terça-feira, 12 de setembro de 2006

Agalloch - Ashes Against the Grain

Apreciação final: 8/10
Edição: The End Records, Agosto 2006
Género: Metal Experimental/Doom/Pós-Metal
Sítio Oficial: www.agalloch.org








Embora seja sucessivamente colada por terceiros aos rótulos do orbe do metal americano, a música dos Agalloch é um exemplo da transcendência de géneros. Se pode considerar-se o black metal como a doutrina-mãe, sobretudo nos contextos líricos do disco, nos métodos intrínsecos à composição e no registo vocal, Ashes Against the Grain vai um pouco além disso, seguindo o mesmo trilho do antecessor, editado há quatro anos. As matérias do vernáculo death - menos assíduas neste álbum, assim como a voz - são apenas uma contingência, uma superlativa adição a um fraseado melódico que reproduz encadeamentos rítmicos muito próximos do rock progressivo, umas vezes, do pós-rock de feição meditativa (chegam a lembrar os Mogwai), noutros momentos. Dessa mescla substancialmente versátil irrompem atmosferas de tons melancólicos ambivalentes, ora propiciados pela bonomia de uma guitarra acústica (solução nobre na alternância das compleições do disco, mais astutamente utilizada do que no passado), ora arremessados com o viço das distorções. Em qualquer dos rumos, Ashes Against the Grain alude a cenários turvos e de palpitações frias, florestas geladas e animais de cristal, almas caducas e desalento. O som é espesso e perturbante ao primeiro contacto, mas cresce com sublimidade, num ritual de experiências repetidas que se torna sacramental. É essa a demanda destes quatro cavaleiros do apocalipse que, percorrendo nas suas montadas as ruínas de um mundo descrente, se tornam apóstolos da bondade negra do caos. E musicam-na como poucos, galgando fronteiras e preconceitos, e dando corpo a uma nova ordem metal, sem cobiçar o vanguardismo derradeiro, sem ampliar pretensiosismos técnicos e sem agudizar ímpetos.

Prosseguindo a epopeia evolutiva de anunciar novos espaços para a expansão do metal, os Agalloch ergueram outro épico numa jornada encetada há cerca de uma década. Ashes Against the Grain denota algumas mutações no som do quarteto de Portland, mormente na diversidade de palatos sonoros reunidos com pertinência acrescida, e acaba por ser o trabalho mais ambicioso de uma banda de fina estirpe, servida por músicos virtuosos. E faça-se aqui o competente desengano: Ashes Against the Grain será arrumado nas estantes do metal dos retalhistas, mas dentro do receptáculo do disco compacto está uma obra pouco menos do que majestosa e de génio precursor, bem além da esfera do metal comum e que é digna de ser achada por todos aqueles de espírito amigo do imprevisto.

domingo, 10 de setembro de 2006

I'm From Barcelona - Let Me Introduce You to My Friends

Apreciação final: 7/10
Edição: Virgin, Maio 2006
Género: Indie Pop
Sítio Oficial: www.imfrombarcelona.com








O baptismo é um simpático logro deste numeroso grupo de músicos. Ao invés de terem despontado em terras da Catalunha, estes 29 aliados vêm da distante Suécia, da sulista terrinha de Jönköping, nas margens do segundo maior lago do território sueco, sítio de singular actividade piscatória. Pescadores ou não, os I'm From Barcelona são responsáveis, no primeiro longa duração da carreira, por um dos lances mais oportunos da pop veraneante deste ano. De uma trupe desta dimensão podemos contar com uma amplitude instrumental (e vocal) não muito ouvida na vaga corrente da pop; os trechos musicais tocam ambientes tão festivos que quase roçam a inocência melódica (elogio!), não por inaptidão técnica dos intervenientes mas pela simplicidade estrutural, algo que remotamente traz à memória a sintaxe básica de uns Beach Boys. Depois, além de vários estratos instrumentais ordenados com elegância, desde cordofones a acordeões, a sintetizadores e kazoos, ainda xilofones e sopros, a especulação vocal é sublime, sempre em volta de Emanuel Lundgren, o cabecilha da pândega, com coros devidamente hierarquizados a delinearem harmonias tão amigas do ouvido que roubam a alma do disco. É assim que o desfile de canções de Let Me Introduce You to My Friends contagia o menos atento dos tímpanos, especialmente na regra do refrão em júbilo que, irresistivelmente, desperta o desejo de soltar a voz, por mais dissonante que seja, e juntá-la à celebração desta assembleia de amigos.

A folia é a estampa sónica dos I'm From Barcelona. Eles não aspiram a re-inventar a roda nem a tirar a terra da sua órbita original, antes concebem um plano despretensioso (até infantil, nas letras e na música) para entreter. E, nesse fim entusiasta, sucedem a toda a linha. Let Me Introduce You to My Friends pode não ser um produto artístico essencial, nem seria esse o seu desígnio primeiro, mas é um tomo de diversão segura. E agora que o verão se desvanece e o termómetro arrefece, nada melhor do que reter um pedacinho dessa energia fugidia do estio, dar asas à puerilidade de uma boa festança e cantar de pulmão cheio. Aqui, em Jönköping ou em Barcelona, a festa dos I'm From Barcelona é de quem nela entrar.

sábado, 9 de setembro de 2006

Woven Hand - Mosaic

Apreciação final: 7/10
Edição: Glitterhouse/AnAnAnA, Agosto 2006
Género: Folk Alternativo/Experimental/Espiritual
Sítio Oficial: www.wovenhand.net








Distanciando-se gradualmente das fantasias e dos caprichos country incomuns dos 16 Horsepower, colectivo de Denver que governou desde a década de 90, David Eugene Edwards encontrou no alter ego solitário Woven Hand (em palavras lusas, o rótulo significa "mãos juntas em oração") a contextura útil para converter a sua música à doutrina de misticismo espiritual que, se era decifrada subliminarmente nos 16 Horsepower, aqui é apregoada com arrepiante generosidade. Não é estranha a esse facto a devoção cristã de Edwards, não fosse ele descendente de um pregador da Ireja do Nazareno, culto de impressão protestante de origem no sul da América. O quarto registo do projecto Woven Hand prolonga os atalhos de espiritualidade e os enigmas escuros dos antecessores, desembrulhando os atributos de temperamento religioso em sucessivas camadas de música espectral, como num renque de preces fantasmáticas do oculto, sentidas e viscerais. Assim é Mosaic, sem os louvores e aplausos em uníssono dos sons gospel, antes a profissão de fé de um eremita (Edwards é-o cada vez mais, pelo menos na apologia da contrição do vício humano) que, ciente da transitória natureza do sopro da vida, modestamente se posta perante a divindade para abrir o espírito em confissão. A música consagrada a este acto intangível é, como não podia deixar de ser, íntima e pouco expansiva, típica de Woven Hand, com estruturas simples e introvertidas, ora gravadas a guitarra ora com o auxílio de violinos, de nervo folk-country-gótico e saibo medieval. Ingrediente novo em Mosaic: as emendas de música celta (em revisão psicadélica) no final da inquietante "Slota Prow - Full Armour".

O cerimonial de Mosaic é nocturno e escatológico mas não chega a ser extemporâneo, não fossem estes desígnios teológicos coisa suficiente para meditar. Edwards é crente mas não faz do álbum um manifesto sectário, antes nos guia pelas suas reflexões e apelos, invocando repetidamente despiques maniqueístas, a sedução do mal vs. a resistência do bem (a profecia assombrada de "Elktooth" por oposição à bucólica "Whistling Girl"). Musicalmente, Mosaic não se desvia do cunho idiossincrático de Edwards, nem soma matérias originais ao seu cancioneiro. Mas esta é a música dos filhos de um Deus menor, daqueles que, desterrados do abrigo divino, acham a redenção nas sombras e na reverência obstinada da oração, em espera das graças da divindade. Edwards é um deles e reza, connosco, de mãos juntas.

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

O último filme que vi - O Sentinela

Mais um blockbuster nascido do lastro de obsessão securitária que confiscou o espírito colectivo americano na ressaca dos atentados de 11 de Setembro, o filme retrata uma conspiração de intenções homicidas do presidente americano e os jogos de poder e traição dos serviços secretos. Tomando o capital simbólico que a série televisiva 24 trouxe a Kiefer Sutherland - que neste filme acrescenta a gravata ao inexorável Jack Bauer - e juntando-lhe um discreto Michael Douglas, na pele de um condecorado agente, a fita desenrola-se na dinâmica normal de produtos deste género, também com a insipidez de um argumento decalcado de outros filmes. Um pormenor: o lamentável erro de sintaxe do título da versão portuguesa. Alguém se esqueceu do género do substantivo sentinela.


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Oneida - Happy New Year


Apreciação final: 7/10
Edição: Jagjaguwar, Julho 2006
Género: Pós-Rock/Experimental/Psicadélico
Sítio Oficial: www.enemyhogs.com








Tal como o cineasta e comediante Woody Allen, também oriundo de Brooklyn, dispersou com astúcia pela sua obra as inúmeras faces da Grande Maçã, esculpindo nas suas fitas caracteres activamente cosmopolitas, rebentos fidedignos de uma cidade global e nervosa, quase sempre neuróticos e instáveis, autocríticos e comiseradores, os conterrâneos Oneida especulam musicalmente sobre a mesma metrópole. Sente-se na música deste trio nova-iorquino uma pouco civilizada pugna de géneros, de onde é oriundo um dínamo incatalogável de partículas energéticas, como uma fusão de genes de múltipla personalidade, de cultos vários e abertura de espírito a níveis máximos. É essa a semente com que Nova Iorque fecundou a música destes três indomáveis, dando-lhes a intrepidez para afrontarem qualquer regra padronizada da indústria musical e para não fazerem caso das famílias musicais instituídas mas, ao invés, terem o desaforo de amalgamar tudo, aparentemente sem ordens de qualquer espécie e sem o espartilho de formatações pré-definidas. Para os Oneida, cada peça musical é reprodução prática de experiências sonoras fora da lei, de ensaios anormais com as mais variadas matérias, desde o rock académico ao noise mais castiço, das nuances psicadélicas à volubilidade do experimentalismo, dos fetiches retro às alucinações vanguardistas, do ensejo artístico ao contorcionismo instrumental. Com eclectismo ou excentricidade criativa, a verdade é que o som dos Oneida é singular, preciso na construção de um caos arrebatador, um retrato anti-sinfónico da esquizofrenia nova-iorquina, necessariamente retalhado, inconsistente, complexo, agridoce.

