sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Joy Division

Os Joy Division afirmaram-se no apogeu da era punk britânica, quando a energia irreverente dos niilistas Sex Pistols extasiava os mais jovens e chocava a fleumática sociedade inglesa. Ao invés do vigor e da raiva, o colectivo liderado pelo malogrado Ian Curtis afirmou-se num registo menos explícito, mais fechado e, sobretudo, mais melancólico e reflexivo. A curta carreira discográfica do grupo - apenas editaram dois álbuns de estúdio - deixou um lastro de angústia emocional, ao ponto de, no final da década de 70, os Joy Division se terem tornado os ícones de uma geração desorientada, orfã de gurus e que se revia nas confissões parabólicas de Curtis, com um som quase industrial, tortuoso e profundamente pessoal.

Lançado pouco tempo depois do suicídio de Curtis, o álbum Closer (1980) é a obra mais ecléctica dos Joy Division e é considerado por muitos como uma das peças documentais mais importantes da história recente da música britânica. O tema "Heart and Soul" é um dos exercícios de apocalipse pessoal mais bem conseguidos do ensemble inglês e integrou o alinhamento da edição original do disco. Uma canção taciturna e algo misteriosa, tão problemática quanto a doente mente de Curtis (o músico era epiléptico).

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A canção estará disponível por um período máximo de sete dias.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

Bengt Ekerot e Max von Sydow em Det Sjunde Inseglet (O Sétimo Selo, 1957)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Ursula Rucker - Ma' At Mama

Apreciação final: 7/10
Edição: K7, Janeiro 2006
Género: Spoken Word/Downtempo
Sítio Oficial: www.ursula-rucker.com








A música da norte-americana Ursula Rucker não é música, é palavra. Ela está de volta com Ma' At Mama e assume, cada vez mais, o estatuto de figura de proa do formato spoken word. Para quem não está familiarizado com o anglicismo, trata-se de uma família musical próxima das raízes do hip-hop, em que se articulam discursos sobre um fundo musical moderno e urbano e que é feito, grosso modo, de partes iguais de soul, funk e jazz, como convém à genealogia afro-americana. No caso de Rucker, o tom é assertivo; ela não faz caso de trivialidades, dá prioridade aos sentimentos mais viscerais. Foi à custa deles que formou uma identidade musical com contextos autobiográficos, experiências relatadas na primeira pessoa e, por isso, mais cruas e cáusticas. Mas a exposição pessoal não é feita de borla, o auditor fica sujeito a sermões ácidos, a orações sem pudor de ferir explicitamente as mais puristas decências instaladas. Parental Advisory: Explicit Lyrics. Autora de poesia quase cantada e que verseja sobre problemáticas mundanas ou solicitações divinas, Rucker é uma espécie de profeta esconjuradora e soldado de doutrinas da cultura negra. Para ela, as guerras não têm nada de santas. E a palavra é a espingarda mais mortal, à procura da verdade entre as ruínas invisíveis do confronto civilizacional.

Ma' At Mama é o terceiro álbum da anti-diva e é o equivalente musical de um sumo concentrado. Aqui, ao invés do sumo e da polpa de um fruto, acumula-se paixão e revolta. Junte-se-lhe controvérsia q.b., competência no uso da palavra como arma de arremesso e uma postura intrépida e aí está a sinopse artística do disco. Invocando o princípio universal da verdade, do equílibrio e ordem da cultura egípcia (Ma'at), Rucker assina um trabalho que se propõe ser o catalisador da mudança social e do despertar de consciências. A esse nível, talvez não faça mossa a grande escala mas, ao ritmo do solene dardejar das composições, há-de fazer-nos corar de vergonha do nosso tacanho egoísmo. Ou não.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Tiga - Sexor

Apreciação final: 8/10
Edição: PIAS/Different, Fevereiro 2006
Género: Techno/House/Dance-Club
Sítio Oficial: www.tiga.ca








O planeta Sexor é um produto da mente do conceituado produtor e DJ canadiano Tiga. Mais do que parte integrante de uma galáxia imaginária, o primeiro disco de Tiga é um casulo de ritmos que rimam com dança; lá dentro há puro fogo de artifício das pistas de danças dos 80's, numa intoxicação melódica excitante e pejada de boas vibrações . Sexor ataca declaradamente todos os dancefloors mas fá-lo com alma e fito e com uma sensualidade que mistura matrizes techno e house. No fundo, a proposta é pop mascarada de música de discoteca (chamam-lhe electro-pop), mas a sua versatilidade deriva das feições intemporais - até chegam a sentir-se alguns mimetismos Depeche Mode ou Kraftwerk - de composições inteligentes e aprimoradas com requinte. Trocado por miúdos, Sexor tem as prováveis medidas de um clássico electro-pop que recupera a idade de ouro dos sintetizadores, acrescentando-lhes substâncias modernas. E consegue isso sem soar datado, antes produzindo ambientes sonoros frescos, muito por conta da excelência da produção, a cargo do próprio Tiga, dos irmãos Dewaele (dos projectos Soulwax e 2 Many Dj's) e do mago techno sueco, o ilustre Jesper Dahlback. A engrossar a lista de convidados célebres, Jake Shears (Scissor Sisters) empresta a voz ao single de apresentação, "You Gonna Want Me".

A reputação de Tiga antecede-o: atrás desta edição, está um arsenal de produções na área da música de dança e diversos remixes de gente conhecida (LCD Soundsystem, Felix da Housecat, Fisherspooner, Mylo e Scissor Sisters, entre outros). Com uma longa gestação de cerca de cinco anos na fase de produção, o álbum de estreia do canadiano prova as suas aptidões como compositor. É uma colecção extasiante de convites irrecusáveis para dançar e, não obstante os momentos menos felizes - que até nem são escritos por Tiga - como as covers de "Down in It" (Nine Inch Nails) e "Burnin' Down the House" (Talking Heads), o disco tem uma vitalidade incansável. Sexor é um dos momentos mais bem conseguidos da cena electro-pop dos últimos anos e não estranhará se, daqui por uns tempos, se virem uns corpos jovens e desnorteados a bambolearem-se com este som numa qualquer discoteca deste país.

Postal Musicado: Velvet Underground

Inspirada no livro homónimo de Leopold von Sacher-Masoch - publicação que está na génese do conceito de masoquismo - esta canção escrita por Lou Reed integra o alinhamento de um dos álbuns mais significativos da história da música. Velvet Underground & Nico, editado originalmente em 1967, é um disco essencial para qualquer melómano que se preze e foi um dos capítulos mais influenciadores de décadas de gerações musicais seguintes, sendo ainda hoje aceite como um marco da música independente. Com ilustração de capa e produção do artista plástico Andy Warhol, o disco inclui alguns êxitos inesquecíveis do legado dos míticos Velvet Underground.

"Venus in Furs" conta-nos a história de Severin, o alter-ego literário de Leopold von Sacher-Masoch, e da forma como, em tenra idade, construiu o simbolismo sexual do prazer no sofrimento, a partir das sevícias de uma tia que, trajada com peles, gradualmente se converteu, na mente solitária do jovem Severin, de severo algoz a objecto de idolatria sexual. Ou de como, do tormento físico nasceu o prazer. A caneta de Reed captou na perfeição a volúpia descritiva de "Venus in Furs".

