domingo, 2 de abril de 2006

Erro! - Isto é o quê, mãe?

Apreciação final: 7/10
Edição: Cobra, Fevereiro 2006
Género: Experimental
Sítio Oficial: http://erro.planetaclix.pt/








"Outra vez aquele som que se prende à parte de trás da tua mente". Assim escreve (e diz em jeito ressonante) João Palma na primeira frase do seu disco de estreia. Profecia ou petulância? O arquitecto lisboeta não é um músico de vocação, entregou-se a estas lides ao descobrir os favores do computador para fazer música, depois de ter sido instrumentista em alguns projectos locais da capital nacional. Em boa verdade, Isto é o quê, mãe? é música com uma forte componente experimental e onde se encaixam monólogos de reflexão existencialista. Não há palavras cantadas, elas cruzam-se com as texturas sonoras, em orações que retratam o quotidiano de um homem e de uma cidade. É, por isso, um álbum profundamente urbano, de sons polidos e de invenções progressistas. Depois, há qualquer coisa de maquinal, na intencionalidade com que os sons colados olham para dentro, mirando a face mais introspectiva do músico (e do cidadão) e buscando, com retóricas ironias, a purgação de impurezas do espírito. A música torna-se inevitavelmente convulsa, ora inquietante ora pacificadora, sublinhando os ecos agrestes que se libertam das palavras. Musicalmente, Isto é o quê, Mãe? pode não trazer conceitos revolucionários, nem a tal se candidata; é, antes de mais, um disco que resgata os esqueletos do armário, dá-lhes liberdade e margens dilatadas, a vogar algures entre os propósitos mais recentes da música electrónica de vanguarda (qualquer coisinha de Steve Reich), um cheirinho de rock com um lastro Joy Division ou Sonic Youth e qualquer coisa que só tem lugar nos imensos buracos negros do universo musical. Ou aí, ou nos cromos fugidios do álbum da vida de João Palma.

Isto é o quê, Mãe? é um disco ambivalente e com os tons cinzentos de uma Lisboa com arco-íris. Comove na mesma medida que perturba. É música fria e visceral, de temperamento orgânico, como se fôra o discurso de um mecanismo artificial à procura do sentimento. E, a despeito de instantes menos felizes, João Palma faz do seu Erro! uma criatura digital com vida. E, aqui e ali, nesta edição com a chancela da editora de Adolfo Luxúria Canibal, o músico faz-nos crer que, de moto próprio, alguns sons conseguem mesmo prender-se à parte de trás da nossa mente.

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quinta-feira, 30 de março de 2006

Atraso na actualização do apARTES

Saudações musicais a todos os utilizadores deste blog.

Em virtude da assunção de novas obrigações profissionais do seu autor, o apARTES não mereceu a actualização a que os frequentadores deste espaço estão habituados. Por esse facto, deixo as minhas desculpas e informo de que a normalidade será paulatinamente reposta a partir da próxima semana.

Entretanto, para que os amantes da música que aqui buscam algumas sugestões não fiquem de mãos a abanar, deixo uma curta lista de discos que tenho ouvido (não com a frequência que gostaria) e que virei a analisar com mais detalhe num futuro próximo. Assim, têm passado pelo meu leitor de cd's os seguintes títulos:

  • BEN HARPER "Both Sides of the Gun" ;
  • ERRO! "Isto é o quê, mãe?" ;
  • CESÁRIA ÉVORA "Rogamar" ;
  • DRUMS AND TUBA "Battles Olé" ;
  • ELLEN ALLIEN & APPARAT "Orchestra of Bubbles" ;
  • GRAHAM COXON "Love Travels at Illegal Speeds" ;
  • LOOSE FUR "Born Again in the U.S.A." ;
  • YEAH YEAH YEAHS "Show Me Your Bones" ;
  • ACEYALONE & RJD2 "Magnificent City" ;
  • DESTROYER "Destroyers' Rubies" ;
  • MANTA RAY "Torres de Electricidad"

Obrigado pela vossa paciência e fidelidade ao apARTES.
Boas audições.

segunda-feira, 27 de março de 2006

Ojos de Brujo - Techari

Apreciação final: 7/10
Edição: PIAS, Fevereiro 2006
Género: Fusão/Música Flamenca
Sítio Oficial: www.ojosdebrujo.com







Quer se queira quer não, a música dos Ojos de Brujo é flamenco. Pode não se ajustar à definição mais purista do termo, mas o espírito nómada e virtuoso da música cigana da Andaluzia (que depois se tornou símbolo da nação espanhola), a independência orgulhosa das guitarras em quase-improviso, as vozes plurais em uníssono, as palmas a acompanhar e a musicalidade típica da cultura cigana estão em Techari. O título do disco é o sinónimo romaní de "livre" e assim é a música dos Ojos de Brujo. Eles não se circunscrevem ao precioso substrato do flamenco e misturam-no com alguma electrónica, uns pozinhos de sonoridades orientais e, no mais arrojado investimento, vão buscar alguns jogos vocais ao hip-hop e insinuações instrumentais mais próprias de um disco de funk ou reggae. A esta miscigenação de géneros não é indiferente a família de colaboradores convidados para o álbum, de que fazem parte os britânicos Nitin Sawhney e Asian Dub Foundation.

Ao terceiro álbum, os Ojos de Brujo sublimam os preceitos de um conceito musical que toca correntes musicais ancestrais, da antiguidade egípcia à cultura muçulmana, do sangue quente do povo cigano ao magnetismo do som oriental, da urbanidade da expressão africana à órbita sensual dos bailados e sapateados latinos e das castanholas. De Sevilha a Dakar e Timbuktu, com escala em Londres, Xangai, Dehli e Havana. Musicalmente poliglota e escorreito, a Techari pode apenas apontar-se uma disfunção: ao tentarem interceptar, em simultâneo, uma infinidade de escolas musicais, os Ojos de Brujo comprometem algumas composições e acabam por refrear o discurso mais elogiável do seu arsenal (e aquele em que melhor concentram energias), o flamenco. Só é pena que o disco não nivele por aqueles instantes em que o flamenco melhor se concilia com outros estilos (o cruzamento com o reggae em "Corre Lola Corre", na oriental-rap "Todo Tiende" ou no hip-hop frenético de "El Confort No Reconforta") porque, aí, os Ojos de Brujo são pouco menos do que esplêndidos.

sexta-feira, 24 de março de 2006

Neko Case - Fox Confessor Brings the Flood

Apreciação final: 7/10
Edição: Anti, Março 2005
Género: Pop-Rock Alternativo/Country
Sítio Oficial: www.nekocase.com








Ao quarto álbum de estúdio, a voz de Neko Case está melhor do que nunca. Ela é senhora daquele tipo de cordas vocais que vão refinando com o gosto do tempo, buscando a sublimação da expressividade e reforçando a elegância em cada timbre. Uma voz destas, assim profunda, faz de qualquer emoção, mais do que uma intuição, uma força tangível, que se sente e quase se toca. Ao mesmo tempo, apetece degustar, num compasso lento, a pureza inata do registo vocal reverberante de Case, como se de um corpo sacro se tratasse e, portanto, não susceptível de se misturar com a mortalidade do ouvinte. No fundo, sem olvidar o nexo com o efémero (as canções falam de amores confusos e amizades e crenças corrompidas), a música deste Fox Confessor Brings the Flood tem qualquer coisa que não se conforma às leis naturais e o veículo essencial dessa frente imaterial é mesmo a voz de Case. Se isso não é bastante, pode ainda somar-se que a autora apurou o sentido estético das suas criações, aventurando-se num espaço sonoro aberto, com influências óbvias da música country mais taciturna e alguns desvios sempre oportunos para revisitar outros géneros.

O porte garboso das composições é ingénito, a secundar com propriedade a excelência do canto de Case, graças a uma trupe de instrumentistas ilustres (Howe Gelb, John Convertino, Joey Burns, Garth Hudson e a voz secundária de Rachel Flotard). Tudo embrulhado numa produção cautelosa, a sugerir a porção vocal como substância primeira e a prover as canções de um lisonjeiro embalo anacrónico. Ao mesmo tempo, o abuso detalhista da produção nem sempre faz justiça à dinâmica suavemente anarquista da escrita de Case, moderando as sucessivas derivações que, na mesma canção, nos transportam da sonoridade country tradicional para outra coisa qualquer, um híbrido tão encriptado quanto os poemas. E é pena que, com canções (e voz) deste quilate, a produção se confine à mera comodidade do hábito e não se atreva a seguir o espírito errante de Case. Mesmo assim, Fox Confessor Brings the Flood é a prova de que ela está na crista da onda (depois do êxito com os New Pornographers, no ano transacto) e de que ainda há discos (e vozes) que nos enfeitiçam de tal forma que não parecem desta era. Não parecem de era nenhuma.

quarta-feira, 22 de março de 2006

O mito de Saturno por Goya e Rubens

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Integrado no ciclo "Quadros Negros", catorze pinturas que Goya deixou nas paredes da sua última residência, a Quinta del Sordo, entre 1820 e 1824, esta obra (à esquerda) faz parte da fase obscura do artista e retrata o episódio da mitologia Romana em que o deus da fertilidade, Saturno, temendo que um dos seus filhos lhe viesse a tomar o trono, devora a prole. Reza a mitologia que, para proteger o sexto rebento (Jupiter), Reia (ou Cibele) o trocou por uma pedra trajada com as vestes do filho. Salvo da gula desenfreada do pai, Jupiter viria a ser figura de proa na ilha de Creta, obrigando o pai a regurgitar os irmãos e erguendo um monumento com a pedra que Saturno engulira por engano.