Happy New Year, oitavo fascículo do percurso dos Oneida, segue o rasto dos antecessores e aventa fórmulas alternativas para o amanhã da folk americana, dando continuidade às proezas precursoras de Scott Walker, embora com diferente subtileza. Se Walker reinventa a canção na configuração, baralhando as matrizes estruturais e os protótipos vocais, os Oneida adicionam excentricidade instrumental, músculo sem freios e infracção ruidosa. Talvez não seja este o disco para os catapultar para a visibilidade merecida mas o carácter visionário dos Oneida permanece impoluto, descomprometido e livre, rumo ao deslumbramento de um mini-cosmos confuso que, por fim, sempre esteve latente na cidade que não dorme. Assim cantava Sinatra e assim filmou Allen. Os Oneida unem esforços para que ninguém adormeça.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Ms. John Soda - Notes and the Like

Apreciação final: 5/10
Edição: Morr Music, Abril 2006
Género: Electrónica Alternativa/Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.msjohnsoda.de








Micha Acher é um baixista em voga na Alemanha. Além de fazer parte de um dos expoentes do pós-rock minimalista europeu, os consagrados Notwist, ainda integra o projecto Tied and Tickled Trio, ensemble com uma reforçada feição experimental e vanguardista. Em ambos os casos, mormente nos Notwist (onde Micha divide o protagonismo criativo com o irmão, Markus), a crítica tem reconhecido paulatinamente um punhado de edições valiosas que somaram valores aos dotes da indie de cariz electrónico da Europa Ocidental, culminando numa inesperada reunião com alguns músicos da label americana Anticon, entre outros o versátil Doseone (cLOUDDEAD) e no competente álbum 13 & God (2005), título que baptizaria também o projecto musical conjunto. Ainda sem esse peso mediático, o side-project Ms. John Soda, que Micha Acher partilha com a teclista Stephanie Böhm (dos também berlinenses Couch, com disco novo já lançado em 2006) vai ainda no segundo longa duração. Como decorre do background dos músicos, o item principal da ementa é electro, num registo sonoro de inequívocas alusões à escola berlinense, colocada aqui em obséquio a canções pop. Porque é de pop que se trata, não a pop de chiclete na boca e mão no bolso, mas a pop organicamente rica, sem dislates, orgulhosa da sua condição cosmopolita e dos favores da era digital e da programação. O laptop é o melhor amigo do músico berlinense, disso não sobram dúvidas. A forçosa sobreposição de camadas sonoras, como convém ao bom estilo alemão, também se nota aqui, ainda que nem sempre se discirna o proveito de algumas substâncias para o produto final. Mesmo que a intercalação de tais superfluidades com instantes bem executados seja uma adulteração da soma final, as melodias guardam uma réstia de sedução e são tão poppy quanto podem ser sem soar lamechas.

Se tecnicamente Notes and the Like perfilha dos princípios básicos que se vaticinariam nestes intérpretes antes de escutar o disco, o mesmo não pode ser dito do arrojo. Além dos desajustes já mencionados, os arranjos de cordas que adornam alguns trechos, mais não fazem do que traçar linhas previsíveis, manifestamente em serviço mínimo, muito aquém do uso próprio que conviria à melancolia que supostamente insinuam; as incertezas vocais de Stephanie Böhm, se povoam bem os lugares ritmados do disco, sublinhando um toque de sensualidade, deslustram um pouco quando se abeiram do monótono registo falado. As texturas electro são o deus ex machina do álbum, fazendo crer que Notes and the Like (com a excepção de "Hands" e, quiçá, de "Scan the Ways" ou "Line by Line") teria tudo a ganhar em deixar cair a voz e resumir-se ao que estes autores fazem melhor. Contudo, mesmo disciplinando os órgãos auditivos para fazerem de conta que a voz de Böhm não está lá, não se avistam muitas porções de som que valha a pena escutar senão por cortesia.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

O último filme que vi - A Casa Fantasma

A nova fita animada da Sony gira em torno de três teenagers, um vizinho muito mal humorado e uma casa assombrada. Entretenimento garantido para toda a família com muitos sustos e gargalhadas para os mais pequenos. Tecnicamente, o filme está servido por animações do melhor quilate técnico, cheias de realismo e verosimilhança e por um argumento que encaixa bem no imaginário infantil, ainda que não ofereça ingredientes novos ao género.

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Built to Spill - You in Reverse

Apreciação final: 8/10
Edição: Warner, Abril 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: www.builttospill.com








Há cinco anos que Doug Martsch e companhia não davam notícias. Os Built to Spill chegam ao sétimo registo de um percurso com muito bom gosto como um dos mais consistentes projectos da indie guitarreira americana. Há qualquer coisa do legado mítico de Neil Young nestas canções, ainda que a coisa se molde menos óbvia quando se espreitam as peripécias técnicas de guitarra que alimentam as manobras emocionais de You in Reverse. Aí, onde a guitarra se veste de sujeito determinante, sentem-se brisas da época dourada dos Pavement ou dos Pixies, sobem os volts e levam com eles a vibração do disco. A melodia não é descurada, antes se completa na efervescência escura das guitarras e no revérbero que enche o som dos Built to Spill, em torno de baladas rock, pequenos poemas sombrios cunhados com distorções mais ou menos tímidas. Raros são os álbuns que nos brindam com tamanha versatilidade no serviço da guitarra, expondo-lhe os diversos ângulos, a disposição flutuante, os solos em espiral, o magnetismo das expansões súbitas, como se as sessões de gravação mais não fossem do que uma trivial jam session. Em You in Reverse volta a ser notória, depois do fracassado Ancient Melodies of the Future (2001), essa paixão do quarteto do Idaho pelo virtuosismo técnico, especialmente na química inventiva que Martsch investe nas seis cordas da guitarra. A voz chega a parecer um simples acessório, não por estar a mais ou por soar inconsequente, mas porque a guitarra puxa para si os focos e agarra os tímpanos, (re)construindo a estrutura das canções, dando-lhes cor, vida e imprevisibilidade. Talvez por isso os trechos de You in Reverse quase pareçam infinitos, por pousarem nos ecos da ressonância da guitarra, a mais útil ponte para dimensões sem limites, mundos que perduram depois do fim do disco. O rock carnal à mercê do sonho.

Da competência de Martsch com a guitarra já tudo foi escrito e dito. You in Reverse é, nesse capítulo, exemplar. Ainda que num ou noutro momento se detecte um desalinho na exploração livre da guitarra, em detrimento da fixação mais firme de certas melodias, o álbum é um manifesto de maturidade, não tão triunfal como se supõe nas primeiras audições mas, mesmo sem trazer matérias novas ao catálogo dos Built to Spill, é suficientemente refinador e cuidado para reclamar a cortesia do universo indie à guitarra. Não foi à toa que neste artigo se usou a palavra guitarra mais de uma dezena de vezes. Afinal o que seria do rock (e dos Built to Spill) sem ela?

domingo, 3 de setembro de 2006

Killing Joke - Hosannas From the Basements of Hell

Apreciação final: 7/10
Edição: Cooking Vinyl, Abril 2006
Género: Metal Alternativo/Industrial/Doom
Sítio Oficial: www.killingjoke.com








Eles já andam neste ofício vai para trinta anos e, se bem que não tenha sobressaído manifestamente o sub-género do rock mais pesado que subscrevem, a verdade é que conquistaram, de pleno direito, um estatuto particular no seio do cosmos metálico, mormente pela influência que trouxeram à vaga pós-punk do final da década de 70, deixando pistas que seriam seguidas pela geração X (bandas grunge como os Nirvana, os Screaming Tress, os Soundgarden e os Mudhoney usaram algumas das praxes dos Killing Joke) ou por outras derivações do hard rock mais industrial (os Melvins ou os Ministry, por exemplo). Com um começo de carreira apadrinhado por John Peel e pautado por composições urgentes e mais próximas dos padrões do punk, de cadências galopantes (algo que ainda se sente nos tomos mais recentes), sistemas harmónicos primitivos e distorção a rodos, estes intrépidos britânicos foram crescendo para um registo com maiores obrigações técnicas e um compromisso artístico superior, por vezes assemelhado a um parente da escola progressiva, mas sem exacerbar divagações melódicas, antes buscando um transe feito de equações industriais e andamentos quase tribais. O cérebro é vital no metal dos Killing Joke, nada soa a despropósito, a dinâmica das guitarras é modelar e magnetizante (não chega a ser dançável?), a voz estentórea mantém-se, a percussão é nobre e a disposição das peças ajusta-se bem ao património do grupo. De facto, depois dos esboços menos bem esgalhados do álbum anterior (Killing Joke (2003)), onde o som parecia fazer concessões às proposições mais recentes do metal alternativo, Hosannas From the Basements of Hell é um inteligente retorno àquilo que os Killing Joke melhor fazem e que os distingue dos demais: rock negro e industrial com precisão mecânica e a induzir estímulos sensoriais que, além de agitar tímpanos, nos exportam para cenários apocalípticos gigantes, ecossistemas surreais de criaturas desfiguradas. Majestosas metáforas de uma existência com fúria no carburador.

O press release do álbum faz menção especial a um facto com relevo histórico. Matt Lusardi, o mesmo engenheiro de som das primeiras gravações dos Killing Joke, é o homem da produção no novo álbum. Mais do que prosseguir (e perseguir) a glória do passado, Hosannas From the Basements of Hell, não sendo um trabalho de rupturas inovadoras, é a prova de que os Killing Joke continuam a ser artífices capazes de acrescentar substâncias válidas à sua dotação e, com isso, consertar a aura do metal dos desarranjos do tempo e dar-lhe aquele extra que só está ao alcance dos decanos da classe.