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A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

The Weatherman - Cruisin' Alaska

Apreciação final: 7/10
Edição: Mono''cromatica, Fevereiro 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.monocromatica.com








O sítio oficial da etiqueta Mono''cromatica apresenta o gaiense Alexandre Monteiro como um personagem fechado, alguém que passou uma mocidade algo isolada do mundo exterior e que encontrou na música a fuga mental para a misantropia. Desses estímulos musicais redentores, ressaltam os Beatles ou os Beach Boys, como o próprio admitiu em entrevistas recentes. As alusões são óbvias e cruzam, de uma ponta à outra, o alinhamento de Cruisin' Alaska, o seu disco de estreia, um exercício pop retrospectivo que se deixa guiar por coordenadas nostálgicas da década de 60 e que, sem as privar do imediatismo e simplicidade, as transpõe para o universo zeloso da pop contemporânea. Cruisin' Alaska é, de certa forma, um disco inocente e de validade caseira, primorosamente desviado das certezas; Alexandre Monteiro prefere as contingências côr-de-rosa dos sonhos, e passa-as a melodias copiadas a papel químico. Porque, lá fora no mundo real, nem tudo tem as cores da ficção. A música de Weatherman é, portanto, uma pop retro luminosa, de colorações vivas que não se rebaixam por, aqui e ali, se disfarçarem de preto e branco. Nesse tabuleiro de emoções do álbum, ainda que tenham lugar partículas de melancolia, o optimismo ganha por margem mínima e faz alarde de si em coros harmoniosos, vozes múltiplas e orquestrações de estio que só se desprendem do acanho ao fim de algumas audições. Mas, em tempo algum, arreda pé dos ambientes sonoros o vestígio de melancolia que, afinal, não deixa que o disco resvale para o tom de felicidade parvinha. À prova de tontices, portanto.

Alexandre Monteiro não é fingidor como os poetas nem precisa de rimar para versejar. Basta-lhe adorar Wilson e Lennon e cozinhar (bem) a sua música. Se para tal precisa de escapulir-se para o Alaska (ou para um sucedâneo mais próximo: a estância de esqui de Sierra del Sol...), dêem-lhe asas para imaginar. Depois, junte-se-lhe a perspicácia solitária de um eremita musical, a espontaneidade e o risco dos momentos pouco ponderados e o resultado é Cruisin' Alaska. Nem sempre os peritos da meteorologia acertam nas previsões mas, ao escutar o álbum de estreia deste homem do tempo gaiense, dá vontade de apostar que, para os tempos mais próximos, se esperam dias de sol com o céu ligeiramente nublado. Como a música de Weatherman.

Posto de escutaPeople Get Lazy
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Edward Hopper, Nighthawks, 1942

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Don McLean

A canção que hoje proponho foi editada originalmente em 1971 no álbum American Pie do músico nova-iorquino Don McLean. Com mais de oito minutos de duração, a canção viria a tornar-se um dos mais improváveis êxitos da história do rock, tornando-se o ícone incontornável de uma geração, por força do simbolismo de fazer menção a uma tragédia que marcou o final da década de 50: o célebre acidente de aviação que haveria de pôr prematuramente fim à vida de Buddy Holly e Ritchie Vallens, figuras de proa da afirmação do rock'n'roll. Holly tinha 22 anos e Vallens apenas 17 (tinha acabado de lançar o seu êxito intemporal, "La Bamba"). Aconteceu no dia 3 de Fevereiro de 1959 o dia em que, segundo a letra de McLean, a música morreu.

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A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Loosers - Bully Bones of Belgie

Apreciação final: 7/10
Edição: Qbico Records, Janeiro 2006 (Vinil)
Género: Experimental/Fusão/Tribal
Sítio Oficial: www.loosersarefree.com








Depois de terem inquietado os circuitos mais independentes da música lisboeta com o inspirado álbum For All The Round Suns, editado em 2005, os Loosers abrem-nos a porta do seu quarto escuro. Em Bully Bones of Belgie, uma edição única em vinil, não se repetem a voracidade e a fricção do longa-duração e troca-se o suor musculado das distorções e o psicadelismo vocal por planos de transcendência. O noise rock não mora aqui, os compassos são pesados, arrastam-se indefinidamente para o infinito da mente, como num ritual pagão, quase endemoninhado, feito de mantras tétricos e cismas de ruídos desprendidos. A pulsação é tribal, toma fôlegos de uma espécie de cerimonial mórbido de adulação a criaturas ímpias. O lado A de Bully Bones of Belgie podia muito bem ser o fundo musical de uma missa negra de exaltação do transe ou o requiem de um clã índio perdido nos confins da periferia da civilização e rendido a politeísmos anárquicos. É assim também a música dos Loosers, intencionalmente desordenada, minimalista na expressão e extrema na sugestão espiritual.

Do outro lado do mesmo vinil verde, a proposta tem outras curvas. As composições são mais urgentes, também mais empanturradas de sons. O embalo tribal esbate-se e dá lugar a abstracções mais próprias do pós-rock, verdadeiros malabarismos onde a guitarra adulterada esboça ângulos alucinogénios, de espectro multicolor. A dinâmica torna-se menos ritualista e mais experimental, mas não se corrompe a empatia das manobras hipnotizantes. A dada altura, já não conseguem os sentidos opor-se à vastidão de impulsos que a música serve. Restarão, no espírito, os ecos improvisados e imagens sonoras das acrobacias. Bully Bones of Belgie não é música para ouvir, é para sentir. Não entra pelos tímpanos, é um vapor que se cheira, se inala e nos invade as narinas, direito ao cérebro, impondo alegorias de ritos obscuros e desconhecidos, figurações fantasmais de universos paralelos e dogmas pagãos, bruxarias e sacríficios, prestidigitações e equilibrismos. A tundra e o circo.

Em contraste com o primeiro longa-duração, os Loosers exprimem-se em fraseados musicais mais experimentais e dir-se-ia que desponta de Bully Bones of Belgie um elemento místico não proposto noutros trabalhos. Ou não traçado assim. Conclusão óbvia: Tiago Miranda e seus pares são alquimistas. Não sabem a pedra filosofal mas, neste disco, só mudam de palco: ora no papel de sacerdotes tribais de ocasião (lado A), ora na incumbência de saltimbancos de feira (lado B), saem-se a preceito. Entre as paredes do quarto escuro, eles não são os mesmos, são tão livres como no endereço do sítio oficial.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

Anthony Quinn e Giulietta Masina em La Strada (A Estrada, 1954)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Postal Musicado : Tom Waits

Instrumentalizações pouco comuns a tenderem para a cacofonia, uma voz cavernosa inconfundível, conteúdos surrealistas nas letras e um caos sonoro anti-convenções são alguns dos atributos que marcaram a carreira de Tom Waits. Reconhecido como um dos mais inventivos criadores da sua geração, Waits é um mercador de emoções, molda-as como poucos em códigos musicais variados. Difícil mesmo é fechar o seu trabalho num rótulo único.

A composição que hoje proponho é um dos momentos mais melancólicos da carreira do músico americano, a inesquecível balada "Tom Traubert's Blues", do álbum Small Change (1976). Os tricotados do piano são completados por arranjos orquestrais sublimes, destacando a voz pesarosa e grave de Waits.

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As canções do Postal Musicado estão disponíveis por um período máximo de 7 dias.

Sparks - Hello Young Lovers

Apreciação final: 7/10
Edição: Gut/Edel, Fevereiro 2006
Género: Pop Erudita/Opera Rock/New Wave
Sítio Oficial: www.allsparks.com








Excêntrico. No dicionário da língua portuguesa, o adjectivo significa fora do centro, com centro diferente, extravagante, original, esquisito, caprichoso. Qualquer um desses sinónimos é atributo da música que os irmãos Mael (Ron e Russell) fazem há cerca de três décadas e meia, conservando as alegorias que fizeram deles um dos mais inventivos conceitos musicais do universo marginal do rock. E os Sparks orgulham-se dessa marginalização, ou não fosse ela decretada pelas suas composições, declaradamente desafiadoras da irrefutabilidade das regras e assumidamente provocadoras. A estratégia está montada: compôr uma bizarra amálgama de sons, sem relação com coisa alguma, com teclas liderantes e cordas assertivas, flutuações rítmicas em esquemas de altos e baixos, um corpo instrumental perto das estruturas clássicas da música de câmara, construções vocais com o peso dramático de uma ópera-rock. O repto ao ouvinte repete os mesmos extremos que haviam sido elogiados no esplêndido Lil' Beethoven e, quatro anos volvidos, não estão ainda esgotadas as sombras desse disco. Ao escutá-lo, apossa-se do intelecto uma leve desilusão por perceber que Hello Young Lovers falha dois tiros tentados: nem é o álbum de continuidade possível nem propõe planos não estreados antes. É, antes, um disco de replays do antecessor e limita-se a repescar equações de Lil' Beethoven. E deixá-las em piloto automático.

