sábado, 29 de abril de 2006

Gregor Samsa - 55:12

Apreciação final: 7/10
Edição: Own Records/AnAnAnA, Abril 2006
Género: Pós-Rock
Sítio Oficial: www.gregorsamsa.com








No universo kafkiano, o nome Gregor Samsa representa a desafortunada personagem d' A Metamorfose que, num claustrofóbico despertar, se descobre transformado numa gigantesca barata. No mundo da música, tal epíteto baptiza um quarteto americano convertido ao pulsar do pós-rock mais delicado e que se esmera por nos remeter para jogos mentais e ambientes sonoros em crescendo, conjugando as confissões matemáticas da guitarra eléctrica, a placidez do piano e o tom clássico das cordas. No fundo, a proposta não se distancia muito dos costumes dos canadianos Godspeed You Black Emperor! e Silver Mt. Zion, talvez até dos islandeses Sigur Rós. Esta é uma corrente musical que se interroga a si mesma, sacudindo a apatia de fórmulas gastas e alvitrando, sem pretensões, composições de música suspensa, como que incorpórea e sustida no ar, vogante e misteriosa, enchendo vácuos mentais e domando inquietudes. Nesse sentido, a música dos Gregor Samsa é uma terapêutica ansiolítica, um indutor de transes quedos. E é-o porque prende o ouvinte com as tramas de ritmos flutuantes, do sossego minimalista, quase ausente, às subidas íngremes, às implosões súbitas que, em breve tempo, se convertem em inscrições que a ressonância crava na mente. A voz, de aparição fantasmática, é imaterial e ensonada; não se arroga além do mínimo, é servente de algo maior, é fracção de um complexo indivisível.

55:12 é um disco cerrado. A música dos Gregor Samsa deflagra-se em compassos lentos, sem urgência de avançar para os remates. Eles preferem consumir o tempo nos processos, manuseando com desembaraço os fragmentos etéreos do som e do silêncio, tentando aderências improváveis para depois, com a mesma presteza, despegar as combinações e começar tudo de novo. Pena é que, nesses ciclos de ensaio, os lances de entendimento mais minimalista fiquem aquém da pompa mágica e do primor dos momentos mais completos. No primeiro longa-duração do quarteto (depois de dois EP), percebe-se que, mesmo sem oferecerem substâncias desconhecidas, os Gregor Samsa têm fôlego para prender a atenção. E para ganhar o seu espaço. Assim eles se acostumem à carcaça de barata com que acordaram numa estranha manhã...

quinta-feira, 27 de abril de 2006

The Legendary Tiger Man - Masquerade

Apreciação final: 7/10
Edição: NorteSul, Março 2006
Género: Blues/Rock
Sítio Oficial: www.legendarytigerman.com








Paulo Furtado (Wray Gunn, ex-Tédo Boys) é um guitarrista talentoso. Disso já não restavam dúvidas. Das outras edições sob o epíteto The Legendary Tiger Man também era fácil perceber a sua faceta de explorador e a propensão quase inata com que o músico se dedica a dissecar as raízes dos mais puros blues ou, num sentido mais lato (e ambicioso), a reinventar as passadas do rock alimentado a trinados hesitantes de guitarra. No fundo, o conceito é o exigente one-man band, embora neste tomo Furtado convoque outros artesãos, seja para incluir desvarios da mesa de mistura (DJ Nel'Assassin), seja para acrescentar outras especiarias de guitarra (Dead Combo), ou mesmo incluir a máscara soul de João Doce. Não só por isso (mas também), a fluência do registo é a prova evidente de que o som de Furtado está menos mecânico, menos previsível e com ritmos mais versáteis. A escrita das composições é também mais precisa e essa condição sai reforçada da cirúrgica produção de Mário Barreiros. De facto, o acondicionamento de estúdio deu outro corpo às canções de Furtado, sem lhes roubar a singularidade esparsa de outros álbuns, mas abrindo outros ângulos.

Masquerade pode muito bem ser a melhor amostra do alter-ego artístico de Paulo Furtado. Mais uma vez, o músico é incrivelmente hábil a construir um recanto sonoro ímpar, recortado pelo picotado de um álbum de sons da América sulista. Sons de estrada, de poeiras, de cactos e serpentes. E mulheres desejadas. Mulheres sem rosto e sem nome, depositadas em altares de veneração. Do lado de cá destas fantasias, o ouvinte assiste a um desfile de canções que não se resignam a regras. E que baralham (elogio!) os blues de outrora com o Furtado de hoje. Ele ou a máscara desse solitário homem tigre que mostra as garras nos intervalos dos Wray Gunn.

terça-feira, 25 de abril de 2006

Black Ox Orkestar - Nisht Azoy

Apreciação final: 7/10
Edição: Constellation, Abril 2006
Género: Tradicional/Klezmer/Música Judaica
Sítio Oficial: www.cstrecords.com








Os primeiros acordes de Nisht Azoy denunciam uma atmosfera densa, algures entre o registo de um requiem judaico, de compassos lentos e sombrios, e o tom de um cerimonial de tribo, com vozes em uníssono a ensaiarem preces. Há qualquer coisa de ancestral neste som, na solenidade do canto, na evocação da transcendência e na formalidade com que desfilam as canções, ao jeito da antiga tradição do klezmer da Europa de Leste. Mas os Black Ox Orkestar são canadianos e injectam nos enredos festivos do folclore klezmer qualquer coisa de consternação, de melancolia, de introspecção. Ao invés do colorido ritmado, eles recorrem a melodias viradas para dentro, com a espessura emocional de um transe deprimido e buscando habilmente ambientes sonoros que cruzam o medieval com o moderno. A ambivalência do disco é sustentada por instrumentais de excelência com uma deliciosa inconstância de feições, partindo da música judaica tradicional e sugerindo uma série de fragmentos colaterais (música árabe, eslava, dos Balcãs e da Ásia), misturados em formatos pós-rock, sem compromisso com as regras de canção. Nisht Azoy é uma liturgia que sonda a carga dramática de várias escolas musicais e, como seria de esperar de músicos que integram os Godspeed You Black Emperor! ou os Silver Mt. Zion, lhe acrescenta ousadias de improviso e originalidade.

Cheio de espiritualidade, Nisht Azoy é um álbum para adeptos da folk sem espartilhos e com pendor para aproveitar os ensinamentos da world music. É também um disco vibrante e uma proposta tecnicamente imaculada de novos ornatos para a música judaica. A tamanho feitiço sob a forma de disco, a tão grandiosa expedição pela história da música, apenas falta soltar definitivamente as âncoras e cortar as últimas amarras. Porque intérpretes e discos deste volume são documentos de todas as eras e testamentos de todas as gentes. E Nisht Azoy é apenas a segunda jornada dos Black Ox Orkestra rumo à magna obra com que, algures no futuro, hão-de presentear os melómanos sequazes do cruzamento de culturas.

Posto de escutaSítio da Boomkat

domingo, 23 de abril de 2006

MoHa! - Raus Aus Stavanger

Apreciação final: 7/10
Edição: Rune Grammophon, Janeiro 2006
Género: Música Improvisada/Noise
Sítio Oficial: www.runegrammofon.com








O guitarrista Anders Hana (Jaga Jazzist) e o baterista Morten J. Olsen formam o duo MoHa!. Oriundos do submundo do jazz moderno norueguês, os dois jovens músicos experimentam nesta edição o devaneio da música improvisada. Arrítmico e irregular como convém a um álbum deste género, Raus Aus Stavanger é também um disco ácido, cru, sem manipulações de estúdio. É essencialmente um jogo de trabalhos manuais, onde a capacidade técnica e o sentido de oportunidade dos músicos se eleva a fasquias altas. As notas impõem-se com precisão; a energia provém da lenta combustão dos riffs lancinantes da guitarra de Hana, a que se juntam percussões sem compromisso harmónico, tão livres quanto os lacónicos pedacinhos de electrónica que condimentam as composições. Dir-se-ia que, ao seu jeito, os MoHa! subscrevem os preceitos do noise rock experimental, com impetuosos diálogos de sons e estruturas propositadamente fracturadas para testar limites, com explosões vulcânicas a suceder à placidez do discurso mais recatado. Essas flexões e contorções são um exercício masturbatório da mente para os MoHa!; eles exercitam-nas até à exaustão num registo físico, corpóreo. E assim é a música deles. Carnal e lasciva.

Raus Aus Stavanger não encaixa nos axiomas da trivialidade, nem sequer é disco aliado de ouvidos desprevenidos. É música de choques e de caos. Sem âncoras. Sôfrega. Suada. Sinistra, indomável, para chocar, quase ferir. Um murro no crânio. Uma agulha na aorta. Raus Aus Stavanger é a senha para redefinir os extremos das convenções musicais. Curioso é saber que um álbum assim monolítico e impressivo é ainda o registo de estreia (já tinham lançado dois CD-R de distribuição limitada) de um par de aventureiros cuja perícia promete um futuro florescente.

Posto de escutaB1C5C7

sábado, 22 de abril de 2006

Band of Horses - Everything All the Time

Apreciação final: 8/10
Edição: Sub Pop, Março 2006
Género: Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.bandofhorses.com








É praticamente insofismável que, com mais ou menos fintas, estes rapazes gostam do mestre Neil Young. E quando uma banda namorisca um ícone de tal nobreza podem ocorrer uma de duas coisas: ou faz uma mera reprodução de conceitos, incorrendo no pior dos riscos para um artista, o mimetismo, ou assume as reminiscências desse legado num jeito moderno e criativo. Foi assim que os My Morning Jacket subiram ao trono do rock alternativo americano, reinventando o coração da música de Young, sem lhe adulterar os princípios essenciais. E é isso que os estreantes Band of Horses (a aventura musical de Ben Bridwell e Matt Brooke começou com o agora extinto projecto Carissa's Wierd) ensaiam neste álbum, conseguindo um irrepreensível exercício do melhor rock independente. Assente em instrumentais de primeira água e na sobriedade da produção, o som dos Band of Horses, não sendo nada de original, é franco e simples e parece concebido para invocar estímulos emocionais. E fá-lo com a distinção das grandes obras, aquelas que nos inspiram desde o primeiro contacto mas que vão além de amores acidentais. Discos destes desenham ecos com corpo, ficam a ressoar no espírito como se sempre tivessem feito parte do nosso âmago.