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Midlake - The Trials of Van Occupanther

Apreciação final: 8/10
Edição: Bella Union, Julho 2006
Género: Indie Rock/Art Rock
Sítio Oficial: www.midlake.net








No burburinho underground que precedeu a edição do segundo álbum dos texanos Midlake, dizia-se à boca cheia que eles estavam mais Radiohead, muito por culpa do brilhante avanço do álbum ("Roscoe"). Embora se possa cobrar essa eventual similitude no registo vocal de Tim Smith, algumas vezes lavrado em moldes idênticos aos de Thom Yorke, a proposta musical deste quinteto fixa divergências detectáveis desde as primeiras audições. Ao invés do polimento urbano e modernidade que tão bem assenta nos Radiohead, a música dos Midlake é, as mais das vezes, rústica nos princípios, com subterfúgios dignos de uma écloga musicada, a lembrar paisagens verdes e ensolaradas, de perfumes country, pejadas de insinuações acústicas (o disco é menos electrónico do que o antecessor), guitarras e violinos em diálogo, pianos e flautas a secundar. Aqui e ali, os tímpanos mais lúcidos descobrem, nas recatadas melodias dos Midlake, pulverizações da lírica dos anos 70 (vestígios da devoção a Fleetwood Mac, Jethro Tull e Steely Dan?), coisa que alinha os Midlake com os californianos Grandaddy ou com os também americanos Flaming Lips, com quem, de resto, já partilharam palcos. Aparentemente conceptual, o álbum é uma alegoria sobre a descoberta de si mesmo de Van Occupanther (e, por extensão, a revelação de adágios universais da humanidade), um misantropo campesino ficcionado (século XIX?), suas peripécias e confidências, num conto encriptado numa linguagem nem sempre contínua e de entendimento incerto. Letras à margem, a fracção instrumental é ambiciosa e cheia de cambiantes, fazendo menção de reunir uma multiplicidade de estímulos acústicos, com arranjos superlativos de cordas ou sopros, em apreço pelos cânones do rock clássico. Canções que soam assim são um repto às irrevogáveis sentenças do tempo, afastam-se dos ciclos de modas e costumes instantâneos e tão bem se escutariam nas ondas de uma emissão radiofónica dos anos 70, como são ouvidas presentemente.

Menos psicadélicos que na obra de debute, os Midlake condescendem com as directrizes mais concretas da sua música e, em The Trials of Van Occupanther, buscam um discurso mais focado, também mais delicado e intimista. Talvez por isso, o álbum é mais dream pop do que se presumiria e, em contraponto com a propensão recente do indie rock não está impregnado da pop efusiva dos 60's, tampouco do delirante new wave dos 80's (esses predicados foram investidos no disco de estreia), ambos preteridos, como se escreveu atrás, em favor de uma família menos compreendida, o art rock sombreado da década de 70. Alguns trechos do disco têm menos faculdades mas tivera a máquina sido afinada pelo lamiré de "Young Bride", "Roscoe", "Bandits" e "Head Home", os zénites do disco, e The Trials of Van Occupanther traçaria ilação irrefutável: os 70's poderiam ser no século XXI.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Scritti Politti - White Bread, Black Beer

Apreciação final: 6/10
Edição: Rough Trade/Edel, Junho 2006
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.dosswerks.com/scc








Apesar de contar quase três décadas, o percurso dos Scritti Politti, palanque principal do galês Green Gartside, continua a pautar-se pela descontinuidade, se não no sentido estético e estrutural da música, pelo menos no carácter avulso das edições. Não estranha, portanto, que White Bread, Black Beer chegue a nós após um lapso de sete anos desde a última edição e, qual improbabilidade estatística desconcertante, seja apenas o quinto álbum dos Scritti Politti. Primeiro fruto do segundo renascimento do conceito (a banda já havia cessado actividades em 1990, ressurgindo em 1999 com Anomie & Bonhomie), agora resumido apenas a Gartside, White Bread, Black Beer desvia-se da subliminar ciência hip-hop desconchavada que poluía, com préstimo duvidoso, o antecessor. A escolha melódica continua a reflectir ecos dos Beatles, de Simon & Garfunkel, mesmo dos Beach Boys, em harmonias vocais armadas com discernimento, tão leves e subtis quanto a porção instrumental do disco, menos fervorosa e condensada no quase minimalismo de um pano de fundo. Essencialmente construído em redor do formato balada, cenário ideal para a voz juvenil de Gartside vaguear em quimeras pop, o disco faz da electrónica o condimento primário, a que se juntam curtas sílabas de guitarra acústica e percussões quase ausentes. Sobriedade, acima de tudo, era o melhor golpe ao alcance de Gartside, depois do revés de Anomie & Bonhomie. Se isso é conseguido, mormente na rudimentaridade doméstica das gravações, não são atenuadas as cláusulas abstractas e espaciais que tão bem encheram os melhores discos dos Scritti Politti. Tais matérias, tão caras a Gartside, apenas se redimensionam, partindo do recato de uma base mínima e chegando ao zénite através da voz, afinal é ela o veículo emocional do disco.

Intrigante como os outros trabalhos dos Scritti Politti, White Bread, Black Beer é uma colecção de melodias pop bizarras e íntimas, fruto da mente de um esteta solitário, um admirador da pop de escol e do detalhe. Única dúvida: o espectro contemporâneo da música estará preparado para esta máquina sintética de pop tresmalhada em melodias pós-punk? Com esse dilema na mente, Gartside parece ter tentado agradar a gregos e troianos, não interrompendo a fidelidade a um género menos amigo dos circuitos comerciais e, ao mesmo tempo, retendo o furor mercantil dos 80's. Nesse despique de sensibilidades, salva-se a excelência das melodias, mas nunca chega a perceber-se se White Bread, Black Beer anda à procura do pós-estruturalismo de um Brian Wilson ou se, pelo contrário, é prisioneiro numa cápsula temporal, estacionada algures no período áureo que os Scritti Politti chegaram a anunciar na década de oitenta.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Os últimos filmes que vi



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Ali Farka Touré - Savane

Apreciação final: 8/10
Edição: Megamúsica, Julho 2006
Género: World Music/Blues
Sítio Oficial: www.worldcircuit.co.uk








Nascido nas cercanias de Timbuktu, cidade nevrálgica do continente negro e histórico ponto de encontro na África Ocidental dos nómadas do Norte (Tuaregues e Songhais) e das caravanas dos mercantes de sal berberes, árabes e judeus, Ali Farka Touré cresceu num ambiente de tolerância cultural e racial. Único sobrevivente de dez irmãos, facto que haveria de render-lhe o epíteto "Farka" (o burro, animal venerado na sua etnia pelo aferro e insubmissão), Touré encontra nas rudimentares guitarras da cultura songhai, desde tenra idade, a magia e os ritmos que lhe dariam a notoriedade além dos limites do deserto do Sahel, fazendo dele um dos intérpretes mais admirados da comunidade world music. Caminheiro do deserto, agricultor habituado à aridez da savana de África e ao trabalho duro para sustento da família, homem benigno e de sorriso pronto, Touré fez-se tão pertinaz quanto o Níger, de águas resistentes às agruras das longas secas sub-saarianas. Essa rotina obstinada é, de resto, substância indissociável do cardápio sonoro de Ali Farka Touré, com porções iguais de rusticidade instrumental (as njarkas e ngonis, antepassados jurássicos de violinos e banjos, são um dos exemplos enumeráveis) e impressões cruzadas de vários cultos africanos, legado óbvio da tradição de Timbuktu. Quando Touré anunciou, há algum tempo atrás, que desistiria da música para humildemente ser mais útil à sua querida aldeia de Niafunké, já lhe tinha chegado o reconhecimento internacional, com expoente no Grammy pelo mítico Talking Timbuktu (1994), um dos rebentos da sociedade criativa com o americano Ry Cooder. A essa estatueta, Touré juntaria outra, no ano transacto, suspendendo o silêncio com o compacto de In the Heart of the Moon, gravado na companhia do tocador de kora Toumani Diabaté, disco que serviria de suporte para um saudado regresso aos palcos. Seria o último. A enfermidade roubaria Touré à vida em Março deste ano.

Por essa altura, Savane estava já em acabamentos. As primitivas (leia-se genuínas) malhas de guitarra de Touré permanecem intocáveis, a sua música é bamboleante e sedutora como um feitiço de mandinga ou um blues de Hooker com regionalismos raï argelinos ou gwanas de Marrocos e recortes sábios de outras paragens, os bhangras do Punjab, os ritmos crioulos, os huaynos do Perú, os paso dobles dos mariachis. E muitos, muitos blues. Savane é, por essa via, o amor à causa de embaixador da música universal que Touré tão bem defendeu, sem renunciar ao vínculo umbilical com o Mali. Com este álbum, gravado nas derradeiras semanas de vida e com conhecimento da fatalidade incontornável da doença que o apoquentava, o indomável burro deixou-nos a derradeira certeza da sua resistência e teimosia: o silêncio que a morte lhe impôs, não roubará a sua música à eternidade. Savane é, além de um maravilhoso requiem, um fascinante adeus e um acrescento imperdível à discografia essencial de África e do mundo.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Gaiteiros de Lisboa - Sátiro

Apreciação final: 8/10
Edição: Sony BMG, Agosto 2006
Género: Música Tradicional Portuguesa/Experimental
Sítio Oficial: www.gaiteirosdelisboa.com








