quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Field Music - Tones of Town

8/10
Memphis Industries
2007
www.field-music.co.uk



Pouca gente terá notado, mas estes rapazes editaram um disco em 2005. O azar deles foi a bicefalia desse ano no nordeste britânico, na época em que os suspiros dos melómanos ingleses se fixavam no impacto dos Futureheads ou dos Maximo Park. Para repôr a justiça universal, chega agora o segundo tomo dos Field Music. Se o debute homónimo havia conseguido uma agradável impressão, trazendo à memória ápices de melodias mais amistosas dos XTC, a sequela não se limita a isso, a começar na elasticidade das texturas de revestimento das canções. Os instrumentais são um altar de sons a exaltar o cerne fundamental da equação sónica do colectivo britânico: as cordas. A guitarra é a substância maior, quase sempre em serviço progressivo, mas há outras matérias de adopção, como breves trechos de pop de câmara (embora menos se notem as referências Beach Boys do primeiro disco) ou bosquejos vanguardistas. Tamanha complexidade torna o som dos Field Music menos imediato mas, ainda que com uma ou outra hipérbole pelo meio, resultado do método tentativa-erro que tão bons resultados dá com a filigrana deles, Tones of Town é um manifesto oportuníssimo.

Norah Jones - Not Too Late

6/10
Blue Note
2007
www.norahjones.com



Ao terceiro álbum, Norah Jones decidiu dar-nos o mais pessoal dos seus registos. Ao contrário do par de álbuns antecessores, Not Too Late é inteiramente feito de canções originais, assinadas a meias com o parceiro Lee Alexander e gravadas no seu estúdio caseiro. Volvidos quatro anos da súbita promoção ao estrelato, é mais do que natural esse impulso regenerador de uma jovem protagonista que, chegada aos píncaros, ensaia agora passadas diferentes para o seu trajecto. Sem o amparo do esplêndido contributo do produtor Arif Mardin, falecido no último Verão, as canções de Not Too Late, ainda que conservando o encanto sedoso da voz, parecem estruturalmente menos aconchegantes, em resultado de uma produção mais despojada e voltada para a experiência. Nesse sentido, o álbum revela um certo desprendimento em relação ao passado recente e mostra uma dupla à procura de outros estímulos ("Sinkin' Soon" - pesca nas conjugações Waits - e "My Dear Country" são os exemplos mais notórios) mas que, em última análise e a despeito da utilidade dessa intenção, não se aparta decisivamente dos usos recentes e, pior do que isso, não chega a captar-lhes o fascínio essencial.

Kristin Hersh - Learn to Sing Like a Star

8/10
Yep Roc
2007
www.throwingmusic.com



A gravilha na voz é coisa genética de Kristin Hersh e tem sido, entre outras minudências, uma das armas de arremesso da massa crítica do fenómeno musical, sempre renitente em aceitá-la como cantora na acepção literal da palavra. A fina ironia no baptismo do novo opus é a réplica subtil de Hersh ao cepticismo de quem olha para ela e esquece que já conta mais de duas décadas de gravações, desde os tempos dos consistentes Throwing Muses. Mas a ironia vai mais longe. Os acordes de Learn to Sing Like a Star são um cenário de emoções cruas para as palavras, tão impulsivas quanto a timbre usual de Hersh, assentes numa medula rock gerada no feliz encontro entre a melodia acústica e frágil e o abalo amordaçado da electricidade. Com arranjos resolutos, pianos, violinos e violoncelos. Depois, a simbiose entre os ambientes do disco e o canto inquietante de Hersh é do melhor que se escutou no percurso da autora, confirmando retoques preciosos nas suas aptidões criativas. Por essas e outras, Hersh nem precisa de cantar como uma estrela. Afinal, a voz dela tem mais sumo assim empoeirada.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

The Partisan Seed - Visions of Solitary Branches

8/10
Transporte de Animais Vivos
2007
www.honeysound.com



Quando se soube que, depois de Fantôme Intro das Waltz (2003), um dos mais inspirados trabalhos de estética alternativa alguma vez feitos cá no burgo, o colectivo Kafka se extinguiu, podia adivinhar-se que Filipe Miranda não fecharia aí a loja. Havia (e há) no mentor e vocalista da banda barcelense um talento raro para escrever hinos da melancolia e canções de honestidade arrepiante. Essa faceta é ainda mais sentida em Visions of Solitary Branches, uma colecção de composições espartanas, instrumentalmente frugais e construídas em torno da voz. Os sons que a suportam, sejam do esqueleto de guitarra (amante inescusável de qualquer trovador solitário que se preze), sejam dos apoios sonoros casuais, seguem os tons enleantes do canto, sempre hipnótico e suspenso, portador de um discurso que vai além das palavras. Há alma nestas canções que, sendo despidas de artifícios, se resumem a um minimalismo próprio do género, mas nunca deixam de ser consequentes. Música que nos faz assim recostar e pesar as pequenas coisas da vida é docemente perturbante. E arrepia como Old Jerusalem. Também por isso, é difícil prescindir de Visions of Solitary Branches.

Clap Your Hands Say Yeah - Some Loud Thunder




Foi o burburinho da blogosfera que lhes fez grande parte da reputação e os atirou para os palcos mediáticos da cena nova-iorquina, primeiro, e do mercado americano, depois, em resposta a uma edição de autor homónima que depressa se tornou um dos títulos mais requisitados de 2005. Não sendo um exemplo de originalidade, o disco projectava-se no referencial de coordenadas dos Violent Femmes ou dos Talking Heads, encontrando aí vida própria e uma curiosa (e talentosa) fórmula para a construção de canções de fino recorte. Some Loud Thunder é o sucessor e leva-nos, desde os primeiros acordes, para outras paragens. Decididamente mais experimentais (não necessariamente melhores...) e, por isso, mais errantes, as novas composições parecem enredar-se a si mesmas num novo paradigma de cadências mais lentas, arestas limadas pela produção e texturas menos rock. E diminuir a porção de deliciosa energia e laconismo rock da estreia, afinal o catalisador da sua frescura, é um risco muito penalizador do som dos CYHSY. Fica a esperança de que eles retomem a descoberta de si mesmos (de que o álbum de debute é um manifesto), antes de partirem para a redescoberta experimental do seu som. Ainda é cedo para aparecerem outros Flaming Lips.

Mudança gráfica no apARTES

Está completa a primeira fase da revisão gráfica que tinha previsto fazer no apARTES. A ideia base desta "limpeza" visual foi, antes de mais, tentar agilizar os conteúdos gráficos, permitindo com isso um acesso mais célere ao blog e, consequentemente, uma experiência de utilização mais agradável para o utilizador. Seguir-se-ão, a breve prazo, outras actualizações, especialmente no anexo da Grafonola, espaço que permitia a audição de algumas faixas dos discos apresentados no apARTES. Por ora, essa secção deixou de estar disponível mas espero devolvê-la a este espaço tão rapidamente quanto possível, sem prejuízo de se manterem os costumeiros postos de escuta em cada um dos artigos publicados.

Além da nova cara do blog, a terceira desde o nascimento deste espaço, junta-se também uma lista de hiperligações para outras fontes de informação sobre música e outras artes. Como julgo ser compreensível nesta fase inicial, a lista é necessariamente curta mas não estanque, já que outros links serão gradualmente somados, sempre que tal se justifique. E que o tempo o permita.

De resto, a actividade normal do apARTES seguirá, na devoção crítica sobre a música. E de olho de soslaio sobre as outras manifestações artísticas. Em jeito de balanço, volvidos mais de dois anos desta aventura pela blogosfera, rendo-me a todos os que por cá passaram. O contador diz-me que são já mais de trinta e três mil. A todos, o meu sincero agradecimento pelas visitas, pelas leituras, pelos comentários, pelos emails. Por tudo.

E a ti, S., uma vénia diferente.
Por seres quem és, o apARTES será sempre teu.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Carla Bruni - No Promises

7/10
Naïve/EM
2007
www.carlabruni.com



Um ex-supermanequim a aventurar-se no mundo das canções é coisa bastante para instigar os mais fundos partidarismos e preconceitos da massa crítica do fenómeno da música. Foi nesse ambiente de sobranceria generalizada que apareceu Quelq'un m'a dit, em 2003, o debute nestas lides da italiana Carla Bruni. Olhada de soslaio por antecipação, foi a credulidade das canções que firmou, a posteriori, o cunho de uma cantora/compositora hábil no desenho de melodias plácidas, em composições de pop recatada, voz de cicio e bons arranjos. No segundo trabalho, a divergência mais clara vem dos poemas, ao invés do francês do antecessor, este disco acolhe textos de Emily Dickinson, William Butler Yeats, Walter de Maré ou Christina Rosseti (indicados a Bruni pela amiga Marianne Faithful), necessariamente cantados em inglês. Além da conversão ao britanismo na linguagem, também nas texturas de som se nota uma certa metamorfose, notoriamente a chegá-las aos padrões blues americanos - para trás fica o legado da chanson française), de guitarras dialogantes, mas sem beliscar o minimalismo em que melhor assenta a pedra angular destas canções: a voz.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Alasdair Roberts - The Amber Gatherers

7/10
Drag City
AnAnAnA
2007
www.alasdairroberts.com



Além da inconfundível presença vocal de tons altos e afinação extrema, a música do escocês Alasdair Roberts confunde-se com loas de outras eras, como se fora anacrónica, uma espécie de subterfúgio para um trovador deslocado no tempo. The Amber Gatherers não se arreda da costumeira toada arcaica e minimalista de Roberts, embora se perceba, na estrutura melódica das composições, um compromisso renovado com inspirações mais luminosas, depois da negrura de No Earthly Man (2005), colecção de baladas soturnas sobre a morte. O adorno das canções é mínimo e esse é o paradoxo da imponência quase-silente dos trechos, em torno de um núcleo quintessencial (Roberts, a ciência da música tradicional e a guitarra), com ligeiríssimas infiltrações (o banjo, as palmas ou a percussão contingente). O desfecho é uma lição folk que, por despertar das prateleiras de um antiquário erudito nos usos antigos, pode trazer a aparência de soar imprópria para ouvidos hodiernos. Ou pouco esmaltada para os freak folks. E seguir esse impulso instante seria recusar a estas belas canções a oportunidade que merecem. Sem reservas.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Of Montreal - Hissing Fauna, Are You the Destroyer?