A crueza canibalista da imagem relega para segundo plano a contextualização mítica, centrando-se na dramatização visual da loucura e do horror do episódio de Saturno. Em alternativa, a visão menos improvisada do pintor flamengo Peter Paul Rubens (de 1686, à direita), sendo mais refinada e com uma dimensão épica acrescida, retém a crueldade sem remorso de Saturno.

terça-feira, 21 de março de 2006

Calexico - Garden Ruin

Apreciação final: 6/10
Edição: City Slang/Edel, Março 2006
Género: Country Alternativo/Pop
Sítio Oficial: www.casadecalexico.com








Não é que a voz fique deslocada no universo sonoro dos Calexico, mas é quase intuitivo aprender a gostar mais deles nos registos menos cantados, especialmente pelas particularidades eclécticas das composições, à procura de espaços de convergência entre a musicalidade americana, nas suas várias ramificações, e diversas influências de origem ímpar, como os tons western (a trazer à memória o mestre Morricone), a música nutrida por guitarras acústicas, mesmo o jazz e alguns laivos da América Latina. Foi assim que Joey Burns e John Convertino adubaram as fórmulas do projecto, dando origem a um country árido - não fossem eles do Arizona - muitas vezes instrumental e rico em reproduções de cenários com cowboys, desertos, cactos sedentos e veredas de pó. Garden Ruin aceita isso tudo sem resmungar, mas lança um sopro que embacia algumas dessas substâncias e, por troca, aceita visitas mais prolongadas da voz. As composições adornam-se como canções, com tempos medidos, versos e refrões. Tudo tão certinho que até parece que Burns e Convertino se estão a armar ao pingarelho e trocam a largura de vistas musicais que era expediente costumeiro por um disfarce de songwriter. Mesmo assim, a parte musical das faixas conserva alguns dos ingredientes da quintessência do grupo, ainda que condensados o suficiente para caberem nos manuais pop. Porque pop é o código de Garden Ruin que nem a diversidade instrumental do disco consegue dissimular.

Garden Ruin é o modelo light dos Calexico. Embora tecnicamente irrepreensível, a incursão pelo espaço da pop mais orelhuda hipoteca uma parte significativa da musicalidade e das fantasias do grupo. Dos fragmentos que restam do passado, não se esboçam as mesmas paisagens, antes se decretam pactos com a mediania. Talvez assim, com estas derivações comerciais, os Calexico finalmente venham a colher as honras que fizeram por merecer até aqui. O preço do mediatismo pode ser o adeus às areias do deserto. No caso deles, lamenta-se que a fuga às origens traga atrelada uma reacção alérgica: o ocaso criativo.

segunda-feira, 20 de março de 2006

Sepultura - Dante XXI

Apreciação final: 7/10
Edição: Steamhammer, Março 2006
Género: Heavy Metal/Thrash Metal
Sítio Oficial: www.sepultura.com.br








Depois das convulsões internas que levaram à deserção do antigo vocalista e líder Max Cavalera (hoje é a alma do projecto Soulfly), em 1996, os Sepultura foram forçados a um segundo tirocínio, precisamente no momento em que o seu percurso artístico chegara ao auge, com o aplauso da crítica à edição de dois álbuns referenciais do trash metal: Chaos A.D. (1993) e Roots (1996). À fase de problemas internos, seguiu-se uma certa travessia do deserto, com o recrutamento da nova voz do grupo (o americano Derrick Green) e alguns lançamentos sem a mesma chispa do período Cavalera. Com o êxito dos Soulfly, a censura subiu de tom, pressagiando a inaptidão do colectivo radicado no Brasil para sobreviver sem o seu mentor. Indiferentes às vozes de discórdia, os Sepultura seguiram o seu caminho, maturaram processos e, sem caírem na tentação de copiar o passado, tentaram ressuscitar o élan e recuperar o protagonismo que, por mérito próprio, haviam conquistado. Roorback (2003) foi o primeiro passo nesse sentido, mostrando um Derrick Green cada vez mais cómodo e resgatando o fervor thrash de outros tempos. Dante XXI é o mais recente produto do renascimento da banda e toma a mesma doutrina do antecessor. A primeira evidência que decorre da audição do novo disco é o crescimento da química entre os elementos da banda, resultando num som de crueza imaculada, ora no registo acelerado ora nos tons mais sombrios. Também Green está mais solto, definitivamente livre de fantasmas e acrescenta às texturas a diversidade vocal (em certos instantes faz lembrar Jaz Coleman dos Killing Joke) que não existia em Roorback. A nível técnico, Andreas Kisser continua a servir-se da guitarra como poucos na cena metal, arquitectando riffs com boa intensidade rítmica, contando com a preciosa ajuda das percussões explosivas de Igor Cavalera e do baixo firme de Paulo Jr.. Se isso não basta, este álbum ainda tem espaço para introduzir as cordas no catálogo dos Sepultura, mormente no recurso a violinos na sublime "Ostia".

Inspirado na magna "Divina Comédia" de Dante, também dividida em três partes (o Inferno, o Purgatório e o Paraíso), o álbum tem as dimensões de uma obra conceptual e demonstra um balanço quase perfeito entre a fúria incontida e o refinamento estético das texturas. Talvez pudesse ir mais além no arrojo das composições, mesmo na apresentação dos segmentos de cordas, mas não restem dúvidas de que há aqui puro T.N.T.. De permeio entre as partes do disco, estão quatro mini-peças (pequenas demais?) instrumentais que, por um lado, dão um descanso aos tímpanos e permitem recuperar o fôlego e, por outro, acrescentam condimentos ao cardápio. Dante XXI é, seguramente, o melhor trabalho da era-Green e, à luz das teses dantescas, não estará no Inferno, tampouco no Paraíso. É mais um avanço para galgar a montanha que Dante imaginou como passagem das almas da superfície terrena para as portas do Paraíso. De Dante, os Sepultura atraem esse purgatório, algo que começaram depois de Max Cavalera. Dante XXI mostra que eles estão um bocadinho mais perto do Éden.

sábado, 18 de março de 2006

J Dilla Jay Dee - Donuts

Apreciação final: 7/10
Edição: Stones Throw, Fevereiro 2006
Género: Rap Underground/Sampling/Beats
Sítio Oficial: www.stonesthrow.com/jdilla








Produtor reputado na cena hip-hop, J Dilla mereceu o reconhecimento artístico da elite do género, caindo nas graças de nomes como De La Soul, Common ou Busta Rhymes. Por ironia do destino, a doença prolongada que recentemente o tinha forçado a fazer a última tournée europeia sentado numa cadeira de rodas, haveria de roubá-lo à vida pouco tempo antes da edição deste segundo álbum, com 32 anos. Mais do que um requiem, Donuts é uma amostra da mestria inestimável do ex-membro dos Slum Village, um misto hip-hop / soul, firmado numa infalível cadeia de samples. A sucessão das faixas prova a perícia na escolha das várias fracções musicais, armando um corpo musical que, por pescar em referências mais e menos óbvias, esboça um espaço sonoro moderno. Todavia, a amplitude do disco é artesanal (bastam a J Dilla um drum kit, um sampler e alguns discos empoeirados), como convém a alguém desta estirpe, ousando cortar a maioria das composições e os melhores fraseados melódicos abaixo dos dois minutos sem pensar em criar-lhes as transições da praxe. No fundo, Donuts não é um álbum clássico de beats - tem muitas fracturas para isso - e é mais um esquizofrénico esquisso, uma confusão bem arrumada de uma miríade de pedaços musicais, sem sequência lógica (ou podermos chamar-lhe lógica desconstrutiva?). Mais do que o trabalho de um músico, trata-se de um apurado exercício de produção de um musicólogo, um especialista em retratar as várias dimensões do hip-hop e respectivas mestiçagens com a soul.

Donuts é um documento abarrotado de fatias de história. Não tanto a história da música, nem sequer a narrativa da música negra. Jay Dee não se atreveria a tal. A biografia encriptada por detrás deste som é a de um homem refém da doença e que, rodeado de discos que lhe marcaram a curta existência, nos mostra, cruamente, o seu engenho. E a suprema ironia do seu talento (da sua despedida) é tão refinada que escapa aos mais distraídos: os cortes abruptos nos loops e nos samples, muitas vezes no ponto mais cativante das composições, são a forma de Jay Dee se despedir, na linguagem que mais aprecia - a música - com grandes canções que, mesmo que cortadas subitamente (e até de forma iníqua), não deixam de ser grandes canções. Tal como a vida que a sina tirou a Jay Dee.

