quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

The Strokes - First Impressions of Earth

Apreciação final: 6/10
Edição: Sony/RCA, Janeiro 2006
Género: Rock Revivalista/Indie Rock
Sítio Oficial: www.thestrokes.com








Pura ilusão. Os primeiros segundos de "You Only Live Once", a composição de abertura de First Impressions of Earth, levam-nos às arrecuas até aos anos 80 e relembram "I Want to Break Free", dos Queen. Mas, logo de seguida, a segunda guitarra e a voz de Julian Casablancas resolvem o enigma. É mesmo um disco dos Strokes, esses rapazes de quem já se disse serem os salvadores da pátria. Do rock, bem entendido. No terceiro longa-duração, os nova-iorquinos vão por diante nos dribles rock, procurando perfumar o som com outros aromas. Numa visão mais superficial, dir-se-ia que First Impressions of Earth pisa com hesitação um outro cosmos, talvez empurrado por uma conjuntura já não tão simpática para os automatismos dos Strokes como o início da década e que, pela recente ascensão de outras bandas (Franz Ferdinand, Bloc Party, Editors ou Bravery), fez o rock escorregar da mera mistura pós-punk para uma química mais dançarina. E os Strokes foram apanhados no meio dessa metamorfose, perdendo de permeio o estatuto de porta-vozes da nova era dourada do rock - se é que ela existiu - e escreveram um disco vegetariano. Não é carne nem peixe. Mesmo assim, First Impressions of Earth não é um mau disco, cativa pela energia magnetizante do refrão atempado e pelo jogo de harmonias de guitarra. Aí, os Strokes conservam créditos. E nas boas canções de pop disfarçado de rock, mais do mesmo: lugares comuns strokianos que, aqui e ali, se aventuram na novidade (nem sempre bem-vinda), como nas musculadas "Juicebox" e "Vision of Division" ou na peça "Ask Me Anything", exclusivamente em orgão e violoncelo.

Em First Impressions of Earth encontramos uns Strokes a dar sinais de entorpecimento criativo. Não é um mau disco, longe disso, mas é um álbum sem o fulgor do passado e tolhido pela insuficiente resposta do quinteto americano à urgência de revolver o paradigma que os lançou. Hoje, o mercado já não consome cegamente a mesma pílula de absorção rápida de rock com potência, velocidade e estridência em partes iguais que fez sucesso em Is This It ou Room on Fire. Mas será que Casablancas tem laringe (e caneta) para mais? É certo que, neste disco, os Strokes procuraram outros rumos mas ficaram-se pelas intenções. E para resgatar o rock (se é que ele precisa disso) é preciso um pouco mais do que simples reticências. Ou isso, ou os Strokes são, agora, uma reticência do que já foram. Pura ilusão?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

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Gino Severini, Train de la croix rouge traversant un village, 1915

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Memórias do cinema

Bibi Anderson, Gunnar Bjornstrand e Liv Ulman em Persona (1966)

If Lucy Fell - You Make Me Nervous

Apreciação final: 7/10
Edição: Rastilho, Novembro 2005
Género: Metalcore/Experimental
Sítio Oficial: www.iflucyfell.tk








O baptismo desta banda lisboeta só pode ter sido um assomo da mais refinada ironia. Retirado da comédia romântica que Eric Schaeffer escreveu, realizou e protagonizou em 1996, o nome destes rapazes é um delicioso enigma. Coincidência sarcástica com o filme? É que o propósito musical que os If Lucy Fell defendem abeira-se mais de um colérico exercício de implosões metalcore, feito de sonoridades cruas e cheias de energia do que propriamente do universo da fita de Schaeffer. Antes de mais, You Make Me Nervous é um disco de competência técnica, sem receio de entornar nos padrões eléctricos uma porção ajustada de experimentalismo e uma lógica de pára-e-arranca à procura de picos que nem sempre respondem com aptidão às suposições que a ebulição das composições faria adivinhar. É certo que estamos a falar de um som pouco pacífico para ouvidos sensíveis, um registo que tenta aglutinar a agressividade e instantes melancólicos - a maior parte das vezes consegue-o eficazmente - mas que não omite certas imprecisões típicas de um primeiro disco. Contudo, esses pecadilhos não apagam os indicadores de um porvir risonho para os If Lucy Fell: a atitude é punk, o universo é o metal, o noise rock é a escola e a criatividade é um teorema. E como todos os teoremas, os matemáticos e os demais, este também carece de demonstração efectiva. You Make Me Nervous é a primeira tentativa para chegar aí, a esse destino onde se cruzam a máquina explosiva de uns Norma Jean ou de uns Converge, o artesanato ecléctico de uns Mars Volta e o sombrio minimalismo de uns Cult of Luna.

