quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Kode 9 + The Spaceape - Memories of the Future

Apreciação final: 9/10
Edição: Hyperdub/Flur, Novembro 2006
Género: Dubstep
Sítio Oficial: www.hyperdub.com








Este parece ser o ano da emancipação definitiva do dubstep. O que começou por ser um mistério das linguagens suburbanas de Londres, cresceu em dimensão e propagou-se ao underground planetário, tomado pela curiosidade de descobrir um idioma fabricado no profuso útero de onde derivam o dub (afinal, a medula deste som), a techno minimalista e de vanguarda, os códigos hostis do grime londrino e as beats esparsas do 2step. O resto é negrume de uma certa rigidez urbano-depressiva que se exprime em ritmos de ondulação variável, com diversas aliterações harmónicas e uma tónica especial num estado futurista (e assombrado) de fazer spoken word e de o conjugar com ambientes de experimentalismo pro-jazz. Música cheia de tons, é bom de ver. Depois do notável exercício de Burial, já publicado neste ano, o projecto conjunto do boss da Hyperdub, Kode 9, com o vocalista residente The Spaceape testa a sensibilidade dos músicos neste puzzle sincrético. Perante tamanha miríade de pistas, o risco de cair na redundância é um parasita vigilante que sempre espreita uma oportunidade para entrar. Kode 9 percebe-o habilmente. E fecha-lhe a porta. O espaço melódico do disco é gerido com pinças, como quem ergue uma dinastia de peças Lego, umas sobrepondo-se naturalmente às outras, mas incapazes de reterem os títulos nobiliárquicos sem o sustentáculo das menores. É assim a integridade de Memories of the Future. As texturas sónicas, sintéticas e maioritariamente frias, são regidas por um magnífico senso de percussão mínima, a pontuação depurada para as palavras negras de Spaceape. Voz cava de um pregador em transe apocalíptico. Os baixos sintéticos, quase inaudíveis, são serventes indispensáveis da coloração escura das peças; as únicas luzes do disco, também elas hologramas necessariamente curtos, são os ornamentos das inúmeras migalhas de electrónica sci-fi (com um bocadinho de industrial) que povoam, nas entrelinhas, as atmosferas sempre inquietantes do som. Além das propriedades reconstrutivas, Memories of the Future tem, ainda mais do que o exercício homónimo de Burial, um uso propedêutico: mostra-nos itinerários desconhecidos para o futuro da electrónica e é, por isso mesmo, um jogo de teoremas, um novo paradigma de sub-cultura verbal e musical.

Memories of the Future tem apetites pela derivação profética e usa as emoções cáusticas para se expôr à sua própria claustrofobia. É música desconfortável neste mundo e neste tempo, respira sofregamente para não se tornar comatosa e é desse sufocante impulso de sobrevivência lenta, sobretudo da propensão auto-redentora com que se reduz ao mínimo sinal de vida, que faz o seu alento. Por isso, Kode 9 e Spaceape nos mostram música de tensão austera, de corpo pequeno (quase cataléptico) mas com alma ímpar, insaciável nesse combate de sobrevivência numa galáxia sumida. Em rota para coisa nenhuma, Memories of the Future é produto sem amarras temporais, é música germinada numa improvável colisão de castas de som que, se a mais não serve (e servirá, certamente), há-de nos amestrar nas técnicas de escape à paralisia do medo do presente. E isso, como bem simulam Kode 9 e Spaceape, pratica-se melhor com a opiácea (e atormentada) demência de ser oráculo por um dia. E fantasiar memórias de um futuro, antes de ele chegar a nós.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Tom Waits - Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards

Apreciação final: 8/10
Edição: Anti, Novembro 2006
Género: Cantautor/Folk-Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.officialtomwaits.com








Desfiar com os ouvidos um triplo álbum não é coisa para ser feita de uma assentada. Se a esse facto juntarmos o pormenor de o inventor do som ser Tom Waits, o evento ganha outra dimensão, não fosse ele um dos artesãos mais relevantes da música underground da última trintena de anos e um adepto do camaleonismo sónico, capaz de escrever em registos antipodais com a mesma congruência. Num total de 54 canções, a tríade de Orphans é uma colecção de canções que testemunham essa versatilidade. Ainda que algumas (catorze) destas peças possam ser encontradas noutros discos, não se trata de um best of ou tampouco de uma colecção de raridades; são coisas várias, desde outtakes a canções revistas, de material para cinema e teatro a algumas versões de outros patinhos feios da música, gente como os Ramones, Kurt Weill ou Daniel Jonhston. O primeiro disco, Brawlers, é um filho bastardo dos blues (com um cheirinho do rock'n'roll mais mexido), ciência quase ubíqua na obra de Waits, ou abertamente ou em regime de coordenada. Nem sempre fiéis à reputação desse formato (Waits não rima com convenção) ou a qualquer formalismo melódico, estas canções nascem de antagonismos, como se adivinharia no rótulo que as baptiza, e traçam as faíscas desses recontros, com a aspereza característica do autor e num jeito encantadoramente tosco de fazer música. Os coriscos não se repetem em Bawlers, segundo disco da colecção. Aqui, escancara-se o pórtico para a melancolia de Waits, fecha-se a torneira do ácido. Os trechos detêm-se na refinação das abstracções e do teatralismo trágico, a caminho de uma escrita delicada, entre o country, a trova ocasional e a escura placidez da noite acabada no cabaret, depois do fumo e da ressaca da ebriez. Depois disso, Bastards, o terço mais experimental, realinha-nos com a persona fetichista de Waits. Entram as tubas, o acórdeão, os banjos, chega a charanga carnavalesca e, subitamente, estamos numa bizarra sala de testes, escutando contos e sons a sondar o surrealismo, ao jeito de canções (e monólogos) sem padrão e com tons diversos. Se a dezena de borrões de Rorschach fosse música, estaria perto de Bastards.

Como o próprio Waits afirmou em entrevista promocional de Orphans, a voz é o cerne. Granulada, dúctil e gasta, é ela que ata os elementos dos vários microcosmos da sua música. É ela, também, o elo de coerência de Orphans, a mão que solta das peias o bardo selvagem e que, com o mesmíssimo beneplácito, o convida a arriscar-se à ventura de se descobrir a si mesmo. Waits leva mais de trinta anos a fazê-lo, a revelar-se e, com isso, a destapar as mais remotas linhagens da música americana. Nessa incorporação quase atávica, sempre sensível na obra de Waits (como na de Dylan, por exemplo), há mais do que uma mera vistoria de baús empoeirados; há também um quinhão pessoal e único e uma voz ímpar que legitimam um ramalhete próprio na árvore genealógica dos incontornáveis. Um dia, também como Waits acolhe a luminária dos vultos do passado, alguém colherá ensinamento nos dons dele. E Orphans é documento imprescindível desse legado intemporal. Para descobrir lentamente.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Lindstrom - A Feedelity Affair

Apreciação final: 7/10
Edição: Feedelity/Smalltown, Novembro 2006
Género: Electro/Disco
Sítio Oficial: www.feedelity.com








Se há espécie de som que parece imperecível é o disco sound. Reinventado, remexido ou remisturado, o género celebrizado por gente como Donna Summer, Gloria Gaynor, Harold Melvin, Boney M, Barry White, Village People ou The Trammps nos 70's, é uma reserva de vibrações a que, com alguma regularidade, os artífices da electrónica (e de outras famílias) recorrem. Piroso e efeminado para uns, dançante e contagioso para outros, o disco é, mais do que uma mera proposta de tons e ritmos, uma sugestão sónica que nos remete para as febres de Sábado à noite, as que John Badham passou à fita, no auge da era disco, com as sequências dançarinas que celebrizaram John Travolta, ao som de Stayin' Alive (Bee Gees). Nessa época, os clubes americanos trocavam as bandas ao vivo pelos vinis, seguindo a moda das discothèques francesas (daí o nome disco), dando espaço às variantes mais ritmadas do soul, da funk e das escolas latinas. É nesses argumentos históricos que se apoia o novo opus de Hans-Peter Lindstrom. Com uma formação de base distante dos formatos mais electrónicos (tocou piano num coro gospel e órgão numa banda de covers dos Deep Purple), o norueguês esbarrou ocasionalmente com o som digital e não mais o largou. Estudioso das estruturas harmónicas e dos parâmetros de produção, Lindstrom chegou à órbita electrónica acostumado a criar melodias com instrumentos reais e emprestou esse entusiasmo às primeiras invenções com um sampler. Daí às edições discográficas, também à constituição de um selo próprio (a Feedelity), foi um pequeno passo. Com um punhado de faixas celebrizadas nos circuitos de música de dança ("I Feel Space" e alguns remixes à cabeça), nem parece que este é o debute de Lindstrom em disco, mas é-o, de facto, ainda que não seja uma edição de originais, antes uma compilação de coisas lançadas em vinis de 12". Afinando pelo diapasão que guiou Lindstrom & Prins Thomas (2005), A Feedelity Affair é um tomo de electrónica sóbria e downbeat, mais voltada para o relaxe do que para o consumo excessivo das pistas, pejada de vectores e reflexos do disco sound.

Dir-se-ia que, hoje, Lindstrom é um artífice de capital importância na regeneração do género disco, pela pertinência com que o aproxima dos planos contemporâneos, sem desistir da essência festiva das origens. Revivalismo sem contaminações. Ao mesmo tempo, o som de Lindstrom, ouvido com esta integridade, perfila-se como algo que vai bem além do rótulo space disco que lhe colaram. O trabalho de síntese é do melhor que existe no espectro actual, com simetrias de sintetizador, vibração 70's e atmosferas de sedução, coisas que mesmo desviando-se, aqui e ali, da prudência "académica", não resvalam para a inconsequência. Depois, momentos como os magníficos dez minutos da peça "There’s a Drink In My Bedroom and I Need a Hot Lady" fazem promessa de recapturar as artes mágicas do disco e suas ramificações. Talvez não cheguem para repescar o blazer justo, a camisinha de colarinho generoso, as bocas-de-sino ou o tacão alto de Travolta, mas que dá vontade de erguer o braço ao alto e abanar as ancas, lá isso dá.

