse sentido, um disco maquinal, como se o computador se emancipasse do humano-programador e se fizesse, ele próprio, um "falso humano". Ou um "falso instrumento". E, na ilusão de falsidade, corresse livre no espaço do improviso (como um jazz absurdo), necessariamente quebradiço e desregrado, convulsivo e dinâmico. Seguem-lhe a pisada as cordas do piano, também rendidas ao laço ilusivo, como a guitarra e o contrabaixo, e, juntos, orquestram daguerreótipos apurados de um mundo sem homens reais. Ou onde a carne e o osso são apenas circunstância aparente. E que bem ficariam estes acordes (ou outros que nascessem do mesmo génesis) no recente tributo de Richard Linklater às alucinações de A Scanner Darkly.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

JP Simões - 1970


8/10
NorteSul
2007
www.jpsimoes.com



Para trás ficam as memórias que o aconchegam no património dos Belle Chase Hotel e, mais recentemente, do Quinteto Tati, colectivos que empurrou para os píncaros da música lusa. Agora a solo, JP Simões procura outro conforto: o retorno às fundações da sua adolescência, vivida no Brasil, e rendida a mestre Buarque de Hollanda. 1970 é o travessão que une pautas e harmonias do país irmão, além Atlântico, ao canto em português autóctone. E quem melhor do que JP Simões, poeta vago e confesso admirador da geração setentista da música brasileira, para decorar essa confluência de âncoras bem brasileiras (sambas e bossas), com alentos portugueses. Já lhe chamaram luso-sambismo, num rótulo talvez redutor da fartura de um tomo de canções tão simples quanto sublimes, servidas por textos-retrato de uma geração desencantada (a de 70, ano de nascimento de JP Simões). É esse mesmo despojo a referência contextual (suportada em arranjos de excelência) que faz de 1970 um disco de canções elegantes. E onde até cabe uma revisão para "Inquietação" de José Mário Branco. Com a marca instantânea da brasilidade, este trabalho é, isso sim, um dos mais felizes acasos da lusofonia. Que belo ilusionismo de JP Simões, o de nos fazer crer que Chico podia ter nascido em Coimbra. Ou que o clássico Rio de Janeiro também podia ter raízes nas ribas do Mondego. Como a história seria outra, se o calendário contasse este 1970...

The Good, The Bad & The Queen - The Good, The Bad & The Queen

8/10
Virgin Records
2007
www.thegoodthebad
andthequeen.com



Diz-se que o conceito por detrás deste disco era a gravação de um álbum a solo de Damon Albarn. Verdade ou não, os factos confirmam que o novo projecto tem pedigree, independentemente da luminária do álbum ser Albarn, coisa não indiferente à evidência de ele continuar a granjear o reconhecimento da crítica especializada desde a não assumida suspensão dos Blur à explosão mediática dos Gorillaz. A partilhar os louros da porção instrumental de The Good, The Bad & The Queen está gente de nome feito: o baixista Paul Simonon (Clash), o guitarrista Simon Tong (Verve, Blur, Gorillaz) e o percussionista Tony Allen (Gorillaz, Africa 70). Inteiras na sua urbanidade, as canções demarcam-se das órbitas mais recentes do percurso de Albarn, abeirando-se dos padrões melódicos de uma pop sedada pela melancolia e sem espartilhos estruturais. Canções soltas, com denominador comum na placidez e eloquência sonora (vivas à esplêndida produção de Danger Mouse!), fazem de The Good, The Bad & The Queen uma colecção de melodias volantes, menos tangíveis do que o material costumeiro de Albarn mas, nem por isso, menos sedutoras. Depois, há uma subtil transcendência nos ambientes do disco, confirmando duas coisas: que Albarn era um compositor capaz não havia grandes dúvidas (mudos vão ter que ficar os abutres que lhe auguram a débâcle, ainda não é desta...); só faltava confirmar isso além dos Gorillaz e sem os ornatos orelhudos da britpop dos 90's.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Globos de Ouro da HFPA

Foram atribuídos, na madrugada de ontem, os galardões dos globos de Ouro deste ano, consagrando os protagonistas maiores da sétima arte em diversas categorias. Tidos como a antecâmara mais próxima dos Óscares, os Globos distinguiram, os seguintes filmes/personalidades nas categorias principais:



MELHOR FILME - DRAMA Babel
MELHOR ACTOR - DRAMA Forest Whitaker (The Last King of Scotland)
MELHOR ACTRIZ - DRAMA Helen Mirren (The Queen)
MELHOR FILME - COMÉDIA/MUSICAL Dreamgirls
MELHOR ACTOR - COMÉDIA/MUSICAL Sacha Cohen (Borat)
MELHOR ACTRIZ - COMÉDIA/MUSICAL Meryl Streep (The Devil Wears Prada)
MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO Eddie Murphy (Dreamgirls)
MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA Jennifer Hudson (Dreamgirls)
MELHOR REALIZADOR Martin Scorsese (The Departed)
MELHOR ARGUMENTO Peter Morgan (The Queen)
MELHOR BANDA SONORA ORIGINAL Alexandre Desplat (The Painted Veil)