Intenso, psicótico e corrosivo, You Make Me Nervous é mais um depoimento da vitalidade recente do movimento underground luso e apresenta um colectivo promissor. Pena é que o álbum não evite, apesar da metamorfose esquizofrénica que percorre o alinhamento, uma certa sensação de repetição. Mesmo assim, You Make Me Nervous é um turbilhão incontinente de boas ideias e uma demonstração do vigor indomável deste quarteto nacional que, assim que conseguir outros enfoques para os seus conceitos, há-de tornar-se um caso sério na música nacional não recomendada a mentes (e ouvidos) sensíveis. Para exportar. Por ora, resta-nos consumir desregradamente o álbum de debute e aceitar o único efeito colateral previsto: a sedução viciante.

Posto de escutaMySpace

domingo, 1 de janeiro de 2006

Balanço de 2005

Com o termo de mais um ano, repete-se a costumeira mirada para trás a percorrer em retrospecção os últimos trezentos e sessenta e cinco dias de edições musicais. Muitos dias, muitos discos, muitas horas de audição depois, é altura de pesar méritos e insuficiências de intérpretes, de recuperar sensações produzidas pela música e encher esta folha de papel com os discos mais tocantes do ano. Escolher de um universo tão vasto de lançamentos é um exercício limitativo e, por consequência, um acto redutor e subjectivo. E dessa subjectividade, apenas dela e dos estímulos pessoais suscitados por cada um dos discos, derivaram as considerações que aqui se deixam expressas. Ao leitor, estou certo de que estas propostas interessarão como pistas, meros alvitres que levem à descoberta do desconhecido ou ao reconhecimento de reputações.

Musicalmente, o ano que agora finda foi como outros: cheio de coisas boas, algumas decepções, outras tantas revelações e muitas horas a ouvir música. A nível internacional, este foi o ano que confirmou o génio megalómano do americano Sufjan Stevens, autor de mais um capítulo da sua saga musical consagrada aos estados americanos e que, no devaneio do músico, há-de dedicar um disco a cada estado. No segundo álbum da colecção, Illinois, Stevens criou uma obra ambiciosa e ecléctica, um verdadeiro cartão de visita musical e a cuja majestade ninguém fica indiferente. Certamente, um disco omnipresente nas listas de melhores do ano. Ainda em terras do tio Sam, este foi também o ano da ambiguidade dos Animal Collective (Feels) e da pujança rock das Sleater-Kinney (The Woods). Enquanto o trio feminino de Washington prosseguiu a virtuosa rotina de escrever grandes álbuns rock, os nova-iorquinos redesenharam o seu intenso espaço de ambiguidade sonora, na verdadeira caixinha de emoções que é o seu sétimo disco. Além desses, num registo mais plácido, sobressaiu o nome de Anthony. O andrógino compositor californiano fixou definitivamente, ao segundo álbum (I Am a Bird Now), o seu espaço na cena musical norte-americana como songwriter do lado negro do amor. Ainda no capítulo das confirmações, nos E.U.A., uma referência aos discos competentes dos sublimes californianos Mars Volta (Frances The Mute), ao terror do novo trabalho do projecto Sunn O))) (Black One), à pop de casta dos The Decemberists (Picaresque), de Amos Lee ou Josh Rouse (Nashville), ao hip-hop de Edan (The Beauty and the Beat), Kanye West (Late Registration) ou Cam'ron (Purple Haze), à folk dos My Morning Jacket (Z) ou de Devendra Banhart (Cripple Crow) e às múltiplias dimensões rock dos White Stripes (Get Behind Me Satan), dos Queens of the Stone Age (Lullabies to Paralyze), dos Lightning Bolt (Hypermagic Mountain), dos Fantômas (Suspended Animation) ou dos System of a Down (Mezmerize/Hypnotize). A encabeçar a lista de debutantes para este ano na música americana, os irreverentes Clap Your Hands Say Yeah que, à custa de um disco em edição de autor e de algumas reviews favoráveis, geraram algum burburinho à sua volta e prometem agitar a cena rock nos tempos mais próximos. A par destes, embora num registo distinto, a electrónica do projecto LCD Soundsystem marcou pontos num disco de estreia convincente e que deixou água na boca. Ainda em matéria de revelações, este ano trouxe-nos, do Canadá, a estreia em disco da exuberância da pop alternativa dos Wolf Parade (Apologies to Queen Mary), da mesma Montreal que vira nascer os Arcade Fire, no ano transacto. Também do Canadá, merecem um apontamento de destaque os regressos esperados dos Broken Social Scene e dos The New Pornographers (Twin Cinema).

