terça-feira, 19 de setembro de 2006

Silversun Pickups - Carnavas

Apreciação final: 7/10
Edição: Dangerbir Records, Julho 2006
Género: Indie Pop-Rock/Shoegaze
Sítio Oficial: www.silversunpickups.com








Desde os primeiros acordes de Carnavas, debute discográfico deste quarteto californiano, somos levados a uma objecção geográfica: isto não é música típica de americanos. Em boa verdade, os múltiplos sedimentos de distorções e efeitos, a disfunção quase esquizofrénica das texturas sonoras, o subliminar noise, a intuição melódica e a atitude introspectiva dos trechos de pop envergonhada encaminham-nos para as memórias do shoegazing britânico. Já este ano, os nova-iorquinos Asobi Seksu, com o competente Citrus, se entretiveram no recreio desta escola, anunciando uma espécie de renascimento do género shoegaze do outro lado do Atlântico. Kevin Shields e os irmãos Reid sorrirão de esguelha ao escutar Carnavas? O afinco instrumental do álbum é coisa para não passar despercebida, tal o furor e inspirado entusiasmo que se decifram nas canções, gordas de ecos e ressonâncias. Depois, há uma sublime aspereza, em contraponto com a ansiedade melódica que pauta o disco, e um persuasivo sentido de urgência, conjugação de elementos que fornece as contemporizações úteis à fluência do som. E se fluem as canções dos Silversun Pickups, distintamente servidas por uma voz dúctil que encontra o sentido da vida em tons andróginos, submergida nas excitantes flamas das guitarras e em enredos harmónicos tão solícitos que parecem obra de gravação a cinzel. É esse o mito dos Silversun Pickups: a paixão do pormenor como trajectória de recurso na órbita shoegaze. E, para evitar o piloto automático, junta-se outro membro a este mexido clube de sons, o pó da arca dos Smashing Pumpkins, uma mera causa espectral para o efeito final, danos do sol da Califórnia em cabeças vergadas, de olhos postos no sapato. Assim Carnavas arreda-se da etiqueta única, é digno de revista redobrada que experimente as sobras para lá da nuvem shoegaze e dos disfarces por detrás do arame farpado dos sons imediatos. Música feraz.

Carnavas está impregnado de causas supostamente prescritas (se não no indivíduo melómano pelo menos no prepotente palco das vendas mainstream) mas não soa retrógrado. Pelo contrário, o som é uma sessão de acupunctura moderna, de estética focada e precisa, algo díspar da tónica dominante das praias da Califórnia (Beach Boys, no way!), é certo, mas cultora de um vocabulário sonoro perspicaz. As metamorfoses expeditas deste mutante, se capturam os favores dos tímpanos do ouvinte, não ficam isentas de uma mácula mínima: chame-se-lhe, esvaziando o substantivo da conotação primária (e mais negativa), repetição em ciclo. O que não deprime a feliz circunstância de não haver uma má canção em Carnavas.

domingo, 17 de setembro de 2006

Xiu Xiu - The Air Force

Apreciação final: 8/10
Edição: 5 Rue Christine, Setembro 2006
Género: Experimental/Pós-Rock
Sítio Oficial: www.xiuxiu.org








Só mesmo uma trupe tão controversa como os californianos Xiu Xiu podia germinar um álbum com o Messias cristão na capa e o título The Air Force. Tão bizarra associação de símbolos, intrinsecamente equidistante da iconoclastia e da piedade, encontra analogias nas charadas musicais de Jamie Stewart, guia criativo do projecto, e da cúmplice (e prima) Caralee McElroy. Os dois juntos, ocasionalmente acompanhados por Cory McCulloch, são obreiros de um mais firmes conceitos musicais da moderna música americana e, em The Air Force, mantêm as premissas identitárias que lhes valeram o culto generoso de uma restrita casta de séquitos, almas convertidas a uma doutrina musical ímpar, feita de avessos e impurezas. A fundação primitiva e indispensável das composições dos Xiu Xiu é o ruído, eles empregam toneladas dele, de tonalidades e origens distintas, ao ponto do espectro cromático das músicas ser difuso, intencionalmente partido, muitas vezes díssono, sempre faustoso, mesmo nos ápices ensimesmados e mínimos. A linearidade não entra nesta álgebra, as melodias decifram-se a custo num confronto de estratos musicais justapostos a preceito, projectando o som a uma amplitude invulgar, aspecto em que o disco suplanta o menos conexo La Fôret. Os contrastes de timbre fazem lei, confundindo a fixação do ouvinte, obrigado à incerteza de avistar o fio melódico de cada composição. É aí, nessa aparente vulnerabilidade (que, afinal, é a sua virtude de excelência), que a música dos Xiu Xiu se arroga das suas valências, aliciando-nos a sondar as mais ínfimas porções dos trechos, sem nunca as desfiar por inteiro. Como uma verbosa sonata digital, The Air Force é necessariamente poluído pelo excesso e pela retorção, pela intersecção e sabotagem de géneros e pela experimentação.

Os conhecedores da peregrinação dos Xiu Xiu pelos ângulos tétricos da circunstância e do acidente sonoro não acharão factos inopinados no novo disco. A singular fantasmagoria de Stewart mora aqui, talvez menos difusa no dramatismo, como que remida de um naufrágio presumido sob o efeito de anfetaminas mas nunca acontecido. Também por isso, por se salvar da alucinação sem deixar de a buscar, The Air Force pode muito bem ser a melhor obra dos Xiu Xiu. A prová-lo, habitam-no algumas peças do melhor do grupo, como a reinvenção shoegaze da extraordinária "Save Me Save Me", a bizarria de "Boy Soprano", as utopias de "Bishop, CA" ou o minimalismo de "Hello From Eau Claire", a dar a emancipação vocal a McElroy, num desalinho à CocoRosie. Mais expressionista do que isto só uma tela de Kandinsky.

sábado, 16 de setembro de 2006

The Mars Volta - Amputechture

Apreciação final: 7/10
Edição: Universal, Setembro 2006
Género: Rock Experimental/Progressivo
Sítio Oficial: www.themarsvolta.com








Os Mars Volta são um daqueles ensembles acostumados a estar na voga. Sem esquecer o passado nos At the Drive-In, o indiscutível bom gosto e o diâmetro artístico dos dois registos anteriores a este vieram a acomodá-los a uma certa sacralização da comunidade indie e, nessa conjuntura, guindaram a exigência a níveis normalmente não acessíveis aos vulgares mortais. É esse o fado incontornável dos special ones (não só Mourinho!), o de serem escrutinados por ouvidos de fina têmpera, já diz o adágio do povo que depois de ter-se cavalgado um puro sangue não volta a montar-se uma mula. Amputechture, terceiro capítulo de Omar Rodriguez e Cedric Zavala, chega a nós envolto nessa vaga de expectações agravadas, ou não fosse cada lance dos Mars Volta um exame solene. Musicalmente falando, eles já não encobrem mistério nenhum, continuam a vascolejar o universo rock clássico, com impressões mais ou menos intuitivas dos King Crimson (o enlace guitarra-saxofone), mormente no formulário de guitarras, aqui e ali também reminiscente dos Led Zeppelin, algo que Rodriguez e Zavala baralham subtilmente com laivos de um Zappa em dias menos audaciosos. Tudo isto embrulhado num concentrado harmónico a fazer escalas no rock progressivo (Pink Floyd in the house) e na música latina, com margem para o recurso aos deslumbramentos da experimentação, umas vezes pertinho do jazz isento de regulamentos, e, noutros turnos, nos arredores do psicadélico. A empatia com os Red Hot Chilli Peppers, na sequência da recente digressão conjunta, é prosseguida em Amputechture, com John Frusciante a emprestar a expressão realista da sua guitarra à maioria das faixas do álbum.

Amputechture não causa o espanto dos antecessores, especialmente o insofismável tomo de debute, mas conserva as faculdades de uma das bandas americanas de maior competência. As letras são impenetráveis como um desafio esfíngico, coisa costumeira nos Mars Volta, e orbitam em reflexos góticos da metafísica, plenos de misticismo e intriga. E que melhor serviço musical para esses textos do que as maquinações iconoclastas de Rodriguez e Zavala? Cada trecho é um choque visceral distinto, um dínamo de virtuosismos inesperados e ângulos tensos e uma miríade de ideias confluentes. Contudo, se cada peça é quimicamente coesa, a fluidez do conjunto encrava pontualmente, redundando num registo global menos monolítico do que se esperaria. Ainda assim, Amputechture capta as matérias essenciais dos Mars Volta e, só por isso, seria sempre uma escuta compensatória. A recompensa é que não é a esplêndida filigrana do costume.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Kieran Hebden & Steve Reid - The Exchange Session, Vols. 1 & 2

Apreciação final: 6/10 (Vol. 1)
7/10 (Vol. 2)

Edição: Domino Records,
Março 2006 (Vol. 1)
Junho 2006 (Vol. 2)

Género: Música Improvisada



Sorver música com o esteio experimental dos volumes The Exchange Session não é assunto universal, ou não fosse o vanguardismo uma escola pouco estimada pelas massas, normalmente partidárias dos géneros de consumo directo. Orquestrações com olhos postos na incerteza das épocas vindouras são, as mais das vezes, produtos proscritos ou, por pura condescendência de mentes mais irrequietas e curiosas, espécimes consagrados a pequenos nichos de melómanos. Não é que o futuro não espicace o sujeito regular, antes lhe interessa o cómodo lucro de escutar música presente, sem ousar a previsão de conjecturas do amanhã. A esses, a pesquisa visionária de Kieran Hebden e Steven Reid pouco dirá. Aos outros, para melhor entenderem a lavra audaz destes músicos, talvez se imponha um breve resenha do seu trajecto.