8/10
Polyvynil
2007



Discursar sobre Of Montreal e reduzir o conceito à persona de Kevin Barnes é uma inevitabilidade. Projecto pós-extinção dos Elephant 6, de cujas mesmíssimas ruínas surgiram outros colectivos importantes como os Neutral Milk Hotel, os Beulah ou os Apples in Stereo, só para citar alguns, a sigla Of Montreal é o abrigo da verve de Barnes. Integralmente escrito por ele, Hissing Fauna, Are You the Destroyer? vem na esteira do seminal Satanic Panic in the Attic (2004), obra maior do catálogo de Barnes, e do seu sucessor (Sunlandic Twins, de 2005), na construção daquilo a que o autor chama uma "electro-cinematic avant disco". Psicadélico, é certamente. Os sintetizadores tentam o fausto de uma mistura de sons cheia de sabores, a raiar o surrealismo, o sustentáculo mais oportuno para as melodias. Aí, não há lugar para convenções, Barnes é um rebelde e não perfilha regras, prefere dar corpo a uma pop de doces dislates e mantimentos sintéticos, num galanteio destapado com o legado disco dos oitentas e, porque não dizê-lo, com as luminárias de Bowie (é fantasma repetente no percurso de Barnes), dos Beatles, de Beck ou de Brian Wilson. Com um imaculado gosto a concentrado.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Jazz Iguanas - Jazz Iguanas


7/10
Cobra Records
2006
www.myspace.com/jazziguanas



A nota de lançamento do projecto Jazz Iguanas vale-se de uma máxima do ficcionismo de Phillip K. Dick, controverso novelista americano e pirrónico convicto da espécie humana e seu futuro. Na citação, Dick espia o cepticismo idiossincrático da sua órbita criativa, o mundo dos "falsos humanos" e das objectividades meramente virtuais. Ao escutar Jazz Iguanas, identidade alternativa de Miguel Pedro e António Rafael (músicos dos Mão Morta), percebe-se a correlação com esse orbe futurista de Dick, sob a dominância de caracteres maiuscúlos de som sintético, friamente programados para governar os estímulos orgânicos das composições. É, nesse sentido, um disco maquinal, como se o computador se emancipasse do humano-programador e se fizesse, ele próprio, um "falso humano". Ou um "falso instrumento". E, na ilusão de falsidade, corresse livre no espaço do improviso (como um jazz absurdo), necessariamente quebradiço e desregrado, convulsivo e dinâmico. Seguem-lhe a pisada as cordas do piano, também rendidas ao laço ilusivo, como a guitarra e o contrabaixo, e, juntos, orquestram daguerreótipos apurados de um mundo sem homens reais. Ou onde a carne e o osso são apenas circunstância aparente. E que bem ficariam estes acordes (ou outros que nascessem do mesmo génesis) no recente tributo de Richard Linklater às alucinações de A Scanner Darkly.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

JP Simões - 1970


8/10
NorteSul
2007
www.jpsimoes.com



Para trás ficam as memórias que o aconchegam no património dos Belle Chase Hotel e, mais recentemente, do Quinteto Tati, colectivos que empurrou para os píncaros da música lusa. Agora a solo, JP Simões procura outro conforto: o retorno às fundações da sua adolescência, vivida no Brasil, e rendida a mestre Buarque de Hollanda. 1970 é o travessão que une pautas e harmonias do país irmão, além Atlântico, ao canto em português autóctone. E quem melhor do que JP Simões, poeta vago e confesso admirador da geração setentista da música brasileira, para decorar essa confluência de âncoras bem brasileiras (sambas e bossas), com alentos portugueses. Já lhe chamaram luso-sambismo, num rótulo talvez redutor da fartura de um tomo de canções tão simples quanto sublimes, servidas por textos-retrato de uma geração desencantada (a de 70, ano de nascimento de JP Simões). É esse mesmo despojo a referência contextual (suportada em arranjos de excelência) que faz de 1970 um disco de canções elegantes. E onde até cabe uma revisão para "Inquietação" de José Mário Branco. Com a marca instantânea da brasilidade, este trabalho é, isso sim, um dos mais felizes acasos da lusofonia. Que belo ilusionismo de JP Simões, o de nos fazer crer que Chico podia ter nascido em Coimbra. Ou que o clássico Rio de Janeiro também podia ter raízes nas ribas do Mondego. Como a história seria outra, se o calendário contasse este 1970...

The Good, The Bad & The Queen - The Good, The Bad & The Queen

8/10
Virgin Records
2007
www.thegoodthebad
andthequeen.com



Diz-se que o conceito por detrás deste disco era a gravação de um álbum a solo de Damon Albarn. Verdade ou não, os factos confirmam que o novo projecto tem pedigree, independentemente da luminária do álbum ser Albarn, coisa não indiferente à evidência de ele continuar a granjear o reconhecimento da crítica especializada desde a não assumida suspensão dos Blur à explosão mediática dos Gorillaz. A partilhar os louros da porção instrumental de The Good, The Bad & The Queen está gente de nome feito: o baixista Paul Simonon (Clash), o guitarrista Simon Tong (Verve, Blur, Gorillaz) e o percussionista Tony Allen (Gorillaz, Africa 70). Inteiras na sua urbanidade, as canções demarcam-se das órbitas mais recentes do percurso de Albarn, abeirando-se dos padrões melódicos de uma pop sedada pela melancolia e sem espartilhos estruturais. Canções soltas, com denominador comum na placidez e eloquência sonora (vivas à esplêndida produção de Danger Mouse!), fazem de The Good, The Bad & The Queen uma colecção de melodias volantes, menos tangíveis do que o material costumeiro de Albarn mas, nem por isso, menos sedutoras. Depois, há uma subtil transcendência nos ambientes do disco, confirmando duas coisas: que Albarn era um compositor capaz não havia grandes dúvidas (mudos vão ter que ficar os abutres que lhe auguram a débâcle, ainda não é desta...); só faltava confirmar isso além dos Gorillaz e sem os ornatos orelhudos da britpop dos 90's.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Globos de Ouro da HFPA

Foram atribuídos, na madrugada de ontem, os galardões dos globos de Ouro deste ano, consagrando os protagonistas maiores da sétima arte em diversas categorias. Tidos como a antecâmara mais próxima dos Óscares, os Globos distinguiram, os seguintes filmes/personalidades nas categorias principais:



MELHOR FILME - DRAMA Babel
MELHOR ACTOR - DRAMA Forest Whitaker (The Last King of Scotland)
MELHOR ACTRIZ - DRAMA Helen Mirren (The Queen)
MELHOR FILME - COMÉDIA/MUSICAL Dreamgirls
MELHOR ACTOR - COMÉDIA/MUSICAL Sacha Cohen (Borat)
MELHOR ACTRIZ - COMÉDIA/MUSICAL Meryl Streep (The Devil Wears Prada)
MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO Eddie Murphy (Dreamgirls)
MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA Jennifer Hudson (Dreamgirls)
MELHOR REALIZADOR Martin Scorsese (The Departed)
MELHOR ARGUMENTO Peter Morgan (The Queen)
MELHOR BANDA SONORA ORIGINAL Alexandre Desplat (The Painted Veil)

Surpresas maiores da noite, nos prémios de representação masculina, a distinção de Forest Whitaker, em detrimento do super-favorito Leonardo DiCaprio, e de Eddie Murphy, nos desempenhos de suporte, suplantando Jack Nicholson ou Brad Pitt. Nos demais galardões, nada de especialmente inesperado. Babel de Iñárritu foi agraciado com o título de filme do ano, a sublime performance de Helen Mirren foi muito justamente premiada - só espantará mesmo se não juntar o Óscar ao Globo - e Jennifer Hudson, em Dreamgirls, venceu o sprint com Adriana Barraza para a distinção de actriz secundária. Esperemos pelos Óscares mas algumas pistas estão lançadas. Aceitam-se apostas.

