quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Tom McRae - All Maps Welcome

Apreciação final: 6/10
Edição: Sony BMG, Maio 2005
Género: Folk/Cantautor
Sítio Oficial: www.tommcrae.com








A mais recente proposta do britânico Tom McRae, o terceiro disco do seu percurso artístico, é um guia musical numa excursão através da emoção humana e dos mistérios da sublimidade da vida. A proeminência de uma toada acústica - à guitarra juntam-se o piano, o violoncelo, o clarinete e os metais - confere ao álbum um balanço sem tensões e um compromisso de evocação de reminiscências depositadas nos recessos imateriais da alma. Esse apego dedicado é a força mesmeriana de composições adultas, pequenos artefactos de honestidade quase tangível e com uma certa intuição compassiva e auto-indulgente. Daí deriva um recatado discurso de melancolia, solidão e perda, sustentado por texturas sónicas melódicas em quietude e por uma voz frágil e cativante. Tom McRae é um cantautor distinto e assina canções formosas e expressivas que captam o lirismo poético das suas letras em ruminações folk com uma produção cristalina.

All Maps Welcome é um volume lhano de canções íntegras e que certificam McRae (na sombra do ubíquo Damien Rice ou do prolífico Conor Oberst) como compositor de elite. Ainda que a algumas das faixas do alinhamento pareça faltar o toque de Midas que abrilhanta os pontos altos do disco ("Hummingbird Song", "Strangest Land" ou "Silent Boulevard"), All Maps Welcome é uma audição obrigatória para fãs do músico londrino. Dos outros melómanos, o álbum merece uma escuta atenta, a aprovação das suas aptidões e a ilação de que, independentemente da valia de um punhado de boas canções (e outros tantos instantes falhados...), All Maps Welcome não mudará o curso do globo terrestre.

terça-feira, 16 de agosto de 2005

Tom Vek - We Have Sound

Apreciação final: 7/10
Edição: Tummy Touch, Abril 2005
Género: Electrónica/Fusão/Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.tomvek.tv








24 anos, londrino, multi-instrumentalista de vistas largas, Tom Vek é peão num jogo entusiasta de estéticas sonoras multiface que casam com elasticidade insofismável a finura dos fragmentos electrónicos, a crueza eléctrica do rock de garagem e a atmosfera angular de um embalo funk taciturno. O diapasão, ao invés da guitarra, provém dos graves afirmativos do baixo, coadjuvados por vocalizações quase-psicadélicas em revérbero e interacções inteligentes com os sintetizadores. O efeito final é um som feito de texturas minuciosas, fértil em detalhes prestimosos e cujo predicado maior, uma vez superada a surpresa do primeiro contacto, é a solidez. We Have Sound é alegação autorizada em prol do som, um panfleto sonoro em defesa dos antípodas do silêncio: afinal, se temos o som porque não fazer uso dele? E Vek afirma neste trabalho um manifesto anti-silêncio versátil (na sombra dos devaneios dos Pavement, de Beck ou dos Sonic Youth) e congruente, com lances de revivalismo (há uns toques de Franz Ferdinand ou de Bloc Party aqui e ali...) e assinatura própria.

We Have Sound é um debute promissor para o jovem Vek e deixa alicerces para um edifício porvindoiro cujas formas musicais serão tão vagas e não catalogáveis como este álbum. O primeiro passo está dado e, como o músico afirma na segunda pista do alinhamento, "There is still so much to see, there is still so much to do, I cant be more than half way there". Esperemos que a metade que falta percorrer lhe traga um sentido de melodia menos ocioso e, com isso, redimensione a sua música e a aproxime da casta que se adivinha nas suas formas.

Procure na grafonola as faixas "C-C (You Set the Fire in Me)" e "I Ain't Saying My Goodbyes"

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

Serial - Brilhantes Diamantes

Apreciação final: 8/10
Edição: NorteSul, Junho 2005
Género: Hip-Hop/Funk/Sampling
Sítio Oficial: NorteSul








Rolando Sá, aka DJ Serial, é um dos membros dos Mind da Gap e arriscou lançar um trabalho a solo. O registo individual não se distancia do tom habitual do grupo portuense, sublinhando a condição hip-hop graças a uma produção calculada e diligente que, aqui e ali, incute uma toada funk (ouça-se "Sê Real"), suportada num excelente trabalho de programação, beats e sampling e num esqueleto de graves bem estruturado. A pompa sónica das composições é um dos pontos fortes deste Brilhantes Diamantes que se torna, desde a primeira audição, uma apelativa referência da cena hip-hop nacional, graças a um discurso feito de mensagens simultaneamente virulentas e zombeteiras, repletas de urbanidade e que encaixam com sobriedade no embalo magnético da porção instrumental. A solidez do álbum sai reforçada pelos influxos preciosos de uma extensa lista de convidados: Ace e Presto (companheiros nos Mind da Gap), Maze, Fuse, Mundo e Xpião (sob o pseudónimo Terrorismo Sónico), Rey e Chase e os galegos El Puto Coke e Sofia.