Posto de escutaSítio da Boomkat

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Kaada - Music For Moviebikers

Apreciação final: 6/10
Edição: Ipecac, Julho 2006
Género: Pós-Rock/Experimental/Orquestral
Sítio Oficial: www.kaada.no








Foi pela mão do sempre atento Mike Patton que o norueguês John Erik Kaada chegou até nós. Thank You For Giving Me Your Valuable Time, originalmente lançado na Escandinávia em 2001, foi difundido pela Ipecac há três anos, e mereceu a aprovação rendida da crítica especializada. O álbum assentou com propriedade no carácter genericamente experimental do catálogo da editora de Patton, ainda que o experimentalismo não cavasse um fosso grande entre o conceito de pop cinematográfica e o temperamento orquestral de Kaada. Tudo bem pesado, o registo recorria amiudadamente à manipulação de samples e combinava-os com elementos acústicos (instrumentos ou vozes). A subtileza dos trechos, além de comprovar a perícia técnica de Kaada no manejo de sons anacrónicos, mostrava a competência do produtor e músico em fazer, de coisas aparentemente inadaptáveis, belas peças musicais. Depois de musicar alguns filmes na sua terra-natal e de escrever um álbum conjunto com Patton, o norueguês regressa com um tomo de candura orquestral (as vozes esporádicas não chegam a verbalizar). A provar a quase perversa fixação de Kaada com os gadgets técnicos, ele enche as linhas de um blog com as minudências por detrás das gravações de Music For Moviebikers. Pondo de parte os preciosismos (que interessarão aos partidários da técnica) e depositando a atenção no produto que dela nasceu, o disco confirma a apetência cenográfica da música de Kaada. Um pormenor adicional das sessões de gravação e que não é indiferente a esse facto: Kaada tinha a companhia de um ensemble orquestral de vinte e dois elementos. Por aí, se entende a abertura de ângulos que, com uma frieza maquinal, nos empurram para a evocação de imagens. Tais figuras desenham-se num som que é de uma filigrana instrumental mais rica do que em Thanks For Giving Me Your Valuable Time e onde não cabe o protagonismo central do sampling, antes se derivando para a placidez de orquestrações recatadas, com a cadência demorada duma espécie de adágios poéticos. Não obstante não serem convencionais em sentido estrito e até sucederem no fito cenográfico em alguns instantes, as composições pouco mais apregoam do que a trivialidade comum a produtos deste género, com elegância e delicadeza, é certo, mas sem a surpresa acidental que tão bem Kaada nos deu no passado.

Mudando de verve ou simplesmente apontando ao objectivo de firmar a sua marca como compositor de música para cinema, além das fronteiras da Noruega, Kaada dá-nos um disco mais certinho do que se esperava, longe da anormalidade e das abstracções típicas da Ipecac (e de Thanks For Giving Me Your Valuable Time). Music For Moviebikers busca inspiração nas latitudes western de Morricone, nos friscalettos da Sicília, nas tarantelas do sul de Itália, em Yann Tiersen, no film noir, no folclore do leste europeu, na música gaélica, nas rancheras dos mariachis e nos glaciais pós-rock da Escandinávia. Mais orgânica do que seria de esperar com Kaada, música assim, mesmo não sendo superlativa, tão bem musicaria uma qualquer fita de Capra como uma perscrutação de memórias avulsas dos filmes que ainda não vimos.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble - The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble

Apreciação final: 6/10
Edição: Planet Mu, Abril 2006
Género: Electro-Jazz/Experimental/Pós-Rock
Sítio Oficial: MySpace








O Kilimanjaro, montanha branca do norte da Tanzânia, bem juntinho à fronteira com o Quénia, é o cume mais alto do continente africano. A mais de 5895m de altitude se erguem neves imemoriais, numa paisagem dominada pelo verde da savana. Esse cenário de contrastes e simbolismo inspirou o baptismo do projecto criado pelos holandeses Jason Kohnen e Gideon Kiers. Dos percursos individuais de ambos, sabe-se que Kohnen tem, sob a assinatura Bong-Ra, um percurso discográfico relevante nos domínios da electrónica irrequieta, de batida frenética e mistura de géneros, a que se convencionou chamar de breakcore, tendo inclusivamente já neste ano lançado (em formato 12'') um quarteto de revisões de Ross Csillag Alat Szuletett, álbum referencial de outro ícone do género, Venetian Snares. Gideon Kiers tem um trabalho menos notado, mas conhece-se o conceito multimédia Telcosystems, cuja estética computorizada lhe permitiu instruir-se nas linguagens sintéticas de vanguarda. O pretexto inicial deste par para a génese do Kilimanjaro Darjkazz Ensemble foi acrescentar música a alguns filmes de culto do circuito mudo, como os inesquecíveis Nosferatu, filmado por Murnau e Metropolis, de Fritz Lang. O progressivo alargamento do conceito a outros músicos, se proporcionou o crescimento formal do som do KDE, não diminuiu a inspiração na cinematografia, como bem se escuta neste álbum. Consideravelmente contrastante com os outros trabalhos de Kohnen e Kiers, a cadência deste tomo apela à inquietude pelo prenúncio de ambientes sombrios. É nesses pastos que se alimenta este animal de jazz livre, quase não-jazz, atraído pela sedução da electrónica compassada e pelos graus mais negros da órbita industrial do drone. Assim se faz um som apaixonante mas perturbador, sem réstias do abrasivo auditivo e das rotações aceleradas do breakcore (como se poderia esperar), antes em busca do aconchego do downbeat e dos efeitos sedativos da electrónica. A surpresa é ainda maior nos momentos em que o disco chega a tocar o primor minimalista, muito perto dos antípodas da assinatura Planet Mu (e do património Bong-Ra). Todavia, o inesperado não deslustra a competência dos trechos, ainda que demonstrem eficácia irregular, por vezes sobrando o juízo de que um ou outro acrescento poderia sublimar o resultado poético das composições.

The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble encerra música de bom quilate mas, comparando os sons com o título, despontam paradoxos. De jazz fica apenas uma síntese eventual, no processo evolutivo das composições, na forma como crescem sem formalismos adstringentes, mas esse método revela-se subliminar. O jazz não é, aqui, mais do que colateral, uma espécie de luminária distante e fugaz (como em "The Nothing Changes", peça que abre o disco). Depois, escutado o disco com zelo, as propostas não se mostram tão negras assim; é certo que se procura a protecção das sombras mas, nesse particular, outras experiências mais intensas nos foram oferecidas no corrente ano (vide Altar). Esquecidos os equívocos de baptismo, o álbum é a curiosa revelação de uma mutação diferente de Kohnen e Kiers e, aí sim, dá bom resultado. E, por esse prisma, talvez se perceba melhor a afinidade com os contrastes do Kilimanjaro. Habituados à verdura esparsa da savana electrónica, os holandeses (e amigos) quiseram dar-nos um bocadinho das frias neves que os sons sintéticos também podem oferecer e, com isso, brindam-nos com um tomo de música para absorver com a mente. E trocam os ritmos precipitados da gazela de Thompson pela passada tarda do elefante africano.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Balla - A Grande Mentira

Apreciação final: 8/10
Edição: Chiado Records/Edel, Novembro 2006
Género: Pop Nacional
Sítio Oficial: www.myspace.com/ballaportugal








Armando Teixeira tem sido um dos mais relevantes artesãos da música portuguesa contemporânea e, ao terceiro capítulo de um dos seus alter-egos presentes (o outro é o projecto Bullet...), percebe-se finalmente a inteireza sonora que se adivinhava nos passos anteriores. Já se passaram três anos desde Le Jeu, disco prévio de Balla, e, de lá para cá, Armando Teixeira sublimou as máximas de uma pop lúcida e perfeitamente consciente da sua baliza, com glamour subtraído à sétima arte e cheia de elegância. Novidade em A Grande Mentira é a sóbria presença vocal dele próprio na dezena de canções do disco, coisa não ouvida antes. Além do quase exclusivismo no canto do disco, o músico também puxa para si outros protagonismos, assumindo a responsabilidade das gravações, das misturas e da produção. A Grande Mentira é, por isso, o disco mais pessoal de Armando Teixeira, uma obra de ofício solitário a que se juntam, em meras colaborações esporádicas, Joana Mateus e Sylvie C. , como vozes de suporte, Dj Nel Assassin em skretchs pontuais, Vladimir Orlov no teremin e Paulo Souza na guitarra. Talvez esse isolamento criativo tenha concorrido para a sublimação das noções estruturais do autor, ao formar condições para a emenda de alguns pequenos desconchavos de outros trabalhos e, com isso, levando à depuração do som Balla. Um som opulento em matérias simultâneas mas que, em A Grande Mentira, encontra medidas justas para cada substância e enlaces cheios de oportunidade entre elas. O sabor dominante é, ainda que sabiamente encoberto em alguns trechos, um electro-pop-rock de matriz dançante mas, como não podia deixar de ser num produto Balla, há trajectórias cruzantes de outros géneros, como nos primorosos arranjos dos metais soprados ou do piano, tão perfeitamente integrados no esqueleto predominantemente sintético das canções. Depois, há balanços funk inconfundíveis - assuntos vizinhos do projecto Bullet - e qualquer coisa de uma pop inventiva que se dispõe a cruzar ambientes com fumos de cabaré e sons vagabundos.