Surpresas maiores da noite, nos prémios de representação masculina, a distinção de Forest Whitaker, em detrimento do super-favorito Leonardo DiCaprio, e de Eddie Murphy, nos desempenhos de suporte, suplantando Jack Nicholson ou Brad Pitt. Nos demais galardões, nada de especialmente inesperado. Babel de Iñárritu foi agraciado com o título de filme do ano, a sublime performance de Helen Mirren foi muito justamente premiada - só espantará mesmo se não juntar o Óscar ao Globo - e Jennifer Hudson, em Dreamgirls, venceu o sprint com Adriana Barraza para a distinção de actriz secundária. Esperemos pelos Óscares mas algumas pistas estão lançadas. Aceitam-se apostas.

Veja a lista completa de premiados, clicando aqui.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Pere Ubu - Why I Hate Women

7/10
Smog Veil
2006
www.ubuprojex.net



Ele já foi foguete das tumbas (quem não se lembra dos Rockets?), nos tempos em que o punk era ainda um embrião e, já então, ensaiava as primeiras marchas do que se convencionaria chamar de pós-punk. Visionário ou alucinado, David Thomas é um bardo polémico e escarnicador, um homem de caneta fria e convulsiva, alguém que se recompensa na proscrição (auto?) infligida por um mundo que não se esforça por decifrar a sua fina ironia. E ele não faz muito por descalibrar essa tendência no 15.º álbum de um percurso cheio de grãos, servindo-nos um concentrado misógino (ou sardónico?) dos seus elementos quintessenciais: a guitarra impura de Moliné, serpeante e sem cambaleios, o sintetizador em órbitas imprudentes, um theremin de estáticas incontinentes, o ruído alcalino e as percussões com princípios de cacofonia e irregularidade temporal sem aviso. Why I Hate Women é a tradução musical da bricolage amadurecida de Thomas, cheia das dissonâncias típicas da suas provetas loucas - que ele faz questão de não considerar experiências, antes o fruto de um sistema criativo prévio - e é, por isso, mais do que um disco de música experimental, um manifesto de uma das mentes mais turvas e inventivas da moderna música americana.

Toumani Diabaté's Symmetric Orchestra - Boulevard de L'Indépendance

8/10
World Circuit
Megamúsica
2006
www.worldcircuit.co.uk



De Toumani Diabaté conhece-se a divisa de embaixador magno da música maliana, particularmente na divulgação além-fronteiras dos sons da kora, por hoje um dos mais simbólicos instrumentos de cordas do património africano. Depois do Grammy ao lado do malogrado Ali Farka Touré, em 2005, o maestro está de volta às gravações, agora na companhia do ensemble idealizado por si. Esta Symmetric Orchestra soma cinquenta e dois elementos, entre instrumentos e vozes, e propõe-se redimensionar as sonoridades coloridas do Mali, emprestando-lhes uma outra amplidão sónica que deriva da combinação entre os sons rústicos dos costumes seculares do Mali (as cordas da kora e do ngoni, as percussões do dundun, do djembé e do sabar, as notas do balafon) e esquissos de modernidade de outras orquestrações contemporâneas (baixos, metais e percussões). A coisa produzida nesse enlace é um som riquíssimo, amplo em variáveis, e um passo adiante na demanda exploratória de Diabaté rumo a esse esforço libertário da música africana que ele iniciou há anos, em busca de a resgatar das suas amarras (geográficas ou temporais) fulcrais. Uma genuína avenida de independência. Para o mundo espreitar.

Jazkamer - Metal Music Machine

7/10
Smalltown Supernoise
AnAnAnA
2006
www.jazzkammer.com



Lasse Marhaug e John Hegre, as duas metades do projecto norueguês Jazzkammer (nesta edição grafado apenas com um "z" e um "m"), levam quase uma década de temerária sonda às extremidades do noise digital. Não causa admiração que, na peugada de outros artífices do género (Tim Hecker, por exemplo) que, nos tempos mais recentes, se deram à proximidade com algumas variantes do metal, os dois escandinavos tenham recrutado para este retorno alguns nomes sonantes desse movimento, mormente o guitarista/teclista Ivan Bjornson (Enslaved), o baterista Iver Sandoy e o guitarrista Olav Kristiseter (ambos dos Manngard). O desenlace é um feliz pacto entre o metal negro e extremo, em diversos galopes, e a feição emocional do experimentalismo típico da sigla Jazkamer. Embora a primeira dessas substâncias pareça prevalecer, a ponto de Metal Music Machine ser mais um disco de sons com peso do que propriamente um exercício de experimentação sónica, há nas entrelinhas das cinco peças do alinhamento o quinhão decisivo para destrinçar este álbum de outros: as costuras a noise digital. É também essa a inscrição (indispensável) de Marhaug e Hegre neste monumento de metal depurado nas máquinas, a que assenta como uma luva o título roubado a Lou Reed.

