quarta-feira, 9 de novembro de 2005

10 discos de relance




Miri Ben-Ari - The Hip-Hop Violinst (6/10)

www.miriben-ari.com
A violinista israelita Miri Ben-Ari vem provar que o género hip-hop não é invulnerável à experimentação instrumental. A menina bonita fez-se rodear de alguns nomes consagrados (Kanye West, Scarface e Akon, entre outros) e embrulhou o discurso em atrevimentos de violino. Curioso, mas pouco mais.
(Universal, Agosto 2005)




Queenadreena - Butcher & The Butterfly (7/10)

www.queenadreena.com
Katie Jane Garside é uma rebelde. Ela e Crispin Gray são a alma do quarteto Queenadreena. A proposta é um rock cru, com saudades da garagem e que aceita influências tripartidas: Iggy Pop, P.J. Harvey e Nine Inch Nails, em partes iguais. O resto é uma substância musical sensual, áspera e inquietante.
(One Little Indian, Outubro 2005)





Stephen Fretwell - Magpie (7/10)

www.stephenfretwell.com
O inglês Stephen Fretwell mostra, no primeiro longa-duração da sua carreira, um som outonal e de cariz profundamente melancólico, num embalo folk que, pelo jeito intimista e essencialmente acústico, traz à memória a referência presente de Bob Dylan. Uma pequena preciosidade de um compositor promissor.
(Fiction, Novembro 2004)


Minotaur Shock - Maritime (6/10)

www.minotaurshock.com
Segundo registo de David Edwards, Maritime é uma jornada instrumental colorida e com uma orgânica jubilosa a que só parece faltar um acrescido ajuste melódico e a concretização de um rumo. Um pouco de Art of Noise, de Aphex Twin ou mesmo dos Boards of Canada não chega para salvar o disco da mediania.
(4AD, Agosto 2005)

Posto de escutaMuesliVigo BayHilly



I Am Kloot - Gods and Monsters (5/10)

www.iamkloot.com
Eles são de Manchester e assumem essa naturalidade britânica na concepção musical que subscrevem. Recorrendo à fórmula gasta em trabalhos anteriores, os I Am Kloot parecem ter perdido o pendor original das suas composições. E com isso podem desviar-se do pelotão da frente da pop alternativa do Reino Unido.
(Echo, Abril 2005)




Gogol Bordello : Gypsy Punks : Underdog World Strike (7/10)

www.gogolbordello.com
Naturais da Ucrânia, os Gogol Bordello fazem um debochado choque de culturas: combinam a alma amotinada do punk-rock com a festividade dos violinos e acordeões da música cigana dos Balcãs. Depois, os auto-proclamados ciganos punk fazem tudo com uma dose sublime de sátira e surrealismo. O resultado é tão folgazão e zombeteiro que até suplanta a exibição graciosa do generoso bigode do vocalista Eugene Hütz...Pode não ser genial, mas é imperdível.
(Side One Dummy, Agosto 2005)




Sinéad O'Connor - Throw Down Your Arms (7/10)

www.sineadoconnor.com
No primeiro álbum de estúdio desde a retirada (anunciada há três anos) da indústria discográfica, a irlandesa apossa-se de uma dúzia de clássicos dos cânones reggae e toca-os ao de leve, com a reverência que os originais dos Burning Spear, de Lee "Scratch" Perry e de Peter Tosh merecem. Na voz de Sinéad, temas como "Door Peep" (de Winston Rodney, dos Burning Spear) e "Curly Locks" (de Peter Tosh) provam como uma boa canção nunca morre. E como Sinéad será sempre diferente.
(Rocket Science, Outubro 2005)




Elizabeth Anka Vajagic - Nostalgia/Pain [EP] (6/10)


Surgido como um complemento ao álbum Stand With the Stillness of This Day, este EP é mais abstracto mas mantém o tónico meditativo que a voz de Vajagic impõe; a percussão marcha e as guitarras lamentam-se, desenhando paisagens sonoras de profundidade poética e retiro. Contendo 3 composições, duas delas acima dos dez minutos, em jeito de prédica esparsamente musicada, este mini-álbum é solene e merece ser perscrutado, mesmo que traga dor ou nostalgia.
(Constellation, Maio 2005)




Dr. Frankenstein - Crime Scenes and Murder Songs (7/10)

www.dr-frankenstein.com
No sítio oficial, o quinteto luso assume o fascínio pelos filmes de série B, pelo surf, pelo rock'n'roll e rock de garagem. Andam há onze anos nisto e este é o terceiro álbum. A guitarra é aqui a voz principal de composições ao estilo de uns Shadows reconvertidos a um universo James Bond com miúdas loiras de peitos fartos, em bikini, brilhantina no cabelo, muitas ondas e espírito relax. Junte-se-lhes talento e ousadia (os rapazes até repescam um tema dos Madredeus!) e temos um projecto nacional com méritos para descobrir.
(Musicactiva, Setembro 2005)

Depeche Mode - Playing the Angel ( 7/10)

www.depechemode.com
Dave Gahan, Martin Gore e seus pares traçaram um percurso sólido que fez dos Depeche Mode uma referência do electropop, nomeadamente depois da edição de Violator (1990). Neste novo trabalho, a banda recupera o preceito sintético desse disco e constrói um dos trabalhos mais sólidos de uma carreira com vinte e cinco anos. Depois de alguns tiros ao lado e de uma certa letargia criativa, os Depeche Mode estão de volta. E mais fidedignos.
(Mute, Outubro 2005)

Jarboe em Famalicão

Grande Auditório da Casa das Artes de Famalicão, 2 de Novembro de 2005

Jarboe é uma das mais proeminentes figuras do mundo da música alternativa americana. Dizer-se que ao lado de Michael Gira foi voz dos Swans, é já por si dizer-se muito. Exuberante e provocante, é a sua natureza. Com um passado tão díspar como o seu, entre o catolicismo da mãe e o facto dos pais terem sido agentes do FBI, Jarboe sempre foi polémica. As suas actuações já tiveram cerimónias com manuseamento de cobras e práticas sexuais menos ortodoxas. Deste cocktail explosivo resulta uma mulher multifacetada e inesperada. Prolífera na criação musical e indiferente a quaisquer barreiras, Jarboe busca o que outros não ousam sequer tentar. A título de exemplo, o álbum editado em 2003, em conjunto com os Neurosis, estabeleceu-se como um marco no seio do metal alternativo.

Senhora de uma voz versátil, Jarboe é capaz de encarnar personagens diversas. Tímida, sensual, colegial, demoníaca, sedutora, sexual...Jarboe é tudo isto e muito mais! Dor física e espiritual, reencarnação e religião, profanação e comunhão fazem parte do seu léxico!

A 14 de Setembro de 2002 Jarboe visitou o nosso país num concerto mais do que fabuloso. O Auditório de Serralves foi incendiado com a sensualidade de cinquentona intrépida. E ela ainda não editara com os Neurosis. Os arrepios eram mais que muitos. O concerto foi inserido num ciclo sobre sexualidade. Foi infalivelmente erótico!