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Paul Cézanne, Le Paysan, 1891

quinta-feira, 16 de março de 2006

Man Man - Six Demon Bag

Apreciação final: 8/10
Edição: Ace Fu, Fevereiro 2006
Género: Experimental/Fusão/Rock Psicadélico
Sítio Oficial: www.wearemanman.com








Se houvesse uma trupe dos inventores musicais mais originais, certamente Honus Honus lá teria um lugar cativo. Ele é o núcleo criativo do peculiar quinteto Man Man, um dos mais bizarros ensembles do panorama presente da música americana. Fixar estremas para um cunho musical tão impressivo e sem juízo é tomar-lhe apenas uma parte. Os vestígios de Tom Waits (especialmente da fase Swordfishtrombones (1983)) ou Captain Beefheart disfarçam-se de regulamento interno do grupo e são o esteio perversor das regras da ciência musical. Para os Man Man, cada trecho de música é uma espécie de fanfarra, o palco é um circo insano onde a charanga dá largas a fantasias desmedidas. Eles são assim mesmo: uma psicadélica arma de destruição maciça, uma orquestra digna da Babilónia, sem régua e esquadro, com pianos, percussões, sopros e objectos impróprios. A isso acresce uma pitada de vangardismo, não muito comedido, diga-se, e uma dose imoderada de doidice. E como para se ser um grande maluco ainda não se paga imposto, Honus e os seus pares desligam-se da realidade, pegam nos instrumentos e empenham-se bem em mostrar-nos que sabem de cor como se faz música sem pátria, sem família e sem tempo. Afinal, Six Demon Bag consegue confundir (é um elogio!) o pop extrovertido, o rock espampanante, as marchas klezmer, o tribalismo, a valsa, a balada cigana, os coros de pirata e todo o tipo de surpresas e reviravoltas mais inesperadas. Hinos de insanidade.

No meio de tanta excentricidade (é outro elogio!), com títulos das músicas tão pitorescos quanto "Young Einstein on the Beach" ou "Banana Ghost" e cartões de visita dos músicos tão estranhos no sítio oficial (www.wearemanman.com), nunca se esperaria música convencional. Six Demon Bag está nos antípodas disso. E se não está nos cumes da originalidade - porque já se fizeram coisas parecidas - tem ao menos o caprichoso deslumbramento de tirar o véu a um mandamento insofismável da música. Aqui, como noutras etapas da história, o génio anda de mãos dadas com o louco. E, se isso não bastasse, ainda desata o saco onde tinha guardado os seus demónios. Ao que consta, uma meia dúzia deles.

quarta-feira, 15 de março de 2006

Jel - Soft Money

Apreciação final: 5/10
Edição: Anticon, Fevereiro 2006
Género: Hip-Hop Instrumental/Sampling
Sítio Oficial: www.anticon.com








Há criações musicais que vingam pela tentativa de captar um certo perfeccionismo estético, colocando um enfoque especial na produção das composições e na moldagem electrónica dos sons. Soft Money é um desses produtos e trata-se do quinto exercício a solo de Jeffrey James Logan, membro dos 13 & God, sob o alter ego artístico de Jel. Das diversas camadas sonoras que se sobrepõem em cada faixa do alinhamento, brota uma mescla de géneros, tripartida entre o hip-hop de feição instrumental, o experimentalismo e alguns conceitos psicadélicos que, neste caso, servem o propósito de dotar os ambientes do disco de outras dimensões. Jel é um malabarista de samples e loops, de vocais processados artificialmente, de baixos a pontuar em funk; usa-os abundantemente para criar ilusões e, no seu jeito, ousar a renovação dos manuais do hip-hop mais underground. Nesta cruzada, faz-se acompanhar de uma boa colheita de colaboradores, como são os casos, entre outros, de Stephanie Bohm (do projecto electro minimalista Ms. John Soda), de Andrew Broder (Fog) e Odd Nosdam (dos aclamados cloudDEAD). Mesmo assim, ainda que a sonoridade do álbum seja convincente e ateste as aptidões de Jel, a audição de Soft Money não suscita o mesmo tipo de atracção que outras edições recentes da Anticon e, pior do que isso, abeira-se de uma toada aliterante, muito próxima da monotonia. Depois, os conteúdos das letras não escapam a clichés recorrentes no tempo presente, como a diatribe hostil à administração Bush ou a sátira da decadência consumista da espécie humana o que, a despeito de algumas asserções bem alinhavadas, não chega a aquecer. Ou arrefecer.

Soft Money é um disco para adeptos do hip-hop instrumental. Progressivo? Talvez. Problema maior: uma ou outra composição meritória (por exemplo, "No Solution") não chegam para dar ao disco a amplitude que se deve reclamar a um autor como Jel. E a uma etiqueta como a Anticon. Ou, no oposto, sejamos brandos na exigência e acolhamos Jel como um mero peão no tabuleiro da reinvenção do underground. Porque a jogar como em Soft Money, o check mate parece cada vez mais demorado. E até apetece seguir o conselho que o próprio Jel, ironicamente, assina em dado momento do disco: "Don't buy this product, you don't need it".

segunda-feira, 13 de março de 2006

Cindy Kat - Vol. 1

Apreciação final: 6/10
Edição: Universal, Fevereiro 2006
Género: Pop/Electro-Pop
Sítio Oficial: www.cindykat.com








Consta que esteve para se chamar Admirável Mundo Novo mas foi prosaicamente baptizado de Vol. 1. É o trabalho de estreia dos Cindy Kat, novo projecto dos ex-Sétima Legião Pedro Oliveira e Paulo Abelho, na companhia de João Eleutério. A herança da Legião é um recurso assíduo deste projecto nacional, mormente nas faixas cantadas por Oliveira que, a despeito de puxarem ambientes com mais tiques electrónicos, encaixariam bem no catálogo do antigo grupo de Oliveira e Abelho. Esse pacto com a electrónica traz às composições uma modernidade estética que marca pontos, retorcendo com perícia os princípios que tão deliciosamente ajudaram a estabelecer a Legião. Como seria de esperar destes intérpretes, o disco é um feixe oportuno de canções, ainda que exorbite algumas ideias e, por força disso, derive perigosamente para a desconexão. Eclectismo não é sinónimo de amálgama. Talvez porque, sem o assumir, o álbum tente dispôr do testamento da Legião e, ao mesmo tempo, pôr o pé em todos os "novos" terrenos da pop mais electrónica, se baralhem conceitos que, em último caso, redundam em claro prejuízo para a coesão do álbum. É por isso que, ao invés de um admirável mundo novo, o tomo desenha dois universos alternativos: um deles, claramente contíguo das referências musicais que nortearam estes músicos no passado (serve como um fantasma da Sétima Legião) e, um outro planeta sonoro, demarcado do primeiro pela frescura e aproximação a outros propósitos, do qual faz parte a preciosa colaboração de JP Simões (Belle Chase Hotel, Quinteto Tati), a versatilidade de Sam e o serviço mínimo de Pedro Abrunhosa e Gomo.

Vol. 1 não é um álbum revolucionário, não vai mudar o mundo nem sequer o panorama da pop nacional e, por ter sido aguardado com expectativas proporcionais à relevância da Sétima Legião para a música lusa, não escapa à sentença de se esperar um pouco mais de músicos deste calibre. Ainda assim, é cumprido a preceito o fito de recuperar o imaginário da Legião, mesmo que misturado com coisas que pouco lhe dizem respeito. Para ouvir Vol. 1 sem fundir sabores, resta usar o mesmo critério de quem elege a porção que mais aprecia de uma pizza quatro estações. Aqui, a coisa até é mais simples, só há dois gostos, cada um com a sua órbita: Sétima Legião ressuscitados ou um híbrido electro-pop que, à falta de melhor definição, se conveio chamar de Cindy Kat.

sexta-feira, 10 de março de 2006

A Naifa - 3 Minutos Antes da Maré Encher

Apreciação final: 7
Edição: Zona Música, Março 2006
Género: Pop/Fado/Experimental
Sítio Oficial: www.anaifa.com/








Depois da prometedora estreia com Canções Subterrâneas (2004), o segundo andamento d' A Naifa investe em lema semelhante, o que é o mesmo que dizer que Luís Varatojo (guitarra portuguesa), João Aguardela (baixo) e Mitó Mendes (voz) prosseguem no ousada expediente de propôr indumentárias alternativas para a mais tradicional das formas de expressão musical lusas: o fado. Para os mais puristas, a sugestão atípica chegará a ser iconoclasta, no sentido de mesclar abertamente os acordes imaculados da guitarra portuguesa com elementos electrónicos que lhe colam um rótulo de modernidade. Para ouvidos adestrados, o segundo tomo deste talentoso projecto nacional é mais uma amostra com apetite reformista, mais solta e madura que o primeiro ensaio, também mais confiante. A voz de Mitó parece ter sido talhada à justa para a lida destas canções (e destes poemas), sempre aveludada e mais elástica e precisa do que em Canções Subterrâneas. Varatojo é mais cirúrgico e completo e pontua a orgânica das melodias; depois, a marcação do baixo eléctrico de Aguardela, secundado pela bateria do versátil Paulo Martins (Ramp), dão um embalo invulgar às canções. Nunca o fado se vestiu assim.

