quinta-feira, 29 de junho de 2006

Thom Yorke - The Eraser

Apreciação final: 8/10
Edição: XL Recordings, Julho 2006
Género: Electrónica/Downtempo/Lo Fi
Sítio Oficial: www.theeraser.net








Ninguém duvida da boa forma de Thom Yorke. Líder de um dos projectos mais emblemáticos da música alternativa britânica, Yorke foi co-responsável por algumas das obras fundamentais do mundo indie (Ok Computer (1997) à cabeça), na orla das famílias musicais mainstream e, acima disso, cultivando um género privativo, orgulhoso de se alhear de modas. A tonalidade dos trechos sonoros dos Radiohead sempre se demarcou de tendências e, ao invés, perfilhou instintos reformadores da pop tradicional. Pelo prazer da boa música. Como hedonista musical impulsivo, não surpreende que Thom Yorke tenha querido experimentar outros prazeres. Em The Eraser, primeiro exercício solitário do seu percurso, a volúpia chega-lhe em formas imprevistas, no pulsar químico da electrónica e das programações. Imaginá-lo de mãos no laptop à procura da beat que melhor pactua com o registo volante e frágil da voz, não seria provável com os Radiohead. The Eraser é feito de texturas maquinais, fraseados que se repetem sem fecho. As costuras são vocais, é aí que se acham os remates para os desvarios electrónicos. Dir-se-ia que Yorke se deixou levar por alucinações digitais, primeiro compondo as peças sintéticas, depois lhes somando a voz, qual elemento central (e natural), ao jeito de um epílogo que confere o sentido final e a complexidade melódica às peças.

Será The Eraser um exercío de catarse escapista? Um laboratório do porvir dos Radiohead? Ruptura não é, certamente. A produção minuciosa é de Nigel Godrich, habitué nas edições dos Radiohead, e embora o álbum siga por trilhos distintos, a sua propensão imaterial e embalo hipnotizador traçam paralelismos com o espectro sonoro dos Radiohead, coisa menos óbvia nas primeiras audições. The Eraser é um disco que cresce a cada escuta, oferecendo-nos um testemunho em transe de que o aceno da electrónica revigorou a criatividade e deu novas medidas às cordas vocais de Yorke. Negro, melancólico e experimental, The Eraser pode ser o primeiro dia do resto da vida de Yorke. Ou dos Radiohead na primeira pessoa. Em qualquer dos casos, resta ouvir, nos timbres deste disco, a mais apurada expressão de um clone digital de Thom Yorke, um dos mais hábeis músicos da sua geração. Ou isso ou, ironia maior, uma espreitadela à antecâmara da próxima mutação dos Radiohead. Aceitam-se apostas.

Actualização da Grafonola

Algumas dificuldades de ordem técnica impediram a actualização habitual da Grafonola dos Alvitres. Certamente, os utilizadores dessa secção do apARTES terão notado a falta de novidades. Pois bem, uma vez ultrapassados os problemas, sem nenhuma ordem especial, aqui fica a lista das faixas acrescentadas à playlist (retiradas dos últimos discos que passaram por aqui) e que podem já ser escutadas na íntegra.

Dead Combo "After Peace"
Dead Combo "O Menino, o Vento, o Mar"
Beirut "Prenzlauerberg"
Beirut "Mount Wroclai (Idle Days)"
Beirut "Postcards from Italy"
Matmos "Tract for Valerie Solanas"
Final Fantasy "Many Lives -> 49 MP"
No-Neck Blues Band & Embryo "Die Farbe Aus Dem All"
Tool "Vicarious"
Tool "The Pot"
Dirty Pretty Things "The Enemy"
Dirty Pretty Things "Bang Bang You're Dead"
Ghostface Killah "Shakey Dog"
Ghostface Killah "The Champ"
Herbert "Something is Not Right"
Herbert "The Movers and the Shakers"
Sonic Youth "Incinerate"
Sonic Youth "Do You Believe in Rapture?"
Sonic Youth "Jams Run Free"
Mission of Burma "Donna Summeria"
Mission of Burma "Birthday"
Danielson "Did I Step On Your Trumpet?"
Danielson "Ship the Majestic Suffix"
Danielson "Cast it at the Setting Sail"
Le Tigre "Deceptacon (The DFA remix)"
Charalambides "There is no End"
Zero 7 "This Fine Social Scene"
Zero 7 "Futures"
Zero 7 "Pageant of the Bizarre"
X-Wife "Panic"
X-Wife "Ping-Pong"
X-Wife "When the Lights Turn Off"
Wooden Wand & The Vanishing Voice "Don't Love the Liar"
Wooden Wand & The Vanishing Voice "Sun Sets on Clarion"

terça-feira, 27 de junho de 2006

Wooden Wand & The Vanishing Voice - Gypsy Freedom

Apreciação final: 7/10
Edição: 5 Rue Christine, Fevereiro 2006
Género: Folk Experimental/Psicadélico/Minimalista
Sítio Oficial: www.woodenwand.net








James Toth não é um músico comum. Uma das predilecções mais extremosas do seu percurso musical é a heterodoxia, a afeição pelo desalinho e pela fragmentação do som, ao jeito de um aventureiro tímido que, incapaz de se exprimir nas línguas proverbiais, encontra na música um código de alívio. Necessariamente defeituosas na sua intimidade, as composições de Toth atingem ápices no desarrumo, no jejum de regras e na alma improvisadora. Este Gypsy Freedom é povoado por ousadias subtis, seja na libertinagem com que se misturam os ingredientes, muitas vezes em dissonância psicadélica, seja na raridade rítmica, a adornar os trechos experimentais com migalhas orientais. De vectores multi-dimensionais, os generosos ambientes sónicos do disco revelam um certo misticismo que, se não inquieta o auditor, pelo menos o espanta. Vanguardismo em estado puro. À cata de mundos novos. Não fosse a mente de Toth (e do quinteto de companheiros de caravana, os Vanishing Voice) fonte suficientemente fecunda de excentricidade, ainda se lhe juntam o saxofone franqueado de Daniel Carter, improvisador de excelência, e a bateria fogosa de Peter Nolan, músico regular dos Magik Markers.

Gypsy Freedom é uma figura dúctil, atulhada com psicadelismo do melhor calibre e uma porção imensa de contrastes. Ao bom hábito de uma prolífica jam session, servida como prato principal, se somam encarnações mutantes de várias longitudes musicais, de noise agudo quase omitido, de retalhos drone mal disfarçados, de free-jazz assertivo, de minimalismo orgânico, de malhas harmónicas simples, de sampling lacónico, de guitarras nota a nota em meditação, de momices tribalistas, de progressões em assombro melancólico e de uma crença ímpar na imaginação absoluta. Assinatura riscada à Toth. Música para provar e cogitar. A preto. Não chegará para musicar a dança com demónios que Heidi Diehl declama, convincente como numa reza, em "Genesis Joplin". Mas, avivando os nervos mortos do espírito, talvez nos poise num qualquer purgatório do nosso subconsciente.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

X-Wife - Side Effects

Apreciação final: 7/10
Edição: NorteSul, Abril 2006
Género: Pós-Punk/Electro-Rock
Sítio Oficial: www.x-wiferocks.com








Os portuenses X-Wife estão mais carnais. A reforma do som passou por trocar a caixa de ritmos por uma bateria, meter os sintetizadores debaixo do braço, reduzindo-lhes a interferência nas sessões de gravação e buscar um formato menos colado à estética mais crua do electro-rock. Se a moda das texturas sintéticas influenciou decisivamente o álbum de estreia, puxando a sonoridade do grupo para a onda de projectos internacionais emergentes como os Radio 4 ou os The Rapture, o segundo tomo do percurso dos X-Wife tenta demarcar-se desse rótulo. Mas essa separação não é conceptual. Ao invés disso, os portuenses evocam a mesma colectânea de ideias e abordam-na com maturidade e um fôlego de segurança não sentido no debute. Até a voz de João Vieira parece mais firme e sóbria, sem os malabarismos em falsete expostos no primeiro disco. O ganho é notório: a amplitude do som é mais autêntica, as composições recebem uma dimensão mais universal, bem próxima das traves-mestras underground que marcam o legado modernizado do movimento electro-punk.

O estatuto consolidado nos dois anos seguintes à edição de Feeding the Machine (2004) massajou o ego dos X-Wife e deu-lhes a confiança para purificarem as suas fórmulas e moldá-las, com eficiência, a um modelo de canção mais conciso e, por isso, melhor catalisador da abundância energética do grupo. Depois, sem abdicarem da veia electrónica que faz a sua virtude destrinçadora, João Vieira e seus pares contratam serviços adicionais da guitarra, como que apelando a um substrato mais rock sem hipotecar os símbolos dançáveis. A produção é requintada e arruma a identidade do grupo nas medidas certas, sublinhando o crescimento de um trio de músicos (a que se juntou o baterista André Hollanda, ex-Zen) mais cientes da sua identidade. E ela é, como atesta Side Effects, um trilho do melhor rock que se faz cá no burgo. Com menos electrónica e mais guitarra.

domingo, 25 de junho de 2006

Zero 7 - The Garden

Apreciação final: 7/10
Edição: Atlantic, Maio 2006
Género: Trip-Hop/Electrónica/Downbeat
Sítio Oficial: www.zero7.co.uk








Depois do anestesiante disco de estreia (Simple Things, de 2001), a dupla inglesa (Sam Hardaker e Henry Binns) ganhou o apreço da crítica especializada, atraindo para si uma posição de relevo no seio do universo da electrónica trip-hop. A hábil conjugação de um fino recorte soul com rendilhas tecidas a teclas e alguns apontamentos orquestrais de cordas definiu o protótipo de uma atmosfera sonora simples e de vibração relaxante. As inevitáveis (e gastas) comparações com os franceses Air têm reflexo na música dos Zero 7, mormente na extensão ambiental das composições, sempre certeiras a sintonizar a frequência ajustada para um determinado remate. Essa prova de precisão volta a aliar-se ao garbo no mais recente trabalho, o coeso The Garden. Dando seguimento ao predecessor (e menos inspirado) When it Falls (2004), no intento averiguador das equações pop, este álbum readquire os melhores pactos de Simple Things, embora os governe em arranjos distintos, mais próximos de algumas vagas da melancolia folk de finais da década de 60. A esse propósito, não é alheia a interferência dos traçados sem pregas do sueco José González, reconhecido artesão de folk minimalista a dois tons (voz e guitarra). A par da ajuda de González, as vocalizações macias da australiana Sia Furler - colaboradora usual dos Zero 7 - são o resto útil da orgânica de uma dúzia de canções bem estruturadas, ao jeito de éclogas da mais delicada electrónica.