Mas há muito mais no sexo do que o simples orgasmo. E o concerto de Famalicão teve de tudo.

Pré-preliminares: Nic Le Ban, guitarrista que acompanha Jarboe em palco, deu-nos cerca de 15 minutos de composições suas, em jeito de songwritter. Devia ter ficado quieto, é um facto! Material daquele não aquece ninguém, pode é servir para adormecer!

Preliminares: se me disserem que uma introdução não deve ter mais de 2 a 3 minutos, eu pergunto: os preliminares não podem durar cerca de 15 minutos?

Início do acto: a bela Paz Lenchantin (A Perfect Circle, Zwan, recente colaboradora de Entrance) entra em palco agarrada ao seu baixo. Jarboe segue-a e senta-se. Em jeito de meditação parece iniciar um ritual de cerimónia. Nesse momento, a doce e bela Paz acariciava-nos os ouvidos com as notas perfurantes do seu baixo.

O primeiro acto: a restante banda que acompanha Jarboe (Phil Petrocelli e Mike Rollins nas baterias, Nic Le Ban na guitarra) acomoda-se no palco e, de costas para o público fazem uma contrição em silêncio. Depois disto, nada será igual! O concerto não tem regras estabelecidas, é uma espécie de queda em espiral, em ritmos tribais, rumo à face profana da religiosidade.

Sodomia: duas baterias debitam invariavelmente sons de agressividade e violência em dose q.b.. Jarboe gatinha pelo palco. Senta-se em frente ao público e coloca-se no meio dele, em modos provocatórios. É tempo de sentir arrepios na espinha, como uma antevisão ou uma incontrolável expectactiva do que possa acontecer. A senhora não violentou sexualmente ninguém. Preferiu deitar-se numa cadeira e contorcer-se, tal e qual uma profissional do metier

Masoquismo: perto do final Jarboe concorre com a velocidade das duas baterias. Verticalmente erecta, debruça-se e faz um headbanging perfeito capaz de arrefecer a sala com o efeito ventoinha. Depois, a cantora propõe-nos uma nova modalidade, o “armbanging”.

Coito interrompido: durante o concerto as pausas (longas e sucessivas) quebraram o ritmo fervilhante dos temas. Pior do que isso, Nic Le Ban revelou-se um empata. O seu registo foi pobre. O músico consegue mesmo um feito desrespeitoso: rebentar uma corda e só voltar ao palco depois de quase gastar o tempo suficiente para ir comprar outra! Os outros elementos da banda, exceptuando a eficiência de Lenchantin, dão sinais de pouco entrosamento (ou desinteresse?). A própria Jarboe pode ser mais excitante. Ela sabe-o. Naquele dia, a espontaneidade e a irreverência cederam lugar ao um profissionalismo frio que, mais do que penalizar Jarboe, desgosta os seus admiradores.

Carinho: no encore, Jarboe dedica “Mother/Father” a Michael Gira.

Beijinhos: Jarboe, para entrares no metal, traz contigo os Neurosis!

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Black Dice - Broken Ear Record

Apreciação final: 7/10
Edição: DFA/Astralwerks, Setembro 2005
Género: Noise/Electrónica Experimental
Sítio Oficial: www.blackdice.net/dicemain.htm








Os Black Dice são iconoclastas por excelência. E fazem alarde dessa condição, decompondo com argúcia os formalismos da indústria musical. Para eles não há axiomas nem regras que não mereçam ser desmontados, detalhe a detalhe, e (re)arrumados em feições extravagantes, como se virados do avesso e mostrados num novo estado bruto. Assim é a música deste trio de Brooklyn: maquinal, polinsaturada, inveterada e solta. Broken Ear Record alinha por esse diapasão, tem a presunção grandiosa de ser cósmico mas aceita, ironicamente, um microcosmo apocalíptico quase tribal. À electrónica desregrada e orgulhosa das imperfeições e intermitências, juntam-se ruídos incógnitos e rumores ao serviço de uma litania encriptada. Dessas ladainhas sintéticas provém uma substância musical invulgar, com palpitações vanguardistas e experimentais, talvez mais ritmada do que nos trabalhos anteriores do grupo. Esse incremento rítmico não tira crédito ao selo Black Dice e permite uma harmonia de formas mais simpática para ouvidos duros. As composições são mais intuitivas e, sem perderem a bizarria e o modernismo característico do colectivo americano, sublinham a abstracção do electro noise. E como obra do género noise, Broken Ear Record é um abundante jogo de sensações, uma adivinha maravilhosa, um jorro anormal de fluidos sonoros.

Quem espera um disco acessível, esqueça! Nunca foi essa a premissa dos Black Dice. Eles subscrevem o psicadelismo e a ruptura, combinam futuro e antiguidade e alcançam objectivos (e objectos) inauditos. Broken Ear Record é uma dessas causas. Não é um disco, é um laboratório. Por isso, não é tão inteiro quanto outros trabalhos dos Black Dice e divide-se em contorcionismos penalizadores: ora se apresenta criativo e robusto, ora se expõe em hesitações retóricas. Ainda assim, o novo rebento dos Black Dice é um bom ponto de partida para desconhecedores dos nova-iorquinos. Os fãs antigos não vão descobrir nada de substancialmente novo. Mas é Black Dice.

Sapatos

Clique na imagem para ampliar

Van Gogh, Shoes, 1888

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Murcof - Remembranza

Apreciação final: 7/10
Edição: Leaf, Setembro 2005
Género: Electrónica Minimalista/Experimental
Sítio Oficial: www.murcof.com








Murcof é um mexicano de Tijuana. Ninguém o diria, não há na sua música nenhum prenúncio dessa naturalidade. A dádiva musical de Murcof não venera a tradição mariachi, nem o espírito vadio da música tradicional mexicana. Aqui, o projecto é radicalmente diferente. As criações de Fernando Corona - assim se chama o senhor - seguem a cartilha da electrónica minimalista. A orgânica aparentemente simples das composições é um fluido musical que conjuga elementos sintéticos, verdadeiros cicerones da melodia e marcadores do compasso das faixas, e incursões superficiais no domínio da música clássica. Desta junção, quase sempre conseguida com lucro, resulta um composto estável, de grandeza atmosférica e alma escurecida. A música de Remembranza é um crescendo de paixões: por vezes, desenha-se na mente, espectral e enevoada, com a frágil leveza de um fantasma que baila na vibração de um piano; noutros momentos, essa dimensão incorpórea, quase sobrenatural, amplia-se a si mesma, os ruídos nocturnos ecoam e a música toma o corpo do medo, faz-se mais intimidativa. As melodias redundam, assim, num sublinhado da face tétrica das fantasias, uma espécie de anátema anti-existencialista, sem forma decretada, que cruza com erudição, os universos sintéticos dos Pole, de Aphex Twin, Brian Eno ou Ulrich Schnauss com a inspiração inventiva de Gyorgy Ligeti ou Arvo Part. Entre esses dois mundos, Murcof maquina um simulacro de guerra fria, o palco assombrado de experiências acústicas de cariz fílmico, como etapas da percepção de um mundo sensível.