Hello Young Lovers não é um disco nocivo. Longe disso. O seu defeito maior é ser a sequela de uma obra magna e, por isso, ficar ofuscado por um fulgor que dificilmente alcançaria. Para quem é habitué em cortes radicais com o convencionalismo que elevam as fasquias da exigência a níveis imensos, os Sparks ficam aquém de si mesmos. Ainda assim, há aqui peças com dons indesmentiveis, como a vaidosa "Metaphors", a sóbria "Waterproof", a imaginativa "There's No Such Thing As Aliens" ou a efusiva e irónica "(Baby Baby) Can I Invade Your Country?". Com mais momentos assim, Hello Young Lovers teria sido uma rapsódia em paridade com os instantes mais inspirados da discografia dos Sparks.

Posto de escutaCravo e Canela(Baby Baby) Can I Invade Your Country?
Para ouvir estas amostras precisa do Real Player. Descarregue-o aqui.
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Frantisek Kupka, Planes By Colors - Large Nude, 1909-10

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

The Elected - Sun, Sun, Sun

Apreciação final: 6/10
Edição: SubPop/Musicactiva, Janeiro 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.theelected.com








A fotografia que ilustra as páginas centrais do booklet do novo trabalho dos The Elected - o projecto paralelo de Blake Sennett, guitarrista dos Rilo Kiley - é uma apresentação gráfica eloquente do som fornecido pelo quarteto californiano neste Sun, Sun, Sun. Nela, dois dos elementos do grupo (o próprio Sennett e Mike Bloom) parecem dividir uma serenata ocasional a duas moçoilas, numa toalha de picnic, num areal à beira-mar, com a bruma clandestina de Los Angeles a servir de testemunha. Assim é a música registada no fonograma: romântica, bela pela franqueza e sensibilidade mas simultaneamente introspectiva dos reflexos ambíguos do amor. Nestes retratos musicados há, também, alguma coisa de genuíno da Califórnia, seja nas melodias poeirentas do Oeste (ao jeito de Neil Young ou Gram Parson), seja na pop que tributa o Pacífico (de que Brian Wilson é o pupilo mais relevante). No fundo, Sun, Sun, Sun é uma colagem de fragmentos de um universo idílico, um mundo de ficções soft rock que resultam de combinações expeditas de guitarras (acústicas e eléctricas), banjos, um outro instrumento de sopro e a voz (às vezes exageradamente) murmurante de Bennett. As composições não fazem um logro, são mesmo ensolaradas e lembram repetidamente, em trejeitos harmónicos cativantes, o sentimento que melhor serve de sinopse ao disco: o relaxe (moleza?) depois de uma tarde soalheira de praia. Depois, as histórias versadas nas letras são poéticas e humoradas, desde o episódio do pequeno pássaro que, mesmo com a asa quebrada, ainda é capaz de cantar ("Clouds Parting"), ao parzinho de namorados que vão caçar apenas para usar os bonés de caça ("Would You Come With Me"), por exemplo.

Sun, Sun, Sun é uma ode ao sol e aos amores que sob o seu amparo se cultivam e vibra tão naturalmente quanto os improvisos musicais espontâneos de uma reunião de escuteiros. Não se deduza daqui que o som revela amadorismo; o quarteto mostra índices de coesão superiores ao trabalho de estreia, a escrita é do melhor da carreira de Bennett e seus pares e a produção é cristalina. O busílis deste sol: o primor técnico é nota dominante de tal jeito que a matemática dos preciosismos chega a roubar alma a canções que só teriam a ganhar em se expôrem com mais autenticidade. E isso é o que impede este Sun, Sun, Sun de ser o disco magno que podia ter sido.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Memórias do cinema

John Hurt em The Elephant Man (O Homem Elefante, 1980)

Postal Musicado: David Bowie

O camaleão é uma referência intemporal. Prestes a celebrar os quarenta anos de carreira nas lides discográficas, o britânico David Bowie escreveu algumas das mais memoráveis canções da pop dos anos 70 e 80. À irreverência visual dos vários alter-egos que criou - com o celebérrimo Ziggy Stardust à cabeça - Bowie soma um traço de criatividade ímpar, dando enfoque ao recurso a tons vocais menos comuns e à integração de instrumentalizações que, a despeito de subliminares pitadas de psicadelismo, serviram de base àquilo que, mais tarde, se convencionaria chamar de glam rock.

A proposta que aqui deixo é uma repescagem do grande clássico "Heroes", co-escrito por Brian Eno e parte integrante do alinhamento do álbum homónimo lançado em 1977. A guitarra de Robert Fripp (King Crimson) também andava por aqui nesta altura. Indiscutivelmente, uma das grandes canções da segunda metada dos anos 70 e um marco inesquecível na carreira de Bowie.

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A canção estará disponível por um período máximo de 7 dias.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Electric Masada - At the Mountains of Madness

Apreciação final: 8/10
Edição: Tzadik, Novembro 2005
Género: Free Jazz-Rock/Improviso/Fusão
Sítio Oficial: www.tzadik.com








O que se pode esperar de um ensemble que reúne, além do saxofone do poliglota musical e maestro /compositor John Zorn, as aptidões reconhecidas do percussionista brasileiro Cyro Baptista, dos bateristas Joey Baron e Kenny Wollesen, do baixista Trevor Dunn (colaborador regular de Mike Patton no projecto Fantômas), do guitarrista Mark Ribot (líder do colectivo Los Cubanos Postizos), do teclista Jamie Saft e do improvisador digital japonês Ikue Mori? Certamente pode esperar-se tudo o que é a antítese da convenção. O paradigma desta ilustre Electric Masada é, como decorre dos manuais inventivos de Zorn, virar a música do avesso, remisturar conceitos numa linguagem musical universal, carregada de referências transversais que percorrem uma multitude de géneros, desde o misticismo dos ritmos orientais a um certo ritualismo pagão da música africana, do tempero acalorado das cadências latinas ao colorido inesgotável do klezmer, da elasticidade do jazz ao laconismo dos blues, do psicadelismo do noise rock ao pulsar confortável do funk, das alucinações do free jazz à precisão da composição regrada. Deste aparente caos não resulta um jogo babélico, antes se afirma uma impressão musical autónoma cuja lei maior é a transgressão de normas. O produto da Electric Masada, aqui registando em disco duplo alguns momentos de actuações ao vivo do octeto (Moscovo e Ljubliana), é uma massa sonora de incomum intensidade e de acutilância electrizante, jogando habilmente com as alternâncias que os diálogos de instrumentos propõem e que as derivações de ritmo suportam. Depois, nenhum dos músicos se sobrepõe aos demais: o sax alto de Zorn é gracioso, a guitarra de Ribot é tão cabalmente hostil como amistosa, o baixo de Dunn faz marcação cerrada à vibração das percussões e, para fechar o conjunto com chave dourada, as interferências digitais de Mori e as ramificações analógicas de Saft acrescentam ingredientes preciosos a esta genuína recreação de várias longitudes culturais.

At the Mountains of Madness é uma excursão musical sem rédeas e sem limites. Expede-nos, entre as alusões bem-vindas à identidade musical de Miles Davis, dos saudosos Naked City (de Zorn) ou do lendário Frank Zappa, para o songbook que Zorn encetou no dealbar da década de 90, a ilustre série Masada, supostamente um conjunto de peças (mais de 200!) passíveis de serem tocadas em qualquer género musical. Tal como o melhor material da Masada, a matriz melódica é, aqui, ecléctica e alterna entre os instantes mais atmosféricos e os jams mais furiosos de improviso jazz, com os indissociáveis adereços rock. Única reclamação: com tantas composições para escolher porquê repetir - mesmo sabendo-se que o improviso torna cada interpretação uma peça única - seis delas nos dois discos desta edição? Esquecendo esse pormenor, At the Mountains of Madness é um documento imprescindível e tem um discurso tão multilingue que dispensa tradução. A música como linguagem universal.

