quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Midlake - The Trials of Van Occupanther

Apreciação final: 8/10
Edição: Bella Union, Julho 2006
Género: Indie Rock/Art Rock
Sítio Oficial: www.midlake.net








No burburinho underground que precedeu a edição do segundo álbum dos texanos Midlake, dizia-se à boca cheia que eles estavam mais Radiohead, muito por culpa do brilhante avanço do álbum ("Roscoe"). Embora se possa cobrar essa eventual similitude no registo vocal de Tim Smith, algumas vezes lavrado em moldes idênticos aos de Thom Yorke, a proposta musical deste quinteto fixa divergências detectáveis desde as primeiras audições. Ao invés do polimento urbano e modernidade que tão bem assenta nos Radiohead, a música dos Midlake é, as mais das vezes, rústica nos princípios, com subterfúgios dignos de uma écloga musicada, a lembrar paisagens verdes e ensolaradas, de perfumes country, pejadas de insinuações acústicas (o disco é menos electrónico do que o antecessor), guitarras e violinos em diálogo, pianos e flautas a secundar. Aqui e ali, os tímpanos mais lúcidos descobrem, nas recatadas melodias dos Midlake, pulverizações da lírica dos anos 70 (vestígios da devoção a Fleetwood Mac, Jethro Tull e Steely Dan?), coisa que alinha os Midlake com os californianos Grandaddy ou com os também americanos Flaming Lips, com quem, de resto, já partilharam palcos. Aparentemente conceptual, o álbum é uma alegoria sobre a descoberta de si mesmo de Van Occupanther (e, por extensão, a revelação de adágios universais da humanidade), um misantropo campesino ficcionado (século XIX?), suas peripécias e confidências, num conto encriptado numa linguagem nem sempre contínua e de entendimento incerto. Letras à margem, a fracção instrumental é ambiciosa e cheia de cambiantes, fazendo menção de reunir uma multiplicidade de estímulos acústicos, com arranjos superlativos de cordas ou sopros, em apreço pelos cânones do rock clássico. Canções que soam assim são um repto às irrevogáveis sentenças do tempo, afastam-se dos ciclos de modas e costumes instantâneos e tão bem se escutariam nas ondas de uma emissão radiofónica dos anos 70, como são ouvidas presentemente.

Menos psicadélicos que na obra de debute, os Midlake condescendem com as directrizes mais concretas da sua música e, em The Trials of Van Occupanther, buscam um discurso mais focado, também mais delicado e intimista. Talvez por isso, o álbum é mais dream pop do que se presumiria e, em contraponto com a propensão recente do indie rock não está impregnado da pop efusiva dos 60's, tampouco do delirante new wave dos 80's (esses predicados foram investidos no disco de estreia), ambos preteridos, como se escreveu atrás, em favor de uma família menos compreendida, o art rock sombreado da década de 70. Alguns trechos do disco têm menos faculdades mas tivera a máquina sido afinada pelo lamiré de "Young Bride", "Roscoe", "Bandits" e "Head Home", os zénites do disco, e The Trials of Van Occupanther traçaria ilação irrefutável: os 70's poderiam ser no século XXI.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Scritti Politti - White Bread, Black Beer

Apreciação final: 6/10
Edição: Rough Trade/Edel, Junho 2006
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.dosswerks.com/scc








Apesar de contar quase três décadas, o percurso dos Scritti Politti, palanque principal do galês Green Gartside, continua a pautar-se pela descontinuidade, se não no sentido estético e estrutural da música, pelo menos no carácter avulso das edições. Não estranha, portanto, que White Bread, Black Beer chegue a nós após um lapso de sete anos desde a última edição e, qual improbabilidade estatística desconcertante, seja apenas o quinto álbum dos Scritti Politti. Primeiro fruto do segundo renascimento do conceito (a banda já havia cessado actividades em 1990, ressurgindo em 1999 com Anomie & Bonhomie), agora resumido apenas a Gartside, White Bread, Black Beer desvia-se da subliminar ciência hip-hop desconchavada que poluía, com préstimo duvidoso, o antecessor. A escolha melódica continua a reflectir ecos dos Beatles, de Simon & Garfunkel, mesmo dos Beach Boys, em harmonias vocais armadas com discernimento, tão leves e subtis quanto a porção instrumental do disco, menos fervorosa e condensada no quase minimalismo de um pano de fundo. Essencialmente construído em redor do formato balada, cenário ideal para a voz juvenil de Gartside vaguear em quimeras pop, o disco faz da electrónica o condimento primário, a que se juntam curtas sílabas de guitarra acústica e percussões quase ausentes. Sobriedade, acima de tudo, era o melhor golpe ao alcance de Gartside, depois do revés de Anomie & Bonhomie. Se isso é conseguido, mormente na rudimentaridade doméstica das gravações, não são atenuadas as cláusulas abstractas e espaciais que tão bem encheram os melhores discos dos Scritti Politti. Tais matérias, tão caras a Gartside, apenas se redimensionam, partindo do recato de uma base mínima e chegando ao zénite através da voz, afinal é ela o veículo emocional do disco.

Intrigante como os outros trabalhos dos Scritti Politti, White Bread, Black Beer é uma colecção de melodias pop bizarras e íntimas, fruto da mente de um esteta solitário, um admirador da pop de escol e do detalhe. Única dúvida: o espectro contemporâneo da música estará preparado para esta máquina sintética de pop tresmalhada em melodias pós-punk? Com esse dilema na mente, Gartside parece ter tentado agradar a gregos e troianos, não interrompendo a fidelidade a um género menos amigo dos circuitos comerciais e, ao mesmo tempo, retendo o furor mercantil dos 80's. Nesse despique de sensibilidades, salva-se a excelência das melodias, mas nunca chega a perceber-se se White Bread, Black Beer anda à procura do pós-estruturalismo de um Brian Wilson ou se, pelo contrário, é prisioneiro numa cápsula temporal, estacionada algures no período áureo que os Scritti Politti chegaram a anunciar na década de oitenta.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Os últimos filmes que vi



As apreciações estão disponíveis na secção de cinema do apARTES. Clique aqui (ou no link fixo na banda esquerda do blog) para consultar.

Ali Farka Touré - Savane

Apreciação final: 8/10
Edição: Megamúsica, Julho 2006
Género: World Music/Blues
Sítio Oficial: www.worldcircuit.co.uk








Nascido nas cercanias de Timbuktu, cidade nevrálgica do continente negro e histórico ponto de encontro na África Ocidental dos nómadas do Norte (Tuaregues e Songhais) e das caravanas dos mercantes de sal berberes, árabes e judeus, Ali Farka Touré cresceu num ambiente de tolerância cultural e racial. Único sobrevivente de dez irmãos, facto que haveria de render-lhe o epíteto "Farka" (o burro, animal venerado na sua etnia pelo aferro e insubmissão), Touré encontra nas rudimentares guitarras da cultura songhai, desde tenra idade, a magia e os ritmos que lhe dariam a notoriedade além dos limites do deserto do Sahel, fazendo dele um dos intérpretes mais admirados da comunidade world music. Caminheiro do deserto, agricultor habituado à aridez da savana de África e ao trabalho duro para sustento da família, homem benigno e de sorriso pronto, Touré fez-se tão pertinaz quanto o Níger, de águas resistentes às agruras das longas secas sub-saarianas. Essa rotina obstinada é, de resto, substância indissociável do cardápio sonoro de Ali Farka Touré, com porções iguais de rusticidade instrumental (as njarkas e ngonis, antepassados jurássicos de violinos e banjos, são um dos exemplos enumeráveis) e impressões cruzadas de vários cultos africanos, legado óbvio da tradição de Timbuktu. Quando Touré anunciou, há algum tempo atrás, que desistiria da música para humildemente ser mais útil à sua querida aldeia de Niafunké, já lhe tinha chegado o reconhecimento internacional, com expoente no Grammy pelo mítico Talking Timbuktu (1994), um dos rebentos da sociedade criativa com o americano Ry Cooder. A essa estatueta, Touré juntaria outra, no ano transacto, suspendendo o silêncio com o compacto de In the Heart of the Moon, gravado na companhia do tocador de kora Toumani Diabaté, disco que serviria de suporte para um saudado regresso aos palcos. Seria o último. A enfermidade roubaria Touré à vida em Março deste ano.

Por essa altura, Savane estava já em acabamentos. As primitivas (leia-se genuínas) malhas de guitarra de Touré permanecem intocáveis, a sua música é bamboleante e sedutora como um feitiço de mandinga ou um blues de Hooker com regionalismos raï argelinos ou gwanas de Marrocos e recortes sábios de outras paragens, os bhangras do Punjab, os ritmos crioulos, os huaynos do Perú, os paso dobles dos mariachis. E muitos, muitos blues. Savane é, por essa via, o amor à causa de embaixador da música universal que Touré tão bem defendeu, sem renunciar ao vínculo umbilical com o Mali. Com este álbum, gravado nas derradeiras semanas de vida e com conhecimento da fatalidade incontornável da doença que o apoquentava, o indomável burro deixou-nos a derradeira certeza da sua resistência e teimosia: o silêncio que a morte lhe impôs, não roubará a sua música à eternidade. Savane é, além de um maravilhoso requiem, um fascinante adeus e um acrescento imperdível à discografia essencial de África e do mundo.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Gaiteiros de Lisboa - Sátiro

Apreciação final: 8/10
Edição: Sony BMG, Agosto 2006
Género: Música Tradicional Portuguesa/Experimental
Sítio Oficial: www.gaiteirosdelisboa.com