Fora do continente americano, num ano particularmente activo no Reino Unido, o ano ficou marcado pelo regresso em força dos escoceses Franz Ferdinand (na mesma linha do primeiro longa-duração), dos ingleses Coldplay (cada vez mais os porta-vozes primeiros da brit pop) e Depeche Mode (um regresso ao passado mais criativo) e pelas revelações dos britânicos Bloc Party, Art Brut e Kaiser Chiefs (novos mensageiros do movimento rock), da pop elaborada dos Clientelle e da electrónica surpreendente de M.I.A.. Uma nota ainda para os discos bem conseguidos de Jamie Lidell (Multiply), em convenções electrónicas precisas, dos Part Chimp (I Am Come), pela combatividade convulsiva do noise rock que defendem, dos Elbow (Leaders of the Free World) e dos Low (The Great Destroyer), pela competência e requinte, e dos Gorillaz (Demon Days), pela versatilidade da boa escrita. Pelo resto da Europa, Pascal Arbéz, sob o pseudónimo Vitalic (Ok Cowboy), e o alemão Rajko Müller (Isolée, We Are Monster), agitaram a electrónica europeia. Os suecos Opeth (Ghost Reveries) recriaram conceitos do metal escandinavo e os islandeses Sigur Rós (Takk) produziram mais uma tocante ode glacial. No resto do Mundo, os australianos Architecture in Helsinki (In Case We Die) deram-nos uma amostra do mais puro e irresistível psicadelismo electrónico, os congoleses Konono n.º 1 (Congotronics) fizeram-nos dançar ao som do likembé e a dupla invisual (do Mali) Amadou & Mariam (Dimanche à Bamako) encantou-nos com um passeio de Domingo às sonoridades africanas.

Mas 2005 foi, também, um ano marcado por alguns regressos sonantes e alguns flops. Rolling Stones, Paul McCartney, Kate Bush, Bruce Springsteen, Madonna, Vashti Bunyan, Nine Inch Nails e Sinnéad O'Connor regressaram às lides discográficas sem medo das sombras do passado e conseguiram, uns mais do que outros, não deslustrar o património que ostentam e até, em alguns casos, acrescentar novos ingredientes ao receituário costumeiro. Nas desilusões, os nomes de Moby, Tori Amos, New Order (outro regresso "histórico") e Liz Phair marcaram edições discográficas menos felizes.

No que toca à música nacional, para além da confirmação dos créditos de compositor de Francisco Silva (Old Jerusalem), do pianista Bernardo Sassetti e dos criativos Blasted Mechanism e D-Mars (sob o pseudónimo Rocky Marsiano), também dos regressos de Sara Tavares, David Fonseca e Rui Veloso, o ano foi particularmente dinâmico para as divas do fado moderno, com discos novos de Mariza, Mísia e Cristina Branco, e deram-se a conhecer em disco alguns conceitos musicais que, até aqui, estavam guardados no anonimato. Nesse grupo incluem-se o guardense Victor Afonso (Kubik), que nos proporcionou um invulgar exercício de bricolage musical, o colectivo lisboeta Ölga, os luso-canadianos Funami, o Complicado Miguel Gomes, os rappers Factor Activo, Serial, Sagas e Preto, os Loosers, os If Lucy Fell e os mirandeses Galandum Galundaina.

Foram estes os nomes que fizeram a melhor música de 2005. Para o ano há mais. Num registo para a história, aqui ficam as listas:

INTERNACIONAL
1.º Sufjan Stevens, Illinois
2.º Broken Social Scene, S/T
3.º Animal Collective, Feels
4.º Clap Your Hands Say Yeah, S/T
5.º The Mars Volta, Frances the Mute
6.º Wolf Parade, Apologies to Queen Mary
7.º Sunn O))), Black One
8.º Anthony and the Johnsons, I Am a Bird Now
9.º Sleater-Kinney, The Woods
10.º The New Pornographers, Twin Cinema

NACIONAL
1.º Kubik, Metamorphosia
2.º Complicado, Haunted
3.º Old Jerusalem, Twice the Humbling Sun
4.º Rocky Marsiano, The Pyramid Sessions
5.º Mariza, Transparente
6.º Serial, Brilhantes Diamantes
7.º Mísia, Drama Box
8.º Carlos Bica, Single
9.º Blasted Mechanism, Avatara
10.º Ölga, What Is