A Binns e Hardaker interessa certamente desviar um pouco a música dos Zero 7 da práxis de Simple Things. Se o primeiro disco é o mais apurado depósito de aptidões da dupla e, por isso, os músicos lhe devem fidelidade nos princípios, convir-lhes-à iludir o marasmo criativo da repetição. Nota-se em The Garden que Binns e Hardaker estão num momento crítico de titubeação: ou fixam ideias na cópia dos conceitos de Simple Things, arriscando a estagnação criativa, ou tentam outras coordenadas, expondo-se às contingências da mudança de rumo. No melhor e no pior, The Garden é mais continuativo do que alterador, não faz adições substanciais ao espectro sonoro dos Zero 7. Ainda assim, o disco assinala o momento mais inteiro dos músicos desde o debute e tem o préstimo maior de guiar a memória auditiva para o imaginário de Simple Things. Só por isso, já valeria a pena escutar com toda a atenção o último trabalho de uma dupla que, mesmo sem inovar o carácter essencial da sua música, não põe pé em chão estéril.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Charalambides - A Vintage Burden

Apreciação final: 7/10
Edição: Kranky Records, Maio 2006
Género: Pop-Rock Alternativo/Minimalista
Sítio Oficial: www.kranky.net








Há qualquer coisa de desarranjado no último som dos texanos Charalambides. Nada de opulência ruidosa, nada de malabarismos melódicos ou dissonâncias pouco digestivas. Além da parcimónia instrumental que se alastra a todos os cunhais do alinhamento do novo disco, a música ergue-se frágil e amplamente espiritual, não fosse esse o dogma do casal Carter. A Vintage Burden é um depoimento despojado, um registo contemplativo de meditações, ao jeito de uma enternecedora e demorada canção de embalar. A voz sedosa de Christina Carter enche os espaços minimalistas desenhados nas rendas de guitarra do seu marido, Tom. Os tempos são propositadamente arrastados, repetem-se sem oscilações de curso e insinuam, à boa moda do psicadelismo casto, o talhe assombrado das composições. Sem tocar extremos, o mavioso balanço do disco reporta a um deslumbrante bailado de fantasmas, num éden imaterial e obscuro. Assim impalpável é também a música de A Vintage Burden, como se fora obra de magos ancestrais a experimentarem música do firmamento. Quase intangível.

Raras vezes os Charalambides fizeram finca-pé da melodia como neste A Vintage Burden. Esse é o sopro de sobrevivência destas composições. Mais próximos dos paradigmas do que noutros trabalhos, os texanos ousaram impôr-se um conceito minimalista de canção; com isso, abreviaram a miríade de símbolos do espectro sonoro habitual à sua mínima expressão e intimidade, sem lhes encurtar a nobreza, provando que, por vezes, a melhor ciência é aquela que resume as coisas à mais imaculada essência. E A Vintage Burden é a quididade dos Charalambides, o esconderijo de intimidade da sua música, o abismo lúgubre de inquietação de onde tudo descende, o palco de sonhos lânguidos e sem corpo. A arrepiante e bela "Spring" ou o longo instrumental "Black Bed Blues" fazem os cúmulos de uma meia-dúzia de peças do mais apaixonado e nocturno que os Charalambides escreveram e corroboram uma certeza: eles têm lugar no nicho mais talentoso da música independente americana. E que a psique humana se serve melhor na discreta emoção de uma canção despojada.

domingo, 18 de junho de 2006

The DFA - The Remixes: Chapter One

Apreciação final: 7/10
Edição: DFA/Astralwerks, Abril 2006
Género: Remixes/Dança
Sítio Oficial: www.astralwerks.com








A ideia é reunir numa edição única algumas das melhores remisturas da dupla James Murphy e Tim Goldsworthy. Sob o epíteto conjunto The DFA, o par de produtores tem vindo a formar, nos cinco anos de actividade já contados, uma sólida reputação na música de dança menos espessa, seja à conta de edições notadas pela etiqueta própria (à cabeça, os LCD Soundsystem), seja pela forma como abordam os remixes, com uma ética desconstrutiva e detalhista, marcando distâncias do original suficientemente vincadas para que as remisturas pareçam originais. Isso é particularmente notório nesta compilação, com um alinhamento que se resume a nove faixas de autores distintos (com os nada despiciendos nomes dos Le Tigre, Blues Explosion, The Chemical Brothers, Soulwax, Radio 4, Fischerspooner, Gorillaz, Metro Area e Hot Chip) e que, afinal, parecem todas o produto de uma mesma mente. Neste caso, apesar de serem duas as cabeças pensantes, a coesão do registo é intuitiva e, com o traço nada casual dos autores, desfilam composições remexidas que, mais do que honrar as origens, se acondicionam num padrão electrónico erudito. Profundos conhecedores dos passos mais recentes da música electro, os DFA, mesmo fintando alguns dos instantes mais proverbiais dos originais, concebem um disco atractivo, com sabores disco e funk.

A The Remixes: Chapter One pode apenas apontar-se, em brandíssimo desfavor, um certo formulismo, no sentido de que as propostas são alinhadas por um diapasão comum, ganhando em conformidade o que perdem em risco. Com isso, o disco faz-se homogéneo, é certo, mas também menos arrojado. Contudo, abreviar a compilação por esse prisma seria não lhe fazer justiça, dado que esse pecadilho não minora os dotes de uma colecção de remixes muito bem maquinada que, se a mais não servir, vem confirmar o engenho dos The DFA. E The Remixes: Chapter One consegue ainda outro propósito, geralmente não atingível por estas edições de remisturas: é um ajuntamento de remixes que, além de cativar os adeptos dos trabalhos manuais na mesa de misturas, seduzirá aqueles que não morrem de amores pelo género. Vai uma aposta?

sábado, 17 de junho de 2006

Sonic Youth - Rather Ripped

Apreciação final: 8/10
Edição: Geffen/Universal, Junho 2006
Género: Rock Alternativo/Experimental
Sítio Oficial: www.sonicyouth.com








Convencionais é coisa que os nova-iorquinos Sonic Youth nunca foram. Mais de duas décadas de um percurso pautado pela coerência e atracção pelas margens dos géneros musicais, fizeram deles um dos estandartes mais óbvios da cultura indie, mormente na afirmação de uma estética sem grande respeito pelas tradições rock' n' roll, assumidamente vanguardista e experimental e de formas livres. Houve mesmo quem os considerasse, no auge da fase mais inspirada (década de 80), o braço futurista dos míticos Velvet Underground. Ainda que eles nem sempre se tenham mantido fiéis a esse legado, as analogias são pacíficas, seja na inclinação cerebral da música, seja na complexidade catártica que depositam na estrutura das composições. Pois bem, depois de um par de insígnes edições em que o experimentalismo era a faculdade maior, a banda de Thurston Moore regressa com um registo de intensidade refreada. Sem o contributo que o seminal Jim O'Rourke deu à banda nesses últimos tomos, os Sonic Youth desobrigaram-se, neste disco, de alguns traços de personalidade: a desconstrução e a acidez não domesticável do grupo foram, aqui, trocados por canções que, mantendo o recorte emblemático dos nova-iorquinos (a voz infalível de Kim Gordon e as alternâncias repentistas das guitarras de Moore e Ranaldo) assinam um critério alternativo. Não é que eles tenham posto de parte as vertigens eléctricas ou as desarmonias intencionais de outros discos, mas aqui o foco é a canção e o processo de feitura de cada peça.