Com quase quinze anos de histórias musicadas, os Gaiteiros de Lisboa editam o quarto registo de um percurso cruzador de referências e de aventuras exploratórias das fundações da música popular. Essa busca incessante de parte significativa da quintessência musical nacional, a que acresce um compromisso sagaz com a reinvenção e o experimentalismo, faz dos Gaiteiros um dos mais atractivos ensembles do panorama luso. O gozo último deles é brincar com o tempo e sondar o património histórico e os estereótipos, trazê-los à contemporaneidade do hoje e, sem confundir traços identitários, moldar um som profundamente cosmopolita, à laia de uma world music que não se priva de rebuscar as tradições, esculpindo-as com modernidade. É assim que o impulso criativo dos Gaiteiros se manifesta, simultaneamente urbano e rústico, investigador e inventor. Sem debandar das raízes portuguesas, Sátiro é o novo capítulo nessa redescoberta da cultura musical universal, onde o passo de saída é lusitano e a chegada é coisa fecunda de interferências artísticas, algo que se abre num conhecimento vasto das estéticas e melodias antigas e presentes e se fecha, sem pontos finais, num furor aglutinador, tão luso-qualquer-coisa como sem fronteiras. As memórias universais dissecadas em Sátiro, como noutros trabalhos do colectivo, contemplam a fina tradição transmontana e o barroco mirandês, das gaitas e folclores, afins do culto asturiano e da teatralidade celta; a esse algoritmo primário, juntam-se a alegria pulverulenta do Magrebe, a maravilha inventiva do jazz sem rede, uns cheirinhos de doutrina da música concreta e, até, os vagares alentejanos ou umas sombras do fado (com a voz de Mafalda Arnauth na adaptação do poema "Os Versos que te Fiz", de Florbela Espanca). Para compôr este ramalhete, os Gaiteiros valem-se de um arsenal acústico versátil, com o pandeiro árabe, as rabecas e outros cordofones, as concertinas, as flautas de pan e palhetas, a gaita transmontana, a trompa, a gaita de amolador, o clarinete e a tarota, o túbaro e a serafina, o serpentalho, os ferrinhos, o reque-reque, os tubarões e os batuques. Tamanha panóplia só podia fazer de Sátiro um albergue com honras festivais, polifonias com sentido e ritmos possantes, ora circunspectos e cheios de cautela, ora irrequietos e destemidos.

A rejeição do imobilismo continua a ser a receita maior dos Gaiteiros de Lisboa. Inventam instrumentos, recriam-se na denúncia de novos sons, sulcam a terra do povo com a enxada dos poetas (Pessoa e O'Neill no passado, Florbela Espanca aqui) e arrebatam pelo perfume de extravagante originalidade, algures no limbo entre o sério e o lúdico, sempre inebriante. Como na feitiçaria de marimba que serve as contorções de "Movimento Perpétuo", de Carlos Paredes. Sátiro é tudo isso, é um erudito rompedor de horizontes e uma adição fundamental ao cancioneiro nacional.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

O cinema também mora aqui...

A paixão de muitas luas que me une à música levou-me a criar o apARTES. Bendita a hora em que, há sensivelmente dois anos, a razão se dispôs a empurrar-me para partilhar o meu trabalho (e através dele o nexo ao vício perdurável da música) com os cibernautas que se aventuram pela blogosfera. Alguns de vós, estou certo, já se tornaram visitantes habituais e acolhem as palavras que escrevo com a mesma empatia que procuro dar-lhes ao passá-las à estampa. O meu agradecimento é uma insolvência, por tudo, por aceitarem o conforto desta (vossa) sala de escuta, mostruário sem pretensões da música que vou ouvindo, da música que me dão a ouvir, da música que descubro casualmente e à qual acho pertinente tirar-se o véu. E o chapéu, quando é caso disso.

Aqui, destapo uma porçãozinha da intimidade do solene acto de escutar um disco, cobrar-lhe os méritos ou citar máculas e, depois, franquear-lhe um percurso para espicaçar os tímpanos e, por eles, fruir até à mais ínfima partícula do som.

Este pacto sensorial não é, contudo, exclusivo da música. É uma prerrogativa da arte. Devoto-me primariamente à música, não tanto às outras, por imperativos profissionais, casando o necessário e o agradável, e porque, dito toscamente, o tempo não dilata o suficiente para poder escrever sobre outras coisas. Aqueles que seguem o apARTES desde o berço lembrar-se-ão de aqui verem postadas algumas resenhas críticas de cinema, coisa de que, a pouco e pouco, fui abdicando a contragosto. Em consequência, o link "filmes" que ainda aparece, quase timidamente à direita da secção maior, no cabeçalho deste blog, foi votado ao abandono e limita-se a um parco e acanhado rol de pouco menos de uma trintena de títulos. Pois bem, reconhecendo o mister e a propriedade de remediar a (imperdoável) descortesia com essa outra paixão que é o cinema, decidi criar um espaço novo no apARTES. Sem uma varinha de condão para multiplicar as voltas diárias do relógio e não podendo dispensar menos atenção à música, a opção era única: mostrar-vos as fitas que vou vendo (no DVD ou nos anfiteatros) e cumprir um serviço mínimo para um crítico que se preze. À falta de tempo para redigir um texto condigno dos valimentos de cada filme, deixo-vos a fria expressão numérica da minha opinião. Menos mal, diria eu, antes uma menção ao cinema, mesmo que ela se resuma à mera valoração numérica dos filmes e das coisas que se vão fazendo na sétima arte, do que preservar o incómodo autismo face à cinematografia de que padece o apARTES, há uns tempos. Dir-me-ão, vocês frequentadores deste espaço, a vossa opinião.

Nesta nova secção do apARTES, a primeira de um par de novidades de curto prazo (a segunda virá substituir o estagnado "Postal Ilustrado"), os cibernautas encontrarão uma pequena tabela, de consulta rápida, actualizada regularmente na cadência das estreias, com a avaliação dos filmes que eu for vendo, apenas de entre os títulos em exibição nas salas de cinema. Num plano mais detalhado, um pouco mais abaixo na página, figura uma fileira com os posters dos últimos filmes que vi, na ordem cronológica da sua visualização, independentemente de terem sido vistos no DVD ou numa sala de cinema.

Espero que este lacónico guia seja prestável para alguns de vós e, com ele, fica a promessa de, se tal me permitir a hegemonia do tempo, vir a tributar um lugar mais conforme ao cinema no apARTES.

O cinema também tem lugar no apARTES. Clique aqui (ou no link permanente que encontra na margem esquerda do apARTES) para aceder à nova secção.

Os meus agradecimentos pela vossa fidelidade.
Ela é mútua.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Rob Zombie - Educated Horses

Apreciação final: 6/10
Edição: Geffen, Março 2006
Género: Metal Alternativo/Hard Rock
Sítio Oficial: www.robzombie.com








Na ocasião em que se amplia a visibilidade do seu percurso na sétima arte como realizador (o exemplo mais recente foi a fita "The Devil's Rejects"), Rob Zombie apresenta o quarto registo de estúdio. Desde a desagregação do colectivo White Zombie, agrupamento que liderou durante cerca de uma década, Robert Cummings (assim o baptizaram à nascença) seguiu individualmente o mesmo entendimento do hard rock: insinuações góticas, universos capturados dos filmes de terror, excentricidade própria do glam-rock, simbolismo do fantástico e do punk e discurso hedonista. Educated Horses pouco se distancia desse leitmotif, tonificando a guitarra eléctrica como substância primaz, ao jeito anacrónico do hard rock clássico ("Let it All Bleed Out" e "American Witch" ficavam bem no catálogo White Zombie), de acordes abertos, cadências a galope veloz, um ou outro solo técnico e vigor non stop. De permeio, algumas alucinações modernistas e ambientes acústicos, com pianos solitários ou esquemas harmónicos mais demorados, sem desvios do protótipo principal. Talvez pela acção dessas interferências incomuns, não é tão evidente a militância gore que pautou os registos anteriores de Rob Zombie, ainda que se mantenha imaculada a sua aptidão para sondar (e desfrutar) as diversas cambiantes (e parábolas estilísticas) desse universo e as potencialidades da sua transposição para as cordas de uma guitarra. Essa marca distintiva é prosseguida neste Educated Horses com a competência do costume e uma afincada fidelidade às fórmulas harmónicas de sempre, num mosaico extenso de recursos sónicos e voz recurva, combinados com perspicácia.

Não sendo Rob Zombie um artesão particularmente dado à evolução, não estranha que algumas das peças de Educated Horses dêem mostras de semelhança inegável com trechos antecedentes do músico. Corta e cola? Fidelidade a um estilo ou estagnação criativa? Em qualquer dos casos, cinco anos volvidos desde o último lançamento discográfico, a matriz sonora de Rob Zombie está menos equipada com habilidades de estúdio e quilos de distorção, mas guarda o impulso cativador. Os fãs cabeludos do músico é que não acharão muita piada à discrepância pop que se apossou dele e que as presenças ilustres do baixista Tommy Lee (Mötley Crue, Methods of Mayhem) e do baterista Josn Freese (Suicidal Tendencies, A Perfect Circle) não disfarçam. O mestre do macabro envelheceu e no manual de bordo da sua barca do inferno já cabe a palavra pop.

domingo, 20 de agosto de 2006

Lisa Germano - In the Maybe World

Apreciação final: 6/10
Edição: Young God Records, Julho 2006
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.lisagermano.com








Ainda que menos notada do que outras cantautoras da sua geração, não falta, porém, a Lisa Germano a vocação para musicar como poucos o encanto de sentimentos genuínos. Cada vez mais remotos estão os tempos em que tocava com John Mellencamp, algures na década de 80, evidenciando ânimos rock que o tempo fez esfumar. Hoje, ela prefere segredar ao piano ou à guitarra, sussurrando-nos melodias de voz quente e delicada, em chamamento de alegorias frágeis e de envolvimento nostálgico. A beleza nublada das canções e dos cenários que invocam vale-se da expressividade minimalista do álbum, seja no registo vocal que raramente se expande além do cativante cicio de Germano, seja no underacting das cláusulas instrumentais. Ainda assim, roçam a mediania os previsíveis fraseados harmónicos, esqueleto musical que faz sustentáculo das orações vocalizadas da autora. Com um percurso a solo vinculado em disco às vicissitudes quotidianas, mormente nos melhores trabalhos, os elegantes Happiness (1993) e Geek the Girl (1994), Lisa Germano retoma o mesmo imaginário para este álbum, o esquadrinhamento patológico das disfunções do amor e da morte, exercício despido de presunção, antes profundamente íntimo e contemplativo. Assim acontece neste In the Maybe World. Estruturalmente básico, o disco é o reflexo das inquietudes simbólicas de Germano, percorrendo os arquétipos das canções de embalar, sem descambar para a vertigem delico-doce que se mostra, muitas vezes, neste tipo de composições. Evitado esse revés, In the Maybe World mostra-se mais do que um mero disco de baladas, mesclando universos de doçura pueril com rasgos de introspecção sobre a mundanidade da vida, revérberos de um espelho luminoso da existência humana. As canções quase não viveriam, assemelhando-se a feixes de holograma, quase sem corpo, não fora a consistência arrepiante da voz, excipiente privilegiado para a bonançosa catarse de Germano. Nesse sentido, o álbum é uma sentença existencialista, dispensa quaisquer abstracções e lança mão da honestidade típica da cantautora e da cortante sensibilidade com que aborda a morte, os amores a prazo e factos episódicos da sua própria vida. Tudo com uma fragilidade quase inexequível.