Também nas letras, Armando Teixeira parece ter chegado à disciplina certa, ao formar textos sem ardil e empenhados em propagar serenamente um certo intimismo, circunstância também sensível na estética sonora do disco. É aí que reside a chave da empatia automática destas canções, na fidedignidade com que as composições dispensam as habilidades de estúdio e se afirmam, numa sedução cúmplice e honesta, um assomo conciliador do espírito com os ânimos dançantes do corpo (como na contagiante "Vou Fazer-te Brilhar"). Música com tamanha lisura não é feita todos os dias cá no burgo! E, se isso não bastar para satisfazer as criaturas melómanas mais exigentes, a excelência melódico-instrumental do disco faz a maravilha que falta. A Grande Mentira ressuscita os sinais vitais da pop lusa, despertando-a da imprópria letargia recente e aproximando-a das novas órbitas. Uma grande mentira assim pode muito bem ser a única verdade de que o panorama luso estava órfão.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Les Georges Leningrad - Sangue Puro

Apreciação final: 8/10
Edição: TomLab, Outubro 2006
Género: Art Rock/Vanguarda
Sítio Oficial: www.lesgeorgesleningrad.org








Eles são cultores do barulho. Não o chinfrim desordenado e sem comando, mas ainda assim barulho. Cada disco dos canadianos Les Georges Leningrad é uma briga de sons tão pouco descritível como a auto-definição do seu som: rock petroquímico. Tem rock? Tem. Em ângulos coléricos e sem esqueletos. Tem químicos e carburantes? Tem. A combustão é uma certeza, ora pela espiral de estoiro das composições, em velocidades inconstantes, ora pelo recontro de energias, da percussão tresloucada, das matérias sintéticas em despudor alucinante e do canto (discurso) coado. Poney P, a voz do trio, acentua as perturbações e a demência do disco, levando o auditor aos limites da tolerância e do ridículo mas, ao mesmo tempo, prendendo-o à estética intencionalmente desconchavada do grupo. A electrónica é o fabricante principal desse delicioso despautério, pondo de pé um corpo sonoro futurista, subliminarmente sci-fi e desconstrutivo, sustentado em fraseados esparsos mas que, no conjunto de cada trecho, dão forma a um conceito ímpar. É esse, de resto, um dos truques regidos pelos Les Georges Leningrad, um estratagema singular para, partindo do alento regenerador do pós-punk, chegar a uma ordem sonora sem igual, coberta de abstracções, dissonâncias, infiltrações e enigmas. Como se, de uma assentada pouco usual, se enredassem o fulgor eléctrico e a urgência do punk, o vanguardismo e a bizarria da electrónica espacial, um certo impulso dançante, a excentricidade tonal do noise, a raridade tribal e os mais variados laivos da arte contemporânea.

Sangue Puro é uma provocação a espíritos conformados e, por isso, não se recomenda a melómanos conservadores. Nada aqui é previsível, nem o podia ser com os Les Georges Leningrad. Talvez um pouco mais negro (e assombrado) do que os dois antecessores, o novo tomo é doutrina profana sobre sangue e morcegos. E nota-se esse gozo vampírico na música, na vibração carnal dos trechos, nos sustos repentinos, nos arrepios de caverna, no incitamento ritualista da noite, no cerimonial de escapismo improvisado. Poney P afirmou, em entrevista recente, que não há melhor símbolo para o som presente dos Les Georges Leningrad do que o morcego. O pequeno mamífero quiróptero é um animal ambíguo, sinal de fortuna em certas partes do globo e emblema de medos noutras. Assim é também a música dos Les Georges Leningrad, esfíngica e cruciante mas, em simultâneo, cativante e fatalmente irresistível. E Sangue Puro é uma das mais compensadoras sensações auditivas para este ano.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Damien Rice - 9

Apreciação final: 6/10
Edição: Warner, Novembro 2006
Género: Folk-Pop/Cantautor
Sítio Oficial: www.damienrice.com








Outrora um puto rebelde em busca de um espaço próprio no rock irlandês Damien Rice é, hoje, um nome firme da pop-folk britânica, volvida uma década desde os primeiros passos com o colectivo Juniper. Postos de parte esses arrebiques guitarreiros, Rice fez-se canto de melancolias espessas. "The Blower's Daughter", inesquecível peça de produção espartana que musicava repetidamente a película Closer (2004), de Mike Nichols, foi a mola mediática. Com a súbita chegada ao estrelato, o menestrel irlandês terá sentido, na preparação do segundo disco, a urgência de incutir outras marchas à sua música. Do tom platónico de O, pouco resta. Não se perdeu o tom aberto e confessional do debute, mas 9 encerra outra dinâmica instrumental, seja no recurso mais frequente ao piano (brilhante em "Accidental Babies") ou, surpresa maior, na incursão pela transparência rock. Coisa estranha (e dispensável) esta, a de escutar um trovador nas distorções de "Me, My Yoke & I"! No resto, há um pouco mais do mesmo, mormente no canto forrado a veludo de Rice, com as infalíveis oscilações de registo (do frágil e sussurrado à paixão da voz com corpo próprio), e nos exímios arranjos de cordas, de fino porte, essencialmente minimalistas, a oferecerem o complemento justo aos ângulos emocionais de 9. Lisa Hannigan, voz de flanco no primeiro álbum, e a violoncelista Vyvienne Long repetem o bónus e ajudam à eloquência do disco. Ainda assim, há em 9 uma superficial tentação pelo cliché ("Rootless Tree" é declaradamente uma amistosa amostra radio pop e "Coconuts Skins" tresanda a Paul Simon), coisa menos óbvia em O, e isso acaba por tornar o alinhamento algo aliterante e pouco sólido. Depois, o espectro de "The Blower's Daughter" povoa de través o disco, ou funcionando como mera luminária - quando Rice deposita emoções nas suas baladas mínimas - ou como ensejo formulista ("Elephant" roça o copy-paste, se esquecermos o crescendo final).

Se o entusiasmo instrumental (e a mudança pontual de tempos) transporta o disco para dimensões supostamente menos depressivas e até, aqui e ali, um pouco experimentais, por comparação com o antecessor, é porque Rice sentiu o pulso da mudança. Depois de tirar as medidas a 9, faz-se ilação imediata: ele sai-se melhor em narrativas baladeiras do que em ensaios camaleónicos noutras estirpes de som. E isso porque falta bússola ao desejo de mudança. Pois que se fique, por ora, nas loas de desamores e embaraços passionais e, quando se tentar ver livre das sombras de "The Blower's Daughter" (é possível?), que seja para valer. Às vezes, é melhor ter-se só duas cores, mesmo que elas sejam apenas gradientes do preto.

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Joanna Newsom - Ys

Apreciação final: 9/10
Edição: Drag City, Novembro 2006
Género: Pop Erudita
Sítio Oficial: www.dragcity.com








O debute de há dois anos, com o singelo mas mágico Milk-Eyed Mender, mostrara-nos uma voz de doçura angelical em canções feitas para encantar almas virgens. Candura em quimeras de criança, assim nos tocava Newsom com inocência. No desafio do segundo disco, a harpista coloca-se oportunamente um desafio maior: fazer crescer as suas composições, sem lhes subtrair a mais preciosa matéria, a castidade. Para esse encargo, Newsom convoca uma assembleia instrumental ambiciosa, com mais de trinta instrumentistas, entregando os arranjos orquestrais a Van Dyke Parks (esteve, recentemente, com Brian Wilson em Smile), a voz e a harpa à produção do omnipresente e cru Steve Albini e a arrumação final a Jim O'Rourke. Em boas mãos, portanto. Se o amparo de tão numerosa trupe de acompanhantes faria supor, antes da audição do disco, o risco de se corromper a magia (minimalista) do primeiro tomo, Ys desmente essa premissa de raciocínio. As cordas de Newsom, as vocais e as da harpa, prosseguem o magnífico pacto do trabalho prévio, preservando o miolo de candura da sua música. Elástica e prestes a flutuar da tremura tímida dos (não muito) graves sussurrados ao desabafo mais entusiasta dos agudos doces, Newsom canta como poucas, quase lembrando os inesquecíveis vaivéns de Nina Simone, de mel rouco, ou uma Björk dos dias menos ácidos à conversa com Kate Bush. Ou outra coisa qualquer, um anjo-criança fora das eventualidades do tempo e do espaço, um enlevante arrepio à prova de desarranjos ou do bulício. A harpa, jogo de cordas que melhor veste o adjectivo etéreo, é acólito e confidente das orações, delineando os contornos das melodias, com tons suaves como uma brisa de Verão. Depois, vêm os arranjos de orquestra, ora corpulentos ora minúsculos, a dotarem as canções com um impressivo toque clássico, nunca domando os solistas (voz de Newsom e Harpa), antes avivando-lhes o critério e o rumo. Este soberbo enlace com os esquemas barrocos da orquestra leva as composições a modulações mais próprias de uma suite e, em última análise, afasta-as da formatação mais tosca da estreia. Aqui, as peças formam uma rapsódia em cinco trechos, todos em elipses além dos sete minutos e sem refrões. Dédalos sedutores do cérebro.

Ys. é daqueles discos que não cabem em nenhuma família musical. Ambivalente na contemporaneidade das melodias, com algo de progressivo, e na militância renascentista de Newsom (veja-se, inclusive, a capa do álbum), o novo opus não é de êxtases imediatos. As melodias conduzem-nos a destinos sem previsão possível, as orquestrações são o efeito de sonho e as histórias cantadas de Newsom fazem de guia-intérprete numa jornada por novos mundos. Coisas assim originais (e sinceras) não se ouvem todos os dias, são fábulas musicadas para escutar, absorver lentamente, e perceber que, depois de tomadas na plenitude, se fazem causa imprescindível da alma.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Beck - The Information

Apreciação final: 7/10
Edição: Interscope, Outubro 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.beck.com








Após um punhado de álbuns de originais, já é difícil conjecturar sobre a pop moderna sem mencionar a arte de Beck. Sempre à cata de redimensionar-se, o americano tornou-se um dos emblemas do transformismo musical, teoria evolutiva que, aplicada com propriedade a espécies animais, bem serve para caracterizar o percurso do som de Beck. Iluminada por influências das mais díspares correntes, a música de Beck fez-se, numa dúzia de anos, um invulgar híbrido de géneros e tons, com primazia para o alvoroço funk (matéria aderente dos principais êxitos), é certo, mas com insinuações dos mais variados quadrantes, da música latina à electrónica, do folk melancólico ao noise rock, do blues ao free jazz, do lounge ao experimentalismo, do hip hop à pop de flor na lapela. Beck fez de tudo. Embora chegando até nós um ano depois da edição de Guero (2005), o novo disco foi gravado em 2003 e tem a produção de Nigel Godrich (terceira colaboração com Beck), ilustre engenheiro de som dos Radiohead e que, já este ano, pôs a mão em Eraser, estreia a solo de Thom Yorke. E, ao escutar o alinhamento de The Information distingue-se a interferência de Godrich, mormente na segunda metade do disco. Aí, o álbum desvia-se do repisamento de ideias passadas de Beck - traço marcante das primeiras faixas de The Information que, não soando anacrónicas, parecem migrações dos ambientes de Midnite Vultures (1999), com especial glória em Cellphone's Dead e Nausea (Simpathy for the Devil dos Stones cruzada com Loser?), dois trechos do melhor groove que Beck escreveu nos últimos tempos. Depois dessas revelações, progredir na relação de canções é descobrir, a par e passo, uma sonoridade vagabunda, não tão imediatamente amistosa do tímpano mas não menos aliciante. A esse feliz parto não é indiferente o detalhismo de Godrich, uma utilíssima ajuda na construção de subterfúgios electrónicos complexos que, guardando a alma ecléctica de Beck, lhe somam o nervo de vanguarda que melhor casa com as suas raízes.