A escrita dos Band of Horses não tem segredos: o balanço é quase imaculado entre o fraseado melódico aberto pelas guitarras, a figuração recatada da percussão, a pontuação sugerida pelo baixo e, claro, a reverberante voz de Ben Bridwell, mais aguda que grave. As canções variam da quietude dream pop ao rock expansivo, do trivial ao excelso, dos enigmas em elipse às linhas rectas, do singelo ao elaborado. Atestado anti-monotonia, entenda-se. Reduzir esta música à definição de country é ignorar as múltiplas dimensões nela inscritas, mormente o espectro etéreo do disco, aquele quinhão de vital espiritualidade que nos instiga a desvendar este álbum do primeiro ao último segundo. A Everything All the Time faltam apenas fragmentos de novidade mas, esquecendo esse detalhe, a eloquência deste debute é peremptória: os My Morning Jacket que se cuidem, anda aí uma suposta banda de equídeos pronta a usurpar-lhes o reinado.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Howe Gelb - 'Sno Angel Like You

Apreciação final: 8/10
Edição: Thrill Jockey, Março 2006
Género: Folk/Rock/Blues/Gospel
Sítio Oficial: www.giantsand.com








Chega a ser paradoxal que uma mente tão fértil como a de Howe Gelb resida nas paisagens áridas do Arizona. Do mentor dos Giant Sand, uma das bandas da música americana que gerou mais side projects (Calexico, Friends of Dean Martinez, OP8, The Band of Blacky Ranchette, Rainer, Arizona Amp and Alternator), não seria de esperar nada além da fecundidade habitual. Para este homem, transcrever para uma pauta os esquissos de uma canção é um exercício fisiológico natural, quase intuitivo. As composições são profundamente americanas, vão buscar conselhos à velhinha tradição da folk americana dos tempos em que se cantavam os discursos vadios da classe proletária, de Huddie Ledbetter (a.k.a.Leadbelly) a Woody Guthrie. Ora aí, ora perdidas na páginas imemoriais dos blues de Muddy Waters, Willie Dixon, John Lee Hooker ou Howlin' Wolf (particularmente sensíveis neste disco), as referências de Howe Gelb são retratos a preto e branco, da época do pós-Grande Depressão, de intérpretes de espírito livre, músicos que influenciariam uma segunda geração de rebeldes de caneta aguçada, como Bob Dylan ou Joni Mitchell, já nos anos 60. Comum a todos: a guitarra como arma de arremesso. E Gelb junta como poucos estas talhadas da história americana. De tal jeito que 'Sno Angel Like You é mais do que um mero disco, é uma lição de música, um tributo aos símbolos de ontens longínquos. Se isso não bastasse, para este trabalho, Gelb recrutou um coro gospel, os canadianos Voices of Praise, somando matérias espirituais - que nunca soam supérfluas - aos monólogos expressivos que a sua voz salgada entorna graciosamente nos tímpanos.

A música de Gelb é visceral, sentida e vibrante. Também por isso, combina quase na perfeição com a orgânica do gospel; é esse tom místico (não necessariamente religioso) que remata a melancolia seca e o assombro de Gelb (mesmo quando canta sobre coisas ditosas, como é o caso). 'Sno Angel Like You, o quinto exercício individual de Gelb, pode muito bem ser o seu mais sólido trabalho e vem confirmar aquilo que, dele, já se sabia. A Gelb pouco importa o fim; e, neste como noutros discos do músico americano, os expedientes para lá chegar, sejam folk, blues, rock, country ou gospel, num compositor deste calibre, acabam por redundar numa obra essencial.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

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Frank Myers Boggs, Entering the Port of Marseille, 1882

domingo, 16 de abril de 2006

Morrissey - Ringleader of the Tormentors

Apreciação final: 6/10
Edição: Sanctuary, Abril 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.morrisseymusic.com








Qualquer tentativa de arrolamento dos nomes mais carismáticos da música pop do Reino Unido terá de incluir o nome de Morrissey. Desde o tempo em que os Smiths alimentaram o fôlego de Manchester, em plena década de 80, marcando uma viragem decisiva no conceito rock britânico (dos sintetizadores às guitarras), ao seu trajecto individual, Morrissey afirmou-se como um ícone incontornável, um crooner incontestado e um melancólico controverso, com uma imensa legião de fãs devotos. Esse estatuto foi reforçado com o aclamado You Are the Quarry (2004), disco que o trouxe de volta à primeira linha do mediatismo, depois de um período de sete anos sem gravações. Dois anos volvidos, o britânico está de volta, fazendo-se acompanhar do lendário produtor nova-iorquino Tony Visconti, um nome celebérrimo da era glam-rock, e das orquestrações do maestro italiano Ennio Morricone (para a faixa "Dear God Please Help Me"). Musicalmente, Ringleader of the Tormentors é feito das substâncias costumeiras do mito Morrissey, num registo pop quebradiço e obcecado pela auto-comiseração, conduzido por uma voz espessa e crível e pela revelação de novas cores na vida do autor. A recente mudança para Roma, a alegada descoberta do amor e o fim do tão propalado celibato do cantor reservam o seu lugar no imaginário do disco, desviando Morrissey de alguns trejeitos histriónicos (típicos nos Smiths) e trazendo-o a um discurso de indulgências terra-a-terra.

Ringleader of the Tormentors não faz uso das lâminas da denúncia e, ao invés, é o mais romântico dos trabalhos de Morrissey, uma espécie de elegia consagrada às afeições. E essa é a sua maior falha, a omissão da grandiloquência que Morrissey opõe à privação e o esquecimento da sátira social caçadora de consciências dormentes. Dos (des)amores de Ringleader of the Tormentors sobram apenas algumas composições dignas do legado de Morrissey e a constatação de que este veterano da pop se esqueceu do ensinamento precioso que Iggy Pop e David Bowie imortalizaram na canção "Lust for Life". Aí, algures, se dizia: "Something Called Love (...), that's like hypnotizing chickens". E Morrissey já sabe que há muito mais na vida do que hipnotizar galinhas.

sábado, 15 de abril de 2006

Moonspell - Memorial

Apreciação final: 6/10
Edição: SPV/Universal Music, Abril 2006
Género: Metal Gótico
Sítio Oficial: www.moonspell.com








Os portugueses Moonspell estão de volta. Depois da magna edição de Antidote (2003), um dos trabalhos mais substanciosos do percurso da banda, o sucessor Memorial estará nos escaparates no final de Abril. Recuperando a produção de Waldemar Sorychta - já havia misturado os primeiros trabalhos do grupo - os Moonspell cuidam de remexer na geometria do seu som, através do reforço do segmento gótico e dos ambientes negros. A voz de Fernando Ribeiro exprime-se em orações mais guturais, sem o mesmo sossego melódico que adornava algumas das faixas do antecessor. Se tal variação aproxima Memorial dos exercícios mais antigos da mais internacional das bandas lusas, não é menos verdade que, sem a volubilidade vocal que caracterizou os instantes mais inspirados do percurso dos Moonspell, o alinhamento do álbum se torna mais uniforme e, consequentemente, menos chamativo. A produção de Sorychta sublinha a face sombria das composições, apostando na emotividade das teclas e secções rítmicas para desenhar ambientes mais contemplativos do que os de The Antidote mas, a despeito do perfeccionismo técnico, empacota as faixas com a mesma receita, tornando-as demasiado iguais para serem tomadas por dissemelhantes. Nesse aspecto, o pecado é dividido com a escrita complexa dos Moonspell, uns furos abaixo da média que se exige a protagonistas deste quilate.

Memorial é um disco de ambientes requintados, uma espécie de cântico negro que toca na alma e faz vibrar (inquietar) o espírito. Nisso, os Moonspell são mestres. Pena é que a escrita tenha ficado aquém daquilo que eles podem fazer, preferindo repousar no refúgio confortável das ideias já exploradas no passado, recalcando-as com a competência costumeira, mas sem procurar a inovação criativa que os catapultou para a primeira linha do metal gótico. Memorial é certamente gótico e conserva aquela pujança que aprisiona o ouvinte e o tenta a experimentar uma visita aos argumentos mais escuros de si mesmo, sujeitando-se à pungente introspecção dos relatos do seu memorial. Ainda assim, falta-lhe o fragmento de excelência dos Moonspell, algo que poderia abrir-lhe as portas do panteão onde residem as castas de elite do metal gótico. E artesãos da igualha dos gloriosos Moonspell não se podem dar por satisfeitos com menos do que isso.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Destroyer - Destroyer's Rubies

Apreciação final: 8/10
Edição: Merge, Fevereiro 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.mergerecords.com








O ego de Dan Bejar não se enche apenas com o êxito do ensemble The New Pornographers. A par do envolvimento nesse colectivo de celebridades das correntes mais alternativas da música canadiana, onde divide as composições com A.C. Newman, Bejar é o homem por detrás do projecto Destroyer. Com um percurso a solo paralelo ao trajecto dos Pornographers, o músico busca ambientes pop um pouco mais recatados, com enfoque especial na expressividade das canções, orientadas pelo discurso da guitarra, a acomodar o imediatismo dos poemas. O resto é pura diversão, às vezes com réstias daquela dimensão teatral que os Pornographers tão bem subscrevem, no resto do tempo com uma simplicidade desarmante e um peso emocional vincado. E ao conjugar estes ingredientes assim, Bejar recorre ao mesmo imaginário de Bowie, esse legado mágico onde o psicadelismo subliminar alimenta a letra e agarra a música pela mão. Canções com substância, entenda-se. Ao mesmo tempo, as convenções são postas de parte; Bejar prefere assumir uma certa esquizofrenia criativa, algo patente no jeito com que molda as suas canções fazendo uso dos paradigmas da folk e integrando-os com propriedade nas matrizes do rock lo fi. O desfecho é um pouco labiríntico, roçando os limites do (des)entendimento, mas sobeja a inspiração de uma escrita propositadamente densa.