O inglês Kieran Hebden foi um teenager rockeiro, admirador das sentenças de Hendrix e dos Led Zeppelin, e estreou-se nas lides musicais nos Fridge, trupe de rascunhos lo-fi, um registo musical díspar do seu projecto mais ilustre, o pseudónimo Four Tet, exímio laboratório de divagação electrónica. Já Steve Reid, inventor de outra geração, subscreve causas diferentes. Reputado produtor e percussionista jazz, conta centos de gravações, algumas delas como parte da comitiva de amigos célebre como Miles Davis, Dexter Gordon, Sun Ra, Archie Shepp, Fela Kuti e James Brown. Feito o obséquio das apresentações, retenhamos a atenção no porte da música.

Repartida em dois volumes, a série The Exchange Session é uma sociedade de sons pautada pelo improviso. Gravadas ao vivo, as peças não permitem mais do que animações em tempo real à orgânica de Hebden, assim compelido a seguir a escolta percussiva de Reid. Efectivamente, é a percussão que dá o mote, marcando o pulso e regendo o compasso, mas isso não esfria a detonação erudita de ruídos e samples, num ímpeto pouco domesticável. Hebden fica sem âncora e, curiosamente, a sua música adquire, na interacção com Reid, outra cinética, com margem para contorcionismos e excentricidades não escutadas na assinatura Four Tet. Depois, a parcimónia de Reid reduz a percussão à sobriedade groove mais solúvel com as megalomanias pós-industriais de Hebden, excepção feita a alguns címbalos mais calorosos, amplificação que em nada encurta o plano lacónico de Reid, por oposição à incontinência quase lunática de Hebden. Como se fossem irmãos coevos de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. O entrosamento e as modulações são superlativos, especialmente tendo em conta que estes são os primeiros trabalhos deste par. Pode chamar-se a isto jazz livre ou futurista, no encalço dos esboços dos Spring Heel Jack, embora aqui se adensem as expressões sintéticas do fantástico e se almejem horizontes menos rigorosos: os filões de música anti-probabilidades, deformadora das estruturas convencionais e plena de inventividade.

Com sinergias mais vincadas, as construções de Vol. 2 mostram melhor fluência sequencial e, com isso, acercam-se de um auge incerto (para os próprios músicos), zénite esse que fica um tanto distante em Vol. 1, tomo mais prolixo e, consequentemente, de estruturas mais difusas. Ainda assim, o referencial dos dois volumes é muito semelhante e baseia-se numa lógica de progressão em transgressão, o que é o mesmo que dizer crescimento sem regra. E, vistas (e ouvidas) bem as coisas, a colecção The Exchange Session é uma generosa propaganda da música improvisada, a cargo de dois músicos destros nas suas artes e que encontram, melhor ou pior, calhas comuns nas atipicidades do jazz e da electrónica.


quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Guillemots - Trough the Windowpane

Apreciação final: 8/10
Edição: Polydor, Julho 2006
Género: Pop Erudita/Indie Pop
Sítio Oficial: www.guillemots.com








A pop britânica está ao rubro. Goste-se ou não das suas diversas cambiantes, desde os massificados Coldplay e Keane, à vizinhança rock dos Franz Ferdinand e Arctic Monkeys, a verdade é que o género experimenta uma projecção mediática assinalável no Reino Unido e além-fronteiras. É neste frenesi que surgem os Guillemots (lê-se Gui-Li-Móts), quarteto sediado na inspiradora Londres mas com elementos de quatro países diferentes (um percussionista canadiano, Greig Stewart (aka Rican Caol), uma contrabaixista escocesa, Aristazabal Hawkes, um guitarrista brasileiro, MC Lorde Magrão, e um pianista clássico inglês, o vocalista Fyfe Dangerfield), com uma proposta vincadamente distinta da corrente dominante, a inventar uma pop com caprichos de experimentação, sem transbordar para o dislate, e com um diâmetro instrumental vago e amplo. Se a nível vocal o disco não firma tão declaradamente a diferença para os conterrâneos, a porção instrumental não consente objecções: estamos perante uma pop maior, de arranjos menos convencionais e ângulos expansivos, de medidas maiúsculas e imprevistas, de mutações que não estancam e que atravessam o tempo sem decreto. Como se se harmonizassem a bela modéstia do trovador Nick Drake e o lustre dos Radiohead, as subversões de David Sylvian e o sobressalto electro dos primórdios dos Soft Cell, o espectro dos Talk Talk e os adornos dos Divine Comedy, a intuição de Rufus Wainwright e a elegância de Elvis Costello, a espessura de Wagner e a exaltação dos Sparks, o pragmatismo de Brahms e o R&B dos 60's, o enigma cerebral dos Residents e o culto ecléctico de Dvorak, os alicerces de Sakamoto e os sabores brasileiros.

A fartura de substâncias de Through the Windowpane é abissal; cada trecho do álbum enche-se de estímulos simultâneos, em alvoroço sensorial único, cada qual com o seu tom e ambiente justo, a dose certa de experimentalismo e devaneio e, acima de tudo, a transcendência de evitar lugares comuns. E não há vulgaridade nos hinos deste disco, as peças são mais do que canções, aventuram-se num infinito sem falhas e denunciam cores novas. E neste dédalo de influências e intenções, espanta a destreza dos Guillemots em não malbaratarem ideias e manterem um equilíbrio raro. Não há desperdícios nem saturações em Through the Windowpane, seguramente um dos melhores discos de estreia dos últimos tempos e obra a figurar nos catálogos best of de 2006. Grandioso e idealista, o disco é uma crível sinfonia pop, uma glosa musicada sobre a inevitável temática do amor que não se rebaixa à lamechice e é ministrada com a excelência e alcance instrumental de que a pop escassamente tira partido.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

O último filme que vi - Carros

Já não é notícia original dizer-se que a Pixar - recentemente adquirida pela Disney - é, hoje, o estúdio de animação com maior reputação, por força do grau das fitas produzidas nos últimos anos (o par de filmes Toy Story, Monstros & Cia., À Procura de Nemo e The Incredibles - Os Super Heróis são alguns exemplos). No título mais recente, Carros, o universo dos campeonatos NASCAR americanos, aqui servido por bólides animados, é o mote cénico, numa narrativa centrada na personagem do arrogante speedster Lightning McQueen (delicioso alvitre a Steve McQueen, também ele um entusiasta dos motores). Quando as desventuras do destino o levam à erma metrópole de Radiator Springs, urbe saudosa do rebuliço de outrora, dos tempos antes do advento da via rápida que a subtraiu às rotas dominantes, McQueen vai aprender uma profunda lição de humanidade e de valores. A expressão animada dos caracteres do filme tem a plausibilidade do costume na Pixar, ajudando à definição da densidade dramática das personagens e da consistência rítmica da história. É aí, como noutros momentos destes autores, que Carros vai além dos produtos concorrentes neste género, fazendo-nos crer que, por verosímil analogia, no lugar destes carros que falam e se comovem, podiam estar seres humanos de carne e osso. E estão cá, na versão original, as vozes de Owen Wilson, Paul Newman, do comediante redneck Larry the Cable Guy e Bonnie Hunt.

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terça-feira, 12 de setembro de 2006

Agalloch - Ashes Against the Grain

Apreciação final: 8/10
Edição: The End Records, Agosto 2006
Género: Metal Experimental/Doom/Pós-Metal
Sítio Oficial: www.agalloch.org








Embora seja sucessivamente colada por terceiros aos rótulos do orbe do metal americano, a música dos Agalloch é um exemplo da transcendência de géneros. Se pode considerar-se o black metal como a doutrina-mãe, sobretudo nos contextos líricos do disco, nos métodos intrínsecos à composição e no registo vocal, Ashes Against the Grain vai um pouco além disso, seguindo o mesmo trilho do antecessor, editado há quatro anos. As matérias do vernáculo death - menos assíduas neste álbum, assim como a voz - são apenas uma contingência, uma superlativa adição a um fraseado melódico que reproduz encadeamentos rítmicos muito próximos do rock progressivo, umas vezes, do pós-rock de feição meditativa (chegam a lembrar os Mogwai), noutros momentos. Dessa mescla substancialmente versátil irrompem atmosferas de tons melancólicos ambivalentes, ora propiciados pela bonomia de uma guitarra acústica (solução nobre na alternância das compleições do disco, mais astutamente utilizada do que no passado), ora arremessados com o viço das distorções. Em qualquer dos rumos, Ashes Against the Grain alude a cenários turvos e de palpitações frias, florestas geladas e animais de cristal, almas caducas e desalento. O som é espesso e perturbante ao primeiro contacto, mas cresce com sublimidade, num ritual de experiências repetidas que se torna sacramental. É essa a demanda destes quatro cavaleiros do apocalipse que, percorrendo nas suas montadas as ruínas de um mundo descrente, se tornam apóstolos da bondade negra do caos. E musicam-na como poucos, galgando fronteiras e preconceitos, e dando corpo a uma nova ordem metal, sem cobiçar o vanguardismo derradeiro, sem ampliar pretensiosismos técnicos e sem agudizar ímpetos.