Com quase quinze anos de histórias musicadas, os Gaiteiros de Lisboa editam o quarto registo de um percurso cruzador de referências e de aventuras exploratórias das fundações da música popular. Essa busca incessante de parte significativa da quintessência musical nacional, a que acresce um compromisso sagaz com a reinvenção e o experimentalismo, faz dos Gaiteiros um dos mais atractivos ensembles do panorama luso. O gozo último deles é brincar com o tempo e sondar o património histórico e os estereótipos, trazê-los à contemporaneidade do hoje e, sem confundir traços identitários, moldar um som profundamente cosmopolita, à laia de uma world music que não se priva de rebuscar as tradições, esculpindo-as com modernidade. É assim que o impulso criativo dos Gaiteiros se manifesta, simultaneamente urbano e rústico, investigador e inventor. Sem debandar das raízes portuguesas, Sátiro é o novo capítulo nessa redescoberta da cultura musical universal, onde o passo de saída é lusitano e a chegada é coisa fecunda de interferências artísticas, algo que se abre num conhecimento vasto das estéticas e melodias antigas e presentes e se fecha, sem pontos finais, num furor aglutinador, tão luso-qualquer-coisa como sem fronteiras. As memórias universais dissecadas em Sátiro, como noutros trabalhos do colectivo, contemplam a fina tradição transmontana e o barroco mirandês, das gaitas e folclores, afins do culto asturiano e da teatralidade celta; a esse algoritmo primário, juntam-se a alegria pulverulenta do Magrebe, a maravilha inventiva do jazz sem rede, uns cheirinhos de doutrina da música concreta e, até, os vagares alentejanos ou umas sombras do fado (com a voz de Mafalda Arnauth na adaptação do poema "Os Versos que te Fiz", de Florbela Espanca). Para compôr este ramalhete, os Gaiteiros valem-se de um arsenal acústico versátil, com o pandeiro árabe, as rabecas e outros cordofones, as concertinas, as flautas de pan e palhetas, a gaita transmontana, a trompa, a gaita de amolador, o clarinete e a tarota, o túbaro e a serafina, o serpentalho, os ferrinhos, o reque-reque, os tubarões e os batuques. Tamanha panóplia só podia fazer de Sátiro um albergue com honras festivais, polifonias com sentido e ritmos possantes, ora circunspectos e cheios de cautela, ora irrequietos e destemidos.

A rejeição do imobilismo continua a ser a receita maior dos Gaiteiros de Lisboa. Inventam instrumentos, recriam-se na denúncia de novos sons, sulcam a terra do povo com a enxada dos poetas (Pessoa e O'Neill no passado, Florbela Espanca aqui) e arrebatam pelo perfume de extravagante originalidade, algures no limbo entre o sério e o lúdico, sempre inebriante. Como na feitiçaria de marimba que serve as contorções de "Movimento Perpétuo", de Carlos Paredes. Sátiro é tudo isso, é um erudito rompedor de horizontes e uma adição fundamental ao cancioneiro nacional.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

O cinema também mora aqui...

A paixão de muitas luas que me une à música levou-me a criar o apARTES. Bendita a hora em que, há sensivelmente dois anos, a razão se dispôs a empurrar-me para partilhar o meu trabalho (e através dele o nexo ao vício perdurável da música) com os cibernautas que se aventuram pela blogosfera. Alguns de vós, estou certo, já se tornaram visitantes habituais e acolhem as palavras que escrevo com a mesma empatia que procuro dar-lhes ao passá-las à estampa. O meu agradecimento é uma insolvência, por tudo, por aceitarem o conforto desta (vossa) sala de escuta, mostruário sem pretensões da música que vou ouvindo, da música que me dão a ouvir, da música que descubro casualmente e à qual acho pertinente tirar-se o véu. E o chapéu, quando é caso disso.

Aqui, destapo uma porçãozinha da intimidade do solene acto de escutar um disco, cobrar-lhe os méritos ou citar máculas e, depois, franquear-lhe um percurso para espicaçar os tímpanos e, por eles, fruir até à mais ínfima partícula do som.

Este pacto sensorial não é, contudo, exclusivo da música. É uma prerrogativa da arte. Devoto-me primariamente à música, não tanto às outras, por imperativos profissionais, casando o necessário e o agradável, e porque, dito toscamente, o tempo não dilata o suficiente para poder escrever sobre outras coisas. Aqueles que seguem o apARTES desde o berço lembrar-se-ão de aqui verem postadas algumas resenhas críticas de cinema, coisa de que, a pouco e pouco, fui abdicando a contragosto. Em consequência, o link "filmes" que ainda aparece, quase timidamente à direita da secção maior, no cabeçalho deste blog, foi votado ao abandono e limita-se a um parco e acanhado rol de pouco menos de uma trintena de títulos. Pois bem, reconhecendo o mister e a propriedade de remediar a (imperdoável) descortesia com essa outra paixão que é o cinema, decidi criar um espaço novo no apARTES. Sem uma varinha de condão para multiplicar as voltas diárias do relógio e não podendo dispensar menos atenção à música, a opção era única: mostrar-vos as fitas que vou vendo (no DVD ou nos anfiteatros) e cumprir um serviço mínimo para um crítico que se preze. À falta de tempo para redigir um texto condigno dos valimentos de cada filme, deixo-vos a fria expressão numérica da minha opinião. Menos mal, diria eu, antes uma menção ao cinema, mesmo que ela se resuma à mera valoração numérica dos filmes e das coisas que se vão fazendo na sétima arte, do que preservar o incómodo autismo face à cinematografia de que padece o apARTES, há uns tempos. Dir-me-ão, vocês frequentadores deste espaço, a vossa opinião.

Nesta nova secção do apARTES, a primeira de um par de novidades de curto prazo (a segunda virá substituir o estagnado "Postal Ilustrado"), os cibernautas encontrarão uma pequena tabela, de consulta rápida, actualizada regularmente na cadência das estreias, com a avaliação dos filmes que eu for vendo, apenas de entre os títulos em exibição nas salas de cinema. Num plano mais detalhado, um pouco mais abaixo na página, figura uma fileira com os posters dos últimos filmes que vi, na ordem cronológica da sua visualização, independentemente de terem sido vistos no DVD ou numa sala de cinema.

Espero que este lacónico guia seja prestável para alguns de vós e, com ele, fica a promessa de, se tal me permitir a hegemonia do tempo, vir a tributar um lugar mais conforme ao cinema no apARTES.

O cinema também tem lugar no apARTES. Clique aqui (ou no link permanente que encontra na margem esquerda do apARTES) para aceder à nova secção.

Os meus agradecimentos pela vossa fidelidade.
Ela é mútua.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Rob Zombie - Educated Horses

Apreciação final: 6/10
Edição: Geffen, Março 2006
Género: Metal Alternativo/Hard Rock
Sítio Oficial: www.robzombie.com








Na ocasião em que se amplia a visibilidade do seu percurso na sétima arte como realizador (o exemplo mais recente foi a fita "The Devil's Rejects"), Rob Zombie apresenta o quarto registo de estúdio. Desde a desagregação do colectivo White Zombie, agrupamento que liderou durante cerca de uma década, Robert Cummings (assim o baptizaram à nascença) seguiu individualmente o mesmo entendimento do hard rock: insinuações góticas, universos capturados dos filmes de terror, excentricidade própria do glam-rock, simbolismo do fantástico e do punk e discurso hedonista. Educated Horses pouco se distancia desse leitmotif, tonificando a guitarra eléctrica como substância primaz, ao jeito anacrónico do hard rock clássico ("Let it All Bleed Out" e "American Witch" ficavam bem no catálogo White Zombie), de acordes abertos, cadências a galope veloz, um ou outro solo técnico e vigor non stop. De permeio, algumas alucinações modernistas e ambientes acústicos, com pianos solitários ou esquemas harmónicos mais demorados, sem desvios do protótipo principal. Talvez pela acção dessas interferências incomuns, não é tão evidente a militância gore que pautou os registos anteriores de Rob Zombie, ainda que se mantenha imaculada a sua aptidão para sondar (e desfrutar) as diversas cambiantes (e parábolas estilísticas) desse universo e as potencialidades da sua transposição para as cordas de uma guitarra. Essa marca distintiva é prosseguida neste Educated Horses com a competência do costume e uma afincada fidelidade às fórmulas harmónicas de sempre, num mosaico extenso de recursos sónicos e voz recurva, combinados com perspicácia.

Não sendo Rob Zombie um artesão particularmente dado à evolução, não estranha que algumas das peças de Educated Horses dêem mostras de semelhança inegável com trechos antecedentes do músico. Corta e cola? Fidelidade a um estilo ou estagnação criativa? Em qualquer dos casos, cinco anos volvidos desde o último lançamento discográfico, a matriz sonora de Rob Zombie está menos equipada com habilidades de estúdio e quilos de distorção, mas guarda o impulso cativador. Os fãs cabeludos do músico é que não acharão muita piada à discrepância pop que se apossou dele e que as presenças ilustres do baixista Tommy Lee (Mötley Crue, Methods of Mayhem) e do baterista Josn Freese (Suicidal Tendencies, A Perfect Circle) não disfarçam. O mestre do macabro envelheceu e no manual de bordo da sua barca do inferno já cabe a palavra pop.

domingo, 20 de agosto de 2006

Lisa Germano - In the Maybe World

Apreciação final: 6/10
Edição: Young God Records, Julho 2006
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.lisagermano.com








Ainda que menos notada do que outras cantautoras da sua geração, não falta, porém, a Lisa Germano a vocação para musicar como poucos o encanto de sentimentos genuínos. Cada vez mais remotos estão os tempos em que tocava com John Mellencamp, algures na década de 80, evidenciando ânimos rock que o tempo fez esfumar. Hoje, ela prefere segredar ao piano ou à guitarra, sussurrando-nos melodias de voz quente e delicada, em chamamento de alegorias frágeis e de envolvimento nostálgico. A beleza nublada das canções e dos cenários que invocam vale-se da expressividade minimalista do álbum, seja no registo vocal que raramente se expande além do cativante cicio de Germano, seja no underacting das cláusulas instrumentais. Ainda assim, roçam a mediania os previsíveis fraseados harmónicos, esqueleto musical que faz sustentáculo das orações vocalizadas da autora. Com um percurso a solo vinculado em disco às vicissitudes quotidianas, mormente nos melhores trabalhos, os elegantes Happiness (1993) e Geek the Girl (1994), Lisa Germano retoma o mesmo imaginário para este álbum, o esquadrinhamento patológico das disfunções do amor e da morte, exercício despido de presunção, antes profundamente íntimo e contemplativo. Assim acontece neste In the Maybe World. Estruturalmente básico, o disco é o reflexo das inquietudes simbólicas de Germano, percorrendo os arquétipos das canções de embalar, sem descambar para a vertigem delico-doce que se mostra, muitas vezes, neste tipo de composições. Evitado esse revés, In the Maybe World mostra-se mais do que um mero disco de baladas, mesclando universos de doçura pueril com rasgos de introspecção sobre a mundanidade da vida, revérberos de um espelho luminoso da existência humana. As canções quase não viveriam, assemelhando-se a feixes de holograma, quase sem corpo, não fora a consistência arrepiante da voz, excipiente privilegiado para a bonançosa catarse de Germano. Nesse sentido, o álbum é uma sentença existencialista, dispensa quaisquer abstracções e lança mão da honestidade típica da cantautora e da cortante sensibilidade com que aborda a morte, os amores a prazo e factos episódicos da sua própria vida. Tudo com uma fragilidade quase inexequível.