Boa parte da energia activa deste Remembranza deriva da sua estranheza polimórfica e tensão ressonante que, se não dominam de imediato o ouvinte, o impelem a o confronto com o medo, pelo constrangimento descontrolado da curiosidade. Ter medos é uma inevitabilidade da condição humana. Murcof sabe-o e expia as suas inquietações numa fórmula musical que nos chama para um dédalo denso e medonho. Vamos esquivar-nos a este gesto vanguardista ou o a curiosidade pelo mistério é mais forte?

Posto de escutaRecuerdosRiosCamino

Meira Asher e "Open Cuts" em Famalicão

MEIRA ASHER + GUY HARRIES (ISRAEL/HOLANDA)
12 Novembro Sábado 22.00
Grande auditório, Casa das Artes (Famalicão)
Entrada: 5 euros (Preço único)
www.meiraasher.com

Também em:
Lisboa (ZDB) – dia 10
Guarda (Teatro Municipal) – dia 11

No dia 12 de Novembro, Famalicão vai presenciar um dos momentos mais marcantes de 2005, com a presença da Israelita Meira Asher, acompanhada pelo Holandês Guy Harries, numa das suas raras aparições ao vivo.

Ao escutarmos as composições de Meira Asher comodamente em casa, podemos sentir incómodo pelas imagens que nos sugerem dor, ao sermos obrigados a projectar na mente um filme para a “banda-sonora” cruel que ouvimos. As composições de Meira Asher têm, por isso, um impacto maior ao vivo, uma vez que, ao invés de nos podermos desviar para cenários menos violentos que aquele que a música nos induz, somos obrigados a sentir fisicamente a experiência da dor, do sofrimento, sendo incapaz o espectador de ficar alheio pela cumplicidade visual a que está obrigado. Uma experiência única e imperdível, capaz de mexer com os nervos dos mais incautos, mas que não permite indiferenças perante a brutalidade e crueldade... da realidade!

Quem é Meira Asher?
Nascida em Israel, Meira Asher tem desenvolvido, ao longo das últimas duas décadas, um corpo de trabalho altamente politizado, de denúncia, crítica e retrato de situações catastróficas que a humanidade vai desenhado para si própria. O percurso educativo de Asher pauta-se pela interdisciplinaridade, que se reflecte de forma clara no seu trabalho, não raras vezes também ele intertextual e disciplinar. Estudou percussão entre Varanasi, Jerusalém, Telavive, São Francisco, Akra, Anyako e Tamale; sonologia em Den Hague; percussão tradicional, dança e voz de várias tribos no Gana; artes interdisciplinares em Los Angeles ou terapia musical em Tel Aviv. Leccionou uma multitude de matérias, em diversas plataformas, desde trabalho com crianças autistas até cantares tradicionais na Escola de Jazz Rimon em Israel. Tem também um vasto passado na música para dança e teatro, bem como nas artes visuais – nomeadamente no formato vídeo.

No que respeita a música gravada, Asher estreou-se com dois álbuns editados pela Crammed, «Dissected» (1995) e «Spears Into Hooks». Trata-se de dois dilacerantes documentos, onde a dor, os conflitos bélicos israelitas, o pavor e a angústia são manifestados com total abertura e entrega, numa instrumentalização electrónica moderna com as formas primitivas do folclore, plenas de aspereza, secura e dor.

Depois de em 2002 ter apresentado o disco/performance «Infantry», Meira Asher regressa em 2005 com o espectáculo (estreado o ano passado em Gent) o disco «Face_WSLOT – Woman See [sic] Lot of Things», que apresenta nesta ocasião. Prestes a ser lançado em formato CD+Livro, trata-se de 17 composições criadas a partir de «vozes, histórias e ambientes sonoros» de três mulheres, ex-soldados, que combateram, ainda crianças, na Serra Leoa. O livro contextualiza o «background» e as perspectivas de vários autores sobre o assunto, incluindo ainda depoimentos destas mulheres e documentação acerca da parte do projecto respeitante à instalação. Os lucros provenientes da venda deste lançamento irão directamente para apoio educativo de terceiro grau para mulheres da Serra Leoa.

Discografia seleccionada de Meira Asher:

ÁLBUNS
Face_WSLOT (cd-book) - Bodylab-Auditorium (2004)
Infantry - Sub Rosa (2002)
Spears into Hooks - Crammed (1999)
Dissected - Crammed (1997)

EP’S
Face_WSLOT - Bodylab/Auditorium (2004)
SIDA (vinyl) - SSR (1997)

COMPILAÇÕES
An Anthology of Noise and Electronic Music - Vol. 2 - CD2 track 3. “Torture Bodyparts” (Meira Asher and Guy Harries) - Sub Rosa (2003)
Drop 5.1 (2000) - Track: 14. “My Last Granny” (Meira Asher vs. Bio Muse) - Materiali Sonori (2000)
Balkans Without Borders - Track: 16. “Tiring Night” (Meira Asher with Kocani Orkestar) – Omnium (1999)
World Music: Africa, Europe and the Middle East - Vol. 1 - Track: 12. Give Peace (Meira Asher) - Rough Guide (1998)

PARTICIPAÇÕES
Dar Beida 04 - Track: 6. “To the goddess” (Maha aka Meira Asher) - Barraka el Farnatshi (2001)
Frigg Brecht - Frigg feat. Meira Asher - (1999)- Knitting Factory

Discografia seleccionada de Guy Harries:

ÁLBUMS
Infantry - Sub Rosa (2002)
The Thirteen Bar Blues – Artist: Houtkamp's Pow 3 - X-OR (2003)

COMPILAÇÕES
An Anthology of Noise and Electronic Music - Vol. 2 - CD2 track 3. “Torture Bodyparts” (Meira Asher and Guy Harries) - Sub Rosa (2003)
The Composer's Cut: Maurizio Marsico - Track ...: “Song from 'Endings” (performed by Anna Levenstein and Guy Harries) - Auditorium Edizioni (2003)

Posto de escuta:
Psalms19
Shahid1
Shahid2
Nr
Infantry

Concerto para apreciadores de:
Lydia Lunch
Diamanda Gálas

Novo colaborador

A partir de hoje, o apARTES contará com mais um colaborador para a divulgação de eventos. O Rui Ribeiro, autor do blog Som Activo aqui aparecerá com notícias e reportagem de concertos e outros eventos de relevo.

Bem-vindo, Rui.

Spring Street

Não me venham com histórias. Que a vida
é do domínio espiritual e por isso
bem superiores os bens do espírito.

Quer ser útil, cuidar de enfermos,
o teatro, a pintura, livros, a música,
desporto, cinema, o grão-dinheiro...
esse ânimo enchem de delícias.

Não me venham com histórias infantis.