Prosseguindo a epopeia evolutiva de anunciar novos espaços para a expansão do metal, os Agalloch ergueram outro épico numa jornada encetada há cerca de uma década. Ashes Against the Grain denota algumas mutações no som do quarteto de Portland, mormente na diversidade de palatos sonoros reunidos com pertinência acrescida, e acaba por ser o trabalho mais ambicioso de uma banda de fina estirpe, servida por músicos virtuosos. E faça-se aqui o competente desengano: Ashes Against the Grain será arrumado nas estantes do metal dos retalhistas, mas dentro do receptáculo do disco compacto está uma obra pouco menos do que majestosa e de génio precursor, bem além da esfera do metal comum e que é digna de ser achada por todos aqueles de espírito amigo do imprevisto.

domingo, 10 de setembro de 2006

I'm From Barcelona - Let Me Introduce You to My Friends

Apreciação final: 7/10
Edição: Virgin, Maio 2006
Género: Indie Pop
Sítio Oficial: www.imfrombarcelona.com








O baptismo é um simpático logro deste numeroso grupo de músicos. Ao invés de terem despontado em terras da Catalunha, estes 29 aliados vêm da distante Suécia, da sulista terrinha de Jönköping, nas margens do segundo maior lago do território sueco, sítio de singular actividade piscatória. Pescadores ou não, os I'm From Barcelona são responsáveis, no primeiro longa duração da carreira, por um dos lances mais oportunos da pop veraneante deste ano. De uma trupe desta dimensão podemos contar com uma amplitude instrumental (e vocal) não muito ouvida na vaga corrente da pop; os trechos musicais tocam ambientes tão festivos que quase roçam a inocência melódica (elogio!), não por inaptidão técnica dos intervenientes mas pela simplicidade estrutural, algo que remotamente traz à memória a sintaxe básica de uns Beach Boys. Depois, além de vários estratos instrumentais ordenados com elegância, desde cordofones a acordeões, a sintetizadores e kazoos, ainda xilofones e sopros, a especulação vocal é sublime, sempre em volta de Emanuel Lundgren, o cabecilha da pândega, com coros devidamente hierarquizados a delinearem harmonias tão amigas do ouvido que roubam a alma do disco. É assim que o desfile de canções de Let Me Introduce You to My Friends contagia o menos atento dos tímpanos, especialmente na regra do refrão em júbilo que, irresistivelmente, desperta o desejo de soltar a voz, por mais dissonante que seja, e juntá-la à celebração desta assembleia de amigos.

A folia é a estampa sónica dos I'm From Barcelona. Eles não aspiram a re-inventar a roda nem a tirar a terra da sua órbita original, antes concebem um plano despretensioso (até infantil, nas letras e na música) para entreter. E, nesse fim entusiasta, sucedem a toda a linha. Let Me Introduce You to My Friends pode não ser um produto artístico essencial, nem seria esse o seu desígnio primeiro, mas é um tomo de diversão segura. E agora que o verão se desvanece e o termómetro arrefece, nada melhor do que reter um pedacinho dessa energia fugidia do estio, dar asas à puerilidade de uma boa festança e cantar de pulmão cheio. Aqui, em Jönköping ou em Barcelona, a festa dos I'm From Barcelona é de quem nela entrar.

sábado, 9 de setembro de 2006

Woven Hand - Mosaic

Apreciação final: 7/10
Edição: Glitterhouse/AnAnAnA, Agosto 2006
Género: Folk Alternativo/Experimental/Espiritual
Sítio Oficial: www.wovenhand.net








Distanciando-se gradualmente das fantasias e dos caprichos country incomuns dos 16 Horsepower, colectivo de Denver que governou desde a década de 90, David Eugene Edwards encontrou no alter ego solitário Woven Hand (em palavras lusas, o rótulo significa "mãos juntas em oração") a contextura útil para converter a sua música à doutrina de misticismo espiritual que, se era decifrada subliminarmente nos 16 Horsepower, aqui é apregoada com arrepiante generosidade. Não é estranha a esse facto a devoção cristã de Edwards, não fosse ele descendente de um pregador da Ireja do Nazareno, culto de impressão protestante de origem no sul da América. O quarto registo do projecto Woven Hand prolonga os atalhos de espiritualidade e os enigmas escuros dos antecessores, desembrulhando os atributos de temperamento religioso em sucessivas camadas de música espectral, como num renque de preces fantasmáticas do oculto, sentidas e viscerais. Assim é Mosaic, sem os louvores e aplausos em uníssono dos sons gospel, antes a profissão de fé de um eremita (Edwards é-o cada vez mais, pelo menos na apologia da contrição do vício humano) que, ciente da transitória natureza do sopro da vida, modestamente se posta perante a divindade para abrir o espírito em confissão. A música consagrada a este acto intangível é, como não podia deixar de ser, íntima e pouco expansiva, típica de Woven Hand, com estruturas simples e introvertidas, ora gravadas a guitarra ora com o auxílio de violinos, de nervo folk-country-gótico e saibo medieval. Ingrediente novo em Mosaic: as emendas de música celta (em revisão psicadélica) no final da inquietante "Slota Prow - Full Armour".

O cerimonial de Mosaic é nocturno e escatológico mas não chega a ser extemporâneo, não fossem estes desígnios teológicos coisa suficiente para meditar. Edwards é crente mas não faz do álbum um manifesto sectário, antes nos guia pelas suas reflexões e apelos, invocando repetidamente despiques maniqueístas, a sedução do mal vs. a resistência do bem (a profecia assombrada de "Elktooth" por oposição à bucólica "Whistling Girl"). Musicalmente, Mosaic não se desvia do cunho idiossincrático de Edwards, nem soma matérias originais ao seu cancioneiro. Mas esta é a música dos filhos de um Deus menor, daqueles que, desterrados do abrigo divino, acham a redenção nas sombras e na reverência obstinada da oração, em espera das graças da divindade. Edwards é um deles e reza, connosco, de mãos juntas.

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

O último filme que vi - O Sentinela

Mais um blockbuster nascido do lastro de obsessão securitária que confiscou o espírito colectivo americano na ressaca dos atentados de 11 de Setembro, o filme retrata uma conspiração de intenções homicidas do presidente americano e os jogos de poder e traição dos serviços secretos. Tomando o capital simbólico que a série televisiva 24 trouxe a Kiefer Sutherland - que neste filme acrescenta a gravata ao inexorável Jack Bauer - e juntando-lhe um discreto Michael Douglas, na pele de um condecorado agente, a fita desenrola-se na dinâmica normal de produtos deste género, também com a insipidez de um argumento decalcado de outros filmes. Um pormenor: o lamentável erro de sintaxe do título da versão portuguesa. Alguém se esqueceu do género do substantivo sentinela.


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Oneida - Happy New Year


Apreciação final: 7/10
Edição: Jagjaguwar, Julho 2006
Género: Pós-Rock/Experimental/Psicadélico
Sítio Oficial: www.enemyhogs.com








Tal como o cineasta e comediante Woody Allen, também oriundo de Brooklyn, dispersou com astúcia pela sua obra as inúmeras faces da Grande Maçã, esculpindo nas suas fitas caracteres activamente cosmopolitas, rebentos fidedignos de uma cidade global e nervosa, quase sempre neuróticos e instáveis, autocríticos e comiseradores, os conterrâneos Oneida especulam musicalmente sobre a mesma metrópole. Sente-se na música deste trio nova-iorquino uma pouco civilizada pugna de géneros, de onde é oriundo um dínamo incatalogável de partículas energéticas, como uma fusão de genes de múltipla personalidade, de cultos vários e abertura de espírito a níveis máximos. É essa a semente com que Nova Iorque fecundou a música destes três indomáveis, dando-lhes a intrepidez para afrontarem qualquer regra padronizada da indústria musical e para não fazerem caso das famílias musicais instituídas mas, ao invés, terem o desaforo de amalgamar tudo, aparentemente sem ordens de qualquer espécie e sem o espartilho de formatações pré-definidas. Para os Oneida, cada peça musical é reprodução prática de experiências sonoras fora da lei, de ensaios anormais com as mais variadas matérias, desde o rock académico ao noise mais castiço, das nuances psicadélicas à volubilidade do experimentalismo, dos fetiches retro às alucinações vanguardistas, do ensejo artístico ao contorcionismo instrumental. Com eclectismo ou excentricidade criativa, a verdade é que o som dos Oneida é singular, preciso na construção de um caos arrebatador, um retrato anti-sinfónico da esquizofrenia nova-iorquina, necessariamente retalhado, inconsistente, complexo, agridoce.

Happy New Year, oitavo fascículo do percurso dos Oneida, segue o rasto dos antecessores e aventa fórmulas alternativas para o amanhã da folk americana, dando continuidade às proezas precursoras de Scott Walker, embora com diferente subtileza. Se Walker reinventa a canção na configuração, baralhando as matrizes estruturais e os protótipos vocais, os Oneida adicionam excentricidade instrumental, músculo sem freios e infracção ruidosa. Talvez não seja este o disco para os catapultar para a visibilidade merecida mas o carácter visionário dos Oneida permanece impoluto, descomprometido e livre, rumo ao deslumbramento de um mini-cosmos confuso que, por fim, sempre esteve latente na cidade que não dorme. Assim cantava Sinatra e assim filmou Allen. Os Oneida unem esforços para que ninguém adormeça.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Ms. John Soda - Notes and the Like

Apreciação final: 5/10
Edição: Morr Music, Abril 2006
Género: Electrónica Alternativa/Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.msjohnsoda.de








Micha Acher é um baixista em voga na Alemanha. Além de fazer parte de um dos expoentes do pós-rock minimalista europeu, os consagrados Notwist, ainda integra o projecto Tied and Tickled Trio, ensemble com uma reforçada feição experimental e vanguardista. Em ambos os casos, mormente nos Notwist (onde Micha divide o protagonismo criativo com o irmão, Markus), a crítica tem reconhecido paulatinamente um punhado de edições valiosas que somaram valores aos dotes da indie de cariz electrónico da Europa Ocidental, culminando numa inesperada reunião com alguns músicos da label americana Anticon, entre outros o versátil Doseone (cLOUDDEAD) e no competente álbum 13 & God (2005), título que baptizaria também o projecto musical conjunto. Ainda sem esse peso mediático, o side-project Ms. John Soda, que Micha Acher partilha com a teclista Stephanie Böhm (dos também berlinenses Couch, com disco novo já lançado em 2006) vai ainda no segundo longa duração. Como decorre do background dos músicos, o item principal da ementa é electro, num registo sonoro de inequívocas alusões à escola berlinense, colocada aqui em obséquio a canções pop. Porque é de pop que se trata, não a pop de chiclete na boca e mão no bolso, mas a pop organicamente rica, sem dislates, orgulhosa da sua condição cosmopolita e dos favores da era digital e da programação. O laptop é o melhor amigo do músico berlinense, disso não sobram dúvidas. A forçosa sobreposição de camadas sonoras, como convém ao bom estilo alemão, também se nota aqui, ainda que nem sempre se discirna o proveito de algumas substâncias para o produto final. Mesmo que a intercalação de tais superfluidades com instantes bem executados seja uma adulteração da soma final, as melodias guardam uma réstia de sedução e são tão poppy quanto podem ser sem soar lamechas.