Urdida com a segurança de quem conhece de cor o ofício de fazer nascer uma peça musical a partir de uma melodia mínima, construindo sobre ela uma malha sólida de sons, a dúzia de canções de Rather Ripped é fatalmente sedutora. Nostálgicas ou não, as faixas do disco sucedem-se sem dúvidas rítmicas, sem pejo de simular os manuais pop e, acima disso, sem perder a fidelidade ao dialecto musical que os Sonic Youth fizeram linguagem-mor. Nesse sentido, Rather Ripped é um restauro das abstracções inteligentes do grupo, talvez menos cerebral do que outros exercícios, mas não menos fértil em boas sensações e pujança. E delicada honestidade. De tal jeito que, em pezinhos-de-lã e de uma assentada, a banda perscruta o romantismo do rock e da guitarra eléctrica, retoma o passo tradicional do quarteto primitivo e compõe um dos melhores discos da sua carreira.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Memórias do cinema

Helena Bonham Carter e Edward Norton em Fight Club (Clube de Combate, 1999)

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Danielson - Ships

Apreciação final: 8/10
Edição: Secretly Canadian, Maio 2006
Género: Folk-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.danielson.info








Daniel Smith pode parecer um desconhecido mas já há cerca de uma década que é o mentor de uma das mais interessantes empreitas da música alternativa americana e é muito justamente considerado um dos precursores de uma corrente musical que, nos tempos mais recentes, atingiu o topo da notoriedade com Sufjan Stevens ou os Deerhoof. Compositor prolífico, Smith tem mantido um fluxo de actividade assinalável, seja nos Danielson Famile, ensemble que divide com a família, a solo, ou na encarnação rock a que chamou Danielsonship Orchestra. Pois bem, corridos estes dez anos, a mais recente aventura do franchise Danielson é um evento singular. Mais actual do que nunca, Ships traz aquele tipo de folk-rock subversiva e insensata que a comunidade indie reclama. O tempo deu razão a Daniel Smith. Illinoise (de Sufjan Stevens) estourou no ano transacto e Ships tem tudo para lhe seguir a peugada. Melodias muito bem construídas, riqueza instrumental sem perder a sobriedade, arranjos afinados, uma voz voluntária (em falsete tocante), a dose certa de excentricidade, o balanço justo entre a harmonia e o desconcerto são as substâncias. A ajudar à festa uma verdadeira tribo (cerca de uma vintena de músicos) de talento: o próprio Sufjan Stevens, Greg Saunier, Satomi Matsuzaki e John Dieterich (todos dos Deerhoof), Ted Velykis (Ladytron), Josiah Wolf e Yoni Wolf (dos Why?), alguns membros dos Serena Maneesh, entre outros.

Ships vem engrossar o rol de discos indispensáveis da moderna música alternativa americana. Mais do que uma mera reunião de mentes competentes, o disco é a ablução dos atributos da música de Smith, livrando-a das minúsculas impurezas de outros trabalhos e, mais do que isso, fomentando a convergência das ideias mirabolantes do músico em prol de um objectivo maior. O espalhafato reduz-se assim a um caos saudável, organizado até onde o pode ser sem deixar de ser caos. O resultado é um colosso de sensibilidade e grandeza musical, com a pompa e euforia merecidas por estas composições e que, a despeito da interferência de muitas cabeças (e sentenças), soa coeso e harmónico. Sem ortodoxia, concessões ou conservadorismo. Nada tem a pronúncia de Ships. Sem meio termo, como sempre sucede com as coisas marcantes, isso é um pau de dois bicos: ou se venera ou se abomina este álbum. Mas não é já tempo de aceitar as paixões de Daniel Smith?

domingo, 11 de junho de 2006

Dead Combo - Quando a Alma Não é Pequena, Vol. II


Apreciação final: 7/10
Edição: Dead & Company/Universal, Março 2006
Género: Instrumental
Sítio Oficial: www.deadcombo.net








O segundo trabalho dos portugueses Tó Trips e Pedro Gonçalves é uma declaração de maturidade musical. Quatorze faixas da melhor música instrumental (guitarra eléctrica e contrabaixo) que se faz em terras lusas. No primeiro registo, a dupla portuguesa havia desenhado os contornos de um dialecto sonoro pouco comum entre nós, uma espécie de música de western, com especiarias emprestadas pela mais característica tradição musical lusa, o embalo nostálgico e pesaroso do fado. Não surpreendeu, portanto, que, com tais ingredientes, a dupla tenha suscitado a curiosidade da comunidade melómana nacional e, por arrastamento, o reconhecimento da crítica a uma aura musical distinta, urbana, feita com paixão e, acima disso tudo, com uma excelência técnica intocável. Neste segundo álbum, os músicos foram mais além. É certo que persiste a entoação plangente da alma lusa mas, agora, o híbrido dos Dead Combo alarga horizontes a outras referências, não se coibindo de namorar famílias de som de origens desiguais, mormente as sonoridades afro, algumas texturas com insinuações de etnia cigana ou do folclore klezmer, umas pitadinhas tímidas de jazz, das tarantelas do sul de Itália ou até do tango/flamengo latino. E nada disto minora a conformidade do disco com os princípios dos Dead Combo. Pelo contrário, o alargamento do espectro de influências confere-lhes outras medidas (e melodias amplificadas), sem congestionar exageradamente o ambiente único de poesia instrumental do álbum ou a vitalidade minimalista do som.

Quando a Alma Não é Pequena, Vol. II é o segundo passo do percurso deste par de lisboetas que, com a ajuda de um rol extenso de ilustres convidados (Paulo Furtado, Peixe, João Cardoso, Sérgio Nascimento ou Nuno Rafael), concebeu um disco que, sendo português, calha bem em qualquer parte do mundo. Aliás, essa verosímil universalidade, não tão visível no primeiro disco, é o argumento mais consistente de um trabalho coeso. Íntimo e sem traumatismos, Quando a Alma Não é Pequena, Vol. II é um daqueles discos carregados de expressividade e presta uma justa homenagem (não óbvia!) a dois ícones da cultura lusa (Carlos Paredes e Fernando Pessoa) que, não estando gravados no disco, nele flutuam persistentemente. Afinal, os Dead Combo são também mensageiros desse ambivalente alento lusitano: de um lado, a saudade taciturna; do outro, a galharda certeza de que há um bocadinho de nós em cada canto do mundo.

sábado, 10 de junho de 2006

Mission of Burma - The Obliterati

Apreciação final: 8/10
Edição: Matador, Maio 2006
Género: Rock Alternativo/Pós-Punk
Sítio Oficial: www.missionofburma.com








O percurso dos Mission of Burma divide-se em duas etapas. Eles surgiram na cena pós-punk de Boston, em plena década de 80, introduzindo alguma sofisticação musical e um perfume arty aos padrões musicais da época. As duas edições do grupo, o EP Signals, Calls and Marches (1981) e do primeiro longa-duração, Vs., no ano subsequente, impuseram o som distintivo do grupo: ritmos mexidos, tempos e estruturas pouco ortodoxas, composições enigmáticas e um clima de assalto sónico corrosivo. E repetições caóticas, claro está. Em volume alto e sem slow motion. Com estes dois lançamentos a estabelecerem as bases de um novo caminho para o rock alternativo, foi com surpresa que os fãs do grupo assistiram ao seu desmantelamento em 1983, depois de uma tournée que viria a ser registada em disco. O regresso, quase ocasional, viria a acontecer praticamente duas décadas depois, na sequência de um punhado de actuações em conjunto dos seus membros originais que, em última instância os empurrariam para o estúdio para gravar OnOffOn, registo que chegaria aos escaparates em 2002. A segunda encarnação do colectivo americano colheu a admiração da crítica e o lapso de tempo não minorou as qualidades idiossincráticas da sua sonoridade. Os nacos límpidos de guitarra de Roger Miller, a dinâmica propulsiva do baixo de Clint Conley e o músculo da percussão de Peter Prescott estavam todos lá.

The Obliterati é o segundo registo desde o ressurgimento da banda. E, também, o mais vigoroso. Os vectores artísticos dos Mission of Burma são uma constante, provando a sua imutável propensão para fundir, com argúcia, os fundamentos da escola punk com qualquer coisa de ambição maior, feita de um discurso rock prolífico (elogio!), com mudanças de pele incessantes, uma energia epidémica e um conceito artístico oblíquo. Inconfundível, assim se dispõe o tom dos Mission of Burma. Tão influenciadores agora como há vinte anos atrás. The Obliterati é tão bom que nem sequer deixa espaço para a nostalgia; afinal, os Mission of Burma não fogem da bitola de excelência que edificaram. Melhor do que isso, eles vão buscar os mesmos esboços do começo e conseguem, sem soar anacrónicos, provar a intemporalidade do seu som. Discos como The Obliterati e bandas como os Mission of Burma não são de tempo nenhum, são preciosidades para estimar sempre. Agora, há uma vintena de anos ou daqui a outros tantos.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

Beirut - Gulag Orkestar

Apreciação final: 8/10
Edição: Ba Da Bing!, Maio 2006
Género: Folk/Étnica
Sítio Oficial: www.beirutband.com








Ao escutar as primeiras notas deste Gulag Orkestar somos levados ao engano. O tom de marcha balcânica e o embalo cigano das composições sugerem uma procedência algures no sudeste europeu, em virtude da abundância dos instrumentos de sopro (tubas, trompetes e clarinetes), do apoio versátil das cordas (violinos, ukuleles e bandolins) e do acento tónico em percussões e sons de cariz étnico (tamborins, congas e acordeões). Dir-se-ia que, mal comparado, o projecto Beirut - consta que esta dúzia de músicos é produto da mente de Zach Condon, americano de Albuquerquer com apenas 19 anos - traz à lembrança as composições do carismático músico sérvio Goran Bregovic. Claro está, os feitios étnicos da música são menos vincados e assumem, ao invés das tendências da Europa Oriental, uma peculiar festividade, ao jeito da folk inventiva de um ou outro exercício de Sufjan Stevens ou da pop psicadélica de Rufus Wainwright, com melodias joviais e muito bem construídas, instrumentalmente fartas e com vocalizações encorpadas, ora em registo de coral, ora fazendo uso do solitário crooner de Condon. De resto, o disco é pontuado por acrobacias musicais caprichosas, percorrendo de uma penada as várias nuances menos familiares da folk americana, na mesma linha do soberbo Six Demon Bag, lançado já este ano pelos Man Man, ainda que neste Gulag Orkestar a atmosfera sonora use uma camuflagem com outras cores.