Brilhantes Diamantes é um dos mais robustos aspirantes ao título de álbum hip-hop nacional do ano, com Rocky Marsiano à espreita (aqui se escreverá sobre o seu trabalho em breve) e é o mais recente rebento do profícuo universo nortenho do hip-hop. Em entrevista recente, Serial descodificou o título do disco: os "diamantes" são os amigos musicais que a ele se juntam neste trabalho. É verdade que eles são pouco menos do que brilhantes, mas as genuínas pedras preciosas deste trabalho estão nas composições que Serial burilou com sapiência no recato do seu estúdio tripeiro. E, no fim de contas, Brilhantes Diamantes é mesmo um pequeno tesouro da música nacional. Recomendável.

Procure na grafonola as faixas "Brilhantes Diamantes" e "Sabes K'eu".

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Monte da lua

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Título: Monte da Lua
Autor: Ricardo Alves
Fonte: 1000Imagens

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Insula Dulcamara

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Paul Klee, Insula Dulcamara, 1938

5 rapidinhas


Deerhoof - Green Cosmos EP (7/10)

A babel dos Deerhoof está de volta. 15 minutos de genuinidade visceral, de contrastes sónicos, de delírios harmónicos e de (es)pasmo ímpar. As melodias obscuras da praxe surgem, aqui, revestidas num invólucro de arranjos orquestrais mais sumptuosos (mesmo ruidosos...) do que é usual, ajudando à concepção de micro-sinfonias em desvario. À quase cacofonia das composições junta-se a voz delicada e pueril de Satomi Matsuzaki, aventurando-se a cantar em japonês. Aparentemente desconexas e sem fluência, as estruturas melódicas invulgares revelam o oposto em traços de criatividade refrescante, num verdadeiro carrossel suspenso de esquizofrenia e doçura, cheio de surpresas. Sem rótulos, o cosmos (e a música) dos Deerhoof é isso mesmo: um universo cândido e bucólico onde se agitam freneticamente as chamas de excentricidades lunáticas e se cruzam, em cópulas pomposas, o eros e o tanatos. Afinal, monstros e criancinhas podem partilhar brincadeiras no mesmo espaço cósmico...ou não.
(Toad/Menlo Park, Junho 2005)

Procure na grafonola as faixas "Byun" e "Come See the Duck"






Brazilian Girls (7/10)

Quarteto sediado em Nova Iorque, os Brazilian Girls apresentam-se no sítio oficial como uma mistura festiva de Grace Jones, Blondie, The Sugar Cubes e Astrud Gilberto. A voz da poliglota Sabina Sciubba e uma versátil palete de efeitos electrónicos conduzem as composições por sedutores percursos de trip-hop e lounge, com ligeiros toques de funk, reggae, ska e dub. Confuso? O som de vibrações cosmopolitas do grupo distingue-se pela variedade, embora resvale para certos clichés de Bebel Gilberto, Thievery Corporation, Suba ou Zero7. Ainda assim, o registo leva o auditor numa viagem musical apelativa que percorre a tradição do Brasil (a bossa nova), de Manhattan, de Berlim, de Paris (o ambiente film noir), de Nova Iorque...sem sair do conforto do sofá da sala.
(Verve, Fevereiro 2005)








Mayday - Bushido Karaoke (8/10)

O terceiro álbum da banda do taciturno crooner Ted Stevens coloca a angústia existencial ao serviço do rock'n'roll. Bushido Karaoke é uma jornada musical declaradamente americana que, com o suporte do piano, do banjo e do violino, compõe cenários de melancolia e nostalgia, com texturas de harmonia rock 50's. Os arranjos são de excelente nível e sublinham a condição rústica da abordagem de Stevens a destinos transcendentais e diversificados, relembrando Nick Cave. A sonoridade resulta enigmática e profusa, conferindo um espaço próprio a cada instrumento, sem minorar a opulência a opulência instrumental de cada peça, num registo polido e transparente. Ouvir Bushido Karaoke é descobrir que uma canção saudosista e triste também pode ser uma grande canção.
(Saddle Creek, Junho 2005)








Turin Brakes - JackInABox (5/10)

Depois do alcance do álbum Ether Songs (2003), Olly Knights e Gale Paridjanian tinham pela frente um encargo custoso: não deslustrar a excelência do disco anterior. Pois bem, num registo mais pop e menos folk, o duo britânico propõe, no seu novo trabalho, um som limpo e certinho, simpaticamente convencional, com bons arranjos, num tom solarengo e fluente mas que não foge aos lugares comuns e à mediania. Do alinhamento de JackInABox, além de "Asleep With the Fireflies" e "Over and Over", nada parecer escapar à condição frívola de uma pop insípida, inconsequente e, mais do que isso, quase sem propósito. Um passo atrás.
(Astralwerks, Junho 2005)







The Russian Futurists - Our Thickness (6/10)

Terceiro longa-duração da one man band do canadiano Matthew Hart, Our Thickness acolhe uma sonoridade que evoca os Magnetic Fields ou os Flaming Lips, graças ao recurso a ornamentos electrónicos para embelezar melodias pop. As composições são sólidas e a sobre-produção de algumas pistas do alinhamento torna o disco um festim exuberante de pop majestosa e consciente da sua dimensão eufónica. O mosaico de Our Thickness é saturado de ingredientes engenhosos e atraentes, mas com sentido desiquilibrado de proporção. Hipérbolico, multifacetado, revigorante e paradoxal, o último trabalho de Hart é um enigma que se resolve seguindo uma de duas soluções: gosta-se ou não. Em qualquer dos casos, "Paul Simon" é canção para ressoar nos tímpanos durante algum tempo.
(Upper Class, Maio 2005)