Da escola tradicional do fado, das alusões ao simbolismo da gasta e tacanha "casa portuguesa", das senhorinhas de xaile, do tempo dos crochés de rendas em cima do televisor e da camilha da sala, das memórias de Amália ou Paredes, resta aqui apenas uma vénia. Sem pretensões ou tabus, A Naifa não é já fado, é uma coisa maior (ou mais pequena, que importa?), é guitarra portuguesa pouco convencional, é voz de fadista, é amanhã. Um futuro já ensaiado nas malhas do primeiro álbum e retomado agora. E o fado, por mais brasonado que seja, caminha nas mesmas urbes dos outros géneros e não tem que se acanhar por casar pontualmente com a electrónica ou com o metrónomo de um baixo eléctrico. O resto é atmosfera. Misturar o baralho do fado e voltar a dar. Fado ou pop, mais ou menos óbvio, A Naifa é profundamente portuguesa. 3 Minutos Antes da Maré Encher sacode a dialéctica do fado e, só por isso, atrai alguma controvérsia. Mas um álbum assim tanto deliciosamente venturoso e criativo merece o mesmo lar da mais fina tradição musical nacional. Uma casa portuguesa, com certeza.

quinta-feira, 9 de março de 2006

Memórias do cinema

Warren Clarke, Patrick Magee, Malcolm McDowell e Michael Bates em A Clockwork Orange (A Laranja Mecânica, 1971)

terça-feira, 7 de março de 2006

Clogs - Lantern

Apreciação final: 7/10
Edição: Brassland, Fevereiro 2006
Género: Experimental/Fusão/Ambiente
Sítio Oficial: www.clogsmusic.com








Uma guitarra barroca em notas flutuantes deixa pegadas de luto no ar. Os acordes (de Kapsburger, séc. XVII) são vestígios que nos apresentam, logo na primeira faixa, o labiríntico novo trabalho do quarteto Clogs. Eles dividem as suas origens entre a Austrália e os Estados Unidos e subscrevem construções sonoras quase totalmente instrumentais, com o som mágico do improviso e influências transversais a vários géneros musicais. Guitarra acústica, fagote, percussões e violino integram a ementa e conjugam-se num complexo jogo de originalidade e modernismo. O berço deste disco é outro, mas há nele qualquer coisa de sons atlânticos, na terna plangência das cordas, um choro paralelo ao fado e à saudade lusa, ao extravasamento pesaroso da música celta; no roteiro musical deste Lantern regista-se também uma fugaz passagem por África, pelas percussões tribais que, aqui e ali, interferem e calibram o rumo das composições. Lantern é também um álbum residente num enclave, uma zona neutra entre a música erudita e o rock alternativo na sua face mais ambiental, numa matriz de crescendos, um desenfreado puzzle de peças que se ajustam sem operador. Peças instantâneas, daquelas a que se adere no primeiro momento e que apetece largar ao vento do espírito, até que ele sacie a curiosidade e cesse de soprar.

Lantern é um disco de emoções em levitação, de sons recatados e suspensos. Não há electricidade, não há extremos, cada instante é polido a algodão. A música dos Clogs é pura na sua essência e, ainda que não escape a um ou outro cliché do pós-rock, mexe-se como uma fantasia, simultaneamente moderna e medieval, que vai além de modas e classes. Independentemente disso, é um álbum que desenha sinfonias tensas, justapondo trechos melancólicos que medeiam os cotejos entre as paisagens idílicas e as insinuações de cenários decadentes. Lantern é o jardim do Éden e a torre de Babel, ao mesmo tempo. Em todo o caso, apetece desligar a luz, fechar os olhos e aceitar o abraço das luzes hesitantes desta lanterna.

domingo, 5 de março de 2006

The Knife - Silent Shout

Apreciação final: 8/10
Edição: Rabid Records, Março 2006
Género: Electrónica/Pop Experimental
Sítio Oficial: www.theknife.net








Depois de uma estreia auspiciosa com o magnífico Deep Cuts (2004), mano e mana Dreijer voltam a remarcar fronteiras com o mais recente trabalho. E fazem-no manejando probabilidades de um futuro digital, arriscando esboços de retratos sonoros de um universo em que o humano se subjuga à máquina. O som é, por isso, mecânico, quase cinicamente calculista quando se deixa coar pela tecnologia e por ela se rege. As expressões melódicas são governadas por sintetizadores, ou não fosse essa a sonda preferida dos The Knife, e erguem um edifício sonoro que, conservando as máximas típicas da dupla, se encaminha para planos que apuram os vectores industriais do som, em torno de um imaginário mais sombrio e frio. Frio da Suécia. Até a voz (em permanentes mutações) se rende à superioridade gélida da tecnologia e se apresenta mascarada por vocoders e outros efeitos, inflitrando-se submissa à batuta dos sintetizadores, arredada do epicentro da intensidade do disco. Seja ou não um disco desumanizado - porque pejado de corantes e conservantes - curioso mesmo é perceber que um produto assim mecânico, frio e formal, como que engenhado maquinalmente, produz impressões tão autênticas que, se não são um sucedâneo quase perfeito, andam bem perto das emoções humanas. A máquina dos The Knife também sente.

Musicalmente, Silent Shout refina as ideias da dupla sueca apontando a um padrão único de coesão e precisão clínica. Nesta cirurgia (ou siderurgia?) de sons, marca pontos a versatilidade vocal de Karin, a colorir histórias que invocam uma família de personagens grotescas: navegadores solitários, algozes com crise de identidade, hermafroditas, viciados em T.V., entre outros. Em qualquer dos casos, os Knife guardam para si a mais irónica das prerrogativas. Usam a máquina sci-fi, governam-na como uma marioneta e dão-lhe a ilusão da prevalência. Afinal, a derradeira arma de defesa das investidas da máquina está intacta, ou não bastasse desligar a ficha da tomada para suster-lhe o ímpeto. Mas, com música deste calibre, apetece deixar que as máquinas mandem mais um pouquinho. Ou, o que é o mesmo em Silent Shout, que as mãos escondidas na ponta dos cordéis das marionetas sigam assim talentosas por muitos e bons anos e que, de cada vez que se revelem, nos tragam um pedacinho mais da quintessência do futuro. Se encontrar um amanhã melhor, os Knife devolvem a diferença.

quinta-feira, 2 de março de 2006

Mogwai - Mr. Beast

Apreciação final: 7/10
Edição: Matador, Março 2006
Género: Pós-Rock/Instrumental
Sítio Oficial: www.mogwai.co.uk








Se bem que muitos ouvidos teimem em deixá-los na periferia, os escoceses Mogwai já andam nestas lides há onze anos. Indiferente a essa marginalização, o quinteto de Glasgow construiu uma sólida reputação e é, hoje por hoje, figura essencial do circuito pós-rock instrumental, permanecendo como um dos projectos mais inspiradores do Reino Unido. Neste trabalho, sublinha-se um compromisso vocal acrescido, por comparação com outros trabalhos. De resto, mantém-se a dinâmica de altos e baixos, com um pouco mais de desassossego e volumes esticados a outros níveis, bem além da quietude de Happy Songs for Happy People (2003). A arte das frases melódicas propõe constantemente uma estranha casta de orações mentais, peças unas de meditação delineadas pelas construções sinuosas das guitarras, como se Mr. Beast fosse o fundo musical de uma catedral em ruínas. A última pedra é o vanguardismo, sempre presente em fórmulas que não temem a experiência e buscam, sem pretensiosismo, a abertura das fronteiras do país rock. O resto são equações cheias de ângulos e o toque sedutor de composições pausadas rumo a clímaces demoradamente sulfurosos, onde cada elemento toma o lugar justo e calça o sapato certo para o andamento. As passadas são divergentes, umas vezes tristes no balanço, mais pesarosas, e outras vezes mais agrestes e lancinantes. O denominador comum: a melancolia.

Os Mogwai não subscrevem música para animar a malta. A caterva tem os Black Eyed Peas para isso. Aqui, procura-se (e às vezes encontra-se) a beleza que clandestinamente flutua no éter da comiseração. Alheia e própria. Também por isso, não é um disco de lucros repentinos para o auditor. A depuração de um som multi-camadas obriga a várias audições, com a paciência de um melómano experimentado, até que se vislumbrem os sinais característicos dos Mogwai. Vencida a batalha com a barreira densa de sons, tocado o esqueleto de Mr. Beast chega-se a uma de duas conclusões: ou eles estão mais ruidosos e, por isso, mais próximos do passado ou, pelo contrário, limitaram-se a ligar o piloto automático. No caso dos Mogwai, em qualquer das hipóteses vale a pena dissecar o disco.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Jenny Lewis and The Watson Twins - Rabbit Fur Coat

Apreciação final: 6/10
Edição: Team Love, Janeiro 2006
Género: Indie Pop/Country
Sítio Oficial: www.jennylewis.com








Jenny Lewis foi uma das fundadoras do projecto Rilo Kiley, colectivo californiano a que emprestou a voz em três álbuns que, mesmo não sendo enaltecidos como obras primas, valeram ao colectivo americano a deferência da comunidade pop alternativa. Na sua iniciação a solo, Lewis enche os pulmões de ar patriótico, pede a ajuda ao gospel das manas Watson (e alguns amigos como M. Ward, Ben Gibbard ou Conor Obert dão uma mãozinha) e apronta um caldo de fazer as delícias do Tio Sam. Dentro do mesmo caldeirão, comandados pela voz afectuosa e frágil de Lewis, estão os ingredientes clássicos da música americana: as reminiscências country, a nostalgia da folk genuína, o sentimentalismo confessional e até uma pitadinha de a capella, logo na abertura do alinhamento. Decididamente, Rabbit Fur Coat faz uso dos ensinamentos clássicos da country, ao jeito do disco de estreia dos Rilo Kiley, ainda que se exprima com um balanço mais mainstream. Ultrapassadas as primeiras impressões - em que o brilho da voz de Lewis (inteligentemente sublinhado pela produção) ofusca os demais elementos - o disco vai revelando, imergido entre as texturas instrumentais, um certo pragmatismo lírico que, bem vistas as coisas, contagia a face instrumental em certos momentos. Como se Lewis sentasse, ao redor de uma fogueira, os seus convidados ilustres e, ao jeito de um acampamento de escuteiros, registassem uma serenata nocturna sem destinatário. Tão americano que até cabe uma versão dos míticos Travelling Willburys (colectivo que o ex-Beatle George Harrison criou com Bob Dylan, Tom Petty e Roy Orbison, no final da década de 80), a canção "Handle With Care".

