quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Nickel Creek - Why Should the Fire Die?

Apreciação final: 7/10
Edição: Sugar Hill, Agosto 2005
Género: Folk Progressivo/Tradicional Americana/Bluegrass
Sítio Oficial: www.nickelcreek.com








O terceiro longa-duração do trio californiano Nickel Creek segue as pegadas musicais das edições anteriores e adere a uma causa de harmonias sem tropel, embora com uma porção acrescida de ímpeto e com um vínculo mais introspectivo e taciturno. As composições prescindem da percussão - a excepção são os temas "Helena" e "Best of Luck" - e arrumam-se num formato acústico, numa dinâmica melodiosa de onde sobressai a simbiose magistral entre a guitarra, o bandolim e o violino. Depois, os registos vocais alternantes de Sara Watkins (o irmão Sean completa o trio) e Chris Thile reforçam a orgânica afectuosa do álbum, num timbre outonal e intimista que avoca um afago delicado da face incorpórea do ser humano. E o som dos Nickel Creek é, tambem ele, quase impálpavel, tem algo de atmosférico e volante, tem raízes na country de Hank Williams, Loretta Lynn ou Steve Earle e alastra-se para o rock dos Jethro Tull e a indie pop dos The Decemberists ("Jealous of the Moon" não podia ser deles?). A isso, o trio americano acrescenta um cunho próprio assente numa excelsa tríade de cordas e em arranjos minimalistas, compondo um mosaico sonoro profuso, especialmente notado nos três ensaios instrumentais do disco ("Scotch & Chocolate", "Stumptown" e "First and Last Waltz").

Why Should the Fire Die? é um suave jogo de sombras musicadas que desenham os contornos da tradição bluegrass com o pincel do imediatismo pop. Este disco é talvez o mais creativo do curto percurso da banda mas, se não é um produto irresistível para os puristas do género bluegrass, deve aproximar os Nickel Creek da comunidade indie e servir de referência para uma eventual viragem expansiva do conceito musical do trio. De qualquer das formas, se Why Should the Fire Die? é provincial, é consistente, é arcaico, é moderno...que importa se a palavra country não chega?

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Teatro de marionetas

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Paul Klee, Puppet Theatre, 1923

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Kanye West - Late Registration

Apreciação final: 7/10
Edição: Roc-A-Fella, Agosto 2005
Género: Hip-Hop
Sítio Oficial: www.kanyewest.com








Ao pular do anonimato como produtor de outros rappers (Jay-Z, por exemplo) para o sucesso estratosférico com a edição do primeiro álbum (The College Dropout (2004)), Kanye West atraiu sobre si a atenção do universo hip-hop, dos críticos, das editoras, de programas de T.V. e de um culto de milhões de admiradores - e alguns olhares de soslaio - um pouco por todo o mundo. Não sendo um MC de atributos intocáveis, West mascara uma certa frivolidade lírica com um excelso talento no manejo de beats e samples, moldando um suporte musical de gala. A essa condição pomposa e ressonante não é estranha a co-produção de Jon Brion (nunca trabalhara antes no mundo hip-hop) que acrescenta arranjos de cordas e sopros à crueza sonora das texturas de West. Além da música, o alento de Late Registration é a confidência e o intimismo pessoal; essa transposição da alma de West - a substância decisiva do disco é a matriz soul - é o veículo difusor do conceito fracturante (e fracturado?) do músico. Depois, o cometimento de abrir o disco a numerosas colaborações (Jay-Z, Adam Levine, Jamie Foxx, Common, Brandy, Cam'ron, The Game e Nas, entre outros) ocasionou o redimensionamento do jogo musical de West, desfazendo estereótipos da identidade hip-hop e expondo uma propensão evolutiva assinalável.

Late Registration não encerra em si o efeito novidade do seu multi-premiado antecessor mas é uma declaração consistente de maturidade criativa, com estilo e substância que, embora roce a enfatuação aqui e ali, mostra inequivocamente o engenho de West. Mas a destreza do produtor é posta ao serviço do hip-hop ou de outra escola? Kanye West é um artesão de canções invertebradas, de faixas híbridas que se abeiram da matriz musical pop e que se completam com infusões de um rapper (será que ele o é mesmo?) de classe média-alta, um nouveau riche à cata de rimas rebeldes. Mas não é tudo muito plástico?

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Serra da Estrela

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Título: Serra da Estrela I
Autor: Aguinaldo Vera-Cruz
Fonte: http://aguinaldovera-cruz.com

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Sigur Rós - Takk...

Apreciação final: 7/10
Edição: Geffen, Setembro 2005
Género: Pós-Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.sigur-ros.co.uk








Nascidos em 1994, no seio da cerração e do frio da Islândia, os Sigur Rós já firmaram um código musical próprio, em violação de convenções e avocando um singular pacto com o som. A marca do colectivo nórdico distingue-se pela construção de uma atmosfera celestial (e mesmeriana) que deriva de uma orgânica sonora delicada - onde coabitam meticulosamente o piano, a guitarra, os sopros e substâncias etéreas (como a voz de Jonsi Birgisson) - e farta de teatralidade extraterrena. É essa a intuição que se desprende dos acordes volantes, das notas movediças e do feitiço vocal dos Sigur Rós; é a contemplação subconsciente de uma outra dimensão, de um universo paralelo que não existe mas que germina infalivelmente em altares imaginários no espírito do auditor. Takk ("Obrigado" em islandês) é o fruto glacial mais recente dos Sigur Rós e, mantendo a acuidade típica do grupo, mostra composições menos rebeldes, também mais próximas do formato canção, ainda que conservando uma feição distintiva dos islandeses que divide o seu som, com erudição, entre a ampliação orquestral e o intimismo despojado. Takk - o primeiro disco cantado em islandês e não no dialecto imaginado pelo grupo para os outros discos - é também o registo mais acessível e directo dos Sigur Rós. As texturas divulgam um compromisso instrumental acrescido, a voz é relegada, torna-se eventual como um recurso acidental. Depois, o quarto disco do ensemble escandinavo busca êxtases menos funestos e reencontra-se pacificamente com a ingenuidade do bucólico, num jogo ambivalente que constrói um repto inquietante à emoção e oferece, de seguida, a catarse para os sobressaltos induzidos.

Esgotado o efeito novidade, mantêm-se a mística fria e a magia quase mitológica de um dos mais inventivos conceitos da cena musical. Sem surpresas técnicas, Takk é contagiante e menos hermético do que os antecessores e expande a música dos Sigur Rós para a contemplação e a materialidade. Feito de música mais tangível, Takk remete-nos para uns Sigur Rós ditosos (em euforia?), sem hipoteca da sua condição dramática, mas aquém do zénite experimental de Agaetis Byrjun. Ainda assim, Takk é um encantatório anúncio do Outono que se avizinha e impõe um conselho: quando as temperaturas baixarem, nada melhor do que esquentar orelhas com headphones ao som do último trabalho dos Sigur Rós. Um takk para os rapazes também por isso.