Se tecnicamente Notes and the Like perfilha dos princípios básicos que se vaticinariam nestes intérpretes antes de escutar o disco, o mesmo não pode ser dito do arrojo. Além dos desajustes já mencionados, os arranjos de cordas que adornam alguns trechos, mais não fazem do que traçar linhas previsíveis, manifestamente em serviço mínimo, muito aquém do uso próprio que conviria à melancolia que supostamente insinuam; as incertezas vocais de Stephanie Böhm, se povoam bem os lugares ritmados do disco, sublinhando um toque de sensualidade, deslustram um pouco quando se abeiram do monótono registo falado. As texturas electro são o deus ex machina do álbum, fazendo crer que Notes and the Like (com a excepção de "Hands" e, quiçá, de "Scan the Ways" ou "Line by Line") teria tudo a ganhar em deixar cair a voz e resumir-se ao que estes autores fazem melhor. Contudo, mesmo disciplinando os órgãos auditivos para fazerem de conta que a voz de Böhm não está lá, não se avistam muitas porções de som que valha a pena escutar senão por cortesia.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

O último filme que vi - A Casa Fantasma

A nova fita animada da Sony gira em torno de três teenagers, um vizinho muito mal humorado e uma casa assombrada. Entretenimento garantido para toda a família com muitos sustos e gargalhadas para os mais pequenos. Tecnicamente, o filme está servido por animações do melhor quilate técnico, cheias de realismo e verosimilhança e por um argumento que encaixa bem no imaginário infantil, ainda que não ofereça ingredientes novos ao género.

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Built to Spill - You in Reverse

Apreciação final: 8/10
Edição: Warner, Abril 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: www.builttospill.com








Há cinco anos que Doug Martsch e companhia não davam notícias. Os Built to Spill chegam ao sétimo registo de um percurso com muito bom gosto como um dos mais consistentes projectos da indie guitarreira americana. Há qualquer coisa do legado mítico de Neil Young nestas canções, ainda que a coisa se molde menos óbvia quando se espreitam as peripécias técnicas de guitarra que alimentam as manobras emocionais de You in Reverse. Aí, onde a guitarra se veste de sujeito determinante, sentem-se brisas da época dourada dos Pavement ou dos Pixies, sobem os volts e levam com eles a vibração do disco. A melodia não é descurada, antes se completa na efervescência escura das guitarras e no revérbero que enche o som dos Built to Spill, em torno de baladas rock, pequenos poemas sombrios cunhados com distorções mais ou menos tímidas. Raros são os álbuns que nos brindam com tamanha versatilidade no serviço da guitarra, expondo-lhe os diversos ângulos, a disposição flutuante, os solos em espiral, o magnetismo das expansões súbitas, como se as sessões de gravação mais não fossem do que uma trivial jam session. Em You in Reverse volta a ser notória, depois do fracassado Ancient Melodies of the Future (2001), essa paixão do quarteto do Idaho pelo virtuosismo técnico, especialmente na química inventiva que Martsch investe nas seis cordas da guitarra. A voz chega a parecer um simples acessório, não por estar a mais ou por soar inconsequente, mas porque a guitarra puxa para si os focos e agarra os tímpanos, (re)construindo a estrutura das canções, dando-lhes cor, vida e imprevisibilidade. Talvez por isso os trechos de You in Reverse quase pareçam infinitos, por pousarem nos ecos da ressonância da guitarra, a mais útil ponte para dimensões sem limites, mundos que perduram depois do fim do disco. O rock carnal à mercê do sonho.

Da competência de Martsch com a guitarra já tudo foi escrito e dito. You in Reverse é, nesse capítulo, exemplar. Ainda que num ou noutro momento se detecte um desalinho na exploração livre da guitarra, em detrimento da fixação mais firme de certas melodias, o álbum é um manifesto de maturidade, não tão triunfal como se supõe nas primeiras audições mas, mesmo sem trazer matérias novas ao catálogo dos Built to Spill, é suficientemente refinador e cuidado para reclamar a cortesia do universo indie à guitarra. Não foi à toa que neste artigo se usou a palavra guitarra mais de uma dezena de vezes. Afinal o que seria do rock (e dos Built to Spill) sem ela?

domingo, 3 de setembro de 2006

Killing Joke - Hosannas From the Basements of Hell

Apreciação final: 7/10
Edição: Cooking Vinyl, Abril 2006
Género: Metal Alternativo/Industrial/Doom
Sítio Oficial: www.killingjoke.com








Eles já andam neste ofício vai para trinta anos e, se bem que não tenha sobressaído manifestamente o sub-género do rock mais pesado que subscrevem, a verdade é que conquistaram, de pleno direito, um estatuto particular no seio do cosmos metálico, mormente pela influência que trouxeram à vaga pós-punk do final da década de 70, deixando pistas que seriam seguidas pela geração X (bandas grunge como os Nirvana, os Screaming Tress, os Soundgarden e os Mudhoney usaram algumas das praxes dos Killing Joke) ou por outras derivações do hard rock mais industrial (os Melvins ou os Ministry, por exemplo). Com um começo de carreira apadrinhado por John Peel e pautado por composições urgentes e mais próximas dos padrões do punk, de cadências galopantes (algo que ainda se sente nos tomos mais recentes), sistemas harmónicos primitivos e distorção a rodos, estes intrépidos britânicos foram crescendo para um registo com maiores obrigações técnicas e um compromisso artístico superior, por vezes assemelhado a um parente da escola progressiva, mas sem exacerbar divagações melódicas, antes buscando um transe feito de equações industriais e andamentos quase tribais. O cérebro é vital no metal dos Killing Joke, nada soa a despropósito, a dinâmica das guitarras é modelar e magnetizante (não chega a ser dançável?), a voz estentórea mantém-se, a percussão é nobre e a disposição das peças ajusta-se bem ao património do grupo. De facto, depois dos esboços menos bem esgalhados do álbum anterior (Killing Joke (2003)), onde o som parecia fazer concessões às proposições mais recentes do metal alternativo, Hosannas From the Basements of Hell é um inteligente retorno àquilo que os Killing Joke melhor fazem e que os distingue dos demais: rock negro e industrial com precisão mecânica e a induzir estímulos sensoriais que, além de agitar tímpanos, nos exportam para cenários apocalípticos gigantes, ecossistemas surreais de criaturas desfiguradas. Majestosas metáforas de uma existência com fúria no carburador.

O press release do álbum faz menção especial a um facto com relevo histórico. Matt Lusardi, o mesmo engenheiro de som das primeiras gravações dos Killing Joke, é o homem da produção no novo álbum. Mais do que prosseguir (e perseguir) a glória do passado, Hosannas From the Basements of Hell, não sendo um trabalho de rupturas inovadoras, é a prova de que os Killing Joke continuam a ser artífices capazes de acrescentar substâncias válidas à sua dotação e, com isso, consertar a aura do metal dos desarranjos do tempo e dar-lhe aquele extra que só está ao alcance dos decanos da classe.

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Midlake - The Trials of Van Occupanther

Apreciação final: 8/10
Edição: Bella Union, Julho 2006
Género: Indie Rock/Art Rock
Sítio Oficial: www.midlake.net








No burburinho underground que precedeu a edição do segundo álbum dos texanos Midlake, dizia-se à boca cheia que eles estavam mais Radiohead, muito por culpa do brilhante avanço do álbum ("Roscoe"). Embora se possa cobrar essa eventual similitude no registo vocal de Tim Smith, algumas vezes lavrado em moldes idênticos aos de Thom Yorke, a proposta musical deste quinteto fixa divergências detectáveis desde as primeiras audições. Ao invés do polimento urbano e modernidade que tão bem assenta nos Radiohead, a música dos Midlake é, as mais das vezes, rústica nos princípios, com subterfúgios dignos de uma écloga musicada, a lembrar paisagens verdes e ensolaradas, de perfumes country, pejadas de insinuações acústicas (o disco é menos electrónico do que o antecessor), guitarras e violinos em diálogo, pianos e flautas a secundar. Aqui e ali, os tímpanos mais lúcidos descobrem, nas recatadas melodias dos Midlake, pulverizações da lírica dos anos 70 (vestígios da devoção a Fleetwood Mac, Jethro Tull e Steely Dan?), coisa que alinha os Midlake com os californianos Grandaddy ou com os também americanos Flaming Lips, com quem, de resto, já partilharam palcos. Aparentemente conceptual, o álbum é uma alegoria sobre a descoberta de si mesmo de Van Occupanther (e, por extensão, a revelação de adágios universais da humanidade), um misantropo campesino ficcionado (século XIX?), suas peripécias e confidências, num conto encriptado numa linguagem nem sempre contínua e de entendimento incerto. Letras à margem, a fracção instrumental é ambiciosa e cheia de cambiantes, fazendo menção de reunir uma multiplicidade de estímulos acústicos, com arranjos superlativos de cordas ou sopros, em apreço pelos cânones do rock clássico. Canções que soam assim são um repto às irrevogáveis sentenças do tempo, afastam-se dos ciclos de modas e costumes instantâneos e tão bem se escutariam nas ondas de uma emissão radiofónica dos anos 70, como são ouvidas presentemente.