Musicalmente aquém de outros tomos de Lisa Germano, também nas letras In the Maybe World tem alguns equívocos. Uma vezes colando-se a uma poesia turva mas inteligente, noutros instantes fica refém de vulgaridades infantis e lugares comuns menos prestigiantes. Mesmo assim, o sétimo trabalho de Germano é uma escuta deslumbrante e, não sendo um fascículo excelso da cantora, deve prestar o serviço de repor Lisa Germano na órbita da freak-folk da moda. Ou isso ou mostrar-nos as passagens para uma sad pop atonal que se sente como uma aragem fria, medra com audições sucessivas e sacode as nossas percepções, mostrando-nos a rapsódia de um outro mundo. O talvez-mundo de Lisa Germano.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Eagles of Death Metal - Death by Sexy

Apreciação final: 7/10
Edição: Downtown, Abril 2006
Género: Hard Rock/Garage Rock 'n' Roll
Sítio Oficial: www.eaglesofdeathmetal.net








Não sendo considerado pela imprensa especializada como assunto sério, o projecto Eagles of Death Metal é mais um dos apêndices dos Queens of the Stone Age. Já não causa surpresa que a cada estação desponte nova empresa paralela dos membros dos QOTSA e, no caso dos Eagles, Death by Sexy é o segundo fascículo de uma jornada iniciada há dois anos. Aqui, o frontman dos QOTSA, Josh Homme (sob o altivo pseudónimo Carlo Von Sexron), senta-se à bateria e o protagonismo vocal é do porno-bigodado Jesse "The Devil" Hughes, seu amigo da mocidade. Directo e vigoroso, Death by Sexy é uma locomotiva de rock 'n' roll apressado, sem complexos, inveteradamente hedonista e entretido. A escrita de Hughes é lasciva, a roçar o machismo sexual mas não tem subterfúgios freudianos. Ele quer mesmo sexo. O sexo não é desculpa, é motivo. Musicalmente, para lá chegar, nada melhor do que uma plataforma feita de rock básico e urgente, nutrido a metanfetaminas e cerveja, tatuado até ao tutano, riffs de pé na tábua, percussões galopantes, registo vocal polimórfico (entre o falseto grosseiro e um Elvis demente) e...regras para quê? E death metal só mesmo no baptismo da banda.

Mais aprimorado do que o antecessor, Death by Sexy mantém a ousadia desengonçada e centra-se no deleite sensorial, mais do que propriamente no apuro técnico (veja-se a simplicidade das estruturas harmónicas das composições) ou nas prescrições de estúdio. A única lei é o toca e segue instrumental: bateria de croma único, concentrado de guitarra, baixo com mordaça. Como se os ZZ Top descobrissem um casamento cósmico com a adrenalina dos Stooges ou dos Stones reciclados. O resto são hormonas fervilhantes, suores e arrepios, uma declarada exaltação do rock carnal, um estímulo escapista contagiante. Nada de essencial ou inovador, é certo. Mas entusiasmante. Death by Sexy é a banda sonora para um one night stand com aquela desconhecida voluptuosa do bar, sem telefonemas nos dias seguintes. Só falta convencer a moça...

domingo, 13 de agosto de 2006

Jurassic 5 - Feedback

Apreciação final: 5/10
Edição: JVC Victor/Interscope, Julho 2006
Género: Hip Hop/Underground Rap
Sítio Oficial: www.jurassic5.com








Com a deserção recente do produtor Cut Chemist (à procura de evolução em nome próprio), a equipa mais astuta do rap underground do Bronx tornou-se, agora sim, um quinteto. A partida de Chemist, prospector versado nos postulados do diggin', é um desalinho mais do que numérico nos Jurassic 5. Ele é, a par de Dj Shadow (com os seus Quannum), um dos obreiros da cartilha básica do hip hop de combustível funk, em busca das origens do género, com pioneiros como Afrika Bambaataa, os Sugarhill Gang (a quem é atribuída a primeira gravação hip hop), Kool Herc ou, um pouco mais tarde, os Crash Crew ou os Treacherous Three. E aí que estão as raízes arcanas do hip hop, a verdadeira old school, muito antes dos Wu-Tang Clan, Gang Starr ou dos Beastie Boys. Para esse trabalho missionário de uma década a recuperar a estética esquecida e as técnicas beats desusadas (em tempos até se gravavam em tempo real), é difícil desligar os Jurassic 5 do espírito retro de Chemist. A química essencial do disco é agora incumbência de Dj Nu-Mark, também ele destro na procura da batida certa. Contudo, a despeito da competência técnica e da regularidade funcional que o disco apresenta, mormente nas sinergias vocais do costume e numa ou outra beat carismática, a escuta de Feedback ressalta algumas anomalias. A muito radio-friendly "Brown Girl" existiria com Chemist? Chame-se-lhe amadurecimento ou afeição mercantilista, Feedback não é vinheta da história dos J5. O afinco deles nas causas anti-comerciais jamais faria adivinhar que um dia, por força das ironias do destino - o tempo fez do underground uma vaga de primeira linha - ou do anseio pelo êxito, os J5 fariam concessões arriscadas (insensatas?) ao lado mais circense do hip hop. Cansados do anonimato do underground? Dave Matthews é convidado (até nem é muito estranho, Nelly Furtado já emprestara a voz em Power in Numbers), Scott Scorch dá uma ajuda nas batidas, Mos Def é rato no porão.

Mais do que serenar o discurso panfletário dos J5, ainda preocupados em salvar o mundo hip hop dos dominadores clichés MTV em que o recurso visual maior são moças de formas generosas e uma atitude pimp despudorada, Feedback dá mostras de algum cansaço no malabarismo das fórmulas old school e, pior do que isso, de descrença na importância de manter activa a integridade da arte e sobrepô-la ao império dos dólares. Não basta proclamar, com sensação, que se é salvador. Para o ser, há que obrar uns quantos milagres ou actos de redenção. E Feedback, quatro anos depois do último disco, está mais perto de ser o negócio com o belzebu que os J5 sempre rejeitaram.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Mário Laginha - Canções & Fugas

Apreciação final: 8/10
Edição: Universal, Abril 2006
Género: Piano
Sítio Oficial: www.mariolaginha.org








O legado de J.S. Bach é um dos mais sacros espólios da música erudita, menos notado na sua época (primeiro quarto do século XVIII) é certo, mas reconhecido com a grandeza devida a partir do século seguinte, muito por culpa da afeição do também germânico Felix Mendelssohn, profundo conhecedor (e regenerador) da obra barroca. Organista de excepção e músico de escalas várias, Bach era cultor do contraponto, ciência proveniente dos cânones musicais e que, sem precisão técnica, pode dizer-se que se distingue pela ausência de um enunciado melódico principal na composição e, consequentemente, pela construção harmónica com notas esparsas ou alinhamentos melódicos alternantes. Lugar de inventividade e, no limite, espaço privilegiado para o improviso, o contraponto é a chave das notáveis fugas e prelúdios de Bach, como pode escutar-se na sublime preciosidade técnica de Das wohltemperirte Clavier (Cravo Bem Temperado) e da inacabada Die Kunst der Fugue (A Arte da Fuga). Os dons do contraponto são o combustível criativo do mais recente trabalho de Mário Laginha. Admirador da mestria de Bach, Laginha explora, na primeira gravação em nome próprio desde Hoje (1994), a ciência do contraponto, reformatando-a à luz de proposições melódicas mais recentes, sejam elas vindas do jazz solista (os nomes de Bill Evans ou Keith Jarrett são regalos irrenunciáveis) ou dos manejos repentistas do autor. Nesse sentido, Canções & Fugas não é um disco classicista de piano. Nem de fugas ou canções. É, antes, um exercício da identidade de Laginha, como ele tão bem faz em cima dos palcos, absorvendo os teoremas fundados e juntando-lhes respeitosamente retalhos de um mundo musical singular, prerrogativa apenas ao alcance de intérpretes que, não esquecendo a face colegial e a rectidão da sua formação, se atrevem a somar-lhe paradigmas de outras famílias sonoras.