Mesmo sendo um disco denso do ponto de vista musical, a latente simplicidade das composições é a aptidão magna deste trabalho, numa clara subversão da típica canção pop, não nos ritmos ou nas estruturas, mas na concepção instrumental, trocando a tríade clássica (guitarra-baixo-bateria), por sucedâneos menos comuns, em busca de uma solução musical distinta. E sem a pretensão de atingir grandiloquência orquestral. Gulag Orkestar define uma estética ímpar de agregação da pop-folk contemporânea com ornatos dignos de um antiquário de Leste e é, por isso, uma obra promissora. Pena é que a segunda metade do disco fique um pouco aquém da majestade da primeira, ou estaríamos perante um candidato maiúsculo a disco do ano. Mesmo assim, Gulag Orkestar merece ser apreciado por muito mais melómanos do que aqueles que o vão ouvir.

domingo, 4 de junho de 2006

Herbert - Scale

Apreciação final: 8/10
Edição: !K7, Maio 2006
Género: Electrónica/House Experimental/Pop-Soul
Sítio Oficial: www.matthewherbert.com








Nem chega a ser surpreendente que o britânico Herbert, ao oitavo disco de um percurso pautado por um nivelamento de qualidade assinalável, tenha optado por uma aproximação pop. Afinal, ele já aceitou desafios de todos os quadrantes. Contudo, esta redução a matrizes mais rudimentares e, por isso, mais previsíveis da composição, não faz de Scale um disco elementar. Mestre raro no domínio da plasticidade musical e do experimentalismo electrónico, como tão bem demonstrou no devaneio inesperado (mas incompleto) de Plat du Jour (2005), Herbert lançou mão dessa versatilidade para desenhar uma obra mais acessível, sem abdicar do uso de artefactos pouco ortodoxos na vez de instrumentos; a diferença maior acha-se no alargamento da presença vocal, com a voz sedosa de Dani Siciliano a adornar os feixes electrónicos inconfundíveis de Herbert. As canções - porque assim se podem baptizar - são ponderações dos argumentos prototípicos do útero pop e, nesse sentido, há um investimento menor no imprevisto, sem beliscar a estética habitual. Ao mesmo tempo, minimalista nos ingredientes instrumentais e exuberante na densidade dos temas, Scale é um produto dançável e festivo, cheio de meneios artísticos e que, aqui e ali, recupera a sonoridade da pop cativante de Ruby Blue, de Roisin Murphy, que Herbert produziu no ano transacto.

O mais fresco disco de Herbert é, como não podia deixar de ser, um exercício da melhor música concreta, no mesmo prisma bizarro que é o conceito usual do músico. Sofisticado e quente, Scale é o mais imediato álbum de Herbert mas também, por força da sedução e da consistência das excentricidades pop que o britânico ensaia, um dos melhores do seu percurso. A despeito de alguns insignificantes desvios estéreis, Scale continua a saga subversiva de Herbert. Haja calo auditivo para desfolhar as sucessivas camadas desta colecção de canções e perceber os ecos das múltiplas personalidades sonoras de Herbert e Scale mostra-se um sublime testemunho do eclectismo de alguém que alcança o extraordinário intento de construir um carimbo. Pessoal e intransmissível.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Mono - You Are There

Apreciação final: 8/10
Edição: Temporary Residence, Abril 2006
Género: Pós-Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.mono-44.com








Convencionou-se chamar pós-rock à gama extensa de sonoridades que, conjugando experimentalismo com as mais diversas derivações dos padrões do rock estandardizado, criam ambientes quase arrítmicos, estendidos demoradamente no tempo e com persistência no limiar da hipnose auditiva. Na antítese da pujança visceral do rock clássico, o pós-rock é música cerebral, vagarosamente corrosiva e menos regrada: é praticamente indiferente às noções estruturais de canção, aos preceitos métricos básicos ou aos acertos de acordes convencionais. Oriundo do Japão, o quarteto Mono toma parte desta família sonora e apresenta-nos, ao quinto longa-duração, um som tenso, maduro, com rótulo de autor. Mais melódico do que os anteriores registos dos nipónicos, You Are There é também a peça de maior veemência instrumental do grupo, mantendo a dinâmica movediça que os caracteriza, em sucessivas alternâncias a forçar o cotejo entre a toada melancólica dominante e pedaços viciosos de acento drone, mas acrescentando amplitude ao espectro tonal. You Are There tem qualquer coisa de ritualista e minucioso, como se propositadamente arrastasse a tensão de cada faixa rumo à contingência de um fragor que nem sempre é certo e cuja iminência nos agarra do princípio ao fim das seis composições, num deleite ávido.

A música deste You Are There não é de trago único. O timbre transcendental oferece ao disco a substância emocional que não pode faltar a um produto destes. Não obstante isso, a redundância das texturas acaba por torná-las ligeiramente derivativas, em determinados vértices do álbum, a despeito da primazia dos arranjos de cordas que servem, a propósito, o seu pressuposto amparador. Mesmo assim, You Are There é um sublime exercício técnico do melhor pós-rock que se escreve no planeta e, se alguma omissão houver de lhe ser apontada, é a minguada voltagem dos instantes mais expansivos do disco. Desconsiderando essa minudência, You Are There dispensa dicionários. Escutar esta obra é adivinhar nas entrelinhas, pela música de um dos mais insígnes militantes da causa, a mais cabal definição de pós-rock.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Houdini Blues - F de Falso

Apreciação final: 7/10
Edição: Cobra Records, Maio 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.houdiniblues.com








Ninguém diria que este é já o terceiro disco do quinteto eborense Houdini Blues. Apesar de estarem nestas andanças há cerca de uma década, eles têm-se mantido num anonimato demasiado duradouro para as suas aptidões e este F de Falso, editado pela Cobra Records de Adolfo Luxúria Canibal, promete corrigir esse desconcerto. O álbum é um tomo de canções imprevisíveis, perfumadas por fantasias sonoras de várias latitudes, alguma coisinha de música étnica que fica no ar, pairando diligentemente sobre a invulgar panóplia pop-rock do grupo. O rótulo é necessariamente redutor do universo dos Houdini Blues, um mundo pejado de derivações da pop inteligente dos Ornatos Violeta, em casamentos convenientes (e nem sempre óbvios...) com música da Andaluzia (no notável single de avanço "Bailare", com A.L. Canibal), com o ska (em "Ícaro"), com a electrónica a servir de abertura ("Putuária" e "Marguerite Duras"), com o rock alimentado a discurso directo de guitarra ("Deus (O Teu)") e outras interferências que se fazem convidadas. A produção de Armando Teixeira (Balla, Bullet) arruma o disco nas suas melhores virtudes e confere-lhe um sedutor balanço, cheio de consistência e relevando a ambiguidade contagiante da música dos Houdini Blues.

Inspirado no documentário pós-modernista F for Fake de Orson Welles, uma peça que validava o cinema (e as artes) como a suprema expressão do logro, pela perversão de jogar com a realidade à custa da manipulação mecânica de simulações dela mesma e, com isso, misturar as noções de real e ficção, o novo trabalho dos Houdini Blues é, também ele, simbólico nesse propósito. O uso inveterado que estes eborenses fazem da música é franco, foi fertilizado com a tarimba da estrada e, atendendo à ironia plagiada do título, uma discussão se impõe. Estarão eles a fazer de Elmyr de Hory, o plagiário de quadros famosos que impunemente vendeu falsos Picassos e Cezannes a museus de renome e que é personagem central do documentário de Welles, ou, por oposição, este F de Falso é mesmo um original jogo de espelhos da nova música portuguesa? Dúvida existencial, resposta pronta e unânime: não há enganos em F de Falso, os Houdini Blues são autênticos.

Posto de escutaBailareÍcaroPutuária

terça-feira, 30 de maio de 2006

domingo, 28 de maio de 2006

Ghostface Killah - Fishscale

Apreciação final: 8/10
Edição: Def Jam, Março 2006
Género: Rap Harcore
Sítio Oficial: www6.defjam.com








O percurso artístico de Ghostface Killah é indissociável da respeitada família do Wu-Tang Clan, seminal colectivo de Staten Island que, há mais de uma dúzia de anos, subscreve um género de rap profano, contador de histórias carregadas de jargão de rua e admirador da sondagem de samples à soul clássica. A esse caixilho musical, junta-se o apreço do grupo pela cultura budista e pelas alegorias esotéricas dos filmes de artes marciais. Nos últimos anos, além do falecimento por overdose do popular Ol' Dirty Bastard (2004), a notoriedade do clã resumiu-se a actuações ocasionais, a esporádicas aparições de alguns dos seus membros na sétima arte ou na TV e a uma miríade de edições a solo. A mais recente edição de Ghostface Killah é este Fishscale e, além de ser uma peça rap tecnicamente muito bem urdida, vive de uma voz melíflua, daquelas que são sinónimo de suavidade melódica, seja quando o medidor de cólera dispara ou, por oposição, quando o disco passa rapidamente pelo romantismo da soul.