Menos psicadélicos que na obra de debute, os Midlake condescendem com as directrizes mais concretas da sua música e, em The Trials of Van Occupanther, buscam um discurso mais focado, também mais delicado e intimista. Talvez por isso, o álbum é mais dream pop do que se presumiria e, em contraponto com a propensão recente do indie rock não está impregnado da pop efusiva dos 60's, tampouco do delirante new wave dos 80's (esses predicados foram investidos no disco de estreia), ambos preteridos, como se escreveu atrás, em favor de uma família menos compreendida, o art rock sombreado da década de 70. Alguns trechos do disco têm menos faculdades mas tivera a máquina sido afinada pelo lamiré de "Young Bride", "Roscoe", "Bandits" e "Head Home", os zénites do disco, e The Trials of Van Occupanther traçaria ilação irrefutável: os 70's poderiam ser no século XXI.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Scritti Politti - White Bread, Black Beer

Apreciação final: 6/10
Edição: Rough Trade/Edel, Junho 2006
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.dosswerks.com/scc








Apesar de contar quase três décadas, o percurso dos Scritti Politti, palanque principal do galês Green Gartside, continua a pautar-se pela descontinuidade, se não no sentido estético e estrutural da música, pelo menos no carácter avulso das edições. Não estranha, portanto, que White Bread, Black Beer chegue a nós após um lapso de sete anos desde a última edição e, qual improbabilidade estatística desconcertante, seja apenas o quinto álbum dos Scritti Politti. Primeiro fruto do segundo renascimento do conceito (a banda já havia cessado actividades em 1990, ressurgindo em 1999 com Anomie & Bonhomie), agora resumido apenas a Gartside, White Bread, Black Beer desvia-se da subliminar ciência hip-hop desconchavada que poluía, com préstimo duvidoso, o antecessor. A escolha melódica continua a reflectir ecos dos Beatles, de Simon & Garfunkel, mesmo dos Beach Boys, em harmonias vocais armadas com discernimento, tão leves e subtis quanto a porção instrumental do disco, menos fervorosa e condensada no quase minimalismo de um pano de fundo. Essencialmente construído em redor do formato balada, cenário ideal para a voz juvenil de Gartside vaguear em quimeras pop, o disco faz da electrónica o condimento primário, a que se juntam curtas sílabas de guitarra acústica e percussões quase ausentes. Sobriedade, acima de tudo, era o melhor golpe ao alcance de Gartside, depois do revés de Anomie & Bonhomie. Se isso é conseguido, mormente na rudimentaridade doméstica das gravações, não são atenuadas as cláusulas abstractas e espaciais que tão bem encheram os melhores discos dos Scritti Politti. Tais matérias, tão caras a Gartside, apenas se redimensionam, partindo do recato de uma base mínima e chegando ao zénite através da voz, afinal é ela o veículo emocional do disco.

Intrigante como os outros trabalhos dos Scritti Politti, White Bread, Black Beer é uma colecção de melodias pop bizarras e íntimas, fruto da mente de um esteta solitário, um admirador da pop de escol e do detalhe. Única dúvida: o espectro contemporâneo da música estará preparado para esta máquina sintética de pop tresmalhada em melodias pós-punk? Com esse dilema na mente, Gartside parece ter tentado agradar a gregos e troianos, não interrompendo a fidelidade a um género menos amigo dos circuitos comerciais e, ao mesmo tempo, retendo o furor mercantil dos 80's. Nesse despique de sensibilidades, salva-se a excelência das melodias, mas nunca chega a perceber-se se White Bread, Black Beer anda à procura do pós-estruturalismo de um Brian Wilson ou se, pelo contrário, é prisioneiro numa cápsula temporal, estacionada algures no período áureo que os Scritti Politti chegaram a anunciar na década de oitenta.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Os últimos filmes que vi



As apreciações estão disponíveis na secção de cinema do apARTES. Clique aqui (ou no link fixo na banda esquerda do blog) para consultar.

Ali Farka Touré - Savane

Apreciação final: 8/10
Edição: Megamúsica, Julho 2006
Género: World Music/Blues
Sítio Oficial: www.worldcircuit.co.uk








Nascido nas cercanias de Timbuktu, cidade nevrálgica do continente negro e histórico ponto de encontro na África Ocidental dos nómadas do Norte (Tuaregues e Songhais) e das caravanas dos mercantes de sal berberes, árabes e judeus, Ali Farka Touré cresceu num ambiente de tolerância cultural e racial. Único sobrevivente de dez irmãos, facto que haveria de render-lhe o epíteto "Farka" (o burro, animal venerado na sua etnia pelo aferro e insubmissão), Touré encontra nas rudimentares guitarras da cultura songhai, desde tenra idade, a magia e os ritmos que lhe dariam a notoriedade além dos limites do deserto do Sahel, fazendo dele um dos intérpretes mais admirados da comunidade world music. Caminheiro do deserto, agricultor habituado à aridez da savana de África e ao trabalho duro para sustento da família, homem benigno e de sorriso pronto, Touré fez-se tão pertinaz quanto o Níger, de águas resistentes às agruras das longas secas sub-saarianas. Essa rotina obstinada é, de resto, substância indissociável do cardápio sonoro de Ali Farka Touré, com porções iguais de rusticidade instrumental (as njarkas e ngonis, antepassados jurássicos de violinos e banjos, são um dos exemplos enumeráveis) e impressões cruzadas de vários cultos africanos, legado óbvio da tradição de Timbuktu. Quando Touré anunciou, há algum tempo atrás, que desistiria da música para humildemente ser mais útil à sua querida aldeia de Niafunké, já lhe tinha chegado o reconhecimento internacional, com expoente no Grammy pelo mítico Talking Timbuktu (1994), um dos rebentos da sociedade criativa com o americano Ry Cooder. A essa estatueta, Touré juntaria outra, no ano transacto, suspendendo o silêncio com o compacto de In the Heart of the Moon, gravado na companhia do tocador de kora Toumani Diabaté, disco que serviria de suporte para um saudado regresso aos palcos. Seria o último. A enfermidade roubaria Touré à vida em Março deste ano.

Por essa altura, Savane estava já em acabamentos. As primitivas (leia-se genuínas) malhas de guitarra de Touré permanecem intocáveis, a sua música é bamboleante e sedutora como um feitiço de mandinga ou um blues de Hooker com regionalismos raï argelinos ou gwanas de Marrocos e recortes sábios de outras paragens, os bhangras do Punjab, os ritmos crioulos, os huaynos do Perú, os paso dobles dos mariachis. E muitos, muitos blues. Savane é, por essa via, o amor à causa de embaixador da música universal que Touré tão bem defendeu, sem renunciar ao vínculo umbilical com o Mali. Com este álbum, gravado nas derradeiras semanas de vida e com conhecimento da fatalidade incontornável da doença que o apoquentava, o indomável burro deixou-nos a derradeira certeza da sua resistência e teimosia: o silêncio que a morte lhe impôs, não roubará a sua música à eternidade. Savane é, além de um maravilhoso requiem, um fascinante adeus e um acrescento imperdível à discografia essencial de África e do mundo.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Gaiteiros de Lisboa - Sátiro

Apreciação final: 8/10
Edição: Sony BMG, Agosto 2006
Género: Música Tradicional Portuguesa/Experimental
Sítio Oficial: www.gaiteirosdelisboa.com








Com quase quinze anos de histórias musicadas, os Gaiteiros de Lisboa editam o quarto registo de um percurso cruzador de referências e de aventuras exploratórias das fundações da música popular. Essa busca incessante de parte significativa da quintessência musical nacional, a que acresce um compromisso sagaz com a reinvenção e o experimentalismo, faz dos Gaiteiros um dos mais atractivos ensembles do panorama luso. O gozo último deles é brincar com o tempo e sondar o património histórico e os estereótipos, trazê-los à contemporaneidade do hoje e, sem confundir traços identitários, moldar um som profundamente cosmopolita, à laia de uma world music que não se priva de rebuscar as tradições, esculpindo-as com modernidade. É assim que o impulso criativo dos Gaiteiros se manifesta, simultaneamente urbano e rústico, investigador e inventor. Sem debandar das raízes portuguesas, Sátiro é o novo capítulo nessa redescoberta da cultura musical universal, onde o passo de saída é lusitano e a chegada é coisa fecunda de interferências artísticas, algo que se abre num conhecimento vasto das estéticas e melodias antigas e presentes e se fecha, sem pontos finais, num furor aglutinador, tão luso-qualquer-coisa como sem fronteiras. As memórias universais dissecadas em Sátiro, como noutros trabalhos do colectivo, contemplam a fina tradição transmontana e o barroco mirandês, das gaitas e folclores, afins do culto asturiano e da teatralidade celta; a esse algoritmo primário, juntam-se a alegria pulverulenta do Magrebe, a maravilha inventiva do jazz sem rede, uns cheirinhos de doutrina da música concreta e, até, os vagares alentejanos ou umas sombras do fado (com a voz de Mafalda Arnauth na adaptação do poema "Os Versos que te Fiz", de Florbela Espanca). Para compôr este ramalhete, os Gaiteiros valem-se de um arsenal acústico versátil, com o pandeiro árabe, as rabecas e outros cordofones, as concertinas, as flautas de pan e palhetas, a gaita transmontana, a trompa, a gaita de amolador, o clarinete e a tarota, o túbaro e a serafina, o serpentalho, os ferrinhos, o reque-reque, os tubarões e os batuques. Tamanha panóplia só podia fazer de Sátiro um albergue com honras festivais, polifonias com sentido e ritmos possantes, ora circunspectos e cheios de cautela, ora irrequietos e destemidos.