Veja a lista completa de premiados, clicando aqui.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Pere Ubu - Why I Hate Women

7/10
Smog Veil
2006
www.ubuprojex.net



Ele já foi foguete das tumbas (quem não se lembra dos Rockets?), nos tempos em que o punk era ainda um embrião e, já então, ensaiava as primeiras marchas do que se convencionaria chamar de pós-punk. Visionário ou alucinado, David Thomas é um bardo polémico e escarnicador, um homem de caneta fria e convulsiva, alguém que se recompensa na proscrição (auto?) infligida por um mundo que não se esforça por decifrar a sua fina ironia. E ele não faz muito por descalibrar essa tendência no 15.º álbum de um percurso cheio de grãos, servindo-nos um concentrado misógino (ou sardónico?) dos seus elementos quintessenciais: a guitarra impura de Moliné, serpeante e sem cambaleios, o sintetizador em órbitas imprudentes, um theremin de estáticas incontinentes, o ruído alcalino e as percussões com princípios de cacofonia e irregularidade temporal sem aviso. Why I Hate Women é a tradução musical da bricolage amadurecida de Thomas, cheia das dissonâncias típicas da suas provetas loucas - que ele faz questão de não considerar experiências, antes o fruto de um sistema criativo prévio - e é, por isso, mais do que um disco de música experimental, um manifesto de uma das mentes mais turvas e inventivas da moderna música americana.

Toumani Diabaté's Symmetric Orchestra - Boulevard de L'Indépendance

8/10
World Circuit
Megamúsica
2006
www.worldcircuit.co.uk



De Toumani Diabaté conhece-se a divisa de embaixador magno da música maliana, particularmente na divulgação além-fronteiras dos sons da kora, por hoje um dos mais simbólicos instrumentos de cordas do património africano. Depois do Grammy ao lado do malogrado Ali Farka Touré, em 2005, o maestro está de volta às gravações, agora na companhia do ensemble idealizado por si. Esta Symmetric Orchestra soma cinquenta e dois elementos, entre instrumentos e vozes, e propõe-se redimensionar as sonoridades coloridas do Mali, emprestando-lhes uma outra amplidão sónica que deriva da combinação entre os sons rústicos dos costumes seculares do Mali (as cordas da kora e do ngoni, as percussões do dundun, do djembé e do sabar, as notas do balafon) e esquissos de modernidade de outras orquestrações contemporâneas (baixos, metais e percussões). A coisa produzida nesse enlace é um som riquíssimo, amplo em variáveis, e um passo adiante na demanda exploratória de Diabaté rumo a esse esforço libertário da música africana que ele iniciou há anos, em busca de a resgatar das suas amarras (geográficas ou temporais) fulcrais. Uma genuína avenida de independência. Para o mundo espreitar.

Jazkamer - Metal Music Machine

7/10
Smalltown Supernoise
AnAnAnA
2006
www.jazzkammer.com



Lasse Marhaug e John Hegre, as duas metades do projecto norueguês Jazzkammer (nesta edição grafado apenas com um "z" e um "m"), levam quase uma década de temerária sonda às extremidades do noise digital. Não causa admiração que, na peugada de outros artífices do género (Tim Hecker, por exemplo) que, nos tempos mais recentes, se deram à proximidade com algumas variantes do metal, os dois escandinavos tenham recrutado para este retorno alguns nomes sonantes desse movimento, mormente o guitarista/teclista Ivan Bjornson (Enslaved), o baterista Iver Sandoy e o guitarrista Olav Kristiseter (ambos dos Manngard). O desenlace é um feliz pacto entre o metal negro e extremo, em diversos galopes, e a feição emocional do experimentalismo típico da sigla Jazkamer. Embora a primeira dessas substâncias pareça prevalecer, a ponto de Metal Music Machine ser mais um disco de sons com peso do que propriamente um exercício de experimentação sónica, há nas entrelinhas das cinco peças do alinhamento o quinhão decisivo para destrinçar este álbum de outros: as costuras a noise digital. É também essa a inscrição (indispensável) de Marhaug e Hegre neste monumento de metal depurado nas máquinas, a que assenta como uma luva o título roubado a Lou Reed.

sábado, 13 de janeiro de 2007

LCD Soundsystem - 45:33

8/10
iTunes, Outubro 2006
Electrónica
www.lcdsoundsystem.com
www.nike.com/nikeplus



Falar de 45:33 impõe um esclarecimento prévio. A peça foi encomendada a James Murphy pela Nike, no âmbito de um programa desenvolvido em conjunto com a Apple e que combina o célebre iPod com um sensor devidamente instalado nos ténis, para a monitorização do jogging dos utilizadores. Concebido o interface tecnológico para a transmissão dos dados sobre calorias queimadas, distâncias percorridas e afins, faltava juntar música às corridas. Aí entra 45:33. Música para correr, portanto. Não estranha a afinidade rítmica da sigla LCD Soundsystem com esse propósito. Já se conheciam os meneios estéticos e as cadências de Murphy, coisas utílissimas para musicar a dinâmica de uma corrida, e que se juntam peculiarmente neste mix. E a combinação não podia ser mais sumarenta, em sucessivas mutações entre estilos (house, disco, funk), ao jeito de uma caleidoscópica colecção de sons. O cardápio LCD completo, para ajudar a entender a estoiro mediático recente de Murphy. E 45:33 é música singularmente cinética, o propulsor certo para tornar o jogging menos custoso para o praticante ocasional e, ao mesmo tempo, nos mostrar como se faz um set transversal às várias escolas de música dançante, num único trecho, sem soar pretensioso e sem escorregar para a monotonia. Garantia irrevogável: 45:33 é o melhor acompanhamento para uma corridinha solitária e deixa água na boca para o novo LCD Soundsystem que está aí à porta...

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Califone - Roots & Crowns

7/10
Thrill Jockey
2006
www.thrilljockey.com



Os Califone são um dos mais suculentos paradoxos da moderna música americana. Devotos sem beatice da música isenta de regras, o coleccionismo de sons é o seu sustento, ao jeito de uma imprevisível (e anacrónica) parafernália de coordenadas, bem além da esperada filiação aos mais autóctones sons. À falta de melhor definição, dir-se-ia que Roots & Crowns propõe um refinamento das demarcações da folk nativa americana, oferecendo-lhe nacos de audácia experimentalista, o alarde de ruídos acidentais e a esporádica veste da electrónica. Da mescla, sempre adornada com detalhes instrumentais preciosos (pianos, samples, marimbas e cordas), flui uma massa sonora de contrastes, entre a simplicidade e o dédalo, o revivalismo e a mira no amanhã, a transparência e a turvação. Acima disso, Roots & Crowns é música para nos determos a degustar (dá para não parar "A Chinese Actor"?) e, com isso, descobrir a muito consistente maturação estética de um dos mais subestimados colectivos do cardápio da folk moderna. Tão temerária quanto a folk pode ser. Ou, dito doutra forma, Roots & Crowns, mesmo com o pecadilho mínimo de uma certa discórdia estrutural entre algumas faixas, é música folk para quem não vai muito à bola com o género.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Peter Bjorn and John - Writer's Block

8/10
Wichita
V2
2006
www.peterbjornandjohn.com



Eles são três moços suecos e chegam (finalmente) a alguma notoriedade, depois de dois álbuns subvalorizados pelos circuitos da música indie. Tal promoção deve-se, em grande parte, ao hype crescente que foi, paulatinamente, conquistado pelo terceiro registo do trio. Dir-se-ia que, numa penada, estes escandinavos abraçam um espectro sonoro de alcance histórico lato. Na primeira linha das influências, como se percebe logo nas primeiras audições, está a pop limpa e jovial dos 60's, de simplicidade estética e alguma exuberância vocal. A par dessa evidência, o disco parece acatar outras coordenadas: as guitarras simbólicas do shoegaze são substância sóbria e dominante, sempre reverberantes e melódicas; depois, a translucidez casual de pozinhos de electrónica minimalista alude a paisagens sónicas mais delicadas. Tudo junto, umas vezes com mais originalidade ("Young Folks" é eixo decisivo para comparações, com a voz convidada de Victoria Bergsman, dos conterrâneos Concretes) do que noutras, Writer's Block está muito bem escrito e arrumado. Por isso, além do rótulo de ode ao amor, também lhe assentam bem as vestes de um dos melhores produtos pop de 2006.

KTL - KTL




A junção de Peter Rehberg (aka Pita), artífice da electrónica extremista, ao cada vez mais influente mestre do doom Steven O'Malley (dos Sunn O))) e Khanate) não era coisa para assentar nas conjecturas mais imediatas da comunidade melómana. Contudo, apesar das evidentes distâncias entre os estratos noise doom cultivados por ambos, há em KTL uma estranha simetria de princípios: de um lado, os enunciados de electrónica aguda e de baixa frequência de Rehberg, de decibel pungente e penetrante; do outro, os fraseados estridentes da guitarra de O'Malley, ora colados ao registo drone típico do músico, ora diluídos em inscrições mais pontuais e elásticas, sem prejuízo do peso dramático e dos tons lancinantes. Um nadinha mais próximo da órbita de corrosão lenta de O'Malley, é todavia, reconhecível, em KTL, o experimentalismo digital do seu parceiro austríaco, matéria essa que sugere outros ângulos às tendências monocórdicas da guitarra, somando-lhe quebras e indecisões. Estruturalmente impressivo, este tomo testa caminhos diferentes para o doom e, nesse sentido é, mais do que uma colaboração esporádica entre dois músicos relevantes, uma escuta recomendada para vanguardistas e adeptos de produtos musicais híbridos.