Não surpreende que os genes indie de Lewis se sintam como peixe na água nesta mirada retrospectiva, afinal as fórmulas clássicas estiveram sempre presentes na música dos Rilo Kiley. Todavia, apesar de as canções de Rabbit Fur Coat deixarem a ressonância refrescante de remexer memórias dos vinis de Dylan, não afastam uma dúvida existencial: será que esta ex-actriz teenager não era convidada para dançar pelos rapazes? Vendo as fotografias da moça, ou Rabbit Fur Coat não é autobiográfico, ou é um embuste...Em qualquer dos casos, musicalmente o álbum é competente, mas não passa a fasquia da mediania.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

Alexandre Rodrigues em Cidade de Deus (2002)

Beth Orton - Comfort of Strangers

Apreciação final: 7/10
Edição: Astralwerks, Fevereiro 2006
Género: Folk/Cantautor/Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.bethorton.mu








Vai no quarto disco, tem um pé na folk acústica e outro na country (ela até nem é americana), foi quase-emblema da comunidade indie britânica e faz canções pejadas de delicadeza intimista. Chama-se Beth Orton e o seu mais recente trabalho marca um saudado retrocesso às ideias basilares do seu disco mais bem sucedido, o singular Central Reservation (1999). Depois dos devaneios de Daybreaker (2002), a compositora repesca os conceitos que melhor servem o desígnio de cantautora. Está aqui tudo: as guitarras acústicas, os enfeites do piano (e outras teclas), o ajuste da percussão e um registo vocal espesso e afectivo (às vezes, puxa-nos a memória para Fiona Apple). A produção é assinada por Jim O'Rourke (ex-Sonic Youth) e reduz as composições à simplicidade que a introspecção mental de Orton reclama. Daí sobrevém a personalidade nua destas canções, sem auxílio de artifícios de estúdio e muito coração. Ora cáustica, ora doce, Orton soa sempre autêntica. Como numa complexa sessão de terapia musical à procura da esperança. E aí, nesse concurso de alentos, nas intersecções dos vários planos meditativos da vida, reside a chave das melodias deste Comfort of Strangers.

Estas canções não foram feitas para parecer bem, nem sequer são especialmente amigas do FM. Orton é uma nómada sem destino, orgulha-se de conquistar mundos desconhecidos, empunhando a arma do sentimento, também da confissão, e a mais recente aventura do seu percurso é apenas e só um episódio mais. Não importa o rumo quando se redescobrem as raízes e se convergem energias para construir algo que, sendo mundano, não é transitório. E é isso que Orton (e O'Rourke) fez. Comfort of Strangers até pode ser um pouco aliterante, mas não deixa de ser um retrato da alma de Orton. E quando um músico consegue tal ímpeto de individualidade e se expõe deste jeito, ficamos a dever-lhe gratidão. Pela música e por nos abrir o seu cofre de segredos.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: New Order

O movimento electro-pop nunca teria existido sem os New Order. Depois do suicídio do carismático Ian Curtis, os restantes membros dos extintos Joy Division formaram, no início da década de 80, os New Order. O guitarrista Bernard Sumner (que viria a tornar-se o vocalista do novo agrupamento), o baixista Peter Hook e o baterista Stephen Morris recrutaram a teclista Gillian Gilbert e, juntos, haveriam de revolucionar a pop de raíz electrónica, criando uma estética pioneira de fusão da música de dança com as estruturas das sonoridades mais mainstream. Os sintetizadores impuseram-se como instrumento dominante das texturas sonoras do grupo e ajudaram à definição de uma estética inconfundível e que, além de marcar uma geração, deixaria pistas para as tendências mais recentes da música electrónica.

A faixa que aqui apresento ("Blue Monday") foi editada em 1983 e é a canção mais emblemática da carreira dos New Order, sendo ainda hoje um dos singles mais vendidos da história da música britânica. Integrada no álbum Power, Corruption & Lies, capítulo emancipador do ensemble em relação à sombra dos Joy Division, a canção definiu uma nova identidade musical e é uma peça excelsa da música electrónica, digna de figurar em qualquer colecção do género.

Para ouvir esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Coldcut - Sound Mirrors

Apreciação final: 7/10
Edição: Ninja Tune/Symbiose, Janeiro 2006
Género: Electrónica/Trip-Hop
Sítio Oficial: www.coldcut.net








Eles não são nenhuns novatos, andam pelo underground britânico há tempo suficiente (duas décadas) para merecerem a admiração da electrónica de inclinação dançarina. Muitos remixes, colaborações e criação de selos (entre eles, a Ninja Tune) depois, as lendas Jonathan More e Matt Black estão de regresso às gravações de estúdio, nove anos volvidos do último registo. Para Sound Mirrors, a dupla convocou um rol extenso de músicos célebres e oriundos de vários cenários musicais, concebendo a mais ecléctica opus do seu catálogo. Dos convidados ilustres ressaltam os nomes do roqueiro americano Jon Spencer, do rapper Mike Ladd, do underground rapper Roots Manuva, do Dj Robert Owens e do projecto experimentalista Fog. Como está bom de ver, o disco é um ajuntamento de géneros, percorrendo classes distintas da música electrónica, umas mais contemporâneas do que outras, mas sempre tentando convergências com as atmosferas progressivas do trip-hop. E, embora a estrutura das composições não aponte rumos novos (parece tentar acomodar os códigos antigos à linguagem actual) e, pior do que isso, se assemelhe a um amontoado de peças esparsas, a produção é cuidada e destaca um som profundamente urbano. Urbano demais, dir-se-à, já que o disco não envolve convincentemente o ouvinte na empatia sugerida pelos ambientes sonoros, deixando-o no frívolo meio-termo entre o apetite de descobrir mais ou, ao invés disso, preterir a sugestão.

Sound Mirrors é um caleidoscópio de vistas largas sobre as várias concepções da electrónica (e misturas audazes com outros formatos) e, por isso, é também uma obra fragmentada. Ainda assim, a vitalidade palpável de composições como o explosivo single "Everything Is Out of Control", a deliciosamente retro "Just For The Kick", a mecânica digital do tema-título ou o vangardismo experimental de "A Whistle and a Prayer", confirma que, se Sound Mirrors resulta algo desconjuntado, também funda porções suficientemente iluminadas que, a par da produção, bastam para o não fazer um disco inferior. Até porque é a prova provada de que nem todos os dinossauros estão extintos. Estes, prosseguem as suas jornadas exploratórias e continuam a jogar habilmente com o pulsar electrónico. Nem a erosão do tempo os demove da satisfação de criar a bel-prazer .

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Robert Pollard - From a Compound Eye

Apreciação final: 7/10
Edição: Merge, Janeiro 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: http://robertpollard.net








O mais recente trabalho a solo do maestro criativo dos extintos Guided by Voices é já o oitavo exercício individual mas parece o primeiro. E assim é porque o músico busca em From a Compound Eye a definitiva consolidação de um estatuto próprio, descolado das configurações da banda que liderou durante quase duas décadas. Não é que o som seja tão declaradamente diverso mas deixa um lastro de nova iniciação, como se Pollard aspirasse a um outro baptismo musical, um renascimento. De parte foram deixados os caracteres experimentalistas que nortearam os anteriores trabalhos a solo - não eram mais do que provas de um tirocínio fora das fronteiras do GBV - e trocados por um som mais completo e mais musculado, em aparente contraste com o lo-fi dos GBV, e vizinho de estruturas pouco respeitadoras de géneros. A atmosfera maioritariamente art-rock do duplo álbum é perfumada por aromas The Who e, nas palavras do próprio Pollard, o disco resume-se a quatro P's: pop, punk, psicadélico e progressivo. O tom prosaico da definição tem paralelo no disco, num rol de composições em que convivem algumas das criações mais oportunas de Pollard e outras tantas peças despiciendas. Dessa incongruência deriva a sensação de que esta colecção de canções é extensa demais (26 faixas) e acaba por embaciar o brilho de faixas como "Love Is Stronger Than Witchcraft" ou "Lightshow".