Posto de escutaGlósóliSaeglopurGong

terça-feira, 20 de setembro de 2005

Alinhamento

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Título: Alinhamento
Autor: Aguinaldo Vera-Cruz
Fonte: http://aguinaldovera-cruz.com

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Part Chimp - I Am Come

Apreciação final: 8/10
Edição: Rock Action
Género: Noise Rock/Metal/Stoner Rock
Sítio Oficial: www.partchimp.com








Uma emboscada além da compreensão, um minuto-e-trinta-e-seis segundos arremessados ao ouvinte com despudor, assim se inicia I Am Come, o novo (e segundo) trabalho dos Part Chimp. A melodia é trocada, em adultério exercitado conscientemente, pela descarga eléctrica incessante, buliçosa, repetitiva, igualmente angustiada e furiosa. A voz insinua-se e, com fragilidade, tenta sobreviver num oceano de ruído e distorção. A violação pungente dos canais auditivos é uma patologia do colectivo britânico, rebela-se em cada segundo de depravação sonora contra convenções. A alienação de I Am Come é um fim e um meio, como um terramoto saturante que jamais se esgota ou um manancial em tempo algum exaurido. E o fluido inspirado que escorre das entranhas dos feedbacks e guitarras angulares do álbum redunda numa incessante hipnose do ouvinte, em crescendo com o disco. Saturador e sufocante ou irresistível? Literalmente, I Am Come é o contraposto psicadélico do rock actual e assume-se como o protótipo da evolução seguinte. Os Part Chimp votam-se ao desalinho, são terroristas sem paralelismos e assinam um registo inebriante, caótico e demolidor.

A dinâmica de I Am Come é sonicamente intensa mas não há uma nota fora de lugar, a concisão do discurso está em proporção. Depois, o composto musical dos Part Chimp é tão volumoso que faz corar de desonra qualquer banda de noise-rock. Se há música capaz de demolir construções, Tim Cedar e seus pares são a filarmónica certa para esse ofício e I Am Come o bulldozer infalível. Efeitos secundários prevísiveis: impulsos descomedidos para insistir na audição repetida do disco e...uma mais que provável consulta no otorrinolaringologista! Imperdível.

Procure na grafonola as faixas "War Machine", "Bring Back the Sound" e "30 Billion People"

sábado, 17 de setembro de 2005

Fim de tarde

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Título: fim de tarde
Autor: Adilson Faltz
Fonte: http://faltz.nafoto.net

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

Nine Black Alps - Everything Is

Apreciação final: 6/10
Edição: Universal, Agosto 2005
Género: Pop-Rock/Grunge
Sítio Oficial: www.nineblackalps.net








O quarteto Nine Black Alps é oriundo de Manchester mas o epicentro do seu rock é a Seattle dos anos 90 e, por isso, o colectivo apresenta-se em feições neo-grunge que conciliam composições com mais peso e alguns anexos melódicos. O passo frenético das faixas rock (com sinais miméticos dos Foo Fighters, ainda que Sam Forrest revele uma versatilidade vocal maior do que Grohl) é sopesado pelos fragmentos de acalmia introduzidos pelas canções que rejeitam as distorções e hospedam texturas sonoras mais introspectivas. Everything Is é um disco de alma rock com guitarras estrepitosas, percussão enérgica e a sensibilidade pop que Cobain tão bem acoplou à sua música. Herdeiros do legado Nirvana (as similitudes não são muitas...), os Nine Black Alps não se impõem rigidamente o formato grunge e dão a conhecer méritos eclécticos noutros campos: "Behind Your Eyes" (ode acústica com vínculos psicadélicos) e "Intermission" (balada acústica e relaxante).

Everything Is é um exercício rock aceitável, um frenesi púbere de energia, um casamento electrizado e negro entre o purismo punk e o conceito pop. A mecânica Nirvana/Foo Fighters/Buzzcocks (Pixies também?) serve de matriz para estes rapazes britânicos mas, ainda que a espaços as boas ideias sejam convertidas em canções nobres, eles não parecem ter ainda unhas para tocar esta guitarra. Alguma incúria e facilitismo a menos, comedimento e alma acrescidos e uma balizagem mais focada dos seus propósitos e os Nine Black Alps podem vir a tornar-se uma alusão relevante. Por ora, eles não são mais do que outra banda evocativa da dádiva grunge e Everything Is não é mais do que um razoável cartão de visita. Serviço mínimo.

Procure na grafonola as faixas "Cosmopolitan", "Not Everyone" e "Behind Your Eyes"

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Pedalando ao amanhecer

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Título: Pedalando ao amanhecer
Autor: Adilson Faltz
Fonte: http://faltz.nafoto.net/

terça-feira, 13 de setembro de 2005

The New Pornographers - Twin Cinema

Apreciação final: 8/10
Edição: Matador, Agosto 2005
Género: Indie Rock/Power Pop
Sítio Oficial: www.thenewpornographers.com








O colectivo The New Pornographers integra Carl Newman (dos Zumpano), Neko Case (como vocalista convidada), John Collins (dos Thee Evaporators), Dan Bejar (dos Destroyer), o guitarrista Todd Fancey, o teclista Blaine Thurier e o baterista Kurt Dahle. Sediado em Vancouver, o super-grupo canadiano tornou-se matéria de culto desde a edição de Mass Romantic (2000) e especialmente de Electric Version (2003), pelo que as expectativas de antecipação de Twin Cinema eram elevadas. O terceiro trabalho de estúdio do grupo aprova o mesmo esquema estético dos seus antecessores, subscrevendo um compromisso com eufonias delicadas e um som luzidio e livre de impurezas, em composições cativantes e construídas com elegância. A opulência na justa medida das canções é o certificado de um som que, sem soar anacrónico, evoca a pop clássica dos anos 60 e 70 (um pozinhos dos Kinks..?) e é aconchegado por uma produção destra e que empurra o registo dos The New Pornographers para uma toada enigmática que fica equidistante da sedução inquietadora e do conforto intimista (lembram-se do disco The Slow Wonder de Newman?). Àquela componente inveterada, o ensemble acrescenta um entusiasmo fervoroso e expansivo que, aliado à diversidade vocal das canções, impõe uma insígnia de coesão power-pop à estrutura verso-refrão-verso. Contudo, o simplismo dessa regra serve apenas de fundação a texturas além-fórmulas que afirmam uma certa complexidade rítmica, desenhada em multi-camadas sobrepostas com sobriedade e que não perdem o imediatismo.