A sintaxe musical deste Canções & Fugas provém de um piano solitário e uma dúzia de peças, com fugas de permeio entre canções no mesmo tom. O discurso é, em qualquer dos registos, tecnicamente seguro, de ritmo sólido e melodicamente cativante, envolvendo o ouvinte num princípio de incerteza. A dúvida entusiasmante é indagação do princípio ao término do disco: jazz ou clássico? Abra-se a especulação, mas pouco importa a réplica quando estamos em face de música deste tamanho, produto lógico de um criador estudioso e de espírito itinerante que, com um prisma pleno de contemporaneidade, nos mostra esculturas musicais que, em semelhantes primores, tão bem dotariam uma exibição pública no século XVIII quanto cabem numa galeria sonora dos dias de hoje.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Chico Buarque - Carioca

Apreciação final: 7/10
Edição: Biscoito Fino/EMI, Julho 2006
Género: MPB
Sítio Oficial: http://chicobuarque.uol.com.br








Com um percurso seminal repartido por artes de formas diversas, Chico Buarque é um dos rebentos mais ferazes da cena musical brasileira. Foi na conjuntura da distante década de 60 que despertou para a música, abandonando os estudos superiores e tendo, desde cedo, o privilégio de conviver com a fina-flor dos intérpretes fundadores da MPB e/ou do tropicalismo: Sérgio Mendes, Jorge Ben, Nara Leão, João Gilberto, Toquinho, Edu Lobo, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre muitos outros. O despotismo dos tanques nas ruas do Rio, grilhão de ferro do general Costa e Silva, levá-lo-ia à mesma sorte de outros compinchas, votando-o ao desterro em Itália, na eclosão do alvoroço cultural tropicalista. A errância de viageiro forçado veio a esculpir outras cláusulas à alma profundamente carioca da sua música, sempre popular e generosa, de verbo cirúrgico e coração sambista, de humor suspirante e agudo. Chico fez-se menestrel, de corpo e espírito, contador de estórias dos cantos penuriosos das urbes, desvões onde se reuniam mendigos e patifes, prostitutas e bêbados, lágrimas de criança. Relatos poéticos de um rosto ignorado do Brasil, com o saracoteio dos sambas de morro e o primor do jazz, sumo depoimento da identidade de Chico. O retorno a casa mostra-lhe o ónus da censura na pátria dos anos de chumbo, intervalo de vigência do mais duro dos generais, Emílio Médici, e a exprobração sucessiva da sua lavra (com peças politizadas, ao jeito de enunciados da classe proletária) empurrou-o para um silêncio de nove anos. Quando os ferimentos político-sociais deixados pelos sucessivos governos autoritários saravam lentamente, na década de 80, Chico retoma a demanda da MPB, encontrando-a virada para elites e desenraízada do tamanho popular das primícias. Mas Chico é do povo, mesmo quando as gentes mudam os transístores para outras ondas. Apoia publicamente o esquerdista Lula da Silva, derrotado nas primeiras eleições directas e, mais tarde, junta a sua voz ao protesto dos sem-terra, cedendo-lhes os direitos de um disco sintonizado com o movimento contra o jugo dos fazendeiros.

Carioca é a etapa de regresso ao estúdio, oito anos depois do último álbum, e depois dos bons créditos da prosa romanceada de Budapeste. Se nesse escrito Chico cursava sobre o dano imparável da personalidade dobrada no indíviduo, o disco faz crer noutra dualidade. Carioca é Chico, como ele sempre foi mas, camuflada por detrás do rótulo de baptismo do tomo, está música que não é só da cidade maravilhosa; o samba instruído e a bossa nova, os mais cariocas privilégios sonoros, estão cá e trazem orquestrações de luxo. Todavia, Chico, autor traquinas, refractário de sempre, imune ao torpor, presta tributo ao Rio mas não se encerra nas castas de sons cariocas, antes permite outras peripécias, como o balanço baiano de "Ode aos Ratos", o swing dourado de "Porque Era Ela, Porque Era Eu" ou o beijo (amargo?) da guitarra eléctrica de "Renata Maria". A MPB já não reclama os panfletos musicados de Chico mas Carioca é outro tomo de retratos de uma nação brasileira que só se mostra nos seus acordes e canções. Embora sem peças harmónicas tão magníficas como outros discos, Carioca firma uma certeza: a obra de Chico é infinita e o Brasil não é o mesmo sem ela.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Tapes 'n Tapes - The Loon

Apreciação final: 8/10
Edição: Ibid/XL, Abril 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: www.tapesntapes.com








Com o debute nas lides discográficas em formato de edição de autor, o quarteto americano Tapes 'n Tapes faz jus ao burburinho que antecipou este lançamento. Na linha da inesperada eclosão da surpresa nova-iorquina Clap Your Hands Say Yeah, no ano transacto, ou dos britânicos Arctic Monkeys, já em 2006, The Loon também chegou aos ouvidos dos melómanos mais atentos através da web. Em pouco tempo, a música destes rapazes de Minneapolis angariou séquitos e a ulterior divulgação em inúmeros blogs e sítios foi a semente da curiosidade. E The Loon não desilude. A sugestão sonora é o rock colegial dos Pixies ou dos Pavement, com um piscar de olhos às derivações mais astuciosas do pós-punk e breves incursões aos palatos western dos Calexico. Trocada em miúdos, a música dos Tapes n' Tapes é uma junção inteligente dos cânones mais emblemáticos do folk-rock americano da última década e meia, uma verdadeira antologia de ritmos e (des)equilíbrios melódicos intencionais, com contrastes e ângulos diversos. Música expressiva, portanto. A galope das fintas oblíquas da guitarra e sem uma produção pomposa ou truques de estúdio - o álbum é um simples exercício de trabalhos manuais dos músicos. Dessa natural desafectação de formas desabrocham quarenta minutos de música de traço firme e proporcionado, rock'n'roll apurado para este século (Insistor é a certidão de nascimento) e bem escrito. A visão dos Tapes 'n Tapes é ecléctica, na raia da incongruência estética, a ponto de The Loon ser um corpo de canções deliciosamente anómalo, tal a irregularidade de matérias sonoras que abriga. Padrões indie purificados.

The Loon pode não ser a maiúscula obra que muitos esperaram, até tem um ou outro desvio algo diletante - coisa perigosa que pode ser confundida com pretensiosismo artístico - mas não deixa de ser um tomo livre de frivolidades. Pertinente do começo ao desfecho, com carisma raro, envolvente e tangente ao génio em certos trechos, a estreia dos Tapes 'n Tapes é a demonstração inequívoca de que partir de influências célebres para construir uma marca própria só é erro se não existir um intervalo de demarcação. Em The Loon esse espaço identitário não é lato mas existe e é dele que nasce uma chancela indie eloquente que, logrando a familiaridade com os mais sólidos dialectos da música americana, se exprime num idioma próprio e que apetece traduzir, da primeira vírgula ao último acorde, em desafio ao mesmo vocabulário pré-convencional fundado pelos insignes Frank Black e Stephen Malkmus.

Posto de escutaInsistorManitobaOmaha

domingo, 6 de agosto de 2006

Wolfmother - Wolfmother

Apreciação final: 6/10
Edição: Interscope/Universal, Maio 2006
Género: Hard Rock
Sítio Oficial: www.wolfmother.com








O trio australiano Wolfmother é um daqueles agrupamentos musicais que se orgulha de dobrar o tempo e apostar em modas tonais de outras épocas. No álbum de estreia, o influxo maior é uma revisitação óbvia ao hard rock alucinado dos anos 70, época em que estourou o psicadelismo de bandas como os Black Sabbath ou os Led Zeppelin. São mais ou menos evidentes os reflexos desses atributos na música dos Wolfmother, especialmente dos Sabbath na fase Osbourne; Ozzy parece o disfarce favorito do vocalista Andrew Stockdale, tal a proporção com que se cola aos meneios do ex-vocalista dos Sabbath. A outro nível, a porção instrumental do álbum reabre repetidamente tragos intensos de guitarra, acordes abertos na melhor tradição nostálgica, algo que a produção do disco ajuda a sustentar, armando um ambiente que, nos tempos modernos, apenas se encontra nas odes mais anacrónicas escrevinhadas pelos Queens of the Stone Age (ou pelos saudosos Kyuss) ou nas ondulações retro dos White Stripes. Neste frenesim de feitiçarias rock de origens e épocas várias, os apontamentos específicos de Stockdale, Chris Ross (baixo) e Myles Heskett (bateria) deixam-se amordaçar pelo expediente dos clichés, usados exaustivamente no mimetismo do tipo de som que admiram. Se originalidade e cunho próprio é miragem no debute destes jovens aussies e isso é desfavor das canções arroladas no álbum, não se perde a autenticidade da alma puro-sangue rock do disco, atestado supremo da competência dos músicos na manipulação de um dialecto musical deslocado no tempo.

Wolfmother absorve a truculência dos notáveis do hard rock, copia-lhes o compasso e as medidas e sai da inevitável comparação com um mérito dúbio: mostra-nos uma banda com destreza técnica e pujança suficientes (ao vivo eles devem ser demolidores) para merecer o alvoroço que a rodeia, isso é inegável, mas que não chega a firmar um carimbo próprio. Ainda assim, o disco entretém da partida ao final, numa excursão pelo hard rock clássico e dá uma imensa vontade de resgatar alguns vinis do armário. Sem desdém pelos rapazes, pago para ler uma crítica a este power trio que não conjugue estes caracteres: B-L-A-C-K-espaço-S-A-B-B-A-T-H. Em português, R-O-C-K com "R" maiúsculo. Obrigado pela frenética recordação, Wolfmother!

sábado, 5 de agosto de 2006

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Kimya Dawson - Remember That I Love You

Apreciação final: 6/10
Edição: K, Maio 2006
Género: Folk Minimalista/Lo-Fi
Sítio Oficial: www.kimyadawson.com








Há canções que nos incitam pela extraordinária simplicidade com que renunciam a ornatos frívolos e às deformadoras tramas de estúdio. Mais do que isso, no caso da quase incógnita nova-iorquina Kimya Dawson, mais conhecida pelo projecto The Moldy Peaches (união casual com Adam Green), a porção instrumental das canções nem sequer é o artigo maior. Remember That I Love You, quinto exercício a solo da americana, prova que a música é uma mera tribuna servente da voz. Não é que Dawson seja uma cantora sublime, longe disso, tampouco uma instrumentista de nível superior; nem a isso ela aspira. O cerne desta dúzia de canções é o discurso, a palavra empregada é medula de histórias quotidianas e reflexões de uma honestidade cortante. Dawson na pele de narradora. A produção recebe com agrado o protagonismo das fábulas (umas biográficas, outras metafóricas) e esconde a guitarra (e demais instrumentos) atrás da retórica pertinente de Dawson. A voz faz-se corpo, indiferente ao desprovimento musical, e captura o ouvinte num imaginário ditoso, um universo genuíno que confunde, com irónica docilidade, utopias de criança e os desmanchos do mundo real.