Beach House - Beach House

6/10
Carpark Records
Sabotage
2006
www.beachhousemusic.net



O debute em disco da dupla Alex Scally (guitarrista) e Victoria Legrand (organista e voz) é, acima de tudo, um desafio esotérico. A guitarra volante leva-nos a um universo de ficções e assombros precários, de pulso errante e formas vagas, ao jeito dos mais primários assomos de exaltação do incorpóreo. Depois, a voz e o orgão alinham-se na mesma órbita, divagantes e numa (metafórica) languidez que, se a mais não serve, reforça a feição nostálgica de valsas subliminarmente barrocas (no estilo e no modelo) a que apenas se contrapõe o relativo formulismo, coisa penalizadora da experiência de escutar o disco de uma ponta à outra. Esquecido esse detalhe (importante), ainda assim se descobrem afeições com Beach House, mormente no mágico escapismo das flutuações melódicas vocais de Legrand, afinal o activo maior do álbum, e na cativante letargia de uma pop pouco assumida e que se alimenta da modéstia instrumental e da alvura. Quietude e sonho de mãos dadas, num disco místico e que, a despeito da importunidade de uma certa constância formal, consegue dar-nos um ou outro instante de aprazimento. Esperam-se novos capítulos da dupla de Baltimore.

domingo, 7 de janeiro de 2007

Vídeo de J Dilla



Magnífico vídeo de "Nothing Like This", em jeito de homenagem póstuma.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Bernardo Sassetti - Unreal: Sidewalk Cartoon

8/10
Clean Feed
2006
www.cleanfeed-records.com



Ao segundo capítulo de uma trilogia consagrada à feição imagética da música (o primeiro havia sido Ascent, lançado em 2005), o pianista Bernardo Sassetti fez algo mais do que uma mera obra discográfica. Unreal é um conceito pensado em dimensões várias, além do óbvio estímulo da arte principal (a música), a edição contém um livro e foi pensada para apresentação pública em formato multimédia, com projecção de vídeos. Ora, de música cogitada sob estas premissas é de esperar um envolvimento simbólico expressivo e a colagem às sugestões de órbita que derivam do texto humorado e surrealista de suporte; é através da música de Sassetti que melhor se reproduzem as imensas possibilidades de concretização da narrativa, insinuadas em simultâneo na mente e nas sucessões rítmicas dos trechos. Aí, é oportuníssimo o subsídio da percussão dos Drumming, das marimbas e vibrafones, a dividir o palanque com os acordes precisos da verve de Sassetti, precioso como sempre, e dos costumeiros Alexandre Frazão e José Salgueiro. E ainda há o saxofone de Perico Sambeat. E duas faixas emprestadas, de Monk e de Félix Reina. Música para ouvir e pensar. E, já agora, espreitar a apresentação ao vivo de um dos mais estimulantes momentos do jazz(?) português dos últimos tempos, pela mão de um dos seus mais insignes embaixadores.

Bonobo - Days to Come

6/10
Ninja Tune
2006
www.bonobomusic.com



Ele despontou para o mediatismo em plena era de afirmação das sonoridades chill out e, desde a edição de Animal Magic (2001) tem estado na berra do pelotão nu jazz. Embora hoje se tenha esbatido um pouco a relevância de um género musical que, consumida a auréola da novidade, poucos abalos tem trazido à cena discográfica além da moda de animar ambientes de bar, Simon Green é um dos escassos exemplos de inventores desta estirpe de som que ainda conseguem produtos válidos. Days to Come é um disco leve, guarnecido com sabores jazzy de várias origens e beats pouco agitadas, coisa comum ao catálogo Ninja Tune; é notório que, ao terceiro trabalho, Green juntou mais voz à sua matriz (as entoações soul de Bajka são uma ajuda preciosa) e isso reforça os predicados estruturais das composições. A despeito disso e do equilíbrio da soma final, Days to Come raramente se acerca da transcendência e, talvez injustamente para Green, as suas debilidades são as mesmas que decorrem do desgaste de uma sonoridade que é mais útil a ambientar espaços insonoros (nisso, sai-se a contento) do que a espicaçar melómanos sequiosos de novos estímulos.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Balanço do ano

Mais um ano se finda, mais uma temporada de balanços se infiltra nas mentes melómanas aficionadas destas coisas de alinhavar listas dos melhores produtos discográficos dos últimos trezentos e sessenta e cinco dias. Conclusão necessariamente subjectiva e redutora, a escolha é uma mera indicação, a pista que deve servir de luminária para rever ou descobrir alguns dos factos mais meritórios do ano que agora termina, guardando-se a ressalva de que as coisas não se fecham aqui e que, inevitavelmente, outros discos mereceriam menções e encómios. Feita a emenda, deitemos olhos (e ouvidos) ao que de melhor se revelou na música de 2006.

Como sempre, o mercado norte-americano esteve particularmente dinâmico, merecendo nota de destaque o regresso (e o crescimento artístico) da sensação Joanna Newsom, novo símbolo da freak folk que, refinando conceitos em favor de composições com um corpo orquestral mais sólido, se afirma definitivamente como um dos símbolos das novas vagas da música americana. Se Newsom nos trouxe um pedaço do paraíso, houve quem nos mostrasse o assombro mágico da abstracção. Scott Walker, figura enigmática dos cancioneiros de vanguarda, presenteou-nos com uma obra de proporção majestosa, mais um capítulo na empenhada reconstrução de formatos que o músico vem ensaiando desde Tilt (1995). Também nos E.U.A., o projecto Man Man, bizarro ensemble liderado por Honus Honus, mostrou-nos as várias caras do experimentalismo, nos antípodas da música convencional, com um disco excêntrico e da mais pura genialidade. A mesma fonte de inspiração iluminou os Liars e a sua (re)visão artística sobre os paradigmas da pop; com o terceiro álbum, o mais conceptual do seu percurso, eles somaram três instantes incontornáveis da música contemporânea. Ainda por terras do tio Sam, uma palavra para outras edições com méritos firmes. O duo rap Clipse que, com produção da sigla Neptunes (Pharrell não dorme), fez com Hell Hath No Fury um dos ápices do ano. Numa linha diferente, mas com algum alento rap, Doseone e os seus Subtle ofereceram-nos um tomo ecléctico e que fez as delícias dos adeptos do experimentalismo ao serviço de várias escolas, do rock à electrónica progressiva. Nos sons com mais peso, os Mastodon confirmaram o que deles se esperava, dando novo fôlego ao metal progressivo, e os Comets on Fire não deixaram os créditos em mãos alheias. Distorções num, psicadelismo no outro, dois álbuns a escutar de tímpano alerta. A surpresa inesperada do ano foi a revelação do jovem Zach Condon e do conceito Beirut. Sons do mundo mascarados de folk americana, numa colecção de cores pouco comum e que merece a pena destapar lentamente. E Tom Waits andou por aí.

Um pouco mais a norte, no Canadá, os Sunset Rubdown (de Spencer Krug, dos Wolf Parade) construíram uma preciosidade súbtil, um delírio barroco para animar a malta pop. Entretida a caterva pop, coube aos conterrâneos Junior Boys puxar para as pistas de dança as heranças do synth pop dos 80's. Porque a nostalgia também pode ser moderna. E Tiga estava ali ao lado.

Do outro lado do Atlântico, ganhou tamanho o fenómeno dubstep. Da clandestinidade londrina, saltaram duas obras incontornáveis para curiosos de um som mecânico e inquietante. Burial, primeiro, e Kode9, depois (com mais brilhantismo), abriram-nos o pórtico para um futuro incerto, resignado à depressão urbana mas com força para fantasiar veredas inauditas de uma electrónica fracturada, sem tempo e espaço e que, por isso mesmo, define paradigmas novos, sem amarras. Também na Europa, embora num registo díspar, a cena berlinense fez-se representar na electrónica borbulhante do trabalho conjunto de Ellen Allien com o projecto Apparat. Contestação IDM com um rasgo de sensualidade. Da Escandinávia, chegou-nos o grito silencioso da máquina electrónica dos The Knife, também ela um cicerone de um porvir pejado de corantes electrónicos. Ainda na órbita sintética, Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, divertiu-se com os sintetizadores e abriu espaço para especulações sobre as ideias vindouras da sua banda. No capítulo das revelações, também Londres nos trouxe uma iguaria inesperada. Chamam-se Guillemots, são um quarteto multinacional e fizeram um tomo de pop idealista. Coisa para ouvir e esperar por confirmações.

Cá no burgo, de tudo um pouco. Do esperado regresso de Sérgio Godinho (em ano de retorno de Bob Dylan, Bert Jansch ou Chico Buarque), da Brigada Victor Jara e dos Dazkarieh, à confirmação dos talentos dos Dead Combo ou de Paulo Furtado (The Legendary Tiger Man), o ano esteve activo. Um novo trabalho de Carlos Bica é sempre um acontecimento, Sassetti e Laginha não estiveram parados, os Gaiteiros de Lisboa juntaram mais um capítulo precioso ao cancioneiro nacional e Sam the Kid escreveu o melhor que o hip hop português já escutou. Entre confirmações e revelações, saltam os nomes do organista Samuel Jerónimo, dos Linda Martini, de Nuno Prata, de Armando Teixeira (Balla), dos matosinhenses Stowaways, dos vanguardistas Sei Miguel e Rafael Toral.