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

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Roger de la Fresnaye, Le Diabolo, 1914

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Isolée - We Are Monster

Apreciação final: 8/10
Edição: Playhouse/Flur, Junho 2005
Género: IDM/Electrónica Minimalista
Sítio Oficial: www.isolee.de








O alemão Rajko Müller (aka Isolée) já tinha deixado bem claro, quando há cinco anos editou o álbum Rest, que não é homem para perder o sossego (e o norte) mesmo quando o edifício da electrónica ambientalista, como se fez tendência recente, se permite derivar para outras escolas. Para ele, o dogma de Eno continua a ser um ensinamento de utilidade quotidiana, nas métricas, na volatilidade, nos ritmos variáveis, no espaço misterioso de sons digitais. A música torna-se necessariamente um modelo de liberdade criativa, é como um estudo sem palpites formais, indiferente aos argumentos do tempo. O corpo é essencialmente instrumental mas aceita aparições esporádicas da voz, integrando-a num jogo de vectores tridimensionais donde provêm o aprumo minimalista e o charme pelo rigor. E não se trata de rigor feito de precisões, as melodias exibem-se propositadamente desarrumadas, com sons volantes guiados por um encorpado fio de prumo disco que confunde qualquer definição contemporânea de funk. Depois, Müller enfeita este jogo de partículas sintéticas com breves ornamentos orquestrais, conferindo outros pigmentos às paisagens sonoras que We Are Monster vai sugerindo na mente do auditor. Além do mais, Müller até facilita as coisas para os mais preguiçosos: as composições estão subliminarmente mais próximas de servirem no molde de canção.

We Are Monster é um daqueles discos de viciação fácil, tão imediatamente ele captura as graças do sentido auditivo e, com mais presteza ainda, reclama os serviços perceptivos do cérebro e acorda os nervos amorfos do sistema nervoso central. Trocado por miúdos, é um disco profundo que nos faz (querer) dançar mesmo que nem nos levantemos do sofá. Chamam-lhe I.D.M., música de dança inteligente, na língua lusa. Que é intuitivamente dançável, lá isso é. E se inteligência é sinónimo de super-abundância de elementos e subtileza melódica, então We Are Monster é música inteligente. Esquecendo os rótulos, é um álbum indispensável e um dos exercícios electrónicos mais inspirados de 2005.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

Memórias do cinema

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em Casablanca (1942)

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Jens Lekman - Oh, You're So Silent Jens

Apreciação final: 7/10
Edição: Secretly Canadian, Novembro 2005
Género: Pop Alternativo/Lo Fi
Sítio Oficial: www.secretlycanadian.com/jenslekman








A ilustração frugal da capa do novo trabalho de Jens Lekman faz adivinhar um disco despojado, de tons minimalistas e cores pálidas. E é mesmo assim a música deste virtuoso compositor sueco. Ele já nos havia tocado com essa simplicidade emocional em When I Said I Wanted to Be Your Dog (2004) e repisa argumentos nesta nova colecção de composições que, afinal, sem o parecer, é "apenas" uma recolha de raridades (tiradas de EP's e compilações de 2003 e 2004) e B-sides. A música é leve, quase insustentavelmente leve, e respira o romantismo sem sofreguidão, por força de padrões musicais sem enfeites, plenos de bom gosto e de uma escrita serena. Já não restam dúvidas, o sueco é mesmo um dos mais inspirados cantautores do momento e, ainda que não mude consideravelmente as normas do manual crooner, experimenta outras estruturas orgânicas, introduzindo pontualmente (e com propriedade) alguns samples e vocalizações de suporte inopinadas. Tudo à prova de clichés, portanto. Seja como fôr, o jovem trovador escandinavo parece ter encontrado um farto filão criativo, num registo que tanto lembra Stephen Merritt como Morrissey (e que tal um pouquinho de Magnetic Fields?), e escreve, com igual sedução, em ângulos díspares: o rapaz está dividido entre a lágrima dos sonhos gorados e o sorriso imberbe do adolescente que descobre o amor. E em qualquer dos casos, Lekman soa sincero, profundo e irresistivelmente harmonioso. Neste disco, não há notas fora do lugar, não há excendentes.