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Chuto para a lua

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Título: Chuto para a lua
Autor: Filipe Santos
Fonte: 1000Imagens

Tunng - This is...Tunng (Mother's Daughter and Other Songs)

Apreciação final: 7/10
Edição: Static Caravan, Janeiro 2005
Género: Folk/Electrónica/Fusão
Sítio Oficial: www.tunng.co.uk









Tunng é a assinatura da dupla Mike Lindsay (produtor/guitarrista) e Sam Genders (vocalista/guitarrista) e este é o primeiro longa-duração do projecto. O padrão sonoro de Linsday e Genders é aparentemente disléxico (tal como o nome de baptismo deste conceito musical) e passa pela integração da quietude acústica da guitarra com orgânicas subliminarmente electrónicas que servem de percussão minimalista. Mas há mais para descobrir em Mother's Daughter and Other Songs: o enfoque prioritário está nos timbres folk, elementos catalisadores do casamento entre a transversalidade das referências musicais subscritas pelos Tunng (tribal, sampling, electrónica, instrumental e vanguardista) e o surrealismo que faz a alma das composições. Depois, as vocalizações dividem-se entre o sussurro confidente e o canto pastoral, conferindo ao álbum um tocante embalo hipnótico que adere ao compromisso de junção da folk e da electrónica. O primor recatado das composições sublinha esse pacto e conduz uma amálgama intemporal de estilos ao desenho de um registo monolítico de folk simultaneamente futurista e saudosista (as comparações com os primeiros trabalhos dos Beta Band ou com os Four Tet são inevitáveis...).

Embora Mother's Daughter and Other Songs adopte algumas convenções menos originais, tem também o mérito de lhes somar um alento contemporâneo que, adornado num imaginário charmoso, conta histórias de um quotidiano sinistro, melancólico e abstruso. A tal facto não é indiferente a veneração dos músicos pelo filme de terror de culto "The Wicker Man" (1973)- a dupla adoptou a música principal do filme nas suas actuações ao vivo e lançou-a em single (edição limitada a cem cópias), cuja substância musical se mantém neste trabalho. Com os Tungg, o balanço entre a poesia sorumbática e as melodias é apurado e apenas sai minorado pela ligeira redundância da dupla em certos momentos do disco. Ainda assim, Mother's Daughter and Other Songs é uma escuta altamente recomendável, especialmente para adeptos de música desafiadora de fronteiras.

Posto de escutaTale From Black

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

A melancolia

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Pablo Picasso, La Melancolie, 1902

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

Jamie Lidell - Multiply

Apreciação final: 8/10
Edição: Warp, Junho 2005
Género: Electrónica/Soul/Experimental
Sítio Oficial: www.warprecords.com/artists








Mais conhecido como uma das metades do projecto electrónico Super_Collider - que dividiu com Christian Vogel - o britânico Jamie Lidell surge, neste trabalho, no improvável exercício de cantor soul. O avizinhamento entre a estética orgânica da música de dança e os territórios da soul e do R&B concorre para a concepção de sinergias brilhantes, sempre pontuadas pela voz robusta e encorpada de Lidell, aqui metamorfoseada num registo que faria as delícias da clássica Motown. A postura desafiante de Lidell é arrojada o bastante para promover a junção, com um apurado sentido de proporção, das estruturas costumeiras da soul das décadas de 50 e 60 com os ingredientes electro. Assim, Lidell consegue uma retórica musical que é simultaneamente retrógrada - a evocar Sam Cooke, Curtis Mayfield, Marvin Gaye ou Otis Redding - e actual - pelo experimentalismo que faz lembrar Herbie Hancock ou os Prefuse 73. A produção super-moderna e de calibre superior pauta o tom cinético das composições e sublinha a exuberância quase libertina de Lidell, numa genuína viagem que resgata a soul de tempos imemoriais e a reveste com um infalível invólucro de vanguardismo.

Cinco anos depois da sua última edição discográfica, Jamie Lidell ressurge numa imprevista e reverente convocação das raízes da soul. Todavia, a nostalgia não se torna meramente mimética, antes cede o seu lugar ao esculpir de um som ímpar, de alma negra (a pele do rapaz não é da cor do ébano...) e acrobático, feito de tons elásticos, divertidos e enérgicos. Com este trabalho, Lidell prova à saciedade que não é desonra tomar como modelo os clássicos de ontem; o mérito maior do último disco do músico britânico é mesmo o que anuncia no título: a multiplicação dos méritos da soul. Multiply é soul na mais pura essência. Ame-se ou odeie-se, é um grande disco.

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

Hanne Hukkelberg - Little Things

Apreciação final: 7/10
Edição: Leaf, Junho 2005
Género: Electro-Pop/Jazz
Sítio Oficial: www.hannehukkelberg.com








Ela é norueguesa, tem vinte e seis anos e apresenta-se em disco pela primeira vez. Traz na voz um alento de candura cristalina, em intimidades quase sussurradas - algures entre uma Nina Simone, uma Cat Power, uma Björk dos dias mais calmos ou uma Stina Nordenstam - que deposita em canções cheias de carisma e personalidade. Há em Little Things uma essência encantatória a que sucumbe o ouvido mais duro, rendido à expressão delicada da pura emoção em música, numa celebração da subtileza com texturas preciosas e arranjos de eleição. A música de Hukkelberg é um mutante amparado por Calíope e que descende da electrónica, da folk, da pop e do jazz; a esses influxos, a autora junta o invulgar ajutório de um catálogo sónico que inclui banjos, harpas, clarinetes, vibrafones, tubas, oboés, xilofones, acordeões e uma miríade de sons do quotidiano, trazidos a estúdio para a construção de um mosaico lo-fi meticuloso, ordenado e a abarrotar de minudências generosas. As faculdades compositoras de Hukkelberg demarcam-se de dogmas e definem máximas próprias, evitando o atalho tentador dos refrões imediatos e desenhando um traço peculiar de eufonias desembaraçadas e sensíveis.