sábado, 13 de janeiro de 2007

LCD Soundsystem - 45:33

8/10
iTunes, Outubro 2006
Electrónica
www.lcdsoundsystem.com
www.nike.com/nikeplus



Falar de 45:33 impõe um esclarecimento prévio. A peça foi encomendada a James Murphy pela Nike, no âmbito de um programa desenvolvido em conjunto com a Apple e que combina o célebre iPod com um sensor devidamente instalado nos ténis, para a monitorização do jogging dos utilizadores. Concebido o interface tecnológico para a transmissão dos dados sobre calorias queimadas, distâncias percorridas e afins, faltava juntar música às corridas. Aí entra 45:33. Música para correr, portanto. Não estranha a afinidade rítmica da sigla LCD Soundsystem com esse propósito. Já se conheciam os meneios estéticos e as cadências de Murphy, coisas utílissimas para musicar a dinâmica de uma corrida, e que se juntam peculiarmente neste mix. E a combinação não podia ser mais sumarenta, em sucessivas mutações entre estilos (house, disco, funk), ao jeito de uma caleidoscópica colecção de sons. O cardápio LCD completo, para ajudar a entender a estoiro mediático recente de Murphy. E 45:33 é música singularmente cinética, o propulsor certo para tornar o jogging menos custoso para o praticante ocasional e, ao mesmo tempo, nos mostrar como se faz um set transversal às várias escolas de música dançante, num único trecho, sem soar pretensioso e sem escorregar para a monotonia. Garantia irrevogável: 45:33 é o melhor acompanhamento para uma corridinha solitária e deixa água na boca para o novo LCD Soundsystem que está aí à porta...

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Califone - Roots & Crowns

7/10
Thrill Jockey
2006
www.thrilljockey.com



Os Califone são um dos mais suculentos paradoxos da moderna música americana. Devotos sem beatice da música isenta de regras, o coleccionismo de sons é o seu sustento, ao jeito de uma imprevisível (e anacrónica) parafernália de coordenadas, bem além da esperada filiação aos mais autóctones sons. À falta de melhor definição, dir-se-ia que Roots & Crowns propõe um refinamento das demarcações da folk nativa americana, oferecendo-lhe nacos de audácia experimentalista, o alarde de ruídos acidentais e a esporádica veste da electrónica. Da mescla, sempre adornada com detalhes instrumentais preciosos (pianos, samples, marimbas e cordas), flui uma massa sonora de contrastes, entre a simplicidade e o dédalo, o revivalismo e a mira no amanhã, a transparência e a turvação. Acima disso, Roots & Crowns é música para nos determos a degustar (dá para não parar "A Chinese Actor"?) e, com isso, descobrir a muito consistente maturação estética de um dos mais subestimados colectivos do cardápio da folk moderna. Tão temerária quanto a folk pode ser. Ou, dito doutra forma, Roots & Crowns, mesmo com o pecadilho mínimo de uma certa discórdia estrutural entre algumas faixas, é música folk para quem não vai muito à bola com o género.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Peter Bjorn and John - Writer's Block

8/10
Wichita
V2
2006
www.peterbjornandjohn.com



Eles são três moços suecos e chegam (finalmente) a alguma notoriedade, depois de dois álbuns subvalorizados pelos circuitos da música indie. Tal promoção deve-se, em grande parte, ao hype crescente que foi, paulatinamente, conquistado pelo terceiro registo do trio. Dir-se-ia que, numa penada, estes escandinavos abraçam um espectro sonoro de alcance histórico lato. Na primeira linha das influências, como se percebe logo nas primeiras audições, está a pop limpa e jovial dos 60's, de simplicidade estética e alguma exuberância vocal. A par dessa evidência, o disco parece acatar outras coordenadas: as guitarras simbólicas do shoegaze são substância sóbria e dominante, sempre reverberantes e melódicas; depois, a translucidez casual de pozinhos de electrónica minimalista alude a paisagens sónicas mais delicadas. Tudo junto, umas vezes com mais originalidade ("Young Folks" é eixo decisivo para comparações, com a voz convidada de Victoria Bergsman, dos conterrâneos Concretes) do que noutras, Writer's Block está muito bem escrito e arrumado. Por isso, além do rótulo de ode ao amor, também lhe assentam bem as vestes de um dos melhores produtos pop de 2006.