Claramente mais cerebral, a última metade de The Information é a insinuação escapista de um Beck que se acha, a si mesmo, no meio termo entre os recursos de antanho que o celebrizaram e a visão absurda (como só Beck tem) de uma pop de canções sem régua. Um pouco mais sólido e completo do que Guero, ainda assim, o novel opus deixa algumas pontas soltas e, a despeito da vibração indiscutível e da interessante paleta de sensações que o disco captura, sobram imagens incompletas. Como na coda de encerramento do disco, vaga, comprida e quimérica, pontuada por boas ideias carentes de sublimação. Assim vai a música de The Information, na linha errante e especulativa de Beck, aqui como outra carga dramática, mas sem a reinvenção sonora que se podia esperar. A arca de música de Beck é abundante e esplêndida e abri-la é sempre um acontecimento, mesmo não sendo a maravilha de há uma década atrás.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

M. Ward - Post-War

Apreciação final: 8/10
Edição: Merge Records, Setembro 2006
Género: Cantautor/County-Folk/Indie Pop
Sítio Oficial: www.mwardmusic.com








Alguma auréola de trovador deve proteger M. Ward. Mesmo vendo os seus sucessivos trabalhos repetidamente ignorados pelos grandes públicos, o compositor norte-americano tem-se mantido fiel a um estilo próprio, muito próximo da mais ritualista tradição da country-folk do seu país e tem-nos mimoseado com pequenas preciosidades. Post-War é a proposta mais recente e vem na esteira dos antecessores, na estruturação concisa das canções, peças montadas sem o formalismo rígido que lhes tiraria a alma. Ouvir M. Ward traz à memória as inesquecíveis harmonias de Hank Williams, não tanto na eventual (e pouco sentida) similitude estética, mas sim na espontaneidade e laconismo. Ward, tal como Williams, guarda em trechos breves, um qualquer ápice casual e faz dele um instante singular, com uma incrível intuição rítmica, em tempos mais mexidos (na linha do country festivo) ou em cadência lenta (ao jeito da folk mais minimalista) e, sobretudo, com um apuro melódico natural. Sem artifícios. Música como a de Post-War dispensa conservantes, vive nos ecos tocantes de uma voz mel-áspero e na sobriedade da produção. É aí que o disco se afasta um pouco da regra mínima de Ward. Aqueles habituados à produção espartana de outros exercícios do autor, sentirão um brevíssimo sobressalto no primeiro contacto, por não suporem guitarras com máscara, percussões mais assertivas, teclas pontuais e arranjos mais ambiciosos. É que, ao lado do moço talentoso, há uma banda. E um som de banda. Superada a surpresa, tudo em Post-War é genuíno Ward, ora festivo e colorido (como no belo carnaval blues de "Magic Trick"), ora melancólico e circunspecto (como na enleante "Poison Cup"). Pode mesmo dizer-se, sem merecer a excomunhão, que há um sabor mais pop no disco, o que não é, nem podia ser com M. Ward, sinónimo de lamechice ou condescendência. A pop também pode levar com génio e M. Ward é homem para não fazer a coisa por menos: pesa melodias de menino, fecunda-as com afectuoso pólen primaveril, sopra-lhes a frescura de uma brisa vespertina e acende-as com as luzes do lusco-fusco.

Com Post-War, o seu mais esplêndido trabalho (talvez nivelado apenas por Transfiguration of Vincent), M. Ward investe noutras vibrações, à custa de um registo sonicamente mais farto que, com ágil engenho, se desvia da perdição do esdrúxulo. Crescimento sem hormonas, natural, meramente inato. Assim é também esta reunião de canções: madura, consciente, entusiasta e crédula. E escutar M. Ward é, cada vez mais, ter contacto com um dos melhores sujeitos da música típica americana que tem em Post-War um documento imprescindível. E um dos grandes produtos de ânimo pop para este ano.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Sérgio Godinho - Ligação Directa

Apreciação final: 7/10
Edição: EMI, Outubro 2006
Género: Pop/Música Popular
Sítio Oficial: www.sergiogodinho.com








Seis anos sem ouvir a palavra autorizada dos originais de Sérgio Godinho, um dos consagrados nomes da respeitosa reserva de qualidade do cancioneiro luso, é um silêncio importante. Prosseguindo o propósito de reconciliação do seu som com as causas modernas, ritual anti-estagnação de Godinho já começado no magnífico Domingo no Mundo (1997) e continuado, com menor fulgor, em Lupa (2000), Ligação Directa é uma firme colecção de canções e vem confirmar essa propensão reformista de um dos melhores compositores portugueses, coisa vista recorrentemente ao longo do seu percurso. O que não quer dizer que Godinho seja homem de modas, nunca o foi, mas também não é artesão que aferrolhe a sua música às oscilações temporais. A sua obra tem uma ciência privada, com o inconfundível tacto no uso da língua nacional, com humor e amor(es), metáforas e ironia e uma estética e identidade muito próprias, firmadas em mais de três décadas de canções. É aí, na essência identitária, que os sinais marcantes de Godinho nunca se perdem no (e com o) tempo, aceitando-o como mero salvo-conduto ou mecanismo de sugestões tonais e de arranjos, nunca como interrupção de um fluxo criativo genuíno e sólido, cuja continuidade não aceita onerar-se com tendências. É assim que as canções de Ligação Directa nos contagiam, na simultaneidade do embalo moderno, mormente na excelência dos arranjos, e dos distintos traços estruturais da música de Godinho, recheada de predicados intrínsecos à música de feição popular. Das sátiras nascem mais alguns verbetes para a caderneta de pitorescos retratos da sociedade lusa que o músico vem construindo: "O Rei do Zum-Zum" troça da futilidade de um país viciado em reality shows e ídolos vácuos; "No Circo Monteiro Nunca Chove" fala-nos de um Portugal de duas caras, presumido e vaidoso (novo-rico), mas endividado e indigente; "O Às da Negação" (com música de Nuno Rafael) é a efígie humorada de um desporto nacional do português, a recusa de responsabilidades; "Só Neste País" mostra-nos um país de dois pólos que se confundem, o encrespado pela crise e pessimista e, ao mesmo tempo, o convencido de si mesmo.

Em entrevista recente, Sérgio Godinho definiu Ligação Directa como um disco "meigo e cáustico". De facto, a ternura das canções de amor divide o espaço do disco com a crítica de certos padrões sociais, com o humanismo do costume. E sem clivagens. Sobretudo, há em Ligação Directa uma mensagem redentora, um bónus de confiança no português descrente. Musicalmente, o último trabalho de Sérgio Godinho, mesmo sem chegar à transcendência de outros momentos, é um fôlego de continuidade e traz-nos estampas sonoras de um país real, com deformidades reconhecidas (e pouco contrariadas), que as metáforas de Godinho pintam com erudição ímpar.

domingo, 5 de novembro de 2006

Música Fresca

Ultrapassadas algumas dificuldades técnicas no servidor de alojamento, finalmente pude actualizar a lista de músicas disponíveis na Grafonola. Assim, podem escutar na íntegra, desde hoje, os seguintes trechos:

Junior Boys "Count Souvenirs"
Junior Boys "Double Shadow"
Junior Boys "So This Is Goodbye"
Spank Rock "Coke & Wet"
Spank Rock "Rick Rubin"
Spank Rock "Blackyard Betty"
The Thermals "St. Rosa and the Swallows"
The Thermals "Test Pattern"
The Thermals "An Ear For Baby"
Dani Siciliano "They Can't Wait"
Dani Siciliano "Big Time"
Chad VanGaalen "Red Hot Drops"
Bonnie 'Prince' Billy "Cursed Sleep"
Bonnie 'Prince' Billy "The Letting Go"
Ratatat "Swisha"
Ratatat "Lex"
Loto (feat. Del Marquis) "Golden Boys"
Bert Jansch "Texas Cowboy Blues"
Fat Freddy "2"
Mastodon "Crystal Skull"
Yo La Tengo "Sometimes I Don't Get You"
Sunn O))) & Boris "The Sinking Belle (Blue Sheep)"
The Decemberists "The Crane Wife 3"
The Decemberists "Yankee Bayonet"
The Decemberists "O Valencia!"
Isis "Dulcinea"

Os álbuns onde estão registadas estas músicas passaram pelo apARTES nos últimos tempos.

Espero que gostem.
Obrigado pela fidelidade.

Wolf Eyes - Human Animal

Apreciação final: 8/10
Edição: SubPop, Setembro 2006
Género: Noise Experimental/Industrial
Sítio Oficial: www.wolfeyes.net








Da miríade de ofícios musicais que nos são dados a ouvir, a escola do noise é das principais cultoras do repto à coisa padronizada e, em razão disso, não são raras as vezes em que, de uma forma ou de outra, os produtos desta família apostam em abanar consciências. Definidor de extremos acústicos, o género pode acolher os mais variados estímulos instrumentais, reais ou sintéticos, pouco importa, desde que, de entre a concorrência de discursos, sobrevenha o imprescindível ruído, afinal o objecto essencial para a inquietude do ouvinte. E é aí que o trio americano Wolf Eyes não dorme. Mesclando as radiações eléctricas e as silhuetas do metal mais ríspido (não necessariamente com a mesma álgebra) com o noise de compleição industrial, Nathan Young, John Olson e Aaron Dilloway criaram um tenebroso mundo privado, sufocante e torturado, negativo, muito escuro, agressivo (quase hostil) e tenso. Burned Mind (2004) foi cidadão paradigmático desse universo, com distorções volumosas e pujantes, brados fantasmáticos e agonizantes e baixo cortante num ambiente de suplício quase intolerável e com estímulos de choque não facilmente toleráveis por espíritos menos abertos. Uma verdadeira elegia noise. Os primeiros espasmos de Human Animal dão provas de uma mutação subliminar, por comparação com o antecessor. Apostando menos nas cargas de guitarra e mais no feedback e na estática (também jogando mais com o drama no silêncio), o corpo sonoro dos Wolf Eyes mudou. O pendor industrial-nocturno é sublimado, a ponto de se tornar a matéria dominante, tanto nos efeitos de percussão como nos sermões sinistros do ruído; as guitarras, ainda que presentes, são um dádiva mais distante (excepção feita a "Noise Not Music", peça derivativa de Burned Mind) e as aparições mais casuais do baixo ganham uma utilidade reforçada. Depois, um colérico saxofone, lançado ao éter como substância de contraste, é uma adição oportuníssima às texturas sinuosas do trio.