Se as texturas musicais de Remember That I Love You não têm arranjos e soam rudimentares, Dawson compensa essa privação com sentimentalismo verosímil. Nada de bacoco. Com uma mensagem positiva, ela toca os vértices centrais do existencialismo, a vida, a morte, a doença e o relativismo do indivíduo face ao mundo. A temática seria pretensiosa, não fosse o jeito cativante de Dawson narrar as coisas, comunicando com o ouvinte através da palavra, já não da música, e fazendo uso de recursos linguísticos com afinco e humor (ouça-se "I Like Giants", metáfora entretida sobre os complexos com o corpo do género feminino...). Umas harmonias e inflexões melódicas mais e este conjunto de canções (se assim se podem chamar) granjearia outra reputação junto da comunidade melómana. Dawson, ao invés, prefere dar-nos uma apelativa terapia anti-depressão e, se tal se difunde melhor através da letra, esqueçamos que Remember That I Love You é um álbum de canções, façamos de conta que é um livro para ler com os ouvidos e aprendamos a tirar gozo dos infortúnios.

Posto de escutaMy MomCaving InFrance

segunda-feira, 31 de julho de 2006

Magneta Lane - Dancing With Daggers

Apreciação final: 6/10
Edição: Paper Bag, Abril 2006
Género: Indie Rock/Punk Rock
Sítio Oficial: www.magnetalane.com








Um trio de canadianas que faz um rock com a receita The Pretenders (especialmente na potência vocal) sob efeito de ácidos. A definição pode ser tosca e repete-se na generalidade da imprensa especializada mas faz luz sobre o ideário rock de Lexi Valentine (voz/guitarra), Nadia King (bateria) e French (baixo), em estreia no formato longa-duração. Para esta apresentação às multidões melómanas, as Magneta Lane chamaram a dupla MSTRKRFT (o baixista dos Death From Above 1979, Jesse F. Keeler, e Al-P), servidora da catálise das fusões energéticas do trio. E faísca é coisa que não falta em Dancing With Daggers, ainda que os coriscos saiam refreados em favor das recreações melódicas, fechando o pujante fluido da música em rasgos curtos. A sonda não é o forte das Magneta Lane, elas não querem dar novos mundo ao mundo, ao invés devotam-se ao apuramento de estruturas rock de galope punk e rebeldia q.b. que, não obstante a ligeira moléstia de alguma previsibilidade, recuperam a mítica fórmula do power trio. Com girl power, a fazer lembrar as proverbiais Sleater-Kinney. A voz sobrevive, sem ofegar, mesmo imersa na torrente eléctrica e suja da guitarra; o amparo da bateria é frenético, possante, dá corpo aos floreios harmónicos das composições; o baixo espia e segue, sustém os ímpetos e sorri (em graves contracções), sardónico de si mesmo.

O léxico das Magneta Lane é puro feminismo rock. A provar que elas podem ser tão rock como eles. E esse testemunho nem precisa socorrer-se de clichés nem estereótipos. Brevidade e alma aguçada são predicados que assentam neste trio canadiano e que se arrumam, com encanto, nos momentos altos do disco ("Broken Plates" ou "22") mas que se tornam redundantes noutros trechos. Esse embaraço é particularmente perceptível na segunda metade de Dancing With Daggers. Afinal, um baile com punhais é dança de risco e, à conta do receio em se ferirem, as Magneta Lane não investem na variação, decidem-se antes pela comodidade da aliteração. Ainda assim, o álbum é um simpático ajuntamento de canções rock competentes de uma banda que, tendo assinatura própria, não deixa de parecer-se com uma versão feminina dos Strokes.

sábado, 29 de julho de 2006

Ellen Allien & Apparat - Orchestra of Bubbles

Apreciação final: 8/10
Edição: Bpitch Control, Maio 2006
Género: Electrónica/IDM/Techno Experimental
Sítio Oficial: www.ellenallien.de
www.apparat.net








Não sendo desconhecido dos amantes da electrónica europeia recente, o projecto Apparat (saído da mente de Sascha Ring) é parte de um espaço devoto da abstracção e do minimalismo, tendo concorrido para dar outros diâmetros à moderna electrónica berlinense de cariz minucioso. Mentor de universos musicais virtuais que contestam os clichés da mecânica da música digital, Ring é destro a manobrar atmosferas que tomam o temperamento da techno e da IDM, mesclando-o com elegias emocionalmente cerradas, em encadeamentos quase maquinais, frios e duradouros. Se a ele se junta outra artesã categorizada da seminal escola de Berlim, Ellen Allien, estrela ascendente da techno vocalizada e abono certo de infusões pró-eróticas em cadências electro, parecem colar-se desígnios opostos. De um lado, os preciosismos técnicos e a percepção cirúrgica de Apparat, do outro, a fartura sensual e os rasgos de Allien. A erudição pragmática de Berlim faz o improvável, fomentando uma química de assimilação entre o farto chafariz de subversões de Allien e a urgência de penso-rápido Ring, infalível a conciliar os nacos do disco. A simetria das matérias não tem mácula e apura uma acção simbiótica menos expectável, não se limitando a sobrepor os discursos individuais dos músicos, antes, munindo cada um com novas alavancas e renovada propulsão. À sobriedade torta de Apparat é adicionado um desprendimento sensorial, um novo oxigénio que lhe alarga as vistas; do mesmo jeito, em sentido inverso, à megalomania imoderada de Allien é ministrada a posologia certa de sedativos. O som é o desenlace óbvio da terapêutica: de pulsação nocturna, feito de transparências, luzes trémulas e cores diáfanas, a cansar as leis gravitacionais de Newton, imaterial e borbulhante. A genuína orquestra de bolhas.

Orchestra of Bubbles não é música de reacções absolutas, é dança subtilmente feita pudor, executada ao canto da sala de estar (a pista de dança é apetite ambicioso de mais?) ou de phones no ouvido. Grata é a descoberta de que os músicos não se confinam às usuais impressões iconoclastas, aceitam a aposição de ideias e arquitecam um edifício sonoro que, mesmo carregado de experiências e intuições diferentes, não tem partículas saturadas. Em especulação por planos quase virgens da electrónica, a dupla Allien/Ring vai no encalço de futuros alternativos para a música de dança. Orchestra of Bubbles, exercício magno de cooperação entre ícones da electrónica minimalista, faz o primado do instrumento digital e é obrigatório para seguidores de Allien e/ou Apparat. Para os restantes, o álbum é uma dádiva da melhor electrónica que se (ou)viu no corrente ano.

Posto de escutaTurbo DreamsRetinaJet

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Burial - Burial

Apreciação final: 8/10
Edição: Hyperdub, Junho 2006
Género: Electrónica Vanguardista/Dub Alternativo/Trip Hop
Sítio Oficial: www.hyperdub.net/burial.html








Com morada fixa na cena underground dos clubes de dança de Londres, o obscuro Burial apresenta-se. Primeiro disco de um projecto musical de que pouco mais se sabe além das origens londrinas, Burial é uma colecção de electrónica perturbante, a primeira edição de uma pragmática sonora quase clandestina a crescer além da órbita de clubes restritos da capital inglesa. O rótulo é recente, chamam-lhe dubstep, degeneração sintética essencialmente instrumental e combustível de inquietações, por força da evocação de ambientes negros, ao jeito de máquinas sobrenaturais. O jogo de Burial é mecânico e faz agitar as ilhargas do ouvinte, à custa de lhe acirrar o espírito, com sombras musicadas e hologramas de ondas sonoras. Sons reais e sons adivinhados, coisas que se insinuam e sorrateiramente arrombam os vales do silêncio, ecoando no ar como suspiros do desconhecido, aceitando a trepidação de percussões vendedoras de ilusões. Há na música de Burial uma cólera reprimida, um alento rave que se enreda numa improvável e dócil confissão, aceitando o motim emocional e fazendo dele discurso. Minimais, por vezes, e de dinâmica industrial, noutros instantes, as meditações musicadas de Burial comprometem-se com uma deriva indecisa entre o frémito do drum'n'bass (escola inicial de Burial), o torpor progressivo do dub e os arrepios do trip-hop.

Burial é o requiem taciturno dos arcanos pós-apocalípticos de uma cidade futurista. Urbano e complexo, o álbum tem músculo e tem alma. E sangue frio que esquenta em lumes brandos. Trechos fracturados, com as elipses de uns Autechre em união de facto com a alquimia Massive Attack. Capaz de suscitar estados de espírito contrastantes, é nos ápices com samples vocais que o disco atinge píncaros, mesmo quando é redundante, como na incorpórea "Forgive", ou na assimétrica pièce de resistance "U Hurt Me". Esquecendo alguma inconsistência do conjunto que é descendência própria da anarquia conceptual do underground, Burial é peça essencial da electrónica menos convencional. Beats programadas, samples e preciosismos técnicos ao serviço do intelecto: as gloriosas máquinas cogitabundas de Burial.