Aos trinta e cinco anos, Ghostface Killah devolve o rap ao seu leito original e à temática idiossincrásica das drogas, do sexo, dos conflitos de rua e do dinheiro. No fundo, é como se este álbum de vinhetas - umas vezes autobiográficas, outras vezes contemplativas - fosse o desfecho natural das sedimentação de conceitos que o rapper procurou no quarteto de edições individuais que antecederam Fishscale. Ao mesmo tempo, o novo disco é uma ecléctica aula para a geração hip-hop MTV, propondo-se fazer o restauro da índole perdida e mostrando como se faz o genuíno hardcore. A produção de Moss, Pete Rock, Doom, Madlib ou do malogrado J. Dilla afiança algumas piruetas e alarga o espectro sonoro, deixando no ouvido uma grata insinuação soul que vai ao encontro de uma revelação do próprio Ghostface. Numa recente performance ao vivo, ao som de “My Ebony Princess”, single de 1977 de Jimmy Briscoe & the Little Beavers, o rapper confessou o seu íntimo desejo de trocar o rap pela soul. Com este Fishscale, além de repôr as variáveis mais importantes do rap, Ghostface Killah fica um pouquinho mais perto da morada soul que cobiça para si.

sábado, 27 de maio de 2006

Dirty Pretty Things - Waterloo to Anywhere

Apreciação final: 7/10
Edição: Vertigo/Universal, Abril 2006
Género: Rock Revivalista
Sítio Oficial: www.thelibertines.org.uk








Pete Doherty e Carl Barât dividiram o núcleo criativo (e as vozes) dos The Libertines, projecto britânico de rock revivalista que, com dois álbuns pouco mais do que medianos, gerou algum hype na imprensa conterrânea. Depois da ausência de Doherty na última digressão europeia dos londrinos, as sequelas tornaram-se indisfarçáveis: enquanto Doherty se desviou, numa trajectória errante a colidir muitas vezes com a justiça e os media (até chegou a ser dado como morto por overdose), fundando os Babyshambles, o compincha Barât responde agora, com o primeiro álbum dos Dirty Pretty Things. Se os Babyshambles se tornaram um cata-vento ao sabor das derivações babélicas rock de Doherty, livrando-o de quaisquer estorvos, os Dirty Pretty Things abeiram-se mais do ensemble original, pelo menos nas suas horas mais eléctricas, armando o disco da obrigatória teatralização de garagem. Intencional ou não, Waterloo to Anywhere mais do que rivalizar com a oferta de Doherty, acolhe as vistas do Brit rock ondulado dos Franz Ferdinand, dos Futureheads ou dos Maximo Park e, mesmo assim, não chega a distinguir-se claramente onde começam os Dirty Pretty Things e terminam os The Libertines (além de Barât, também o baterista ex-Libertines Gary Powell integra a banda).

Waterloo to Anywhere não é um baú de surpresas. O triunfalismo de algumas composições resume-se a um enxerto bastardo dos The Libertines, pegando na mesma aspereza nostálgica e sentido de urgência, empacotando tudo com menos um ingrediente (Doherty) e fazendo de conta que o ontem não existiu. Sujidade punk, caneta afiada, ângulos precisos, sombras e ambição são os predicados essenciais de um disco que confirma o rasgo de sobrevivência de Barât sem o controverso parceiro de escrita, embora seja coisa custosa entrever os sinais de diversidade. Afinal, escutar Waterloo to Anywhere é pouco mais do que jogar ao "descubra as diferenças" com um dos álbuns dos The Libertines. E Pete Doherty, não estando presente, bem que pode ser imaginado na figura de um Wally invisível. Onde está o Wally?

terça-feira, 23 de maio de 2006

Tool - 10 000 Days

Apreciação final: 6/10
Edição: Volcano, Maio 2006
Género: Metal Alternativo/Experimental/Progressivo
Sítio Oficial: www.toolband.com








Não está ainda decorrida uma dezena de milhar de dias desde a geração dos Tool. Aconteceu em 1993, com o disco Undertow a servir de baptismo a um estilo musical novo, colhedor dos abrasivos sónicos do metal alternativo e da complexidade musical do art-rock, mormente na negação da estrutura-canção. O brilhantismo técnico dos Tool encontrava aliados na boémia criativa, em cenários enigmáticos com texturas progressivas que eram um refúgio de raivas negras e opressões. Nesse dédalo de preciosismos instrumentais e vocais, a surpresa e o inesperado eram elementos vitais. Os adereços de guitarra, as convulsões rítmicas em altos e baixos, o sentido melódico das composições, as pegadas desvairadas da percussão e a experimentação eram o padrão. O seminal Aenima, chegado às lojas em 1996, sedimentou estes conceitos e conferiu aos Tool o porte de líderes do movimento do metal alternativo americano. Chegados ao muito aguardado quarto registo, cinco anos depois do pungente Lateralus, os Tool converteram-se ao soft. O período sabático parece, em primeira instância, ter-lhes domesticado a ira, ao ponto de 10 000 Days ser mais rock e menos metal, quase renunciando à força propulsora das percussões (restam meras reminiscências) e buscando, ao invés, o apelo etéreo de guitarras lacrimejantes, da voz vacilante de Maynard James Keenan e os torturados ambientes de trauma emocional.

10 000 Days destina-se ao fã estacionário; não traz nada que os Tool não tenham já experimentado antes. Esse é o pecadilho (será um mérito para muitos...). Já ouvi isto, é o que ocorre dizer ao escutar o disco. Pior do que o recalque de ideias e a insistência no formulário que os celebrizou, é ver que a matriz está desgastada, soa iterativa e estagnada. Os Tool deixaram-se congelar na sua própria música e apenas se adivinham silhuetas e breves insinuações de inovação neste álbum, parecendo que os elásticos que a banda retesou no passado, alargando as fronteiras do metal a outras amplitudes, começam lentamente a forçar o regresso à posição original, sufocando a nova ordem que a banda testara no processo. O fecho do ciclo cósmico está eminente. Ou os Tool conseguem a reanimação, ou o cosmos se encerrará no seu equilíbrio universal. Nesse acaso, deles sobrará apenas a recordação. E nem serão precisos dez mil dias...

domingo, 21 de maio de 2006

No-Neck Blues Band & Embryo - EmbryoNNCK

Apreciação final: 7/10
Edição: Staubgold, Abril 2006
Género: Música Improvisada/Experimental
Sítio Oficial: www.staubgold.com








Se há na música americana um projecto musical de vistas nómadas, orgulhosamente free e misterioso, esse colectivo são os nova-iorquinos No-Neck Blues Band. Até Thurston Moore, guru dos Sonic Youth, já lhes pôs rótulo: "a melhor banda do universo". Eles andam neste ofício há mais de uma década, a manejar virtuosamente o jazz livre, o noise experimental, a folk psicadélica, maquinando ambientes sonoros emblemáticos, graças a uma massa musical tão espessa e elástica que parece fruto de uma alucinada jam session de improviso.

A outra metade deste álbum é fornecida pelos germânicos Embryo. Com cerca de 30 anos de filiação aos motivos krautrock, o ensemble liderado pelo vibrafonista Christian Burchard é uma quadrilha de salteadores que, percorrendo os quatro cantos do mundo, se entretém a furtar pedacinhos musicais das mais variadas etnias e tradições, misturando-as depois num cenário de rock-jazz espacial e progressivo.

Com tais artesãos, EmbryoNNCK nunca seria fastidioso. Não há espaço para a monotonia, a cada viragem há uma surpresa tão ambígua quanto inopinada. O improviso informal dos No-Neck Blues Band deixa-se tingir pelas cores perfumadas das excursões étnicas dos Embryo, num fluido musical que fica nas cercanias do excesso mas que, ao invés disso, se converte num concentrado apurado e versátil, um punhado de ideias que não paralisam, se multiplicam em si mesmas, em mutações sucessivas. É por isso que EmbryoNNCK, como bom produto transviado (música fora de sítio, entenda-se), não aceita catálogos, é antes um circo de sons do mundo, um jogo de estrofes sonoras que nem parecem completas, mas cuja integridade é mesmo essa, a contingência de uma sublimação sem forma e sem pontos finais. Depois, escutar EmbryoNNCK é aceder a um espaço de subúrbio, onde uma mini-orquestra lança exercícios estéticos sem medo de exorbitar. O senão desta bela: o álbum, a despeito das óbvias sinergias entre os envolvidos, não se exime a um declive de repetição que, em último caso, não manchando a distinção das composições as faz semelhantes demais para não serem confundíveis.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Final Fantasy - He Poos Clouds

Apreciação final: 7/10
Edição: Tom Lab/Distr. Flur, Maio 2006
Género: Contemporânea/Pop Erudita
Sítio Oficial: http://finalfantasyeternal.com








Camuflado por detrás do título inspirado num vídeo-jogo está Owen Pallett, violinista de suporte dos Arcade Fire. O epíteto Final Fantasy é a sua máscara de compositor e, no seguimento do disco de estreia surgido há um ano, este He Poos Clouds obedece ao mesmo padrão de escrita escorreita, de revezamentos entre violino e voz, embora o temperamento orquestral das composições mereça outra amplitude neste trabalho. É certo que, ainda que num registo apenas comparável à grandeza épica da escola neo-clássica, Pallett não abandona o conceito de canção. Contudo, as faixas de He Poos Clouds são meras vizinhas afastadas dos nichos pop e procuram, em simultâneo, a majestade instrumental do minimalismo de Philip Glass ou Steve Reich e a abundância festiva dos Arcade Fire (apenas a breve trecho). Até chega a espreitar-se um ambiente digno de um ensaio dos Kronos Quartet, a que se junta uma voz remota e hesitante, em narração de histórias povoadas por caracteres de uma caprichosa caderneta (um agente imobiliário impotente, jovens frígidas, o ressuscitado Lázaro do Novo Testamento, um suicida, entre outros). No fundo, sem lhe dar esse formato, Pallett construiu uma bizarra opereta pop, de sonoridade distinta e estímulos vários, de texturas complexas. Mais do que isso, He Poos Clouds é perturbante nas ascensões espirituais que induz e na volubilidade dos arranjos que cercam o auditor num abismo de tensões.

Não fosse a voz de Pallett e He Poos Clouds teria lugar na escaparate dos ilustres compositores da clássica contemporânea. Com a voz, o violinista consegue um raro fito: conjugar os serviços da tonalidade e estrutura da clássica com a presteza da canção pop. O objecto dessa junção equilibrada é um disco complexo, cheio de pormenores que apenas se mostram com várias audições e que vem reforçar a identidade musical de Pallett. Definitivamente, não será He Poos Clouds a projectá-lo para o estrelato de grande escala nem a resgatá-lo do estatuto de culto de um restrito clube de melómanos do circuito independente mas, se a mais não serve, o disco sublinha expressivamente uma certeza que era, até aqui, apenas uma suspeita: a de que Pallett é um compositor com dotes.