Independentemente do prisma que sirva à audição de Human Animal, o absurdo de agressão de Burned Mind não tem continuação. O que é o mesmo que dizer que, sem renunciar às propriedades de um som ominoso, a abordagem do trio é mais gentil, se é que tal adjectivo encaixa neste léxico de sons paranóicos e intensos. A inesperada deserção do parceiro de longa data Aaron Dilloway - padrinho de lançamento do projecto que, posteriormente, se juntou à então one-man-band de Nate Young - e sua substituição por Mike Connelly (dos Hair Police) talvez não seja dissociável disso. Era o experimentalismo desconstrutivista da guitarra de Dilloway que puxava pelos extremos viscerais do grupo, aguçando as suas neuroses e retorções e dando-lhes a carnalidade e o sangue. Hoje, sem Dilloway, a hipnose é outra, mais nervosa e cerebral, de sons cavos e acres, também mais maquinais e instintivos. Mas o pânico frio não se foi, pois o noise dos Wolf Eyes não se fecha na técnica, é algo maior, uma entidade transcendental que, independentemente do veículo (e dos artefactos) e do tempo, sempre toca (e tortura) a face negra do cérebro. Lá, onde o homem assustado se esconde do mundo. O animal humano.

sábado, 4 de novembro de 2006

Fat Freddy - Fat Freddy

Apreciação final: 7/10
Edição: Cobra Discos, Outubro 2006
Género: Rock Alternativo/Espacial
Sítio Oficial: www.fatfreddy.pt.to








Algumas almas mais atentas a estas coisas da música já tinham sido avisadas com Fanfarras de Ópio (2003), título de debute deste promissor agrupamento matosinhense, que os Fat Freddy são uma charanga dos diabos. Para eles, a música é uma convulsão de tropismos, de motins e comoções recorrentes, de corpos em movimento em órbitas menos definidas e, acima disso, de desvios criativos com a mesma dose de equilíbrio e delírio. Vê-los ao vivo é perceber tal exaltação puxada à derradeira adrenalina, ao serviço de um som futurista, é certo, mas sem pretensiosismo de vanguarda. Dir-se-ia que eles se mexem no orbe rock mas esse rótulo é castrador. Se a fertilidade sonora do disco prévio apontava a composições de cariz fortemente experimental, pautadas pela extravagância, Fat Freddy vai um pouquinho além, forjando idênticas enxurradas de som, com o opiáceo simbolismo cinematográfico do costume, mas com uma viveza reforçada. Mais cor é igual a maior vertigem. E é essa urgência pela tontura o coração das atmosferas de Fat Freddy, cheias de matéria combustíveis, nas guitarras em estalo, nas programações vibrantes, nas percussões viscerais. Tudo junto, Fat Freddy é uma estranha peleja sideral, um bizarro alinhamento de planetas, com guitarras de filmes de espiões e falas sintéticas de alienígenas psicadélicos e admiradores das polkas do levante europeu. Cortante e de ácidos vermelhos, Fat Freddy é de uma continuidade impressionante, ao ponto de poderem dispensar-se os intervalos entre faixas. Mas isso, ironia ambivalente, também joga em seu desfavor: a visão dos Fat Freddy é tão monolítica que não se conserva bem em fragmentos, os mínimos silêncios desbotam um pouco as matizes. Por oposição, também são o garante dos espasmos do disco e o catalisador do sintagma de picos, afinal um dos cunhos intrínsecos do veneno da dupla. Curioso mesmo seria ver como respirariam estes elementos, se conjugados numa extensa peça única...

Fechou-se o ciclo da fanfarra, abriu-se o pórtico do fantástico. Mais ilusório (não falso) do que o antecessor, o segundo trabalho dos Fat Freddy é irrequieto (nem seria de esperar outra coisa) e bem escrito. O lucro da união entre acústico e sintético é maior - como na jucosa revisão de "Das Model", dos lendários Kraftwerk - e mais abrasivo. Nuno Oliveira e Guedes Ferreira são precursores em ares inóspitos, a tactear as formas de uma impressão sonora sem modelo e a impugnar a previsibilidade. Com mais artifícios espaciais e um balanço rítmico mais convincente, Fat Freddy talvez ainda não seja a megalomania sonora que os matosinhenses fazem adivinhar no porvir, mas é uma experiência galopante e fogosa, quase surreal, com manhas futuristas e muito topete. Audácia, bem entendido, é o middle name dos Fat Freddy. E, bem vistas as coisas, não é preciso ser-se um qualquer milionário russo de algibeiras abastadas para fazer um promenade espacial. O novo disco dos Fat Freddy, por uma maquia muito mais simpática, dá uma ideia...

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

OOIOO - Taiga

Apreciação final: 7/10
Edição: Thrill Jockey, Setembro 2006
Género: Indie Rock Experimental/Vanguardista
Sítio Oficial: http://ooioo.jp








Tribalismo acelerado na percussão e uma chiclete electrónica, assim são as primeiras notas de Taiga, quinto fascículo das japonesas OOIOO. A extravagância experimental destas raparigas, em contraste com a evidência binária do seu nome, não é já surpresa para ninguém, ou não fossem elas um vector referencial das coordenadas menos convencionais da música asiática. Escutar um opus das OOIOO é aderir a uma causa de contorcionismos vários, um genuíno assalto aos domínios punk com pretextos reformadores, a esticar-lhe os extremos para outras paisagens, de potenciais diversos: subliminarmente pop, psicadélico é certo, de vanguardismo free-jazz, com notas sem agregação especial e destino incerto, de programação electrónica futurista, de noise ou até funk minimalista. Nesse sentido, a música das OOIOO é produto aloucado, é som que se orgulha da imprudência propositada que, as mais das vezes, se torna cacofonia e caos. Mas a babel das OOIOO tem uma ordem intrínseca, uma maneira muito própria e singular de se arrumar no desalinho, recebendo o motim instrumental como uma substância inseparável, dando-lhe sentido e proporção. É assim a ciência de Taiga. Yoshimi P, bateria, voz, guitarra e trompete dos Boredoms, outra referência nipónica, é a persona central da ousadia criativa do quarteto. Nas OOIOO, Yoshimi desnorteia-se por acinte, exponenciando a amplitude do psicadelismo e recriando o conceito global de rock. Sim, porque de rock se trata, não de um rock sem mistura, antes um rock esquizofrénico e mutante, sem maestro óbvio, tribalista, jocoso, e cruzador de géneros. A intoxicação de Taiga vai directa ao cérebro, com mantras corais que tiram êxtase do pormenor e da aparição esporádica e texturas cosidas à agulha, firmadas em percussões acústicas (congas, xilofones, djembés, baterias) e numa feitiçaria sónica ímpar.

Não é normal um disco com semelhante preparo ser acessível. Tão intricadas tramas de sons, contudo, no caso de Taiga, revelam-se estranhamente percebíveis nos primeiros contactos, talvez porque retêm, com astúcia raríssima, uma certa credulidade tribal, algo que, circunscrevendo a identidade do disco a um determinado temperamento, não limita a infinidade de reflexos e estímulos intelectuais que a música crua (mas sofisticada) das OOIOO desencadeia. Sem confusões, a inconstância tonal de Taiga é um regalo para os ouvidos e a melhor licença para fantasiar um universo surreal, com uma floresta tropical onde vivem em comum tribos de canibais, gueixas japonesas sob o efeito de alucinogénios e personagens aposentadas dos livros de comics. Ou isso, ou o que é mais ou menos o mesmo, a hora e pico de exposição aos sons de Taiga.

Posto de escutaUMAIOASAI

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

The Decemberists - The Crane Wife

Apreciação final: 7/10
Edição: Capitol, Outubro 2006
Género: Indie Pop-Rock/Pop Erudita
Sítio Oficial: www.decemberists.com








A pop indie já não vive sem Colin Meloy e os seus The Decemberists. Eles são uma das mais reputadas exclamações melódicas do circo pop contemporâneo, tendo esculpido um património curto (este é apenas o quarto registo da banda) mas tão robusto e substancial que faz do quinteto americano uma alusão óbvia em qualquer rol de indies musicalmente relevantes. Picaresque, unanimemente reconhecido como uma das obras essenciais do ano transacto, deixou o sabor de uma pop elegante, arredondada pela porção certa de um experimentalismo que se confunde com fantasia e teatralismo, condimentos oportuníssimos para as metáforas e símbolos dos escritos de Meloy. The Crane Wife merece idêntica erudição, tanto na lírica (imaginativa, como sempre) como nas pautas, preenchidas com as harmonias tonais e o embalo gracioso que se tornaram firma dominante da banda. Sopa no mel de estruturas simples, sons volantes e acordes que fluem naturalmente, como se houvessem sido inventados para se combinarem nestas eufonias. E esse equilíbrio ingénito é uma carícia nos tímpanos, sem contudo se perder em precipitações la-la-la ou favores à radio pop, tentação (ou imposição) que habitualmente sobrevém à assinatura com uma major. No debute pela Capitol, os The Decemberists são fiéis a si mesmos, guardam os mesmíssimos princípios de Picaresque, eventualmente abreviando o gradiente de cores, em prol de um som que, sem perder a majestade instrumental, segue uma espia mais lacónica. O que é o mesmo que dizer que Meloy e seus pares põem, neste capítulo, menos fé no laboratório e mais crédito na causa das canções. E são boas as canções que servem o conto japonês por detrás de The Crane Wife, disso não há dúvidas, mesmo que fiquem um tanto aquém da eminência de outros momentos.