Posto de escutaBoomkat

terça-feira, 25 de julho de 2006

Camera Obscura - Let's Get Out of This Country

Apreciação final: 7/10
Edição: Merge, Junho 2006
Género: Indie Pop
Sítio Oficial: www.camera-obscura.net








Se até aqui os Camera Obscura eram mais reconhecidos entre portas do que no exterior da Escócia, Let's Get Out of This Country é disco para lhes dar o impulso certeiro além-fronteiras. Oriundo da mesma Glasgow que viu nascer os celebérrimos padrinhos Belle & Sebastian, de quem perfilha as praxes musicais, o sexteto sublimou as formas das suas peças, tirou-lhes o desconchavo lamecha de outros momentos e, sem se privar de escrever canções consagradoras dos amores (e desamores) da existência humana, apresenta-nos um registo abarrotado de sentimento. Nesse propósito, além da componente instrumental mais próxima da melancolia country, superiormente expandida pela produção de Jari Haapalainen (o homem dos Concretes faz acento tónico nos arranjos e nos acrescentos de cordas), a voz de Tracyanne Campbell (agora o único serviço vocal do ensemble, desde a partida de John Henderson) faz maravilhas, melíflua, afectuosa e angelical como poucas, a avivar o sentido harmónico do disco. As melodias são, de resto, a trave-mestra do álbum, sempre joviais, e sem pejo de pedir emprestada a verbosidade da pop-soul 70's dos The Mamas and the Papas ou das The Supremes, de lhe somar as fábulas romanescas dos Belle & Sebastian e o cunho pessoal de Campbell, mais desembaraçada e interessada em assinar a definitiva obra de emancipação do grupo.

Como intróito ao tomo, e a servir de primeiro single, a canção "Lloyd, I'm Ready to Be Heartbroken" mostra ao que vêm os Camera Obscura. Para os mais esquecidos, uma sinopse histórica prévia. Em 1984, Lloyd Cole fechava o álbum Rattlesnakes com uma exortação, em jeito de pergunta: "Are you ready to be heartbroken?". Vinte e dois anos depois, Campbell ousa a réplica a Cole e, com isso, sintetiza brilhantemente o fundo emocional de Let's Get Out of This Country. Canções com confissões de coração partido. Feitas com cautela pristina e devoção à sensibilidade, coisas capazes de nos virarem para trás e lembrar lugares e pessoas, puxando à memória as referências mentais de histórias guardadas nos arquivos da vida. E assim perceber, pelas dezena de trechos de Let's Get Out of This Country, que mais relevante do que recolher os cacos do coração quebrado à conta de apetites sentimentais passados, é deixarmo-nos apaixonar pelas confissões solipsistas de Campbell. E pela bela música dos Camera Obscura.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Drums & Tuba - Battles Olé

Apreciação final: 7/10
Edição: Righteous Babe, Setembro 2005
Género: Rock Experimental/Pós-Rock/Fusão
Sítio Oficial: www.drumsandtuba.com








Os trio texano Drums & Tuba é adestrado em malabarismos com a tradição. Talvez por isso, a pronúncia do som de Anthony Nozero (percussão e electrónica), Neal McKeeby (guitarra) e Brian Wolff (sopros) recolha, ao mesmo tempo, mensagens de correntes musicais anacrónicas e uma feição experimental contemporânea. Das observações do passado, sobressaem os costumes do antigo jazz negro de New Orleans, declaração emancipadora dos instrumentos de sopro (especialmente da tuba, aqui em falas graves de baixo) ao serviço de marchas militares, aqui empregues como subsidiários, ao jeito de um subliminal e ébrio espectro de "When the Saints Go Marchin' In". Ao lado dos sopros, erro fantasmático, os Drums & Tuba espargem percussões e tempos africanos, qual rito de paganismo tribal convertido a sessão espírita hodierna, com embalo funk e seguidora dos manuais rock. Distinguem-se vestígios de praxes progressivas que não chegam a tomar o posto de um rock antes feito de preciosismos e de ângulos matemáticos, os serventes últimos de construções desembaraçadas, quase pós-punk, por aceitarem a irreverência formal. A voz pica o ponto pela primeira vez nos costumes no grupo, descaminhando a atenção do ouvinte da excelência instrumental, mas isso nada deduz aos ambientes vulcânicos do disco. Essa tensão arrasante é comum à meia-dúzia de peças de Battles Olé e é ministrada sem prazo, com recurso aos motivos idiossincrásicos da compleição do trio: o groove nervoso da tuba, as acrobacias improváveis da guitarra e a firmeza pulsante da bateria.

Battles Olé é um assalto pouco pacífico aos tímpanos, não pelo estrondo mas pelo gentil constrangimento provocado pela densidade das substâncias. E pela inconstância dos repentes que dão ao disco um sabor de improviso. A mímica contorcionista dos músicos é prova de uma competência técnica acima da média, algo que o trio utiliza para encenar orbes psicadélicas, com o carácter de intrigas escuras e desafios sónicos de coordenadas fora do alcance. Com um pouquinho mais de zelo na melodia, Battles Olé podia ter sido proeza sem par, assim fica-se pela façanha de mostrar a generosa arte dos Drums & Tuba àqueles a quem, não conhecendo o património da banda, apeteça testar alfabetos alternativos de um universo habitado por criaturas - tuba (e parentes), guitarra e bateria - que poucas vezes casam com tanta propriedade.

sábado, 22 de julho de 2006

Islands - Return to the Sea

Apreciação final: 8/10
Edição: Rough Trade, Abril 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.islandsareforever.com








O Canadá não cessa de trazer-nos boas novas. Depois dos Arcade Fire, dos Broken Social Scene, dos Clap Your Hands Say Yeah, dos New Pornographers, dos Wolf Parade, dos The Stills e do projecto Destroyer (Dan Bejar), em estilos distintos, se terem afirmado além-fronteiras nos tempos mais recentes, chegou agora a vez do ensemble Islands tentar, pela mão da Rough Trade, aliciar os mercados exteriores. Com ascendência no extinto e saudoso trio The Unicorns, projecto de onde procedem a guitarra/voz de Nick Diamonds e a bateria de J'aime Tambeur, o recorte da música dos Islands é uma alucinação imposta. Com raízes em estrofes pop efusivas e padrões psicadélicos, cada composição da dupla canadiana é um caleidoscópio quase imaterial, um abismo de vigores confluentes que especulam sobre uma orgânica instrumental com poliglotismo musical. O ambiente denso dos trechos é uma mescla de pop erudita, de country presumido, de electrónica subserviente, até de um miúdo trejeito hip-hop e muitas outras operações que se pressentem, não fazem discurso directo, antes se passeiam nos bastidores, ao jeito de arranjos. São elas: um sensível embalo pastoral, uma ficção honky-tonk, um tropicalismo com saudade, um adágio jazz e tudo o que mais se adivinha nos tecidos de Return to the Sea. Tudo arrumado com uma produção soberba e sem excessos, a facilitar o acesso do ouvinte a música de alcance ilimitado. Uns furos acima do pudor e do ruído dos Unicorns.

Return to the Sea não é disco para canais auditivos preguiçosos que se deleitam com a pop aprumada e recta. Esse não é o tabuleiro de jogo de Diamonds e Tambeur. Eles gostam de jogar inocentemente com as virtudes do som, de o puxar às proporções máximas do coração indie e, com isso, multiplicar melodias pomposas. No limbo entre o génio e néscio, Return to the Sea é uma incitação dúbia ao ouvinte: ou se deixa contagiar pelos dons destas canções e se abeira da genialidade, ou se mete a bordo de uma nau imbecil e descobre que, por detrás de um mágico trecho musical, há um imaginário delirante e absurdas quimeras. Em qualquer dos casos, os Islands estão no seu melhor. Resta-nos deixá-los voltar ao mar. A genialidade já a têm. E que levem consigo a matéria de que se fazem canções pop do melhor que se viu neste ano.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Sunset Rubdown - Shut Up I Am Dreaming

Apreciação final: 8/10
Edição: Absolutely Kosher, Maio 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.absolutelykosher.com








O projecto Sunset Rubdown é um dos filões paralelos do teclista/voz dos canadianos Wolf Parade, Spencer Krug. Além deste side-project, ele também faz uma perninha nos eléctricos Frog Eyes, mas foi ao serviço dos WP que conquistou notoriedade, especialmente depois do distinto debute, com o justamente aclamado Apologies to Queen Mary (2005). Neste Shut Up I Am Dreaming, a afinidade com a pop artística é uma constante, seja pelo empréstimo das bizarrias dos conterrâneos Arcade Fire, seja pelos vectores oníricos das camadas de som e do variado arsenal instrumental que enche os ambientes do disco. Teclas de famílias diversas, xilofones errantes, guitarras e batidas processadas ajudam à formação de fantasias musicais multicor que, piscando o olho ao balanço de canções para adormecer criancinhas, nunca chegam a soar pueris. Vistas bem as coisas, o conceito Sunset Rubdown é rival dos Wolf Parade porque, além de trazer o mesmo líder criativo, ameaça, no mínimo, equiparar-se-lhe nos predicados. Não bastasse isso e, entre os créditos do disco, se descobre o voluntarismo de produtor de um padrinho de luxo. Isaac Brock (Modest Mouse), nada menos. Meta-se tudo no mesmo cântaro, baralhe-se com o cânone vanguardista de Bowie no final da década de 70, algumas insinuações barrocas e andamentos de danças de câmara ébrias, a luz do teatro de sonhos de Krug e arranjos quase-sinfónicos e eis um vislumbre do novo Sunset Rubdown. Meritórios os balões de ar (leia-se, retoques esmerados) que arredam o tomo do risco de se despenhar nos abismos da hipérbole e entregam esta dezena de eufonias à causa própria.