KTL - KTL




A junção de Peter Rehberg (aka Pita), artífice da electrónica extremista, ao cada vez mais influente mestre do doom Steven O'Malley (dos Sunn O))) e Khanate) não era coisa para assentar nas conjecturas mais imediatas da comunidade melómana. Contudo, apesar das evidentes distâncias entre os estratos noise doom cultivados por ambos, há em KTL uma estranha simetria de princípios: de um lado, os enunciados de electrónica aguda e de baixa frequência de Rehberg, de decibel pungente e penetrante; do outro, os fraseados estridentes da guitarra de O'Malley, ora colados ao registo drone típico do músico, ora diluídos em inscrições mais pontuais e elásticas, sem prejuízo do peso dramático e dos tons lancinantes. Um nadinha mais próximo da órbita de corrosão lenta de O'Malley, é todavia, reconhecível, em KTL, o experimentalismo digital do seu parceiro austríaco, matéria essa que sugere outros ângulos às tendências monocórdicas da guitarra, somando-lhe quebras e indecisões. Estruturalmente impressivo, este tomo testa caminhos diferentes para o doom e, nesse sentido é, mais do que uma colaboração esporádica entre dois músicos relevantes, uma escuta recomendada para vanguardistas e adeptos de produtos musicais híbridos.

Beach House - Beach House

6/10
Carpark Records
Sabotage
2006
www.beachhousemusic.net



O debute em disco da dupla Alex Scally (guitarrista) e Victoria Legrand (organista e voz) é, acima de tudo, um desafio esotérico. A guitarra volante leva-nos a um universo de ficções e assombros precários, de pulso errante e formas vagas, ao jeito dos mais primários assomos de exaltação do incorpóreo. Depois, a voz e o orgão alinham-se na mesma órbita, divagantes e numa (metafórica) languidez que, se a mais não serve, reforça a feição nostálgica de valsas subliminarmente barrocas (no estilo e no modelo) a que apenas se contrapõe o relativo formulismo, coisa penalizadora da experiência de escutar o disco de uma ponta à outra. Esquecido esse detalhe (importante), ainda assim se descobrem afeições com Beach House, mormente no mágico escapismo das flutuações melódicas vocais de Legrand, afinal o activo maior do álbum, e na cativante letargia de uma pop pouco assumida e que se alimenta da modéstia instrumental e da alvura. Quietude e sonho de mãos dadas, num disco místico e que, a despeito da importunidade de uma certa constância formal, consegue dar-nos um ou outro instante de aprazimento. Esperam-se novos capítulos da dupla de Baltimore.

domingo, 7 de janeiro de 2007

Vídeo de J Dilla



Magnífico vídeo de "Nothing Like This", em jeito de homenagem póstuma.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Bernardo Sassetti - Unreal: Sidewalk Cartoon

8/10
Clean Feed
2006
www.cleanfeed-records.com



Ao segundo capítulo de uma trilogia consagrada à feição imagética da música (o primeiro havia sido Ascent, lançado em 2005), o pianista Bernardo Sassetti fez algo mais do que uma mera obra discográfica. Unreal é um conceito pensado em dimensões várias, além do óbvio estímulo da arte principal (a música), a edição contém um livro e foi pensada para apresentação pública em formato multimédia, com projecção de vídeos. Ora, de música cogitada sob estas premissas é de esperar um envolvimento simbólico expressivo e a colagem às sugestões de órbita que derivam do texto humorado e surrealista de suporte; é através da música de Sassetti que melhor se reproduzem as imensas possibilidades de concretização da narrativa, insinuadas em simultâneo na mente e nas sucessões rítmicas dos trechos. Aí, é oportuníssimo o subsídio da percussão dos Drumming, das marimbas e vibrafones, a dividir o palanque com os acordes precisos da verve de Sassetti, precioso como sempre, e dos costumeiros Alexandre Frazão e José Salgueiro. E ainda há o saxofone de Perico Sambeat. E duas faixas emprestadas, de Monk e de Félix Reina. Música para ouvir e pensar. E, já agora, espreitar a apresentação ao vivo de um dos mais estimulantes momentos do jazz(?) português dos últimos tempos, pela mão de um dos seus mais insignes embaixadores.

Bonobo - Days to Come

6/10
Ninja Tune
2006
www.bonobomusic.com



Ele despontou para o mediatismo em plena era de afirmação das sonoridades chill out e, desde a edição de Animal Magic (2001) tem estado na berra do pelotão nu jazz. Embora hoje se tenha esbatido um pouco a relevância de um género musical que, consumida a auréola da novidade, poucos abalos tem trazido à cena discográfica além da moda de animar ambientes de bar, Simon Green é um dos escassos exemplos de inventores desta estirpe de som que ainda conseguem produtos válidos. Days to Come é um disco leve, guarnecido com sabores jazzy de várias origens e beats pouco agitadas, coisa comum ao catálogo Ninja Tune; é notório que, ao terceiro trabalho, Green juntou mais voz à sua matriz (as entoações soul de Bajka são uma ajuda preciosa) e isso reforça os predicados estruturais das composições. A despeito disso e do equilíbrio da soma final, Days to Come raramente se acerca da transcendência e, talvez injustamente para Green, as suas debilidades são as mesmas que decorrem do desgaste de uma sonoridade que é mais útil a ambientar espaços insonoros (nisso, sai-se a contento) do que a espicaçar melómanos sequiosos de novos estímulos.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Balanço do ano