Posto de escutaMetal TovKaraimTekufah

Postal musicado: Stan Getz

De uma assentada, o postal musicado rende hoje merecida homenagem a três nomes consagrados do jazz e que gravaram para a etiqueta Verve, na edição de 1963 que aqui se recorda, algumas das principais pérolas do património musical do grande António Carlos Jobim. O compositor brasileiro foi convidado, a par do guitarrista e intérprete João Gilberto, para as míticas sessões de gravação imaginadas pelo sublime saxofonista Stan Getz, num dos périplos que este realizou pela América do Sul, em plena década de 60. A voz aveludada de João Gilberto e os acordes românticos da sua guitarra casam magistralmente com o tom inconfundível do saxofone de Getz e as teclas intervenientes de mestre Jobim. O tema aqui apresentado é "Só Danço Samba".

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As canções do Postal Musicado só estarão disponíveis num prazo máximo de sete dias.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Postal Musicado: Björk

Hoje trago-vos uma canção da islandesa Björk. Integrada no álbum Homogenic, lançado em 1997, "Jóga" é, ainda hoje, reconhecida como um dos mais sublimes contributos de Björk para a pop nas suas vertentes mais eruditas.


Senhora de uma visão artística ímpar e de uma criatividade a toda a prova, a nórdica deposita nesta composição uma carga emotiva intensa e escreve, a dada altura: "You don't have to speak, I feel". Apetece escutar esta "Jóga" e retorquir a esse desafio com um simples "Nós também".





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terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Nomeações dos Óscares

Foram anunciadas, há poucos minutos, as nomeações para a 78.ª edição dos Óscares.

A lista de nomeações já divulgadas é a seguinte:

MELHOR FILME
Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)
Capote
Crash (Colisão)
Good Night and Good Luck
Munich (Munique)

Ficaram de fora dos eleitos, o biopic de Johnny Cash, Walk the Line, o mais recente de Woody Allen, Match Point e outro dos filmes mais falados, The Constant Gardener (O Fiel Jardineiro).

MELHOR REALIZADOR
Ang Lee, Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)
Bennet Miller, Capote
Paul Haggis, Crash (Colisão)
George Clooney, <>Good Night and Good Luck
Steven Spielberg, Munich (Munique)

Desta vez, não era de esperar que a Academia ignorasse o trabalho de Spielberg, embora tenham sido desconsiderados os trabalhos de direcção notáveis de Fernando Meirelles (The Constante Gardener (O Fiel Jardineiro)), David Cronenberg (A History of Violence), James Mangold (Walk The Line) e Woody Allen (Match Point).

MELHOR ACTOR PRINCIPAL
Phillip Seymour Hoffman, Capote
Terrence Howard, Hustle and Flow
Heath Ledger, Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)
Joaquin Phoenix, Walk The Line
David Strathairn, Good Night and Good Luck

Sem grandes surpresas, Hoffman, Phoenix e Ledger aparecem na primeira linha para o galardão e, embora se falasse no seu nome nos bastidores, Jeff Daniels não foi distinguido pela Academia pelo seu desempenho em The Squid and the Whale.

MELHOR ACTRIZ PRINCIPAL
Judi Dench, Mrs. Henderson Presents
Felicity Huffman, Transamerica
Keira Knightley, Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito)
Charlize Theron, North Country
Reese Witherspoon, Walk The Line

As nomeações esperadas para um duelo disputado pela estatueta. Na primeira linha estão Felicity Huffman e Reese Witherspoon. Keira Knightley ganhou ao sprint a Joan Allen (The Upside of Anger (O Lado Bom da Fúria)) na corrida para a nomeação.


MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
George Clooney, Syriana
Matt Dillon, Crash (Colisão)
Paul Giamatti, Cinderella Man
Jake Gyllenhaal, Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)
William Hurt, A History of Violence

Empurrado pela pujança do filme, o nome de Gyllenhaal era inevitável, assim como Giamatti que aparece aqui a salvar a honra do convento de Cinderella Man. William Hurt e Matt Dillon surgem na lista com inteira justiça, depois de terem protagonizado duas das melhores performances da sua carreira.

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Amy Adams, Juneburg
Catherine Keener, Capote
Frances McDormand, North Country
Rachel Weisz, The Constant Gardener (O Fiel Jardineiro)
Michelle Williams, Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)

Maria Bello (A History of Violence) e Laura Linney (The Squid and the Whale) eram referências esperadas mas ficaram de fora da derradeira lista. Por outro lado, chegou finalmente o reconhecimento da Academia a Catherine Keener (Capote) e à outsider Amy Adams. Rachel Weisz e Michelle Williams continuam a ser as favoritas.

Veja a lista de nomeados no site oficial do certame, clicando aqui.

Os prémios serão atribuídos no próximo dia 5 de Março.

Belle & Sebastian - The Life Pursuit

Apreciação final: 8/10
Edição: Matador, Janeiro 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.belleandsebastian.com








A música actual dos escoceses Belle & Sebastian é peculiar. Os rasgos de inspiração vêm de origens diversas e acolhem os formatos genéricos da pop, as ondulações verbalistas do rock'n'roll e os propósitos independentes do universo indie. Apesar disso, eles não se grudam a nenhum desses rótulos e, ao sétimo longa-duração, mantêm os mesmos malabarismos que, em início de carreira, lhes renderam o respeito da crítica. Se isso não bastasse, o espectro emocional das canções dá uma ajuda, deixando entrever alguma ambiguidade psíquica: os conteúdos melancólicos das letras são servidos por melodias brilhantes, com cadências rítmicas contagiantes e dignas de embalarem as tardes mais solarengas de dias de Verão. E é também aí que reside a magia dos Belle & Sebastian. O colectivo escocês consegue colorir os desgostos mais profundos, sem lhes subtrair o ónus introspectivo e força-nos ao mais cativante dos exercícios psicanalíticos, seduzindo-nos o ouvido, primeiro, e a mente, de seguida. Depois, há uma viragem decisiva (já tentada em Dear Catastrophe Waitress (2003)): as composições não trazem disfarces, exibem-se em tons de um optimismo tangível, seja pelas sinergias entre músicos, seja pelo primor festivo da produção de Tony Hoffer (lembram-se de Midnite Vultures de Beck?).

Definitivamente há algo diferente em The Life Pursuit. A voz de Stuart Murdoch está mais calorosa e encorpada, como se buscasse uma identidade desconhecida (já ensaiada no disco anterior), nos mesmos trejeitos da música que a embala, além das sombras do passado. O corpo musical é, também ele, uma revelação. O denominador comum às treze faixas do alinhamento é a versatilidade, acomodando o traço tradicional do grupo a uma estética distinta, feita de memórias do rock da década de 70, dos Smiths, dos Beach Boys, de Stevie Wonder, do glam, do funk. No final, The Life Pursuit é pura pop, mesmo que trajada de balada, de surf music ou rock'n'roll. E quando se trata de fazer boa pop - seja ela mais sorumbática ou, como aqui, mais arrebatada - o selo dos Belle & Sebastian continua a surgir à cabeça dos protagonistas de eleição. E The Life Pursuit não passará indiferente por 2006.

Posto de escutaProcure na grafonola as faixas "Another Sunny Day", "White Collar Boy" e "For The Price of a Cup of Tea"

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Postal Musicado: Portishead

Hoje trago aos frequentadores do apARTES a memória de uma canção que me ecoa na mente desde a ocasião da sua publicação. Trata-se, sem dúvida, de uma das canções da minha vida e está integrada num dos grandes álbuns da década de 90, o disco Dummy, primeiro álbum dos britânicos Portishead, chegado às lojas em 1994.

A canção chama-se "Glory Box" e embrulha-se num embalo docemente negro. Os diálogos inquietantes entre a voz trémula de Beth Gibbons e a guitarra caústica de Geoff Barrow desenham ambientes de densidade claustrofóbica, numa musicalidade confessional que rende uma das mais bem conseguidas odes à melancolia.