Não estão em causa os dotes criativos de Pollard (já estavam certificados há muito tempo), tampouco a indulgência de tentar uma mímica musical mais introspectiva com a mesma linguagem abstracta que emprestou aos GBV, mas From a Compound Eye não indicia qualquer evolução musical e, ao fim de algumas audições, faz-se notar, sem surpresa, a similitude com pedaços dos vastos ambientes sonoros dos GBV. No fundo, à procura de um génio que não se revela, mais do mesmo: algumas boas canções e alguns pontapés no ar. From a Compound Eye é um gourmet de iguarias várias, ou não fosse um disco de Pollard, mas que deve ser consumido com uma regra de cepticismo. Como quem espeta o garfo no bife tártaro e torce o nariz às alcaparras na borda do prato.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Liars - Drum's Not Dead

Apreciação final: 8/10
Edição: Mute Records/EMI, Fevereiro 2006
Género: Pós-Rock/Vanguardista/Experimental
Sítio Oficial: www.liarsliarsliars.com








A formação académica nas artes dos nova-iorquinos Angus Andrew e Aaron Hemphill não passa despercebida às fundações do projecto Liars, uma aventura que iniciaram há meia dúzia de anos e que, chegada ao terceiro longa-duração, ainda evidencia a salutar indecisão do escultor no exacto momento de gravar a pedra a cinzel. Talvez fruto dessa incerteza, ou do interesse em firmar um estilo pouco dado a praxes, os Liars mudam de pele em cada álbum, adquirem formas e tonalidades musicais diferentes, ao ponto de pouco se descortinarem laivos de uma identidade sonora. Eles fazem questão de ser mesmo assim e encontrar estímulos criativos nas metamorfoses a que se obrigam e que os remetem para territórios musicais originais. Em Drum's Not Dead há um conceito de surrealismo futurista (sublinhado pelo DVD de suporte do álbum), em torno de duas personagens ficcionais, emblemas das duas metades do processo criativo: o genuíno Drum, o símbolo da firmeza e da criação, representado na dinâmica propulsora de percussões que é regra no disco (as convulsões rítmicas das batidas assumem-se como o instrumento-mãe), e o reticente Mount Heart Attack, o reagente da dúvida e do stress, subliminarmente exposto nas texturas menos sinfónicas dos elementos digitais.

Distantes parecem os tempos em que o corpo musical dos Liars era um formulário de guitarras desvairadas e de composições feitas para perturbar. Definitivamente mais próximo do ideário experimentalista (também mais pacífico para os ouvidos...), o som dos Liars tem, neste disco, qualquer coisa de tribal, ao jeito de rock inculto, com suposições melódicas interessantes (as faixas do sr. Drum) e ligeiras cambiantes industriais (com o sr. Heart Attack). Mais do que isso, o álbum consegue um raro feito: troca as voltas do tempo, tocando planos vanguardistas com percussões primitivas. Aos Liars, pouco importa o anacronismo ou a lógica; interessa-lhes prosseguir a sua expedição exploratória e fazer música espontânea e de impulsos. Mais do que um álbum superior, Drum's Not Dead é um tratado psíquico. E uma fantasia musical tão única e verosímil que parece sempre ter estado alojada num cantinho escuro da memória. A música dos Liars trouxe a luz.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Joy Division

Os Joy Division afirmaram-se no apogeu da era punk britânica, quando a energia irreverente dos niilistas Sex Pistols extasiava os mais jovens e chocava a fleumática sociedade inglesa. Ao invés do vigor e da raiva, o colectivo liderado pelo malogrado Ian Curtis afirmou-se num registo menos explícito, mais fechado e, sobretudo, mais melancólico e reflexivo. A curta carreira discográfica do grupo - apenas editaram dois álbuns de estúdio - deixou um lastro de angústia emocional, ao ponto de, no final da década de 70, os Joy Division se terem tornado os ícones de uma geração desorientada, orfã de gurus e que se revia nas confissões parabólicas de Curtis, com um som quase industrial, tortuoso e profundamente pessoal.

Lançado pouco tempo depois do suicídio de Curtis, o álbum Closer (1980) é a obra mais ecléctica dos Joy Division e é considerado por muitos como uma das peças documentais mais importantes da história recente da música britânica. O tema "Heart and Soul" é um dos exercícios de apocalipse pessoal mais bem conseguidos do ensemble inglês e integrou o alinhamento da edição original do disco. Uma canção taciturna e algo misteriosa, tão problemática quanto a doente mente de Curtis (o músico era epiléptico).

Para escutar esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de sete dias.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

Bengt Ekerot e Max von Sydow em Det Sjunde Inseglet (O Sétimo Selo, 1957)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Ursula Rucker - Ma' At Mama

Apreciação final: 7/10
Edição: K7, Janeiro 2006
Género: Spoken Word/Downtempo
Sítio Oficial: www.ursula-rucker.com








A música da norte-americana Ursula Rucker não é música, é palavra. Ela está de volta com Ma' At Mama e assume, cada vez mais, o estatuto de figura de proa do formato spoken word. Para quem não está familiarizado com o anglicismo, trata-se de uma família musical próxima das raízes do hip-hop, em que se articulam discursos sobre um fundo musical moderno e urbano e que é feito, grosso modo, de partes iguais de soul, funk e jazz, como convém à genealogia afro-americana. No caso de Rucker, o tom é assertivo; ela não faz caso de trivialidades, dá prioridade aos sentimentos mais viscerais. Foi à custa deles que formou uma identidade musical com contextos autobiográficos, experiências relatadas na primeira pessoa e, por isso, mais cruas e cáusticas. Mas a exposição pessoal não é feita de borla, o auditor fica sujeito a sermões ácidos, a orações sem pudor de ferir explicitamente as mais puristas decências instaladas. Parental Advisory: Explicit Lyrics. Autora de poesia quase cantada e que verseja sobre problemáticas mundanas ou solicitações divinas, Rucker é uma espécie de profeta esconjuradora e soldado de doutrinas da cultura negra. Para ela, as guerras não têm nada de santas. E a palavra é a espingarda mais mortal, à procura da verdade entre as ruínas invisíveis do confronto civilizacional.

Ma' At Mama é o terceiro álbum da anti-diva e é o equivalente musical de um sumo concentrado. Aqui, ao invés do sumo e da polpa de um fruto, acumula-se paixão e revolta. Junte-se-lhe controvérsia q.b., competência no uso da palavra como arma de arremesso e uma postura intrépida e aí está a sinopse artística do disco. Invocando o princípio universal da verdade, do equílibrio e ordem da cultura egípcia (Ma'at), Rucker assina um trabalho que se propõe ser o catalisador da mudança social e do despertar de consciências. A esse nível, talvez não faça mossa a grande escala mas, ao ritmo do solene dardejar das composições, há-de fazer-nos corar de vergonha do nosso tacanho egoísmo. Ou não.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Tiga - Sexor

Apreciação final: 8/10
Edição: PIAS/Different, Fevereiro 2006
Género: Techno/House/Dance-Club
Sítio Oficial: www.tiga.ca








O planeta Sexor é um produto da mente do conceituado produtor e DJ canadiano Tiga. Mais do que parte integrante de uma galáxia imaginária, o primeiro disco de Tiga é um casulo de ritmos que rimam com dança; lá dentro há puro fogo de artifício das pistas de danças dos 80's, numa intoxicação melódica excitante e pejada de boas vibrações . Sexor ataca declaradamente todos os dancefloors mas fá-lo com alma e fito e com uma sensualidade que mistura matrizes techno e house. No fundo, a proposta é pop mascarada de música de discoteca (chamam-lhe electro-pop), mas a sua versatilidade deriva das feições intemporais - até chegam a sentir-se alguns mimetismos Depeche Mode ou Kraftwerk - de composições inteligentes e aprimoradas com requinte. Trocado por miúdos, Sexor tem as prováveis medidas de um clássico electro-pop que recupera a idade de ouro dos sintetizadores, acrescentando-lhes substâncias modernas. E consegue isso sem soar datado, antes produzindo ambientes sonoros frescos, muito por conta da excelência da produção, a cargo do próprio Tiga, dos irmãos Dewaele (dos projectos Soulwax e 2 Many Dj's) e do mago techno sueco, o ilustre Jesper Dahlback. A engrossar a lista de convidados célebres, Jake Shears (Scissor Sisters) empresta a voz ao single de apresentação, "You Gonna Want Me".

A reputação de Tiga antecede-o: atrás desta edição, está um arsenal de produções na área da música de dança e diversos remixes de gente conhecida (LCD Soundsystem, Felix da Housecat, Fisherspooner, Mylo e Scissor Sisters, entre outros). Com uma longa gestação de cerca de cinco anos na fase de produção, o álbum de estreia do canadiano prova as suas aptidões como compositor. É uma colecção extasiante de convites irrecusáveis para dançar e, não obstante os momentos menos felizes - que até nem são escritos por Tiga - como as covers de "Down in It" (Nine Inch Nails) e "Burnin' Down the House" (Talking Heads), o disco tem uma vitalidade incansável. Sexor é um dos momentos mais bem conseguidos da cena electro-pop dos últimos anos e não estranhará se, daqui por uns tempos, se virem uns corpos jovens e desnorteados a bambolearem-se com este som numa qualquer discoteca deste país.

Postal Musicado: Velvet Underground

Inspirada no livro homónimo de Leopold von Sacher-Masoch - publicação que está na génese do conceito de masoquismo - esta canção escrita por Lou Reed integra o alinhamento de um dos álbuns mais significativos da história da música. Velvet Underground & Nico, editado originalmente em 1967, é um disco essencial para qualquer melómano que se preze e foi um dos capítulos mais influenciadores de décadas de gerações musicais seguintes, sendo ainda hoje aceite como um marco da música independente. Com ilustração de capa e produção do artista plástico Andy Warhol, o disco inclui alguns êxitos inesquecíveis do legado dos míticos Velvet Underground.