Oh, You're So Silent Jens pode não ter a coesão de um álbum pensado como tal, mas traz um punhado de preciosidades da melhor pop romântica deste ano. Mesmo sendo um pouco previsível - é díficil não sê-lo quando se mantém a mesma toada numa alinhamento de dezasseis faixas - o trabalho destapa o mundo pesaroso de Lekman e expõe os predicados inegáveis do compositor escandinavo ao serviço de canções a milhas de rótulos. Vale a pena ouvir. Porque ser conturbado ou triste, apaixonado ou rejeitado podem ser sinónimos de melodia. E quando assim é, não há melhor do que Lekman para os passar à pauta.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Konono n.º 1 - Congotronics

Apreciação final: 7/10
Edição: Crammed, Março 2005
Género: Tradicional/Tribal/Africana
Sítio Oficial: www.crammed.be/konono








Um dos mais notáveis colectivos musicais da República Democrática do Congo, os Konono n.º 1 já contam um quarto de século de existência. Oriundos da capital Kinshasa, os Konono são obreiros de um som artesanal, com raízes na cultura do likembé (instrumento rudimentar típico do Congo ao jeito de um piano de polegar com finas teclas de metal presas a uma caixa de ressonância) e que lança mão de bugigangas várias e ferro-velho para construir uma eloquente soma de sons e vibrações. Assim, o likembé é electrificado artesanalmente, restos de sucata servem de percussão e megafones amplificam as vozes em grupo. O conceito musical é inovador e compõe uma boda musical de cardápio inteiro, num tom festivo contagiante. Cerca de uma dúzia de músicos suscitam um transe festivaleiro que deriva de composições que não se regem por normas e que se orgulham da sua atipicidade, indiferentes a qualquer métrica temporal ou disciplina constrangedora. O engenho dos músicos é certificado na mistura tribal de um legado que vem de tempos longínquos com o traço de modernidade da experimentação e do improviso. A estrutura das composições é, de certa forma, aliterante como convém à boa tradição do bazombo e ao costume do trance do Golfo da Guiné e da África Ocidental. Mas essa repetição não produz tédio, antes perpetua um invento musical irresistível, simultaneamente rústico e pleno de urbanidade, uma convocação imparável para a dança em forma de celebração.

Congotronics é um circo de palhaços pobres e esboça uma linguagem musical nova em melodias simples e vocalizações de parada e resposta num clima jubiloso que nos reporta para as boulevards arborizadas de uma Kinshasa engalanada para um dia de festa. São discos como este que nos fazem saber que, algures num cantinho recôndito da vastidão do planeta, há um tesouro musical castiço ainda por achar e que há-de desatar novas aptidões e sugerir outros limites para a música. Nem que, como no caso dos brilhantes e divertidos Konono n.º 1, isso tenha que levar vinte e cinco anos. Afinal, o palhaço pobre também ri. E dança.

sábado, 24 de dezembro de 2005

A todos os frequentadores deste espaço,

UM FELIZ NATAL

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Sunn O))) - Black One

Apreciação final: 8/10
Edição: Southern Records, Outubro 2005
Género: Metal Experimental/Doom Metal
Sítio Oficial: www.southern.net








O sol pôs-se ainda antes de nascer, o céu subsiste na negrura de uma longa noite que não se foi. Sente-se no ar o cheiro putrefacto do medo, dos sedimentos nas cavernas húmidas, dos dejectos de insectos disformes e devoradores de carne humana. O fôlego escapa-se na claustrofobia sufocante do vazio escuro. O chão é apenas a sombra desmedida de uma floresta negra, cansam-se os olhos na incrédula busca da ténue luz no horizonte. Escutam-se, ao longe, gritos arrepiantes de tormento e trazem consigo o silêncio cúmplice dos corvos malditos. As árvores negras dizem sarcasmos de morte e disfarçam sentenças em sorrisos cínicos; os copiosos raizeiros desprendem-se com vagar da terra, arrogam-se de serem pés e afoitam-se a intentar um passo, depois outro, ainda outro. As pernadas são agora braços e executam assustadores movimentos de equilíbrio, como se esta árvore, também aquela além, e as outras que nos miram pudessem olhar, tomassem subitamente consciência da cinemática de que sempre se acharam privadas até este instante. Perplexas, uma após a outra, as árvores de troncos e folhas negras libertam-se da terra, encaminham-se para nós, num compasso demorado e pesado. A cada passada hesitante, a terra treme e os monstros parecem maiores. Das bocas e cordas vocais imaginárias das aterradoras criaturas nascem sons penetrantes, pedaços de ruídos fragmentários que se desunem no ar e desenham um grotesco prenúncio de sangue. Elas são árvores-vampiros e, dominadas pelo feitiço de dezenas de noites, vêm roubar-nos o plasma. Têm o mesmo sonho, a utopia da juventude imortal da Condessa Bathory que, banhando-se no sangue de jovens adolescentes assassinadas, supunha preservar a mocidade. Não percebem a evidência da sua própria morte que, mesmo caminhando, a denúncia negra e podre da sua fisionomia torna irrefutável. E desaparecem, reduzem-se à pobre condição de árvore defunta; os membros devolvem-se, na mesma presteza com que se moveram, à morrediça resolução do tempo, apagando-lhes a burlesca memória de um dia terem andado como gente. Os corvos esvoaçam para longe, já lhes não cheira a iguaria. Volta a morte ao palco negro, o universo dos Sunn O))).