Twin Cinema não mudará o sentido de rotação da Terra dada a dimensão reduzida do seu impulso inovador. Todavia, o disco escapa ao vulgar plagiato do universo pop, negando os clichés e assumindo, de corpo inteiro, a efervescente idealização de Newman e seus pares, no resgate de sonoridades julgadas extintas e no risco de as moldar delicadamente a uma identidade remoçada. E desse (re)arranjo nasce uma assinatura de autor. E um grande disco.

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Composição

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Título: Composição
Autor: Guacyr Aranha
Fonte: www.olhares.com

domingo, 11 de setembro de 2005

Rocky Marsiano - The Pyramid Sessions

Apreciação final: 8/10
Edição: Loop Recordings, Maio 2005
Género: Sampling/Hip-Hop/Eletro-Jazz
Sítio Oficial: www.looprecordings.com








Rocky Marsiano é o novo alter-ego de D-Mars, um veterano do hip-hop nacional (nascido na Croácia e importado pela cena nacional há treze anos) que firmou o seu perfil musical graças ao envolvimento nos projectos Zona Dread, primeiro, nos Micro, depois, e mais tarde a título individual, com o disco Filho da Selva (EMI, 2003). Agora pela mão da Loop Recordings, o produtor afirma um traço não revelado antes e busca uma identidade distinta, percorrendo o universo jazz com a destreza e experiência de um sampler versado e amplitude de visão de um MC experimentado. Deixando de lado as rimas que compunham os seus retratos anteriores, Marsiano engendrou um álbum quase integralmente instrumental, facultando à música (e à produção) o protagonismo maior e ao groove o encargo simbiótico de fundir o improviso jazz e a filiação hip-hop de D-Mars. A integração dos loops é quase intuitiva, como se cada pedaço raptado das relíquias de vinil cobrisse por inteiro um espaço inconscientemente pré-reservado para si. A pulsão do álbum desenha um conceito próprio de jazz, uma síntese catalisadora de guitarras, pianos, instrumentos de sopro e vibrafones, entrecortados pela presteza da percussão e pela habilidade no scratch. A componente técnica de The Pyramid Sessions merece, pois, distinção especial, certificando D-Mars como produtor na primeira linha nacional e músico de valia indesmentível.

A par dos enigmas desta pirâmide fecunda, D-Mars traz-nos pequenas preciosidades, verdadeiras pérolas de malabarismo musical que devem ser destapadas com a deferência devida às grandes obras. Respeitando coordenadas de um esqueleto musical pré-definido, D-Mars corta-e-cola, sobrepõe, soma e subtrai com a alma de um criador genuíno. Seja considerado um disco de jazz musicado em hip-hop ou o inverso, The Pyramid Sessions exprime-se num código musical gracioso e lídimo, quase exclusivo e digno de figurar na mais fina estirpe nacional para este ano.

Posto de escutaSítio Oficial

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

Um son(h)o descoberto

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Título: Sem título
Autor: Alberto Monteiro
Fonte: www.albertomonteiro.com

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Minus the Bear - Menos el Oso

Apreciação final: 6/10
Edição: Suicide Squeeze, Agosto 2005
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.minusthebear.com








Oriundo de Seattle, o quinteto Minus the Bear apresenta o seu quarto longa-duração numa matriz rock hiperactiva que, derivando de riffs com nervo, promove a construção de um edifício sónico algo complexo que consegue o fito improvável de conjugar as texturas power chord dos Jimmy Eat World e o apuro dos Q and Not U. A precisão matemática e o sentido de simetria das guitarras (a proficiência dos músicos é inatacável) é a substância primordial de Menos el Oso já que a voz de Jake Snider resvala, a par das letras prosaicas e da monotonia das melodias, para uma banalidade no limite do tolerável. Mesmo o delicioso e niilista traço de aleatoriedade dos títulos das composições dos discos anteriores foi afastado deste Menos el Oso e trocado pela vulgaridade de títulos como "The Fix" ou "Fulfill the Dream". Esquecido o detalhe do baptismo das faixas, o alinhamento do álbum é um desfile de trivialidades, salvando-se a técnica dos músicos e a aparição pontual de um higiénico subterfúgio electrónico.

Menos el Oso envida um novo paradigma dos Minus the Bear: os espasmos dos trabalhos anteriores são trocados por um som mais angular e refinado (também mais aborrecido?). E esta reinvenção favorece-os? Aceitam-se réplicas. O formato é subliminarmente diferente mas o mote é o mesmo: romantismo loja-dos-trezentos em histórias quase néscias de amores regados com álcool, de amizades malogradas e de memórias frustradas. A certo instante Snider prosa assim: "I saw her with another man walking downtown/ She's not mine and she'll never be/ By my side walking downtown/ I only met her once before/ She was alone in a back booth/ A drink and a cigarette/ Smoking like she was waiting for someone/ Me stealing glances as she stole my breath/ The next one's on me". Dê-se o devido crédito aos músicos - afinal Menos el Oso contém algumas boas ideias tecnicamente bem interpretadas - mas sirva-se uma bebida a Snider. Com perseverança, talvez a moça aceite passear com ele...

Aqua Matrix

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Título: Aqua Matrix
Autor: Aguinaldo Vera-Cruz
Fonte: http://aguinaldovera-cruz.com

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

The Magic Numbers

Apreciação final: 7/10
Edição: Heavenly, Junho 2005
Género: Indie Rock/Folk
Sítio Oficial: www.themagicnumbers.net








O quarteto Magic Numbers tem raízes em Londres e é formado por dois pares de irmãos - Romeo e Michele Stodart e Sean and Angela Gannon. Este álbum epónimo, também o primeiro trabalho do grupo, remete o ouvinte para a toada relaxante e harmoniosa da folk e do pop-rock dos anos 60. O som é directo e não se fecha na intuitiva nostalgia dos Mamas & Papas, de Brian Wilson ou de Dylan; a esse ilustre compadrio, os Magic Numbers acrescentam laivos de intemporalidade, concebendo uma marca sónica própria que deriva de estruturas melodiosas onde a guitarra e o baixo dialogam permanentemente, servindo as vozes o propósito simbiótico de unificar as partes. Depois, a verosimilhança inata das composições, a naturalidade do discurso e a ductilidade do som da banda conferem a Magic Numbers uma lisura superlativa. Impossível é não gostar deste registo imediato (não é sinónimo de simplista) e transgeracional, para avós (pela sensibilidade retro) e netos (pela fusão modernista), engenhosamente ornado por arranjos instrumentais e vocalizações múltiplas e com uma produção correcta. Todavia, a um certo comedimento na produção acresce o ajuste, em instantes do disco, a rudimentos na composição que, não minorando o feitiço saudável das canções, as torna subliminarmente aliterantes. Mas não é dessas vulnerabilidades que abrolha o tímido vigor deste disco?