Assim se fez música em 2006.

Internacional

1. Kode9 + The Spaceape, Memories of the Future
2. Joanna Newsom, Ys
3. Scott Walker, The Drift
4. Clipse, Hell Hath No Fury
5. Man Man, Six Demon Bag
6. Danielson, Ships
7. The Knife, Silent Shout
8. Subtle, For Hero: For Fool
9. Mastodon, Blood Mountain
10. Liars, Drum's Not Dead



Nacional

1. Stowaways, Huntclub
2. Gaiteiros de Lisboa, Sátiro
3. Dead Combo, Quando a Alma Não é Pequena, Vol. II
4. Bernardo Sassetti, Unreal: Sidewalk Cartoon
5. Sei Miguel, The Tone Gardens
6. Balla, A Grande Mentira
7. Mário Laginha, Canções e Fugas
8. The Legendary Tiger Man, Masquerade
9. Sérgio Godinho, Ligação Directa
10. Carlos Bica & Azul, Believer


Veja a lista completa dos 30+ clicando aqui.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Novidades em breve

Após o hiato de alguns dias sem notícias, ora por obra e graça da azáfama da quadra festiva, ora por imposição de outras obrigações profissionais, o apARTES voltará a ter novidades muito em breve. O balanço do ano discográfico está aí à porta e será publicado nos próximos dias. Além disso, assim o tempo o permita, o blog será alvo de uma remodelação gráfica a curto prazo, de forma a que se torne mais ágil e fácil de consultar pelos utilizadores do costume.

Aguardem por novidades em breve.
A todos, deixam-se os votos de continuação de uma quadra festiva feliz.
Obrigado.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Clipse - Hell Hath No Fury

Apreciação final: 8/10
Edição: Star Trak, Novembro 2006
Género: Gangsta Rap
Sítio Oficial: www.clipseonline.com








Apadrinhados por Pharrell Williams, os irmãos Malice e Pusha T fazem a dupla Clipse. Foi pela mão de Pharrell (e da marca Neptunes, dividida com Chad Hugo) que deram os primeiros passos no orbe hip-hop, quando, há quatro anos, se estrearam com Lord Willin'. A proximidade com os Neptunes é coisa mantida no regresso e, desta vez, a fórmula traz vantagens acrescidas. O trabalho sintético de beats, se soava algo desconforme em alguns momentos do debute, em razão da formatação mais pop dos Neptunes, é mais preciso em Hell Hath No Fury. Com efeito, naquilo que, no antecessor, se percebia um desajuste subliminar entre a temática do disco (drogas, o que havia de ser?) e algumas das afinações instrumentais, a ponto de o discurso nem sempre se sentir cómodo na almofada, Hell Hath No Fury vence. Não se corrompeu a estima pop dos Neptunes, ela está cá, mas foi moldada com outro rigor às prelecções dos manos Thornton e, daí, sobra o sangue-frio dos textos. A aliança é tão simbiótica quanto podia ser, sublinhando as construções místicas e enleantes das melodias de suporte, algo sinistras, por vezes, e espaciais, noutros momentos. A congruência do pacto entre os Thorntons e os Neptunes é uma constante no alinhamento do disco, com generosas combinações entre os vocais, as beats e os sons sintéticos de suporte, ao jeito da magnífica "Wamp Wamp (What It Do)" (com Slim Thug). É, de resto, no acondicionamento e na produção dos jogos tonais dos trechos que reside a chave da atracção do disco, coisa que nem se perde nos ápices mais radio friendly de Hell Hath No Fury, como em "Dirty Money" ou na à la Gorillaz "Hello New World". Nada aqui soa a concessão, isto é hip-hop de verve e dissecá-lo aos pormenores é perceber um clássico atestado de números técnicos preciosos, factos para esmiuçar lentamente em audições sucessivas.

Com uma dúzia de canções, Hell Hath No Fury é uma cópia sonora das certezas de uma realidade austera, onde os heróis-vilões vendem coca a granel, ostentam a sua riqueza e, por entre balas perdidas, guardam o remorso para a mãe. As rimas são agrestes e cáusticas, moralmente corruptas, mas que importa isso quando o discurso é servido com tamanha consistência e inventividade? Pusha T e Malice não criaram este mundo, são da sua prole e não pedem desculpas. Hell Hath No Fury não é exercício redentor, é antes uma atípica confissão. E assim irregular é também a produção visionária dos Neptunes, acrescentando ao álbum o justo complemento de experimentalismo. O resultado final é um dos mais lustrosos ensaios hip-hop do ano.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Spektrum - Fun at the Gymkhana Club

Apreciação final: 8/10
Edição: Nonstop Records, Novembro 2006
Género: Punk Funk/Electrónica
Sítio Oficial: www.spektrum.co.uk








O surgimento dos londrinos Spektrum no universo da música dançante do Reino Unido, há dois anos, tinha-nos deixado de sobreaviso sobre o engenho do quarteto no governo da micro-electrónica. Ao segundo álbum de originais, estes quatro confirmam o que deles se esperava, trazendo-nos um disco um pouquinho mais maduro que o antecessor, mormente na sua porção instrumental, ainda minimalista mas mais resoluta a bordar justaposições com os padrões clássicos do disco sound ou com o electro-rock mais fresco. Talvez por isso, Fun at the Gymkhana Club marca tangentes com referências temporais distintas, atravessando três décadas de sonoridades dançantes e mesclando-as, com perícia, numa solução moderna. Depois, há a voz da nigeriana Lola Olafisye, já comparada a Grace Jones, voluptuosa e salgada, também ambígua nas torceduras com que deriva dos agudos glaciais ao sussurros quentes, usando, de permeio, um registo de rebeldia cativante. O pêndulo dos ritmos do quarteto é o russo (sim, estão sediados em Londres mas nenhum dos membros é inglês…) Gabriel Olegavich, homem de nome feito no grime londrino e maestro das beats do álbum. Também aí se nota uma sublimação das impressões do trabalho de debute, graças ao aprofundamento dos propósitos punk funk (que são a imagem de marca dos Spektrum) e ao acrescento de alguns códigos novos. Eles não se ficam pela mímica revivalista, gostam de baralhar o caleidoscópio rítmico do álbum, propondo-nos um som que repesca o atrevimento criativo com que as Slits apanharam desprevenida a década de 70 e, ainda mais notoriamente, a marcha controversa dos nova-iorquinos ESG, e juntando-lhe matizes modernas, algum psicadelismo e precisão técnica.

Fun at the Gymkhana Club pode ainda não ser o zénite dos Spektrum mas vem confirmar, a despeito de uma ou outra minudência deslocada, o crescimento conceptual da música do quarteto londrino. A manter-se esta tendência evolutiva e solidez, além de reforçarem o seu estatuto de objecto de culto de uma minoria (a alargar) mais atenta ao fenómeno da música de dança (entre os fãs deles estão símbolos relevantes como Richie Hawtin, Andrew Wetherall, Tom Findlay e James Murphy), os Spektrum caminharão para se tornarem figura de proa do movimento no Reino Unido. E na Europa. Já assim se prevera depois do disco de estreia, agora se confirma. Bizarrias, vocais sobrepostos, truques digitais e uma dose generosa de criatividade são as substâncias por detrás da aparente modéstia das composições. Fun at the Gymkhana Club é música de dança para degustar a vários galopes. E descobrir que o som dos Spektrum é tão puro-sangue quanto os equídeos do Club Gymkhana.

Posto de escutaAmostras do álbum

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Stowaways - Huntclub

Apreciação final: 8/10
Edição: Transformadores, Outubro 2006
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.myspace.com/stowawayshuntclub








O split CD que os Stowaways lançaram, há três anos, com os Alla Polacca tinha sido um aperiente capaz de excitar a curiosidade dos melómanos pela sua música. Os matosinhenses vinham de vencer o festival Termómetro Unplugged (2001) e arriscavam os primeiros passos nas lides discográficas, com composições invulgarmente sólidas para um ensemble debutante, passando de través os diversos idiomas da folk-pop, num registo ambivalente a ponto de soar anacrónico (mormente na porção instrumental dos trechos) e moderno, em simultâneo. Coisa rara essa, de cruzar com propriedade sensações oriundas de intervalos temporais diversos e, com isso, combinar uma arquitectura de sons indiferente às fatalidades do calendário. Assim prometiam os Stowaways, assim se revalidam no primeiro longa duração. Huntclub retém essa delícia retro, coisa imediatamente audível nos primeiros acordes da faixa instrumental que abre o disco e que se estende às dezasseis canções do alinhamento. Daí em diante, nada menos do que um recatado passeio de recreio por um bizarro orbe de influências, desde sons que nos trazem o irónico imaginário de uma fita de Fellini (como se diz, e bem, no press release), de ruas antigas e escuras, ou mesmo dos fumos de cabaret da Paris de antanho, aos tons do realejo de um tocador de rua, a musicar as pantomimas de um pequeno símio, ou a toada sonora que dá a cadência a um malabarista de circo. A essa panóplia de imagens sobrepostas, juntam-se embalos do outro lado do atlântico, bossas novas e mariachis, também a musette dos acordeões franceses, o teatralismo das comédias vaudeville e algumas gotas de piano jazz. A arrumação é feita pelos vocais certíssimos de Nuno Sousa (quando as faixas não são instrumentais) e pela precisão acústica dos arranjos e da produção.