A rejeição do imobilismo continua a ser a receita maior dos Gaiteiros de Lisboa. Inventam instrumentos, recriam-se na denúncia de novos sons, sulcam a terra do povo com a enxada dos poetas (Pessoa e O'Neill no passado, Florbela Espanca aqui) e arrebatam pelo perfume de extravagante originalidade, algures no limbo entre o sério e o lúdico, sempre inebriante. Como na feitiçaria de marimba que serve as contorções de "Movimento Perpétuo", de Carlos Paredes. Sátiro é tudo isso, é um erudito rompedor de horizontes e uma adição fundamental ao cancioneiro nacional.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

O cinema também mora aqui...

A paixão de muitas luas que me une à música levou-me a criar o apARTES. Bendita a hora em que, há sensivelmente dois anos, a razão se dispôs a empurrar-me para partilhar o meu trabalho (e através dele o nexo ao vício perdurável da música) com os cibernautas que se aventuram pela blogosfera. Alguns de vós, estou certo, já se tornaram visitantes habituais e acolhem as palavras que escrevo com a mesma empatia que procuro dar-lhes ao passá-las à estampa. O meu agradecimento é uma insolvência, por tudo, por aceitarem o conforto desta (vossa) sala de escuta, mostruário sem pretensões da música que vou ouvindo, da música que me dão a ouvir, da música que descubro casualmente e à qual acho pertinente tirar-se o véu. E o chapéu, quando é caso disso.

Aqui, destapo uma porçãozinha da intimidade do solene acto de escutar um disco, cobrar-lhe os méritos ou citar máculas e, depois, franquear-lhe um percurso para espicaçar os tímpanos e, por eles, fruir até à mais ínfima partícula do som.

Este pacto sensorial não é, contudo, exclusivo da música. É uma prerrogativa da arte. Devoto-me primariamente à música, não tanto às outras, por imperativos profissionais, casando o necessário e o agradável, e porque, dito toscamente, o tempo não dilata o suficiente para poder escrever sobre outras coisas. Aqueles que seguem o apARTES desde o berço lembrar-se-ão de aqui verem postadas algumas resenhas críticas de cinema, coisa de que, a pouco e pouco, fui abdicando a contragosto. Em consequência, o link "filmes" que ainda aparece, quase timidamente à direita da secção maior, no cabeçalho deste blog, foi votado ao abandono e limita-se a um parco e acanhado rol de pouco menos de uma trintena de títulos. Pois bem, reconhecendo o mister e a propriedade de remediar a (imperdoável) descortesia com essa outra paixão que é o cinema, decidi criar um espaço novo no apARTES. Sem uma varinha de condão para multiplicar as voltas diárias do relógio e não podendo dispensar menos atenção à música, a opção era única: mostrar-vos as fitas que vou vendo (no DVD ou nos anfiteatros) e cumprir um serviço mínimo para um crítico que se preze. À falta de tempo para redigir um texto condigno dos valimentos de cada filme, deixo-vos a fria expressão numérica da minha opinião. Menos mal, diria eu, antes uma menção ao cinema, mesmo que ela se resuma à mera valoração numérica dos filmes e das coisas que se vão fazendo na sétima arte, do que preservar o incómodo autismo face à cinematografia de que padece o apARTES, há uns tempos. Dir-me-ão, vocês frequentadores deste espaço, a vossa opinião.

Nesta nova secção do apARTES, a primeira de um par de novidades de curto prazo (a segunda virá substituir o estagnado "Postal Ilustrado"), os cibernautas encontrarão uma pequena tabela, de consulta rápida, actualizada regularmente na cadência das estreias, com a avaliação dos filmes que eu for vendo, apenas de entre os títulos em exibição nas salas de cinema. Num plano mais detalhado, um pouco mais abaixo na página, figura uma fileira com os posters dos últimos filmes que vi, na ordem cronológica da sua visualização, independentemente de terem sido vistos no DVD ou numa sala de cinema.

Espero que este lacónico guia seja prestável para alguns de vós e, com ele, fica a promessa de, se tal me permitir a hegemonia do tempo, vir a tributar um lugar mais conforme ao cinema no apARTES.

O cinema também tem lugar no apARTES. Clique aqui (ou no link permanente que encontra na margem esquerda do apARTES) para aceder à nova secção.

Os meus agradecimentos pela vossa fidelidade.
Ela é mútua.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Rob Zombie - Educated Horses

Apreciação final: 6/10
Edição: Geffen, Março 2006
Género: Metal Alternativo/Hard Rock
Sítio Oficial: www.robzombie.com








Na ocasião em que se amplia a visibilidade do seu percurso na sétima arte como realizador (o exemplo mais recente foi a fita "The Devil's Rejects"), Rob Zombie apresenta o quarto registo de estúdio. Desde a desagregação do colectivo White Zombie, agrupamento que liderou durante cerca de uma década, Robert Cummings (assim o baptizaram à nascença) seguiu individualmente o mesmo entendimento do hard rock: insinuações góticas, universos capturados dos filmes de terror, excentricidade própria do glam-rock, simbolismo do fantástico e do punk e discurso hedonista. Educated Horses pouco se distancia desse leitmotif, tonificando a guitarra eléctrica como substância primaz, ao jeito anacrónico do hard rock clássico ("Let it All Bleed Out" e "American Witch" ficavam bem no catálogo White Zombie), de acordes abertos, cadências a galope veloz, um ou outro solo técnico e vigor non stop. De permeio, algumas alucinações modernistas e ambientes acústicos, com pianos solitários ou esquemas harmónicos mais demorados, sem desvios do protótipo principal. Talvez pela acção dessas interferências incomuns, não é tão evidente a militância gore que pautou os registos anteriores de Rob Zombie, ainda que se mantenha imaculada a sua aptidão para sondar (e desfrutar) as diversas cambiantes (e parábolas estilísticas) desse universo e as potencialidades da sua transposição para as cordas de uma guitarra. Essa marca distintiva é prosseguida neste Educated Horses com a competência do costume e uma afincada fidelidade às fórmulas harmónicas de sempre, num mosaico extenso de recursos sónicos e voz recurva, combinados com perspicácia.

Não sendo Rob Zombie um artesão particularmente dado à evolução, não estranha que algumas das peças de Educated Horses dêem mostras de semelhança inegável com trechos antecedentes do músico. Corta e cola? Fidelidade a um estilo ou estagnação criativa? Em qualquer dos casos, cinco anos volvidos desde o último lançamento discográfico, a matriz sonora de Rob Zombie está menos equipada com habilidades de estúdio e quilos de distorção, mas guarda o impulso cativador. Os fãs cabeludos do músico é que não acharão muita piada à discrepância pop que se apossou dele e que as presenças ilustres do baixista Tommy Lee (Mötley Crue, Methods of Mayhem) e do baterista Josn Freese (Suicidal Tendencies, A Perfect Circle) não disfarçam. O mestre do macabro envelheceu e no manual de bordo da sua barca do inferno já cabe a palavra pop.

domingo, 20 de agosto de 2006

Lisa Germano - In the Maybe World

Apreciação final: 6/10
Edição: Young God Records, Julho 2006
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.lisagermano.com








Ainda que menos notada do que outras cantautoras da sua geração, não falta, porém, a Lisa Germano a vocação para musicar como poucos o encanto de sentimentos genuínos. Cada vez mais remotos estão os tempos em que tocava com John Mellencamp, algures na década de 80, evidenciando ânimos rock que o tempo fez esfumar. Hoje, ela prefere segredar ao piano ou à guitarra, sussurrando-nos melodias de voz quente e delicada, em chamamento de alegorias frágeis e de envolvimento nostálgico. A beleza nublada das canções e dos cenários que invocam vale-se da expressividade minimalista do álbum, seja no registo vocal que raramente se expande além do cativante cicio de Germano, seja no underacting das cláusulas instrumentais. Ainda assim, roçam a mediania os previsíveis fraseados harmónicos, esqueleto musical que faz sustentáculo das orações vocalizadas da autora. Com um percurso a solo vinculado em disco às vicissitudes quotidianas, mormente nos melhores trabalhos, os elegantes Happiness (1993) e Geek the Girl (1994), Lisa Germano retoma o mesmo imaginário para este álbum, o esquadrinhamento patológico das disfunções do amor e da morte, exercício despido de presunção, antes profundamente íntimo e contemplativo. Assim acontece neste In the Maybe World. Estruturalmente básico, o disco é o reflexo das inquietudes simbólicas de Germano, percorrendo os arquétipos das canções de embalar, sem descambar para a vertigem delico-doce que se mostra, muitas vezes, neste tipo de composições. Evitado esse revés, In the Maybe World mostra-se mais do que um mero disco de baladas, mesclando universos de doçura pueril com rasgos de introspecção sobre a mundanidade da vida, revérberos de um espelho luminoso da existência humana. As canções quase não viveriam, assemelhando-se a feixes de holograma, quase sem corpo, não fora a consistência arrepiante da voz, excipiente privilegiado para a bonançosa catarse de Germano. Nesse sentido, o álbum é uma sentença existencialista, dispensa quaisquer abstracções e lança mão da honestidade típica da cantautora e da cortante sensibilidade com que aborda a morte, os amores a prazo e factos episódicos da sua própria vida. Tudo com uma fragilidade quase inexequível.