Musicalmente aquém de outros tomos de Lisa Germano, também nas letras In the Maybe World tem alguns equívocos. Uma vezes colando-se a uma poesia turva mas inteligente, noutros instantes fica refém de vulgaridades infantis e lugares comuns menos prestigiantes. Mesmo assim, o sétimo trabalho de Germano é uma escuta deslumbrante e, não sendo um fascículo excelso da cantora, deve prestar o serviço de repor Lisa Germano na órbita da freak-folk da moda. Ou isso ou mostrar-nos as passagens para uma sad pop atonal que se sente como uma aragem fria, medra com audições sucessivas e sacode as nossas percepções, mostrando-nos a rapsódia de um outro mundo. O talvez-mundo de Lisa Germano.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Eagles of Death Metal - Death by Sexy

Apreciação final: 7/10
Edição: Downtown, Abril 2006
Género: Hard Rock/Garage Rock 'n' Roll
Sítio Oficial: www.eaglesofdeathmetal.net








Não sendo considerado pela imprensa especializada como assunto sério, o projecto Eagles of Death Metal é mais um dos apêndices dos Queens of the Stone Age. Já não causa surpresa que a cada estação desponte nova empresa paralela dos membros dos QOTSA e, no caso dos Eagles, Death by Sexy é o segundo fascículo de uma jornada iniciada há dois anos. Aqui, o frontman dos QOTSA, Josh Homme (sob o altivo pseudónimo Carlo Von Sexron), senta-se à bateria e o protagonismo vocal é do porno-bigodado Jesse "The Devil" Hughes, seu amigo da mocidade. Directo e vigoroso, Death by Sexy é uma locomotiva de rock 'n' roll apressado, sem complexos, inveteradamente hedonista e entretido. A escrita de Hughes é lasciva, a roçar o machismo sexual mas não tem subterfúgios freudianos. Ele quer mesmo sexo. O sexo não é desculpa, é motivo. Musicalmente, para lá chegar, nada melhor do que uma plataforma feita de rock básico e urgente, nutrido a metanfetaminas e cerveja, tatuado até ao tutano, riffs de pé na tábua, percussões galopantes, registo vocal polimórfico (entre o falseto grosseiro e um Elvis demente) e...regras para quê? E death metal só mesmo no baptismo da banda.

Mais aprimorado do que o antecessor, Death by Sexy mantém a ousadia desengonçada e centra-se no deleite sensorial, mais do que propriamente no apuro técnico (veja-se a simplicidade das estruturas harmónicas das composições) ou nas prescrições de estúdio. A única lei é o toca e segue instrumental: bateria de croma único, concentrado de guitarra, baixo com mordaça. Como se os ZZ Top descobrissem um casamento cósmico com a adrenalina dos Stooges ou dos Stones reciclados. O resto são hormonas fervilhantes, suores e arrepios, uma declarada exaltação do rock carnal, um estímulo escapista contagiante. Nada de essencial ou inovador, é certo. Mas entusiasmante. Death by Sexy é a banda sonora para um one night stand com aquela desconhecida voluptuosa do bar, sem telefonemas nos dias seguintes. Só falta convencer a moça...

domingo, 13 de agosto de 2006

Jurassic 5 - Feedback

Apreciação final: 5/10
Edição: JVC Victor/Interscope, Julho 2006
Género: Hip Hop/Underground Rap
Sítio Oficial: www.jurassic5.com








Com a deserção recente do produtor Cut Chemist (à procura de evolução em nome próprio), a equipa mais astuta do rap underground do Bronx tornou-se, agora sim, um quinteto. A partida de Chemist, prospector versado nos postulados do diggin', é um desalinho mais do que numérico nos Jurassic 5. Ele é, a par de Dj Shadow (com os seus Quannum), um dos obreiros da cartilha básica do hip hop de combustível funk, em busca das origens do género, com pioneiros como Afrika Bambaataa, os Sugarhill Gang (a quem é atribuída a primeira gravação hip hop), Kool Herc ou, um pouco mais tarde, os Crash Crew ou os Treacherous Three. E aí que estão as raízes arcanas do hip hop, a verdadeira old school, muito antes dos Wu-Tang Clan, Gang Starr ou dos Beastie Boys. Para esse trabalho missionário de uma década a recuperar a estética esquecida e as técnicas beats desusadas (em tempos até se gravavam em tempo real), é difícil desligar os Jurassic 5 do espírito retro de Chemist. A química essencial do disco é agora incumbência de Dj Nu-Mark, também ele destro na procura da batida certa. Contudo, a despeito da competência técnica e da regularidade funcional que o disco apresenta, mormente nas sinergias vocais do costume e numa ou outra beat carismática, a escuta de Feedback ressalta algumas anomalias. A muito radio-friendly "Brown Girl" existiria com Chemist? Chame-se-lhe amadurecimento ou afeição mercantilista, Feedback não é vinheta da história dos J5. O afinco deles nas causas anti-comerciais jamais faria adivinhar que um dia, por força das ironias do destino - o tempo fez do underground uma vaga de primeira linha - ou do anseio pelo êxito, os J5 fariam concessões arriscadas (insensatas?) ao lado mais circense do hip hop. Cansados do anonimato do underground? Dave Matthews é convidado (até nem é muito estranho, Nelly Furtado já emprestara a voz em Power in Numbers), Scott Scorch dá uma ajuda nas batidas, Mos Def é rato no porão.

Mais do que serenar o discurso panfletário dos J5, ainda preocupados em salvar o mundo hip hop dos dominadores clichés MTV em que o recurso visual maior são moças de formas generosas e uma atitude pimp despudorada, Feedback dá mostras de algum cansaço no malabarismo das fórmulas old school e, pior do que isso, de descrença na importância de manter activa a integridade da arte e sobrepô-la ao império dos dólares. Não basta proclamar, com sensação, que se é salvador. Para o ser, há que obrar uns quantos milagres ou actos de redenção. E Feedback, quatro anos depois do último disco, está mais perto de ser o negócio com o belzebu que os J5 sempre rejeitaram.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Mário Laginha - Canções & Fugas

Apreciação final: 8/10
Edição: Universal, Abril 2006
Género: Piano
Sítio Oficial: www.mariolaginha.org








O legado de J.S. Bach é um dos mais sacros espólios da música erudita, menos notado na sua época (primeiro quarto do século XVIII) é certo, mas reconhecido com a grandeza devida a partir do século seguinte, muito por culpa da afeição do também germânico Felix Mendelssohn, profundo conhecedor (e regenerador) da obra barroca. Organista de excepção e músico de escalas várias, Bach era cultor do contraponto, ciência proveniente dos cânones musicais e que, sem precisão técnica, pode dizer-se que se distingue pela ausência de um enunciado melódico principal na composição e, consequentemente, pela construção harmónica com notas esparsas ou alinhamentos melódicos alternantes. Lugar de inventividade e, no limite, espaço privilegiado para o improviso, o contraponto é a chave das notáveis fugas e prelúdios de Bach, como pode escutar-se na sublime preciosidade técnica de Das wohltemperirte Clavier (Cravo Bem Temperado) e da inacabada Die Kunst der Fugue (A Arte da Fuga). Os dons do contraponto são o combustível criativo do mais recente trabalho de Mário Laginha. Admirador da mestria de Bach, Laginha explora, na primeira gravação em nome próprio desde Hoje (1994), a ciência do contraponto, reformatando-a à luz de proposições melódicas mais recentes, sejam elas vindas do jazz solista (os nomes de Bill Evans ou Keith Jarrett são regalos irrenunciáveis) ou dos manejos repentistas do autor. Nesse sentido, Canções & Fugas não é um disco classicista de piano. Nem de fugas ou canções. É, antes, um exercício da identidade de Laginha, como ele tão bem faz em cima dos palcos, absorvendo os teoremas fundados e juntando-lhes respeitosamente retalhos de um mundo musical singular, prerrogativa apenas ao alcance de intérpretes que, não esquecendo a face colegial e a rectidão da sua formação, se atrevem a somar-lhe paradigmas de outras famílias sonoras.