Little Things é uma serenata íntima, quase proibida, um afectuoso embalo, um cintilante raio luminoso...feito de pequenas coisas. Ainda que a algumas pistas falte a grandiloquência de "Little Girl", "Cast Anchor" ou "Words & A Piece of Paper", o disco de estreia de Hukkelberg não pode deixar de ser considerado um hábil exercício contorcionista com meneios eclécticos, executado sobre uma nuvem de algodão branco. Ou será um fiorde em côr de rosa?

terça-feira, 2 de agosto de 2005

Weird War - Illuminated by Light

Apreciação final: 7/10
Edição: Drag City, Abril 2005
Género: Indie Rock
Sítio Oficial: www.weirdwarworld.com








O projecto Weird War provém das ruínas dos Royal Trux e dos The Make Up e apresenta o seu terceiro longa-duração, eventualmente o trabalho mais coeso de um percurso iniciado há três anos. O argumento central de Illuminated by Light é a desconstrução de clichés do rock graças à subscrição de preceitos algo minimalistas e nostálgicos da década de 70, a que se junta, com sobriedade, uma melopeia dançável e sedutora que resulta como um improvável sedativo para um dia de trabalho. Há neste álbum alguma da irreverência de Zappa e pedaços do diletantismo vago dos T-Rex, adornados por uma produção sóbria e proporcionada. O balanço retro de Illuminated by Light marca pontos desde a primeira faixa do alinhamento, assente nas guitarras em espiral de Alex Minoff, no baixo esparso de Michelle Mae e nas vocalizações sussurradas e psicadélicas, às vezes histriónicas, do hiperbólico Ian Svenonius.

Em entrevistas recentes, os elementos dos Weird War admitiram não perder muito tempo na composição das canções. E isso sente-se no disco, com implicações ambivalentes: se é positivo que a inspiração seja depositada em bruto, sem corantes ou conservantes, somando às composições um vital ingrediente de jam session, não é menos verdade que a audição contínua de Illuminated by Light denuncia a aliteração e o enfado repetitivo do alinhamento. Omitido esse pormenor, reconhecidos os créditos individuais e a vocação irónica, enigmática e teatral das canções, Illuminated by Light revela-se um álbum atractivo e que revalida Svenonius e seus pares como um dos ensembles iluminados da cena indie. Neste caso, contudo, a equação Ying-Yang não falha: a luz que ateia a chama do génio dos Weird War é a mesma que produz umas quantas sombras...

Posto de escutaIlluminatedGirls Like ThatMotorcycle Mongoloid
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sexta-feira, 29 de julho de 2005

Sol Nascente

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Paul Klee, Rising Sun, 1919

Matthew Herbert - Plat du Jour

Apreciação final: 7/10
Edição: Accidental, Junho 2005
Género: Electrónica Vanguardista
Sítio Oficial: www.platdujour.co.uk








O experimentalista Matthew Herbert aprecia a diluição de fronteiras entre os diversos géneros de música electrónica e fá-lo assumindo recorrentemente a militância a receitas vanguardistas. Assim, combinando os princípios básicos da electro com a versatilidade do sampling e a originalidade do recurso a sons do quotidiano, Herbert desenha harmonias sonoras desafiadoras de qualquer tipificação. Regressado ao preceito electrónico que não existia no jazzístico Goodbye Swingtime (2003), Herbert sugere uma viagem musicada aos meandros menos claros da indústria alimentar moderna e, através de Plat du Jour, o músico deixa-nos um manifesto poético de aversão aos ardis do fast-food. Para contextualizar o tema com a música, Herbert lança mão de sons relacionados e/ou produzidos por alimentos, panelas e tachos, batedeiras e outros electrodomésticos de cozinha, conferindo ao disco um ambiente raro e original, por vezes trazendo à memória a marca pomposa dos Stomp. Apesar da peculiaridade mecânica das texturas, as composições revelam uma certa profundidade melódica que, se não é percebida nos primeiros contactos pelos ouvidos menos treinados, se mostrará com audições sucessivas.

Plat du Jour é um ensaio idealista de Herbert cujas motivações se arrolam no imperdível sítio oficial de suporte do disco (www.platdujour.co.uk), onde também se descrevem com minúcia as peripécias por detrás de cada uma das gravações e as origens detalhadas dos sons utilizados. Dois anos de pesquisa e seis meses de gravações estão compilados em Plat du Jour, um título maioritariamente instrumental (apenas "Celebrity" conta com a voz de Dani Siciliano), irreverente, político, crítico e, acima de tudo isso, categoricamente inventivo. A não perder. Herbert pode não ser mestre-cuco mas conhece a receita para urdir um álbum que seja, simultaneamente, um devaneio artístico, uma declaração de censura e uma experiência musical única. Plat du Jour é esse disco.