Matmos - The Rose Has Teeth In The Mouth of a Beast


Apreciação final: 8/10
Edição: Matador, Maio 2006
Género: Electrónica Experimental/Vanguardista
Sítio Oficial: www.brainwashed.com/matmos








Um desvairado monstro mecânico de duas cabeças. Definição grosseira dos californianos Matmos, duo formado pelos (des)mandos de M.C. Schmidt e Drew Daniel. A uma almofada electrónica que contempla todas as graduações desse estilo, os Matmos adicionam (em disco e ao vivo) sons de origem arriscada para quem quer fazer música. O sítio oficial da banda arrola, entre muitos outros, alguns curiosos recursos da dupla: páginas de Bíblia, peles de peixe, sussurros em câmara lenta, ruídos de liposucção, gaiolas de rato, baralhos de cartas, comboios, insectos, o latido de cães, moedas...Com tamanho arsenal, é de esperar que a música dos Matmos se esquive a regras ou modelos, antes parecendo uma excursão por um labirinto electrónico sem fim, numa vertiginosa espiral. A música é urgente, muitas vezes asfixiante e aguda, na iminência de um objectivo nem sempre contínuo, subjugado (sardonicamente) às rupturas. A narrativa sonora deste The Rose Has Teeth In The Mouth Of A Beast é, por isso, complexa, puramente desconstrutiva, jogando com uma convivência oportuna entre os samples, os elementos acústicos e a formatação electrónica. Os estímulos musicais são elásticos e fragmentados, um verdadeiro manjar para saciar os ouvidos e exercitar a alienação experimental de Schmidt e Daniel.

Genericamente inclassificável, The Rose Has Teeth In The Mouth Of A Beast traz uma peculiaridade adicional. Não sendo um álbum conceptual no sentido formal do termo, cada uma das dez faixas do alinhamento se propõe fazer o retrato de uma personalidade ilustre, entre escritores, músicos, cineastas e filósofos. Comum a todos eles: a homossexualidade. Mas essa é a única concretização que deriva do disco. A substância musical é abstracta, contundente na excentricidade instrumental e plena de simbolismo biográfico. As referências são díspares e vão da escritora femininista Valerie Solanas (defensora do fim do género masculino e mais famosa pela tentativa de assassinato de Andy Warhol), ao fotógrafo e realizador James Bidgood (do polémico filme gay Pink Narcissus (1971)), ao filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (o seu Tractatus Logico-Philosophicus (1921) pretendia ser o requiem escrito da filosofia), ao produtor musical Larry Levan, etc. Neste álbum de imagens musicadas, Antony, Björk e os Kronos Quartet fazem uma perninha, ajudando a fazer do álbum um apetrecho de música cerebral e imagética mutante, ao ponto de, mais do que um disco, se assemelhar a uma película do melhor cinema surrealista dos anos 20 e 30. The Rose Has Teeth In The Mouth Of A Beast é o sinónimo musical de um Buñuel ou de um Clair em cores alucinadas e num banquete de exaltação biográfica. Obrigatório.

domingo, 14 de maio de 2006

The Racounters - Broken Boy Soldiers

Apreciação final: 6/10
Edição: Third Man/V2, Maio 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: www.theraconteurs.com








O conceito não é novo. Juntam-se figuras relevantes do panorama musical e formam uma nova banda, alegadamente com a finalidade de imaginar vertentes musicais distintas da casa-mãe. O enlace, aqui, é entre o desassossegado Jack White, mentor do White Stripes, Brendan Benson e o duo Patrick Keeler e Jack Lawrence (dos Greenhornes). Com tais actores a encenação só podia ser uma: rock, rock e mais rock. Contudo, é nos Racounters que a dupla criativa White/Benson acha resposta para apetites não satisfeitos nos caminhos originais. Nesse exercício escapista, Benson experimenta uma sonoridade mais crua e desobrigada da minúcia dos seus trabalhos a solo; por seu turno, White projecta nos Racounters as fantasias psicadélicas e os moldes arty que o padrão dos Stripes não permite. Apesar do deleite criativo, a dupla (o quarteto) nunca perde o norte e pouco se desvia do objectivo primário (e mais previsível). Vistas bem as coisas, Broken Boy Soldiers até é mais formal do que se presumiria: vem com um cartão de visita que tresanda a imediatismo radio friendly (a apreciável "Steady As She Goes"), desloca para os nossos dias a lembrança de ícones do género (um holograma dos Beatles à cabeça) e cola-se às formas da canção rock'n'roll mais genuína. Regra de três simples.

Mais clássico e menos moderno, ainda assim Broken Boy Soldiers desafia a irrefutabilidade de alguns dogmas da tradição rock'n'roll, induzindo vagos tons de contemporaneidade à prova de anacronismo. Meio-termo entre as distorções blues de White e a pop de chiclete açucarada de Benson, Broken Boy Soldiers deve ser destapado na presunção de que o hype tremendo que se gerou à volta do álbum não existiu. Se, por outro lado, o diapasão aferidor dos predicados do disco partir dessas promessas, o crédito acumulado dos músicos há-de ser consumido rapidamente e o que sobra é uma evidência: Broken Boy Soldiers é passada demasiado curta para as pernas de tão ilustres intérpretes.

sábado, 13 de maio de 2006

Scott Walker - The Drift

Apreciação final: 8/10
Edição: 4AD/Popstock, Maio 2006
Género: Música Vanguardista/Experimental
Sítio Oficial: www.4ad.com








Scott Walker é um provocador. É um daqueles sujeitos que se dá bem com o desassossego das vibrações sonoras. Já assim havia sido no último dos registos de estúdio, o negro e enigmático Tilt, nascido há mais de uma década (1995). Passados estes anos de quase silêncio - o músico limitou-se a colaborações pontuais - Scott Walker brinda-nos com novo trabalho e, partindo da matriz decompositora do antecessor, constrói um bizarro universo de música abstracta. Chamar-lhe música talvez seja amputar-lhe dimensões, tal é o alcance deste The Drift. A comunicação com o auditor cumpre-se através de um espectro de sons de substância surrealista, sem corpo definido, começando num registo vocal equidistante do dramatismo da ópera e do suspiro fantasmático, em busca de contextos líricos cuja melhor classificação é a de aberração psíquica. Depois, como superior obra abstracta, The Drift é uma permanente transgressão musical (numa faixa escondida até há um Pato Donald a fazer de Mike Patton...), desata-se da realidade e vagueia por cenários musicais indiferentes a qualquer prudência formal, preferindo a lógica do caos, onde se sobrepõem e confundem matérias quase imiscíveis, dos lances orquestrais assombrados, ao dom malabarista das guitarras, à tangência com os ambientes industriais e ao pensamento livre das colagens e da inconstância tonal. Tudo menos canções de convenção, antes trechos musicais de anatomia sinuosa, intimamente perturbadores. Sedução pelo choque.

Desengane-se quem pense encontrar em The Drift um disco comum. Walker não é músico de regras ou concessões, é uma alma conturbada e ambígua. Escura e delirante. A palpitação do álbum é, por isso, arrítmica, asfixiante, quase sem sentido. Angustiada e perturbante. The Drift é (pelo menos soa a isso) um poema crepuscular do apocalipse, como se Walker tivesse testemunhado o fim do mundo como o conhecemos e o revisse, num intenso pesadelo sombrio, ao jeito de uma fita de Bergman, pintada numa tela de Bacon. Evocando cenários transcendentais e universos incorpóreos, The Drift desafia-nos a espreitar os esqueletos que guardamos no armário. Só depois de completada essa excursão pelos horrores da humanidade, encriptados habilmente na música de Walker, é que conseguimos retomar o fôlego. E, mesmo que o apocalipse não seja amanhã, apetece ouvir vezes sem conta esta banda sonora do último dia na Terra.

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Memórias do cinema

Roberto Benigni, Nicoletta Braschi e Giorgio Cantarini em La Vita È Bella (1997)

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Saudades dos 80's no Hard Club

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Bypass - Mighty Sounds Pristine

Apreciação final: 6/10
Edição: Bor Land, Maio 2006
Género: Pós-Rock/Rock Progressivo
Sítio Oficial: www.bor-land.com








Caminhos sinuosos para uma vertigem de sons ondeantes. Assim se podem descrever as estradas calcorreadas pelo quarteto (recentemente aumentado para sexteto) lisboeta Bypass, com cerca de uma década de existência. Desde o EP homónimo, chegado às lojas em 2001, os melómanos nacionais atentos a estas coisas da música menos comercial, aguardavam a estreia dos Bypass em longa-duração. Dir-se-ia que sem aqueles dez anos de tirocínio (com muitos quilómetros e palcos...), o grupo não chamaria para a sua música a afinação de preceitos que se ouve no primeiro álbum. O leitmotiv é um argumento rock, algures entre as atmosferas contemplativas do pós-rock e as contingências mecânicas da escola progressiva. Sob esse oportuno disfarce conduzido pela certeza das guitarras, lançam-se emendas electrónicas e ruídos vagos, a insinuarem ambientes de tensões diversas, umas vezes buscando a euforia alucinada, outras deixando o enfoque para a neurose psicadélica, noutras ainda mostrando a melancolia. Uma vertigem emocional sem hipérboles e essencialmente instrumental, como é conveniente a um estilo menos convencional e que se propõe perscrutar todas as combinações de estímulo musical da mente. De olho no microscópio, a esmiuçar cada pedacinho de som como se dele dependesse a integridade vital do disco.