Mais um ano se finda, mais uma temporada de balanços se infiltra nas mentes melómanas aficionadas destas coisas de alinhavar listas dos melhores produtos discográficos dos últimos trezentos e sessenta e cinco dias. Conclusão necessariamente subjectiva e redutora, a escolha é uma mera indicação, a pista que deve servir de luminária para rever ou descobrir alguns dos factos mais meritórios do ano que agora termina, guardando-se a ressalva de que as coisas não se fecham aqui e que, inevitavelmente, outros discos mereceriam menções e encómios. Feita a emenda, deitemos olhos (e ouvidos) ao que de melhor se revelou na música de 2006.

Como sempre, o mercado norte-americano esteve particularmente dinâmico, merecendo nota de destaque o regresso (e o crescimento artístico) da sensação Joanna Newsom, novo símbolo da freak folk que, refinando conceitos em favor de composições com um corpo orquestral mais sólido, se afirma definitivamente como um dos símbolos das novas vagas da música americana. Se Newsom nos trouxe um pedaço do paraíso, houve quem nos mostrasse o assombro mágico da abstracção. Scott Walker, figura enigmática dos cancioneiros de vanguarda, presenteou-nos com uma obra de proporção majestosa, mais um capítulo na empenhada reconstrução de formatos que o músico vem ensaiando desde Tilt (1995). Também nos E.U.A., o projecto Man Man, bizarro ensemble liderado por Honus Honus, mostrou-nos as várias caras do experimentalismo, nos antípodas da música convencional, com um disco excêntrico e da mais pura genialidade. A mesma fonte de inspiração iluminou os Liars e a sua (re)visão artística sobre os paradigmas da pop; com o terceiro álbum, o mais conceptual do seu percurso, eles somaram três instantes incontornáveis da música contemporânea. Ainda por terras do tio Sam, uma palavra para outras edições com méritos firmes. O duo rap Clipse que, com produção da sigla Neptunes (Pharrell não dorme), fez com Hell Hath No Fury um dos ápices do ano. Numa linha diferente, mas com algum alento rap, Doseone e os seus Subtle ofereceram-nos um tomo ecléctico e que fez as delícias dos adeptos do experimentalismo ao serviço de várias escolas, do rock à electrónica progressiva. Nos sons com mais peso, os Mastodon confirmaram o que deles se esperava, dando novo fôlego ao metal progressivo, e os Comets on Fire não deixaram os créditos em mãos alheias. Distorções num, psicadelismo no outro, dois álbuns a escutar de tímpano alerta. A surpresa inesperada do ano foi a revelação do jovem Zach Condon e do conceito Beirut. Sons do mundo mascarados de folk americana, numa colecção de cores pouco comum e que merece a pena destapar lentamente. E Tom Waits andou por aí.

Um pouco mais a norte, no Canadá, os Sunset Rubdown (de Spencer Krug, dos Wolf Parade) construíram uma preciosidade súbtil, um delírio barroco para animar a malta pop. Entretida a caterva pop, coube aos conterrâneos Junior Boys puxar para as pistas de dança as heranças do synth pop dos 80's. Porque a nostalgia também pode ser moderna. E Tiga estava ali ao lado.

Do outro lado do Atlântico, ganhou tamanho o fenómeno dubstep. Da clandestinidade londrina, saltaram duas obras incontornáveis para curiosos de um som mecânico e inquietante. Burial, primeiro, e Kode9, depois (com mais brilhantismo), abriram-nos o pórtico para um futuro incerto, resignado à depressão urbana mas com força para fantasiar veredas inauditas de uma electrónica fracturada, sem tempo e espaço e que, por isso mesmo, define paradigmas novos, sem amarras. Também na Europa, embora num registo díspar, a cena berlinense fez-se representar na electrónica borbulhante do trabalho conjunto de Ellen Allien com o projecto Apparat. Contestação IDM com um rasgo de sensualidade. Da Escandinávia, chegou-nos o grito silencioso da máquina electrónica dos The Knife, também ela um cicerone de um porvir pejado de corantes electrónicos. Ainda na órbita sintética, Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, divertiu-se com os sintetizadores e abriu espaço para especulações sobre as ideias vindouras da sua banda. No capítulo das revelações, também Londres nos trouxe uma iguaria inesperada. Chamam-se Guillemots, são um quarteto multinacional e fizeram um tomo de pop idealista. Coisa para ouvir e esperar por confirmações.