Procure na grafonola os temas "The Truncated Life of a Modern Industrialized Chicken" e "Nigella, George, Tony and Me"

quarta-feira, 27 de julho de 2005

O antipapa

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Max Ernst, The Antipope, 1941-42


O Antipapa é um reclamante ilegítimo do Sumo Pontifício da Santa Sé. Registos históricos apontam mais de três dezenas de personalidades que exerceram ilegalmente funções pontificais, sem investidura canónica, geralmente em oposição ao Papa legítimo ou aproveitando ocasiões em que o título estava vago.

4 rapidinhas


Nine Inch Nails - With Teeth (6/10)
Trent Reznor é o protagonista maior dos Nine Inch Nails - cada vez mais uma one man band - um dos mais bem sucedidos projectos da cena industrial. A mistura equilibrada da electrónica assombrada com as furiosas distorções de guitarra continua a ser o preceito essencial neste novo trabalho, não há em With Teeth ingredientes novos. Ainda assim, trata-se de um registo consistente, talvez um pouco formulista (tipicamente NIN...) mas que garante a Reznor a permanência no pelotão da frente deste género de sonoridade.
(I Nothing, Maio 2005)

Procure na grafonola os temas "The Hand That Feeds" e "Sunspots"





Toranja - Segundo (6/10)
Depois do álbum Esquissos (2004) ter colocado esta banda no mapa da música pop nacional, o segundo trabalho dos Toranja assume uma postura declaradamente mais rock - as inevitáveis baladas não deixam de figurar no alinhamento - mas também sobejamente contida e incapaz de dotar a sonoridade do grupo de elementos menos triviais. Disco de contrastes, Segundo traz uma ou outra faixa bem conseguida mas não escapa à mediania dos seus próprios limites, ainda que deixe pistas para Tiago Bettencourt e seus pares seguirem em trabalhos vindouros.
(Universal, Maio 2005)

Procure na grafonola o tema "Música de Filme"





Summer at Shatter Creek - All the Answers (5/10)
Projecto indie pop de Craig Gurwich que sublinha um tom depressivo, introspectivo e melancólico, com a gentil intimidade de um registo maioritariamente acústico e de uma voz delicada (a lembrar Thom Yorke?). O problema: All the Answers resvala para a monotonia por força da paridade entre as composições.
(Bad.Man, Março 2005)

Procure na grafonola o tema "You Don't Have To Be Perfect"





Black Eyed Peas - Monkey Business (4/10)
A visão folgazã e descomprometida do hip-hop que os Black Eyed Peas propõem sonda diversas influências e tenta aglutiná-las pelo recurso a fórmulas mainstream. O resultado é, neste Monkey Business, uma confusa amálgama de géneros que, ao invés de provar a versatilidade dos músicos, atesta inequivocamente a indefinição do género musical que proclamam, em prejuízo da coesão do disco. Entre as inúmeras escorregadelas e tropeções do álbum (os convidados de luxo como James Brown, Jack Johnson, Talib Kweli ou Justin Timberlake não fazem milagres...), salva-se a diversão garantida em festas de garagem teen...
(A&M, Junho 2005)

Procure na grafonola o tema "Gone Going" (w/ Jack Johnson)

terça-feira, 26 de julho de 2005

Röyksopp - The Understanding

Apreciação final: 7/10
Edição: Astralwerks, Julho 2005
Género: Dança/Trip-Hop
Sítio Oficial: www.royksopp.com








A dupla norueguesa Röyksopp despertou o mundo musical para a sua electrónica downbeat com o extraordinário Melody A.M., chegado às lojas em 2001. Por essa altura, composições como "Eple", "Poor Leno" ou "Sparks" tornaram-se hinos da electrónica e catapultaram o grupo para o estrelato. Também por isso, quem espera encontrar em The Understanding um herdeiro símil do álbum anterior, não evitará uma impressão de surpresa. O som de Svein Berge e Torbjorn Brundtland retém a atmosfera escandinava mas deriva para orgânicas mais recheadas, onde se cruzam influências dos maneirismos da música de dança do resto da Europa e uma toada de sofisticado relaxe, simultaneamente nocturno, íntimo e sensual. O enfoque no detalhe é reiterado e junta-se-lhe um compromisso firme com a casta das composições e das vocalizações - a esse título é pouco menos do que brilhante a colaboração de Karin Dreijer (dos Knife) na faixa "What Else is There?". A tonalidade mais dançável das canções é também mais taciturna e atesta a elasticidade dos Röyksopp na expansão dos seus próprios limites (será que os têm?) que distam igualmente, em The Understanding, da música ambiental e do house. A pecha: algumas das composições soam a tiros no escuro, perdem-se na hipérbole da fórmula copy-paste das estruturas electrónicas dos sintetizadores.

The Understanding é um ponto de viragem no percurso dos Röyksopp e reorienta a ciência musical do grupo norueguês para paisagens não exploradas em Melody A.M.. Se, em alguns instantes, o novo trabalho é brilhante e reforça a prolificidade da dupla, há outros momentos em que a coesão do disco parece hipotecada à veemente tentação para abrir as melodias a preceitos radio-friendly que mais não fazem do que minorar os méritos de The Understanding. Desprezado esse pormenor (mesquinho?), o registo mais recente dos Röyksopp consegue revelar-se um tomo de canções com encantos numerosos.