"The Island", peça maior (em tempo e atributo) do disco, e "Yankee Bayonet" fazem a melhor sinopse que este álbum podia ter. Na primeira, está lá tudo, numa sequência progressiva de três composições (coisa a fazer lembrar a peça única de The Tain, EP de 2004) que se alinham numa só e onde se percebem as pontes óbvias com Picaresque e, em simultâneo, ao que vem The Crane Wife e como a banda sabe o que faz: belas melodias, arranjos convenientes, alternâncias e elasticidade estrutural, mescla de géneros, ensaios e contorcionismos instrumentais. Já "Yankee Bayonet", com a voz de Laura Veirs em dueto com Meloy, mostra-nos a face mais viva das melodias e a urgência estrutural da simples canção pop que, mesmo com uma lírica trágica, demonstra uma tendência triunfante.

Dois caminhos para uma pop instruída, dois traços característicos de uma banda especial com queda para fazer do drama proverbial o mantimento de sonatas refinadas. The Crane Wife é uma adição oportuna ao universo dos The Decemberists e, mesmo não tendo a consistência de outros discos do grupo (a estéril "When the War Came", ao estilo de uma dormente cadência hard rock, é um dos exemplos de embaraço), é um ciclo de canções compensadoras. E os The Decemberists continuam a ser um ensemble cheio de virtudes.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Isis - In the Absence of Truth

Apreciação final: 7/10
Edição: Ipecac/Rastilho, Outubro 2006
Género: Pós-Metal/Metal Progressivo
Sítio Oficial: www.sgnl05.com








A estética dos americanos Isis dispensa apresentações. As texturas básicas são próprias do corpo teórico do metal mais possante, mas posto ao serviço de uma matriz distinta, já não potenciadora da potência acústica, antes criadora de ambientes tensos e atmosferas introspectivas. Pitadas de sons progressivos, numa dinâmica de baixos e altos alternantes, com acordes e riffs abertos, algum feedback e vocalizações mudáveis (do canto ocasional ao brado angustiado) - facto mais notado nas edições recentes - são os ingredientes idiossincráticos do ensemble. A extraordinária combinação de propósitos minimalistas, ao jeito dos Earth - referência incontornável da música dos Isis - com o ímpeto e pujança das escolas mais robustas, proporciona um espaço infalível para a experimentação e para o jogo de contrastes, rompendo convenções estruturais de composição. Divagantes e crescentes, é no desassossego e no desarranjo espacial do som que as peças dos Isis encontram a purgação. Nesse particular, seguindo a linha orientadora de Panopticon (2004), registo anterior da banda, o novo opus é outro estádio na transição dos Isis para um som mais limpo, necessariamente mais brando, mas onde as partes se integram com outra concisão, deixando de lado o peso dispensável de alguns excessos de outros exercícios. Além do apaziguamento vocal, pormenor especialmente notório na aproximação a timbres mais amistosos de um Aaron Turner longe do berreiro insistente de outros tempos, a produção do álbum reforça a nitidez melódica dos trechos, fabricando o complemento seguro para a musicalidade indutora de transe do grupo americano. Não é que In the Absence of Truth seja uma redefinição das marcha dos Isis, nada no disco toca o imprevisto, mas o incremento da harmonia das composições e a convergência (aí sim, menos esperada) para o pós-rock, tornando a música menos física e mais cerebral, são rastos de um carácter novo e da abertura de ângulos poucas vezes ouvidos no orbe metaleiro. A brincar com os arquétipos próprios ou a aventurar-se num estilo pós-metal progressivo, os Isis trilham caminhos mais ambiciosos na composição. Falta saber se os séquitos de longa data lhes vão perdoar a gracinha.

In the Absence of Truth encerra um mistério. Por ser gerado num momento de transição, com as consequentes nódoas e virtudes, não chega a perceber-se se é um disco pós-metal ou, pelo contrário, um tomo pós-qualquer-outra-coisa, tal a primazia de tons, melopeias e inflexões que mais parecem um estranho híbrido entre os Mogwai, os Neurosis e os Explosions in the Sky. Essa incerteza identitária (outros chamar-lhe-ão eclectismo), embora manche o discernimento da obra e deslustre a cambiante mais importante da essência dos Isis (o encaixe cerebral das cadências metal), não subtrai méritos ao ensemble americano, nem diminui o relevo do seu crescimento artístico mas refreia a exaltação desmedida que, depois de Oceanic (2002) e Panopticon (2004), elevou os Isis ao estatuto de voz suprema do pós-metal.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Loto - Beat Riot

Apreciação final: 6/10
Edição: Som Livre, Outubro 2006
Género: Electro-Pop
Sítio Oficial: www.loto.cc








Após um debute promissor que os empurrou para a dianteira do andamento moderno da pop lusa, os alcobacenses Loto trazem-nos o segundo registo, dois anos volvidos da surpresa descontraída de The Club. Mesmo com um som de substância menos sintética, em razão do reforço das instrumentalizações acústicas, a predilecção pelos sons de Manchester continua a ser o chafariz de inspiração primária. Nessa linha, Peter Hook, o insurgente baixista dos Joy Division (e, depois, dos New Order) é convidado de honra e tinge dois trechos (o single "Cuckoo Plan" e "Beat Riot") com arpejos escuros, do mesmo timbre de gravidade escura que se fez carimbo de uma geração. Além desse notado acrescento ao corpo sónico do trio português, Del Marquis, guitarrista dos mediáticos Scissor Sisters, é o amparo e as arestas de "Golden Boys", momento maior do disco. São estas interferências importadas que confirmam a maturação instrumental dos Loto e introduzem um padrão renovado de coordenadas, não prescindindo do propósito dançante mas a desatar as guitarras do ascendente electrónico. O resultado dessa deslocação é um som mais fluido, com um sentido de proporção mais apurado e, sobretudo, uma orgânica mais precisa. Tal evidência aponta uma subliminar descontinuidade face a The Club, tomo essencialmente vocacionado para as pistas de dança e, embora não se possa falar em ruptura, antes em renovação de ambientes, Beat Riot é mais amplo. Parte dessa expansão é imputável à criteriosa produção de Roger Lyons que, com rigor de acupunctura, sublinha a ambição sóbria do disco.

Se tecnicamente Beat Riot merece apenas reparos mínimos, o que obsta a que seja o álbum que podia (devia) ter sido? Sem rodeios, as canções. Os Loto perceberam a utilidade de uma arrumação diferente do espectro sonoro e, com isso, afastaram dúvidas na resposta aos quesitos técnicos do sempre difícil segundo álbum. Pena é que, com a excepção de algumas malhas bem urdidas ("Cuckoo Plan", "Golden Boys" ou "Beat Riot"), o crescimento do corpo sonoro não condiga com idêntico incremento das composições. Daí advém um alinhamento algo prolixo, com ideias dispersas (e também uma ou outra canção inoportuna) a ofuscarem os lances mais felizes. Mesmo assim, Beat Riot vem provar que há nos Loto boa substância. Consigam os rapazes de Alcobaça aprimorar as melhores ideias e, nas imprevisíveis sortes e números do destino, talvez venham a gritar o ansiado brado da confirmação: Loto! Por ora, a mudança na disposição da mobília, coisa bem feita por Beat Riot, se é certo que deu outra fisionomia à cara musical dos Loto, não chegou para lhes dar a moradia nova. A promessa ainda carece de confirmação.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Bert Jansch - The Black Swan

Apreciação final: 7/10
Edição: Drag City, Outubro 2006
Género: Folk/Cantautor
Sítio Oficial: www.bertjansch.com








Figura incontornável da folk britânica das últimas décadas, quer como parte do miolo criativo do colectivo Pentangle, quer como compositor solitário, o escocês Bert Jansch já vale quatro décadas de canções. Na volta após um hiato de quatro anos, o guitarrista acerca-se das noveis marchas da folk e, para tal fito, nada melhor do que uma escolta de gente reconhecida nessa órbita. A produção é de Noah Georgeson (pôs ouvido e dedo em Milk-Eyed Mender, de Joanna Newsom, e Cripple Crow, de Devendra Banhart); Beth Orton, cantautora inglesa eternamente apreciada aquém do seu mérito, empresta voz e guitarra (em "When the Sun Comes Up", "Katie Cruel" e "Watch the Stars"); Devendra Banhart canta em dueto (escondido) em "Katie Cruel"; David Roback (Mazzy Star) e Kevin Barker (Currituck Co.) dedilham alguns suplementos de guitarra; Helen Espvall (Espers) espalha cosméticos sublimes de violoncelo e Otto Hauser (Espers, Vetiver) é a bateria (e demais percussões) perita em velar pelo tom brando do registo. Semelhante trupe de amigos é o aditivo certo para a música de cariz tradicionalista de Jansch se ajeitar aos padrões contemporâneos, sem resignar a esse soletrado melódico herdado de eras e trovadores perdidos no tempo. Dos anais da folk britânica, The Black Swan acolhe cinco composições, depoimentos inequívocos do vínculo de Jansch às fontes originais e atestado de continuidade para os fãs de afectos mais antigos. A par dessas cantigas imemoriais, arranjadas com eloquência, há uma meia dúzia de canções originais, com o cunho clássico do autor, os inconfundíveis rendilhados da guitarra - executados com a erudição de um veterano - e o majestoso equilibrío na mescla de ambientes diferentes, do meditativo tema-título ao aparato quase gospel de "Watch the Stars", do blues bem americano de "Texas Cowboy Blues" à canção de protesto em "Bring Your Religion".