Shut Up I Am Dreaming faz arte da subtileza. Krug é daqueles artesãos que não armam peças vãs; as suas composições reproduzem fielmente um cosmos de sons matizados e cores garridas, o triunfo das doces torções infantis e preciosismos estilísticos de uma fita de Burton. Real vs. imaginário. Nesse universo dual, Krug sobrevive sem a matilha com quem partilhou os palcos da fama no ano transacto, sem contudo se desatar do peripatetismo dos puzzles da parada de lobos. Mas em Shut Up I Am Dreaming os enigmas de Krug são outros. Afinal, depois de tamanha pândega como a que dispunha Apologies to Queen Mary, era de esperar que o rapaz tirasse um tempo para o descanso. Não façamos barulho, deixemos Krug dormir e sonhar. E sondemos, de mansinho, o seu mundo de fantasias. Porque sonhos como Shut Up I Am Dreaming não acontecem todos os dias.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Secret Machines - Ten Silver Drops


Apreciação final: 6/10
Edição: Reprise, Abril 2006
Género: Pop-Rock Alternativo/Space Rock/Progressivo
Sítio Oficial: www.thesecretmachines.com








Caídos no goto de David Bowie, depois dos flirts do britânico com os Yeah Yeah Yeahs, os Arcade Fire ou TV on the Radio, os texanos Secret Machines dão o corpo às balas no segundo longa-duração. Se Now Here is Nowhere, editado há um par de anos, era um tomo de tirocínio experimental, registando a admiração do grupo pelos andamentos e amplitude do rock progressivo, pelo psicadelismo nas formas e pela busca de ambientes sonoros em espiral, o sucessor é brando. Decididamente mais poupado no arrojo e centrado na precisão dos pormenores, Ten Silver Drops retém na mira a produção de atmosferas sonoras ambiciosas e de sopro inebriante - o magnetismo dos fósseis Pink Floyd e do krautrock é uma constante - e junta-lhes especiarias das tendências hodiernas, mormente nas tentativas (nem sempre bem sucedidas) de colecta do entusiasmo Arcade Fire e/ou da exuberância Flaming Lips. Ainda que eloquentemente urdida e sem defeitos técnicos, a pop escura dos Secret Machines, mais do que parecer uma obra terminada, se afigura um esboço da maturação identitária de um colectivo a tentar expurgar o seu som. Redimidos os excessos criativos do primeiro disco, Ten Silver Drops é, no melhor e no pior, mais rigoroso a condensar a pilha de ideias dos Secret Machines num punhado de canções mais terrenas.

A adrenalina do debute foi-se, a massa energética dissipou-se, a repetição tomou-lhes o posto, confundindo os contornos da música dos texanos. Umas vezes a tocar de leve o brilhantismo (como nos esplêndidos trechos "Daddy's in the Doldrums" e "Faded Lines"), outras na raia do enfado, Ten Silver Drops fica aquém de ser o épico-dos-pequeninos que se propunha ser. E os Secret Machines adiam uma consagração proporcional à mestria técnica que possuem. No fundo, o emaranhado de formatos baralhados na concepção do álbum têm o epílogo esperável: não chega ao entendimento do ouvinte se Ten Silver Drops é progressivo, se é kraut, se é psicadélico, se é electro-rock, se é rock de arena. À cata de convocarem tantas doutrinas, estas oito canções acabam por trazer uma pronúncia esquisita, irrepreensível em termos técnicos, é certo, mas com pouco suco. Acima de tudo, Ten Silver Drops é um alento razoável de sobrevivência de um trio de músicos à procura da emancipação, num universo pop lotado e nada amigo de experiências.

terça-feira, 18 de julho de 2006

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Figurines - Skeleton

Apreciação final: 7/10
Edição: Control Group/TCG, Março 2006
Género: Indie Rock/Lo-Fi
Sítio Oficial: www.figurines.dk








Dinamarquês de origem, o quarteto Figurines foi mencionado em alguns artigos de opinião como o equivalente nórdico do trio norte-americano Modest Mouse. Se as parecenças são claras de mais para seguirem sem ser notadas, há no som destes escandinavos algo mais do que mera mímica. A voz nervosa e nasalada de Christian Hjelm empoleira-se em canções vigorosas, com traços de produção lo-fi e encadeamentos de guitarra, algo que já tinha sido tentado no muito razoável registo de estreia, Shake a Mountain (2003). Aí, as valências desta trupe escandinava apontavam a um tom pop de bons princípios (uns pozinhos Sonic Youth...) e refrões amistosos mas algo difuso. Tal vício é menos evidente em Skeleton, as canções são objectivas e condensam com jeito as regras prolixas do debute. Com isso, a vocação contagiante dos trechos sai reforçada, sem redundar e, mais do que isso, sem descambar para a comodidade da linguagem mainstream. Popular, não tem que ser popularucho. O parâmetro base é, portanto, a busca de melodias e hooks aliciantes, como é da praxe de qualquer banda indie-rock que se preze. Nesse particular, Skeleton desvia-se da superficialidade, surpreende mais do que era previsto, é harmonicamente convincente e recreativo. Mesmo assinando um discurso de inferior originalidade, os Figurines imprimem animação às canções, exectuando lances de esplêndido recorte e postura arrebitada.

Skeleton é sinónimo de um disco indie-rock by the book. Não sendo um registo formulista - a multiplicação de conceitos não o permite - são acatados cânones forçosos neste género: riffs de guitarra melodiosos, estruturas precisas, protagonismo vocal, amplitude teatral, tempos volúveis e refrões autocolantes no ouvido. Sinais de um colectivo com espírito agudo e faculdades suficientes para atrair sobre si o aplauso da comunidade melómana, se não pela singularidade do som, ao menos pela incontestável capacidade para fazer de cada trecho musical uma circunstância próspera. O príncipe Hamlet face às revelações do tétrico fantasma do defunto pai, num texto shakespeariano, proferiu a célebre citação: "Há algo de podre no Reino da Dinamarca". Com o advento dos Figurines, talvez as coisas fiquem um pedacinho melhores para o indie-rock na terra natal e, por justa extensão, à escala do globo terrestre.

sábado, 15 de julho de 2006

Asobi Seksu - Citrus

Apreciação final: 7/10
Edição: Friendly Fire, Maio 2006
Género: Shoegaze/Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.asobiseksu.com








Os ventos nova-iorquinos não deixaram morrer o shoegaze. Toneladas de efeitos na guitarra, a voz afundada em texturas musicais de volume bem alto e carradas de feedback, reverb e outras adulterações de estúdio, assim se faz o género, assim o começaram a desenhar os irlandeses My Blood Valentine, referência incontornável da família, mormente na segunda metade da década de 80. Com eles, o noise tornou-se filho adoptivo de uma pop pouco formatada e exuberante, de várias dimensões e atmosferas. Os Asobi Seksu (ao que parece o título é japonês para sexo entretido...), no segundo longa-duração, resgatam o imaginário do shoegaze, como se ele ainda fosse moda. E com boas canções, que importa se estas ideias estão em desuso? Yuki Chikudate é a nipónica que lidera o quarteto nova-iorquino e é senhora de uma carismática voz de medidas tonais largas, ora em inglês ora em japonês; James Hanna é o homem do leme instrumental, o sublime encantador de serpentes, o fazedor de harmonias e muros de som lavrados por guitarras em hipérbole, densas, vibrantes e astrais; o baixo de Haji é metrónomo e a percussão de Mitch Spivak ajuda ao remoinho sónico do álbum. Como na capa de Citrus, também a música dos Asobi Seksu enreda Yuki num turbilhão melódico, a voz distante presa numa teia de rebuliços eléctricos, de ênfase instrumental e muita substância.

Resumir o modus operandi dos Asobi Seksu às parábolas do shoegaze não lhes faz justiça. As alusões a outras bandas (os My Bloody Valentine e Lush no topo) vagueam por Citrus é certo, mas nada soa datado ou plagiado, graças ao recurso inteligente a uma paleta de truques genuínos, à dinâmica alternante das composições e a um pragmatismo sofisticado na hora de polir o som. Citrus é pop-rock anti-gravidade e para sonhar. Não fosse um ou outro lance menos inspirado e o novo dos Asobi Seksu tomaria um lugar no panteão do shoegaze. Ainda assim, trechos magníficos como "New Years", "Thursday", "Strings" e "Red Sea" confirmam que esse movimento merece uma segunda vaga. E que os Asobi Seksu vão na crista da onda.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Regina Spektor - Begin to Hope

Apreciação final: 7/10
Edição: Sire, Junho 2006
Género: Cantautora/Folk-Pop/Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.reginaspektor.com








A moscovita Regina Spektor é americana adoptiva. Com a tenra idade de nove anos, na ressaca das reformas da Perestroika, mudou-se com a família para o Bronx, famoso subúrbio de Nova Iorque que lhe aviou porções massivas da cultura underground americana. Daí ao traço tradicional da música de Joni Mitchell, de Patti Smith, de Tori Amos ou Billie Holliday, uma minúscula distância. Tão ilustres influências são notórias em Begin to Hope, terceiro longa-duração de Spektor, sem embargo de uma produção mais requintada e arranjos minuciosos, ora recorrendo a instrumentos reais, ora aceitando a interferência das máquinas. O som é mais denso, sem ser pesado de mais para os ouvidos, e a voz (sem impurezas) encontra outras coordenadas de confiança. O piano é o servente primaz, elemento crucial da formação musical da cantautora e promotor fundamental do corpo harmónico do disco. Nas rendilhas do piano pousam os demais orgãos sónicos das paródias musicadas de Spektor. Em paradoxo, ela é uma estroina responsável, usa a seu bel-prazer os cânones da folk, subverte-os ao ponto de lhes expôr o avesso e as costuras, torce-os e desvia-os do centro para, de chofre, arrumar a burlesca zomba, qual conjunto de peças de lego, numa canção inteira. As truanices (aqui, mais sóbrias) de Spektor são coisa séria; o que parece uma recreação leviana é, afinal, um exercício da mais inocente irreverência musical, uma farsa no palco decadente da humanidade.