Magic Numbers é um álbum com duas metades diversas. A primeira, mais recreativa e rock, tem alma veraneante e provoca um efeito colateral: dança hippie incontinente. A outra parte é simultaneamente traumática (os inevitáveis amores perdidos...) e terapêutica e expõe as fragilidades emocionais na forma clássica de balada pop ou country. Promissor, equilibrado e poético, Magic Numbers é um disco de decifração fácil e de aritmética sem mistérios: as doze (12) faixas são mesmo números mágicos. Com uma estreia assim, se o quarteto tiver a sensatez de corrigir os desvios, só pode confiar-se que, algures no porvir dos Magic Numbers, estará uma obra-prima. Enquanto ela não chega, vale a pena descobrir este trabalho.


Procure na grafonola as faixas "Forever Lost", "Mornings Eleven", "Long Legs" e "I See You, You See Me"

terça-feira, 6 de setembro de 2005

Sob o guarda-sol

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Título: Sob o guarda-sol
Autor: Adilson Faltz
Fonte: http://faltz.nafoto.net/

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Kubik - Metamorphosia

Apreciação final: 8/10
Edição: Zounds, Agosto 2005
Género: Electrónica Vanguardista/Samples
Sítio Oficial: www.zounds.pt/bands/kubik/biog.html








O guardense Victor Afonso regressa às edições discográficas depois do inesperado Oblique Musique, lançado em 2001. Em Metamorphosia é mantido o acento tónico na componente experimental das composições, em rompimento declarado de convenções ou pretensiosismos. A vertente manifestamente vanguardista das orgânicas electrónicas é revigorada e, mediante a assunção de um risco acrescido, a sonoridade é mais minuciosa e dedica um relevo maior ao detalhe, sem medo da excentricidade (sempre controlada...) de repudiar estruturas de canção tradicionais. O som é objecto de alquimias repetidas, de subversões lúdicas, de fragmentações intencionais, de colagens e sobreposições que seguem os princípios criativos da bricolage de Afonso. A manipulação electrónica é o denominador comum do disco e o veio essencial da metamorfose musical do universo de Kubik, um labirinto conceptual e híbrido, um mundo uno e indivisível, um terreno bravio que apetece explorar ao milímetro. Desse espaço sónico provém um fluido musical invulgar, produto misterioso e progressista de um génio tímido cuja assinatura deixa um lastro quase-dadaísta, qual salteador que rouba pedaços de música ao seu habitat e os sobrepõem em encenações imagéticas multi-camadas, de cargas energéticas contrastantes e que remexem, de jeito surreal, o status quo. Victor Afonso tem uma linguagem musical própria, um código agitador de turbas; Metamorphosia é disforme na dimensão caótica das texturas, é ousado na liberdade criativa e revela-se um nicho polimórfico de plenitude musical.

Metamorphosia é, em si mesmo, um compromisso com coisa nenhuma, um documento musical livre e fatalmente cativante, uma nascente incorruptível, um baú de quimeras descerrado. A preencher o imaginário do álbum destacam-se os vultos de Adolfo Luxúria Canibal, Old Jerusalem (dá para o reconhecer em "I'm a Vampire, I'm Disgust"?), Américo Rodrigues (lembram-se do disco Aorta Tocante feito a partir de vegetais?) e César Prata (do projecto Chuchurumel). Aos outros ilustres convivas desta metamorfose, não se lhes vê o corpo...mas a alma diz presente; é como se Patton, Zorn, Ladd, os cLOUDDEAD, Zappa, os Residents e os Neu se houvessem reunido num sarau heterodoxo em serrania da Guarda. Ou no intelecto de Kubik. Candidato a melhor nacional do ano, Metamorphosia é um disco imperdível.


Procure na grafonola os temas "Sound Nest", "Cannibal Vegetables" e "I'm a Vampire, I'm Disgust"

Narcissus

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Caravaggio, Narcissus, 1597

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Holopaw - Quit +/or Fight

Apreciação final: 7/10
Edição: Sub Pop, Agosto 2005
Género: Indie Rock/Folk/Lo Fi
Sítio Oficial: www.holopaw.net








O segundo trabalho do projecto Holopaw, liderado pelo guitarrista/cantor/compositor John Orth, adere ao formato folk intimista, em detrimento da doutrina country que imperava no disco de estreia. Evocativo de uma atmosfera sonora polida e atraente, Quit +/or Fight alvitra a simplicidade como dogma maior de composições escuras de melancolia e tíbias de ânimo. As aposições orgânicas nas harmonias dos Holopaw são menos afirmativas mas, ainda assim, fermentam a coesão de um álbum cujas forças motrizes são a intimidade desarmante e a captação apurada do quinhão tangível da solidão. O selo idiossincrático da escrita dos Holopaw é um timbre folk atilado e lo fi, com o suporte de arranjos comedidos e da elasticidade e excentricidade vocal de Orth, compondo uma irrecusável convocação para antever, no pacto latente entre as faixas do alinhamento, o fragmento sumido de um universo quebrado em si mesmo e que se recobra e regenera nas sinergias transversais das melodias de fada de Quit +/or Fight. Depois, a banda parece ter subscrito um convénio de magreza das composições: à excepção da balada "Shiver Me", as canções raramente suplantam os três minutos. Continência (em prejuízo do valimento do disco...) ou isolamento requintado da melancolia?

Quit +/or Fight é outra jornada do esquadrinhamento dos interstícios da folk que os Holopaw espreitam na luminescência acanhada do charme de um bom núcleo de canções. Se isso não basta para espertar a curiosidade, Michael Johnson (baterista e teclista da banda) tributa uma burlesca descrição do quinteto e suas causas: "a queer, a Peruvian, a redneck, a burnout, and an asshole walk into a bar...". Agora só falta ouvir o disco.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Depois da tempestade

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Título: Depois da tempestade
Autor: Miguel Almeida
Fonte: 1000Imagens

terça-feira, 30 de agosto de 2005

5 rapidinhas


Kent - Du & Jag Döden (7/10)
Rock melancólico oriundo da Suécia (e cantado em sueco) e que abraça o tema da morte (o título é traduzível para: Tu e Eu, Morte). A formatação pop das composições, sem lamechices, transporta uma minuciosa atracção para melodias etéreas, graças a uma produção cuidada e a arranjos de bom nível. Num registo vizinho de Muse-meets-Radiohead, o charme escandinavo das harmonias dos Kent é apelativo e faz de Du & Jag Döden uma edição curiosa e um bom motivo para aprender sueco.
(BMG, Março 2005)