Ícone da ciência folk e muitas vezes considerado o reflexo simétrico de Bob Dylan no outro lado do ocean - analogia não totalmente despropositada dada a preponderância de cada um no curso da folk atlântica desde os anos sessenta e a sua influência em músicos de gerações posteriores - impunha-se a Bert Jansch que, em curiosa sintonia temporal com a edição do disco de Dylan neste ano, não perdesse o renascimento recente da folk. O novo tomo é, por isso, a declaração de vitalidade segura que se esperava de alguém como Jansch, um militante de causas antigas, aqui misturadas com as substâncias da contemporaneidade da esfera folk de hoje. The Black Swan pode não ter o impacto e a sublevação de outros momentos do percurso de Jansch, mormente os mais antigos, mas louva o regresso de um dos grandes guitarristas do nosso (e de qualquer) tempo e a retoma do protagonismo que, mesmo na sombra de Dylan, o mundo folk sempre lhe deveu.

domingo, 22 de outubro de 2006

Sei Miguel - The Tone Gardens

Apreciação final: 8/10
Edição: Creative Sources, Setembro 2006
Género: Jazz Vanguardista
Sítio Oficial: http://rt2.planetaclix.pt/seimiguel








Sei Miguel é um cidadão da vanguarda do jazz. Artífice de singular competência com o trompete, mestre na extravagante investigação dos limites do espectro tonal, Sei Miguel tornou-se uma das mais expressivas entidades da moderna música lusa. O culto do risco e das ciências fragmentárias do som, a proporção entre a omissão e o discurso mínimo, a álgebra binária e a sugestão plural do trompete, são alguns dos conceitos emblemáticos dos itinerários errantes do trompetista português. O novel opus, The Tone Gardens, espia os mesmíssimos silogismos, aqui inscritos em três peças conceptuais, amostras férteis de incertos jardins de tensões movediças. A dedicação a esses sons de contingência, como se fossem o senso guia da expressão tonal do disco, é matéria não estranha a Sei Miguel e seus pares. O silêncio não é inimigo, antes é acatado como fragmento importante dos exercícios de improviso grupal. Ao trompete de bolso de Miguel, substância liderante de cada episódio, fazem contraponto o trombone alto - filamento indispensável ao ânimo coloquial do disco - de Fala Mariam, as partículas percussoras de César Burago e a electrónica avulsa de Rafael Toral, interposições úteis ao embalo incerto das composições. Estes músicos são comparsas de longa data de Sei Miguel, conhecem-lhe os truques e praxes e isso é perceptível nas três suites de The Tone Gardens, pela harmonia e intimidade na arrumação dos sons, pela convergências nas construções e pela coerência.

Como em qualquer produto de Sei Miguel, a música de The Tone Gardens não é gorda nem se enche de cores desnecessárias. O recheio é de uma sobriedade superlativa, quase espartano, mesmo que se perceba, nas orações despojadas de cada jardim, um cuidado acrescido na produção, por comparação com outros títulos de Sei Miguel. A delicadeza das peças, agora com arestas limadas, não lhes perturba a precisão e o sentido estético, a confluência de energias e a estruturação complexa. Ainda assim, The Tone Gardens não é jazz clássico e, por isso, pode não ser tão eficaz a convencer tímpanos menos preparados para o vanguardismo. De qualquer jeito, Sei Miguel é nome maiúsculo da música lusa e The Tone Gardens um documento supremo do novo jazz, desta e doutras eras. Na sua época, o mítico Miles Davis, cuja magna silhueta é plano referencial de Sei Miguel (e de qualquer trompetista que se preze), disse que o músico genuíno não teme o erro porque ele não existe. The Tone Gardens, corroborando esse ensinamento do mestre, não teme os riscos da incursão em órbitas futuristas e da integração de elementos instrumentais incomuns. E do erro, nem vestígio...

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Chad VanGaalen - Skelliconnection

Apreciação final: 6/10
Edição: SubPop/Musicactiva, Setembro 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.flemisheye.com








A música não é uma prioridade para o canadiano Chad VanGaalen. Operário e amante das artes visuais e da pintura, foi quase fortuita a sua chegada ao orbe das canções. A perseverança de um amigo convenceu-o a dar voz às inúmeras composições instrumentais que, ao longo de cerca de cinco anos, juntou despretensiosamente na intimidade do quarto, sem prever que as voltas do destino as tornariam notícia pública. Daí a ganhar a simpatia da SubPop, bastou a publicação de Infiniheart (2004), pela minúscula Flemish Eye, selo de Calgary (terra natal de VanGaalen). O registo era uma selecção daquelas gravações caseiras e seria re-editado no ano seguinte, no mercado americano, pela SubPop. A sequela está aí, chama-se Skelliconnection e segue símil padrão: as canções aqui combinadas provêm da mesma lavra doméstica do antecessor. Sem que a revelação de Infiniheart tenha sido um feito magno para o mundo indie, embora mostrando um compositor de muito razoável esmero melódico e com uma tendência curiosa para a divagação instrumental, faz-se questão sobre a oportunidade de tão expedito zelo (da SubPop) em repetir a sondagem às gravações casuais de VanGaalen. Por certo, o julgamento de que, por entre dezenas de peças, alguma coisa haveria de valer uma segunda edição, terá conduzido a Sub Pop a um lançamento que, não sendo despiciendo, pouco acrescenta a Infiniheart. Não quer isto dizer que VanGaalen seja um músico estéril, mas, em boa verdade, ainda que a sua música denote um senso estético assinalável, em torno de uma ordem de essências pop, nada cresce além da competente mediania. O que até nem é inesperado de um músico de ocasião, como o próprio não raras vezes manifestou.

Na comparação com Infiniheart, quiçá se deva denunciar o ajuste de uma toada menos uníssona, numa relação de trechos que ganha em atalhar por outros princípios harmónicos, mormente na afinidade (não percebida no antecessor) com a ciência rock e/ou com instrumentalizações menos triviais. Assim se entendem mais pacificamente o desvio de guitarras acres de "Flower Gardens" ou o mimo electrónico de "Red Hot Drops", instante mais feliz do disco. É certo que nem sempre a arte eremita de VanGaalen se aguenta no maneio de tais artefactos, em prejuízo da congruência harmónica do álbum, mas há em Skelliconnection vestígios de um artesão que, ao jeito de um Beck vadio, tem faculdades para inventar vidas para o som. Assim ele largue o lápis de carvão, se torne músico a tempo inteiro e empregue tempo a sublimá-las.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Sunn O))) & Boris - Altar

Apreciação final: 8/10
Edição: Southern Lord, Outubro 2006
Género: Drone Metal/Doom/Pós-Rock
Sítio Oficial: www.southernlord.com








Os americanos Sunn O))) fizeram do drone monocórdico e de baixa frequência um proveito gregário, estendendo os seus tardos compassos a públicos mais latos e provando, com sabedoria religiosa (de culto negro, entenda-se), que a música lenta é também degustável. E que, acima disso, o metal não é refém de galopes rápidos. Afinal, um acorde áspero repetido vezes sem conta, na cadência demorada dos passos de um lúgubre gigante, pode ter usos além do mero esqueleto criativo e, nesse minimal sacerdócio, os Sunn O))) são uma das mais aptas conjecturas de sombras e ambientes espectrais. As cirurgias do par americano não são meigas, a distorção amplificada é subsídio certo, a palavra é silenciada e cede lugar a colossais missas negras, de matérias sinistras e inquietantes. É rigorosamente nesses timbres fantasmáticos que se acham porções de identidade com os argumentos dos nipónicos Boris, mormente com as primeiras obras, mais próximas dos compêndios drone. Só que, na inversa dos Sunn O))), os Boris não fecham as suas frequências aí, antes disputam substâncias de outras escolas rock, ora abeirando-se do stoner maciço ora dos padrões punk, mas com orifícios experimentalistas o suficiente para evasões oportunas com o nervo do psicadelismo ou a prudência minimalista. Com ruído, muito ruído. Inscrever o nome Boris num catálogo musical não é coisa simples, tão monolítica e destra é a mescla de géneros, normalmente apurados num delírio colectivo, frenesim típico do desassossegado colectivo japonês. Bipolaridade maníaco-depressiva é a patologia deles, diagnóstico comprovado pelo confronto entre o ruidoso Vein, lunático lançamento para 2006 e o seu antecessor, Pink (2005).

Feito o obséquio introdutório, dêmos o ouvido à meia dúzia de peças de Altar, título que regista a primeira cooperação em estúdio dos dois projectos. "Etna", faixa de abertura e o mais tradicional dos trechos, é uma massa de estratos drone, componente idiossincrático dos Sunn O))) a que, paulatinamente, se junta uma bateria alucinada, que ao invés de parecer uma intrusão ao protocolo, acrescenta a dose certa de improvisação. Da surpresa, depois completada com outras guitarras em rapina do espaço remanescente, sobram razões para ponderar o acerto de um futuro com bateria nos Sunn O))). Contas de outro rosário. Segue-se a curta hipnose de "N. L. T.", labirinto sonoro feito de dissonâncias e agudos, de feedbacks e reverberações gravitantes, ao jeito de uma quadrilha de corvos fantasma à cata do assalto aos últimos fragmentos de silêncio. Depois da quietude vencer os corvos, o acontecimento majestoso de Altar: "The Sinking Belle (Blue Sheep)". Jesse Sykes, voz que antes se ouvira apenas no romantismo country, é o sublime canto de anjo negro de uma imprevista composição pós-rock. Belíssimas sinergias instrumentais entre ecos de guitarra (sem o peso drone) e esparsas gotas de piano formam um corpo musical extático e que cuida de tentar a catarse na evocação da placidez, autenticando uma bem conseguida evolução dos músicos para um registo distante do usual. Prova de talento. Como no feitiço de "Akuma No Kuma". Cheia de pingentes e cosméticos experimentais, a composição recreia-se num ápice de suspense, volvendo-o repetidamente do avesso, devolvendo-o à forma original depois de lhe somar estímulos sensoriais e fantasias de bateria. O ilustre Joe Preston (Melvins, Earth, High on Fire, Thrones) é a voz robotizada. A quinta peça, "Fried Eagle Mind", é uma oração de caverna, de humidade fria e arrepiante, de sustos e avantesmas errantes. Resta "Blood Swamp, segmento terminal do disco, coda em crescendo rumo a um remoto apocalipse drone, com a guitarra cicerone (e indecifrável) do saudoso Kim Thayil (ex-Soundgarden) a pontuar o código de negritude Sunn O))), dando-lhe ângulos de um idioma agudo.