Huntclub é um trabalho maduro de uma banda que é, cada vez mais, um caso sério da nova música lusa. Se o tal split com os Alla Polacca nos tinha deixado em pulgas por um seguimento, agora que ele chegou, percebemos que a expectativa não foi em vão. Escorreito como poucas edições deste ano, Huntclub comprova o crescimento dos Stowaways, firmes na fidelidade (eles dizem-se casmurros...) a uma estética condimentada por sons de várias latitudes e que, raramente com esta consistência, se escuta cá no burgo. Quando instada a classificar-se a si mesma e o seu som, a banda recorre, entre outras expressões, ao epíteto de "marialvas deprimidos/oprimidos em valsas para crocodilos e marchas para pés-de-chumbo". Quanto ao pé pesado, talvez Huntclub não opere milagres. Mas, seguramente, ao escutar estes sons, nem o réptil anfíbio chorará, nem os marialvas se arruinarão na sua depressão.

Posto de escutaMySpace

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Subtle - For Hero: For Fool

Apreciação final: 8/10
Edição: Astralwerks, Outubro 2006
Género: Experimental Rap/Underground
Sítio Oficial: www.subtle6.com








Essencialmente reconhecido, desde as primeiras audições, como um produto híbrido, importa recuar às origens de For Hero: For Fool para perceber de que é feita a nascente de criatividade do projecto Subtle. Os mentores são os americanos Adam Drucker e Jeffrey Logan, citados no universo artístico como Doseone e Jel, respectivamente, aqui num convívio criativo com Dax Pierson (recentemente imobilizado por um acidente de viação e ajudante do par nos Themselves e nos 13&God, ensemble conjunto com os germânicos Notwist) e outros três compinchas (o violoncelista Alexander Kort, o multi-instrumentista Marty Dowers e o percussionista/guitarrista Jordan Dalrymple). Dos dois primeiros, além de trajectos individuais algo descontínuos, conhecem-se os conceitos Anticon e Themselves e a afinidade com os seminais cLOUDDEAD (Drucker), corolário incontornável da cena underground rap. São estas coordenadas que situam os horizontes de For Hero: For Fool, com o rap a servir de medidor de azimutes, mas sempre disposto a intersecções com outras escolas, guardando virtudes de todas. É assim que se constrói um disco de eclectismo raro, com uma alma genuinamente indie e uma roupagem densa. Coeso e com critério formal na mescla de estilos, o álbum agarra, numa penada, a substância de um hip-hop de medidas largas, festivo e enérgico, e dá-lhe cor com as matizes de um electro-rock de passo mexido, roçando um sentido de urgência que apenas não se sente quando, sem deslizar para o cliché, os trechos tocam o refrãozinho pop. Além do soberbo contexto instrumental dos trechos, sobra a pirotecnia das cordas vocais de Doseone; umas vezes, conforme os cânones hip-hop mais clássicos, é nos momentos em que a voz de Doseone se vira do avesso que melhor se percebe a sua importância no produto final. A sofisticação da porção instrumental do disco, na linha do anterior trabalho da senha Subtle, não teria o mesmo alcance sem os malabarismos vocais de Doseone, decididamente mais estremados do que antes e com um encaixe rítmico algo alheado do torpor (intencional) que se lhe ouve nos cLOUDDEAD. A excentricidade instrumental dos Subtle, coisa que pode ser confundida com uma algazarra de sons de esqueleto beats, é o sedimento infalível para a verve de Doseone.

For Hero: For Fool não é disco de órbita única, nem de época alguma. É, isso sim, um esforço visionário de experimentalismo que, em razão de uma dinâmica de variações incessantes, se revela um produto fértil em atmosferas e, mais do que isso, sacia apetites modais com emoções díspares. Sem parênteses e com criatividade a rodos. Pouco importa se o disco é estruturalmente discrepante quando visto (e ouvido) como peça inteira - no sentido de que cada trecho é um mundo distinto - uma vez que as composições, de per si, são tão abundantes em ideias que merecem descodificação individual. Os Subtle têm um som próprio (sublimado em For Hero: For Fool), cheio de electrónica progressiva, psicadelismo, algum rock e muito rap. Por essas e por outras, vale a pena escutar um dos grandes discos do ano.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Kode 9 + The Spaceape - Memories of the Future

Apreciação final: 9/10
Edição: Hyperdub/Flur, Novembro 2006
Género: Dubstep
Sítio Oficial: www.hyperdub.com








Este parece ser o ano da emancipação definitiva do dubstep. O que começou por ser um mistério das linguagens suburbanas de Londres, cresceu em dimensão e propagou-se ao underground planetário, tomado pela curiosidade de descobrir um idioma fabricado no profuso útero de onde derivam o dub (afinal, a medula deste som), a techno minimalista e de vanguarda, os códigos hostis do grime londrino e as beats esparsas do 2step. O resto é negrume de uma certa rigidez urbano-depressiva que se exprime em ritmos de ondulação variável, com diversas aliterações harmónicas e uma tónica especial num estado futurista (e assombrado) de fazer spoken word e de o conjugar com ambientes de experimentalismo pro-jazz. Música cheia de tons, é bom de ver. Depois do notável exercício de Burial, já publicado neste ano, o projecto conjunto do boss da Hyperdub, Kode 9, com o vocalista residente The Spaceape testa a sensibilidade dos músicos neste puzzle sincrético. Perante tamanha miríade de pistas, o risco de cair na redundância é um parasita vigilante que sempre espreita uma oportunidade para entrar. Kode 9 percebe-o habilmente. E fecha-lhe a porta. O espaço melódico do disco é gerido com pinças, como quem ergue uma dinastia de peças Lego, umas sobrepondo-se naturalmente às outras, mas incapazes de reterem os títulos nobiliárquicos sem o sustentáculo das menores. É assim a integridade de Memories of the Future. As texturas sónicas, sintéticas e maioritariamente frias, são regidas por um magnífico senso de percussão mínima, a pontuação depurada para as palavras negras de Spaceape. Voz cava de um pregador em transe apocalíptico. Os baixos sintéticos, quase inaudíveis, são serventes indispensáveis da coloração escura das peças; as únicas luzes do disco, também elas hologramas necessariamente curtos, são os ornamentos das inúmeras migalhas de electrónica sci-fi (com um bocadinho de industrial) que povoam, nas entrelinhas, as atmosferas sempre inquietantes do som. Além das propriedades reconstrutivas, Memories of the Future tem, ainda mais do que o exercício homónimo de Burial, um uso propedêutico: mostra-nos itinerários desconhecidos para o futuro da electrónica e é, por isso mesmo, um jogo de teoremas, um novo paradigma de sub-cultura verbal e musical.

Memories of the Future tem apetites pela derivação profética e usa as emoções cáusticas para se expôr à sua própria claustrofobia. É música desconfortável neste mundo e neste tempo, respira sofregamente para não se tornar comatosa e é desse sufocante impulso de sobrevivência lenta, sobretudo da propensão auto-redentora com que se reduz ao mínimo sinal de vida, que faz o seu alento. Por isso, Kode 9 e Spaceape nos mostram música de tensão austera, de corpo pequeno (quase cataléptico) mas com alma ímpar, insaciável nesse combate de sobrevivência numa galáxia sumida. Em rota para coisa nenhuma, Memories of the Future é produto sem amarras temporais, é música germinada numa improvável colisão de castas de som que, se a mais não serve (e servirá, certamente), há-de nos amestrar nas técnicas de escape à paralisia do medo do presente. E isso, como bem simulam Kode 9 e Spaceape, pratica-se melhor com a opiácea (e atormentada) demência de ser oráculo por um dia. E fantasiar memórias de um futuro, antes de ele chegar a nós.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Tom Waits - Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards

Apreciação final: 8/10
Edição: Anti, Novembro 2006
Género: Cantautor/Folk-Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.officialtomwaits.com








Desfiar com os ouvidos um triplo álbum não é coisa para ser feita de uma assentada. Se a esse facto juntarmos o pormenor de o inventor do som ser Tom Waits, o evento ganha outra dimensão, não fosse ele um dos artesãos mais relevantes da música underground da última trintena de anos e um adepto do camaleonismo sónico, capaz de escrever em registos antipodais com a mesma congruência. Num total de 54 canções, a tríade de Orphans é uma colecção de canções que testemunham essa versatilidade. Ainda que algumas (catorze) destas peças possam ser encontradas noutros discos, não se trata de um best of ou tampouco de uma colecção de raridades; são coisas várias, desde outtakes a canções revistas, de material para cinema e teatro a algumas versões de outros patinhos feios da música, gente como os Ramones, Kurt Weill ou Daniel Jonhston. O primeiro disco, Brawlers, é um filho bastardo dos blues (com um cheirinho do rock'n'roll mais mexido), ciência quase ubíqua na obra de Waits, ou abertamente ou em regime de coordenada. Nem sempre fiéis à reputação desse formato (Waits não rima com convenção) ou a qualquer formalismo melódico, estas canções nascem de antagonismos, como se adivinharia no rótulo que as baptiza, e traçam as faíscas desses recontros, com a aspereza característica do autor e num jeito encantadoramente tosco de fazer música. Os coriscos não se repetem em Bawlers, segundo disco da colecção. Aqui, escancara-se o pórtico para a melancolia de Waits, fecha-se a torneira do ácido. Os trechos detêm-se na refinação das abstracções e do teatralismo trágico, a caminho de uma escrita delicada, entre o country, a trova ocasional e a escura placidez da noite acabada no cabaret, depois do fumo e da ressaca da ebriez. Depois disso, Bastards, o terço mais experimental, realinha-nos com a persona fetichista de Waits. Entram as tubas, o acórdeão, os banjos, chega a charanga carnavalesca e, subitamente, estamos numa bizarra sala de testes, escutando contos e sons a sondar o surrealismo, ao jeito de canções (e monólogos) sem padrão e com tons diversos. Se a dezena de borrões de Rorschach fosse música, estaria perto de Bastards.