Cá no burgo, de tudo um pouco. Do esperado regresso de Sérgio Godinho (em ano de retorno de Bob Dylan, Bert Jansch ou Chico Buarque), da Brigada Victor Jara e dos Dazkarieh, à confirmação dos talentos dos Dead Combo ou de Paulo Furtado (The Legendary Tiger Man), o ano esteve activo. Um novo trabalho de Carlos Bica é sempre um acontecimento, Sassetti e Laginha não estiveram parados, os Gaiteiros de Lisboa juntaram mais um capítulo precioso ao cancioneiro nacional e Sam the Kid escreveu o melhor que o hip hop português já escutou. Entre confirmações e revelações, saltam os nomes do organista Samuel Jerónimo, dos Linda Martini, de Nuno Prata, de Armando Teixeira (Balla), dos matosinhenses Stowaways, dos vanguardistas Sei Miguel e Rafael Toral.

Assim se fez música em 2006.

Internacional

1. Kode9 + The Spaceape, Memories of the Future
2. Joanna Newsom, Ys
3. Scott Walker, The Drift
4. Clipse, Hell Hath No Fury
5. Man Man, Six Demon Bag
6. Danielson, Ships
7. The Knife, Silent Shout
8. Subtle, For Hero: For Fool
9. Mastodon, Blood Mountain
10. Liars, Drum's Not Dead



Nacional

1. Stowaways, Huntclub
2. Gaiteiros de Lisboa, Sátiro
3. Dead Combo, Quando a Alma Não é Pequena, Vol. II
4. Bernardo Sassetti, Unreal: Sidewalk Cartoon
5. Sei Miguel, The Tone Gardens
6. Balla, A Grande Mentira
7. Mário Laginha, Canções e Fugas
8. The Legendary Tiger Man, Masquerade
9. Sérgio Godinho, Ligação Directa
10. Carlos Bica & Azul, Believer


Veja a lista completa dos 30+ clicando aqui.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Novidades em breve

Após o hiato de alguns dias sem notícias, ora por obra e graça da azáfama da quadra festiva, ora por imposição de outras obrigações profissionais, o apARTES voltará a ter novidades muito em breve. O balanço do ano discográfico está aí à porta e será publicado nos próximos dias. Além disso, assim o tempo o permita, o blog será alvo de uma remodelação gráfica a curto prazo, de forma a que se torne mais ágil e fácil de consultar pelos utilizadores do costume.

Aguardem por novidades em breve.
A todos, deixam-se os votos de continuação de uma quadra festiva feliz.
Obrigado.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Clipse - Hell Hath No Fury

Apreciação final: 8/10
Edição: Star Trak, Novembro 2006
Género: Gangsta Rap
Sítio Oficial: www.clipseonline.com








Apadrinhados por Pharrell Williams, os irmãos Malice e Pusha T fazem a dupla Clipse. Foi pela mão de Pharrell (e da marca Neptunes, dividida com Chad Hugo) que deram os primeiros passos no orbe hip-hop, quando, há quatro anos, se estrearam com Lord Willin'. A proximidade com os Neptunes é coisa mantida no regresso e, desta vez, a fórmula traz vantagens acrescidas. O trabalho sintético de beats, se soava algo desconforme em alguns momentos do debute, em razão da formatação mais pop dos Neptunes, é mais preciso em Hell Hath No Fury. Com efeito, naquilo que, no antecessor, se percebia um desajuste subliminar entre a temática do disco (drogas, o que havia de ser?) e algumas das afinações instrumentais, a ponto de o discurso nem sempre se sentir cómodo na almofada, Hell Hath No Fury vence. Não se corrompeu a estima pop dos Neptunes, ela está cá, mas foi moldada com outro rigor às prelecções dos manos Thornton e, daí, sobra o sangue-frio dos textos. A aliança é tão simbiótica quanto podia ser, sublinhando as construções místicas e enleantes das melodias de suporte, algo sinistras, por vezes, e espaciais, noutros momentos. A congruência do pacto entre os Thorntons e os Neptunes é uma constante no alinhamento do disco, com generosas combinações entre os vocais, as beats e os sons sintéticos de suporte, ao jeito da magnífica "Wamp Wamp (What It Do)" (com Slim Thug). É, de resto, no acondicionamento e na produção dos jogos tonais dos trechos que reside a chave da atracção do disco, coisa que nem se perde nos ápices mais radio friendly de Hell Hath No Fury, como em "Dirty Money" ou na à la Gorillaz "Hello New World". Nada aqui soa a concessão, isto é hip-hop de verve e dissecá-lo aos pormenores é perceber um clássico atestado de números técnicos preciosos, factos para esmiuçar lentamente em audições sucessivas.