Mesmo sendo um apurado exercício técnico, Mighty Sounds Pristine esquiva-se à formatação repetida destas correntes musicais em que, as mais das vezes, a alma é escrava da técnica. Ou nela se apaga. Aqui, não é assim. Os Bypass herdam, sem premeditações, qualquer coisa do alento emocional que os Tool já esqueceram, da matriz rítmica de quando os Mogwai eram investigadores e da cinética bucólica dos Tortoise. O resto são contrastes intencionais, como jogos de cores e luzes, ao bom jeito de um sistema experimental. Nesse carácter incerto, o disco descai subtilmente, aqui e ali, para um certo embaraço de ideias, ora por excesso ora por defeito. Deformidades menores que não mancham as suspeições de que há nos Bypass substância mais do que suficiente para a afirmação definitiva em próximos capítulos.

Posto de escutaSetnovToboganTunnel

sábado, 6 de maio de 2006

Pearl Jam - Pearl Jam

Apreciação final: 7/10
Edição: J Records, Abril 2006
Género: Hard Rock
Sítio Oficial: www.pearljam.com








A morte prematura de Kurt Cobain e a cessação de bandas como os Soundgarden, os Screaming Trees ou os Alice in Chains precipitaram o coma de uma corrente musical que ganhou escala mundial, partindo de Seattle, e que, em traços gerais, captava a onda contestatária e de revolta do pós-punk da década de 80 e algumas influências do hard rock alternativo dos Led Zeppelin e Black Sabbath, entre outros. Riffs de guitarra teimosos e repetitivos, refrões melódicos e uma postura impugnativa eram as regras do que convencionou chamar-se de grunge. Desse movimento poucos sobreviventes restam, à cabeça deles os Pearl Jam. Com um percurso consistente desde Ten (1991), contemporâneo do inesquecível Nevermind dos Nirvana, Eddie Vedder e seus pares contam já década e meia de carreira. A sua mais recente edição, de título homónimo, é um recuo às origens. De lado parecem ter ficado os tiques pop,o flirt com o mainstream e o devaneio experimental de outros discos. Aqui, o discurso é assertivo, decidido e musculado, dando primazia à escola do hard rock corpulento e urgente, de acordes abertos e poderosos. Esse sentido de urgência atravessa o alinhamento de Pearl Jam, ainda que a segunda metade do disco dê provas de maior volubilidade, sem beliscar a conveniência do rock clássico do grupo.

Ao oitavo álbum de estúdio, os Pearl Jam recuperam o mais singular dos seus traços, aguçando as fórmulas rock e revisitando as máximas que trouxeram a banda ao estrelato. Raramente eles soaram tão cirúrgicos e espontâneos como em "Life Wasted", "World Wide Suicide" ou "Unemployable", canções que provam o à-vontade da banda com equações sonoras mais nervosas e, ao mesmo tempo, deixam evidente a consciência político-social (efeitos colaterais da administração Bush?) e a evocação emocional dos conteúdos líricos do disco. Rock electrizante e apaixonado. Ao repescar esses cânones básicos, os Pearl Jam invertem o curso do tempo, recuam à génese e cobram a descolagem do rótulo grunge. Afinal, eles sempre foram aquilo que são neste álbum: uma banda de rock genuíno, intenso e sem prazo de validade.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Gnarls Barkley - St. Elsewhere

Apreciação final: 8/10
Edição: Downtown, Abril 2006
Género: Neo-Soul
Sítio Oficial: www.gnarlsbarkley.com








Chegado às escaparates no meio da vaga de expectativas elevadas que o single "Crazy" gerou, o trabalho conjunto de dois dos nomes mais significativos da cena hip-hop internacional - DJ Danger Mouse (Gorillaz) e Cee-Lo Green - é, antes de mais, um disco de fórmulas soul. Contudo, as matrizes sonoras de St. Elsewhere não se fecham nos conceitos clássicos da soul, antes introduzem a electrónica com propriedade, buscam as cadências de outros ritmos (hip-hop ou funk) e acrescentam um quinhão precioso de psicadelismo. St. Elsewhere é um oferecimento pouco vulgar, um álbum cheio de groove cuja única concessão é à esquizofrenia de géneros, com o mérito de camuflar a volubilidade de estilo com o tal disfarce neo-soul que a sublime voz de Cee-Lo propicia e a produção moderna de Danger Mouse cauciona. A combinação dos intérpretes é simbiótica, conjugando um certo travo retro no formalismo vocal de Cee-Lo com uma estupenda panóplia de recursos sonoros sofisticados.

St. Elsewhere é um disco de canções de vários temperos e dimensões, de múltiplas minudências encobertas que apenas se destapam na repetição das audições. A monotonia não mora aqui, o ensaio musical de Cee-Lo e Danger Mouse é uma experiência mutável ao minuto, versátil ao ponto de fundir uma charanga pop em festa, as regras desalinhadas do hip-hop, o alento soul digno da Motown e os delírios da electrónica recente. Com tão gordo caldeirão de substâncias, é natural que salte o parafuso à ínsigne dupla de intérpretes e se desproporcione uma ou outra ideia. Mas, com um álbum assim firme e destemido, perdoam-se-lhes os breves desmandos. Porque o que apetece mesmo é descobrir todas as arestas deste St. Elsewhere. E reconhecer que se trata de um dos mais verticais exercícios da soul moderna dos últimos tempos.

sábado, 29 de abril de 2006

Gregor Samsa - 55:12

Apreciação final: 7/10
Edição: Own Records/AnAnAnA, Abril 2006
Género: Pós-Rock
Sítio Oficial: www.gregorsamsa.com








No universo kafkiano, o nome Gregor Samsa representa a desafortunada personagem d' A Metamorfose que, num claustrofóbico despertar, se descobre transformado numa gigantesca barata. No mundo da música, tal epíteto baptiza um quarteto americano convertido ao pulsar do pós-rock mais delicado e que se esmera por nos remeter para jogos mentais e ambientes sonoros em crescendo, conjugando as confissões matemáticas da guitarra eléctrica, a placidez do piano e o tom clássico das cordas. No fundo, a proposta não se distancia muito dos costumes dos canadianos Godspeed You Black Emperor! e Silver Mt. Zion, talvez até dos islandeses Sigur Rós. Esta é uma corrente musical que se interroga a si mesma, sacudindo a apatia de fórmulas gastas e alvitrando, sem pretensões, composições de música suspensa, como que incorpórea e sustida no ar, vogante e misteriosa, enchendo vácuos mentais e domando inquietudes. Nesse sentido, a música dos Gregor Samsa é uma terapêutica ansiolítica, um indutor de transes quedos. E é-o porque prende o ouvinte com as tramas de ritmos flutuantes, do sossego minimalista, quase ausente, às subidas íngremes, às implosões súbitas que, em breve tempo, se convertem em inscrições que a ressonância crava na mente. A voz, de aparição fantasmática, é imaterial e ensonada; não se arroga além do mínimo, é servente de algo maior, é fracção de um complexo indivisível.

55:12 é um disco cerrado. A música dos Gregor Samsa deflagra-se em compassos lentos, sem urgência de avançar para os remates. Eles preferem consumir o tempo nos processos, manuseando com desembaraço os fragmentos etéreos do som e do silêncio, tentando aderências improváveis para depois, com a mesma presteza, despegar as combinações e começar tudo de novo. Pena é que, nesses ciclos de ensaio, os lances de entendimento mais minimalista fiquem aquém da pompa mágica e do primor dos momentos mais completos. No primeiro longa-duração do quarteto (depois de dois EP), percebe-se que, mesmo sem oferecerem substâncias desconhecidas, os Gregor Samsa têm fôlego para prender a atenção. E para ganhar o seu espaço. Assim eles se acostumem à carcaça de barata com que acordaram numa estranha manhã...

quinta-feira, 27 de abril de 2006

The Legendary Tiger Man - Masquerade

Apreciação final: 7/10
Edição: NorteSul, Março 2006
Género: Blues/Rock
Sítio Oficial: www.legendarytigerman.com








Paulo Furtado (Wray Gunn, ex-Tédo Boys) é um guitarrista talentoso. Disso já não restavam dúvidas. Das outras edições sob o epíteto The Legendary Tiger Man também era fácil perceber a sua faceta de explorador e a propensão quase inata com que o músico se dedica a dissecar as raízes dos mais puros blues ou, num sentido mais lato (e ambicioso), a reinventar as passadas do rock alimentado a trinados hesitantes de guitarra. No fundo, o conceito é o exigente one-man band, embora neste tomo Furtado convoque outros artesãos, seja para incluir desvarios da mesa de mistura (DJ Nel'Assassin), seja para acrescentar outras especiarias de guitarra (Dead Combo), ou mesmo incluir a máscara soul de João Doce. Não só por isso (mas também), a fluência do registo é a prova evidente de que o som de Furtado está menos mecânico, menos previsível e com ritmos mais versáteis. A escrita das composições é também mais precisa e essa condição sai reforçada da cirúrgica produção de Mário Barreiros. De facto, o acondicionamento de estúdio deu outro corpo às canções de Furtado, sem lhes roubar a singularidade esparsa de outros álbuns, mas abrindo outros ângulos.