A sintaxe musical deste Canções & Fugas provém de um piano solitário e uma dúzia de peças, com fugas de permeio entre canções no mesmo tom. O discurso é, em qualquer dos registos, tecnicamente seguro, de ritmo sólido e melodicamente cativante, envolvendo o ouvinte num princípio de incerteza. A dúvida entusiasmante é indagação do princípio ao término do disco: jazz ou clássico? Abra-se a especulação, mas pouco importa a réplica quando estamos em face de música deste tamanho, produto lógico de um criador estudioso e de espírito itinerante que, com um prisma pleno de contemporaneidade, nos mostra esculturas musicais que, em semelhantes primores, tão bem dotariam uma exibição pública no século XVIII quanto cabem numa galeria sonora dos dias de hoje.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Chico Buarque - Carioca

Apreciação final: 7/10
Edição: Biscoito Fino/EMI, Julho 2006
Género: MPB
Sítio Oficial: http://chicobuarque.uol.com.br








Com um percurso seminal repartido por artes de formas diversas, Chico Buarque é um dos rebentos mais ferazes da cena musical brasileira. Foi na conjuntura da distante década de 60 que despertou para a música, abandonando os estudos superiores e tendo, desde cedo, o privilégio de conviver com a fina-flor dos intérpretes fundadores da MPB e/ou do tropicalismo: Sérgio Mendes, Jorge Ben, Nara Leão, João Gilberto, Toquinho, Edu Lobo, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre muitos outros. O despotismo dos tanques nas ruas do Rio, grilhão de ferro do general Costa e Silva, levá-lo-ia à mesma sorte de outros compinchas, votando-o ao desterro em Itália, na eclosão do alvoroço cultural tropicalista. A errância de viageiro forçado veio a esculpir outras cláusulas à alma profundamente carioca da sua música, sempre popular e generosa, de verbo cirúrgico e coração sambista, de humor suspirante e agudo. Chico fez-se menestrel, de corpo e espírito, contador de estórias dos cantos penuriosos das urbes, desvões onde se reuniam mendigos e patifes, prostitutas e bêbados, lágrimas de criança. Relatos poéticos de um rosto ignorado do Brasil, com o saracoteio dos sambas de morro e o primor do jazz, sumo depoimento da identidade de Chico. O retorno a casa mostra-lhe o ónus da censura na pátria dos anos de chumbo, intervalo de vigência do mais duro dos generais, Emílio Médici, e a exprobração sucessiva da sua lavra (com peças politizadas, ao jeito de enunciados da classe proletária) empurrou-o para um silêncio de nove anos. Quando os ferimentos político-sociais deixados pelos sucessivos governos autoritários saravam lentamente, na década de 80, Chico retoma a demanda da MPB, encontrando-a virada para elites e desenraízada do tamanho popular das primícias. Mas Chico é do povo, mesmo quando as gentes mudam os transístores para outras ondas. Apoia publicamente o esquerdista Lula da Silva, derrotado nas primeiras eleições directas e, mais tarde, junta a sua voz ao protesto dos sem-terra, cedendo-lhes os direitos de um disco sintonizado com o movimento contra o jugo dos fazendeiros.

Carioca é a etapa de regresso ao estúdio, oito anos depois do último álbum, e depois dos bons créditos da prosa romanceada de Budapeste. Se nesse escrito Chico cursava sobre o dano imparável da personalidade dobrada no indíviduo, o disco faz crer noutra dualidade. Carioca é Chico, como ele sempre foi mas, camuflada por detrás do rótulo de baptismo do tomo, está música que não é só da cidade maravilhosa; o samba instruído e a bossa nova, os mais cariocas privilégios sonoros, estão cá e trazem orquestrações de luxo. Todavia, Chico, autor traquinas, refractário de sempre, imune ao torpor, presta tributo ao Rio mas não se encerra nas castas de sons cariocas, antes permite outras peripécias, como o balanço baiano de "Ode aos Ratos", o swing dourado de "Porque Era Ela, Porque Era Eu" ou o beijo (amargo?) da guitarra eléctrica de "Renata Maria". A MPB já não reclama os panfletos musicados de Chico mas Carioca é outro tomo de retratos de uma nação brasileira que só se mostra nos seus acordes e canções. Embora sem peças harmónicas tão magníficas como outros discos, Carioca firma uma certeza: a obra de Chico é infinita e o Brasil não é o mesmo sem ela.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Tapes 'n Tapes - The Loon

Apreciação final: 8/10
Edição: Ibid/XL, Abril 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: www.tapesntapes.com








Com o debute nas lides discográficas em formato de edição de autor, o quarteto americano Tapes 'n Tapes faz jus ao burburinho que antecipou este lançamento. Na linha da inesperada eclosão da surpresa nova-iorquina Clap Your Hands Say Yeah, no ano transacto, ou dos britânicos Arctic Monkeys, já em 2006, The Loon também chegou aos ouvidos dos melómanos mais atentos através da web. Em pouco tempo, a música destes rapazes de Minneapolis angariou séquitos e a ulterior divulgação em inúmeros blogs e sítios foi a semente da curiosidade. E The Loon não desilude. A sugestão sonora é o rock colegial dos Pixies ou dos Pavement, com um piscar de olhos às derivações mais astuciosas do pós-punk e breves incursões aos palatos western dos Calexico. Trocada em miúdos, a música dos Tapes n' Tapes é uma junção inteligente dos cânones mais emblemáticos do folk-rock americano da última década e meia, uma verdadeira antologia de ritmos e (des)equilíbrios melódicos intencionais, com contrastes e ângulos diversos. Música expressiva, portanto. A galope das fintas oblíquas da guitarra e sem uma produção pomposa ou truques de estúdio - o álbum é um simples exercício de trabalhos manuais dos músicos. Dessa natural desafectação de formas desabrocham quarenta minutos de música de traço firme e proporcionado, rock'n'roll apurado para este século (Insistor é a certidão de nascimento) e bem escrito. A visão dos Tapes 'n Tapes é ecléctica, na raia da incongruência estética, a ponto de The Loon ser um corpo de canções deliciosamente anómalo, tal a irregularidade de matérias sonoras que abriga. Padrões indie purificados.

The Loon pode não ser a maiúscula obra que muitos esperaram, até tem um ou outro desvio algo diletante - coisa perigosa que pode ser confundida com pretensiosismo artístico - mas não deixa de ser um tomo livre de frivolidades. Pertinente do começo ao desfecho, com carisma raro, envolvente e tangente ao génio em certos trechos, a estreia dos Tapes 'n Tapes é a demonstração inequívoca de que partir de influências célebres para construir uma marca própria só é erro se não existir um intervalo de demarcação. Em The Loon esse espaço identitário não é lato mas existe e é dele que nasce uma chancela indie eloquente que, logrando a familiaridade com os mais sólidos dialectos da música americana, se exprime num idioma próprio e que apetece traduzir, da primeira vírgula ao último acorde, em desafio ao mesmo vocabulário pré-convencional fundado pelos insignes Frank Black e Stephen Malkmus.

Posto de escutaInsistorManitobaOmaha

domingo, 6 de agosto de 2006

Wolfmother - Wolfmother

Apreciação final: 6/10
Edição: Interscope/Universal, Maio 2006
Género: Hard Rock
Sítio Oficial: www.wolfmother.com








O trio australiano Wolfmother é um daqueles agrupamentos musicais que se orgulha de dobrar o tempo e apostar em modas tonais de outras épocas. No álbum de estreia, o influxo maior é uma revisitação óbvia ao hard rock alucinado dos anos 70, época em que estourou o psicadelismo de bandas como os Black Sabbath ou os Led Zeppelin. São mais ou menos evidentes os reflexos desses atributos na música dos Wolfmother, especialmente dos Sabbath na fase Osbourne; Ozzy parece o disfarce favorito do vocalista Andrew Stockdale, tal a proporção com que se cola aos meneios do ex-vocalista dos Sabbath. A outro nível, a porção instrumental do álbum reabre repetidamente tragos intensos de guitarra, acordes abertos na melhor tradição nostálgica, algo que a produção do disco ajuda a sustentar, armando um ambiente que, nos tempos modernos, apenas se encontra nas odes mais anacrónicas escrevinhadas pelos Queens of the Stone Age (ou pelos saudosos Kyuss) ou nas ondulações retro dos White Stripes. Neste frenesim de feitiçarias rock de origens e épocas várias, os apontamentos específicos de Stockdale, Chris Ross (baixo) e Myles Heskett (bateria) deixam-se amordaçar pelo expediente dos clichés, usados exaustivamente no mimetismo do tipo de som que admiram. Se originalidade e cunho próprio é miragem no debute destes jovens aussies e isso é desfavor das canções arroladas no álbum, não se perde a autenticidade da alma puro-sangue rock do disco, atestado supremo da competência dos músicos na manipulação de um dialecto musical deslocado no tempo.

Wolfmother absorve a truculência dos notáveis do hard rock, copia-lhes o compasso e as medidas e sai da inevitável comparação com um mérito dúbio: mostra-nos uma banda com destreza técnica e pujança suficientes (ao vivo eles devem ser demolidores) para merecer o alvoroço que a rodeia, isso é inegável, mas que não chega a firmar um carimbo próprio. Ainda assim, o disco entretém da partida ao final, numa excursão pelo hard rock clássico e dá uma imensa vontade de resgatar alguns vinis do armário. Sem desdém pelos rapazes, pago para ler uma crítica a este power trio que não conjugue estes caracteres: B-L-A-C-K-espaço-S-A-B-B-A-T-H. Em português, R-O-C-K com "R" maiúsculo. Obrigado pela frenética recordação, Wolfmother!

sábado, 5 de agosto de 2006

Memórias do cinema

Charles Chaplin em Tempos Modernos (Modern Times, 1936)

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Kimya Dawson - Remember That I Love You

Apreciação final: 6/10
Edição: K, Maio 2006
Género: Folk Minimalista/Lo-Fi
Sítio Oficial: www.kimyadawson.com








Há canções que nos incitam pela extraordinária simplicidade com que renunciam a ornatos frívolos e às deformadoras tramas de estúdio. Mais do que isso, no caso da quase incógnita nova-iorquina Kimya Dawson, mais conhecida pelo projecto The Moldy Peaches (união casual com Adam Green), a porção instrumental das canções nem sequer é o artigo maior. Remember That I Love You, quinto exercício a solo da americana, prova que a música é uma mera tribuna servente da voz. Não é que Dawson seja uma cantora sublime, longe disso, tampouco uma instrumentista de nível superior; nem a isso ela aspira. O cerne desta dúzia de canções é o discurso, a palavra empregada é medula de histórias quotidianas e reflexões de uma honestidade cortante. Dawson na pele de narradora. A produção recebe com agrado o protagonismo das fábulas (umas biográficas, outras metafóricas) e esconde a guitarra (e demais instrumentos) atrás da retórica pertinente de Dawson. A voz faz-se corpo, indiferente ao desprovimento musical, e captura o ouvinte num imaginário ditoso, um universo genuíno que confunde, com irónica docilidade, utopias de criança e os desmanchos do mundo real.