Marc Leclair - Musique Pour 3 Femmes Enceintes (5/10)
Mais conhecido pelo trabalho sob a assinatura Akufen, o canadiano Marc Leclair regressa, três anos depois, com um novo trabalho de estúdio onde se mantêm os preceitos fundamentais da sua música: um timbre ambiental e electrónica, algum experimentalismo vanguardista e um toque minimalista. Neste registo, a incursão experimental é reforçada pelo recurso a tons atmosféricos, em padrões que se prolongam indefinidamente. A essa condição errante junta-se uma certa repetitividade que empurra o álbum para uma tendência monocórdica, preenchida por ruídos vogantes sem fito. O efeito relaxante é razoavelmente conseguido, ainda que à custa de menor preponderância da melodia - aqui sobrepujada pelo quase-improviso. Ainda assim, Leclair traz-nos uma ode consistente à gravidez da mulher, feita de puros pedaços electrónica vanguardista, com alguns excessos e que não desgostará os seguidores da carreira do produtor canadiano.
(Mutek, Abril 2005)







Zuco 103 - Whaa! (6/10)
Sediado na Holanda, o trio Zuco 103 (Lilian Vieira, Stefan Schmid e Stefan Kruger) faz uma mistura de bossa nova e samba com sonoridades jazz, funk e electrónica dançável. Este é o terceiro álbum da carreira do trio e parece menos "brasileiro", acolhendo embalos típicos da América Hispânica e Central. Esta derivação para a exploração de novos sons não é estranha à presença do lendário músico jamaicano Lee "Scratch" Perry que, embora remeta o som do grupo a renovadas dimensões, não acrescenta substrato suficiente para fazer deste disco uma edição muito diferente das anteriores dos Zuco 103.
(Ziriguiboom, Junho 2005)







Apparat - Silizium EP (6/10)
O berlinense Sascha Ring apresenta-se num registo polimórfico, em oscilações entre a electrónica e o recurso a instrumentos acústicos. A imprevisibilidade das composições cria no auditor uma energia de expectativas ambiciosas que se renovam a cada segundo e a originalidade marca pontos desde o início do alinhamento. Originalmente gravado numa sessão com John Peel e com a contribuição de um talentoso ensemble de cordas (chamam-se Complexácord), Silizium é uma massa sónica versátil de verdadeira música electrónica inteligente, redimensionada a uma expressão quase orquestral. As vocalizações de Raz Ohara dão uma ajuda preciosa e o registo só sai penalizado pela presença no alinhamento de quatro remixes, além de cinco originais, que não atingem o brilhantismo dos temas de Ring.
(Shitkatapult, Fevereiro 2005)







Nitin Sawhney - Philtre (6/10)
Nitin Sawhney é um dos mais respeitados e talentosos produtores e compositores do Reino Unido e está de volta com um novo trabalho. Philtre mostra o habitual cruzamento de estilos, num registo de fusão que combina as batidas electrónicas, o trip-hop e o jazz vanguardista com instantes de inspiração asiática. Escutar este álbum é percorrer transversalmente a tradição indiana, a folk Bengali, o flamenco, os blues, a soul e o R&B, aqui esmeradamente misturados num som elegante. Às vozes convidadas de Vikter Duplaix, Reena Bhardwaj (estrela das bandas sonoras Bollywood), dos Ojos de Brujo, de Fink (dos Ninja Tunes) e Jason Singh, além das colaborações habituais, unem-se as vibrações únicas das cítaras, das flautas e do piano. A vibração emocional de Philtre é garantida mas o disco não acrescenta nada de inovador ao repertório de Sawhney e algumas composições parecem meras colagens de outros álbuns do músico. Fórmula esgotada?
(V2, Maio 2005)

Posto de escutaSítio Oficial

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Wintersleep

Apreciação final: 8/10
Edição: Dependent Records, Fevereiro 2005
Género: Indie Rock/Pós-Grunge/Rock Experimental
Sítio Oficial: www.wintersleep.com







Naturais de Nova Scotia, os Wintersleep são um dos segredos mais bem guardados da música canadiana e um dos mais refrescantes redescobrimentos deste ano de 2005. Depois do álbum de estreia homónimo lançado em 2003, o quarteto retoma neste trabalho um percurso de reinvenção progressiva da filosofia grunge que catapultou a geração X para o estrelato durante a década de 90. Pois bem, as raízes dos Wintersleep residem algures nesse legado, aqui expandido além dos seus limites simplistas graças à eficácia de um comprometimento com o experimentalismo que define a estética do colectivo canadiano: percussões elegantes, guitarras intervenientes que saltam com inteligência da efusão rock para o intimismo indie, arritmias sempre pertinentes e vocalizações etéreas (às vezes corais...). O desfecho desta combinação de substâncias é um álbum que não cessa de surpreender do primeiro ao derradeiro instante, um disco que se impõe compulsivamente ao auditor e que foge à mediania, ocupando um vazio na cena rock, algures entre o mainstream declarado (alguma coisinha de Pearl Jam ou dos saudosos Soundgarden?) e o quase-country dos My Morning Jacket. Mas reduzir Wintersleep a isso não é fazer justiça a um trabalho brilhante que se esgueira de tendências ou maneirismos e se afirma pela honestidade intemporal das estruturas harmónicas, das nuances instrumentais e da amplitude contagiante das composições.

Imprevisível, robusto e cativante, o mais recente registo dos Wintersleep promete a afirmação merecida para um ensemble único. No booklet que acompanha a edição do álbum surge um poema com uma história ironicamente ambivalente: um rapaz a quem o sol esburacou o coração reclama o auxílio da mãe que, munida de pensos rápidos, tenta reparar o prejuízo. Para rir, derramar lágrimas ou deixar-se hipnotizar? Tomando o zelo da mãe e a desapiedada perfuração do astro rei como metáforas concorrentes no ideário musical dos Wintersleep e, escutado o disco com a reverência devida, emerge uma inevitável conclusão: o ouvinte é o impúbere protagonista do poema e a música dos Wintersleep serve, em simultâneo, para lhe queimar a carne e, de seguida, estancar o sangue das chagas, com a mesma expressão indecifrável. E chegado o termo do disco o impulso para o escutar de novo é quase irrecusável. Um álbum obrigatório.

Code - Nouveau Gloaming

Apreciação final: 8/10
Edição: Spikefarm Records, Maio 2005
Género: Black Metal
Sítio Oficial: www.codeblackmetal.com








O universo metal não é um espaço especialmente dado ao imprevisto. As edições discográficas sucedem-se a ritmos desregrados, oriundas das mais díspares zonas do globo, mas raramente se entrevêm centelhas de inovação ou trechos musicais suficientemente eloquentes para se distinguirem dos seus semelhantes. Assim, são pouco frequentes os registos discográficos que fazem remexer esse preconceito e que divulgam conceitos metal meritórios. É esse o caso de Nouveau Gloaming, o primeiro álbum do colectivo britânico-norueguês Code. Os preceitos convencionais do black metal estão lá todos, embora se amotinem contra clichés e vagabundeiem, com parcimónia, na sugestão de espectros sonoros sombrios e enigmáticos que, em certos lances, derivam para flutuações entre andamentos tardos e estampidos de adrenalina. A espiral magnetizadora de Nouveau Gloaming parte de uma conflagração imparável de estados de ânimo, afinal o elemento catártico do disco e simultaneamente a alavanca indutora de novas dimensões, revitalizando um género metal normalmente amarrado entre as suas próprias fronteiras. Da progressividade das composições brota um fluido sonoro atmosférico, inexorável, algo meditativo, variado - quer nos tempos quer nas sequências de acordes - e que presta um contributo precioso rumo à revolução dos códigos black metal.