Masquerade pode muito bem ser a melhor amostra do alter-ego artístico de Paulo Furtado. Mais uma vez, o músico é incrivelmente hábil a construir um recanto sonoro ímpar, recortado pelo picotado de um álbum de sons da América sulista. Sons de estrada, de poeiras, de cactos e serpentes. E mulheres desejadas. Mulheres sem rosto e sem nome, depositadas em altares de veneração. Do lado de cá destas fantasias, o ouvinte assiste a um desfile de canções que não se resignam a regras. E que baralham (elogio!) os blues de outrora com o Furtado de hoje. Ele ou a máscara desse solitário homem tigre que mostra as garras nos intervalos dos Wray Gunn.

terça-feira, 25 de abril de 2006

Black Ox Orkestar - Nisht Azoy

Apreciação final: 7/10
Edição: Constellation, Abril 2006
Género: Tradicional/Klezmer/Música Judaica
Sítio Oficial: www.cstrecords.com








Os primeiros acordes de Nisht Azoy denunciam uma atmosfera densa, algures entre o registo de um requiem judaico, de compassos lentos e sombrios, e o tom de um cerimonial de tribo, com vozes em uníssono a ensaiarem preces. Há qualquer coisa de ancestral neste som, na solenidade do canto, na evocação da transcendência e na formalidade com que desfilam as canções, ao jeito da antiga tradição do klezmer da Europa de Leste. Mas os Black Ox Orkestar são canadianos e injectam nos enredos festivos do folclore klezmer qualquer coisa de consternação, de melancolia, de introspecção. Ao invés do colorido ritmado, eles recorrem a melodias viradas para dentro, com a espessura emocional de um transe deprimido e buscando habilmente ambientes sonoros que cruzam o medieval com o moderno. A ambivalência do disco é sustentada por instrumentais de excelência com uma deliciosa inconstância de feições, partindo da música judaica tradicional e sugerindo uma série de fragmentos colaterais (música árabe, eslava, dos Balcãs e da Ásia), misturados em formatos pós-rock, sem compromisso com as regras de canção. Nisht Azoy é uma liturgia que sonda a carga dramática de várias escolas musicais e, como seria de esperar de músicos que integram os Godspeed You Black Emperor! ou os Silver Mt. Zion, lhe acrescenta ousadias de improviso e originalidade.

Cheio de espiritualidade, Nisht Azoy é um álbum para adeptos da folk sem espartilhos e com pendor para aproveitar os ensinamentos da world music. É também um disco vibrante e uma proposta tecnicamente imaculada de novos ornatos para a música judaica. A tamanho feitiço sob a forma de disco, a tão grandiosa expedição pela história da música, apenas falta soltar definitivamente as âncoras e cortar as últimas amarras. Porque intérpretes e discos deste volume são documentos de todas as eras e testamentos de todas as gentes. E Nisht Azoy é apenas a segunda jornada dos Black Ox Orkestra rumo à magna obra com que, algures no futuro, hão-de presentear os melómanos sequazes do cruzamento de culturas.

Posto de escutaSítio da Boomkat

domingo, 23 de abril de 2006

MoHa! - Raus Aus Stavanger

Apreciação final: 7/10
Edição: Rune Grammophon, Janeiro 2006
Género: Música Improvisada/Noise
Sítio Oficial: www.runegrammofon.com








O guitarrista Anders Hana (Jaga Jazzist) e o baterista Morten J. Olsen formam o duo MoHa!. Oriundos do submundo do jazz moderno norueguês, os dois jovens músicos experimentam nesta edição o devaneio da música improvisada. Arrítmico e irregular como convém a um álbum deste género, Raus Aus Stavanger é também um disco ácido, cru, sem manipulações de estúdio. É essencialmente um jogo de trabalhos manuais, onde a capacidade técnica e o sentido de oportunidade dos músicos se eleva a fasquias altas. As notas impõem-se com precisão; a energia provém da lenta combustão dos riffs lancinantes da guitarra de Hana, a que se juntam percussões sem compromisso harmónico, tão livres quanto os lacónicos pedacinhos de electrónica que condimentam as composições. Dir-se-ia que, ao seu jeito, os MoHa! subscrevem os preceitos do noise rock experimental, com impetuosos diálogos de sons e estruturas propositadamente fracturadas para testar limites, com explosões vulcânicas a suceder à placidez do discurso mais recatado. Essas flexões e contorções são um exercício masturbatório da mente para os MoHa!; eles exercitam-nas até à exaustão num registo físico, corpóreo. E assim é a música deles. Carnal e lasciva.

Raus Aus Stavanger não encaixa nos axiomas da trivialidade, nem sequer é disco aliado de ouvidos desprevenidos. É música de choques e de caos. Sem âncoras. Sôfrega. Suada. Sinistra, indomável, para chocar, quase ferir. Um murro no crânio. Uma agulha na aorta. Raus Aus Stavanger é a senha para redefinir os extremos das convenções musicais. Curioso é saber que um álbum assim monolítico e impressivo é ainda o registo de estreia (já tinham lançado dois CD-R de distribuição limitada) de um par de aventureiros cuja perícia promete um futuro florescente.

Posto de escutaB1C5C7

sábado, 22 de abril de 2006

Band of Horses - Everything All the Time

Apreciação final: 8/10
Edição: Sub Pop, Março 2006
Género: Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.bandofhorses.com








É praticamente insofismável que, com mais ou menos fintas, estes rapazes gostam do mestre Neil Young. E quando uma banda namorisca um ícone de tal nobreza podem ocorrer uma de duas coisas: ou faz uma mera reprodução de conceitos, incorrendo no pior dos riscos para um artista, o mimetismo, ou assume as reminiscências desse legado num jeito moderno e criativo. Foi assim que os My Morning Jacket subiram ao trono do rock alternativo americano, reinventando o coração da música de Young, sem lhe adulterar os princípios essenciais. E é isso que os estreantes Band of Horses (a aventura musical de Ben Bridwell e Matt Brooke começou com o agora extinto projecto Carissa's Wierd) ensaiam neste álbum, conseguindo um irrepreensível exercício do melhor rock independente. Assente em instrumentais de primeira água e na sobriedade da produção, o som dos Band of Horses, não sendo nada de original, é franco e simples e parece concebido para invocar estímulos emocionais. E fá-lo com a distinção das grandes obras, aquelas que nos inspiram desde o primeiro contacto mas que vão além de amores acidentais. Discos destes desenham ecos com corpo, ficam a ressoar no espírito como se sempre tivessem feito parte do nosso âmago.

A escrita dos Band of Horses não tem segredos: o balanço é quase imaculado entre o fraseado melódico aberto pelas guitarras, a figuração recatada da percussão, a pontuação sugerida pelo baixo e, claro, a reverberante voz de Ben Bridwell, mais aguda que grave. As canções variam da quietude dream pop ao rock expansivo, do trivial ao excelso, dos enigmas em elipse às linhas rectas, do singelo ao elaborado. Atestado anti-monotonia, entenda-se. Reduzir esta música à definição de country é ignorar as múltiplas dimensões nela inscritas, mormente o espectro etéreo do disco, aquele quinhão de vital espiritualidade que nos instiga a desvendar este álbum do primeiro ao último segundo. A Everything All the Time faltam apenas fragmentos de novidade mas, esquecendo esse detalhe, a eloquência deste debute é peremptória: os My Morning Jacket que se cuidem, anda aí uma suposta banda de equídeos pronta a usurpar-lhes o reinado.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Howe Gelb - 'Sno Angel Like You

Apreciação final: 8/10
Edição: Thrill Jockey, Março 2006
Género: Folk/Rock/Blues/Gospel
Sítio Oficial: www.giantsand.com








Chega a ser paradoxal que uma mente tão fértil como a de Howe Gelb resida nas paisagens áridas do Arizona. Do mentor dos Giant Sand, uma das bandas da música americana que gerou mais side projects (Calexico, Friends of Dean Martinez, OP8, The Band of Blacky Ranchette, Rainer, Arizona Amp and Alternator), não seria de esperar nada além da fecundidade habitual. Para este homem, transcrever para uma pauta os esquissos de uma canção é um exercício fisiológico natural, quase intuitivo. As composições são profundamente americanas, vão buscar conselhos à velhinha tradição da folk americana dos tempos em que se cantavam os discursos vadios da classe proletária, de Huddie Ledbetter (a.k.a.Leadbelly) a Woody Guthrie. Ora aí, ora perdidas na páginas imemoriais dos blues de Muddy Waters, Willie Dixon, John Lee Hooker ou Howlin' Wolf (particularmente sensíveis neste disco), as referências de Howe Gelb são retratos a preto e branco, da época do pós-Grande Depressão, de intérpretes de espírito livre, músicos que influenciariam uma segunda geração de rebeldes de caneta aguçada, como Bob Dylan ou Joni Mitchell, já nos anos 60. Comum a todos: a guitarra como arma de arremesso. E Gelb junta como poucos estas talhadas da história americana. De tal jeito que 'Sno Angel Like You é mais do que um mero disco, é uma lição de música, um tributo aos símbolos de ontens longínquos. Se isso não bastasse, para este trabalho, Gelb recrutou um coro gospel, os canadianos Voices of Praise, somando matérias espirituais - que nunca soam supérfluas - aos monólogos expressivos que a sua voz salgada entorna graciosamente nos tímpanos.

A música de Gelb é visceral, sentida e vibrante. Também por isso, combina quase na perfeição com a orgânica do gospel; é esse tom místico (não necessariamente religioso) que remata a melancolia seca e o assombro de Gelb (mesmo quando canta sobre coisas ditosas, como é o caso). 'Sno Angel Like You, o quinto exercício individual de Gelb, pode muito bem ser o seu mais sólido trabalho e vem confirmar aquilo que, dele, já se sabia. A Gelb pouco importa o fim; e, neste como noutros discos do músico americano, os expedientes para lá chegar, sejam folk, blues, rock, country ou gospel, num compositor deste calibre, acabam por redundar numa obra essencial.