O deleite supremo é o orgasmo.
Os outros são apenas sinais leves,
sugestões pobres do prazer
que com moças na cama se consegue

nelas ejaculando como um deus.
Para outros esses gostos secundários.
Para mim o gozo intenso: a mulher

J.M.Fonollosa

P.S.: no livro Cidade do Homem : New York, o autor dedica um poema a cada uma das ruas daquela cidade americana.

domingo, 6 de novembro de 2005

Lightning Bolt - Hypermagic Mountain

Apreciação final: 8/10
Edição: Load, Outubro 2005
Género: Noise-Rock/Rock Experimental/Metal
Sítio Oficial: http://laserbeast.com








Um baixo irrequieto em alucinação ininterrupta, uma bateria frenética em voltagem descomedida, latejos maníacos e muito, muito, mesmo muito estardalhaço são os sinais dos Lightning Bolt. Nas cátedras musicais é vulgar chamar-se noise rock a (des)arrumações como estas. O ruído é, de facto, agente dominante e atira-se, incontinente, aos tímpanos do ouvinte; a distorção rude testa os limites do suportável e o compasso feroz das composições, numa lógica caótica de ritmo, faz desta edição uma experiência arriscada. Escutar Hypermagic Mountain é precipitar-se numa electrizante e abrupta espiral da mais crua alienação que o rock é capaz de produzir. Os Lightning Bolt são filhos bastardos da música, não seguem doutrinas mas fazem escola e declaram-no sem refreamentos. Brian Chippendal (bateria e voz casual) e Brian Gibson (baixo) exprimem-se numa orgânica visceral de dimensão quase épica. Sente-se, na urgência sufocante das composições, uma estupefaciente tensão; ela é o veículo indispensável à catarse abstrusa da dupla americana. Enquanto o baixo é um dínamo incessante e debita padrões austeros numa passada incansável, a bateria ajuda ao furacão psicadélico, qual metrónomo convulso. Ruído e velocidade em partes iguais.

Hypermagic Mountain é a quarta revelação insana desta dupla. Ortodoxia é coisa que não cabe na montanha delirante de Chippendal e Gibson. Eles preferem o improviso híbrido, a rebelião contra a regra, o devaneio impulsivo, a coloração em hipérbole, o ângulo agudo...Tal como a ilustração da capa, a música dos Lightning Bolt é uma amálgama de formas e conceitos, uma embrulhada de tons e matérias. Esta receita não é simpática para ouvidos preguiçosos, mas fará as delícias dos amantes das descargas iterativas de adrenalina dos Wolf Eyes ou dos Orthrelm. Se tem mente aberta para assistir, em segundos, à aniquilação impiedosa dos conceitos clássicos de música e de álbum, só falta ter tímpanos resistentes.

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

Vida de Casado

Clique na imagem para ampliar

Roger de la Fresnaye, Married Life, 1912

Agradecimentos e novo colaborador

Saudações especiais a todos os frequentadores deste espaço.

Escrevo-vos na condição de criador orgulhoso, qual pai babado, que vê expandir-se a cada dia o trabalho iniciado há um ano (o apARTES foi criado a 15 de Outubro de 2004). Longe das minhas perspectivas mais optimistas estaria o impensável número de mais de doze mil visitantes (!) nestes 365 dias. Agradeço a todos os que por aqui passam (e passaram) e que tomam esta casa virtual como sua, aqui depositanto opiniões, comentários e sugestões. A minha palavra de apreço acrescido às pessoas que comigo decidiram abraçar esta ideia: ao Bardo, ao Crítico, à Joaninha Voa Voa, o meu sincero agradecimento.

Aproveito para apresentar, no quadro do alargamento da oferta do apARTES, um aliado extra nestas coisas da blogosfera. A partir de hoje, o Sunday Morning vai aparecer por cá, para oferecer breves instantes de poesia. António Gedeão é o baptismo do Sunday Morning no apARTES. Bem-vindo! Para os mais curiosos, fica um convite para o blog pessoal do Sunday Morning: http://facingthewind.blogspot.com.

Espero anunciar outras novidades num curto espaço de tempo. Até lá, o apARTES será o que sempre foi: um espaço de apreço por todas as formas de arte, com a música no centro do culto.

Um espaço vosso.
Obrigado.

Poema do futuro

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
lê, e sorri.

Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.

António Gedeão

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

10 discos de relance



Iron & Wine + Calexico - In The Reins (7/10)

Mini-álbum com sete canções originais de Sam Beam (Iron & Wine) que, com a excelsa guarda de honra dos Calexico, sintetizam o melhor de cada um dos projectos. Combinação a repetir. Tal como as audição atenta do disco.
(Overcoat, Setembro 2005)



Lucinda Williams - Live at Fillmore (7/10)
Primeiro registo ao vivo da cantora country-rock, apresenta-se no formato de CD duplo, com um alinhamento de 22 temas, gravados em S. Francisco e que percorrem os mais de quinze anos de estrada de Williams.
Lost Highway, Maio 2005)



Grandaddy - Excerpts From the Diary of Todd Zilla (EP) (5/10)
Os Grandaddy estão de volta num EP ligeiramente mais eléctrico, com pitadas q.b. de psicadelismo mas sem acrescentar nada de relevante ao catálogo do colectivo californiano.
(V2, Setembro 2005)



Taylor Deupree - Every Still Day (7/10)
Texturas de electrónica minimalista servem de fundo a um universo de candura que apela aos sentidos, seja no canto de um anjo (seguidor da cartilha dos Sigur Rós?) ou de uma hipnótica sereia. Um desafio na forma de música sintética.
(Noble, Junho 2005)


Heimir Björgúlfsson & Jonas Ohlsson - King Glitch (6/10)
Acoplagem de elementos electrónicos de origens diversas e mistura hábil com ruídos do quotidiano é o segredo. A cadência é boa, o tom sombrio e irreal compõe amostras borbulhantes de um jogo vanguardista em que nem todos os ouvidos arriscarão.
(Cronica/Matéria Prima, Agosto 2005)



Yob - The Unreal Never Lived (8/10)
Metal apocalíptico e iconoclasta? Convulsões inopinadas e reacções peristálticas? O rótulo pouco importa. Quatro composições (52 minutos), muita distorção a esconder a voz, padrões doom metal, pulsações altas e uma irresístivel abordagem abstracta para fãs de High on Fire, Isis ou Melvins.
(Metal Blade, Agosto 2005)



The Coral Sea - Volcano and Heart (6/10)
Indie pop com uns toques de elitismo (delírios de Radiohead ou Muse?) num registo que raramente escapa à monotonia e cuja métrica melancólica tem melhores ofertas na concorrência.
(Red Clover, Julho 2005)


Soulfly - Dark Ages (7/10)
Regresso do ícone do metal Max Cavalera no trabalho mais pesado sob o epíteto Soulfly e a louvar as lembranças do passado. O traço idiossincrático do ex-Sepultura é indelével e este Dark Ages é mais uma adição oportuna ao património do metal e de um dos seus porta-vozes mais relevantes.
(Roadrunner, Outubro 2005)