A vibração atípica de Nouveau Gloaming cresce com audições sucessivas, revelando uma consciência de contemporaneidade, mesmo vanguardismo, conjugada com os elementos tradicionais deste género. Dividido entre a grandeza épica de certas composições e a tendência desviante (leia-se revolucionária) de outras faixas, Nouveau Gloaming desafia os estereótipos vitriólicos da sua família musical. Guitarras pungentes, percussões aliterantes que se convertem em batidas convulsivas e vozes paradoxalmente cruciantes e murmurantes são alguns dos traços idiossincrásicos dos Code. O resto cabe ao ouvinte descobrir, seja ou não partidário da escola metal. Porque há discos que erguem o metal além dos seus confins. Nouveau Gloaming é um desses títulos e pode muito bem ser o melhor disco metal do ano.

Procure na grafonola as faixas "The Cotton Optic" e "Brass Dogs"

Celta

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Título: Celta
Autor: Filipe Santos
Fonte: 1000Imagens

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

Mísia - Drama Box

Apreciação final: 8/10
Edição: Virgin, Junho 2005
Género: Fado/Étnica
Sítio Oficial: www.misia-online.com








A fadista portuense Mísia está de volta aos discos e, desta vez, apresenta uma colecção de canções que dedica à sua mãe e que reportam aos estímulos musicais que esta lhe ofereceu durante a infância. Drama Box não é um disco puro de fados, explora também os contextos musicais da escola de bailado clássico da mãe da cantora, destapando os encantos da América Meridional, dos boleros e dos tangos, aqui vizinhos do fado português. A conexão sentimental dos vários géneros é o garante da solidez do disco, onde o fado resulta como cicerone principal de uma caminhada sentida pelos labirintos do amor e da saudade. A voz enternecedora de Mísia alude com paixão às recordações de amores perdidos, desatando nas letras de um poema (Vasco Graça Moura, Rosa Lobato de Faria, Paulo José Miranda, José Luis Peixoto, José Saramago e Natália Correira figuram entre os autores) os enigmas de cicatrizes da alma que se expõem com crueza e se purgam na alvura da música. O imaginário poético de Drama Box - sublinhado pela declamação do poema "Fogo Preso" de Graça Moura nas vozes das actrizes Fanny Ardant, Maria de Medeiros, Carmen Maura, Miranda Richardson e da cantora Ute Lemper - é pontuado pela alma lusitana, seguindo o embalo dos timbres melancólicos do fado e da sensualidade e vigor dos tangos e dos boleros que, interpretados em castelhano, mantêm o acento tónico nos desencontros amorosos, na solidão, no sentir da perda.

Drama Box é uma arca de sentimentos e afectos, um depósito de fragmentos autênticos da existência humana que se assemelham a retratos de uma dramaturgia musical de que Mísia é tradutora maior e personificação última. Ao mesmo tempo, é um roteiro musical do coração do fado lisboeta, passando pela Rambla de Barcelona e pelo obelisco de Buenos Aires...pela mão das composições de Mário Pacheco e de Piazzolla. Drama Box é um álbum de sentimentos radicais e que Vasco Graça Moura nos convida a visitar com estas palavras:

Quando se ateia em nós um fogo preso
o corpo a corpo em que ele vai girando
faz o meu corpo arder no teu, aceso
e nos calcina
e assim nos vai matando
essa luz repentina até perder alento

e então é quando a sombra se ilumina
e é tudo esquecimento tão violento e brando
sacode a luz o nosso ser surpreso
e devastados, nós, vamos a seu mando
nessa prisão o mundo perde o peso
e em fogo preso, à noite, as chamas vão pairando
e vão-se libertando fogo e contentamento
a revoar num bando de beijos tão sem tento
que não sabemos quando são fogo ou água ou vento
a revoar num bando de beijos tão sem tento
que perdem o comando do próprio esquecimento.

in "Fogo Preso", Vasco Graça Moura



terça-feira, 23 de agosto de 2005

A ferradura

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Título: A ferradura
Autor: João Vinhas Reis
Fonte: www.1000imagens.com

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

5 rapidinhas


Pelican - The Fire on our Throats Will Beckon the Thaw (7/10)

Quarteto de Chicago, os Pelican assumem um conceito atmosférico de metal puramente instrumental, um híbrido de sonoridades mais pesadas e rock ligeiro, em mudanças persistentes e que evocam cenários ambivalentes: às distorções clamantes respondem instantes sorumbáticos, arpejos quase acidentais (ouça-se "Red Ran Amber"). Há um fio condutor que percorre as faixas do alinhamento, embora algumas fiquem aquém do clímax que prometem as contracções sucessivas e as mudanças de ritmo electrizantes. Ainda assim, The Fire in Our Throats Will Beckon the Thaw é um disco atractivo de um projecto musical que se afirma na linha da frente do metal instrumental.
(Hydra Head, Agosto 2005)

www.hydrahead.com/pelican/








Orthrelm - OV (7/10)

Duo de Washington que propõe uma charada musical intrigante: a mesma composição é esticada durante quarenta e cinco minutos, numa espécie de colagem versátil de pequenos instantes instrumentais (guitarra eléctrica e bateria) de minimalismo hardcore. As raízes dos pedaços que se repetem e sobrepõem na formação de um padrão musical maior tem raízes no metal e resulta numa frenética, caótica e imparável depuração de riffs de guitarra, com percussões em frenesi. O desfile em cascata da técnica de Mike Barr e Josh Blair é um mosaico portentoso de originalidade. OV provoca uma de duas reacções: ou se venera ou se torna um insuportável teste à paciência do ouvinte. (Ipecac, Junho 2005)

www.millionraces.com/orthrelm.htm


Posto de escutaOV






Benjamin Diamond - Out of Myself (4/10)

Apesar do amparo da editora !K7, Out of Myself não é um disco puro de dança. A doutrina primaz de Diamond deriva da eletropop mas não evita os embaraçosos clichés do género. Feito de canções soltas e entretidas, Out of Myself não traz nada de novo e, apesar do lançamento deste disco, Benjamin Diamond continuará a ser mais conhecido por ter dado voz a um mega-sucesso dos Stardust (o tema "Music Sounds Better With You") do que propriamente pelo seu percurso a solo...
(!K7, Maio 2005)

www.k7.com/data.pl?release=!K7179CD








The Prayers and Tears of Arthur Digby Sellers - The Mother of Love Emulates the Shapes of Cynthia (7/10)