Uma canção para sempre. Para escutar, clique aqui.

domingo, 29 de janeiro de 2006

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Franz Von Stuck, Fangspiel, 1904

Coltrane e Bassey no Postal Musicado

Foram hoje adicionadas mais duas composições ao Postal Musicado.

A primeira é de John Coltrane, trata-se de uma gravação de 1960, em que o mítico saxofonista se faz acompanhar de intérpretes da mais fina estirpe: McCoy Tiner no piano, Steve Davis no baixo e Elvin Jones na bateria. O tema escolhido é "Mr. Syms", com texturas próprias do jazz-blues e está incluído na colectânea The Very Best of John Coltrane, editada em 2000, pela Rhino.

A segunda proposta é a remistura de Mantronik para a inesquecível interpretação vocal de Shirley Bassey da canção "Diamonds Are Forever", para o filme homónimo de Guy Hamilton (1971), mais um capítulo da saga James Bond, com Sean Connery.

Para escutar estes postais, clique aqui.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Mozart e o Postal Musicado

Comemoram-se hoje os 250 anos do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791).

Em jeito de homenagem ao génio do compositor austríaco, o apARTES inaugura um novo espaço, integrando uma peça do repertório do prodigioso músico. Trata-se do segundo andamento - um adágio - da Sonata para Piano KV576, em Ré Maior, interpretado pela consagrada pianista portuguesa Maria João Pires. A gravação está disponível numa edição da etiqueta Deutsche Grammophon, lançada em 1991.


O novo espaço do apARTES, sugestivamente apelidado de Postal Musicado, servirá como repescador de memórias e nele desfilarão, diariamente, amostras de música que, desta ou daquela forma, nos influencia(ra)m a todos. A escolha é subjectiva, assenta num critério meramente pessoal, sem horizontes temporais e sem limites de género. Uma composição nova será adicionada todos os dias. Ainda em testes, no início desta semana, foram publicadas duas canções que certamente farão as delícias de muitos melómanos: "Hallelujah", um original de Leonard Cohen, aqui na voz do malogrado Jeff Buckley e "Belly of an Architect", peça inconfundível do prolífico maestro belga, Wim Mertens, apresentada numa gravação ao vivo em Portugal.

Pode aceder ao Postal Musicado e escutar estas composições clicando aqui ou na imagem que encontra na coluna direita do apARTES.

Os meus sinceros agradecimentos a todos os que continuam a visitar este espaço e, em virtude disso, a dar-me o estímulo necessário para continuar a melhorá-lo e a dar-lhe vida.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

Arctic Monkeys - Whatever People Say I Am, That's What I'm Not

Apreciação final: 8/10
Edição: Domino/Edel, Janeiro 2006
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: www.arcticmonkeys.com








Os britânicos Arctic Monkeys são filhos do inimigo. Sem a web e as trocas massivas de mp3 (os dois presumíveis adversários da indústria fonográfica) que se seguiram à publicação de gravações de garagem destes quatro rapazes de Sheffield no MySpace, o hype que os rodeia desde o início do ano transacto e que levou à edição do primeiro álbum, na mesma etiqueta dos Franz Ferdinand (Domino), não seria possível. Alguns concertos inflamados (entre eles a participação no prestigiado festival rock de Reading) e duas edições próprias depois, o fenómeno cresceu em múrmurios de boca em boca e, por isso, o álbum chega aos escaparates debaixo de uma copiosa vaga de promessas. E Alex Turner e seus pares não desiludem. O som é, como seria de esperar, mais polido do que as edições que se piratearam a rodos em 2005 mas os sumarentos sublinhados de temperamento punk são conservados por inteiro, com aquele sentido de urgência rebelde de putos a entrar na vintena de anos. Mesmo sem sugerir propensões novas, antes se confinando inteiramente às chicanas recentes do rock, à concisão dos Strokes ou dos Art Brut, ao swing dos Ferdinand, dos Kaiser Chiefs e dos Bloc Party, aos ritmos ska dos Libertines e à rebeldia dos White Stripes - tudo muito contemporâneo e ortodoxo - os Arctic Monkeys têm fibra e fôlego. Pós-mocidade hiperactiva?

Atirados para o ribalta sem tempo para deixar crescer os pêlos de barba na face, os Arctic Monkeys têm nas mãos uma sina antagónica: ou se tornam os benjamins do clã rock do Reino Unido, confirmando a agitação que germinou à sua volta, ou se deixam enredar na prevísivel vaga de maledicências que entretanto há-de aparecer, sob o pretexto de estes putos não serem mais do que outra falácia, ao jeito dos Oasis. Cabe-lhes provar o contrário. Em Whatever People Say I Am, That's What I'm Not eles não deslustram o hiperbólico panegírico que antecedeu a edição do disco. Eles não são (ainda?) os salvadores da pátria; são apenas quatro juvenis com penteados à meliante foleiro, acne na cara, a tossir às primeiras passas num cigarro e com uma tremenda vontade de fazer música com alma. Para já vão vendendo discos à farta, maravilhando fãs e (alguns) críticos. Não importa se serão a revelação maior de 2006 ou apenas a melhor banda da próxima semana. O que apetece pedir é que, uma vez vividos os quinze minutos de fama, estes macacos do Árctico fiquem assim moços por mais do que um quarto de hora.

Posto de escutaMySpace

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Memórias do cinema

Lazar Ristovski e Mirjana Jokovic em Bila Jednom Jedna Zemlja (Underground, 1995)

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Tortoise & Bonnie "Prince" Billy - The Brave and the Bold

Apreciação final: 5/10
Edição: Overcoat Recordings, Janeiro 2006
Género: Indie Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.trts.com / www.bonnieprincebilly.com








Ao princípe já não chegam as colaborações individuais. Depois de, entre outros, ter dividido trabalhos com Matt Sweeney (Superwolf (2005)) e David Berman (no projecto Silver Palace), Will Oldham recrutou os americanos Tortoise - projecto pós-rock vanguardista de Chicago - para fazer um álbum com uma dezena de versões. O repertório escolhido provém de origens diversas, desde Elton John ("Daniel") a Milton Nascimento ("Cravo e Canela"), de Bruce Springsteen ("Thunder Road") a Devo ("That's Pep"), de Richard Thompson ("The Calvary Cross") a Melanie ("(Some Say) I Got Devil"). Da aliança entre os ornatos intrincados e a matemática poeirenta dos Tortoise e a voz dolorosa e vulnerável de Oldham derivam sinergias oportunas, ainda que a fórmula não se ajuste com idênticas virtudes em todos os momentos do álbum: "Cravo e Canela" estava fadada a ser um tiro ao lado, se por mais não fosse sê-lo-ia pelas óbvias barreiras da pronúncia, a despeito das boas ideias instrumentais; "That's Pep" fareja os Devo em equações cacofónicas e algo dissolutas de que resultam insinuações krautrock sem sucesso. No oposto, a versão turva de "Thunder Road" é soberba, repousando nos ambientes enfumarados dos Tortoise, com magníficos dedilhados e torvelinhos de sintetizador a tomar o vazio. O traço imaginativo mantém-se em "Daniel", à custa de moldagens sujas e da formatação psicadélica da voz de Oldham. No resto do álbum, o metrónomo dos Tortoise serve a deferência certa às tendências escapistas de Oldham mas a simbiose não vai além dos serviços mínimos.