Black 1 é o corpo musical de um mundo assim. Guitarras pesarosas e labirintos sónicos inquietantes. O propósito essencial é a escola do doom metal ou o trejeito gótico, com uma extensa paleta de minúcias experimentalistas. Há qualquer coisa de horror nocturno, de um assombro que impele o auditor a esquadrinhar as raízes do medo abstracto, dos receios caprichosos sem destino. Num cenário de saturação deste tipo de sonoridades, os Sunn O))) descobriram a pedra filosofal que distingue a sua assinatura das demais e oferecem-nos o seu melhor trabalho. Um disco absolutamente indispensável, de proporções épicas e ritualistas e negrura perturbante e hipnótica. Porque assim são os Sunn O))). E porque o medo é um lugar estranho.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Broadcast - Tender Buttons

Apreciação final: 8/10
Edição: Warp, Setembro 2005
Género: Pós-Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.broadcast.uk.net








Não se deve despertar um sonâmbulo. Assim dispõe a sabedoria popular, não em defesa do sono mas do indivíduo que, entregue à dormência, decide caminhar, falar e dar-se às demais coisas que faria se estivera acordado. E se repentinamente um disco nos fizesse assim sonâmbulos, ou fosse ele mesmo uma obra sonâmbula, pousando-nos no sonho fascinante de uma pop fora de moda e induzindo-nos, em simultâneo, os gestos e vocábulos de uma linguagem artificial avant-gard? Deste jeito nos toma as rédeas o mais recente álbum dos britânicos Broadcast. As convenções pós-rock a que se propõem Trish Keenan e James Cargill reduzem-se a uma matéria essencial: esta música não é feita para parecer bem, nem para encaixar em moldes pomposos. Ela soa, na sua íntima substância, a qualquer coisa de fresco e moderno, mesmo que repetidas vezes se fique num minimalismo esqueletal ou até se extravie nos seus próprios enigmas. Tender Buttons é um daqueles discos simples que nos reconciliam com a electrónica espacial quase desintegrada e o mistério de uma voz hipnótica e álgida, uma espécie de Françoise Hardy sob o efeito tóxico de cogumelos. E essa voz esotérica faz-se instrumento, desenhando mímicas que robustecem as fantasias psicadélicas das composições.

Tender Buttons projecta estradas alternativas para um destino ousado: antecipar a fórmula química da pop de amanhã. Os dotes dos britânicos para a adivinhação podem ser contestados mas este futuro de sentido único está aí, ao virar da esquina; basta aceitar o feitiço de sons manipulados de Tender Buttons, perceber-lhe o convincente frasismo melódico e render-se à evidência. Com o carinhoso embalo deste disco, o pior que há-de suceder é que nos adormeça o sistema nervoso e, quando dermos por nós, estarmos caminhando durante o sono, de braços em riste, em demanda de coisa nenhuma. Falemos baixinho, não é bom acordar-se o sonâmbulo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Espers - The Weed Tree


Apreciação final: 7/10
Edição: Locust, Outubro 2005
Género: Folk Tradicional
Sítio Oficial: www.espers.org








Recentemente convertidos ao formato de sexteto, eles movem-se no ambíguo espaço da folk americana e têm uma peculiar afeição pela música tradicional, seguindo os mesmos atalhos musicais dos britânicos Pentangle, Fairport Convention ou The Incredible String Band, projectos musicais que vingaram nas décadas de 60 e 70 à custa da evocação de melodias tradicionais da cultura celta e dos protótipos musicais nativos das ilhas britânicas. Escutar este Weed Tree é perceber que estes músicos de Filadélfia deviam morar no outro lado do Atlântico, junto do imaginários das referências musicais que os inspiram. O alinhamento é composto por seis versões (duas canções tradicionais irlandesas e outros temas de Nico, Durutti Column, Michael Hurley e dos Blue Öyster Cult) e um original. O tom lamentoso é denominador comum às composições e sublinha a atmosfera melancólica do registo, na toada outonal do monólogo de um solitário. E é precisamente de solidão e de perda que se discursa em Weed Tree. Como não podia deixar de ser, os instrumentos acústicos prevalecem num tecido musical de cariz barroco, com uma profundidade vocal e um compromisso de integridade não vistos no trabalho de estreia. O som dos Espers é mais encorpado porque recolhe os alentos de mais instrumentistas de elite e conjuga fatias de beleza imaculada, num corpo de fantasia nem sempre homogéneo mas profusamente mágico.