Destroyer's Rubies é uma massa sonora rica de conteúdo. Isso não surpreende em Bejar. Da mesma forma, não é novo que o disco revele uma certa predilecção pela metáfora. Ou pela repetição. Mas com Bejar nem a aliteração é irritante, mesmo quando se encaminha pelo aparente facilitismo dos la la la la las (e há muitos!). É por isso que dele se escreve que está numa encruzilhada pop-folk-qualquer-coisa, entre os lugares despovoados de Dylan, as pradarias coloridas de uns Beatles ou as alucinações espalhafatosas de Bowie. O amparo é ilustre, Bejar aceita-o mas não se resume a isso. É precisamente o pedacinho que ele acrescenta que faz deste Destroyer's Rubies o melhor produto do seu percurso a solo e, em simultâneo, um dos momentos pop mais inspiradores deste ano.

terça-feira, 11 de abril de 2006

The Flaming Lips - At War With the Mystics

Apreciação final: 7/10
Edição: Warner, Abril 2006
Género: Pop-Rock Alternativo/Experimental
Sítio Oficial: www.flaminglips.com








Quanto mais se ouvem os norte-americanos The Flaming Lips mais se lhes acham vestígios de invulgaridade. Considere-se isto pop de elites melómanas ou outra coisa qualquer que rime com música espacial, a verdade é que o som da banda do guitarrista Wayne Coyne parece produto de outra dimensão, com um aparato orquestral e uma mística incomuns. Ao décimo segundo trabalho de um percurso marcado pela irreverência criativa e pelo apetite recorrente pela reinvenção, os Lips conservam intactos os argumentos que lhes asseguraram o estatuto de bem-amados da música alternativa dos E.U.A.. Está aqui tudo: melodias que nos abraçam, arranjos psicadélicos a virar-nos do avesso, uma produção cheia de tiques e minudências suculentas e tramas sonoras pautadas pelo experimentalismo. Além disso, At War With the Mystics é um álbum conciso, exorciza habilmente a tentação dispersiva que este tipo de som sugere e aí reside a sua força motriz. As canções continuam a ser um veículo privilegiado para cruzar emoções (e estilos), embora fiquem aquém das duas edições anteriores do grupo.

At War With the Mystics é um disco com conotação política clara. O destinatário: George W. Bush. Ou o seu alter-ego num espaço sideral imaginado por Coyne. E quando se trata destas aventuras de faz-de-conta-que-és-astronauta-mas-afinal-és-um-músico com metáforas porreiras não há melhor do que Coyne e seus pares. Eles avistam, focam, assentam arraiais e exploram, sondam e pesquisam. E não se dão por satisfeitos. Só faltou alcançar a mesma centelha que iluminou The Soft Bulletin (1999) ou Yoshimi Battles the Pink Robot (2002). Mas isso talvez fosse pedir de mais. Ainda assim, esta expedita quadrilha de salteadores do espaço continua a tirar o véu a segredos universais proibidos. Pois que nos deixem continuar a testemunhar estes pedaços raros de música de uma galáxia desconhecida.

domingo, 9 de abril de 2006

sábado, 8 de abril de 2006

Graham Coxon - Love Travels at Illegal Speeds

Apreciação final: 6/10
Edição: Parlophone/EMI, Março 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.grahamcoxon.co.uk








Já se sabe que Graham Coxon se sente bem no resguardo da música convencional. Do seu percurso a solo este é já o sexto rebento e vem confirmar, na linha dos antecessores, que o ex-guitarrista dos Blur, é transparente. Se ele fosse um mero caixeiro-viajante, de passagem por uma qualquer localidade perdida nos mapas, usaria o gasto pregão: "Não estou aqui para enganar ninguém!". E não está, de facto. A sua música é isto. Pode-se-lhe imputar alguma simplicidade seguidora dos manuais do pós-punk - com combinações pouco polidas de acordes - e um perfil irresoluto no andamento das canções. Esse é, de resto, um dos embaraços deste Love Travels at Illegal Speeds cujo rol de composições se divide entre duas extremidades: uma face mais rock, com mais chama e nervo (um mix da festividade 80's com o embalo dos 60's) e, outra, recatada e lo-fi, com as meditações a ajustarem-se às medidas de balada. O outro óbice é estratégico. Se nos primeiros discos a solo ele se entreteve a sondar as camadas mais experimentais da pop, tentando demarcar-se da sombra dos Blur e buscando outra identidade musical, agora parece mudar a agulha e fazer uma fuga para a frente, com tantos mimetismos Blur que a dúvida nasce. Ele está com saudades? Peculiar mesmo é descobrir, depois de algumas audições, que as alavancas do disco estão na herança dos Blur. Falta a lima de Damon Albarn.

Love Travels at Illegal Speeds é um álbum generoso e, mesmo não contendo nada de especialmente inovador, merece uma escuta. Quanto mais não seja porque o seu mentor foi foco criativo de um dos mais estimulantes ensembles da britpop dos anos 90. Claro que Love Travels at Illegal Speeds não é um disco dos Blur. Coxon, sozinho, não chega a tanto. Mas é, ainda assim, um exercício pop de boa casta, revelador de um músico maduro e com vistas largas o suficiente para urdir um disco com um som moderno (e fresco), sem pejo de espreitar por cima do ombro e aproveitar umas pistas do passado. E Coxon tem orgulho (saudade) das fotos no álbum de fotografias.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Ben Harper - Both Sides of the Gun

Apreciação final: 5/10
Edição: Virgin, Março 2006
Género: Pop-Rock
Sítio Oficial: www.benharper.net








Ben Harper é rapaz para andar nestas coisas da música há uma dúzia de anos e despertou para o estrelato com o álbum Fight For Your Mind (1995). Nessa edição, Harper afirmou-se como um trovador de emoções, um escritor de canções singelas e um contador de histórias com protagonismo (e talento) suficiente para se impôr nos circuitos da pop menos comprometida com o mainstream. Num registo que guardava a alma negra da soul, a misantropia da folk quintessencial, o canto interventivo da tradição gospel e os princípios básicos da canção pop, Ben Harper estabeleceu um padrão diferente para as camadas espirituais da música comercial, alargando as fronteiras de um género musical muito pouco dado a mexidas. Instrumentista de créditos firmados, Harper foi gradualmente erigindo um património musical sólido e uma assinatura credível como compositor. O que Harper terá esquecido é que, por mais que seja virado do avesso, o mundo pop acaba por voltar ao ponto de partida, rejeitando no decurso os ensaios de transformação. Assim o tempo engoliu Harper. E lhe fechou as mesmas portas que ele meritoriamente escancarara.

Both Sides of the Gun é a sua mais recente tentativa de reabilitação, pegando nas mesmas ideias de sempre e enfeitando-as de canções novas. O azar de Harper é que a fórmula dele (que há quem considere única...) se esgotou e não há muito a fazer pelas composições que enchem este CD duplo. O primeiro disco é um arrastado bocejo de baladas, ao jeito de um jovem escuteiro em galanteio das miúdas do acampamento. O outro tomo, decididamente mais vivo (e mais merecedor do espaço nos escaparates das discotecas) não consegue, mesmo imitando alguns trejeitos engraçados da academia funk, superar em muito a mediocridade criativa do seu parceiro de caixa. É por isso que Both Sides of the Gun se resume a duas mensagens. Uma delas, é de que Ben Harper esgaravata para se manter à tona do turbilhão das suas próprias ideias. A outra é de que ele é, hoje, à custa de discos como este, apenas uma pálida reminiscência de outros tempos. Qualquer que seja o lado da arma, estes tiros conseguem a rara deformidade de apontar a tudo e a nada ao mesmo tempo. Também por isso, soam tão inócuos como alguns disparos de pólvora seca.

terça-feira, 4 de abril de 2006

Yeah Yeah Yeahs - Show Your Bones

Apreciação final: 6/10
Edição: Interscope, Março 2006
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.yeahyeahyeahs.com








Três anos depois do estrondo com o ardente Fever to Tell, documento musical que integrou o pelotão da frente de um movimento revivalista do rock de garagem, o trio nova-iorquino Yeah Yeah Yeahs está de volta, com o segundo álbum de originais. Desengane-se quem buscar em Show Your Bones a mesma doutrina do antecessor. É certo que as máximas criativas estão cá, mas surgem moldadas a um formato menos cru, distante das improbabilidades celestiais de Fever to Tell. A competência com que os Yeah Yeah Yeahs mantinham, no álbum anterior, o equilíbrio no arriscado limbo da exequibilidade, recreando-se em fintas improváveis a três e desenhando canções quase impossíveis, esvaziou-se para dar lugar a construções melódicas lavradas com mais pormenor e que reforçam o flanco artístico do grupo. Nesse sentido, este disco é uma declaração de amadurecimento, mais art-rock-pop do que outra coisa qualquer, e procura trajectos distintos, sugerindo música com outras soluções e mais polpa. As referências reportam-nos para coisas estranhas, um híbrido de PJ Harvey antes do café da manhã, com uns Sonic Youth aparafusados, uns White Stripes sem anfetaminas, o espírito de um Josh Homme em mulher e uns Souxsie and the Banshees em afogamento. Misturando isto tudo, tem-se um álbum nervoso (e indefinido?), no mínimo.