Musicalmente aquém de outros tomos de Lisa Germano, também nas letras In the Maybe World tem alguns equívocos. Uma vezes colando-se a uma poesia turva mas inteligente, noutros instantes fica refém de vulgaridades infantis e lugares comuns menos prestigiantes. Mesmo assim, o sétimo trabalho de Germano é uma escuta deslumbrante e, não sendo um fascículo excelso da cantora, deve prestar o serviço de repor Lisa Germano na órbita da freak-folk da moda. Ou isso ou mostrar-nos as passagens para uma sad pop atonal que se sente como uma aragem fria, medra com audições sucessivas e sacode as nossas percepções, mostrando-nos a rapsódia de um outro mundo. O talvez-mundo de Lisa Germano.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Eagles of Death Metal - Death by Sexy

Apreciação final: 7/10
Edição: Downtown, Abril 2006
Género: Hard Rock/Garage Rock 'n' Roll
Sítio Oficial: www.eaglesofdeathmetal.net








Não sendo considerado pela imprensa especializada como assunto sério, o projecto Eagles of Death Metal é mais um dos apêndices dos Queens of the Stone Age. Já não causa surpresa que a cada estação desponte nova empresa paralela dos membros dos QOTSA e, no caso dos Eagles, Death by Sexy é o segundo fascículo de uma jornada iniciada há dois anos. Aqui, o frontman dos QOTSA, Josh Homme (sob o altivo pseudónimo Carlo Von Sexron), senta-se à bateria e o protagonismo vocal é do porno-bigodado Jesse "The Devil" Hughes, seu amigo da mocidade. Directo e vigoroso, Death by Sexy é uma locomotiva de rock 'n' roll apressado, sem complexos, inveteradamente hedonista e entretido. A escrita de Hughes é lasciva, a roçar o machismo sexual mas não tem subterfúgios freudianos. Ele quer mesmo sexo. O sexo não é desculpa, é motivo. Musicalmente, para lá chegar, nada melhor do que uma plataforma feita de rock básico e urgente, nutrido a metanfetaminas e cerveja, tatuado até ao tutano, riffs de pé na tábua, percussões galopantes, registo vocal polimórfico (entre o falseto grosseiro e um Elvis demente) e...regras para quê? E death metal só mesmo no baptismo da banda.

Mais aprimorado do que o antecessor, Death by Sexy mantém a ousadia desengonçada e centra-se no deleite sensorial, mais do que propriamente no apuro técnico (veja-se a simplicidade das estruturas harmónicas das composições) ou nas prescrições de estúdio. A única lei é o toca e segue instrumental: bateria de croma único, concentrado de guitarra, baixo com mordaça. Como se os ZZ Top descobrissem um casamento cósmico com a adrenalina dos Stooges ou dos Stones reciclados. O resto são hormonas fervilhantes, suores e arrepios, uma declarada exaltação do rock carnal, um estímulo escapista contagiante. Nada de essencial ou inovador, é certo. Mas entusiasmante. Death by Sexy é a banda sonora para um one night stand com aquela desconhecida voluptuosa do bar, sem telefonemas nos dias seguintes. Só falta convencer a moça...

domingo, 13 de agosto de 2006

Jurassic 5 - Feedback

Apreciação final: 5/10
Edição: JVC Victor/Interscope, Julho 2006
Género: Hip Hop/Underground Rap
Sítio Oficial: www.jurassic5.com








Com a deserção recente do produtor Cut Chemist (à procura de evolução em nome próprio), a equipa mais astuta do rap underground do Bronx tornou-se, agora sim, um quinteto. A partida de Chemist, prospector versado nos postulados do diggin', é um desalinho mais do que numérico nos Jurassic 5. Ele é, a par de Dj Shadow (com os seus Quannum), um dos obreiros da cartilha básica do hip hop de combustível funk, em busca das origens do género, com pioneiros como Afrika Bambaataa, os Sugarhill Gang (a quem é atribuída a primeira gravação hip hop), Kool Herc ou, um pouco mais tarde, os Crash Crew ou os Treacherous Three. E aí que estão as raízes arcanas do hip hop, a verdadeira old school, muito antes dos Wu-Tang Clan, Gang Starr ou dos Beastie Boys. Para esse trabalho missionário de uma década a recuperar a estética esquecida e as técnicas beats desusadas (em tempos até se gravavam em tempo real), é difícil desligar os Jurassic 5 do espírito retro de Chemist. A química essencial do disco é agora incumbência de Dj Nu-Mark, também ele destro na procura da batida certa. Contudo, a despeito da competência técnica e da regularidade funcional que o disco apresenta, mormente nas sinergias vocais do costume e numa ou outra beat carismática, a escuta de Feedback ressalta algumas anomalias. A muito radio-friendly "Brown Girl" existiria com Chemist? Chame-se-lhe amadurecimento ou afeição mercantilista, Feedback não é vinheta da história dos J5. O afinco deles nas causas anti-comerciais jamais faria adivinhar que um dia, por força das ironias do destino - o tempo fez do underground uma vaga de primeira linha - ou do anseio pelo êxito, os J5 fariam concessões arriscadas (insensatas?) ao lado mais circense do hip hop. Cansados do anonimato do underground? Dave Matthews é convidado (até nem é muito estranho, Nelly Furtado já emprestara a voz em Power in Numbers), Scott Scorch dá uma ajuda nas batidas, Mos Def é rato no porão.

Mais do que serenar o discurso panfletário dos J5, ainda preocupados em salvar o mundo hip hop dos dominadores clichés MTV em que o recurso visual maior são moças de formas generosas e uma atitude pimp despudorada, Feedback dá mostras de algum cansaço no malabarismo das fórmulas old school e, pior do que isso, de descrença na importância de manter activa a integridade da arte e sobrepô-la ao império dos dólares. Não basta proclamar, com sensação, que se é salvador. Para o ser, há que obrar uns quantos milagres ou actos de redenção. E Feedback, quatro anos depois do último disco, está mais perto de ser o negócio com o belzebu que os J5 sempre rejeitaram.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Mário Laginha - Canções & Fugas

Apreciação final: 8/10
Edição: Universal, Abril 2006
Género: Piano
Sítio Oficial: www.mariolaginha.org








O legado de J.S. Bach é um dos mais sacros espólios da música erudita, menos notado na sua época (primeiro quarto do século XVIII) é certo, mas reconhecido com a grandeza devida a partir do século seguinte, muito por culpa da afeição do também germânico Felix Mendelssohn, profundo conhecedor (e regenerador) da obra barroca. Organista de excepção e músico de escalas várias, Bach era cultor do contraponto, ciência proveniente dos cânones musicais e que, sem precisão técnica, pode dizer-se que se distingue pela ausência de um enunciado melódico principal na composição e, consequentemente, pela construção harmónica com notas esparsas ou alinhamentos melódicos alternantes. Lugar de inventividade e, no limite, espaço privilegiado para o improviso, o contraponto é a chave das notáveis fugas e prelúdios de Bach, como pode escutar-se na sublime preciosidade técnica de Das wohltemperirte Clavier (Cravo Bem Temperado) e da inacabada Die Kunst der Fugue (A Arte da Fuga). Os dons do contraponto são o combustível criativo do mais recente trabalho de Mário Laginha. Admirador da mestria de Bach, Laginha explora, na primeira gravação em nome próprio desde Hoje (1994), a ciência do contraponto, reformatando-a à luz de proposições melódicas mais recentes, sejam elas vindas do jazz solista (os nomes de Bill Evans ou Keith Jarrett são regalos irrenunciáveis) ou dos manejos repentistas do autor. Nesse sentido, Canções & Fugas não é um disco classicista de piano. Nem de fugas ou canções. É, antes, um exercício da identidade de Laginha, como ele tão bem faz em cima dos palcos, absorvendo os teoremas fundados e juntando-lhes respeitosamente retalhos de um mundo musical singular, prerrogativa apenas ao alcance de intérpretes que, não esquecendo a face colegial e a rectidão da sua formação, se atrevem a somar-lhe paradigmas de outras famílias sonoras.

A sintaxe musical deste Canções & Fugas provém de um piano solitário e uma dúzia de peças, com fugas de permeio entre canções no mesmo tom. O discurso é, em qualquer dos registos, tecnicamente seguro, de ritmo sólido e melodicamente cativante, envolvendo o ouvinte num princípio de incerteza. A dúvida entusiasmante é indagação do princípio ao término do disco: jazz ou clássico? Abra-se a especulação, mas pouco importa a réplica quando estamos em face de música deste tamanho, produto lógico de um criador estudioso e de espírito itinerante que, com um prisma pleno de contemporaneidade, nos mostra esculturas musicais que, em semelhantes primores, tão bem dotariam uma exibição pública no século XVIII quanto cabem numa galeria sonora dos dias de hoje.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Chico Buarque - Carioca

Apreciação final: 7/10
Edição: Biscoito Fino/EMI, Julho 2006
Género: MPB
Sítio Oficial: http://chicobuarque.uol.com.br








Com um percurso seminal repartido por artes de formas diversas, Chico Buarque é um dos rebentos mais ferazes da cena musical brasileira. Foi na conjuntura da distante década de 60 que despertou para a música, abandonando os estudos superiores e tendo, desde cedo, o privilégio de conviver com a fina-flor dos intérpretes fundadores da MPB e/ou do tropicalismo: Sérgio Mendes, Jorge Ben, Nara Leão, João Gilberto, Toquinho, Edu Lobo, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre muitos outros. O despotismo dos tanques nas ruas do Rio, grilhão de ferro do general Costa e Silva, levá-lo-ia à mesma sorte de outros compinchas, votando-o ao desterro em Itália, na eclosão do alvoroço cultural tropicalista. A errância de viageiro forçado veio a esculpir outras cláusulas à alma profundamente carioca da sua música, sempre popular e generosa, de verbo cirúrgico e coração sambista, de humor suspirante e agudo. Chico fez-se menestrel, de corpo e espírito, contador de estórias dos cantos penuriosos das urbes, desvões onde se reuniam mendigos e patifes, prostitutas e bêbados, lágrimas de criança. Relatos poéticos de um rosto ignorado do Brasil, com o saracoteio dos sambas de morro e o primor do jazz, sumo depoimento da identidade de Chico. O retorno a casa mostra-lhe o ónus da censura na pátria dos anos de chumbo, intervalo de vigência do mais duro dos generais, Emílio Médici, e a exprobração sucessiva da sua lavra (com peças politizadas, ao jeito de enunciados da classe proletária) empurrou-o para um silêncio de nove anos. Quando os ferimentos político-sociais deixados pelos sucessivos governos autoritários saravam lentamente, na década de 80, Chico retoma a demanda da MPB, encontrando-a virada para elites e desenraízada do tamanho popular das primícias. Mas Chico é do povo, mesmo quando as gentes mudam os transístores para outras ondas. Apoia publicamente o esquerdista Lula da Silva, derrotado nas primeiras eleições directas e, mais tarde, junta a sua voz ao protesto dos sem-terra, cedendo-lhes os direitos de um disco sintonizado com o movimento contra o jugo dos fazendeiros.