Weed Tree é uma substância musical trovadoresca, de alma medieval, com a pureza do canto pastoral e o subliminar ânimo da cultura celta. É também um conciso retrato musicado do raizame da folk, não desvirtuando o espírito das composições originais, ainda que suscitando-lhes um desígnio mais experimental. O modus operandi dos Espers é elástico q.b. para se adaptar à diversidade das propostas originais e joga em favor da credibilidade de um colectivo prometedor. Enquanto não chega o novo trabalho de originais (previsto para o próximo ano), Weed Tree é um óptimo cartão de visita para quem não conhece o sexteto de Filadélfia e, ao mesmo tempo, aguça os apetites dos fãs.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

O rei velho

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Georges Rouault, The Old King, 1937

Os estranhos

The aliens

You may not believe it
but there are people
who go through life with
very little friction of distress.
They dress well, sleep well.
they are contented with their family life.


They are undisturbed
and often feel
very good.
And when they die
it is an easy death, usually in their sleep.

You may not believe it
but such people do exist.

But i am not one of them.
oh no, I am not one of them,
I am not even near
to being one of them.
But they are there

And I am here

Charles Bukowski

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Opeth - Ghost Reveries

Apreciação final: 8/10
Edição: Roadrunner/Universal, Setembro 2005
Género: Metal Progressivo/Death Metal
Sítio Oficial: www.opeth.com








Quem julga os suecos Opeth como apenas mais um ensemble da lotada cena metal da Escandinávia está a passar ao lado de uma genuína odisseia de originalidade inventiva. É certo que a figura musical dos Opeth segue o regimento do black metal do Norte Europeu mas não se fecha em tal calibre, solicita também as construções melódicas do rock progressivo e ministra-lhes a elegância de estruturas melódicas quase sinfónicas e de espaços acústicos. Aliás, esse toque acústico ganhou outras proporções nas composições e promove, em contraste com as distorções penetrantes, um jogo nebuloso de fôlegos diferentes. E o arrojo dos Opeth não se esgota aí; eles permitem-se fantasiar fórmulas em vários rumos musicais, acertando na nobreza épica desses acrescentos e desenhando labirintos que abraçam o auditor, incitando-o a desfiar uma meada imprevisível de canções. Algumas das peças deste Ghost Reveries alongam-se além dos dez minutos, como é da praxe no bom estilo progressivo e nos próprios Opeth, rompendo quaisquer fronteiras de género ou preconceito. A música dos Opeth é assim mesmo, assina um pacto sublime entre a técnica e a emoção, não teme a exposição de sentimentos - mesmo que contrastantes - e envolve-os em estruturas que têm tanto de disciplina como de desatino. Essa ambivalência é um dom reservado a músicos de eleição e é traduzida, com realismo uniforme, nas pontes entre espaços eléctricos e acústicos, ou nas variações entre o registo cavernoso e o tom suave e polido da voz de Akerfeldt.

Ghost Reveries é uma obra magna e um disco de beleza trágica e esfíngica; se tem instantes em que se revela penetrante e hostil, como um guerreiro que arremete a tudo o que mexe, noutros momentos, é serenamente contemplativo, como que ensimesmado no segredo do seu próprio isolamento. Em qualquer dos casos, destaca-se a casta das composições, plenas de recursos e alegorias e inventoras de hipnoses góticas. Tal como guiar descontroladamente um carro numa via rápida, apetece dar rédea solta a Ghost Reveries. Porque com os Opeth, além de se descobrirem sensações raras e surpresas abruptas, há sempre uma saída de emergência nas descidas íngremes. O que é o mesmo que dizer que por detrás da negrura melancólica que preenche o espaço do álbum, há muitos enigmas e refúgios para descansar o ouvido da pujança das distorções.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Globos de Ouro

Foram anunciados no passado dia 12 de Dezembro os nomeados para a 63.ª edição dos Globos de Ouro, galardões atribuídos anualmente pela Hollywood Foreign Press Association e que distinguem personalidades no meio da Sétima Arte. Numa cerimónia apresentada por Kate Beckinsale, Mark Wahlberg e Steve Carrell, foi divulgada a seguinte lista de nomeações (consulte-a na íntegra aqui):