Show Your Bones sonda terrenos novos para os Yeah Yeah Yeahs e, como todas as missões exploratórias, esquece o Norte em alguns instantes. Pior do que isso, o disco hipoteca a força motriz do grupo, aquela pujança rebelde e sentido de urgência que haviam catapultado Fever to Tell para os píncaros do êxito na comunidade indie. Karen O é um retrato a preto e branco dela mesma, refugiando-se em registos vocais menos expansivos. As guitarras de Nick Zinner são reproduções micro machines do álbum anterior. Os enigmas da percussão de Brian Chase assinam o livro de presenças, mas ficam no canto da sala. A Show Your Bones falta corpo, suor, energia. E os Yeah Yeah Yeahs tinham-na na mão. Não perceberam que, às vezes, melhor do que tentar agarrar outros pássaros (leia-se, avançar no tempo), é resguardar aquele que vem comer à nossa mão. Mesmo que ele seja destrambelhado. Como brilhantemente era Fever to Tell.

domingo, 2 de abril de 2006

Erro! - Isto é o quê, mãe?

Apreciação final: 7/10
Edição: Cobra, Fevereiro 2006
Género: Experimental
Sítio Oficial: http://erro.planetaclix.pt/








"Outra vez aquele som que se prende à parte de trás da tua mente". Assim escreve (e diz em jeito ressonante) João Palma na primeira frase do seu disco de estreia. Profecia ou petulância? O arquitecto lisboeta não é um músico de vocação, entregou-se a estas lides ao descobrir os favores do computador para fazer música, depois de ter sido instrumentista em alguns projectos locais da capital nacional. Em boa verdade, Isto é o quê, mãe? é música com uma forte componente experimental e onde se encaixam monólogos de reflexão existencialista. Não há palavras cantadas, elas cruzam-se com as texturas sonoras, em orações que retratam o quotidiano de um homem e de uma cidade. É, por isso, um álbum profundamente urbano, de sons polidos e de invenções progressistas. Depois, há qualquer coisa de maquinal, na intencionalidade com que os sons colados olham para dentro, mirando a face mais introspectiva do músico (e do cidadão) e buscando, com retóricas ironias, a purgação de impurezas do espírito. A música torna-se inevitavelmente convulsa, ora inquietante ora pacificadora, sublinhando os ecos agrestes que se libertam das palavras. Musicalmente, Isto é o quê, Mãe? pode não trazer conceitos revolucionários, nem a tal se candidata; é, antes de mais, um disco que resgata os esqueletos do armário, dá-lhes liberdade e margens dilatadas, a vogar algures entre os propósitos mais recentes da música electrónica de vanguarda (qualquer coisinha de Steve Reich), um cheirinho de rock com um lastro Joy Division ou Sonic Youth e qualquer coisa que só tem lugar nos imensos buracos negros do universo musical. Ou aí, ou nos cromos fugidios do álbum da vida de João Palma.

Isto é o quê, Mãe? é um disco ambivalente e com os tons cinzentos de uma Lisboa com arco-íris. Comove na mesma medida que perturba. É música fria e visceral, de temperamento orgânico, como se fôra o discurso de um mecanismo artificial à procura do sentimento. E, a despeito de instantes menos felizes, João Palma faz do seu Erro! uma criatura digital com vida. E, aqui e ali, nesta edição com a chancela da editora de Adolfo Luxúria Canibal, o músico faz-nos crer que, de moto próprio, alguns sons conseguem mesmo prender-se à parte de trás da nossa mente.

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quinta-feira, 30 de março de 2006

Atraso na actualização do apARTES

Saudações musicais a todos os utilizadores deste blog.

Em virtude da assunção de novas obrigações profissionais do seu autor, o apARTES não mereceu a actualização a que os frequentadores deste espaço estão habituados. Por esse facto, deixo as minhas desculpas e informo de que a normalidade será paulatinamente reposta a partir da próxima semana.

Entretanto, para que os amantes da música que aqui buscam algumas sugestões não fiquem de mãos a abanar, deixo uma curta lista de discos que tenho ouvido (não com a frequência que gostaria) e que virei a analisar com mais detalhe num futuro próximo. Assim, têm passado pelo meu leitor de cd's os seguintes títulos:

  • BEN HARPER "Both Sides of the Gun" ;
  • ERRO! "Isto é o quê, mãe?" ;
  • CESÁRIA ÉVORA "Rogamar" ;
  • DRUMS AND TUBA "Battles Olé" ;
  • ELLEN ALLIEN & APPARAT "Orchestra of Bubbles" ;
  • GRAHAM COXON "Love Travels at Illegal Speeds" ;
  • LOOSE FUR "Born Again in the U.S.A." ;
  • YEAH YEAH YEAHS "Show Me Your Bones" ;
  • ACEYALONE & RJD2 "Magnificent City" ;
  • DESTROYER "Destroyers' Rubies" ;
  • MANTA RAY "Torres de Electricidad"

Obrigado pela vossa paciência e fidelidade ao apARTES.
Boas audições.

segunda-feira, 27 de março de 2006

Ojos de Brujo - Techari

Apreciação final: 7/10
Edição: PIAS, Fevereiro 2006
Género: Fusão/Música Flamenca
Sítio Oficial: www.ojosdebrujo.com







Quer se queira quer não, a música dos Ojos de Brujo é flamenco. Pode não se ajustar à definição mais purista do termo, mas o espírito nómada e virtuoso da música cigana da Andaluzia (que depois se tornou símbolo da nação espanhola), a independência orgulhosa das guitarras em quase-improviso, as vozes plurais em uníssono, as palmas a acompanhar e a musicalidade típica da cultura cigana estão em Techari. O título do disco é o sinónimo romaní de "livre" e assim é a música dos Ojos de Brujo. Eles não se circunscrevem ao precioso substrato do flamenco e misturam-no com alguma electrónica, uns pozinhos de sonoridades orientais e, no mais arrojado investimento, vão buscar alguns jogos vocais ao hip-hop e insinuações instrumentais mais próprias de um disco de funk ou reggae. A esta miscigenação de géneros não é indiferente a família de colaboradores convidados para o álbum, de que fazem parte os britânicos Nitin Sawhney e Asian Dub Foundation.

Ao terceiro álbum, os Ojos de Brujo sublimam os preceitos de um conceito musical que toca correntes musicais ancestrais, da antiguidade egípcia à cultura muçulmana, do sangue quente do povo cigano ao magnetismo do som oriental, da urbanidade da expressão africana à órbita sensual dos bailados e sapateados latinos e das castanholas. De Sevilha a Dakar e Timbuktu, com escala em Londres, Xangai, Dehli e Havana. Musicalmente poliglota e escorreito, a Techari pode apenas apontar-se uma disfunção: ao tentarem interceptar, em simultâneo, uma infinidade de escolas musicais, os Ojos de Brujo comprometem algumas composições e acabam por refrear o discurso mais elogiável do seu arsenal (e aquele em que melhor concentram energias), o flamenco. Só é pena que o disco não nivele por aqueles instantes em que o flamenco melhor se concilia com outros estilos (o cruzamento com o reggae em "Corre Lola Corre", na oriental-rap "Todo Tiende" ou no hip-hop frenético de "El Confort No Reconforta") porque, aí, os Ojos de Brujo são pouco menos do que esplêndidos.

sexta-feira, 24 de março de 2006

Neko Case - Fox Confessor Brings the Flood

Apreciação final: 7/10
Edição: Anti, Março 2005
Género: Pop-Rock Alternativo/Country
Sítio Oficial: www.nekocase.com








Ao quarto álbum de estúdio, a voz de Neko Case está melhor do que nunca. Ela é senhora daquele tipo de cordas vocais que vão refinando com o gosto do tempo, buscando a sublimação da expressividade e reforçando a elegância em cada timbre. Uma voz destas, assim profunda, faz de qualquer emoção, mais do que uma intuição, uma força tangível, que se sente e quase se toca. Ao mesmo tempo, apetece degustar, num compasso lento, a pureza inata do registo vocal reverberante de Case, como se de um corpo sacro se tratasse e, portanto, não susceptível de se misturar com a mortalidade do ouvinte. No fundo, sem olvidar o nexo com o efémero (as canções falam de amores confusos e amizades e crenças corrompidas), a música deste Fox Confessor Brings the Flood tem qualquer coisa que não se conforma às leis naturais e o veículo essencial dessa frente imaterial é mesmo a voz de Case. Se isso não é bastante, pode ainda somar-se que a autora apurou o sentido estético das suas criações, aventurando-se num espaço sonoro aberto, com influências óbvias da música country mais taciturna e alguns desvios sempre oportunos para revisitar outros géneros.