Carioca é a etapa de regresso ao estúdio, oito anos depois do último álbum, e depois dos bons créditos da prosa romanceada de Budapeste. Se nesse escrito Chico cursava sobre o dano imparável da personalidade dobrada no indíviduo, o disco faz crer noutra dualidade. Carioca é Chico, como ele sempre foi mas, camuflada por detrás do rótulo de baptismo do tomo, está música que não é só da cidade maravilhosa; o samba instruído e a bossa nova, os mais cariocas privilégios sonoros, estão cá e trazem orquestrações de luxo. Todavia, Chico, autor traquinas, refractário de sempre, imune ao torpor, presta tributo ao Rio mas não se encerra nas castas de sons cariocas, antes permite outras peripécias, como o balanço baiano de "Ode aos Ratos", o swing dourado de "Porque Era Ela, Porque Era Eu" ou o beijo (amargo?) da guitarra eléctrica de "Renata Maria". A MPB já não reclama os panfletos musicados de Chico mas Carioca é outro tomo de retratos de uma nação brasileira que só se mostra nos seus acordes e canções. Embora sem peças harmónicas tão magníficas como outros discos, Carioca firma uma certeza: a obra de Chico é infinita e o Brasil não é o mesmo sem ela.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Tapes 'n Tapes - The Loon

Apreciação final: 8/10
Edição: Ibid/XL, Abril 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: www.tapesntapes.com








Com o debute nas lides discográficas em formato de edição de autor, o quarteto americano Tapes 'n Tapes faz jus ao burburinho que antecipou este lançamento. Na linha da inesperada eclosão da surpresa nova-iorquina Clap Your Hands Say Yeah, no ano transacto, ou dos britânicos Arctic Monkeys, já em 2006, The Loon também chegou aos ouvidos dos melómanos mais atentos através da web. Em pouco tempo, a música destes rapazes de Minneapolis angariou séquitos e a ulterior divulgação em inúmeros blogs e sítios foi a semente da curiosidade. E The Loon não desilude. A sugestão sonora é o rock colegial dos Pixies ou dos Pavement, com um piscar de olhos às derivações mais astuciosas do pós-punk e breves incursões aos palatos western dos Calexico. Trocada em miúdos, a música dos Tapes n' Tapes é uma junção inteligente dos cânones mais emblemáticos do folk-rock americano da última década e meia, uma verdadeira antologia de ritmos e (des)equilíbrios melódicos intencionais, com contrastes e ângulos diversos. Música expressiva, portanto. A galope das fintas oblíquas da guitarra e sem uma produção pomposa ou truques de estúdio - o álbum é um simples exercício de trabalhos manuais dos músicos. Dessa natural desafectação de formas desabrocham quarenta minutos de música de traço firme e proporcionado, rock'n'roll apurado para este século (Insistor é a certidão de nascimento) e bem escrito. A visão dos Tapes 'n Tapes é ecléctica, na raia da incongruência estética, a ponto de The Loon ser um corpo de canções deliciosamente anómalo, tal a irregularidade de matérias sonoras que abriga. Padrões indie purificados.

The Loon pode não ser a maiúscula obra que muitos esperaram, até tem um ou outro desvio algo diletante - coisa perigosa que pode ser confundida com pretensiosismo artístico - mas não deixa de ser um tomo livre de frivolidades. Pertinente do começo ao desfecho, com carisma raro, envolvente e tangente ao génio em certos trechos, a estreia dos Tapes 'n Tapes é a demonstração inequívoca de que partir de influências célebres para construir uma marca própria só é erro se não existir um intervalo de demarcação. Em The Loon esse espaço identitário não é lato mas existe e é dele que nasce uma chancela indie eloquente que, logrando a familiaridade com os mais sólidos dialectos da música americana, se exprime num idioma próprio e que apetece traduzir, da primeira vírgula ao último acorde, em desafio ao mesmo vocabulário pré-convencional fundado pelos insignes Frank Black e Stephen Malkmus.

Posto de escutaInsistorManitobaOmaha

domingo, 6 de agosto de 2006

Wolfmother - Wolfmother

Apreciação final: 6/10
Edição: Interscope/Universal, Maio 2006
Género: Hard Rock
Sítio Oficial: www.wolfmother.com








O trio australiano Wolfmother é um daqueles agrupamentos musicais que se orgulha de dobrar o tempo e apostar em modas tonais de outras épocas. No álbum de estreia, o influxo maior é uma revisitação óbvia ao hard rock alucinado dos anos 70, época em que estourou o psicadelismo de bandas como os Black Sabbath ou os Led Zeppelin. São mais ou menos evidentes os reflexos desses atributos na música dos Wolfmother, especialmente dos Sabbath na fase Osbourne; Ozzy parece o disfarce favorito do vocalista Andrew Stockdale, tal a proporção com que se cola aos meneios do ex-vocalista dos Sabbath. A outro nível, a porção instrumental do álbum reabre repetidamente tragos intensos de guitarra, acordes abertos na melhor tradição nostálgica, algo que a produção do disco ajuda a sustentar, armando um ambiente que, nos tempos modernos, apenas se encontra nas odes mais anacrónicas escrevinhadas pelos Queens of the Stone Age (ou pelos saudosos Kyuss) ou nas ondulações retro dos White Stripes. Neste frenesim de feitiçarias rock de origens e épocas várias, os apontamentos específicos de Stockdale, Chris Ross (baixo) e Myles Heskett (bateria) deixam-se amordaçar pelo expediente dos clichés, usados exaustivamente no mimetismo do tipo de som que admiram. Se originalidade e cunho próprio é miragem no debute destes jovens aussies e isso é desfavor das canções arroladas no álbum, não se perde a autenticidade da alma puro-sangue rock do disco, atestado supremo da competência dos músicos na manipulação de um dialecto musical deslocado no tempo.

Wolfmother absorve a truculência dos notáveis do hard rock, copia-lhes o compasso e as medidas e sai da inevitável comparação com um mérito dúbio: mostra-nos uma banda com destreza técnica e pujança suficientes (ao vivo eles devem ser demolidores) para merecer o alvoroço que a rodeia, isso é inegável, mas que não chega a firmar um carimbo próprio. Ainda assim, o disco entretém da partida ao final, numa excursão pelo hard rock clássico e dá uma imensa vontade de resgatar alguns vinis do armário. Sem desdém pelos rapazes, pago para ler uma crítica a este power trio que não conjugue estes caracteres: B-L-A-C-K-espaço-S-A-B-B-A-T-H. Em português, R-O-C-K com "R" maiúsculo. Obrigado pela frenética recordação, Wolfmother!

sábado, 5 de agosto de 2006

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Kimya Dawson - Remember That I Love You

Apreciação final: 6/10
Edição: K, Maio 2006
Género: Folk Minimalista/Lo-Fi
Sítio Oficial: www.kimyadawson.com








Há canções que nos incitam pela extraordinária simplicidade com que renunciam a ornatos frívolos e às deformadoras tramas de estúdio. Mais do que isso, no caso da quase incógnita nova-iorquina Kimya Dawson, mais conhecida pelo projecto The Moldy Peaches (união casual com Adam Green), a porção instrumental das canções nem sequer é o artigo maior. Remember That I Love You, quinto exercício a solo da americana, prova que a música é uma mera tribuna servente da voz. Não é que Dawson seja uma cantora sublime, longe disso, tampouco uma instrumentista de nível superior; nem a isso ela aspira. O cerne desta dúzia de canções é o discurso, a palavra empregada é medula de histórias quotidianas e reflexões de uma honestidade cortante. Dawson na pele de narradora. A produção recebe com agrado o protagonismo das fábulas (umas biográficas, outras metafóricas) e esconde a guitarra (e demais instrumentos) atrás da retórica pertinente de Dawson. A voz faz-se corpo, indiferente ao desprovimento musical, e captura o ouvinte num imaginário ditoso, um universo genuíno que confunde, com irónica docilidade, utopias de criança e os desmanchos do mundo real.

Se as texturas musicais de Remember That I Love You não têm arranjos e soam rudimentares, Dawson compensa essa privação com sentimentalismo verosímil. Nada de bacoco. Com uma mensagem positiva, ela toca os vértices centrais do existencialismo, a vida, a morte, a doença e o relativismo do indivíduo face ao mundo. A temática seria pretensiosa, não fosse o jeito cativante de Dawson narrar as coisas, comunicando com o ouvinte através da palavra, já não da música, e fazendo uso de recursos linguísticos com afinco e humor (ouça-se "I Like Giants", metáfora entretida sobre os complexos com o corpo do género feminino...). Umas harmonias e inflexões melódicas mais e este conjunto de canções (se assim se podem chamar) granjearia outra reputação junto da comunidade melómana. Dawson, ao invés, prefere dar-nos uma apelativa terapia anti-depressão e, se tal se difunde melhor através da letra, esqueçamos que Remember That I Love You é um álbum de canções, façamos de conta que é um livro para ler com os ouvidos e aprendamos a tirar gozo dos infortúnios.

Posto de escutaMy MomCaving InFrance