MELHOR FILME - DRAMA



BROKEBACK MOUNTAIN
Focus Features/River Road Entertainment; Focus Features

THE CONSTANT GARDENER
Potboiler Prods./Scion Films; Focus Features

GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK
Section Eight/2929 Entertainment/Participant Productions; Warner Independent Pictures

A HISTORY OF VIOLENCE
New Line Cinema; New Line Cinema

MATCH POINT
Jada Productions; DreamWorks Pictures


MELHOR ACTRIZ - DRAMA



MARIA BELLO
A HISTORY OF VIOLENCE

FELICITY HUFFMAN
TRANSAMERICA

GWYNETH PALTROW
PROOF

CHARLIZE THERON
NORTH COUNTRY

ZIYI ZHANG
MEMOIRS OF A GEISHA


MELHOR ACTOR - DRAMA



RUSSELL CROWE

CINDERELLA MAN

PHILIP SEYMOUR HOFFMAN
CAPOTE

TERRENCE HOWARD
HUSTLE & FLOW

HEATH LEDGER
BROKEBACK MOUNTAIN

DAVID STRATHAIRN
GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK

MELHOR FILME - COMÉDIA/MUSICAL



MRS. HENDERSON PRESENTS
Heyman Hoskins Prods.; The Weinstein Company

PRIDE & PREJUDICE
Working Title Prods.; Focus Features/StudioCanal

THE PRODUCERS
Brooksfilms; Universal Pictures/Columbia Pictures

THE SQUID AND THE WHALE
American Empirical/Peter Newman – Internal; Samuel Goldwyn Films/Sony Pictures Releasing International

WALK THE LINE
Twentieth Century Fox; Twentieth Century Fox


MELHOR ACTRIZ - COMÉDIA/MUSICAL



JUDI DENCH
MRS. HENDERSON PRESENTS

KEIRA KNIGHTLEY
PRIDE & PREJUDICE

LAURA LINNEY
THE SQUID AND THE WHALE

SARAH JESSICA PARKER
THE FAMILY STONE

REESE WITHERSPOON
WALK THE LINE


MELHOR ACTOR - COMÉDIA/MUSICAL



PIERCE BROSNAN
THE MATADOR

JEFF DANIELS
THE SQUID AND THE WHALE

JOHNNY DEPP
CHARLIE AND THE CHOCOLATE FACTORY

NATHAN LANE
THE PRODUCERS

CILLIAN MURPHY
BREAKFAST ON PLUTO

JOAQUIN PHOENIX
WALK THE LINE


MELHOR FILME ESTRANGEIRO




KUNG FU HUSTLE (CHINA)
Columbia Pictures Film Prod. Asia Ltd/Huayi Brothers/Taihe Film Investment Co. Ltd/Star Overseas; Sony Pictures Classics

MO GIK (MASTER OF THE CRIMSON ARMOR aka THE PROMISE) (CHINA)
Beijing 21st CenturySheng Kai/China Film Group/Capgen Investment Group/Moonstone Prods.; The Weinstein Company

JOYEUX NOEL (FRANÇA)
Nord Quest Prods. Senator Film Prods./The Bureau Artemis Prods/Media Pro Pictures/TF1 Films/Les Productions de la Gueville; Sony Pictures Classics

PARADISE NOW (PALESTINA)
Augustus Film/Lama Films/Razor Films/Lumen Films/Arte France Cinema/Hazazah Film; Warner Independent Pictures

TSOTSI (ÁFRICA DO SUL)
UK/South African Prods.; Miramax Films


MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA



SCARLETT JOHANSSON
MATCH POINT

SHIRLEY MacLAINE
IN HER SHOES

FRANCES McDORMAND
NORTH COUNTRY

RACHEL WEISZ
THE CONSTANT GARDENER

MICHELLE WILLIAMS
BROKEBACK MOUNTAIN

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO



GEORGE CLOONEY
SYRIANA

MATT DILLON
CRASH

WILL FERRELL
THE PRODUCERS

PAUL GIAMATTI
CINDERELLA MAN

BOB HOSKINS
MRS. HENDERSON PRESENTS


MELHOR REALIZADOR



WOODY ALLEN
MATCH POINT

GEORGE CLOONEY
GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK

PETER JACKSON
KING KONG

ANG LEE
BROKEBACK MOUNTAIN

FERNANDO MEIRELLES
THE CONSTANT GARDENER

STEVEN SPIELBERG
MUNICH

Vistos como uma antecâmara dos Óscares, os Globos de Ouro serão atribuídos no próximo dia 16 de Janeiro.