Se as texturas musicais de Remember That I Love You não têm arranjos e soam rudimentares, Dawson compensa essa privação com sentimentalismo verosímil. Nada de bacoco. Com uma mensagem positiva, ela toca os vértices centrais do existencialismo, a vida, a morte, a doença e o relativismo do indivíduo face ao mundo. A temática seria pretensiosa, não fosse o jeito cativante de Dawson narrar as coisas, comunicando com o ouvinte através da palavra, já não da música, e fazendo uso de recursos linguísticos com afinco e humor (ouça-se "I Like Giants", metáfora entretida sobre os complexos com o corpo do género feminino...). Umas harmonias e inflexões melódicas mais e este conjunto de canções (se assim se podem chamar) granjearia outra reputação junto da comunidade melómana. Dawson, ao invés, prefere dar-nos uma apelativa terapia anti-depressão e, se tal se difunde melhor através da letra, esqueçamos que Remember That I Love You é um álbum de canções, façamos de conta que é um livro para ler com os ouvidos e aprendamos a tirar gozo dos infortúnios.

Posto de escutaMy MomCaving InFrance

segunda-feira, 31 de julho de 2006

Magneta Lane - Dancing With Daggers

Apreciação final: 6/10
Edição: Paper Bag, Abril 2006
Género: Indie Rock/Punk Rock
Sítio Oficial: www.magnetalane.com








Um trio de canadianas que faz um rock com a receita The Pretenders (especialmente na potência vocal) sob efeito de ácidos. A definição pode ser tosca e repete-se na generalidade da imprensa especializada mas faz luz sobre o ideário rock de Lexi Valentine (voz/guitarra), Nadia King (bateria) e French (baixo), em estreia no formato longa-duração. Para esta apresentação às multidões melómanas, as Magneta Lane chamaram a dupla MSTRKRFT (o baixista dos Death From Above 1979, Jesse F. Keeler, e Al-P), servidora da catálise das fusões energéticas do trio. E faísca é coisa que não falta em Dancing With Daggers, ainda que os coriscos saiam refreados em favor das recreações melódicas, fechando o pujante fluido da música em rasgos curtos. A sonda não é o forte das Magneta Lane, elas não querem dar novos mundo ao mundo, ao invés devotam-se ao apuramento de estruturas rock de galope punk e rebeldia q.b. que, não obstante a ligeira moléstia de alguma previsibilidade, recuperam a mítica fórmula do power trio. Com girl power, a fazer lembrar as proverbiais Sleater-Kinney. A voz sobrevive, sem ofegar, mesmo imersa na torrente eléctrica e suja da guitarra; o amparo da bateria é frenético, possante, dá corpo aos floreios harmónicos das composições; o baixo espia e segue, sustém os ímpetos e sorri (em graves contracções), sardónico de si mesmo.

O léxico das Magneta Lane é puro feminismo rock. A provar que elas podem ser tão rock como eles. E esse testemunho nem precisa socorrer-se de clichés nem estereótipos. Brevidade e alma aguçada são predicados que assentam neste trio canadiano e que se arrumam, com encanto, nos momentos altos do disco ("Broken Plates" ou "22") mas que se tornam redundantes noutros trechos. Esse embaraço é particularmente perceptível na segunda metade de Dancing With Daggers. Afinal, um baile com punhais é dança de risco e, à conta do receio em se ferirem, as Magneta Lane não investem na variação, decidem-se antes pela comodidade da aliteração. Ainda assim, o álbum é um simpático ajuntamento de canções rock competentes de uma banda que, tendo assinatura própria, não deixa de parecer-se com uma versão feminina dos Strokes.

sábado, 29 de julho de 2006

Ellen Allien & Apparat - Orchestra of Bubbles

Apreciação final: 8/10
Edição: Bpitch Control, Maio 2006
Género: Electrónica/IDM/Techno Experimental
Sítio Oficial: www.ellenallien.de
www.apparat.net








Não sendo desconhecido dos amantes da electrónica europeia recente, o projecto Apparat (saído da mente de Sascha Ring) é parte de um espaço devoto da abstracção e do minimalismo, tendo concorrido para dar outros diâmetros à moderna electrónica berlinense de cariz minucioso. Mentor de universos musicais virtuais que contestam os clichés da mecânica da música digital, Ring é destro a manobrar atmosferas que tomam o temperamento da techno e da IDM, mesclando-o com elegias emocionalmente cerradas, em encadeamentos quase maquinais, frios e duradouros. Se a ele se junta outra artesã categorizada da seminal escola de Berlim, Ellen Allien, estrela ascendente da techno vocalizada e abono certo de infusões pró-eróticas em cadências electro, parecem colar-se desígnios opostos. De um lado, os preciosismos técnicos e a percepção cirúrgica de Apparat, do outro, a fartura sensual e os rasgos de Allien. A erudição pragmática de Berlim faz o improvável, fomentando uma química de assimilação entre o farto chafariz de subversões de Allien e a urgência de penso-rápido Ring, infalível a conciliar os nacos do disco. A simetria das matérias não tem mácula e apura uma acção simbiótica menos expectável, não se limitando a sobrepor os discursos individuais dos músicos, antes, munindo cada um com novas alavancas e renovada propulsão. À sobriedade torta de Apparat é adicionado um desprendimento sensorial, um novo oxigénio que lhe alarga as vistas; do mesmo jeito, em sentido inverso, à megalomania imoderada de Allien é ministrada a posologia certa de sedativos. O som é o desenlace óbvio da terapêutica: de pulsação nocturna, feito de transparências, luzes trémulas e cores diáfanas, a cansar as leis gravitacionais de Newton, imaterial e borbulhante. A genuína orquestra de bolhas.

Orchestra of Bubbles não é música de reacções absolutas, é dança subtilmente feita pudor, executada ao canto da sala de estar (a pista de dança é apetite ambicioso de mais?) ou de phones no ouvido. Grata é a descoberta de que os músicos não se confinam às usuais impressões iconoclastas, aceitam a aposição de ideias e arquitecam um edifício sonoro que, mesmo carregado de experiências e intuições diferentes, não tem partículas saturadas. Em especulação por planos quase virgens da electrónica, a dupla Allien/Ring vai no encalço de futuros alternativos para a música de dança. Orchestra of Bubbles, exercício magno de cooperação entre ícones da electrónica minimalista, faz o primado do instrumento digital e é obrigatório para seguidores de Allien e/ou Apparat. Para os restantes, o álbum é uma dádiva da melhor electrónica que se (ou)viu no corrente ano.

Posto de escutaTurbo DreamsRetinaJet

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Burial - Burial

Apreciação final: 8/10
Edição: Hyperdub, Junho 2006
Género: Electrónica Vanguardista/Dub Alternativo/Trip Hop
Sítio Oficial: www.hyperdub.net/burial.html








Com morada fixa na cena underground dos clubes de dança de Londres, o obscuro Burial apresenta-se. Primeiro disco de um projecto musical de que pouco mais se sabe além das origens londrinas, Burial é uma colecção de electrónica perturbante, a primeira edição de uma pragmática sonora quase clandestina a crescer além da órbita de clubes restritos da capital inglesa. O rótulo é recente, chamam-lhe dubstep, degeneração sintética essencialmente instrumental e combustível de inquietações, por força da evocação de ambientes negros, ao jeito de máquinas sobrenaturais. O jogo de Burial é mecânico e faz agitar as ilhargas do ouvinte, à custa de lhe acirrar o espírito, com sombras musicadas e hologramas de ondas sonoras. Sons reais e sons adivinhados, coisas que se insinuam e sorrateiramente arrombam os vales do silêncio, ecoando no ar como suspiros do desconhecido, aceitando a trepidação de percussões vendedoras de ilusões. Há na música de Burial uma cólera reprimida, um alento rave que se enreda numa improvável e dócil confissão, aceitando o motim emocional e fazendo dele discurso. Minimais, por vezes, e de dinâmica industrial, noutros instantes, as meditações musicadas de Burial comprometem-se com uma deriva indecisa entre o frémito do drum'n'bass (escola inicial de Burial), o torpor progressivo do dub e os arrepios do trip-hop.

Burial é o requiem taciturno dos arcanos pós-apocalípticos de uma cidade futurista. Urbano e complexo, o álbum tem músculo e tem alma. E sangue frio que esquenta em lumes brandos. Trechos fracturados, com as elipses de uns Autechre em união de facto com a alquimia Massive Attack. Capaz de suscitar estados de espírito contrastantes, é nos ápices com samples vocais que o disco atinge píncaros, mesmo quando é redundante, como na incorpórea "Forgive", ou na assimétrica pièce de resistance "U Hurt Me". Esquecendo alguma inconsistência do conjunto que é descendência própria da anarquia conceptual do underground, Burial é peça essencial da electrónica menos convencional. Beats programadas, samples e preciosismos técnicos ao serviço do intelecto: as gloriosas máquinas cogitabundas de Burial.