Posto de escutaSombre DetuneWhat Else is There?Alpha Male
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segunda-feira, 25 de julho de 2005

Frank Black - Honeycomb

Apreciação final: 7/10
Edição: Back Porch, Julho 2005
Género: Pop-Rock Alternativo/Cantautor
Sítio Oficial: www.frankblack.net








Depois do esbarrondamento dos míticos Pixies, algures em 1993, Frank Black embarcou numa cruzada a solo. Apesar da mediática reunião ao vivo da antiga banda, o músico arranjou tempo - Honeycomb foi gravado em quatro dias em Abril de 2004 - para se recolher em Nashville (a Meca da country), na companhia dos lendários guitarristas Steve Cropper e Buddy Miller e do teclista Spooner Oldham e gravar este disco. A primeira nota que ressalta deste trabalho é o intimismo das composições, de tal jeito que o álbum é, de entre os registos da carreira de Black, o que mais se abeira do formato típico de um disco de cantautor. A invulgar exposição pessoal que o compositor arrisca neste corpo de canções é substância nova no seu percurso e surpreenderá aqueles que buscarem a encriptagem emblemática das letras da era-Pixies. Transparente, pessoal e melancólico, Honeycomb é um exercício de maturidade criativa entre a música country clássica e o R&B convencional, com um delicado gosto rock Dire Straits sublinhado pelas texturas sensatas da guitarra de Cropper.

Honeycomb é um dos melhores trabalhos de Black a solo e, mesmo apartando-se da perversidade punk dos Pixies, é um disco que seduz pela brandura das matizes sonoras e pela excelência de algumas canções, dignas de figurarem no hall of fame para este ano. Se no rasto do êxito da reunião dos Pixies seria expectável uma edição discográfica comemorativa desse facto, o que surgiu nos escaparates das discotecas foi o álbum mais não-Pixies do antigo líder da banda. Mas, afinal (e ainda bem...), Frank Black foi sempre do contra...

Posto de escutaSunday Sunny Mill Valley Groove DayI Burn TodaySelkie Bride
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Gunung Bromo

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Título: Gunung Bromo
Autor: Joel Santos
Fonte: 1000Imagens

sexta-feira, 22 de julho de 2005

Heavy Trash

Apreciação final: 7/10
Edição: Yep Roc, Abril 2005
Género: Rockabilly
Sítio Oficial: www.heavytrash.net








O projecto Heavy Trash é o resultado da união musical entre o prolífico Jon Spencer, a mente principal dos agitadores Blues Explosion, e Matt Verta-Ray, o mentor dos Speedball Baby. Os intentos costumeiros do percurso desta dupla passam pela reabilitação do blues-rock, normalmente recorrendo a texturas sonicamente complexas em que se sobrepõem, com esfuziante vivacidade, os elementos instrumentais. Desta vez, porém, o propósito das composições é distinto: Heavy Trash é consideravelmente menos denso, sem corantes nem conservantes; é puro rockabilly, com guitarras despidas, graves recatados e percussões ligeiras. E muita, muita brilhantina. Mas o revivalismo não está sozinho neste disco. Spencer e Verta-Ray recordam o passado pelos vectores do presente e, por isso, há neste álbum ensejo para subtis laivos de modernismo, como os feedbacks ou os loops. O som de Heavy Trash é polido, cru, transparente e tremendamente apelativo. Pura diversão 50's.

Heavy Trash prova que o formato rockabilly não está morto e que, cinquenta anos depois, ainda é revigorante escutar as vocalizações com eco e as guitarras ondeantes. Mesmo não passando por aqui a novidade - a convocação dos The Cramps, de Gene Vincent ou dos Stones é inevitável - o entretenimento que deriva do genuíno espírito rock'n'roll das composições conquista o ouvinte desde o primeiro segundo e estimula um irreprimível impulso para dançar. A quintessência do rock passa por aqui...

Posto de escutaDark Hair'd RiderLover StreetWalking Bum
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terça-feira, 19 de julho de 2005

A fonte

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Gustave Courbet, The Source, 1868

Engineers

Apreciação final: 7/10
Edição: The Echo Label, Março 2005
Género: Indie Pop-Rock/Dream Pop
Sítio Oficial: www.engineersweb.net








Uma visita à biografia aposta no sítio oficial do quarteto londrino Engineers permite descobrir uma banda de noções precisas, em discurso directo espontâneo e que, por vezes, roça o pretensiosismo. Seguindo uma linha de rumo que esboçaram para o seu porvir, os Engineers dizem-se diferentes, arrogam-se da destreza para avocarem esse estatuto e propõem o seu registo sónico como uma combinação profunda de emoção e experimentalismo. Escutando o álbum homónimo de apresentação do projecto, há que conceder-lhes alguma razão: é notória a dimensão astral das composições, no estilo a que as convenções musicais gostam de chamar dream pop. De facto, as intrincadas texturas rock que servem de sustentáculo às canções são polidas graças a uma produção alisadora de vértices e vocalizações feéricas, em acoplamentos mestres da intemporalidade de influências veteranas como Brian Eno ou os Spiritualized e de inspirações contemporâneas como os Low, os Doves ou a brit pop. Como se tal não bastasse, a isto acresce um compromisso de redimensionar a pop a medidas quase-sinfónicas e eventualmente anacrónicas. Assim, sem temor de fincar um cunho próprio, o projecto Engineers mostra-se num disco monolítico, quente e melancólico; as promessas deste debute deixam antever uma banda com um destino risonho e que ajudará, na companhia dos compatriotas Kasabian, a mostrar que a música britânica não se fecha nos Coldplay ou nos Keane.

