Como sempre, o mercado norte-americano esteve particularmente dinâmico, merecendo nota de destaque o regresso (e o crescimento artístico) da sensação Joanna Newsom, novo símbolo da
freak folk que, refinando conceitos em favor de composições com um corpo orquestral mais sólido, se afirma definitivamente como um dos símbolos das novas vagas da música americana. Se Newsom nos trouxe um pedaço do paraíso, houve quem nos mostrasse o assombro mágico da abstracção. Scott Walker, figura enigmática dos cancioneiros de vanguarda, presenteou-nos com uma obra de proporção majestosa, mais um capítulo na empenhada reconstrução de formatos que o músico vem ensaiando desde
Tilt (1995). Também nos E.U.A., o projecto Man Man, bizarro
ensemble liderado por Honus Honus, mostrou-nos as várias caras do experimentalismo, nos antípodas da música convencional, com um disco excêntrico e da mais pura genialidade. A mesma fonte de inspiração iluminou os Liars e a sua (re)visão artística sobre os paradigmas da
pop; com o terceiro álbum, o mais conceptual do seu percurso, eles somaram três instantes incontornáveis da música contemporânea. Ainda por terras do tio Sam, uma palavra para outras edições com méritos firmes. O duo
rap Clipse que, com produção da sigla Neptunes (Pharrell não dorme), fez com
Hell Hath No Fury um dos ápices do ano. Numa linha diferente, mas com algum alento
rap, Doseone e os seus Subtle ofereceram-nos um tomo ecléctico e que fez as delícias dos adeptos do experimentalismo ao serviço de várias escolas, do
rock à electrónica progressiva. Nos sons com mais peso, os Mastodon confirmaram o que deles se esperava, dando novo fôlego ao
metal progressivo, e os Comets on Fire não deixaram os créditos em mãos alheias. Distorções num, psicadelismo no outro, dois álbuns a escutar de tímpano alerta. A surpresa inesperada do ano foi a revelação do jovem Zach Condon e do conceito Beirut. Sons do mundo mascarados de
folk americana, numa colecção de cores pouco comum e que merece a pena destapar lentamente. E Tom Waits andou por aí.
Um pouco mais a norte, no Canadá, os Sunset Rubdown (de Spencer Krug, dos Wolf Parade) construíram uma preciosidade súbtil, um delírio barroco para animar a malta
pop. Entretida a caterva
pop, coube aos conterrâneos Junior Boys puxar para as pistas de dança as heranças do
synth pop dos 80's. Porque a nostalgia também pode ser moderna. E Tiga estava ali ao lado.
Do outro lado do Atlântico, ganhou tamanho o fenómeno
dubstep. Da clandestinidade londrina, saltaram duas obras incontornáveis para curiosos de um som mecânico e inquietante. Burial, primeiro, e Kode9, depois (com mais brilhantismo), abriram-nos o pórtico para um futuro incerto, resignado à depressão urbana mas com força para fantasiar veredas inauditas de uma electrónica fracturada, sem tempo e espaço e que, por isso mesmo, define paradigmas novos, sem amarras. Também na Europa, embora num registo díspar, a cena berlinense fez-se representar na electrónica borbulhante do trabalho conjunto de Ellen Allien com o projecto Apparat. Contestação IDM com um rasgo de sensualidade. Da Escandinávia, chegou-nos o grito silencioso da máquina electrónica dos The Knife, também ela um cicerone de um porvir pejado de corantes electrónicos. Ainda na órbita sintética, Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, divertiu-se com os sintetizadores e abriu espaço para especulações sobre as ideias vindouras da sua banda. No capítulo das revelações, também Londres nos trouxe uma iguaria inesperada. Chamam-se Guillemots, são um quarteto multinacional e fizeram um tomo de
pop idealista. Coisa para ouvir e esperar por confirmações.
Cá no burgo, de tudo um pouco. Do esperado regresso de Sérgio Godinho (em ano de retorno de Bob Dylan, Bert Jansch ou Chico Buarque), da Brigada Victor Jara e dos Dazkarieh, à confirmação dos talentos dos Dead Combo ou de Paulo Furtado (The Legendary Tiger Man), o ano esteve activo. Um novo trabalho de Carlos Bica é sempre um acontecimento, Sassetti e Laginha não estiveram parados, os Gaiteiros de Lisboa juntaram mais um capítulo precioso ao cancioneiro nacional e Sam the Kid escreveu o melhor que o
hip hop português já escutou. Entre confirmações e revelações, saltam os nomes do organista Samuel Jerónimo, dos Linda Martini, de Nuno Prata, de Armando Teixeira (Balla), dos matosinhenses Stowaways, dos vanguardistas Sei Miguel e Rafael Toral.
Assim se fez música em 2006.
Internacional
1. Kode9 + The Spaceape, Memories of the Future2. Joanna Newsom,
Ys3. Scott Walker,
The Drift4. Clipse,
Hell Hath No Fury5. Man Man,
Six Demon Bag6. Danielson,
Ships7. The Knife,
Silent Shout8. Subtle,
For Hero: For Fool9. Mastodon,
Blood Mountain10. Liars,
Drum's Not DeadNacional
1. Stowaways, Huntclub2. Gaiteiros de Lisboa,
Sátiro3. Dead Combo,
Quando a Alma Não é Pequena, Vol. II4. Bernardo Sassetti,
Unreal: Sidewalk Cartoon5. Sei Miguel,
The Tone Gardens6. Balla,
A Grande Mentira7. Mário Laginha,
Canções e Fugas8. The Legendary Tiger Man,
Masquerade9. Sérgio Godinho,
Ligação Directa10. Carlos Bica & Azul,
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