"Venus in Furs" conta-nos a história de Severin, o alter-ego literário de Leopold von Sacher-Masoch, e da forma como, em tenra idade, construiu o simbolismo sexual do prazer no sofrimento, a partir das sevícias de uma tia que, trajada com peles, gradualmente se converteu, na mente solitária do jovem Severin, de severo algoz a objecto de idolatria sexual. Ou de como, do tormento físico nasceu o prazer. A caneta de Reed captou na perfeição a volúpia descritiva de "Venus in Furs".

Para ouvir esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

The Weatherman - Cruisin' Alaska

Apreciação final: 7/10
Edição: Mono''cromatica, Fevereiro 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.monocromatica.com








O sítio oficial da etiqueta Mono''cromatica apresenta o gaiense Alexandre Monteiro como um personagem fechado, alguém que passou uma mocidade algo isolada do mundo exterior e que encontrou na música a fuga mental para a misantropia. Desses estímulos musicais redentores, ressaltam os Beatles ou os Beach Boys, como o próprio admitiu em entrevistas recentes. As alusões são óbvias e cruzam, de uma ponta à outra, o alinhamento de Cruisin' Alaska, o seu disco de estreia, um exercício pop retrospectivo que se deixa guiar por coordenadas nostálgicas da década de 60 e que, sem as privar do imediatismo e simplicidade, as transpõe para o universo zeloso da pop contemporânea. Cruisin' Alaska é, de certa forma, um disco inocente e de validade caseira, primorosamente desviado das certezas; Alexandre Monteiro prefere as contingências côr-de-rosa dos sonhos, e passa-as a melodias copiadas a papel químico. Porque, lá fora no mundo real, nem tudo tem as cores da ficção. A música de Weatherman é, portanto, uma pop retro luminosa, de colorações vivas que não se rebaixam por, aqui e ali, se disfarçarem de preto e branco. Nesse tabuleiro de emoções do álbum, ainda que tenham lugar partículas de melancolia, o optimismo ganha por margem mínima e faz alarde de si em coros harmoniosos, vozes múltiplas e orquestrações de estio que só se desprendem do acanho ao fim de algumas audições. Mas, em tempo algum, arreda pé dos ambientes sonoros o vestígio de melancolia que, afinal, não deixa que o disco resvale para o tom de felicidade parvinha. À prova de tontices, portanto.

Alexandre Monteiro não é fingidor como os poetas nem precisa de rimar para versejar. Basta-lhe adorar Wilson e Lennon e cozinhar (bem) a sua música. Se para tal precisa de escapulir-se para o Alaska (ou para um sucedâneo mais próximo: a estância de esqui de Sierra del Sol...), dêem-lhe asas para imaginar. Depois, junte-se-lhe a perspicácia solitária de um eremita musical, a espontaneidade e o risco dos momentos pouco ponderados e o resultado é Cruisin' Alaska. Nem sempre os peritos da meteorologia acertam nas previsões mas, ao escutar o álbum de estreia deste homem do tempo gaiense, dá vontade de apostar que, para os tempos mais próximos, se esperam dias de sol com o céu ligeiramente nublado. Como a música de Weatherman.

Posto de escutaPeople Get Lazy
Descarregue o single de apresentação (mp3)
Clique na imagem para ampliar

Edward Hopper, Nighthawks, 1942

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Don McLean

A canção que hoje proponho foi editada originalmente em 1971 no álbum American Pie do músico nova-iorquino Don McLean. Com mais de oito minutos de duração, a canção viria a tornar-se um dos mais improváveis êxitos da história do rock, tornando-se o ícone incontornável de uma geração, por força do simbolismo de fazer menção a uma tragédia que marcou o final da década de 50: o célebre acidente de aviação que haveria de pôr prematuramente fim à vida de Buddy Holly e Ritchie Vallens, figuras de proa da afirmação do rock'n'roll. Holly tinha 22 anos e Vallens apenas 17 (tinha acabado de lançar o seu êxito intemporal, "La Bamba"). Aconteceu no dia 3 de Fevereiro de 1959 o dia em que, segundo a letra de McLean, a música morreu.

Para escutar esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Loosers - Bully Bones of Belgie

Apreciação final: 7/10
Edição: Qbico Records, Janeiro 2006 (Vinil)
Género: Experimental/Fusão/Tribal
Sítio Oficial: www.loosersarefree.com








Depois de terem inquietado os circuitos mais independentes da música lisboeta com o inspirado álbum For All The Round Suns, editado em 2005, os Loosers abrem-nos a porta do seu quarto escuro. Em Bully Bones of Belgie, uma edição única em vinil, não se repetem a voracidade e a fricção do longa-duração e troca-se o suor musculado das distorções e o psicadelismo vocal por planos de transcendência. O noise rock não mora aqui, os compassos são pesados, arrastam-se indefinidamente para o infinito da mente, como num ritual pagão, quase endemoninhado, feito de mantras tétricos e cismas de ruídos desprendidos. A pulsação é tribal, toma fôlegos de uma espécie de cerimonial mórbido de adulação a criaturas ímpias. O lado A de Bully Bones of Belgie podia muito bem ser o fundo musical de uma missa negra de exaltação do transe ou o requiem de um clã índio perdido nos confins da periferia da civilização e rendido a politeísmos anárquicos. É assim também a música dos Loosers, intencionalmente desordenada, minimalista na expressão e extrema na sugestão espiritual.

Do outro lado do mesmo vinil verde, a proposta tem outras curvas. As composições são mais urgentes, também mais empanturradas de sons. O embalo tribal esbate-se e dá lugar a abstracções mais próprias do pós-rock, verdadeiros malabarismos onde a guitarra adulterada esboça ângulos alucinogénios, de espectro multicolor. A dinâmica torna-se menos ritualista e mais experimental, mas não se corrompe a empatia das manobras hipnotizantes. A dada altura, já não conseguem os sentidos opor-se à vastidão de impulsos que a música serve. Restarão, no espírito, os ecos improvisados e imagens sonoras das acrobacias. Bully Bones of Belgie não é música para ouvir, é para sentir. Não entra pelos tímpanos, é um vapor que se cheira, se inala e nos invade as narinas, direito ao cérebro, impondo alegorias de ritos obscuros e desconhecidos, figurações fantasmais de universos paralelos e dogmas pagãos, bruxarias e sacríficios, prestidigitações e equilibrismos. A tundra e o circo.

Em contraste com o primeiro longa-duração, os Loosers exprimem-se em fraseados musicais mais experimentais e dir-se-ia que desponta de Bully Bones of Belgie um elemento místico não proposto noutros trabalhos. Ou não traçado assim. Conclusão óbvia: Tiago Miranda e seus pares são alquimistas. Não sabem a pedra filosofal mas, neste disco, só mudam de palco: ora no papel de sacerdotes tribais de ocasião (lado A), ora na incumbência de saltimbancos de feira (lado B), saem-se a preceito. Entre as paredes do quarto escuro, eles não são os mesmos, são tão livres como no endereço do sítio oficial.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Postal Musicado : Tom Waits

Instrumentalizações pouco comuns a tenderem para a cacofonia, uma voz cavernosa inconfundível, conteúdos surrealistas nas letras e um caos sonoro anti-convenções são alguns dos atributos que marcaram a carreira de Tom Waits. Reconhecido como um dos mais inventivos criadores da sua geração, Waits é um mercador de emoções, molda-as como poucos em códigos musicais variados. Difícil mesmo é fechar o seu trabalho num rótulo único.

A composição que hoje proponho é um dos momentos mais melancólicos da carreira do músico americano, a inesquecível balada "Tom Traubert's Blues", do álbum Small Change (1976). Os tricotados do piano são completados por arranjos orquestrais sublimes, destacando a voz pesarosa e grave de Waits.

Para escutar esta canção, clique aqui.
As canções do Postal Musicado estão disponíveis por um período máximo de 7 dias.

Sparks - Hello Young Lovers

Apreciação final: 7/10
Edição: Gut/Edel, Fevereiro 2006
Género: Pop Erudita/Opera Rock/New Wave
Sítio Oficial: www.allsparks.com








Excêntrico. No dicionário da língua portuguesa, o adjectivo significa fora do centro, com centro diferente, extravagante, original, esquisito, caprichoso. Qualquer um desses sinónimos é atributo da música que os irmãos Mael (Ron e Russell) fazem há cerca de três décadas e meia, conservando as alegorias que fizeram deles um dos mais inventivos conceitos musicais do universo marginal do rock. E os Sparks orgulham-se dessa marginalização, ou não fosse ela decretada pelas suas composições, declaradamente desafiadoras da irrefutabilidade das regras e assumidamente provocadoras. A estratégia está montada: compôr uma bizarra amálgama de sons, sem relação com coisa alguma, com teclas liderantes e cordas assertivas, flutuações rítmicas em esquemas de altos e baixos, um corpo instrumental perto das estruturas clássicas da música de câmara, construções vocais com o peso dramático de uma ópera-rock. O repto ao ouvinte repete os mesmos extremos que haviam sido elogiados no esplêndido Lil' Beethoven e, quatro anos volvidos, não estão ainda esgotadas as sombras desse disco. Ao escutá-lo, apossa-se do intelecto uma leve desilusão por perceber que Hello Young Lovers falha dois tiros tentados: nem é o álbum de continuidade possível nem propõe planos não estreados antes. É, antes, um disco de replays do antecessor e limita-se a repescar equações de Lil' Beethoven. E deixá-las em piloto automático.