Sagas - Rostu Limpu (7/10)
Primeiro registo a solo de um músico experimentado nas matizes do hip-hop - integrou o projecto Micro, com Nel'Assassin e D-Mars - assumindo neste trabalho a musicalidade dos ritmos africanos, seja no crioulo das palavras ou na métrica das beats. Este é o rosto de Sagas. Vale a pena escutar.
(Loop Recordings, Agosto 2005)


The Juan Maclean - Less Than Human (7/10)
Electrónica dançável e mecanizada, vocalizações adulteradas, influências da disco e da funk. O resto é bizarro, invulgar, cativante e imprevisível: música de dança a explorar outras escolas.
(DFA/Astralwerks, Agosto 2005)


Parapente

Clique na imagem para ampliar

Título: Parapente
Autor: Marcelo Silva de Oliveira
Fonte: www.olhares.com/bugre

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

L'Ego - Ladrões do Tempo

Apreciação final: 7/10
Edição: Thisco, Setembro 2005
Género: Sampling
Sítio Oficial: www.thisco.net








Lançada recentemente pela etiqueta lisboeta Thisco, esta edição comporta a banda sonora da peça Ladrões do Tempo, apresentada no ano passado pela companhia sineense Teatro do Mar. As peças musicais são da autoria do experimentalista L'Ego e integraram as exibições de teatro de rua daquele espectáculo multimédia. Abrangendo uma diversidade de estilos, Ladrões do Tempo é, antes de mais, um edifício sonoro feito de colagens e manipulações. A substância musical de L'Ego é neste trabalho, como noutros, um tecido electrónico obscuro e denso, uma fusão sinérgica de classes sónicas, um desafio de timbres manobrados como bonifrates sob o jugo de um fio imperceptível. A outra ponta desse cordel invisível está nas mãos (e na mente) de L'Ego, versátil operário de sintetizadores e manobras de sampling, que molda uma massa ecléctica feita de sons desconexos, pequenos fragmentos de jazz, de música tribal, de house, também do som inato de uma guitarra, de um piano ou de um sopro.

As composições são desembaraçadas, sugerem-se nos caprichos do acaso, numa toada quase improvisada, qual peça de artesanato castiço e sem impurezas. A fórmula de crescendo das faixas, sempre rumo a um clímax provável (nem sempre materializado...), aceita as latitudes do lounge e torna a audição de Ladrões do Tempo uma sugestão acertada para uma noite no café-bar. Num disco sobre salteadores, L'Ego dá forma corpórea, às escondidas, a um furto dos armários do tempo. E se os proprietários legítimos destes sons (Autechre, Coil, Dany Siciliano, Hector Zazou, La Fura dels Baus, Robert Fripp, To Rococo Rot, entre outros) não apresentam queixa, então beneficiemos com o produto do roubo. Deixemos à quadrilha destes Ladrões do Tempo o ensejo de nos surripiarem o precioso tempo, escutemos o disco e não esqueçamos: o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem...

Procure na grafonola as faixas "Metropolis" e "Aberto 24 Horas"

terça-feira, 1 de novembro de 2005

The Fiery Furnaces - Rehearsing My Choir

Apreciação final: 5/10
Edição: Rough Trade, Outubro 2005
Género: Indie Rock/Experimental/Spoken Word
Sítio Oficial: www.thefieryfurnaces.com








É suposto que uma reunião familiar redunde no reforço da empatia e dos vínculos pessoais dos membros de um clã, se se trata de uma família sem disfunções. Aparentemente é esse o caso dos Friedberger, afinal os irmãos Matthew e Eleanor andam a par, nestas coisas da música, há um punhado de anos. Pelo caminho, escreveram dois álbuns (e um EP) que delinearam um perfil musical inventivo e algo revivalista. Neste terceiro trabalho, os manos quiseram (ou assim parece...) construir um álbum conceptual, partindo precisamente da afinidade musical e da ascendência da avó, Olga Sarantos, antiga directora do côro de uma igreja ortodoxa grega, algures no Illinois. À senhora é reservado o ensejo de figurar entre as vocalizações deste Rehearsing My Choir - também tem honras de capa - e de partilhar com o ouvinte algumas memórias da Chicago dos anos 50, através do registo musical nada banal dos netos. E se a banalidade nunca esteve nos trabalhos anteriores dos Fiery Furnaces, que dizer deste terceiro álbum? O fundo musical é declaradamente mais experimental, não abdica dos inevitáveis picotados a piano e dos vultos desenhados a guitarra mas embrulha-os numa dimensão teatral, a vibrar entre a exuberância e o recato, em flutuações dispensadas de compromisso. Rehearsing My Choir é assim mesmo, um disco sem ajuste a vínculos, sem preconceitos e com a vitalidade própria de canções emancipadas. Serão mesmo canções? Neste trabalho, o discurso sobrepõe-se à melodia, como que se desobrigando dela com astúcia. As vozes de neta e avó fazem um jogo, são peões mensageiros que confundem o tempo, numa conversa sardónica (nem sempre simbiótica) entre passado e presente que se empoleira em alicerces musicais prolixos e quase cacofónicos, cortesia da produção versátil de Matthew.

Rehearsing My Choir é um álbum bizarro e é corrompido pelas suas incongruências: as breves ocasiões de esplendor musical são ofuscadas por um registo spoken word que, na voz andrógina e profunda de Sarantos, chega a tornar-se maçador e corrompe a performance de Eleanor. A dinâmica musical do disco é controversa, parecerá bem aos adeptos da originalidade e do abstraccionismo mas decepcionará os indefectíveis dos The Fiery Furnaces que, percebendo em Rehearsing My Choir a espontaneidade e o virtuosismo de outros títulos, não descobrirão neste disco a insinuante tentação das canções da dupla Friedberger. Porque Rehearsing My Choir assume a perversão e o arrojo experimental de as não ter. Aqui, a proposta musical é como o ensaio tosco de uma trupe de teatro de rua, de trovadores de histórias musicadas com o secreto sonho de um dia verem a luz da Broadway. E, trazendo à memória outros álbuns, não deve ser isso que os The Fiery Furnaces procuram...