Posto de escutaBoomkat

terça-feira, 25 de julho de 2006

Camera Obscura - Let's Get Out of This Country

Apreciação final: 7/10
Edição: Merge, Junho 2006
Género: Indie Pop
Sítio Oficial: www.camera-obscura.net








Se até aqui os Camera Obscura eram mais reconhecidos entre portas do que no exterior da Escócia, Let's Get Out of This Country é disco para lhes dar o impulso certeiro além-fronteiras. Oriundo da mesma Glasgow que viu nascer os celebérrimos padrinhos Belle & Sebastian, de quem perfilha as praxes musicais, o sexteto sublimou as formas das suas peças, tirou-lhes o desconchavo lamecha de outros momentos e, sem se privar de escrever canções consagradoras dos amores (e desamores) da existência humana, apresenta-nos um registo abarrotado de sentimento. Nesse propósito, além da componente instrumental mais próxima da melancolia country, superiormente expandida pela produção de Jari Haapalainen (o homem dos Concretes faz acento tónico nos arranjos e nos acrescentos de cordas), a voz de Tracyanne Campbell (agora o único serviço vocal do ensemble, desde a partida de John Henderson) faz maravilhas, melíflua, afectuosa e angelical como poucas, a avivar o sentido harmónico do disco. As melodias são, de resto, a trave-mestra do álbum, sempre joviais, e sem pejo de pedir emprestada a verbosidade da pop-soul 70's dos The Mamas and the Papas ou das The Supremes, de lhe somar as fábulas romanescas dos Belle & Sebastian e o cunho pessoal de Campbell, mais desembaraçada e interessada em assinar a definitiva obra de emancipação do grupo.

Como intróito ao tomo, e a servir de primeiro single, a canção "Lloyd, I'm Ready to Be Heartbroken" mostra ao que vêm os Camera Obscura. Para os mais esquecidos, uma sinopse histórica prévia. Em 1984, Lloyd Cole fechava o álbum Rattlesnakes com uma exortação, em jeito de pergunta: "Are you ready to be heartbroken?". Vinte e dois anos depois, Campbell ousa a réplica a Cole e, com isso, sintetiza brilhantemente o fundo emocional de Let's Get Out of This Country. Canções com confissões de coração partido. Feitas com cautela pristina e devoção à sensibilidade, coisas capazes de nos virarem para trás e lembrar lugares e pessoas, puxando à memória as referências mentais de histórias guardadas nos arquivos da vida. E assim perceber, pelas dezena de trechos de Let's Get Out of This Country, que mais relevante do que recolher os cacos do coração quebrado à conta de apetites sentimentais passados, é deixarmo-nos apaixonar pelas confissões solipsistas de Campbell. E pela bela música dos Camera Obscura.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Drums & Tuba - Battles Olé

Apreciação final: 7/10
Edição: Righteous Babe, Setembro 2005
Género: Rock Experimental/Pós-Rock/Fusão
Sítio Oficial: www.drumsandtuba.com








Os trio texano Drums & Tuba é adestrado em malabarismos com a tradição. Talvez por isso, a pronúncia do som de Anthony Nozero (percussão e electrónica), Neal McKeeby (guitarra) e Brian Wolff (sopros) recolha, ao mesmo tempo, mensagens de correntes musicais anacrónicas e uma feição experimental contemporânea. Das observações do passado, sobressaem os costumes do antigo jazz negro de New Orleans, declaração emancipadora dos instrumentos de sopro (especialmente da tuba, aqui em falas graves de baixo) ao serviço de marchas militares, aqui empregues como subsidiários, ao jeito de um subliminal e ébrio espectro de "When the Saints Go Marchin' In". Ao lado dos sopros, erro fantasmático, os Drums & Tuba espargem percussões e tempos africanos, qual rito de paganismo tribal convertido a sessão espírita hodierna, com embalo funk e seguidora dos manuais rock. Distinguem-se vestígios de praxes progressivas que não chegam a tomar o posto de um rock antes feito de preciosismos e de ângulos matemáticos, os serventes últimos de construções desembaraçadas, quase pós-punk, por aceitarem a irreverência formal. A voz pica o ponto pela primeira vez nos costumes no grupo, descaminhando a atenção do ouvinte da excelência instrumental, mas isso nada deduz aos ambientes vulcânicos do disco. Essa tensão arrasante é comum à meia-dúzia de peças de Battles Olé e é ministrada sem prazo, com recurso aos motivos idiossincrásicos da compleição do trio: o groove nervoso da tuba, as acrobacias improváveis da guitarra e a firmeza pulsante da bateria.

Battles Olé é um assalto pouco pacífico aos tímpanos, não pelo estrondo mas pelo gentil constrangimento provocado pela densidade das substâncias. E pela inconstância dos repentes que dão ao disco um sabor de improviso. A mímica contorcionista dos músicos é prova de uma competência técnica acima da média, algo que o trio utiliza para encenar orbes psicadélicas, com o carácter de intrigas escuras e desafios sónicos de coordenadas fora do alcance. Com um pouquinho mais de zelo na melodia, Battles Olé podia ter sido proeza sem par, assim fica-se pela façanha de mostrar a generosa arte dos Drums & Tuba àqueles a quem, não conhecendo o património da banda, apeteça testar alfabetos alternativos de um universo habitado por criaturas - tuba (e parentes), guitarra e bateria - que poucas vezes casam com tanta propriedade.

sábado, 22 de julho de 2006

Islands - Return to the Sea

Apreciação final: 8/10
Edição: Rough Trade, Abril 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.islandsareforever.com








O Canadá não cessa de trazer-nos boas novas. Depois dos Arcade Fire, dos Broken Social Scene, dos Clap Your Hands Say Yeah, dos New Pornographers, dos Wolf Parade, dos The Stills e do projecto Destroyer (Dan Bejar), em estilos distintos, se terem afirmado além-fronteiras nos tempos mais recentes, chegou agora a vez do ensemble Islands tentar, pela mão da Rough Trade, aliciar os mercados exteriores. Com ascendência no extinto e saudoso trio The Unicorns, projecto de onde procedem a guitarra/voz de Nick Diamonds e a bateria de J'aime Tambeur, o recorte da música dos Islands é uma alucinação imposta. Com raízes em estrofes pop efusivas e padrões psicadélicos, cada composição da dupla canadiana é um caleidoscópio quase imaterial, um abismo de vigores confluentes que especulam sobre uma orgânica instrumental com poliglotismo musical. O ambiente denso dos trechos é uma mescla de pop erudita, de country presumido, de electrónica subserviente, até de um miúdo trejeito hip-hop e muitas outras operações que se pressentem, não fazem discurso directo, antes se passeiam nos bastidores, ao jeito de arranjos. São elas: um sensível embalo pastoral, uma ficção honky-tonk, um tropicalismo com saudade, um adágio jazz e tudo o que mais se adivinha nos tecidos de Return to the Sea. Tudo arrumado com uma produção soberba e sem excessos, a facilitar o acesso do ouvinte a música de alcance ilimitado. Uns furos acima do pudor e do ruído dos Unicorns.

Return to the Sea não é disco para canais auditivos preguiçosos que se deleitam com a pop aprumada e recta. Esse não é o tabuleiro de jogo de Diamonds e Tambeur. Eles gostam de jogar inocentemente com as virtudes do som, de o puxar às proporções máximas do coração indie e, com isso, multiplicar melodias pomposas. No limbo entre o génio e néscio, Return to the Sea é uma incitação dúbia ao ouvinte: ou se deixa contagiar pelos dons destas canções e se abeira da genialidade, ou se mete a bordo de uma nau imbecil e descobre que, por detrás de um mágico trecho musical, há um imaginário delirante e absurdas quimeras. Em qualquer dos casos, os Islands estão no seu melhor. Resta-nos deixá-los voltar ao mar. A genialidade já a têm. E que levem consigo a matéria de que se fazem canções pop do melhor que se viu neste ano.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Sunset Rubdown - Shut Up I Am Dreaming

Apreciação final: 8/10
Edição: Absolutely Kosher, Maio 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.absolutelykosher.com








O projecto Sunset Rubdown é um dos filões paralelos do teclista/voz dos canadianos Wolf Parade, Spencer Krug. Além deste side-project, ele também faz uma perninha nos eléctricos Frog Eyes, mas foi ao serviço dos WP que conquistou notoriedade, especialmente depois do distinto debute, com o justamente aclamado Apologies to Queen Mary (2005). Neste Shut Up I Am Dreaming, a afinidade com a pop artística é uma constante, seja pelo empréstimo das bizarrias dos conterrâneos Arcade Fire, seja pelos vectores oníricos das camadas de som e do variado arsenal instrumental que enche os ambientes do disco. Teclas de famílias diversas, xilofones errantes, guitarras e batidas processadas ajudam à formação de fantasias musicais multicor que, piscando o olho ao balanço de canções para adormecer criancinhas, nunca chegam a soar pueris. Vistas bem as coisas, o conceito Sunset Rubdown é rival dos Wolf Parade porque, além de trazer o mesmo líder criativo, ameaça, no mínimo, equiparar-se-lhe nos predicados. Não bastasse isso e, entre os créditos do disco, se descobre o voluntarismo de produtor de um padrinho de luxo. Isaac Brock (Modest Mouse), nada menos. Meta-se tudo no mesmo cântaro, baralhe-se com o cânone vanguardista de Bowie no final da década de 70, algumas insinuações barrocas e andamentos de danças de câmara ébrias, a luz do teatro de sonhos de Krug e arranjos quase-sinfónicos e eis um vislumbre do novo Sunset Rubdown. Meritórios os balões de ar (leia-se, retoques esmerados) que arredam o tomo do risco de se despenhar nos abismos da hipérbole e entregam esta dezena de eufonias à causa própria.

Shut Up I Am Dreaming faz arte da subtileza. Krug é daqueles artesãos que não armam peças vãs; as suas composições reproduzem fielmente um cosmos de sons matizados e cores garridas, o triunfo das doces torções infantis e preciosismos estilísticos de uma fita de Burton. Real vs. imaginário. Nesse universo dual, Krug sobrevive sem a matilha com quem partilhou os palcos da fama no ano transacto, sem contudo se desatar do peripatetismo dos puzzles da parada de lobos. Mas em Shut Up I Am Dreaming os enigmas de Krug são outros. Afinal, depois de tamanha pândega como a que dispunha Apologies to Queen Mary, era de esperar que o rapaz tirasse um tempo para o descanso. Não façamos barulho, deixemos Krug dormir e sonhar. E sondemos, de mansinho, o seu mundo de fantasias. Porque sonhos como Shut Up I Am Dreaming não acontecem todos os dias.