As faculdades dos intervenientes e o respectivo estatuto nos circuitos indie da música americana adubou expectativas para este The Brave and the Bold. Contudo, não sendo um disco a desconsiderar, o produto final ficam aquém das promessas e, com as excepções referidas, não há aqui nada que traga algum suplemento alternativo aos admiradores de Tortoise ou de Bonnie "Prince" Billy. The Brave and the Bold é, afinal, uma prova de que a mistura de dois lotes idênticos do mesmo tipo de discurso pode não ser suficiente para dar lugar a outras orações. E que um disco de versões dificilmente se emancipa das sombras do original.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Between the Buried and Me - Alaska

Apreciação final: 8/10
Edição: Victory Recordings/Rastilho, Outubro 2005
Género: Metal Alternativo
Sítio Oficial: http://betweentheburiedandme.com








A doutrina do metalcore é, por definição, um corpo musical de poucas transformações, um género onde as mutações se fazem no repisar de conceitos e na reprodução quase automática de ideias estanques, assentes nas descargas de distorções com perícia técnica e nas vozes guturais. Não deixa, por isso, de ser surpreendente que os americanos Between the Buried and Me derivem desse espaço. A música deles é certamente uma proposta de extremos e acolhe esses padrões estáticos do metalcore como base criativa mas não faz deles regra. Antes, utiliza-os como matéria-prima de uma massa sonora complexa e que une, com competência, uma panóplia de noções metal multifacetadas, a que acrescem, aqui e ali, sons exploratórios do rock progressivo, flutuações melancólicas dignas das estruturas pós-rock, algumas pitadas de free jazz e, bem disfarçados por detrás das guitarras eléctricas, até se anunciam uns breves gestos pop. Estamos a falar de um colectivo versátil e cuja vocação criativa não se esgota no metal, vai além disso, buscando ambientes sonoros que propõem, com idêntica veemência, uma dilacerante sessão de tortura e o glacial prodígio da bonança depois da tempestade. Não há lítio que cure a esquizofrenia dos Between the Buried and Me.

Alaska é o terceiro longa duração da banda e mostra-se o seu exercício mais inventivo, à custa da junção de géneros e da adequação do registo do colectivo a cada uma das diferentes cambiantes. Trata-se, assim, de um disco que re-formata as várias dimensões do metal e que prova que, mesmo num mundo tradicionalmente fechado nos seus próprios limites, podem surgir projectos musicais que socam as convenções com tal agilidade e destreza que nem chegam a parecer-se parte integrante. Há em Alaska um espírito deliberadamente iconoclasta, uma consciência marginal dos estatutos do metal. E tal coisa, num género que raramente surpreende pela novidade, só pode ser sinal de um projecto com qualidades. A descobrir por melómanos de ouvido forte.

domingo, 22 de janeiro de 2006

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Edvard Munch, Morning, 1884

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Cat Power - The Greatest

Apreciação final: 7/10
Edição: Matador Records, Janeiro 2006
Género: Folk/Pop Alternativo
Sítio Oficial: www.catpowerthegreatest.com








Chan Marshall esconde-se por detrás do pseudónimo Cat Power há trinta e três primaveras e, ao sétimo longa-duração de um trajecto seguro no circuito indie - onde merece honras de reconhecimento generalizado - parece buscar a emancipação desse género músical. Para tal fim, fez uma manobra de risco: rodeou-se de um corpo de músicos de elite (entre eles o guitarrista Mabon Hodges e o baterista Steve Potts, parceiros artísticos de Al Green e Booker T, respectivamente) e cobriu os vazios e os silêncios que frequentemente compunham a sua idiossincrasia musical com nacos da mais fine estirpe instrumental. The Greatest é, portanto, um produto tecnicamente maduro, com um som nutrido e íntegro e que vinca uma reviravolta estética de Marshall. Dos esparsos exercícios solitários em que a voz se confiava apenas aos tricotados de um piano ou aos arpejos de uma guitarra, ficam as sombras. Marshall acolhe, neste álbum, um registo mais orquestral e preenchido, qualquer coisa que a afasta definitivamente das conotações pós-grunge do passado e que assume, de corpo inteiro e formas naturais, um propósito melancólico distinto, algures entre o modelo blues, a incerteza do pop jazz e um traço vago da tradição country americana. Os impulsos contradizem a espontaneidade da introspecção avulsa do belo Moon Pix (1998), ou mesmo de You Are Free (2003), mas a escrita de Marshall retém o charme intimista de sempre, à custa de uma voz de veludo quente - daquelas que geram arrepios pele de galinha - e docemente desarmante. É certo que o traje musical traz medidas não consideradas antes por Marshall e se dissipou um quinhão importante do acanhamento meditativo (desilusão para os adeptos dos primeiros discos?), mas a honestidade no desbravamento da melancolia permanece intocável, como se a pacata musa do underground se tivesse feito, finalmente, a faloa de eleição dos amores perdidos do Memphis.

The Greatest é o (re)encontro de Marshall com as raízes, em ritmos e sabores diferentes, comparáveis aos finais da década de 60 e à mais pura memória da música americana, num jeito que não envergonharia Sam Cooke ou Willie Mitchell e que forja as primícias de outra Cat Power. Afinal, sem os rabiscos indecisos de outros discos, o autógrafo dela mantém-se, mas reveste-se em harmonias diferentes e em canções com mais corpo. Com um discurso diferente, The Greatest é um manifesto de afectos - mesmo para os fãs nostálgicos da catarse misantrópica que Marshall tão bem desenhou noutros momentos - e confirma o crescimento artístico de Cat Power. A menina envergonhada cresceu e já vai sozinha à mercearia...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Festival de Sundance

Arranca hoje na pequena localidade de Park City, no Utah, mais uma edição do festival de cinema independente pensado originalmente pelo actor Robert Redford para dar visibilidade a filmes de baixo orçamento e/ou com temáticas inovadoras e estéticas vanguardistas. O certame contempla, na presente edição, uma secção de curtas metragens e o habitual rol de distinções, com o prestigiado galardão do Grand Jury à cabeça, que, entre outros, já agraciou, em edições anteriores, American Splendor (2003), o sublime biopic de Harvey Pekar, protagonizado por Paul Giamatti.

Saiba tudo sobre a edição deste ano aqui.
Memórias do cinema

Jacques Tati em Mon Oncle (O Meu Tio, 1958)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Loosers - For All The Round Suns

Apreciação final: 7/10
Edição: Ruby Red, Outubro 2005
Género: Noise Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.loosersarefree.com








A música dos Loosers mostra-se, no primeiro longa-duração dos lisboetas, cada vez mais periférica, apartando-se das guias metal e punk do ínico de carreira do trio e acercando-se de um registo cada vez mais inventivo, pejado de usanças experimentalistas e que descrê do formato canção. Ao escutar este For The All the Round Suns percebe-se que os rapazes desintoxicaram a sua escrita da sofreguidão pelo refrão imediato e limparam-na das texturas de álgebra simples que se pressentiam no EP Six Songs (2003). A depuração fez-se sinónimo de maturação criativa. O álbum é percorrido por um fino traço de música livre que projecta os contornos de ambientes sonoros desassossegados, as mais das vezes abrasivos e feitos de ruídos que reclamam urgência com uma genuinidade cortante. Ao bom jeito da doutrina noise rock. E que bem investem neste segmento os Loosers, impondo suor às distorções, extravasando a voz, pintando de psicadelismo os acordes e o galope da bateria, buscando uma química de histeria controlada, afinal, o supremo catalisador da energia surreal do trio. A música deles é, a exemplo da bela ilustração da capa de Tetsunori Tawaraya, um mutante bizarro, sujo, estrábico, disforme, de cores garridas e a sugerir espasmos e convulsões.

Os Loosers fazem alarde da sua condição de detonadores de géneros - até se atrevem a umas equações de world music em alguns ápices do disco - e produzem formas agitadoras inéditas, algo jamais criado no panorama musical luso. For All the Round Suns é por isso, filho único (bastardo?) da cena rock portuguesa e saiu da mente de um colectivo sem paralelo cá no burgo e que, segundo consta por aí, tem merecido alguma aceitação além-fronteiras. Ao primeiro longa-duração, os Loosers afirmam a vitalidade do underground nacional e, ainda que tenham deixado algumas pontas soltas na dobagem deste novelo frenético, sobrevém a assinatura oblíqua de uma aventura musical despudoramente anti-cânones. Rebeldia em ponto de rebuçado.