Como o próprio Waits afirmou em entrevista promocional de Orphans, a voz é o cerne. Granulada, dúctil e gasta, é ela que ata os elementos dos vários microcosmos da sua música. É ela, também, o elo de coerência de Orphans, a mão que solta das peias o bardo selvagem e que, com o mesmíssimo beneplácito, o convida a arriscar-se à ventura de se descobrir a si mesmo. Waits leva mais de trinta anos a fazê-lo, a revelar-se e, com isso, a destapar as mais remotas linhagens da música americana. Nessa incorporação quase atávica, sempre sensível na obra de Waits (como na de Dylan, por exemplo), há mais do que uma mera vistoria de baús empoeirados; há também um quinhão pessoal e único e uma voz ímpar que legitimam um ramalhete próprio na árvore genealógica dos incontornáveis. Um dia, também como Waits acolhe a luminária dos vultos do passado, alguém colherá ensinamento nos dons dele. E Orphans é documento imprescindível desse legado intemporal. Para descobrir lentamente.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Lindstrom - A Feedelity Affair

Apreciação final: 7/10
Edição: Feedelity/Smalltown, Novembro 2006
Género: Electro/Disco
Sítio Oficial: www.feedelity.com








Se há espécie de som que parece imperecível é o disco sound. Reinventado, remexido ou remisturado, o género celebrizado por gente como Donna Summer, Gloria Gaynor, Harold Melvin, Boney M, Barry White, Village People ou The Trammps nos 70's, é uma reserva de vibrações a que, com alguma regularidade, os artífices da electrónica (e de outras famílias) recorrem. Piroso e efeminado para uns, dançante e contagioso para outros, o disco é, mais do que uma mera proposta de tons e ritmos, uma sugestão sónica que nos remete para as febres de Sábado à noite, as que John Badham passou à fita, no auge da era disco, com as sequências dançarinas que celebrizaram John Travolta, ao som de Stayin' Alive (Bee Gees). Nessa época, os clubes americanos trocavam as bandas ao vivo pelos vinis, seguindo a moda das discothèques francesas (daí o nome disco), dando espaço às variantes mais ritmadas do soul, da funk e das escolas latinas. É nesses argumentos históricos que se apoia o novo opus de Hans-Peter Lindstrom. Com uma formação de base distante dos formatos mais electrónicos (tocou piano num coro gospel e órgão numa banda de covers dos Deep Purple), o norueguês esbarrou ocasionalmente com o som digital e não mais o largou. Estudioso das estruturas harmónicas e dos parâmetros de produção, Lindstrom chegou à órbita electrónica acostumado a criar melodias com instrumentos reais e emprestou esse entusiasmo às primeiras invenções com um sampler. Daí às edições discográficas, também à constituição de um selo próprio (a Feedelity), foi um pequeno passo. Com um punhado de faixas celebrizadas nos circuitos de música de dança ("I Feel Space" e alguns remixes à cabeça), nem parece que este é o debute de Lindstrom em disco, mas é-o, de facto, ainda que não seja uma edição de originais, antes uma compilação de coisas lançadas em vinis de 12". Afinando pelo diapasão que guiou Lindstrom & Prins Thomas (2005), A Feedelity Affair é um tomo de electrónica sóbria e downbeat, mais voltada para o relaxe do que para o consumo excessivo das pistas, pejada de vectores e reflexos do disco sound.

Dir-se-ia que, hoje, Lindstrom é um artífice de capital importância na regeneração do género disco, pela pertinência com que o aproxima dos planos contemporâneos, sem desistir da essência festiva das origens. Revivalismo sem contaminações. Ao mesmo tempo, o som de Lindstrom, ouvido com esta integridade, perfila-se como algo que vai bem além do rótulo space disco que lhe colaram. O trabalho de síntese é do melhor que existe no espectro actual, com simetrias de sintetizador, vibração 70's e atmosferas de sedução, coisas que mesmo desviando-se, aqui e ali, da prudência "académica", não resvalam para a inconsequência. Depois, momentos como os magníficos dez minutos da peça "There’s a Drink In My Bedroom and I Need a Hot Lady" fazem promessa de recapturar as artes mágicas do disco e suas ramificações. Talvez não cheguem para repescar o blazer justo, a camisinha de colarinho generoso, as bocas-de-sino ou o tacão alto de Travolta, mas que dá vontade de erguer o braço ao alto e abanar as ancas, lá isso dá.

Posto de escutaSítio da Boomkat

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Kaada - Music For Moviebikers

Apreciação final: 6/10
Edição: Ipecac, Julho 2006
Género: Pós-Rock/Experimental/Orquestral
Sítio Oficial: www.kaada.no








Foi pela mão do sempre atento Mike Patton que o norueguês John Erik Kaada chegou até nós. Thank You For Giving Me Your Valuable Time, originalmente lançado na Escandinávia em 2001, foi difundido pela Ipecac há três anos, e mereceu a aprovação rendida da crítica especializada. O álbum assentou com propriedade no carácter genericamente experimental do catálogo da editora de Patton, ainda que o experimentalismo não cavasse um fosso grande entre o conceito de pop cinematográfica e o temperamento orquestral de Kaada. Tudo bem pesado, o registo recorria amiudadamente à manipulação de samples e combinava-os com elementos acústicos (instrumentos ou vozes). A subtileza dos trechos, além de comprovar a perícia técnica de Kaada no manejo de sons anacrónicos, mostrava a competência do produtor e músico em fazer, de coisas aparentemente inadaptáveis, belas peças musicais. Depois de musicar alguns filmes na sua terra-natal e de escrever um álbum conjunto com Patton, o norueguês regressa com um tomo de candura orquestral (as vozes esporádicas não chegam a verbalizar). A provar a quase perversa fixação de Kaada com os gadgets técnicos, ele enche as linhas de um blog com as minudências por detrás das gravações de Music For Moviebikers. Pondo de parte os preciosismos (que interessarão aos partidários da técnica) e depositando a atenção no produto que dela nasceu, o disco confirma a apetência cenográfica da música de Kaada. Um pormenor adicional das sessões de gravação e que não é indiferente a esse facto: Kaada tinha a companhia de um ensemble orquestral de vinte e dois elementos. Por aí, se entende a abertura de ângulos que, com uma frieza maquinal, nos empurram para a evocação de imagens. Tais figuras desenham-se num som que é de uma filigrana instrumental mais rica do que em Thanks For Giving Me Your Valuable Time e onde não cabe o protagonismo central do sampling, antes se derivando para a placidez de orquestrações recatadas, com a cadência demorada duma espécie de adágios poéticos. Não obstante não serem convencionais em sentido estrito e até sucederem no fito cenográfico em alguns instantes, as composições pouco mais apregoam do que a trivialidade comum a produtos deste género, com elegância e delicadeza, é certo, mas sem a surpresa acidental que tão bem Kaada nos deu no passado.