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Pas de Deux

Clique na imagem para ampliar

Título: Pas de Deux
Autor: Maria Paula
Fonte: www.olhares.com

domingo, 30 de outubro de 2005

My Morning Jacket - Z

Apreciação final: 8/10
Edição: ATO/Badman, Outubro 2005
Género: Pop-Rock Alternativo/Country Alternativo
Sítio Oficial: www.mymorningjacket.com








A filiação do mundo musical dos My Morning Jacket à estética da velha escola country não se confina à voz nasalada (ao jeito de Neil Young) do epicentro criativo do quarteto, o vocalista/compositor Jim James. Mais do que isso, a disposição das canções do ensemble americano acolhe o traço classicista das mais marcantes raízes da música americana e conforma-as a normas regeneradoras, sem desprimor para as suas medidas originais. O fim não é a altercação com o passado, antes a restauração criteriosa de um género eterno. E os My Morning Jacket fazem-no, neste trabalho (o quarto da sua existência), com o apuro de uma arrumação pop sem pejo de chamar a si a reverberação do rock ou o serviço diligente das teclas, numa escrita cerrada, criativa e estilisticamente exuberante. Afora isso, há em Z um reforço da faceta experimental do grupo, particularmente notória no redimensionamento da abstracção das canções que, sem se tornarem evasivas, se desmultiplicam com fulgor e irreverência. O alcance dessas impressões é ilimitado: elas emancipam-se e sobejam além dos quarenta e poucos minutos do disco; ficam como que ressonantes, espiam-nos o âmago, seduzem-nos até a mais ínfima molécula, prendem-nos a consciência e enfeitiçam-nos irremediavelmente.

Z é um monumento musical que, além de invocar memórias indeléveis, deixa o selo distintivo de uma banda capaz de urdir uma fibra musical simultaneamente contemporânea e clássica, com canções adultas e que humildemente se empossam dos paradigmas pop dos R.E.M, dos U2, dos Mercury Rev, dos The Clash, de Mark Kozelek e de Neil Young, entre outros, para os reconverter a um dialecto alternativo e espiritual. Neste místico alfabeto, ao invés de ser o ómega, talvez a letra Z seja apenas o começo...

Parafusos Voadores

Clique na imagem para ampliar

Título: Parafusos Voadores
Autor: Daniel Pitta
Fonte: www.olhares.com/dpitta

sábado, 29 de outubro de 2005

Ladytron - Witching Hour

Apreciação final: 7/10
Edição: Rykodisc/Universal, Outubro 2005
Género: Electrónica/Dream Pop
Sítio Oficial: www.ladytron.com








O terceiro registo de originais da carreira do quarteto Ladytron (no caminho ainda encontraram tempo para um disco de versões) é o mais preenchido cartão de visita de Helen Marnie, Mira Aroyo, Daniel Hunt e Reuben Wu. A asserção musical é análoga aos outros discos do colectivo britânico e assenta fundamentalmente numa mescla equilibrada de matérias sintéticas, sons instrumentais crus e vozes (femininas) num tom identicamente lamentoso e alucinado. A cadência vertiginosa das composições, ao jeito de uma espiral electrónica sem tempo ou espaço, apoia-se na afeição mesmeriana das vocalizações; o resto provém da devoção a algumas referências musicais do grupo - a música electrónica das duas últimas décadas (a disco incluída), a proposta new wave, house, techno e a porção certa de experimentalismo - e do trejeito costumeiro da sua assinatura. Há ainda um abeiramento prudente a um discurso dream pop que não cai mal nas formas dos Ladytron e que dilata o alcance melodramático e negro das composições, tornando-as mais complexas, sem prejuízo do seu flanco encantatório.

Witching Hour é a resposta a um hiato de três anos sem gravações e afirma um som virente (e convincente) na altura mais própria. Se é coisa certa que este disco estaria exposto, noutra conjuntura, a desconfianças e ao rótulo de datado, com a renascença da electroclash,Witching Hour adquire um sentido de oportunidade extra e destaca devidamente a valia desta banda. A bem da cena musical electrónica, a gestação prolongada deste álbum parece também ter trazido (com surpresa?) aos Ladytron um remate válido para os trabalhos manuais na mesa de mistura, acrescentando carne, sangue e casta à fórmula esqueletal do passado. Agora os Ladytron têm pedigree. E, mesmo sem inovações maiúsculas em Witching Hour, nós agradecemos.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

O dia depois

Clique na imagem para ampliar

Edvard Munch, The Day After, 1894-95

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Princess Superstar - My Machine

Apreciação final: 7/10
Edição: !K7, Setembro 2005
Género: Hip-Hop/Dança/Electrónica
Sítio Oficial: www.princesssuperstar.com








A nova-iorquina Concetta Kirshner (a.k.a. Princess Superstar) alia uma voz amotinadora e indomável a uma atitude hedonista e cinicamente sensual. A divisa musical de Kirshner é um rap afrontoso e praguento, apimentado com algumas obscenidades e apoiado num tecido musical electrónico (não fosse este um lançamento da !K7), com batidas mecanizadas, compassos devidamente estruturados e sintetizadores adulterados. Nesta edição, Princess Superstar estendeu as fronteiras das suas raízes hip hop e concebeu um álbum conceptual que, mais do que a mensagem, se impõe ao auditor à custa de um sentido de humor refinado que ajuda a camuflar a agressividade explícita das conotações sexuais e demais excessos das letras. E que nos conta Kirschner? O ano é 2080 e o entretenimento no planeta Terra cinge-se a uma única celebridade (a própria Princess Superstar...) e à dezena de milhar de clones subservientes. A rebelião dos clones (os duplicants) e o declínio da estrela egocêntrica serve de mote para questionar a futilidade do estrelato e do culto da fama, a degeneração da identidade, a frivolidade da ostentação e a fruição vã do estatuto. Numa hora e dez minutos, Kirschner maneja habilmente o simbolismo de uma sociedade imaginada (a utopia de algumas celebridades presumidas da cena musical actual?) e deixa uma declaração anti-presunções da cultura pop.

My Machine é tudo menos um álbum ortodoxo. É música de dança, é hip hop, é electrónica, é spoken word, é electro-rock, é house, é punk; é também uma (des)construção de mitos, de limites ou convenções. O lendário Arthur Baker supervisiona a produção de um conto distópico de ficção científica que, nas palavras chocantes - também humoradas - de Kirschner, se aproxima do registo orgânico dos Fischerspooner, dos sussurros de Missy Elliot ou da infâmia de Peaches. Mas há mais para descobrir em My Machine. Atreva-se a divagar num futuro ambíguo onde a estrela de Princess Superstar cintila. Com este brilharete, não é já altura de ela merecer a vénia do presente? Mas sem clones...

domingo, 23 de outubro de 2005

Explosions in the Sky - How Strange, Innocence

Apreciação final: 6/10
Edição: Temporary Residence, Outubro 2005
Género: Pós-Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.explosionsinthesky.com








São texanos de gema e servem-se dos instrumentos para insinuar estados emocionais, em maneiras semelhantes às dos escoceses Mogwai ou dos canadianos Godspeed You Black Emperor!. Chamam-se Explosions in the Sky. As gravações contidas neste How Strange, Innocence foram produzidas um ano antes do primeiro disco do colectivo americano (Those Who Tell the Truth Shall Die, Those Who Tell the Truth Shall Live Forever, lançado em 2001) e não tinham ainda conhecido lançamento oficial. Escutar estas composições é ter o privilégio de olhar uma ecografia do embrião dos Explosions in the Sky e de perceber o que eles eram antes do reconhecimento conquistado nas esferas alternativas nos últimos dois anos. A orgânica em crescendo era já um denominador comum há cinco anos, as percussões em rupturas casuais e as linhas intrincadas do baixo já sustinham o discurso directo, espacial e hipnótico da guitarra. How Strange, Innocence é o fulcro essencial, a raíz primeira e o dogma maior dos Explosions in the Sky. Pode não ser excepcional, até se exprime numa linguagem um pouco redundante e/ou previsível, mas certifica o sentido de rumo e a amplitude técnica das interacções instrumentais que edições posteriores do quarteto texano viriam a enfatizar. Não sendo uma edição indispensável, How Strange, Innocence destina-se especialmente a fãs do grupo ou a melómanos curiosos.