Posto de escutaMafalala
Procure outras faixas na grafonola

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Vencedores dos Globos de Ouro

Foram atribuídos, na última madrugada, os Globos de Ouro do cinema americano. Nas principais categorias, o destaque para o mais recente trabalho de Ang Lee, Brokeback Mountain, distinguido com as estatuetas para o melhor filme dramático, melhor realizador e melhor argumento. Nos galardões para actores, Philip Seymour Hoffman levou para casa a distinção de melhor actor em desempenho dramático, pela sua interpretação do escritor Truman Capote, no filme Capote de Bennett Miller. Na categoria musical/comédia, o vencedor foi Joaquin Phoenix, pela sua performance no biopic de Johnny Cash, Walk the Line. Nas senhoras, Felicity Huffman, uma das Donas de Casa Desesperadas, mereceu a distinção para actriz dramática e Reese Witherspoon, como June Carter Cash em Walk the Line, venceu na representação em musical/comédia. Nos papéis de suporte - categoria que não é dividida entre musical/comédia e drama - Rachel Weisz em The Constant Gardener e George Clooney em Syriana foram os actores escolhidos. O prémio de carreira distinguiu Anthony Hopkins.

Veja aqui a lista completa dos nomeados e vencedores.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Jana Hunter - Blank Unstaring Heirs of Doom

Apreciação final: 7/10
Edição: Gnomonsong, Outubro 2005
Género: Folk Minimalista/Pop Psicadélico
Sítio Oficial: www.janahunter.tk








Blank Unstaring Heirs of Doom é o produto de uma década de gravações domésticas e oferece-nos uma cópia musical fiel de um espaço folk pouco comum, onde as composições não temem afirmar um certo desprendimento dadaísta, em apelos repetidos ao subconsciente. Essa convocatória enternece na doce ingenuidade e na feição rudimentar do contexto: a voz hipnotizante de Hunter voga como um fantasma, simultaneamente casta e assombradora, sobre paisagens sonoras que abreviam distâncias para a lugubridade, sem menosprezar um simples piscar de olho à tradição mais viva da folk. As canções - se assim se podem chamar - de Hunter não têm fundo, interceptam fracções das mais puras emoções humanas, arrebatam-nas do imaginário colectivo para lhes injectarem a bonança de um resguardo individual. O álbum é esse couto. Nele, à inquietude sucede a calma, fazem folias entre si, em retalhos tão frágeis quanto a intimidade ousa. Tudo muito pessoal, quase misantrópico e ensimesmado. Sem complexos, a voz errante da texana Jana Hunter vagueia despreocupadamente nesse éter não desenhado, em radiações fracturadas e com o fervor intrínseco às frustrações da solidão.

Apadrinhada pela nova editora de Devendra Banhart, com quem dividiu recentemente um álbum conjunto, Hunter não é uma mera discípula. Fazendo uso de um suporte instrumental maioritariamente acústico e assumindo uma impressão mais descolorida (porque mais sorumbática) que a do seu protector, Hunter é uma anarquista, não faz caso de regras melódicas e rabisca combinações de sons com propensão melancólica, em fórmulas indefinidas e que, para confusão do auditor, terminam, na derradeira faixa do álbum, com uma surpresa electrónica. Com tempos diferentes e espaços distintos, Blank Unstaring Heirs of Doom é uma exortação à transcendência. Tudo feito no mais primitivo sentido, ao jeito de uma confissão gravada no quarto ao lado. E quando as coisas se tornam assim tão pessoais e arrepiantes, quase nos atrevemos a considerá-las nossas.


Posto de escutaFarm, Ca.RestlessK

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

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Albert Gleizes, La dame aux bêtes, 1914

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Skalpel - Konfusion

Apreciação final: 7/10
Edição: Ninja Tune, Novembro 2005
Género: Downbeat/Jazz/Electrónica
Sítio Oficial: http://skalpel.chlip.com








Os polacos Marcin Cichy e Igor Pudlo são embaixadores do jazz moderno da Europa de Leste e, ao segundo trabalho de um percurso artístico que começa a extravasar as fronteiras do seu país, tentam ressuscitar o espírito do jazz da Polónia dos anos 60 e 70 e o simbolismo de liberdade artística e propensão escapista que a música reclamava entre os retalhos políticos da Cortina de Ferro. Mas a repescagem dos Skalpel não propende para o anacronismo, antes se serve habilmente de cores modernistas, ou não fosse já longe o tempo de caloiros destes dois DJ's. E a tarimba sente-se em cada acorde, num exercício dissecador desses ambientes jazzísticos que, alargando o espectro sónico a um certo experimentalismo break beats e a um penetrante balanço funk, os re-inventa com renovadas sensações. A maturação de conceitos é notória - por comparação com o primeiro álbum - na densidade das composições, sustentada à custa de alternâncias instrumentais bem medidas e da colagem astuta dos samples. O produto final assenta como uma luva no catálogo da Ninja Tune, bem ao jeito do downbeat de uns Cinematic Orchestra ou da irreverência funk de Mr. Scruff.

Jazz ou electrónica (há quem acople conceitos e lhe chame jazztronica), a música dos Skalpel oferece uma multiplicidade de ambientes sonoros, recolhidos de um património musical menos conhecido no ocidente europeu e que, mercê desta edição, se exprimem num discurso actual, simultaneamente áspero e doce, sobrecarregado de sensualidade e vapores de tabaco. Música de clube jazz para ouvir no intervalo do café, entenda-se. Konfusion é uma viagem imaginária pelas arcadas poeirentas da velha Varsóvia de outros tempos, pela mão de um contrato musical que é mais jazz e menos electrónico e onde o resoluto jogo de samples quase ilude o sentido auditivo, disfarçando-se de peça musical una. Dá para fazer de conta que, entre os tragos do café e as inalações de nicotina, Konfusion é o som ao vivo de uma qualquer banda jazz. Mas, afinal, é apenas o produto da excelência dos malabarismos digitais de Cichy e Pudlo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Memórias do cinema

Ziyi Zhang e Takeshi Kaneshiro em Shi Mian Mai Fu (O Segredo dos Punhais Voadores, 2004)

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Alex Under - Dispositivos de Mi Granja

Apreciação final: 7/10
Edição: Trapez/Ultima/Matéria Prima, Novembro 2005
Género: Techno Minimalista
Sítio Oficial: www.traumschallplatten.de








Com algumas edições destacadas no panorama da música electrónica de Espanha, Alex Under ganhou o respeito da crítica e solidificou a firme reputação que faz dele, hoje, um dos mais respeitados produtores techno-house do país vizinho. A matemática sónica de Alex Under resume-se à combinação de diversos vectores: o minimalismo nos conceitos, o recurso a estruturas melódicas psicadélicas, a matriz rítmica bem definida, as batidas incisivas e combinadas com uma linha bass de contornos nítidos e o encadeamento (des)construtivo. Este é o longa-duração de estreia do espanhol e divide o seu balanço entre o registo da techno mais magnética e do house mais perturbador, sintetizando uma filosofia minimalista sem pejo de curvar. Em qualquer dos registos, a sobriedade e a sensatez das proporções não são beliscadas e, mesmo nos pedaços em que a paleta de sons se dilata, sobra intuitivamente a noção de que cada parcela é um investimento que beneficia o produto final. Mais do que isso, este álbum é um disco de pulsação veemente e sangue na guelra, mormente na segunda metade do alinhamento onde se sublimam os preparos dançantes das composições e se impõe uma toada galvanizante, como na admirável re-edição de "Las Bicicletas Son Para El Verano", êxito já publicado de Under.

Se o título e a ilustração pastoral da capa do disco sugeriam um edifício sonoro rústico, a verdade é que os artefactos da quinta de Alex Under são tudo menos rudimentares e exibem, por oposição, com uma precisão maquinal, o lancinante vigor da electrónica puxada por um tractor quase tribal. Estas composições alimentam-se, em fórmulas circulares, de um incansável dínamo de forças centrípetas que convertem laconismo mecânico em hipnose impulsiva, em cachos de modernidade. Assim ao jeito de Richard Hawtin, vulgo Plastikman, é dificil não perceber compatibilidades com a filosofia digital deste mestre espanhol. E é raro não bater o pé ou desagrafar o traseiro do sofá ao som elástico desta quinta.