Perry Wright está para os Prayes and Tears como Conor Oberst está para os Bright Eyes, o que é o mesmo que dizer que estamos perante uma one man band. Wright transpõe os contextos de amores perdidos e privações sentimentais para uma solene síntese de folk, rock, country e um pouco de electrónica. A toada compassada e lo-fi do registo assenta em composições bem urdidas e arranjos proporcionados que infundem um elemento de modernidade ao trejeito clássico indie. Se às vezes as composições são menos consistentes, ..Shapes of Cynthia não deixa de ser um retrato musical apurado e sincero das ruínas da emoção.
(Bu Hanan, Fevereiro 2005)

www.prayersandtears.com/

Procure na grafonola as faixas "Rotation of Crops" e "Ammunition for a Bolt-Action Heart"





Julien Neto - Le Fumeur de Ciel (6/10)

O parisiense Julien Neto é adepto da electrónica minimalista e é cidadão de um universo sónico onde o experimentalismo moderno se cruza com os mais invulgares ruídos. Embora já tenha gravado com outros nomes e noutras etiquetas, Le Fumeur de Ciel é o primeiro trabalho a título próprio do músico francês e simboliza uma espécie de poema musical - chega a buscar inspiração no imaginário de Keats - sustentado pela taciturnidade das cordas e pela distância contemplativa do piano, a que se junta com acerto a timidez das percussões electrónicas, numa espécie de teatro de marionetas igualmente sinistro e infantil. Le Fumeur de Ciel é um álbum elegíaco de música ambiental; é o testemunho de dimensões paralelas que se desintegram em notas musicais esparsas e se reagrupam no sentido de um clímax incerto. Nessa incerteza e na divagação repetitiva pelos labirintos da melancolia reside o defeito de um disco cujo força maior é temperamento romântico e o lirismo afectuoso das composições.
(Type Records, Junho 2005)


www.typerecords.com/releases/full.php?id=10


Posto de escutaIIIIII

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

Novo single de Franz Ferdinand

A banda revelação do ano 2004 já tem o primeiro single para o novo trabalho a circular na net. Os escoceses Franz Ferdinand deram o conhecer o primeiro avanço para o álbum You Could Have it So Much Better. Chama-se "Do You Want To".

Se a curiosidade aperta, confira aqui se os rapazes não mantêm a mesma energia contagiante do primeiro disco. É possível ouvir isto e não bater o pé?


Agora resta aguardar pelo dia 4 de Outubro.

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Maçãs Verdes

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Paul Cézanne, Maçãs Verdes, 1873

Tom McRae - All Maps Welcome

Apreciação final: 6/10
Edição: Sony BMG, Maio 2005
Género: Folk/Cantautor
Sítio Oficial: www.tommcrae.com








A mais recente proposta do britânico Tom McRae, o terceiro disco do seu percurso artístico, é um guia musical numa excursão através da emoção humana e dos mistérios da sublimidade da vida. A proeminência de uma toada acústica - à guitarra juntam-se o piano, o violoncelo, o clarinete e os metais - confere ao álbum um balanço sem tensões e um compromisso de evocação de reminiscências depositadas nos recessos imateriais da alma. Esse apego dedicado é a força mesmeriana de composições adultas, pequenos artefactos de honestidade quase tangível e com uma certa intuição compassiva e auto-indulgente. Daí deriva um recatado discurso de melancolia, solidão e perda, sustentado por texturas sónicas melódicas em quietude e por uma voz frágil e cativante. Tom McRae é um cantautor distinto e assina canções formosas e expressivas que captam o lirismo poético das suas letras em ruminações folk com uma produção cristalina.

All Maps Welcome é um volume lhano de canções íntegras e que certificam McRae (na sombra do ubíquo Damien Rice ou do prolífico Conor Oberst) como compositor de elite. Ainda que a algumas das faixas do alinhamento pareça faltar o toque de Midas que abrilhanta os pontos altos do disco ("Hummingbird Song", "Strangest Land" ou "Silent Boulevard"), All Maps Welcome é uma audição obrigatória para fãs do músico londrino. Dos outros melómanos, o álbum merece uma escuta atenta, a aprovação das suas aptidões e a ilação de que, independentemente da valia de um punhado de boas canções (e outros tantos instantes falhados...), All Maps Welcome não mudará o curso do globo terrestre.

terça-feira, 16 de agosto de 2005

Tom Vek - We Have Sound

Apreciação final: 7/10
Edição: Tummy Touch, Abril 2005
Género: Electrónica/Fusão/Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.tomvek.tv








24 anos, londrino, multi-instrumentalista de vistas largas, Tom Vek é peão num jogo entusiasta de estéticas sonoras multiface que casam com elasticidade insofismável a finura dos fragmentos electrónicos, a crueza eléctrica do rock de garagem e a atmosfera angular de um embalo funk taciturno. O diapasão, ao invés da guitarra, provém dos graves afirmativos do baixo, coadjuvados por vocalizações quase-psicadélicas em revérbero e interacções inteligentes com os sintetizadores. O efeito final é um som feito de texturas minuciosas, fértil em detalhes prestimosos e cujo predicado maior, uma vez superada a surpresa do primeiro contacto, é a solidez. We Have Sound é alegação autorizada em prol do som, um panfleto sonoro em defesa dos antípodas do silêncio: afinal, se temos o som porque não fazer uso dele? E Vek afirma neste trabalho um manifesto anti-silêncio versátil (na sombra dos devaneios dos Pavement, de Beck ou dos Sonic Youth) e congruente, com lances de revivalismo (há uns toques de Franz Ferdinand ou de Bloc Party aqui e ali...) e assinatura própria.

We Have Sound é um debute promissor para o jovem Vek e deixa alicerces para um edifício porvindoiro cujas formas musicais serão tão vagas e não catalogáveis como este álbum. O primeiro passo está dado e, como o músico afirma na segunda pista do alinhamento, "There is still so much to see, there is still so much to do, I cant be more than half way there". Esperemos que a metade que falta percorrer lhe traga um sentido de melodia menos ocioso e, com isso, redimensione a sua música e a aproxime da casta que se adivinha nas suas formas.