Engineers é um tomo de canções. Ponto final. É também um exercício de engenharia precisa e comedida (o que seria de esperar de um grupo com este nome?) e aí reside o único pormenor de deslustre: a produção tem prioridade, as mais das vezes, sobre a escrita. Percebam os Engineers esse equívoco e vençam o constrangimento auto-imposto face ao vigor catártico do rock ("One in Seven" é a única faixa que não se envergonha das distorções) e podem tornar-se um caso sério no universo indie. Aguardam-se novos capítulos deste projecto promissor.

Posto de escutaHomeNew HorizonsOne in Seven
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segunda-feira, 18 de julho de 2005

4 rapidinhas


Shipping News - Flies the Fields (6/10)
Novo trabalho de um trio comummente associado a sonoridades densas que partem de riffs pós-rock entrecortados pela presença tímida de uma voz sussurrada, em ritmos desafiantes e atmosféricos. Sem grandes brilhantismos, o álbum apresenta instantes organicamente ricos com os graves de um baixo sorumbático, guitarras angulares e percussões intensas.

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(Quarterstick, Março 2005)





Ali Farka Touré & Toumani Diabaté - In the Heart of the Moon (8/10)
Quando se juntam a guitarra mágica de Ali Farka Touré e a kora (harpa de 21 cordas da África Ocidental) enleante de Toumani Diabaté, duas lendas vivas da música do Mali, o resultado só pode ser arrebatador. Um diálogo musical permanente entre a tradição do desert blues de Touré - ligado à culturas songrai e puel - e o elo virtuoso da cultura mandé de Diabaté. As sinergias são óbvias - o disco foi gravado em três tardes consecutivas, sem segundos takes - e confirmam o talento de dois dos maiores expoentes da pátria-mãe do blues e do jazz, (a esse propósito ver Du Mali au Mississipi, documentário assinado por Martin Scorsese), aqui reunidos numa preciosidade da música mundial.

Espreite a grafonola para escutar o tema "Kaira"

(World Circuit, Junho 2005)





Seu Jorge - Cru (7/10)
O Mané "Galinha" do filme Cidade de Deus também é desembaraçado na música e, depois da participação na colectânea Favela Chic e do lançamento do primeiro álbum Samba Esporte Fino(2002), está de regresso com novo trabalho. Seu Jorge é mensageiro de um som que herda a linhagem do mais fino samba, na linha de Zeca Pagodinho, e a cruza virtuosamente com o classicismo de João Gilberto. Deliciosa é a versão á la Waits de "Chatterton", tema original de Serge Gainsbourg. Recentemente lançado no Brasil, depois da aceitação no mercado francês, Cru é um disco sólido e que faz jus ao preceito sublinhado no sítio do artista : "o samba é a nossa verdade, nossa particularidade, nossa medalha de ouro, nosso baluarte, nosso estandarte brasileiro".

Espreite a grafonola para escutar os temas "Tive Razão" e "Chatterton"

(Naïve, Março 2004)





Billy Corgan - TheFutureEmbrace (5/10)
Depois da implosão do projecto Zwan, Corgan partiu em expedições fantasistas pela electrónica, num registo que apresenta o fluido de uns Smashing Pumpkins filtrados num passe-vite, onde as drum machines, os sintetizadores e as guitarras camufladas servem de cartão de visita a uma liturgia auto-indulgente, em rompimento com o passado, mas cujo impacto maior não vai além da insipidez das composições. Salva-se "Mina Loy".

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(Warner, Junho 2005)

O beijo

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Max Ernst, The Kiss, 1927

Clap Your Hands Say Yeah

Apreciação final: 8/10
Edição: Clap Your Hands Say Yeah, Junho 2005
Género: Indie Pop
Sítio Oficial: www.clapyourhandssayyeah.com







Quinteto de Brooklyn, os Clap Your Hands Say Yeah apresentam-se numa edição de autor de que muito se tem falado (e escrito) em terras de Tio Sam. Entre os cotejos recidivos com os Violent Femmes, os Arcade Fire ou Talking Heads (dá para mascarar?), Alec Ounsworth e seus pares inventaram um disco que, além de revigorar o conceito art-pop, os leva um pouco adiante daqueles estímulos, num registo profundamente emocional e singularmente apelativo e que, graças a uma dinâmica invulgar de incitamentos criativos, se reinventa ao longo das doze faixas de um alinhamento melodioso. O júbilo das harmonias não é, contudo, feito de instantes excessivamente melosos, antes deriva de uma orgânica instrumental expedita e da elasticidade vocal de Ounsworth que, sem pejo de comparações e sem a asfixiante obsessão de criar a next big thing, afirmam um estilo próprio. E se é certo que não se trata de uma assinatura particularmente inovadora - o traço dos Clap Your Hands Say Yeah não mudará o curso da música - não é menos verdade que este disco homónimo propõe um corpo convincente de canções (o tema circense de abertura é a única falha) e que certifica os CYHSY como mais que provável revelação do ano.