Posto de escutaProcure na grafonola os temas "Las Bicicletas Son Para El Verano", "Balas de Paja Maja", "El Ordenador Personal" e "Una Aguja en el Pajar"

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Arizona Amp and Alternator

Apreciação final: 7/10
Edição: Thrill Jockey/Dwitza, Setembro 2005
Género: Indie Rock/Country/Folk Alternativo
Sítio Oficial: www.thrilljockey.com








Escrever sobre Howe Gelb é registar uma mente eremita que leva os desertos do Arizona para todo o lado e fazer prova de um homem que na última década e meia deixou pegadas da sua inventividade como líder dos Giant Sand e depois dos OP8 e que também criou a sua própria editora discográfica, a Ow Om. Reconhecido pelos críticos como um dos mais influentes compositores da folk minimalista americana, Gelb é um escritor de canções incansável e, para o mais recente tomo do seu extenso catálogo, convocou a ajuda de alguns amigos ilustres, como M. Ward, Scout Niblett, John Parish e Jason Lyttle, entre outros. O disco tem qualquer coisa de um country sujo, de grão na orelha, e da escola blues mais tradicional. Mas, mesmo assim, mantém-se um traço indissociável de Gelb: a inconstância intencional dos ritmos, as variações quase deslocadas da estrutura nuclear das composições, as notas intencionalmente fora do padrão. Gelb é tudo menos um ortodoxo, gosta da ironia de confundir o ouvinte, de baralhar-lhe as noções e as ideias preconcebidas. E é nisso que este disco encontra a sua força motriz, nos subterfúgios recorrentes e nas figuras de estilo musical que parodiam consigo mesmas. Arizona Amp and Alternator traz um som fresco e descontraído (tão relaxado que chega a parecer trapalhão), é simultaneamente uma metáfora e uma hipérbole de si mesmo. Não é um álbum arrumado, nem sequer na produção, e é suposto ser consumido como tal. E essa desordem - que na obra de outros músicos seria uma fracção de descrédito - é aqui um intermediário de charme e junta originalidade às canções, sem lhes subtrair a melodia. Mais curioso ainda é perceber que, aqui e ali, surpresa das surpresas, o registo nos faz lembrar Gainsbourg ou mesmo Waits. Ainda há surpresas boas.

As canções de Gelb têm, neste álbum, a abastança de diamantes brutos, deixados num estado natural, como corpos sem moldes. Não vale lapidar estas pedras preciosas. Basta poli-las e deixá-las a um canto. O seu brilho impõe-se no espaço e enche-nos os tímpanos de ressonâncias semelhantes ao ensaio de uma talentosa banda folk-country. E a história evolutiva do tema-título do álbum - com quatro versões diferentes no disco - é a derradeira confirmação daquilo que Gelb e os seus convidados pretendem mostrar-nos: estas composições não se fecham na sua dimensão, podem moldar-se, ganhar senso e crescer. Darwin no country? Não. Apenas um conjunto de improvisadores que se estão a marimbar para o livro de reclamações.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Memórias do cinema

Burt Lancaster e Claudia Cardinale em Il Gattopardo (1963)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

10 rapidinhas





John Vanderslice - Pixel Revolt (7/10)
www.johnvanderslice.com/
Senhor de um vocabulário musical essencialmente acústico, o americano John Vanderslice já vai no quinto capítulo de uma discografia plena de subtileza; este é um registo que incorpora guitarras com discrição e aceita o contributo de breves instantes orquestrais, sons ligeiramente manipulados e teclas. Um disco técnico, recheado de boas histórias emolduradas num corpo musical capaz e preenchido com texturas de várias matizes que redundam num discurso profundamente contemplativo.
(Barsuk, Agosto 2005)







Afrirampo - Kora Ga Mayaku Da (7/10)
www.afrirampo.com
Duas irmãs de Osaka juntam-se, pegam na guitarra e amplificador, também na bateria, e fazem um chinfrim imparável, sem afinidades com formalismos. O desfecho é tão libertinamente primário que é quase improvável, tais são os sucessivos picos, a desordem e as viragens inesperadas. Uma excursão ao improviso psicadélico sem bilhete de retorno.
(Tzadik, Junho 2005)







Vashti Bunyan - Lookaftering (8/10)
Dá para acreditar que já lá vão trinta e cinco anos desde a edição do último disco desta senhora? Just Another Diamond Day foi um diamante esquecido na década de 70 (apenas recuperado em 2000) e, desde então, Bunyan retirou-se até ser repescada pelos Animal Collective num EP conjunto (Prospect Hummer (2005)). Neste segundo trabalho mantém-se a toada tímida da folk à descoberta de paisagens sonoras delicadas e de retiro espiritual.
(Fat Cat, Outubro 2005)








The Vicious Five - Up on the Walls (8/10)
http://theviciousfive.com
Se o rock nacional estava refém de um abanão, já temos foras-da-lei para o forçarem. Alma punk, estima pelo motim, doses incontinentes de adrenalina, muito músculo e diversão a rodos são os lemas destes lisboetas. A isso acresce um circo de ângulos rock bem desenhados que, à falta de melhor adjectivo, é nervoso. E quem consegue não bater o pé ao som urgente da juventude eléctrica de Up on the Walls?
(Loop Recordings, Outubro 2005)




Lau Nau - Kuutarha (6/10)
www.locustmusic.com
Álbum de estreia de uma cantora folk finlandesa que subscreve um pacto com a abstracção. E isso, traduzido em linguagem musical, é um som esquivo e meditativo, quase intangível, feito de uma profusão de instrumentos. Contudo, a essa riqueza instrumental não corresponde uma performance vocal ousada, resumindo inevitavelmente as composições a um mero esboço de oração musical padronizada. Ainda assim, uma edição para curiosos.
(Locust, Fevereiro 2005)


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Buck 65 - Secret House Against the World (6/10)
www.buck65.com
Este canadiano é um daqueles artistas que são difíceis de rotular. É adepto do experimentalismo e é frequentemente associado ao movimento underground rap e parece pouco se importar com isso. Para ele tudo se reduz à autenticidade e isso sente-se neste registo, a despeito de alguns conteúdos líricos menos inspirados. E para o provar está aí esta modesta casinha de segredos contra o mundo e as fronteiras na música.
(Warner International, Julho 2005)








Dakar & Grinser - Triumph of Flesh (7/10)
www.diskob.com
Duo berlinense que alia o charme de vocalizações bem construídas à dinâmica de percussões sintéticas típica da escola da electrónica alemã. A solução é rítmica e luminosa, mesmo nos instantes mais obscuros e envolve o auditor numa atmosfera algures entre o electro-punk, a pop e o house. E o denominador comum é um esqueleto quase rock.
(Disko B, Outubro 2005)






Danae - Condição de Louco (7/10)
Caboverdiana nascida em Cuba, filha de um cubano e de uma caboverdiana, Danae tem uma voz meiga, daquelas que nos afagam no íntimo e não mais nos largam. Depois, canta no cetim açucarado do português do Brasil e escreve porções de um universo que se abeira da moderna música brasileira, temperada por arranjos de excelente nível e que enfeitam canções que se inspiram nos laços musicais mestiços que cruzam o Atlântico e piscam o olho a Cabo Verde.
(Nortesul, Outubro 2005)




Koushik - Be With (5/10)
www.stonesthrow.com
Compilação de três EP's editados em vinil de um produtor musical hábil a fundir um ligeiro sortimento jazz e o rebuliço funk num invólucro pop dançável. Be With é apenas uma razoável audição casual e tem tanto aprazível quanto de enfadonho. Alguns disparos ao lado, outros tantos esboços de composições e, afinal, apenas umas gotinhas de sumo proveitoso.
(Stones Throw, Julho 2005)






Ludovico Einaudi & Ballaké Sissoko - Diario Mali (8/10)
Roteiro musicado da viagem do pianista italiano Ludovico Einaudi ao Mali, acompanhado pelo virtuoso Ballaké Sissoko, tocador do instrumento tradicional da música maliana, a kora. O diálogo entre os instrumentos é sublime, cruzando culturas distintas: o classicismo tonal do piano e o jogo de cores da música africana. Edição imperdível.
(Megamúsica, Setembro 2005)