O porte garboso das composições é ingénito, a secundar com propriedade a excelência do canto de Case, graças a uma trupe de instrumentistas ilustres (Howe Gelb, John Convertino, Joey Burns, Garth Hudson e a voz secundária de Rachel Flotard). Tudo embrulhado numa produção cautelosa, a sugerir a porção vocal como substância primeira e a prover as canções de um lisonjeiro embalo anacrónico. Ao mesmo tempo, o abuso detalhista da produção nem sempre faz justiça à dinâmica suavemente anarquista da escrita de Case, moderando as sucessivas derivações que, na mesma canção, nos transportam da sonoridade country tradicional para outra coisa qualquer, um híbrido tão encriptado quanto os poemas. E é pena que, com canções (e voz) deste quilate, a produção se confine à mera comodidade do hábito e não se atreva a seguir o espírito errante de Case. Mesmo assim, Fox Confessor Brings the Flood é a prova de que ela está na crista da onda (depois do êxito com os New Pornographers, no ano transacto) e de que ainda há discos (e vozes) que nos enfeitiçam de tal forma que não parecem desta era. Não parecem de era nenhuma.

quarta-feira, 22 de março de 2006

O mito de Saturno por Goya e Rubens

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Integrado no ciclo "Quadros Negros", catorze pinturas que Goya deixou nas paredes da sua última residência, a Quinta del Sordo, entre 1820 e 1824, esta obra (à esquerda) faz parte da fase obscura do artista e retrata o episódio da mitologia Romana em que o deus da fertilidade, Saturno, temendo que um dos seus filhos lhe viesse a tomar o trono, devora a prole. Reza a mitologia que, para proteger o sexto rebento (Jupiter), Reia (ou Cibele) o trocou por uma pedra trajada com as vestes do filho. Salvo da gula desenfreada do pai, Jupiter viria a ser figura de proa na ilha de Creta, obrigando o pai a regurgitar os irmãos e erguendo um monumento com a pedra que Saturno engulira por engano.

A crueza canibalista da imagem relega para segundo plano a contextualização mítica, centrando-se na dramatização visual da loucura e do horror do episódio de Saturno. Em alternativa, a visão menos improvisada do pintor flamengo Peter Paul Rubens (de 1686, à direita), sendo mais refinada e com uma dimensão épica acrescida, retém a crueldade sem remorso de Saturno.

terça-feira, 21 de março de 2006

Calexico - Garden Ruin

Apreciação final: 6/10
Edição: City Slang/Edel, Março 2006
Género: Country Alternativo/Pop
Sítio Oficial: www.casadecalexico.com








Não é que a voz fique deslocada no universo sonoro dos Calexico, mas é quase intuitivo aprender a gostar mais deles nos registos menos cantados, especialmente pelas particularidades eclécticas das composições, à procura de espaços de convergência entre a musicalidade americana, nas suas várias ramificações, e diversas influências de origem ímpar, como os tons western (a trazer à memória o mestre Morricone), a música nutrida por guitarras acústicas, mesmo o jazz e alguns laivos da América Latina. Foi assim que Joey Burns e John Convertino adubaram as fórmulas do projecto, dando origem a um country árido - não fossem eles do Arizona - muitas vezes instrumental e rico em reproduções de cenários com cowboys, desertos, cactos sedentos e veredas de pó. Garden Ruin aceita isso tudo sem resmungar, mas lança um sopro que embacia algumas dessas substâncias e, por troca, aceita visitas mais prolongadas da voz. As composições adornam-se como canções, com tempos medidos, versos e refrões. Tudo tão certinho que até parece que Burns e Convertino se estão a armar ao pingarelho e trocam a largura de vistas musicais que era expediente costumeiro por um disfarce de songwriter. Mesmo assim, a parte musical das faixas conserva alguns dos ingredientes da quintessência do grupo, ainda que condensados o suficiente para caberem nos manuais pop. Porque pop é o código de Garden Ruin que nem a diversidade instrumental do disco consegue dissimular.

Garden Ruin é o modelo light dos Calexico. Embora tecnicamente irrepreensível, a incursão pelo espaço da pop mais orelhuda hipoteca uma parte significativa da musicalidade e das fantasias do grupo. Dos fragmentos que restam do passado, não se esboçam as mesmas paisagens, antes se decretam pactos com a mediania. Talvez assim, com estas derivações comerciais, os Calexico finalmente venham a colher as honras que fizeram por merecer até aqui. O preço do mediatismo pode ser o adeus às areias do deserto. No caso deles, lamenta-se que a fuga às origens traga atrelada uma reacção alérgica: o ocaso criativo.

segunda-feira, 20 de março de 2006

Sepultura - Dante XXI

Apreciação final: 7/10
Edição: Steamhammer, Março 2006
Género: Heavy Metal/Thrash Metal
Sítio Oficial: www.sepultura.com.br








Depois das convulsões internas que levaram à deserção do antigo vocalista e líder Max Cavalera (hoje é a alma do projecto Soulfly), em 1996, os Sepultura foram forçados a um segundo tirocínio, precisamente no momento em que o seu percurso artístico chegara ao auge, com o aplauso da crítica à edição de dois álbuns referenciais do trash metal: Chaos A.D. (1993) e Roots (1996). À fase de problemas internos, seguiu-se uma certa travessia do deserto, com o recrutamento da nova voz do grupo (o americano Derrick Green) e alguns lançamentos sem a mesma chispa do período Cavalera. Com o êxito dos Soulfly, a censura subiu de tom, pressagiando a inaptidão do colectivo radicado no Brasil para sobreviver sem o seu mentor. Indiferentes às vozes de discórdia, os Sepultura seguiram o seu caminho, maturaram processos e, sem caírem na tentação de copiar o passado, tentaram ressuscitar o élan e recuperar o protagonismo que, por mérito próprio, haviam conquistado. Roorback (2003) foi o primeiro passo nesse sentido, mostrando um Derrick Green cada vez mais cómodo e resgatando o fervor thrash de outros tempos. Dante XXI é o mais recente produto do renascimento da banda e toma a mesma doutrina do antecessor. A primeira evidência que decorre da audição do novo disco é o crescimento da química entre os elementos da banda, resultando num som de crueza imaculada, ora no registo acelerado ora nos tons mais sombrios. Também Green está mais solto, definitivamente livre de fantasmas e acrescenta às texturas a diversidade vocal (em certos instantes faz lembrar Jaz Coleman dos Killing Joke) que não existia em Roorback. A nível técnico, Andreas Kisser continua a servir-se da guitarra como poucos na cena metal, arquitectando riffs com boa intensidade rítmica, contando com a preciosa ajuda das percussões explosivas de Igor Cavalera e do baixo firme de Paulo Jr.. Se isso não basta, este álbum ainda tem espaço para introduzir as cordas no catálogo dos Sepultura, mormente no recurso a violinos na sublime "Ostia".

Inspirado na magna "Divina Comédia" de Dante, também dividida em três partes (o Inferno, o Purgatório e o Paraíso), o álbum tem as dimensões de uma obra conceptual e demonstra um balanço quase perfeito entre a fúria incontida e o refinamento estético das texturas. Talvez pudesse ir mais além no arrojo das composições, mesmo na apresentação dos segmentos de cordas, mas não restem dúvidas de que há aqui puro T.N.T.. De permeio entre as partes do disco, estão quatro mini-peças (pequenas demais?) instrumentais que, por um lado, dão um descanso aos tímpanos e permitem recuperar o fôlego e, por outro, acrescentam condimentos ao cardápio. Dante XXI é, seguramente, o melhor trabalho da era-Green e, à luz das teses dantescas, não estará no Inferno, tampouco no Paraíso. É mais um avanço para galgar a montanha que Dante imaginou como passagem das almas da superfície terrena para as portas do Paraíso. De Dante, os Sepultura atraem esse purgatório, algo que começaram depois de Max Cavalera. Dante XXI mostra que eles estão um bocadinho mais perto do Éden.

sábado, 18 de março de 2006

J Dilla Jay Dee - Donuts

Apreciação final: 7/10
Edição: Stones Throw, Fevereiro 2006
Género: Rap Underground/Sampling/Beats
Sítio Oficial: www.stonesthrow.com/jdilla








Produtor reputado na cena hip-hop, J Dilla mereceu o reconhecimento artístico da elite do género, caindo nas graças de nomes como De La Soul, Common ou Busta Rhymes. Por ironia do destino, a doença prolongada que recentemente o tinha forçado a fazer a última tournée europeia sentado numa cadeira de rodas, haveria de roubá-lo à vida pouco tempo antes da edição deste segundo álbum, com 32 anos. Mais do que um requiem, Donuts é uma amostra da mestria inestimável do ex-membro dos Slum Village, um misto hip-hop / soul, firmado numa infalível cadeia de samples. A sucessão das faixas prova a perícia na escolha das várias fracções musicais, armando um corpo musical que, por pescar em referências mais e menos óbvias, esboça um espaço sonoro moderno. Todavia, a amplitude do disco é artesanal (bastam a J Dilla um drum kit, um sampler e alguns discos empoeirados), como convém a alguém desta estirpe, ousando cortar a maioria das composições e os melhores fraseados melódicos abaixo dos dois minutos sem pensar em criar-lhes as transições da praxe. No fundo, Donuts não é um álbum clássico de beats - tem muitas fracturas para isso - e é mais um esquizofrénico esquisso, uma confusão bem arrumada de uma miríade de pedaços musicais, sem sequência lógica (ou podermos chamar-lhe lógica desconstrutiva?). Mais do que o trabalho de um músico, trata-se de um apurado exercício de produção de um musicólogo, um especialista em retratar as várias dimensões do hip-hop e respectivas mestiçagens com a soul.

