quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Globos de Ouro

Foram anunciados no passado dia 12 de Dezembro os nomeados para a 63.ª edição dos Globos de Ouro, galardões atribuídos anualmente pela Hollywood Foreign Press Association e que distinguem personalidades no meio da Sétima Arte. Numa cerimónia apresentada por Kate Beckinsale, Mark Wahlberg e Steve Carrell, foi divulgada a seguinte lista de nomeações (consulte-a na íntegra aqui):

MELHOR FILME - DRAMA



BROKEBACK MOUNTAIN
Focus Features/River Road Entertainment; Focus Features

THE CONSTANT GARDENER
Potboiler Prods./Scion Films; Focus Features

GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK
Section Eight/2929 Entertainment/Participant Productions; Warner Independent Pictures

A HISTORY OF VIOLENCE
New Line Cinema; New Line Cinema

MATCH POINT
Jada Productions; DreamWorks Pictures


MELHOR ACTRIZ - DRAMA



MARIA BELLO
A HISTORY OF VIOLENCE

FELICITY HUFFMAN
TRANSAMERICA

GWYNETH PALTROW
PROOF

CHARLIZE THERON
NORTH COUNTRY

ZIYI ZHANG
MEMOIRS OF A GEISHA


MELHOR ACTOR - DRAMA



RUSSELL CROWE

CINDERELLA MAN

PHILIP SEYMOUR HOFFMAN
CAPOTE

TERRENCE HOWARD
HUSTLE & FLOW

HEATH LEDGER
BROKEBACK MOUNTAIN

DAVID STRATHAIRN
GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK

MELHOR FILME - COMÉDIA/MUSICAL



MRS. HENDERSON PRESENTS
Heyman Hoskins Prods.; The Weinstein Company

PRIDE & PREJUDICE
Working Title Prods.; Focus Features/StudioCanal

THE PRODUCERS
Brooksfilms; Universal Pictures/Columbia Pictures

THE SQUID AND THE WHALE
American Empirical/Peter Newman – Internal; Samuel Goldwyn Films/Sony Pictures Releasing International

WALK THE LINE
Twentieth Century Fox; Twentieth Century Fox


MELHOR ACTRIZ - COMÉDIA/MUSICAL



JUDI DENCH
MRS. HENDERSON PRESENTS

KEIRA KNIGHTLEY
PRIDE & PREJUDICE

LAURA LINNEY
THE SQUID AND THE WHALE

SARAH JESSICA PARKER
THE FAMILY STONE

REESE WITHERSPOON
WALK THE LINE


MELHOR ACTOR - COMÉDIA/MUSICAL



PIERCE BROSNAN
THE MATADOR

JEFF DANIELS
THE SQUID AND THE WHALE

JOHNNY DEPP
CHARLIE AND THE CHOCOLATE FACTORY

NATHAN LANE
THE PRODUCERS

CILLIAN MURPHY
BREAKFAST ON PLUTO

JOAQUIN PHOENIX
WALK THE LINE


MELHOR FILME ESTRANGEIRO




KUNG FU HUSTLE (CHINA)
Columbia Pictures Film Prod. Asia Ltd/Huayi Brothers/Taihe Film Investment Co. Ltd/Star Overseas; Sony Pictures Classics

MO GIK (MASTER OF THE CRIMSON ARMOR aka THE PROMISE) (CHINA)
Beijing 21st CenturySheng Kai/China Film Group/Capgen Investment Group/Moonstone Prods.; The Weinstein Company

JOYEUX NOEL (FRANÇA)
Nord Quest Prods. Senator Film Prods./The Bureau Artemis Prods/Media Pro Pictures/TF1 Films/Les Productions de la Gueville; Sony Pictures Classics

PARADISE NOW (PALESTINA)
Augustus Film/Lama Films/Razor Films/Lumen Films/Arte France Cinema/Hazazah Film; Warner Independent Pictures

TSOTSI (ÁFRICA DO SUL)
UK/South African Prods.; Miramax Films


MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA



SCARLETT JOHANSSON
MATCH POINT

SHIRLEY MacLAINE
IN HER SHOES

FRANCES McDORMAND
NORTH COUNTRY

RACHEL WEISZ
THE CONSTANT GARDENER

MICHELLE WILLIAMS
BROKEBACK MOUNTAIN

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO



GEORGE CLOONEY
SYRIANA

MATT DILLON
CRASH

WILL FERRELL
THE PRODUCERS

PAUL GIAMATTI
CINDERELLA MAN

BOB HOSKINS
MRS. HENDERSON PRESENTS


MELHOR REALIZADOR



WOODY ALLEN
MATCH POINT

GEORGE CLOONEY
GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK

PETER JACKSON
KING KONG

ANG LEE
BROKEBACK MOUNTAIN

FERNANDO MEIRELLES
THE CONSTANT GARDENER

STEVEN SPIELBERG
MUNICH

Vistos como uma antecâmara dos Óscares, os Globos de Ouro serão atribuídos no próximo dia 16 de Janeiro.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Blood on the Wall - Awesomer