Com uma dúzia de canções, Hell Hath No Fury é uma cópia sonora das certezas de uma realidade austera, onde os heróis-vilões vendem coca a granel, ostentam a sua riqueza e, por entre balas perdidas, guardam o remorso para a mãe. As rimas são agrestes e cáusticas, moralmente corruptas, mas que importa isso quando o discurso é servido com tamanha consistência e inventividade? Pusha T e Malice não criaram este mundo, são da sua prole e não pedem desculpas. Hell Hath No Fury não é exercício redentor, é antes uma atípica confissão. E assim irregular é também a produção visionária dos Neptunes, acrescentando ao álbum o justo complemento de experimentalismo. O resultado final é um dos mais lustrosos ensaios hip-hop do ano.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Spektrum - Fun at the Gymkhana Club

Apreciação final: 8/10
Edição: Nonstop Records, Novembro 2006
Género: Punk Funk/Electrónica
Sítio Oficial: www.spektrum.co.uk








O surgimento dos londrinos Spektrum no universo da música dançante do Reino Unido, há dois anos, tinha-nos deixado de sobreaviso sobre o engenho do quarteto no governo da micro-electrónica. Ao segundo álbum de originais, estes quatro confirmam o que deles se esperava, trazendo-nos um disco um pouquinho mais maduro que o antecessor, mormente na sua porção instrumental, ainda minimalista mas mais resoluta a bordar justaposições com os padrões clássicos do disco sound ou com o electro-rock mais fresco. Talvez por isso, Fun at the Gymkhana Club marca tangentes com referências temporais distintas, atravessando três décadas de sonoridades dançantes e mesclando-as, com perícia, numa solução moderna. Depois, há a voz da nigeriana Lola Olafisye, já comparada a Grace Jones, voluptuosa e salgada, também ambígua nas torceduras com que deriva dos agudos glaciais ao sussurros quentes, usando, de permeio, um registo de rebeldia cativante. O pêndulo dos ritmos do quarteto é o russo (sim, estão sediados em Londres mas nenhum dos membros é inglês…) Gabriel Olegavich, homem de nome feito no grime londrino e maestro das beats do álbum. Também aí se nota uma sublimação das impressões do trabalho de debute, graças ao aprofundamento dos propósitos punk funk (que são a imagem de marca dos Spektrum) e ao acrescento de alguns códigos novos. Eles não se ficam pela mímica revivalista, gostam de baralhar o caleidoscópio rítmico do álbum, propondo-nos um som que repesca o atrevimento criativo com que as Slits apanharam desprevenida a década de 70 e, ainda mais notoriamente, a marcha controversa dos nova-iorquinos ESG, e juntando-lhe matizes modernas, algum psicadelismo e precisão técnica.

Fun at the Gymkhana Club pode ainda não ser o zénite dos Spektrum mas vem confirmar, a despeito de uma ou outra minudência deslocada, o crescimento conceptual da música do quarteto londrino. A manter-se esta tendência evolutiva e solidez, além de reforçarem o seu estatuto de objecto de culto de uma minoria (a alargar) mais atenta ao fenómeno da música de dança (entre os fãs deles estão símbolos relevantes como Richie Hawtin, Andrew Wetherall, Tom Findlay e James Murphy), os Spektrum caminharão para se tornarem figura de proa do movimento no Reino Unido. E na Europa. Já assim se prevera depois do disco de estreia, agora se confirma. Bizarrias, vocais sobrepostos, truques digitais e uma dose generosa de criatividade são as substâncias por detrás da aparente modéstia das composições. Fun at the Gymkhana Club é música de dança para degustar a vários galopes. E descobrir que o som dos Spektrum é tão puro-sangue quanto os equídeos do Club Gymkhana.

Posto de escutaAmostras do álbum

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Stowaways - Huntclub

Apreciação final: 8/10
Edição: Transformadores, Outubro 2006
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.myspace.com/stowawayshuntclub








O split CD que os Stowaways lançaram, há três anos, com os Alla Polacca tinha sido um aperiente capaz de excitar a curiosidade dos melómanos pela sua música. Os matosinhenses vinham de vencer o festival Termómetro Unplugged (2001) e arriscavam os primeiros passos nas lides discográficas, com composições invulgarmente sólidas para um ensemble debutante, passando de través os diversos idiomas da folk-pop, num registo ambivalente a ponto de soar anacrónico (mormente na porção instrumental dos trechos) e moderno, em simultâneo. Coisa rara essa, de cruzar com propriedade sensações oriundas de intervalos temporais diversos e, com isso, combinar uma arquitectura de sons indiferente às fatalidades do calendário. Assim prometiam os Stowaways, assim se revalidam no primeiro longa duração. Huntclub retém essa delícia retro, coisa imediatamente audível nos primeiros acordes da faixa instrumental que abre o disco e que se estende às dezasseis canções do alinhamento. Daí em diante, nada menos do que um recatado passeio de recreio por um bizarro orbe de influências, desde sons que nos trazem o irónico imaginário de uma fita de Fellini (como se diz, e bem, no press release), de ruas antigas e escuras, ou mesmo dos fumos de cabaret da Paris de antanho, aos tons do realejo de um tocador de rua, a musicar as pantomimas de um pequeno símio, ou a toada sonora que dá a cadência a um malabarista de circo. A essa panóplia de imagens sobrepostas, juntam-se embalos do outro lado do atlântico, bossas novas e mariachis, também a musette dos acordeões franceses, o teatralismo das comédias vaudeville e algumas gotas de piano jazz. A arrumação é feita pelos vocais certíssimos de Nuno Sousa (quando as faixas não são instrumentais) e pela precisão acústica dos arranjos e da produção.