Donuts é um documento abarrotado de fatias de história. Não tanto a história da música, nem sequer a narrativa da música negra. Jay Dee não se atreveria a tal. A biografia encriptada por detrás deste som é a de um homem refém da doença e que, rodeado de discos que lhe marcaram a curta existência, nos mostra, cruamente, o seu engenho. E a suprema ironia do seu talento (da sua despedida) é tão refinada que escapa aos mais distraídos: os cortes abruptos nos loops e nos samples, muitas vezes no ponto mais cativante das composições, são a forma de Jay Dee se despedir, na linguagem que mais aprecia - a música - com grandes canções que, mesmo que cortadas subitamente (e até de forma iníqua), não deixam de ser grandes canções. Tal como a vida que a sina tirou a Jay Dee.

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Paul Cézanne, Le Paysan, 1891

quinta-feira, 16 de março de 2006

Man Man - Six Demon Bag

Apreciação final: 8/10
Edição: Ace Fu, Fevereiro 2006
Género: Experimental/Fusão/Rock Psicadélico
Sítio Oficial: www.wearemanman.com








Se houvesse uma trupe dos inventores musicais mais originais, certamente Honus Honus lá teria um lugar cativo. Ele é o núcleo criativo do peculiar quinteto Man Man, um dos mais bizarros ensembles do panorama presente da música americana. Fixar estremas para um cunho musical tão impressivo e sem juízo é tomar-lhe apenas uma parte. Os vestígios de Tom Waits (especialmente da fase Swordfishtrombones (1983)) ou Captain Beefheart disfarçam-se de regulamento interno do grupo e são o esteio perversor das regras da ciência musical. Para os Man Man, cada trecho de música é uma espécie de fanfarra, o palco é um circo insano onde a charanga dá largas a fantasias desmedidas. Eles são assim mesmo: uma psicadélica arma de destruição maciça, uma orquestra digna da Babilónia, sem régua e esquadro, com pianos, percussões, sopros e objectos impróprios. A isso acresce uma pitada de vangardismo, não muito comedido, diga-se, e uma dose imoderada de doidice. E como para se ser um grande maluco ainda não se paga imposto, Honus e os seus pares desligam-se da realidade, pegam nos instrumentos e empenham-se bem em mostrar-nos que sabem de cor como se faz música sem pátria, sem família e sem tempo. Afinal, Six Demon Bag consegue confundir (é um elogio!) o pop extrovertido, o rock espampanante, as marchas klezmer, o tribalismo, a valsa, a balada cigana, os coros de pirata e todo o tipo de surpresas e reviravoltas mais inesperadas. Hinos de insanidade.

No meio de tanta excentricidade (é outro elogio!), com títulos das músicas tão pitorescos quanto "Young Einstein on the Beach" ou "Banana Ghost" e cartões de visita dos músicos tão estranhos no sítio oficial (www.wearemanman.com), nunca se esperaria música convencional. Six Demon Bag está nos antípodas disso. E se não está nos cumes da originalidade - porque já se fizeram coisas parecidas - tem ao menos o caprichoso deslumbramento de tirar o véu a um mandamento insofismável da música. Aqui, como noutras etapas da história, o génio anda de mãos dadas com o louco. E, se isso não bastasse, ainda desata o saco onde tinha guardado os seus demónios. Ao que consta, uma meia dúzia deles.

quarta-feira, 15 de março de 2006

Jel - Soft Money

Apreciação final: 5/10
Edição: Anticon, Fevereiro 2006
Género: Hip-Hop Instrumental/Sampling
Sítio Oficial: www.anticon.com








Há criações musicais que vingam pela tentativa de captar um certo perfeccionismo estético, colocando um enfoque especial na produção das composições e na moldagem electrónica dos sons. Soft Money é um desses produtos e trata-se do quinto exercício a solo de Jeffrey James Logan, membro dos 13 & God, sob o alter ego artístico de Jel. Das diversas camadas sonoras que se sobrepõem em cada faixa do alinhamento, brota uma mescla de géneros, tripartida entre o hip-hop de feição instrumental, o experimentalismo e alguns conceitos psicadélicos que, neste caso, servem o propósito de dotar os ambientes do disco de outras dimensões. Jel é um malabarista de samples e loops, de vocais processados artificialmente, de baixos a pontuar em funk; usa-os abundantemente para criar ilusões e, no seu jeito, ousar a renovação dos manuais do hip-hop mais underground. Nesta cruzada, faz-se acompanhar de uma boa colheita de colaboradores, como são os casos, entre outros, de Stephanie Bohm (do projecto electro minimalista Ms. John Soda), de Andrew Broder (Fog) e Odd Nosdam (dos aclamados cloudDEAD). Mesmo assim, ainda que a sonoridade do álbum seja convincente e ateste as aptidões de Jel, a audição de Soft Money não suscita o mesmo tipo de atracção que outras edições recentes da Anticon e, pior do que isso, abeira-se de uma toada aliterante, muito próxima da monotonia. Depois, os conteúdos das letras não escapam a clichés recorrentes no tempo presente, como a diatribe hostil à administração Bush ou a sátira da decadência consumista da espécie humana o que, a despeito de algumas asserções bem alinhavadas, não chega a aquecer. Ou arrefecer.

Soft Money é um disco para adeptos do hip-hop instrumental. Progressivo? Talvez. Problema maior: uma ou outra composição meritória (por exemplo, "No Solution") não chegam para dar ao disco a amplitude que se deve reclamar a um autor como Jel. E a uma etiqueta como a Anticon. Ou, no oposto, sejamos brandos na exigência e acolhamos Jel como um mero peão no tabuleiro da reinvenção do underground. Porque a jogar como em Soft Money, o check mate parece cada vez mais demorado. E até apetece seguir o conselho que o próprio Jel, ironicamente, assina em dado momento do disco: "Don't buy this product, you don't need it".

segunda-feira, 13 de março de 2006

Cindy Kat - Vol. 1

Apreciação final: 6/10
Edição: Universal, Fevereiro 2006
Género: Pop/Electro-Pop
Sítio Oficial: www.cindykat.com








Consta que esteve para se chamar Admirável Mundo Novo mas foi prosaicamente baptizado de Vol. 1. É o trabalho de estreia dos Cindy Kat, novo projecto dos ex-Sétima Legião Pedro Oliveira e Paulo Abelho, na companhia de João Eleutério. A herança da Legião é um recurso assíduo deste projecto nacional, mormente nas faixas cantadas por Oliveira que, a despeito de puxarem ambientes com mais tiques electrónicos, encaixariam bem no catálogo do antigo grupo de Oliveira e Abelho. Esse pacto com a electrónica traz às composições uma modernidade estética que marca pontos, retorcendo com perícia os princípios que tão deliciosamente ajudaram a estabelecer a Legião. Como seria de esperar destes intérpretes, o disco é um feixe oportuno de canções, ainda que exorbite algumas ideias e, por força disso, derive perigosamente para a desconexão. Eclectismo não é sinónimo de amálgama. Talvez porque, sem o assumir, o álbum tente dispôr do testamento da Legião e, ao mesmo tempo, pôr o pé em todos os "novos" terrenos da pop mais electrónica, se baralhem conceitos que, em último caso, redundam em claro prejuízo para a coesão do álbum. É por isso que, ao invés de um admirável mundo novo, o tomo desenha dois universos alternativos: um deles, claramente contíguo das referências musicais que nortearam estes músicos no passado (serve como um fantasma da Sétima Legião) e, um outro planeta sonoro, demarcado do primeiro pela frescura e aproximação a outros propósitos, do qual faz parte a preciosa colaboração de JP Simões (Belle Chase Hotel, Quinteto Tati), a versatilidade de Sam e o serviço mínimo de Pedro Abrunhosa e Gomo.

Vol. 1 não é um álbum revolucionário, não vai mudar o mundo nem sequer o panorama da pop nacional e, por ter sido aguardado com expectativas proporcionais à relevância da Sétima Legião para a música lusa, não escapa à sentença de se esperar um pouco mais de músicos deste calibre. Ainda assim, é cumprido a preceito o fito de recuperar o imaginário da Legião, mesmo que misturado com coisas que pouco lhe dizem respeito. Para ouvir Vol. 1 sem fundir sabores, resta usar o mesmo critério de quem elege a porção que mais aprecia de uma pizza quatro estações. Aqui, a coisa até é mais simples, só há dois gostos, cada um com a sua órbita: Sétima Legião ressuscitados ou um híbrido electro-pop que, à falta de melhor definição, se conveio chamar de Cindy Kat.

sexta-feira, 10 de março de 2006

A Naifa - 3 Minutos Antes da Maré Encher

Apreciação final: 7
Edição: Zona Música, Março 2006
Género: Pop/Fado/Experimental
Sítio Oficial: www.anaifa.com/








Depois da prometedora estreia com Canções Subterrâneas (2004), o segundo andamento d' A Naifa investe em lema semelhante, o que é o mesmo que dizer que Luís Varatojo (guitarra portuguesa), João Aguardela (baixo) e Mitó Mendes (voz) prosseguem no ousada expediente de propôr indumentárias alternativas para a mais tradicional das formas de expressão musical lusas: o fado. Para os mais puristas, a sugestão atípica chegará a ser iconoclasta, no sentido de mesclar abertamente os acordes imaculados da guitarra portuguesa com elementos electrónicos que lhe colam um rótulo de modernidade. Para ouvidos adestrados, o segundo tomo deste talentoso projecto nacional é mais uma amostra com apetite reformista, mais solta e madura que o primeiro ensaio, também mais confiante. A voz de Mitó parece ter sido talhada à justa para a lida destas canções (e destes poemas), sempre aveludada e mais elástica e precisa do que em Canções Subterrâneas. Varatojo é mais cirúrgico e completo e pontua a orgânica das melodias; depois, a marcação do baixo eléctrico de Aguardela, secundado pela bateria do versátil Paulo Martins (Ramp), dão um embalo invulgar às canções. Nunca o fado se vestiu assim.