How Strange, Innocence põe à vista os primeiros passos dos Explosions in the Sky nos campos silvestres do pós-rock. Dessas primitivas pegadas cambaleantes, com o mesmo embaraço inocente de um bebé que desperta para as suas funções mecânicas, haveria de crescer uma banda com uma assinatura inviolável e cuja marcha se faria firme. Com esta edição, o tempo faz marcha-atrás, mostra-nos as feições sonoras de uma novel criatura e torna-nos testemunhas do génesis dos Explosions in the Sky. Apetece descodificar estas eufonias como quem recorda, com fascínio, a primeira palavra no tartamudear de um recém-nascido. Enquanto não vem um novo disco, limpe-se o pó aos retratos do álbum de recordações. Porque o tempo, às vezes, volta atrás.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Formas Circulares

Clique na imagem para ampliar

Robert Delaunay, Formes Circulaires, 1930

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Wolf Parade - Apologies to Queen Mary

Apreciação final: 8/10
Edição: Sub Pop, Setembro 2005
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: http://wolfparade.cjb.net








Eles são quatro canadianos, vêm de Montreal e apresentam o primeiro longa-duração. Chegados à Sub Pop pela mão de Isaac Brock (o mentor dos Modest Mouse também assina a produção deste álbum), os Wolf Parade prometem sacudir o mundo indie à custa de alegorias rock que trazem à memória as referências óbvias da passada folk deliciosamente desengonçada dos Modest Mouse, do fervor sumptuoso dos compatriotas Arcade Fire, da incontinência criativa de Bowie e do intento melódico dos Pixies. Se a isso se une uma escrita com conta, peso e medida e uma produção que ajuda a colorir, sem desregramento, o tecido sónico do grupo, o efeito é um álbum digno de figurar no quadro de honra para este ano. Depois, os vocalistas Spencer King e Dan Boeckner dividem registos vocais recurvos, sublinhando a pose quase afrontosa do discurso dos Wolf Parade. Será que eles se dão conta? A tensão/excitação que nasce do som destes canadianos é feita de concomitâncias paradoxais: eles são a ferida e o lenitivo. Apologies to Queen Mary é capaz de agrilhoar o ouvinte, deixá-lo atado sem alegação para, de seguida, o libertar em afagos. E tudo isto é lançado aos ouvidos com a mesma simplicidade, numa toada simultaneamente primitiva (não há aqui sinais do rock de tempos idos?) e contemporânea, plena de substância, de fantasia e de desvario. Os Wolf Parade são corsários que roubaram e embriagaram (ou forçaram ao contacto com alucinogénicos?) o rock, que lhe emprestaram sintetizadores cortantes e timbres alucinados de piano e o converteram, com argúcia, a um circo de habilidades e surpresas. Apologies to Queen Mary é, em si mesmo, uma caixinha de surpresas, não de Pandora mas de Orfeu, um disco digno de ser ouvido repetidamente, tantos os segredos sob o seu resguardo.

Apologies to Queen Mary é um disco entusiasmante porque alterna entre o desatino extravagante e a razão consciente, com a mesma alvura e singeleza e sem perder o equilíbrio. Sem concessões, farto de espontaneidade e grandes canções, este desfile de lobos e as suas desculpas à rainha têm tudo para se tornar um vício. Vai uma aposta?

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Obeah

Clique na imagem para ampliar

Hans Hofmann, Obeah, 1961


Obeah é uma linguagem de feitiçaria voodoo afro-caribenha que pretende invocar o saber de uma ordem religiosa anciã e é comummente utilizada pelas tribos Ashanti da África Ocidental e da Jamaica. O códigos e a doutrina Obeah mantêm-se envoltos no mais enigmático ocultismo e o seu conhecimento é reservado a sociedades secretas e assume a prática de oblações e sacrifícios.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Boards of Canada - The Campfire Headphase

Apreciação final: 7/10
Edição: Warp, Outubro 2005
Género: IDM/Electrónica Experimental/Ambiente
Sítio Oficial: www.boardsofcanada.com








O universo da electrónica experimental, mais propriamente o sub-género a que se convencionou chamar IDM (Intelligent Dance Music), é normalmente confinado ao anonimato e poucos são os projectos musicais que escapam a essa regra. Entre os nomes mais reputados, ao lado de Aphex Twin, Autechre, Mouse on Mars ou Carl Craig, figura a dupla escocesa Boards of Canada. Michael Sandison e Marcus Eoin, depois dos aclamados Music Has the Right to Children (1998) e Geogaddi (2002), apresentam-nos o terceiro longa-duração do seu percurso, o segundo lançado pela Warp. O disco segue na peugada dos antecessores, seduzindo o ouvinte a arriscar-se em labirintos sonoros e, com a mesma plenitude subtil, joga com o subconsciente, expondo reminiscências da face mais íntima da alma. Nesse sentido, é um disco atmosférico e contemplativo e, como seria de esperar dos Boards of Canada, remete-nos para a quase-hipnose de uma noite de Outono e a interioridade despegada da melancolia. The Campfire Headphase é soturno mas não depressivo e exprime-se em texturas electrónicas elaboradas com a minúcia costumeira da dupla. O requinte e a completude das composições - traves-mestras do discurso dos Boards of Canada - não deslustram o passado do grupo, mesmo sem disfarçarem, aqui e ali, alguns atributos dejá vu. Nota de inovação merecem as aparições da guitarra que, incorporadas na orgânica electrónica do disco, não mais se escondem em habilidades de estúdio e se afirmam mais cruas e assertivas (ouça-se a faixa "Chromakey Dreamcoat", um dos pontos altos do álbum).

A The Campfire Headphase parece faltar apenas um vínculo mais veemente com o arrojo; é certo que o par escocês aprimorou a retórica do seu som ambiental e sinistro e desse refinamento estilístico continuam a nascer composições impressivas mas sem lugar para o imprevisto. Sandison e Eoin têm predilecção por lances seguros e não expõem as fórmulas da praxe ao crivo da reinvenção, acabando por se mover nas raias do auto-plágio. É certo que eles são bons no que fazem mas não é chegado o ensejo de forjar conceitos novos?