Huntclub é um trabalho maduro de uma banda que é, cada vez mais, um caso sério da nova música lusa. Se o tal split com os Alla Polacca nos tinha deixado em pulgas por um seguimento, agora que ele chegou, percebemos que a expectativa não foi em vão. Escorreito como poucas edições deste ano, Huntclub comprova o crescimento dos Stowaways, firmes na fidelidade (eles dizem-se casmurros...) a uma estética condimentada por sons de várias latitudes e que, raramente com esta consistência, se escuta cá no burgo. Quando instada a classificar-se a si mesma e o seu som, a banda recorre, entre outras expressões, ao epíteto de "marialvas deprimidos/oprimidos em valsas para crocodilos e marchas para pés-de-chumbo". Quanto ao pé pesado, talvez Huntclub não opere milagres. Mas, seguramente, ao escutar estes sons, nem o réptil anfíbio chorará, nem os marialvas se arruinarão na sua depressão.

Posto de escutaMySpace

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Subtle - For Hero: For Fool

Apreciação final: 8/10
Edição: Astralwerks, Outubro 2006
Género: Experimental Rap/Underground
Sítio Oficial: www.subtle6.com








Essencialmente reconhecido, desde as primeiras audições, como um produto híbrido, importa recuar às origens de For Hero: For Fool para perceber de que é feita a nascente de criatividade do projecto Subtle. Os mentores são os americanos Adam Drucker e Jeffrey Logan, citados no universo artístico como Doseone e Jel, respectivamente, aqui num convívio criativo com Dax Pierson (recentemente imobilizado por um acidente de viação e ajudante do par nos Themselves e nos 13&God, ensemble conjunto com os germânicos Notwist) e outros três compinchas (o violoncelista Alexander Kort, o multi-instrumentista Marty Dowers e o percussionista/guitarrista Jordan Dalrymple). Dos dois primeiros, além de trajectos individuais algo descontínuos, conhecem-se os conceitos Anticon e Themselves e a afinidade com os seminais cLOUDDEAD (Drucker), corolário incontornável da cena underground rap. São estas coordenadas que situam os horizontes de For Hero: For Fool, com o rap a servir de medidor de azimutes, mas sempre disposto a intersecções com outras escolas, guardando virtudes de todas. É assim que se constrói um disco de eclectismo raro, com uma alma genuinamente indie e uma roupagem densa. Coeso e com critério formal na mescla de estilos, o álbum agarra, numa penada, a substância de um hip-hop de medidas largas, festivo e enérgico, e dá-lhe cor com as matizes de um electro-rock de passo mexido, roçando um sentido de urgência que apenas não se sente quando, sem deslizar para o cliché, os trechos tocam o refrãozinho pop. Além do soberbo contexto instrumental dos trechos, sobra a pirotecnia das cordas vocais de Doseone; umas vezes, conforme os cânones hip-hop mais clássicos, é nos momentos em que a voz de Doseone se vira do avesso que melhor se percebe a sua importância no produto final. A sofisticação da porção instrumental do disco, na linha do anterior trabalho da senha Subtle, não teria o mesmo alcance sem os malabarismos vocais de Doseone, decididamente mais estremados do que antes e com um encaixe rítmico algo alheado do torpor (intencional) que se lhe ouve nos cLOUDDEAD. A excentricidade instrumental dos Subtle, coisa que pode ser confundida com uma algazarra de sons de esqueleto beats, é o sedimento infalível para a verve de Doseone.

For Hero: For Fool não é disco de órbita única, nem de época alguma. É, isso sim, um esforço visionário de experimentalismo que, em razão de uma dinâmica de variações incessantes, se revela um produto fértil em atmosferas e, mais do que isso, sacia apetites modais com emoções díspares. Sem parênteses e com criatividade a rodos. Pouco importa se o disco é estruturalmente discrepante quando visto (e ouvido) como peça inteira - no sentido de que cada trecho é um mundo distinto - uma vez que as composições, de per si, são tão abundantes em ideias que merecem descodificação individual. Os Subtle têm um som próprio (sublimado em For Hero: For Fool), cheio de electrónica progressiva, psicadelismo, algum rock e muito rap. Por essas e por outras, vale a pena escutar um dos grandes discos do ano.