Procure na grafonola as faixas "C-C (You Set the Fire in Me)" e "I Ain't Saying My Goodbyes"

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

Serial - Brilhantes Diamantes

Apreciação final: 8/10
Edição: NorteSul, Junho 2005
Género: Hip-Hop/Funk/Sampling
Sítio Oficial: NorteSul








Rolando Sá, aka DJ Serial, é um dos membros dos Mind da Gap e arriscou lançar um trabalho a solo. O registo individual não se distancia do tom habitual do grupo portuense, sublinhando a condição hip-hop graças a uma produção calculada e diligente que, aqui e ali, incute uma toada funk (ouça-se "Sê Real"), suportada num excelente trabalho de programação, beats e sampling e num esqueleto de graves bem estruturado. A pompa sónica das composições é um dos pontos fortes deste Brilhantes Diamantes que se torna, desde a primeira audição, uma apelativa referência da cena hip-hop nacional, graças a um discurso feito de mensagens simultaneamente virulentas e zombeteiras, repletas de urbanidade e que encaixam com sobriedade no embalo magnético da porção instrumental. A solidez do álbum sai reforçada pelos influxos preciosos de uma extensa lista de convidados: Ace e Presto (companheiros nos Mind da Gap), Maze, Fuse, Mundo e Xpião (sob o pseudónimo Terrorismo Sónico), Rey e Chase e os galegos El Puto Coke e Sofia.

Brilhantes Diamantes é um dos mais robustos aspirantes ao título de álbum hip-hop nacional do ano, com Rocky Marsiano à espreita (aqui se escreverá sobre o seu trabalho em breve) e é o mais recente rebento do profícuo universo nortenho do hip-hop. Em entrevista recente, Serial descodificou o título do disco: os "diamantes" são os amigos musicais que a ele se juntam neste trabalho. É verdade que eles são pouco menos do que brilhantes, mas as genuínas pedras preciosas deste trabalho estão nas composições que Serial burilou com sapiência no recato do seu estúdio tripeiro. E, no fim de contas, Brilhantes Diamantes é mesmo um pequeno tesouro da música nacional. Recomendável.

Procure na grafonola as faixas "Brilhantes Diamantes" e "Sabes K'eu".

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Monte da lua

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Título: Monte da Lua
Autor: Ricardo Alves
Fonte: 1000Imagens

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Insula Dulcamara

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Paul Klee, Insula Dulcamara, 1938

5 rapidinhas


Deerhoof - Green Cosmos EP (7/10)

A babel dos Deerhoof está de volta. 15 minutos de genuinidade visceral, de contrastes sónicos, de delírios harmónicos e de (es)pasmo ímpar. As melodias obscuras da praxe surgem, aqui, revestidas num invólucro de arranjos orquestrais mais sumptuosos (mesmo ruidosos...) do que é usual, ajudando à concepção de micro-sinfonias em desvario. À quase cacofonia das composições junta-se a voz delicada e pueril de Satomi Matsuzaki, aventurando-se a cantar em japonês. Aparentemente desconexas e sem fluência, as estruturas melódicas invulgares revelam o oposto em traços de criatividade refrescante, num verdadeiro carrossel suspenso de esquizofrenia e doçura, cheio de surpresas. Sem rótulos, o cosmos (e a música) dos Deerhoof é isso mesmo: um universo cândido e bucólico onde se agitam freneticamente as chamas de excentricidades lunáticas e se cruzam, em cópulas pomposas, o eros e o tanatos. Afinal, monstros e criancinhas podem partilhar brincadeiras no mesmo espaço cósmico...ou não.
(Toad/Menlo Park, Junho 2005)

Procure na grafonola as faixas "Byun" e "Come See the Duck"






Brazilian Girls (7/10)

Quarteto sediado em Nova Iorque, os Brazilian Girls apresentam-se no sítio oficial como uma mistura festiva de Grace Jones, Blondie, The Sugar Cubes e Astrud Gilberto. A voz da poliglota Sabina Sciubba e uma versátil palete de efeitos electrónicos conduzem as composições por sedutores percursos de trip-hop e lounge, com ligeiros toques de funk, reggae, ska e dub. Confuso? O som de vibrações cosmopolitas do grupo distingue-se pela variedade, embora resvale para certos clichés de Bebel Gilberto, Thievery Corporation, Suba ou Zero7. Ainda assim, o registo leva o auditor numa viagem musical apelativa que percorre a tradição do Brasil (a bossa nova), de Manhattan, de Berlim, de Paris (o ambiente film noir), de Nova Iorque...sem sair do conforto do sofá da sala.
(Verve, Fevereiro 2005)








Mayday - Bushido Karaoke (8/10)

O terceiro álbum da banda do taciturno crooner Ted Stevens coloca a angústia existencial ao serviço do rock'n'roll. Bushido Karaoke é uma jornada musical declaradamente americana que, com o suporte do piano, do banjo e do violino, compõe cenários de melancolia e nostalgia, com texturas de harmonia rock 50's. Os arranjos são de excelente nível e sublinham a condição rústica da abordagem de Stevens a destinos transcendentais e diversificados, relembrando Nick Cave. A sonoridade resulta enigmática e profusa, conferindo um espaço próprio a cada instrumento, sem minorar a opulência a opulência instrumental de cada peça, num registo polido e transparente. Ouvir Bushido Karaoke é descobrir que uma canção saudosista e triste também pode ser uma grande canção.
(Saddle Creek, Junho 2005)








Turin Brakes - JackInABox (5/10)

Depois do alcance do álbum Ether Songs (2003), Olly Knights e Gale Paridjanian tinham pela frente um encargo custoso: não deslustrar a excelência do disco anterior. Pois bem, num registo mais pop e menos folk, o duo britânico propõe, no seu novo trabalho, um som limpo e certinho, simpaticamente convencional, com bons arranjos, num tom solarengo e fluente mas que não foge aos lugares comuns e à mediania. Do alinhamento de JackInABox, além de "Asleep With the Fireflies" e "Over and Over", nada parecer escapar à condição frívola de uma pop insípida, inconsequente e, mais do que isso, quase sem propósito. Um passo atrás.
(Astralwerks, Junho 2005)







The Russian Futurists - Our Thickness (6/10)

Terceiro longa-duração da one man band do canadiano Matthew Hart, Our Thickness acolhe uma sonoridade que evoca os Magnetic Fields ou os Flaming Lips, graças ao recurso a ornamentos electrónicos para embelezar melodias pop. As composições são sólidas e a sobre-produção de algumas pistas do alinhamento torna o disco um festim exuberante de pop majestosa e consciente da sua dimensão eufónica. O mosaico de Our Thickness é saturado de ingredientes engenhosos e atraentes, mas com sentido desiquilibrado de proporção. Hipérbolico, multifacetado, revigorante e paradoxal, o último trabalho de Hart é um enigma que se resolve seguindo uma de duas soluções: gosta-se ou não. Em qualquer dos casos, "Paul Simon" é canção para ressoar nos tímpanos durante algum tempo.
(Upper Class, Maio 2005)

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Chuto para a lua

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Título: Chuto para a lua
Autor: Filipe Santos
Fonte: 1000Imagens