Procure na grafonola as faixas "Chromakey Dreamcoat" e "Davyan Cowboy"

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Devendra Banhart - Cripple Crow

Apreciação final: 8/10
Edição: XL, Setembro 2005
Género: Folk/Cantautor/Indie
Sítio Oficial: www.cripplecrow.com








Devendra Banhart é um artista. Ponto final. Além da formação académica no Instituto de Arte de São Francisco, o jovem Banhart (tem apenas 24 anos) já vai no quarto álbum de estúdio e tornou-se, entre as classes alternativas, um dos mais prolíficos songwriters da sua geração. Senhor de uma voz trémula e colector de uma miríade de influências, Banhart é um trovador errante, um menestrel dividido entre a folk tradicional americana, os blues, o rock 'n' roll, a música de cabaret, os Beatles e tudo mais que o seu génio criativo consegue confiar intimamente a uma guitarra acústica. Neste Cripple Crow, mesmo imprimindo um cunho acústico às vinte e três composições do alinhamento, Banhart ampliou as texturas das canções, munindo-as com outros ingredientes como as vozes dobradas, as pontuais ingerências orquestrais e o som vacilante de um piano ou de uma flauta. A minúcia de cada uma das peças é a do costume, Banhart não faz a coisa por menos e escreve trechos musicais gentilmente intemporais (são deste tempo mas ficariam bem noutro qualquer...), inevitavelmente cativantes, frescas e inesperadas. E esse viço magnetizante é também um vínculo de diversidade étnica, o reflexo de uma vivência que passou por São Francisco, pela Venezuela e por Paris e que se projecta na tapeçaria musical de Banhart.

Cripple Crow é uma colecção simples de trovas transcendentais que certificam a elasticidade da escrita de Banhart. Pontuado por um imaginário de crianças, o disco é uma celebração esotérica da esperança, da redescoberta dos encantos da ingenuidade e da negação do pessimismo fácil. Musicalmente, Cripple Crow é também uma colagem de géneros, uma paleta multi-colorida e ecléctica, embrulhada numa roupagem psicadélica e nostálgica dos anos 60. Uma elegia musical de um criador que continua a crescer com as canções e a garantir-nos momentos imperdíveis. O puto já é um homenzinho...

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

5 rapidinhas


Scout Niblett - Kidnapped by Neptune (6/10)
Muitas vezes comparada a P.J. Harvey, Björk ou Cat Power, Scout Niblett subscreve, no terceiro registo de estúdio da carreira, a mesma fantasia rock de outros tempos, assente numa voz melíflua que afronta rumores angulares de guitarra e percussões rudimentares. A orgânica é minimalista e quase desarrumada; as estruturas deixam o ouvinte num estado hipnótico do qual desperta, em alguns instantes do disco, com a frustração de não descobrir o clímax anunciado. O vanguardismo poeirento e experimental de Niblett (alguns temas parecem B-sides dos Nirvana ou de Harvey) saúda-se embora pareça orfão de uma definição mais rigorosa das composições. Se alguma vez Niblett lá chegar, talvez melhor se descodifique a espiritualidade e o mistério das suas fórmulas.
Too Pure, Maio 2005








Flipsyde - We the People (5/10)
Crítica social em formato hip-hop com um fundo musical que explora, com alma latina, a soul e o funk é a proposta dos Flipsyde. Eles foram a banda de suporte dos Black Eyed Peas e as semelhanças entre os projectos não são mera coincidência, ainda que os Flipsyde assumam outras considerações políticas e abracem uma sonoridade ligeiramente mais rock que, aqui e ali, faz lembrar Dave Mathews (ouça-se "Angel") ou os Living Colour (especialmente na faixa "Time"). We the People é jovial, tem uma boa dinâmica e, apesar da produção desproporcionada, não deixa de ser uma estreia suficiente deste quarteto americano.
Interscope, Junho 2005








Armando Teixeira - Made to Measure (6/10)
Responsável pelos projectos Bullet e Balla, Armando Teixeira tem sido um dos compositores nacionais mais activos nos últimos tempos. Este disco, lançado numa edição limitada e exclusiva de comemoração do décimo primeiro aniversário da Fonoteca Municipal de Lisboa, é uma mostra do trabalho menos popular do músico, também da sua faceta mais (des)construtivista. Do alinhamento fazem parte alguns trechos musicais que integraram espectáculos teatrais, uma faixa dedicada a Carlos Paredes (anteriormente incluída na compilação Movimento Perpétuo) e o inédito "Les Mutations". Made to Measure é um disco de estúdio e que põe à prova a destreza de Teixeira com samples e loops, num registo próximo de Bullet que acolhe o lounge, o jazz, a música tribal e a electrónica. O principal problema: as aptidões do músico surgem aqui sem a homogeneidade de outros trabalhos. Ainda assim, Vladimir Orlov mantém o toque de inspiração.
Fonoteca Municipal de Lisboa, Maio 2005







The National - Alligator (7/10)
Algures entre a folk americana mais vernácula e a pop viva da Grã-Bretanha está o som dos The National. A proposta é um pop-rock maduro e reflectido, à custa de canções de balanço intuitivo, com uma produção reservada mas competente e alguns refrões que se entranham subitamente. Amores deteriorados, relações humanas e contemplação metafórica são a espinha dorsal deste Alligator. Não há um pouquinho de Cave ou Tindersticks também?
Beggars Banquet, Abril 2005








The Perceptionists - Black Dialogue (7/10)
Mr. Lif, Akrobatik e DJ Fakts One são os protagonistas do conceito the Perceptionists. Aqui não há lugar a paninhos quentes, o discurso é directo, ácido, sem rodeios, e manifestamente propenso ao esquentamento das orelhas de George W. Bush e Dick Cheney e restantes membros da administração americana. "Where are the weapons of mass destruction?/we've been looking for months and we ain't found nothin'/please Mr. President tell us somethin'/we knew from the beginning that your ass was bluffin'" é glosado na faixa "Memorial Day" e resume a alma rebelde da tripla. O resto é underground rap não contaminado com as perversões do mainstream, muito scratching e um mosaico sonoro sem vergonha da electrónica. Hip-hop à moda antiga.
Definitive Jux, Março 2005


quinta-feira, 13 de outubro de 2005

O homem e a mulher

Clique na imagem para ampliar

Pavel Filonov, Man and Woman, 1912-13

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

3.º Mostra de Arte Non Stop

A Vo'Arte está agora a preparar a 3ª edição da Mostra Arte Non Stop - projecto para promover os trabalhos dos jovens artistas nas diversas áreas artísticas (dança, teatro, instalação, performance, artes visuais, artes plásticas, exposições, circo, música, vídeo, escrita, fotografia, design, arquitectura, literatura, hip - hop breakdance, grafitti / rapper e outras artes do imaginário) - que terá lugar dias 2 e 3 de Dezembro, em Lisboa, no Santiago Alquimista.


Regulamento
Ficha de Inscrição - Vídeo
Ficha de Inscrição - Artes Performativas
Ficha de Inscrição - Artes Visuais

Os projectos podem ser entregues até dia 21 de Outubro. Mais informações em www.voarte.com ou nos telefones 21 393 24 10 e 91 404 04 71.