Não obstante a prodigiosa natureza da colaboração - impulso que há-de obrigar os adeptos da etiquetagem a uma redefinição do género drone - há em Altar um ou outro rasgo necessitado de uma detonação mais forte. Minudência essa que, todavia, não impede que o disco, menos recomendado a tímpanos convencionais, se torne uma escuta imprescindível e um dos auges criativos do ano musical.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Bonnie "Prince" Billy - The Letting Go

Apreciação final: 8/10
Edição: Drag City/Domino, Setembro 2006
Género: Indie Folk/Lo-Fi
Sítio Oficial: www.bonnieprincebilly.com








Não é que se deva esperar de Will Oldham qualquer espécie de rebuliço, esse não é o padrão do autor, mas os primeiros acordes de The Letting Go são prenúncio de um disco de aconchegante intimismo, com violinos em suspensão romântica, a dar o mote (e o timbre) para o quinto registo de Oldham como Bonnie "Prince" Billy. Com pezinhos de lã, ele fez-se ícone de uma folk tradicionalista, como estampa de uma América pessimista e vigilante das calendas antigas, de semblante opaco e taciturno, sorrisos ocos de esguelha e olhares sumidos nas vastas campinas. Assim errante e incorpórea é a música de Oldham, com estilhaços apocalípticos, necessariamente estreita na ousadia instrumental (as guitarras tímidas são o coração e a alma), como convém ao fraseado confessional das harmonias do disco. Nesse recato, The Letting Go não destoa da remanescente obra de Oldham. Notícia original é o apuro dos arranjos, destacando-se a entrada de orquestrações apetrechadas com outras cordas (os violinos e violoncelos arranjados por Nico Muhly), o adiantamento da percussão a escalas maiores (pela mão do percussionista dos Dirty Three, Jim White) e, last but not least, o canto feiticeiro de Dawn McCarthy, belíssima tiple dos Faun Fables, adição mais do que oportuna às fábulas tântricas de Oldham. As substâncias são arrumadas com elegância ímpar graças à produção do islandês Valgeir Sigurosson, engenheiro predilecto dos Múm e cúmplice ocasional de Björk, que, sem beliscar o temperamento americano das composições, lhes soma bálsamos únicos, ora nos enxertos instrumentais que amiudadamente adornam o esqueleto das composições, ora na conformidade que vincula os diversos elementos das peças. Além do intuitivo ganho dimensional da música, a inscrição vocal de Oldham é mais límpida do que antes, lucro da bipolarização com McCarthy, dando um pulso novo ao fatalismo claustrofóbico das histórias de Oldham.

The Letting Go é da melhor filigrana Oldham, disso não sobram dúvidas. A fragilidade das composições é a costumeira e, mesmo merecendo um revestimento orquestral mais ambicioso (até há reflexos glaciares à Sigur Rós em "God's Small Song"), as estruturas harmónicas retêm o disfarce da simplicidade quase acidental e a profundidade contemplativa do cancioneiro Oldham. Tonalmente diverso, The Letting Go é, seguidamente às silhuetas deprimidas do notável I See A Darkness (1999), o melhor fascículo de Oldham e da ciência trémula de um surrealismo lírico que, como poucos, encontra na estação outonal o seu porto seguro.

domingo, 15 de outubro de 2006

Dani Siciliano - Slappers

Apreciação final: 7/10
Edição: !K7, Setembro 2006
Género: Electrónica/Pop Alternativa
Sítio Oficial: http://www.dani-siciliano.com








Já não é inconfidência para ninguém dizer-se que Dani Siciliano tem sido a substância vocal de Matthew Herbert. Além do vínculo conjugal que os une, a associação criativa que nos deu Around the House (1998) ou Bodily Functions (2001) foi o testemunho acabado de uma certa interdependência artística cujos proventos assumiam um duplo juízo. É incontestável o mérito da parceria na multiplicação da simbiose de processos, permitindo a combinação certa entre uma electrónica iconoclasta (a de Herbert), de timbre minimalista mas cheia de soberba na resistência aos cânones, e o ímpeto vocal e sensualidade de Siciliano, suplemento infalível para somar traços de laconismo à orbe onírica de Herbert. Ao flanco frio e maquinal de Herbert, mestre nos malabarismos técnicos com as medidas temporãs de um protótipo funk mínimo e futurista, se juntava o revestimento orgânico versátil e contemporâneo da voz que, sem restringir os seus ângulos vanguardistas, puxava a música para uma geometria de excesso contido. Pontos de equilíbrio, assim se diriam as intersecções conceptuais de Herbert e Siciliano. Ao mesmo tempo, de tão ajustada combinação se presumem ecos sobre a individualidade artística das partes, ilação particularmente evidente no percurso individual de Siciliano; se Herbert não se impediu de lançar discos sem os préstimos da mulher, sublimando a condição exploratória do seu som, Siciliano chegava, na antecâmara do segundo exercício do trajecto em nome próprio, a uma encruzilhada determinante. Em Likes... (2004), registo de debute, a candeia de Herbert alumiava ainda alguns dos trechos e sentia-se, mesmo que nesse remoto estatuto de co-autoria, que a insígnia do marido estava presente. A bem da emancipação artística de Siciliano, ela própria possuidora de recursos nobres o bastante para lhe valerem independência de per si, talvez se impusesse uma afirmação de personalidade que Slappers não dá.

É certo que as síncopes de Slappers mostram algumas hábeis supressões da assinatura costumeira de Herbert, distanciando a vibração das faixas da primeira expectativa do ouvinte, mesmo que não fique camuflado o cardápio de maquinações Herbert (ele é co-autor de todas as peças do alinhamento). Nesse capítulo, de resto, Slappers é de um requinte a toda a prova, vem munido de talhas das várias propensões electrónicas e serve-as na dosagem perfeita. Com a ajuda de um amigo digital cheio de vantagens, o sampler. Slappers talvez não suplante os alvitres da estreia, tampouco se isenta da sombra de Scale (exercício sublime de Herbert previamente lançado neste ano) e, a despeito de alguns instantes plenos de inspiração, mostra-se experimental demais para chegar à voga pop e menos coeso para se fazer obra-prima técnica. Ainda assim, mesmo que não seja possível escrever sobre um disco de Siciliano sem lançar mão do nome de Herbert, o álbum traz um jogo de manobras suficientemente atraentes para valer uma boa escuta e ser um produto interessante.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Dr. Octagon - The Return of Dr. Octagon

Apreciação final: 6/10
Edição: OCD International, Junho 2006
Género: Underground Rap/Hip Hop Alternativo
Sítio Oficial: www.thereturnofdroctagon.com








Kool Keith é, independentemente da afeição que se tribute ao seu trabalho, um dos nomes seminais do rap do Bronx. Ele foi o guia dos Ultramagnetic MC's, grupo nova-iorquino ainda hoje venerado como um dos ensembles responsáveis pela revitalização do género e a quem se atribui, entre outras felizes circunstâncias, o chamamento à esfera do underground rap de recursos pouco em voga na segunda metade da década de oitenta e anos noventa, em especial os progressos na incursão pelas instrumentalizações reais, em detrimento dos padrões sintéticos dominantes. O tope dessa controversa causa foi The Four Horsemen, produto nascido em 1993 e último registo de estúdio do quarteto, pouco apoiado pela crítica. Para trás, o lendário debute dos Ultramagnetic MC's (Critical Breakdown, 1988), tomo que serviu de cartão de visita à personalidade pitoresca de um ícone da cultura de gueto, Kool Keith, e de um prometedor agrupamento que encerraria actividades em 1994. De entre inúmeras assinaturas (Dr. Dooom, Rhythm X., Mr. Gerbik), side-projects e trabalhos em comum com terceiros, seria sob o alter-ego Dr. Octagon que Kool Keith ressuscitaria para os palcos mediáticos, colhendo, com Dr. Octagonecologyst (1996), o espanto e o respeito da crítica. Com essa edição, Keith matou dois coelhos com uma cajadada: reorientou as probabilidades do underground rap crescer para o amparo de uma base sonora electrónica pautada pelo vanguardismo, germinando uma corrente rap alternativa, e, para esse efeito, recrutou um valor emergente na ocasião, Dan "The Automator" Nakamura, violinista de formação e o inventor dos contraste espaciais e futurismo sonoro do disco. Além do pomposo redimensionamento das escalas rap, a colecção de composições do par Keith/Nakamura estava armada num binómio ímpar: o humor de tangência pornográfica e escatológica dos escritos de Keith encontrava ajuste infalível na produção fecunda de ideias e na vocação para a surpresa de Nakamura. Conceptual e impressivo, o título firmou trilhos novos, esticando o imaginário do rap a outras orbes e protagonistas, especialmente a figura bizarra de Dr. Octagon, protagonista fulcral do enredo, um alegado ginecologista de origem duvidosa (alienígena?) envolvido em inúmeras chicanas, mormente na demanda dos obséquios sexuais das suas pacientes.

Preposta ao lançamento de The Return of Dr. Octagon uma série de oito tiras de desenhos, uma por cada semana das oito anteriores à edição do disco, adiantaram o enredo. Dez anos depois da alegada morte de Dr. Octagon, as suas réplicas clonadas sem autorização, e comandadas por um gorila gigante e lunático, pululam pela galáxia com o propósito de exterminar os astros. Na Terra, acham uma civilização em auto-destruição, consequência das horas sucessivas de exposição a má música, a suspirar por um salvador. A despeito da iconografia juvenil, a matriz conceptual de The Return of Dr. Octagon é mais universal, já não se prende com o mero conserto dos desequilíbrios de líbido das fêmeas da espécie, antes com a condição da humanidade. Neste retorno do pseudo-ginecologista, o trio germânico One Watt Sun produz e não faz a coisa por menos: importam-se sons de vários vectores, emprestando aos ambientes do disco um fausto sónico contemporâneo e moderno mas que, em razão do intuitivo cotejo com a sublime interferência de Dan Nakamura no disco de há uma década, soa a festival desproporcionado - as mais das vezes por excesso - na maior parte dos trechos. Na lírica, o descrédito alarga-se. A temática gasta moralismos cliché (a inquietação com o ambiente e o conformismo da civilização corrente), o humor é frouxo e a prosa perdeu pedigree. Melhor fora que Dr. Octagon tivesse morrido em 1996. Nem ele teria de enfrentar o símio titânico, nem nós assistiríamos, graças a um sucedâneo menor, ao desabamento de uma das mais esplêndidas marcas do underground.

Posto de escutaTreesAntsAl Green