Apreciação final: 7/10
Edição: The Social Registry, Setembro 2005
Género: Rock Revivalista
Sítio Oficial: www.bloodonthewall.com








A carga nostálgica do segundo álbum dos nova-iorquinos Blood on the Wall só pode ter resultado de um entre dois factores: ou os irmãos Shanks se deixaram cristalizar num confortável registo sonoro que recarrega (imita?) as munições dos Sonic Youth, dos Pixies e dos Violent Femmes, também dos mais velhinhos Stooges e Cramps, ou, por outro lado, eles são mesmo assim e contentam-se com uma polpa deliciosamente retro. Awesomer é um transplante que faz uma tradução anacrónica dos conceitos indie do arranque da década de 90 e da escola punk dos 70's. O som desfaz-se em paisagens negras e devaneios etilizados de índole apocalíptica, com ângulos da mais rude e mordente pop. A guitarra e o baixo fervilham nesse abismo de ideias díspares, juntando-as como peças de um puzzle truncado. O ouvinte fica refém deste desatino turbulento, numa excursão alucinada aos quatro cantos do rock, com paragens rápidas. E porque em Awesomer o tempo é unidade diminuta, os momentos são pungentes e fervorosos, quase asfixiantes, não receiam expôr as brechas de uma certa puberdade criativa e ironizam abertamente, ao jeito de uma farsa, os despojos musicais que resgatam do passado.

Awesomer é uma espécie de máquina do tempo musical porque nos reporta a eras que viram explodir a irreverência e a depravação no rock e, mesmo não promovendo a ascensão de algo particularmente novo, tem o mérito de espicaçar memórias caídas em torpor e agitar a cena rock de NY. Isto é rock esquizofrénico e desmazelado mas tem coração. Soa relativamente trasladado, é certo, mas tem vida e formas próprias. Afinal, que melhor preito pode render-se ao rock dito clássico do que receber com agrado as suas normas, incutir-lhes um temperamento remoçado e umas nuances pessoais e fabricar um disco apetecível? Foi isso mesmo que os Blood on the Wall conseguiram com este Awesomer que, como o título indica, é um segundo álbum ainda mais impressivo que o trabalho de estreia.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Fiona Apple - Extraordinary Machine

Apreciação final: 6/10
Edição: Epic, Outubro 2005
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.fiona-apple.com








A dissecação do último trabalho de Fiona Apple impõe umas considerações prévias. Segundo se diz, a etiqueta da compositora, a Epic Records, vinha mantendo este trabalho nas prateleiras, desde 2003, sob o pretexto de não ser suficientemente vendável. Contudo, as sessões de gravação originais, sob a produção de Jon Brion, começaram a circular clandestinamente pela internet ainda no começo deste ano, em resposta aos anseios de fãs ávidos por um álbum novo - a última edição da cantora remontava a 1999 - motivando um estranho burburinho em torno das novas canções e precipitando o seu lançamento oficial, em Outubro. Por decisão de Apple, as composições mereceram nova masterização (à excepção do tema título e de "Waltz (Better Than Fine)") e o álbum saiu para as lojas. A estética carnavalesca da produção de Brion, se emendava com propriedade algumas composições de Apple, parecia algo hiperbólica noutras, tornando a música da compositora um pouco mais fechada e impenetrável. E essa assinatura progressista não era a que interessava à Epic. Pode dizer-se que a edição publicada das canções tem menos liberdade artística; o trabalho de Mike Elizondo (produziu Eminem, 50 Cent e Gwen Stefani, entre outros) retirou o peso da excentricidade de Brion e abriu a música de Apple. Mesmo assim, as músicas não são imediatas, exibem um trejeito pop pouco comum, quase barroco, a piscar o olho à maleabilidade jazz e escondendo as melodias por detrás de um código musical complexo. Chame-se-lhe pop erudita, esta música não encaixa na classe da pop mais amiga do ouvido, é de outra linhagem, lavrada sob cláusulas diferentes de exuberância orquestral. Os elementos centrais, o piano e a voz de Apple, são amparados por arranjos nobres, embora as versões finais de Elizondo soem mais ligeiras.