Mudando de verve ou simplesmente apontando ao objectivo de firmar a sua marca como compositor de música para cinema, além das fronteiras da Noruega, Kaada dá-nos um disco mais certinho do que se esperava, longe da anormalidade e das abstracções típicas da Ipecac (e de Thanks For Giving Me Your Valuable Time). Music For Moviebikers busca inspiração nas latitudes western de Morricone, nos friscalettos da Sicília, nas tarantelas do sul de Itália, em Yann Tiersen, no film noir, no folclore do leste europeu, na música gaélica, nas rancheras dos mariachis e nos glaciais pós-rock da Escandinávia. Mais orgânica do que seria de esperar com Kaada, música assim, mesmo não sendo superlativa, tão bem musicaria uma qualquer fita de Capra como uma perscrutação de memórias avulsas dos filmes que ainda não vimos.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble - The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble

Apreciação final: 6/10
Edição: Planet Mu, Abril 2006
Género: Electro-Jazz/Experimental/Pós-Rock
Sítio Oficial: MySpace








O Kilimanjaro, montanha branca do norte da Tanzânia, bem juntinho à fronteira com o Quénia, é o cume mais alto do continente africano. A mais de 5895m de altitude se erguem neves imemoriais, numa paisagem dominada pelo verde da savana. Esse cenário de contrastes e simbolismo inspirou o baptismo do projecto criado pelos holandeses Jason Kohnen e Gideon Kiers. Dos percursos individuais de ambos, sabe-se que Kohnen tem, sob a assinatura Bong-Ra, um percurso discográfico relevante nos domínios da electrónica irrequieta, de batida frenética e mistura de géneros, a que se convencionou chamar de breakcore, tendo inclusivamente já neste ano lançado (em formato 12'') um quarteto de revisões de Ross Csillag Alat Szuletett, álbum referencial de outro ícone do género, Venetian Snares. Gideon Kiers tem um trabalho menos notado, mas conhece-se o conceito multimédia Telcosystems, cuja estética computorizada lhe permitiu instruir-se nas linguagens sintéticas de vanguarda. O pretexto inicial deste par para a génese do Kilimanjaro Darjkazz Ensemble foi acrescentar música a alguns filmes de culto do circuito mudo, como os inesquecíveis Nosferatu, filmado por Murnau e Metropolis, de Fritz Lang. O progressivo alargamento do conceito a outros músicos, se proporcionou o crescimento formal do som do KDE, não diminuiu a inspiração na cinematografia, como bem se escuta neste álbum. Consideravelmente contrastante com os outros trabalhos de Kohnen e Kiers, a cadência deste tomo apela à inquietude pelo prenúncio de ambientes sombrios. É nesses pastos que se alimenta este animal de jazz livre, quase não-jazz, atraído pela sedução da electrónica compassada e pelos graus mais negros da órbita industrial do drone. Assim se faz um som apaixonante mas perturbador, sem réstias do abrasivo auditivo e das rotações aceleradas do breakcore (como se poderia esperar), antes em busca do aconchego do downbeat e dos efeitos sedativos da electrónica. A surpresa é ainda maior nos momentos em que o disco chega a tocar o primor minimalista, muito perto dos antípodas da assinatura Planet Mu (e do património Bong-Ra). Todavia, o inesperado não deslustra a competência dos trechos, ainda que demonstrem eficácia irregular, por vezes sobrando o juízo de que um ou outro acrescento poderia sublimar o resultado poético das composições.

The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble encerra música de bom quilate mas, comparando os sons com o título, despontam paradoxos. De jazz fica apenas uma síntese eventual, no processo evolutivo das composições, na forma como crescem sem formalismos adstringentes, mas esse método revela-se subliminar. O jazz não é, aqui, mais do que colateral, uma espécie de luminária distante e fugaz (como em "The Nothing Changes", peça que abre o disco). Depois, escutado o disco com zelo, as propostas não se mostram tão negras assim; é certo que se procura a protecção das sombras mas, nesse particular, outras experiências mais intensas nos foram oferecidas no corrente ano (vide Altar). Esquecidos os equívocos de baptismo, o álbum é a curiosa revelação de uma mutação diferente de Kohnen e Kiers e, aí sim, dá bom resultado. E, por esse prisma, talvez se perceba melhor a afinidade com os contrastes do Kilimanjaro. Habituados à verdura esparsa da savana electrónica, os holandeses (e amigos) quiseram dar-nos um bocadinho das frias neves que os sons sintéticos também podem oferecer e, com isso, brindam-nos com um tomo de música para absorver com a mente. E trocam os ritmos precipitados da gazela de Thompson pela passada tarda do elefante africano.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Balla - A Grande Mentira

Apreciação final: 8/10
Edição: Chiado Records/Edel, Novembro 2006
Género: Pop Nacional
Sítio Oficial: www.myspace.com/ballaportugal








Armando Teixeira tem sido um dos mais relevantes artesãos da música portuguesa contemporânea e, ao terceiro capítulo de um dos seus alter-egos presentes (o outro é o projecto Bullet...), percebe-se finalmente a inteireza sonora que se adivinhava nos passos anteriores. Já se passaram três anos desde Le Jeu, disco prévio de Balla, e, de lá para cá, Armando Teixeira sublimou as máximas de uma pop lúcida e perfeitamente consciente da sua baliza, com glamour subtraído à sétima arte e cheia de elegância. Novidade em A Grande Mentira é a sóbria presença vocal dele próprio na dezena de canções do disco, coisa não ouvida antes. Além do quase exclusivismo no canto do disco, o músico também puxa para si outros protagonismos, assumindo a responsabilidade das gravações, das misturas e da produção. A Grande Mentira é, por isso, o disco mais pessoal de Armando Teixeira, uma obra de ofício solitário a que se juntam, em meras colaborações esporádicas, Joana Mateus e Sylvie C. , como vozes de suporte, Dj Nel Assassin em skretchs pontuais, Vladimir Orlov no teremin e Paulo Souza na guitarra. Talvez esse isolamento criativo tenha concorrido para a sublimação das noções estruturais do autor, ao formar condições para a emenda de alguns pequenos desconchavos de outros trabalhos e, com isso, levando à depuração do som Balla. Um som opulento em matérias simultâneas mas que, em A Grande Mentira, encontra medidas justas para cada substância e enlaces cheios de oportunidade entre elas. O sabor dominante é, ainda que sabiamente encoberto em alguns trechos, um electro-pop-rock de matriz dançante mas, como não podia deixar de ser num produto Balla, há trajectórias cruzantes de outros géneros, como nos primorosos arranjos dos metais soprados ou do piano, tão perfeitamente integrados no esqueleto predominantemente sintético das canções. Depois, há balanços funk inconfundíveis - assuntos vizinhos do projecto Bullet - e qualquer coisa de uma pop inventiva que se dispõe a cruzar ambientes com fumos de cabaré e sons vagabundos.

Também nas letras, Armando Teixeira parece ter chegado à disciplina certa, ao formar textos sem ardil e empenhados em propagar serenamente um certo intimismo, circunstância também sensível na estética sonora do disco. É aí que reside a chave da empatia automática destas canções, na fidedignidade com que as composições dispensam as habilidades de estúdio e se afirmam, numa sedução cúmplice e honesta, um assomo conciliador do espírito com os ânimos dançantes do corpo (como na contagiante "Vou Fazer-te Brilhar"). Música com tamanha lisura não é feita todos os dias cá no burgo! E, se isso não bastar para satisfazer as criaturas melómanas mais exigentes, a excelência melódico-instrumental do disco faz a maravilha que falta. A Grande Mentira ressuscita os sinais vitais da pop lusa, despertando-a da imprópria letargia recente e aproximando-a das novas órbitas. Uma grande mentira assim pode muito bem ser a única verdade de que o panorama luso estava órfão.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Les Georges Leningrad - Sangue Puro

Apreciação final: 8/10
Edição: TomLab, Outubro 2006
Género: Art Rock/Vanguarda
Sítio Oficial: www.lesgeorgesleningrad.org








Eles são cultores do barulho. Não o chinfrim desordenado e sem comando, mas ainda assim barulho. Cada disco dos canadianos Les Georges Leningrad é uma briga de sons tão pouco descritível como a auto-definição do seu som: rock petroquímico. Tem rock? Tem. Em ângulos coléricos e sem esqueletos. Tem químicos e carburantes? Tem. A combustão é uma certeza, ora pela espiral de estoiro das composições, em velocidades inconstantes, ora pelo recontro de energias, da percussão tresloucada, das matérias sintéticas em despudor alucinante e do canto (discurso) coado. Poney P, a voz do trio, acentua as perturbações e a demência do disco, levando o auditor aos limites da tolerância e do ridículo mas, ao mesmo tempo, prendendo-o à estética intencionalmente desconchavada do grupo. A electrónica é o fabricante principal desse delicioso despautério, pondo de pé um corpo sonoro futurista, subliminarmente sci-fi e desconstrutivo, sustentado em fraseados esparsos mas que, no conjunto de cada trecho, dão forma a um conceito ímpar. É esse, de resto, um dos truques regidos pelos Les Georges Leningrad, um estratagema singular para, partindo do alento regenerador do pós-punk, chegar a uma ordem sonora sem igual, coberta de abstracções, dissonâncias, infiltrações e enigmas. Como se, de uma assentada pouco usual, se enredassem o fulgor eléctrico e a urgência do punk, o vanguardismo e a bizarria da electrónica espacial, um certo impulso dançante, a excentricidade tonal do noise, a raridade tribal e os mais variados laivos da arte contemporânea.

Sangue Puro é uma provocação a espíritos conformados e, por isso, não se recomenda a melómanos conservadores. Nada aqui é previsível, nem o podia ser com os Les Georges Leningrad. Talvez um pouco mais negro (e assombrado) do que os dois antecessores, o novo tomo é doutrina profana sobre sangue e morcegos. E nota-se esse gozo vampírico na música, na vibração carnal dos trechos, nos sustos repentinos, nos arrepios de caverna, no incitamento ritualista da noite, no cerimonial de escapismo improvisado. Poney P afirmou, em entrevista recente, que não há melhor símbolo para o som presente dos Les Georges Leningrad do que o morcego. O pequeno mamífero quiróptero é um animal ambíguo, sinal de fortuna em certas partes do globo e emblema de medos noutras. Assim é também a música dos Les Georges Leningrad, esfíngica e cruciante mas, em simultâneo, cativante e fatalmente irresistível. E Sangue Puro é uma das mais compensadoras sensações auditivas para este ano.