Hello Young Lovers não é um disco nocivo. Longe disso. O seu defeito maior é ser a sequela de uma obra magna e, por isso, ficar ofuscado por um fulgor que dificilmente alcançaria. Para quem é habitué em cortes radicais com o convencionalismo que elevam as fasquias da exigência a níveis imensos, os Sparks ficam aquém de si mesmos. Ainda assim, há aqui peças com dons indesmentiveis, como a vaidosa "Metaphors", a sóbria "Waterproof", a imaginativa "There's No Such Thing As Aliens" ou a efusiva e irónica "(Baby Baby) Can I Invade Your Country?". Com mais momentos assim, Hello Young Lovers teria sido uma rapsódia em paridade com os instantes mais inspirados da discografia dos Sparks.

Posto de escutaCravo e Canela(Baby Baby) Can I Invade Your Country?
Para ouvir estas amostras precisa do Real Player. Descarregue-o aqui.
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Frantisek Kupka, Planes By Colors - Large Nude, 1909-10

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

The Elected - Sun, Sun, Sun

Apreciação final: 6/10
Edição: SubPop/Musicactiva, Janeiro 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.theelected.com








A fotografia que ilustra as páginas centrais do booklet do novo trabalho dos The Elected - o projecto paralelo de Blake Sennett, guitarrista dos Rilo Kiley - é uma apresentação gráfica eloquente do som fornecido pelo quarteto californiano neste Sun, Sun, Sun. Nela, dois dos elementos do grupo (o próprio Sennett e Mike Bloom) parecem dividir uma serenata ocasional a duas moçoilas, numa toalha de picnic, num areal à beira-mar, com a bruma clandestina de Los Angeles a servir de testemunha. Assim é a música registada no fonograma: romântica, bela pela franqueza e sensibilidade mas simultaneamente introspectiva dos reflexos ambíguos do amor. Nestes retratos musicados há, também, alguma coisa de genuíno da Califórnia, seja nas melodias poeirentas do Oeste (ao jeito de Neil Young ou Gram Parson), seja na pop que tributa o Pacífico (de que Brian Wilson é o pupilo mais relevante). No fundo, Sun, Sun, Sun é uma colagem de fragmentos de um universo idílico, um mundo de ficções soft rock que resultam de combinações expeditas de guitarras (acústicas e eléctricas), banjos, um outro instrumento de sopro e a voz (às vezes exageradamente) murmurante de Bennett. As composições não fazem um logro, são mesmo ensolaradas e lembram repetidamente, em trejeitos harmónicos cativantes, o sentimento que melhor serve de sinopse ao disco: o relaxe (moleza?) depois de uma tarde soalheira de praia. Depois, as histórias versadas nas letras são poéticas e humoradas, desde o episódio do pequeno pássaro que, mesmo com a asa quebrada, ainda é capaz de cantar ("Clouds Parting"), ao parzinho de namorados que vão caçar apenas para usar os bonés de caça ("Would You Come With Me"), por exemplo.

Sun, Sun, Sun é uma ode ao sol e aos amores que sob o seu amparo se cultivam e vibra tão naturalmente quanto os improvisos musicais espontâneos de uma reunião de escuteiros. Não se deduza daqui que o som revela amadorismo; o quarteto mostra índices de coesão superiores ao trabalho de estreia, a escrita é do melhor da carreira de Bennett e seus pares e a produção é cristalina. O busílis deste sol: o primor técnico é nota dominante de tal jeito que a matemática dos preciosismos chega a roubar alma a canções que só teriam a ganhar em se expôrem com mais autenticidade. E isso é o que impede este Sun, Sun, Sun de ser o disco magno que podia ter sido.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

John Hurt em The Elephant Man (O Homem Elefante, 1980)

Postal Musicado: David Bowie

O camaleão é uma referência intemporal. Prestes a celebrar os quarenta anos de carreira nas lides discográficas, o britânico David Bowie escreveu algumas das mais memoráveis canções da pop dos anos 70 e 80. À irreverência visual dos vários alter-egos que criou - com o celebérrimo Ziggy Stardust à cabeça - Bowie soma um traço de criatividade ímpar, dando enfoque ao recurso a tons vocais menos comuns e à integração de instrumentalizações que, a despeito de subliminares pitadas de psicadelismo, serviram de base àquilo que, mais tarde, se convencionaria chamar de glam rock.

A proposta que aqui deixo é uma repescagem do grande clássico "Heroes", co-escrito por Brian Eno e parte integrante do alinhamento do álbum homónimo lançado em 1977. A guitarra de Robert Fripp (King Crimson) também andava por aqui nesta altura. Indiscutivelmente, uma das grandes canções da segunda metada dos anos 70 e um marco inesquecível na carreira de Bowie.

Para escutar esta canção, clique aqui.
A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Electric Masada - At the Mountains of Madness

Apreciação final: 8/10
Edição: Tzadik, Novembro 2005
Género: Free Jazz-Rock/Improviso/Fusão
Sítio Oficial: www.tzadik.com








O que se pode esperar de um ensemble que reúne, além do saxofone do poliglota musical e maestro /compositor John Zorn, as aptidões reconhecidas do percussionista brasileiro Cyro Baptista, dos bateristas Joey Baron e Kenny Wollesen, do baixista Trevor Dunn (colaborador regular de Mike Patton no projecto Fantômas), do guitarrista Mark Ribot (líder do colectivo Los Cubanos Postizos), do teclista Jamie Saft e do improvisador digital japonês Ikue Mori? Certamente pode esperar-se tudo o que é a antítese da convenção. O paradigma desta ilustre Electric Masada é, como decorre dos manuais inventivos de Zorn, virar a música do avesso, remisturar conceitos numa linguagem musical universal, carregada de referências transversais que percorrem uma multitude de géneros, desde o misticismo dos ritmos orientais a um certo ritualismo pagão da música africana, do tempero acalorado das cadências latinas ao colorido inesgotável do klezmer, da elasticidade do jazz ao laconismo dos blues, do psicadelismo do noise rock ao pulsar confortável do funk, das alucinações do free jazz à precisão da composição regrada. Deste aparente caos não resulta um jogo babélico, antes se afirma uma impressão musical autónoma cuja lei maior é a transgressão de normas. O produto da Electric Masada, aqui registando em disco duplo alguns momentos de actuações ao vivo do octeto (Moscovo e Ljubliana), é uma massa sonora de incomum intensidade e de acutilância electrizante, jogando habilmente com as alternâncias que os diálogos de instrumentos propõem e que as derivações de ritmo suportam. Depois, nenhum dos músicos se sobrepõe aos demais: o sax alto de Zorn é gracioso, a guitarra de Ribot é tão cabalmente hostil como amistosa, o baixo de Dunn faz marcação cerrada à vibração das percussões e, para fechar o conjunto com chave dourada, as interferências digitais de Mori e as ramificações analógicas de Saft acrescentam ingredientes preciosos a esta genuína recreação de várias longitudes culturais.

At the Mountains of Madness é uma excursão musical sem rédeas e sem limites. Expede-nos, entre as alusões bem-vindas à identidade musical de Miles Davis, dos saudosos Naked City (de Zorn) ou do lendário Frank Zappa, para o songbook que Zorn encetou no dealbar da década de 90, a ilustre série Masada, supostamente um conjunto de peças (mais de 200!) passíveis de serem tocadas em qualquer género musical. Tal como o melhor material da Masada, a matriz melódica é, aqui, ecléctica e alterna entre os instantes mais atmosféricos e os jams mais furiosos de improviso jazz, com os indissociáveis adereços rock. Única reclamação: com tantas composições para escolher porquê repetir - mesmo sabendo-se que o improviso torna cada interpretação uma peça única - seis delas nos dois discos desta edição? Esquecendo esse pormenor, At the Mountains of Madness é um documento imprescindível e tem um discurso tão multilingue que dispensa tradução. A música como linguagem universal.

Posto de escutaMetal TovKaraimTekufah

Postal musicado: Stan Getz

De uma assentada, o postal musicado rende hoje merecida homenagem a três nomes consagrados do jazz e que gravaram para a etiqueta Verve, na edição de 1963 que aqui se recorda, algumas das principais pérolas do património musical do grande António Carlos Jobim. O compositor brasileiro foi convidado, a par do guitarrista e intérprete João Gilberto, para as míticas sessões de gravação imaginadas pelo sublime saxofonista Stan Getz, num dos périplos que este realizou pela América do Sul, em plena década de 60. A voz aveludada de João Gilberto e os acordes românticos da sua guitarra casam magistralmente com o tom inconfundível do saxofone de Getz e as teclas intervenientes de mestre Jobim. O tema aqui apresentado é "Só Danço Samba".

Para escutar esta canção, clique aqui.
As canções do Postal Musicado só estarão disponíveis num prazo máximo de sete dias.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Björk

Hoje trago-vos uma canção da islandesa Björk. Integrada no álbum Homogenic, lançado em 1997, "Jóga" é, ainda hoje, reconhecida como um dos mais sublimes contributos de Björk para a pop nas suas vertentes mais eruditas.


Senhora de uma visão artística ímpar e de uma criatividade a toda a prova, a nórdica deposita nesta composição uma carga emotiva intensa e escreve, a dada altura: "You don't have to speak, I feel". Apetece escutar esta "Jóga" e retorquir a esse desafio com um simples "Nós também".





Para ouvir esta canção clique aqui.