Extraordinary Machine não é a prodigiosa bateria de canções de charme que a versão bootleg prometia. Depois de escutar o projecto inicial, a versão de Elizondo redunda numa depreciação da arte inegável de Apple. Brion havia moldado a música de Apple muito além das delineações pop, adicionando-lhe argumentos ímpares e um traço de sedução subliminar, elevando a voz de Apple a uma imponência não vista antes. Nesta edição, o toque de Elizondo subjuga a amplitude dos arranjos de cordas a ângulos cliché do rock alternativo e a beats desajustadas. A edição oficial de Extraordinary Machine é, ainda assim, um disco decente mas não pode deixar de considerar-se que fica muito aquém daquilo que Jon Brion urdira inicialmente. Nesta, como noutras edições, o assombro mercantil tolheu a arte. Para mal de Apple. E da Epic que, afinal, ao procurar um disco vendável, produziu um valente incentivo ao download ilegal da versão original.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Exercício espiritual

Exercício espiritual

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora.

Mário Cesariny

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Dionysos - Monsters in Love

Apreciação final: 7/10
Edição: Tréma/Universal, Setembro 2005
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.dionyweb.com








Os Dionysos acreditam que as venturas dos amores não estão vedadas aos monstros. A sétima arte corrobora com exemplos: Lugosi e Oldman emprestaram o olhar vítreo ao enamoramento de Drácula, Karloff e De Niro deram o amor à criatura de Frankenstein, o colossal King Kong derrete-se por loiras...Este é o mote fantasioso do quinto longa-duração deste quinteto francês. Repescando figuras de contos de terror ou fundando novas criaturas, o vocalista e mentor do grupo, Matthias Malzieu, constrói uma autêntica galeria de aberrações, versando sobre os vestígios de humanidade dissimulados no rosto de um monstro. Esta faceta indulgente é a premissa de uma hora de puro entretenimento, a fazer lembrar os filmes de Tim Burton ou os livros de Lewis Carroll. Musicalmente, a proposta convoca uma pletora de estilos (e instrumentos), desde o rock folclórico de "Giant Jack", o trinado de "Le retour de Bloody Betty" e a pujança saloon de "Lips Story in a Chocolate River", à quietude melancólica de "Métamorphose de Mister Chat" (num crescendo que começa por lembrar a chanson française e encerra com o traço moderno dos The Strokes) ou de "Missacacia", a puerilidade cativante da melodia da excelente "L'Homme qui pondait des oeufs", o envolvimento das cordas de "Broken Bird", a sedução instrumental do par guitarra/violino de "I Love Liou" ou a revigorante "Old Child". Para apimentar o embrulho, os rapazes até incluíram, escondida no alinhamento, uma reprise humorada de "I Did Acid With Caroline", de Daniel Johnston.

A despeito de não oferecer substâncias novas e de conter momentos menos felizes, Monster in Love é o disco mais melódico dos Dionysos e cobre uma paleta de géneros tão variada quanto uma salada chinesa. Depois, a comicidade absurda das palavras e o surrealismo das histórias reforçam a peculiaridade de composições que, não sendo originais nos conceitos e nas matrizes, têm a aptidão de despertar as várias gamas de sensações auditivas do ouvinte, ao mesmo tempo. Entretenimento castiço. Ironicamente, ou talvez não, para um álbum sobre monstros e os seus amores e desamores, a única coisa que este disco não consegue é suscitar medo. Como podemos não simpatizar com as alegorias de Giant Jack, Mister Chat, Bloody Betty ou Giant John e o seu sanglophone?


Para ouvir estas amostras vai precisar do Real Player. Descarregue-o aqui

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

The Clientele - Strange Geometry

Apreciação final: 7/10
Edição: Merge, Outubro 2005
Género: Pop Alternativo
Sítio Oficial: www.theclientele.co.uk