Da escola tradicional do fado, das alusões ao simbolismo da gasta e tacanha "casa portuguesa", das senhorinhas de xaile, do tempo dos crochés de rendas em cima do televisor e da camilha da sala, das memórias de Amália ou Paredes, resta aqui apenas uma vénia. Sem pretensões ou tabus, A Naifa não é já fado, é uma coisa maior (ou mais pequena, que importa?), é guitarra portuguesa pouco convencional, é voz de fadista, é amanhã. Um futuro já ensaiado nas malhas do primeiro álbum e retomado agora. E o fado, por mais brasonado que seja, caminha nas mesmas urbes dos outros géneros e não tem que se acanhar por casar pontualmente com a electrónica ou com o metrónomo de um baixo eléctrico. O resto é atmosfera. Misturar o baralho do fado e voltar a dar. Fado ou pop, mais ou menos óbvio, A Naifa é profundamente portuguesa. 3 Minutos Antes da Maré Encher sacode a dialéctica do fado e, só por isso, atrai alguma controvérsia. Mas um álbum assim tanto deliciosamente venturoso e criativo merece o mesmo lar da mais fina tradição musical nacional. Uma casa portuguesa, com certeza.

quinta-feira, 9 de março de 2006

Memórias do cinema

Warren Clarke, Patrick Magee, Malcolm McDowell e Michael Bates em A Clockwork Orange (A Laranja Mecânica, 1971)

terça-feira, 7 de março de 2006

Clogs - Lantern

Apreciação final: 7/10
Edição: Brassland, Fevereiro 2006
Género: Experimental/Fusão/Ambiente
Sítio Oficial: www.clogsmusic.com








Uma guitarra barroca em notas flutuantes deixa pegadas de luto no ar. Os acordes (de Kapsburger, séc. XVII) são vestígios que nos apresentam, logo na primeira faixa, o labiríntico novo trabalho do quarteto Clogs. Eles dividem as suas origens entre a Austrália e os Estados Unidos e subscrevem construções sonoras quase totalmente instrumentais, com o som mágico do improviso e influências transversais a vários géneros musicais. Guitarra acústica, fagote, percussões e violino integram a ementa e conjugam-se num complexo jogo de originalidade e modernismo. O berço deste disco é outro, mas há nele qualquer coisa de sons atlânticos, na terna plangência das cordas, um choro paralelo ao fado e à saudade lusa, ao extravasamento pesaroso da música celta; no roteiro musical deste Lantern regista-se também uma fugaz passagem por África, pelas percussões tribais que, aqui e ali, interferem e calibram o rumo das composições. Lantern é também um álbum residente num enclave, uma zona neutra entre a música erudita e o rock alternativo na sua face mais ambiental, numa matriz de crescendos, um desenfreado puzzle de peças que se ajustam sem operador. Peças instantâneas, daquelas a que se adere no primeiro momento e que apetece largar ao vento do espírito, até que ele sacie a curiosidade e cesse de soprar.

Lantern é um disco de emoções em levitação, de sons recatados e suspensos. Não há electricidade, não há extremos, cada instante é polido a algodão. A música dos Clogs é pura na sua essência e, ainda que não escape a um ou outro cliché do pós-rock, mexe-se como uma fantasia, simultaneamente moderna e medieval, que vai além de modas e classes. Independentemente disso, é um álbum que desenha sinfonias tensas, justapondo trechos melancólicos que medeiam os cotejos entre as paisagens idílicas e as insinuações de cenários decadentes. Lantern é o jardim do Éden e a torre de Babel, ao mesmo tempo. Em todo o caso, apetece desligar a luz, fechar os olhos e aceitar o abraço das luzes hesitantes desta lanterna.

domingo, 5 de março de 2006

The Knife - Silent Shout

Apreciação final: 8/10
Edição: Rabid Records, Março 2006
Género: Electrónica/Pop Experimental
Sítio Oficial: www.theknife.net








Depois de uma estreia auspiciosa com o magnífico Deep Cuts (2004), mano e mana Dreijer voltam a remarcar fronteiras com o mais recente trabalho. E fazem-no manejando probabilidades de um futuro digital, arriscando esboços de retratos sonoros de um universo em que o humano se subjuga à máquina. O som é, por isso, mecânico, quase cinicamente calculista quando se deixa coar pela tecnologia e por ela se rege. As expressões melódicas são governadas por sintetizadores, ou não fosse essa a sonda preferida dos The Knife, e erguem um edifício sonoro que, conservando as máximas típicas da dupla, se encaminha para planos que apuram os vectores industriais do som, em torno de um imaginário mais sombrio e frio. Frio da Suécia. Até a voz (em permanentes mutações) se rende à superioridade gélida da tecnologia e se apresenta mascarada por vocoders e outros efeitos, inflitrando-se submissa à batuta dos sintetizadores, arredada do epicentro da intensidade do disco. Seja ou não um disco desumanizado - porque pejado de corantes e conservantes - curioso mesmo é perceber que um produto assim mecânico, frio e formal, como que engenhado maquinalmente, produz impressões tão autênticas que, se não são um sucedâneo quase perfeito, andam bem perto das emoções humanas. A máquina dos The Knife também sente.

Musicalmente, Silent Shout refina as ideias da dupla sueca apontando a um padrão único de coesão e precisão clínica. Nesta cirurgia (ou siderurgia?) de sons, marca pontos a versatilidade vocal de Karin, a colorir histórias que invocam uma família de personagens grotescas: navegadores solitários, algozes com crise de identidade, hermafroditas, viciados em T.V., entre outros. Em qualquer dos casos, os Knife guardam para si a mais irónica das prerrogativas. Usam a máquina sci-fi, governam-na como uma marioneta e dão-lhe a ilusão da prevalência. Afinal, a derradeira arma de defesa das investidas da máquina está intacta, ou não bastasse desligar a ficha da tomada para suster-lhe o ímpeto. Mas, com música deste calibre, apetece deixar que as máquinas mandem mais um pouquinho. Ou, o que é o mesmo em Silent Shout, que as mãos escondidas na ponta dos cordéis das marionetas sigam assim talentosas por muitos e bons anos e que, de cada vez que se revelem, nos tragam um pedacinho mais da quintessência do futuro. Se encontrar um amanhã melhor, os Knife devolvem a diferença.

quinta-feira, 2 de março de 2006

Mogwai - Mr. Beast

Apreciação final: 7/10
Edição: Matador, Março 2006
Género: Pós-Rock/Instrumental
Sítio Oficial: www.mogwai.co.uk








Se bem que muitos ouvidos teimem em deixá-los na periferia, os escoceses Mogwai já andam nestas lides há onze anos. Indiferente a essa marginalização, o quinteto de Glasgow construiu uma sólida reputação e é, hoje por hoje, figura essencial do circuito pós-rock instrumental, permanecendo como um dos projectos mais inspiradores do Reino Unido. Neste trabalho, sublinha-se um compromisso vocal acrescido, por comparação com outros trabalhos. De resto, mantém-se a dinâmica de altos e baixos, com um pouco mais de desassossego e volumes esticados a outros níveis, bem além da quietude de Happy Songs for Happy People (2003). A arte das frases melódicas propõe constantemente uma estranha casta de orações mentais, peças unas de meditação delineadas pelas construções sinuosas das guitarras, como se Mr. Beast fosse o fundo musical de uma catedral em ruínas. A última pedra é o vanguardismo, sempre presente em fórmulas que não temem a experiência e buscam, sem pretensiosismo, a abertura das fronteiras do país rock. O resto são equações cheias de ângulos e o toque sedutor de composições pausadas rumo a clímaces demoradamente sulfurosos, onde cada elemento toma o lugar justo e calça o sapato certo para o andamento. As passadas são divergentes, umas vezes tristes no balanço, mais pesarosas, e outras vezes mais agrestes e lancinantes. O denominador comum: a melancolia.

Os Mogwai não subscrevem música para animar a malta. A caterva tem os Black Eyed Peas para isso. Aqui, procura-se (e às vezes encontra-se) a beleza que clandestinamente flutua no éter da comiseração. Alheia e própria. Também por isso, não é um disco de lucros repentinos para o auditor. A depuração de um som multi-camadas obriga a várias audições, com a paciência de um melómano experimentado, até que se vislumbrem os sinais característicos dos Mogwai. Vencida a batalha com a barreira densa de sons, tocado o esqueleto de Mr. Beast chega-se a uma de duas conclusões: ou eles estão mais ruidosos e, por isso, mais próximos do passado ou, pelo contrário, limitaram-se a ligar o piloto automático. No caso dos Mogwai, em qualquer das hipóteses vale a pena dissecar o disco.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Jenny Lewis and The Watson Twins - Rabbit Fur Coat

Apreciação final: 6/10
Edição: Team Love, Janeiro 2006
Género: Indie Pop/Country
Sítio Oficial: www.jennylewis.com








Jenny Lewis foi uma das fundadoras do projecto Rilo Kiley, colectivo californiano a que emprestou a voz em três álbuns que, mesmo não sendo enaltecidos como obras primas, valeram ao colectivo americano a deferência da comunidade pop alternativa. Na sua iniciação a solo, Lewis enche os pulmões de ar patriótico, pede a ajuda ao gospel das manas Watson (e alguns amigos como M. Ward, Ben Gibbard ou Conor Obert dão uma mãozinha) e apronta um caldo de fazer as delícias do Tio Sam. Dentro do mesmo caldeirão, comandados pela voz afectuosa e frágil de Lewis, estão os ingredientes clássicos da música americana: as reminiscências country, a nostalgia da folk genuína, o sentimentalismo confessional e até uma pitadinha de a capella, logo na abertura do alinhamento. Decididamente, Rabbit Fur Coat faz uso dos ensinamentos clássicos da country, ao jeito do disco de estreia dos Rilo Kiley, ainda que se exprima com um balanço mais mainstream. Ultrapassadas as primeiras impressões - em que o brilho da voz de Lewis (inteligentemente sublinhado pela produção) ofusca os demais elementos - o disco vai revelando, imergido entre as texturas instrumentais, um certo pragmatismo lírico que, bem vistas as coisas, contagia a face instrumental em certos momentos. Como se Lewis sentasse, ao redor de uma fogueira, os seus convidados ilustres e, ao jeito de um acampamento de escuteiros, registassem uma serenata nocturna sem destinatário. Tão americano que até cabe uma versão dos míticos Travelling Willburys (colectivo que o ex-Beatle George Harrison criou com Bob Dylan, Tom Petty e Roy Orbison, no final da década de 80), a canção "Handle With Care".