Título de estreia de Spektor numa major, Begin to Hope é comedido na extravagância (examinado em paralelo com os antecessores) e, em consequência, ministra trechos musicais de digestão mais ligeira. Nem por isso se deforma o experimentalismo, propriamente tonificado num registo vocal que, sem ecoar com originalidade, materializa a pulsação das composições e oscila, com semelhante primor, entre a doçura confessional e a tirada jocosa. Audíveis sem recurso a manual de instruções, as peças de Spektor são tão cerebrais e criativas quanto chistosas e cómicas. Como se Pasternak re-escrevesse a história do poeta Yuri Zhivago num cabaret do Bronx. Ou se Regina Spektor, sentada defronte de um Steinway & Sons desonrado com tags a graffiti, e com o ar tomado pelo fumo de um Marlboro, ensaiasse uma kalinka tradicional. E Tori Amos a sorrir. Begin to Hope é tudo isso.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

TV on the Radio - Return to Cookie Mountain

Apreciação final: 8/10
Edição: 4AD, Julho 2006
Género: Pop-Rock Experimental/Pós-Rock
Sítio Oficial: www.tvontheradio.com








Depois do prolixo (e consequentemente difuso...) Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004), aguardava-se com alguma expectativa o novo capítulo dos americanos TV on the Radio. O álbum de debute firmou os predicados imprevistos do colectivo de Brooklyn, aventando uma estética plena de urbanidade e eclectismo, na linha das tendências mais recentes da música independente, mas a que faltava arrumação e enlace. Desta vez, ao invés de expelirem as (boas) ideias sem controlo, os rapazes depuraram a sua identidade musical e, não hipotecando o encanto experimental e a ambição do som, condensam princípios e pulem melodias. Comparando com o antecessor, Return to Cookie Mountain é mais lacónico, também mais preciso, e isso, no caso destes talentosos artífices, é uma mais-valia porque encaminha a excentricidade (e os desvios) de cada composição para planos mais concretos. O abstraccionismo instrumental - o garante da diversidade do disco - não sai aviltado da proximidade estrutural com a pop, antes reforça o sopro psicadélico dos trechos musicais. Ter sumo pop não é sinónimo de leveza, as composições são espessas e carregadas de alma, com vocalizações afectadas de tribalismo, umas vezes, e de trejeito alucinados à Bowie (além de fã dos nova-iorquinos, até é convidado de honra na faixa "Province") ou Beach Boys, outras vezes, e um corpo musical que funde astutamente a cultura negra, o improviso, a folk, a pop veraneante e os dribles electrónicos.

Mais do que ser o prolongamento lógico de Desperate Youth, Blood Thirsty Babes, o novo álbum é a evolução natural dos TV on the Radio. Superado o custoso exame do sempre difícil segundo disco, aguardam-se outras etapas de um dos mais excitantes ensembles da indie actual. Sejam eles capazes de rebuscar as máximas do seu som, como tão bem ensaiaram neste Return to Cookie Mountain, e reserva-lhes o futuro algo de prodigioso. Enquanto não chega essa obra magna, cabe-nos desvelar pacientemente a atmosfera espiritual única desta colecção de canções. E, com isso, perceber que música genuína como esta impressiona, não por se vender a rótulos, nem por se fechar em estilos, mas por aglutinar a percepção artística com os vários semblantes da incongruência humana.

domingo, 9 de julho de 2006

Cult of Luna - Somewhere Along the Highway

Apreciação final: 8/10
Edição: Earache Records, Junho 2006
Género: Metal Alternativo/Gótico/Pós-Rock
Sítio Oficial: www.cultofluna.com








Oriundos de um dos mais fecundos feudos do metal europeu, os suecos Cult of Luna são exploradores. A vasculhar as entranhas das sonoridades de feição gótica há cerca de oito anos, o pico do percurso destes nórdicos foi atingido com o áspero Salvation, editado há um par de anos. Experimental e progressivo, o disco ajudou a anichar os nórdicos na mesma família musical dos americanos Neurosis ou Isis, puxando-os para a dianteira do movimento doom. É nessa onda de afirmação que surge o quarto longa-duração, um álbum que, perseguindo o espectro costumeiro do colectivo sueco, apresenta credenciais de uma identidade reformada. Não é que o ensemble liderado por Klas Rydberg tenha relegado os vectores básicos da sua sonoridade, ao invés as descargas de intenso vigor manifestam agora uma aproximação aos entrechos harmónicos do pós-rock. As melodias seguem gradações não muito rígidas, apurando o recorte instrumental e o estímulo sensorial das peças, mais celestiais e menos matemáticas do que no antecessor. Somewhere Along the Highway é, em consequência, cicerone de paisagens sonoras menos fulminantes mas de contornos soturnos e que, se não agitam com a electricidade de Salvation, induzem hipnoses artificiais que fazem render-se o mais empedernido dos ouvintes à sensibilidade corrosiva das composições. Mais do que um ácido tardo, a última viagem dos Cult of Luna é pendular, feita de emoções sujas que derivam indefinidas num além escuro e sopram apaixonadas interrogações em surdina.

Somewhere Along the Highway é um registo pós-apocalíptico de força e coração que confirma a evolução dos Cult of Luna, justapondo quimeras meditativas e obscuras camadas do mais refinado metal. Mais do que isso, o último trabalho do septeto escandinavo é a sublimação do seu monstro sónico, demarcando-se decisivamente da esfera de influências e dispondo a plenitude da expressão dos Cult of Luna. Densidade nos detalhes, arritmias no pulso, técnica instrumental e sensações envolventes são predicados ímpares do metal atmosférico de Somewhere Along the Highway, o tomo de viragem dos suecos rumo ao vago éden do dia depois de amanhã. Nesse jardim proibido, a fúria retém-se, a noite rouba a luz ao dia e a desesperança do isolamento converte-se num abismo sónico. Como numa plácida e inquietante escultura de sons.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Peeping Tom - Peeping Tom

Apreciação final: 6/10
Edição: Ipecac/Sabotage, Maio 2006
Género: Pop Experimental/Trip-Hop/Rock
Sítio Oficial: www.ipecac.com








Há já algum tempo que o mundo melómano aguardava o anunciado projecto pop de Mike Patton. Com o lançamento retardado pelo envolvimento do músico em diversos projectos paralelos (Tomahawk e Fantômas, entre outros) e pelas dissenções com as grandes editoras, apenas agora chega aos escaparates o seu mais acessível trabalho desde os tempos dos Faith No More. A vizinhança de Peeping Tom às proporções da antiga banda de Patton é coisa intuída, sentia-se por antecipação antes de escutar o disco. Ao ouvi-lo, percebem-se essas e outras passadas. Mais do que se fechar numa redoma de facilitismo pop, Patton repesca o vulto rock dos Faith No More, variável que não se despega das composições, ainda que apenas se assome como uma sugestão da dialéctica do compositor. Traços indeléveis da cartilha rock de Patton: a dinâmica alternante das peças, a ensaiar o revezamento baixo/alto que tão bem se orquestrava nos Faith No More, as vocalizações delirantes (plagiadas por muito boa gente que por aí anda...), os refrões de veemência agreste. Depois, além de seguir o manual de instruções rock, o disco tem balanço trip-hop e alma de gueto. Se isto é pop, não é pop de rádio. Patton e convenções não rimam.

Com um extenso rol de interferências que inclui Dan the Automator e Kid Koala (parceiros de Patton no conceito Lovage), Rahzel (dos The Roots), os compinchas Anticon (Jel, Doseone e Odd Nosdam), os Massive Attack, o mago electro Amon Tobin e as menos prováveis Bebel Gilberto e Norah Jones, cada um creditado com um espaço próprio no disco, esperava-se um corpo musical menos previsível. A granel, Patton embrulha as faixas num híbrido trip-hop/rap/rock que não faz jus ao eclectismo das ajudas. A despeito de alguns instantes plenos de charme, Peeping Tom fica-se pelas promessas interrompidas sem conclusão. Faltam os pontos finais ao underground pop de Patton. Omissão natural num projecto musical que rouba o nome a um filme apologista do voyeurismo? Afinal, um voyeur genuíno é criatura bizarra que nem sequer tem namorada...

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Six Organs of Admittance - The Sun Awakens

Apreciação final: 7/10
Edição: Drag City/AnAnAnA, Junho 2006
Género: Pós-Rock/Folk Experimental
Sítio Oficial: www.sixorgansofadmittance.com








O vínculo de Ben Chasny aos Comets On Fire, projecto paralelo que faz parte dos seus empregos regulares, nunca chegou a imiscuir-se tanto no trabalho a solo do músico como neste The Sun Awakens. Ao conceito folk minimalista que tem sido doutrina de Chasny, normalmente assente no casamento dialogante entre uma guitarra solitária e uma voz subliminal, somam-se neste trabalho dimensões psíquicas do som, à procura do embrulho psicadélico para a pertinência dos elementos acústicos. O som é, por isso, mais vago e ondulante e orienta-se intencionalmente para paisagens sonoras ambíguas, ora em quietude desarmante, ora em insubmissa subversão. Depois, há a voz fantasma. Cativante, apurada e com corpo, o registo vocal, ainda que raro, é uma premissa lógica. Se nos anteriores álbuns do conceito Six Organs of Admittance, as vocalizações eram metade (evidente ou presumida) das harmonias, neste, embora não usufruam de mais espaço, são um veículo para a força espiritual do disco, impondo-se em cores mutantes com a dinâmica de um caleidoscópio. Pontos nos i's. Viscerais como nunca. A aura de The Sun Awakens é escura, é latejante e roça uma inquietação não adivinhada antes nos Six Organs of Admittance. Ao oitavo disco, Chasny confronta os seus demónios?

Estrato sobre estrato, a produção de Tim Green é soberba, reinventando as medidas da folk perturbada de Chasny, rumo a um som sem escola, discurso dominante da nova América esquisita. A folk do tio Sam não é já a mesma, paz à alma dos gloriosos trovadores de banjo e guitarra. Hoje, o púlpito é dos freaks. Gente com cabeça lotada de ideias e talento para lhes dar corpo musical. Sem temor do laboratório. Como na transcendente mantra de 24 minutos que encerra o disco ("River of Transfiguration"). Retiro escapista de Chasny ou (de)composição instrumental urdida com ímans espirituais, a peça é um raro instante zen, a redenção esotérica de Chasny. O busílis: não dá para camuflar a clivagem sonora entre a espiral mística desta faixa e o conformismo das restantes com o costumeiro manual de Chasny, ligado, aqui e ali, à voltagem das tomadas. Dois mundos. Um negro e espiritual, o outro, a casa do costume, apenas mais eléctrica. Em qualquer dos casos, como nas palavras de Octavio Paz que baptizam o disco, o sol desperta. Só mudam as cores da aurora.