Os The Clientele são britânicos, têm um som outonal e rendem homenagem aos ambientes melódicos da pop dos anos 60 e 70, numa toada introspectiva e delicada. A gentilidade orgânica das composições envolve o auditor em truques harmónicos, com percussões brandas e guitarras liderantes - filtradas por efeitos de tremolo e reverb - e a poesia cantada de Alasdair Maclean, num registo ressonante e que, em alguns intantes do disco, reacende na memória os resquícios do saudoso John Lennon. A essa deliciosa ilusão (não é uma colagem) não é indiferente a doutrina retro das composições, uma máxima sublinhada no abeiramento ao romantismo hippie dos Velvet Underground ou dos Byrds e aos ângulos pouco convencionais dos Television. Depois, há uma dimensão poética que se gruda ao tecido musical e lhe empresta fábulas de paixões mal resolvidas em busca de catarses metafísicas, com pitadas de surrealismo. No fundo, o propósito maior é a construção de uma ode de fantasias à cidade de Londres, por inerência à Inglaterra contemporânea, ao Homem e ao amor. Com a neblina das esquinas de Londres e folhas cadentes dos plátanos do Hyde Park como pano de fundo, o devaneio ultra-sonhador dos The Clientele é exequível. Desde que falem baixinho.

Strange Geometry é o segundo longa-duração do trio inglês e, nesta etapa, o som deles foi amplificado; mantém a harmonia de proporções do costume mas ganhou a ajuda da interferência esporádica de elementos de cordas. Contudo, essa contingência, ainda que beneficie o som do grupo, alerta as consciências mais desatentas para a cristalização da fórmula dos The Clientele, particularmente sentida no recalcamento dos conceitos basilares do disco. O desfile de canções transforma-se, assim subliminarmente, num cortejo iterativo, ao ponto de por vezes se confundirem as composições. Não obstante alguns lances inspirados, este disco vem provar uma coisa: a estranha geometria dos The Clientele é um recreio de malabarismos com linhas muito rectas e volumes pouco atrevidos.

A sina dos animais

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Franz Marc, The Fate of the Animals, 1913

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Ennio Morricone - Crime and Dissonance

Apreciação final: 8/10
Edição: Ipecac Records, Setembro 2005
Género: Instrumental/Banda Sonora
Sítio Oficial: www.enniomorricone.com
www.ipecac.com








A alusão ao nome do compositor Ennio Morricone remete-nos imediatamente para o imaginário dos tempos áureos do spaghetti western, mormente para o clássico O Bom, o Mau e o Vilão (1966), de Sérgio Leone, cuja banda sonora - escrita por Morricone - ascendeu aos anais da música para a sétima arte. Contudo, reduzir o impacto da música do maestro italiano a essa esfera é uma asserção redutora. Com mais de cinco centenas(!) de bandas sonoras escritas, o vínculo de Morricone aos westerns é apenas uma pequena porção do seu trabalho. Dispersas em dezenas de filmes italianos com pouca expressão do início da década de 70 (1969-1974), as composições compiladas neste duplo CD revelam aspectos menos divulgados da música de Morricone. Aqui, a linguagem musical é diferente da combinação rock/clássica avant-garde que revolucionou os filmes de cowboys. Não surpreende que a edição tenha a chancela da etiqueta de Mike Patton (Ipecac). Embora a escolha das faixas seja da responsabilidade de Alan Bishop, a aura sonora deste trabalho traça paralelas com os esquemas experimentais dos ambientes sonoros de Patton. De facto, as trinta composições de Morricone que enchem este Crime and Dissonance fazem apelo a uma atmosfera ambígua, algures entre a inventividade do jazz, o psicadelismo (des)construtor de formalismos e o vigor experimental de Part ou Ligeti. Depois, vagueiam como vigilantes, sobre a orgânica precisa das composições, os vultos de interferências célebres: os ambientes de espionagem James Bond, o groove esporádico de Miles Davis, os orgãos e jogos melódicos do barroco, o laconismo das cordas, as vocalizações esparsas (ora assombradas, ora hedonistas), os efeitos sonoros de requinte.

A sugestão imagética deste álbum percorre as insinuações cinematográficas do terror, do suspense, do sexo e da espionagem. É um disco declaradamente obscuro e lúgubre; rebusca os vectores mais grotescos da música de Morricone e expõe a virtuosa controvérsia do seu génio. Crime and Dissonance é o resumo musicado de uma infinidade de emoções, como uma película que corta e cola os pedaços mais inquietantes de um punhado de filmes e que se vê em fast forward, sem tempo para recuperar o fôlego ou para fugir à constrição claustrofóbica que reduz os hemisférios do cérebro. Ao escutar este Crime and Dissonance apetece fechar os olhos, abraçar a magnitude de cada amostra de sons, perceber a integridade de cada peça e desenhar romanticamente na mente uma fita cinematográfica repleta de vilões vencedores e sem lugar para heróis. Música desta não se ouve. Vê-se e sente-se. De preferência com a porta fechada, não vá aparecer por aí alguma criatura tresmalhada ou um espião desorientado.