Não surpreende que os genes indie de Lewis se sintam como peixe na água nesta mirada retrospectiva, afinal as fórmulas clássicas estiveram sempre presentes na música dos Rilo Kiley. Todavia, apesar de as canções de Rabbit Fur Coat deixarem a ressonância refrescante de remexer memórias dos vinis de Dylan, não afastam uma dúvida existencial: será que esta ex-actriz teenager não era convidada para dançar pelos rapazes? Vendo as fotografias da moça, ou Rabbit Fur Coat não é autobiográfico, ou é um embuste...Em qualquer dos casos, musicalmente o álbum é competente, mas não passa a fasquia da mediania.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

Alexandre Rodrigues em Cidade de Deus (2002)

Beth Orton - Comfort of Strangers

Apreciação final: 7/10
Edição: Astralwerks, Fevereiro 2006
Género: Folk/Cantautor/Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.bethorton.mu








Vai no quarto disco, tem um pé na folk acústica e outro na country (ela até nem é americana), foi quase-emblema da comunidade indie britânica e faz canções pejadas de delicadeza intimista. Chama-se Beth Orton e o seu mais recente trabalho marca um saudado retrocesso às ideias basilares do seu disco mais bem sucedido, o singular Central Reservation (1999). Depois dos devaneios de Daybreaker (2002), a compositora repesca os conceitos que melhor servem o desígnio de cantautora. Está aqui tudo: as guitarras acústicas, os enfeites do piano (e outras teclas), o ajuste da percussão e um registo vocal espesso e afectivo (às vezes, puxa-nos a memória para Fiona Apple). A produção é assinada por Jim O'Rourke (ex-Sonic Youth) e reduz as composições à simplicidade que a introspecção mental de Orton reclama. Daí sobrevém a personalidade nua destas canções, sem auxílio de artifícios de estúdio e muito coração. Ora cáustica, ora doce, Orton soa sempre autêntica. Como numa complexa sessão de terapia musical à procura da esperança. E aí, nesse concurso de alentos, nas intersecções dos vários planos meditativos da vida, reside a chave das melodias deste Comfort of Strangers.

Estas canções não foram feitas para parecer bem, nem sequer são especialmente amigas do FM. Orton é uma nómada sem destino, orgulha-se de conquistar mundos desconhecidos, empunhando a arma do sentimento, também da confissão, e a mais recente aventura do seu percurso é apenas e só um episódio mais. Não importa o rumo quando se redescobrem as raízes e se convergem energias para construir algo que, sendo mundano, não é transitório. E é isso que Orton (e O'Rourke) fez. Comfort of Strangers até pode ser um pouco aliterante, mas não deixa de ser um retrato da alma de Orton. E quando um músico consegue tal ímpeto de individualidade e se expõe deste jeito, ficamos a dever-lhe gratidão. Pela música e por nos abrir o seu cofre de segredos.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: New Order

O movimento electro-pop nunca teria existido sem os New Order. Depois do suicídio do carismático Ian Curtis, os restantes membros dos extintos Joy Division formaram, no início da década de 80, os New Order. O guitarrista Bernard Sumner (que viria a tornar-se o vocalista do novo agrupamento), o baixista Peter Hook e o baterista Stephen Morris recrutaram a teclista Gillian Gilbert e, juntos, haveriam de revolucionar a pop de raíz electrónica, criando uma estética pioneira de fusão da música de dança com as estruturas das sonoridades mais mainstream. Os sintetizadores impuseram-se como instrumento dominante das texturas sonoras do grupo e ajudaram à definição de uma estética inconfundível e que, além de marcar uma geração, deixaria pistas para as tendências mais recentes da música electrónica.

A faixa que aqui apresento ("Blue Monday") foi editada em 1983 e é a canção mais emblemática da carreira dos New Order, sendo ainda hoje um dos singles mais vendidos da história da música britânica. Integrada no álbum Power, Corruption & Lies, capítulo emancipador do ensemble em relação à sombra dos Joy Division, a canção definiu uma nova identidade musical e é uma peça excelsa da música electrónica, digna de figurar em qualquer colecção do género.

Para ouvir esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Coldcut - Sound Mirrors

Apreciação final: 7/10
Edição: Ninja Tune/Symbiose, Janeiro 2006
Género: Electrónica/Trip-Hop
Sítio Oficial: www.coldcut.net








Eles não são nenhuns novatos, andam pelo underground britânico há tempo suficiente (duas décadas) para merecerem a admiração da electrónica de inclinação dançarina. Muitos remixes, colaborações e criação de selos (entre eles, a Ninja Tune) depois, as lendas Jonathan More e Matt Black estão de regresso às gravações de estúdio, nove anos volvidos do último registo. Para Sound Mirrors, a dupla convocou um rol extenso de músicos célebres e oriundos de vários cenários musicais, concebendo a mais ecléctica opus do seu catálogo. Dos convidados ilustres ressaltam os nomes do roqueiro americano Jon Spencer, do rapper Mike Ladd, do underground rapper Roots Manuva, do Dj Robert Owens e do projecto experimentalista Fog. Como está bom de ver, o disco é um ajuntamento de géneros, percorrendo classes distintas da música electrónica, umas mais contemporâneas do que outras, mas sempre tentando convergências com as atmosferas progressivas do trip-hop. E, embora a estrutura das composições não aponte rumos novos (parece tentar acomodar os códigos antigos à linguagem actual) e, pior do que isso, se assemelhe a um amontoado de peças esparsas, a produção é cuidada e destaca um som profundamente urbano. Urbano demais, dir-se-à, já que o disco não envolve convincentemente o ouvinte na empatia sugerida pelos ambientes sonoros, deixando-o no frívolo meio-termo entre o apetite de descobrir mais ou, ao invés disso, preterir a sugestão.

Sound Mirrors é um caleidoscópio de vistas largas sobre as várias concepções da electrónica (e misturas audazes com outros formatos) e, por isso, é também uma obra fragmentada. Ainda assim, a vitalidade palpável de composições como o explosivo single "Everything Is Out of Control", a deliciosamente retro "Just For The Kick", a mecânica digital do tema-título ou o vangardismo experimental de "A Whistle and a Prayer", confirma que, se Sound Mirrors resulta algo desconjuntado, também funda porções suficientemente iluminadas que, a par da produção, bastam para o não fazer um disco inferior. Até porque é a prova provada de que nem todos os dinossauros estão extintos. Estes, prosseguem as suas jornadas exploratórias e continuam a jogar habilmente com o pulsar electrónico. Nem a erosão do tempo os demove da satisfação de criar a bel-prazer .

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Robert Pollard - From a Compound Eye

Apreciação final: 7/10
Edição: Merge, Janeiro 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: http://robertpollard.net








O mais recente trabalho a solo do maestro criativo dos extintos Guided by Voices é já o oitavo exercício individual mas parece o primeiro. E assim é porque o músico busca em From a Compound Eye a definitiva consolidação de um estatuto próprio, descolado das configurações da banda que liderou durante quase duas décadas. Não é que o som seja tão declaradamente diverso mas deixa um lastro de nova iniciação, como se Pollard aspirasse a um outro baptismo musical, um renascimento. De parte foram deixados os caracteres experimentalistas que nortearam os anteriores trabalhos a solo - não eram mais do que provas de um tirocínio fora das fronteiras do GBV - e trocados por um som mais completo e mais musculado, em aparente contraste com o lo-fi dos GBV, e vizinho de estruturas pouco respeitadoras de géneros. A atmosfera maioritariamente art-rock do duplo álbum é perfumada por aromas The Who e, nas palavras do próprio Pollard, o disco resume-se a quatro P's: pop, punk, psicadélico e progressivo. O tom prosaico da definição tem paralelo no disco, num rol de composições em que convivem algumas das criações mais oportunas de Pollard e outras tantas peças despiciendas. Dessa incongruência deriva a sensação de que esta colecção de canções é extensa demais (26 faixas) e acaba por embaciar o brilho de faixas como "Love Is Stronger Than Witchcraft" ou "Lightshow".

Não estão em causa os dotes criativos de Pollard (já estavam certificados há muito tempo), tampouco a indulgência de tentar uma mímica musical mais introspectiva com a mesma linguagem abstracta que emprestou aos GBV, mas From a Compound Eye não indicia qualquer evolução musical e, ao fim de algumas audições, faz-se notar, sem surpresa, a similitude com pedaços dos vastos ambientes sonoros dos GBV. No fundo, à procura de um génio que não se revela, mais do mesmo: algumas boas canções e alguns pontapés no ar. From a Compound Eye é um gourmet de iguarias várias, ou não fosse um disco de Pollard, mas que deve ser consumido com uma regra de cepticismo. Como quem espeta o garfo no bife tártaro e torce o nariz às alcaparras na borda do prato.