Clap Your Hands Say Yeah tem qualquer coisa de enleante e docemente assombrado e conduz o ouvinte a um retemperante universo de paisagens sónicas louçãs, desenhadas com a mestria, o talento e a perseverança de uma banda que nos lega uma obra digna de repousar nas nossas memórias por muito tempo. Os Clap Your Hands Say Yeah são rock, pop, indie, retro, art...E depois de escutar este disco é (quase) impossível não sentir um impulso repentino e inadiável para bater palmas e clamar a plenos pulmões: Yeeeaaahhhhh!!.

Posto de escutaIn This Home on IceUpon This Tidal Wave of Young BloodOver and Over Again (Lost & Found)
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sexta-feira, 15 de julho de 2005

Xiu Xiu - La Forêt

Apreciação final: 7/10
Edição: 5 Rue Christine, Julho 2005
Género: Pós-Rock/Experimental/Noise/Electrónica
Sítio Oficial: www.xiuxiu.org








Desde o despretensioso Fabulous Muscles (2004), o projecto Xiu Xiu entrou impetuosamente na relação de culto de muitos melómanos - o autor desta peça incluído - e, por força disso, o lançamento do novo trabalho era aguardado com expectativas avultadas. O conceito sonoro das canções de Jamie Stewart mantém o acento tónico numa espessa fusão de géneros paradoxais, em reflexo de emoções rebuscadas e pactos ininteligíveis. Em La Forêt há, contudo, uma diferença: a electrónica incisiva e quase percuciente do trabalho anterior ("Muppet Face" é a faixa mais parecida) é aqui trocada por um background mais ecléctico, com vibrafones e harpas. A esses elementos juntam-se a orgânica idiossincrásica dos Xiu Xiu, as melodias irresolutas, a voz frágil, estruturas temporais irregulares e os espasmos inesperados de noise music. Além disso, as palavras prosseguem em surreais devaneios de lamento, em demanda de uma purgação improvável nas campinas estéreis dos sonhos, do ódio e do amor.

La Forêt é um disco ambivalente e perturbador que oculta, sob as chagas e traumas das árvores de uma imensa floresta negra imaginária, a puerilidade cacofónica das texturas que, afinal, é o testemunho cabal da robustez das composições. Mais (a)variado do que Fabulous Muscles, este álbum converte-se numa psicadélica confissão, numa expiração de demónios interiores que, além da beleza sinistra da música, mostra ao ouvinte um enternecedor triunfo do crepúsculo sobre a aurora, a subjugação romântica do resplendor solar ao lado lunar da alma. Uma fábula com remate inditoso pode também ser delicadamente bela...assim é a floresta negra e esdrúxula dos Xiu Xiu.

Posto de escutaCloverMuppet FacePox
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quinta-feira, 14 de julho de 2005

O palhaço

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Georges Rouault, The Clown, 1907

AFX - Analord (Vol. 1-11)

O galês Richard D. James, mais conhecido pelo epíteto Aphex Twin, é um dos ícones do vanguardismo na música electrónica, partindo de formatos techno (o preceito base do seu percurso artístico) e acolhendo interposições da música ambiente, do acid, do drum'n'bass e da IDM (Intelligent Dance Music). Movendo-se habilmente nesses cenários, o produtor e instrumentalista adoptou o cognome AFX e lançou a colecção Analord, um grupo de edições single em vinil, com lançamento na primeira metade deste ano. Pode escutar amostras de todos os volumes aqui.


Analord 1 (4/10)
Formalmente complexo e ritmicamente elaborado, o primeiro volume desta colecção apresenta um precisão quase mecânica e electrizante, recheada com uma opulência orgânica que preenche as composições com certo dislate. As melodias são reduzidas ao mínimo, em sete faixas de pura IDM e techno experimental com mais quilos.
(Rephlex, Janeiro 2005)





Analord 2 (6/10)
Numa toada ligeiramente menos pesada e mais simples do que a do tomo anterior, Analord 2 é mais melódico e subliminarmente mais pausado, deixando espaço para a intervenção individual dos instrumentos e para a incursão por espaços mais contemplativos.
(Rephlex, Janeiro 2005)





Analord 3 (7/10)
Com texturas ricas em detalhes e nuclearmente centradas, é o fascículo mais inventivo e experimental da série e deriva de estruturas techno para outras abordagens electrónicas, com melodias adiadas e um som mais urbano do que os dois volumes anteriores.
(Rephlex, Fevereiro 2005)





Analord 4 (5/10)
A quarta extensão da colecção Analord retoma percursos mais harmoniosos e de concordâncias melódicas, ainda que abreviados a uma lógica electrónica feita de sons esparsos e sintéticos que povoam ritmos mais ou menos definidos e subconscientemente mais sombrios.
(Rephlex, Fevereiro 2005)





Analord 5 (5/10)
Mais experimental e utopista, é também o registo mais vago da série, com duas composições de rumo incerto, pausadas e sorumbáticas, e que alinham com algum desajuste as batidas computorizadas por um fio de prumo invisível.
(Rephlex, Março 2005)





Analord 6 (6/10)
Beats bem urdidas e composições coerentes, com alguma esquizofrenia orgânica, e que, não abandonando o vector experimental, seguem uma regra melódica razoável e bem próxima do arquétipo Aphex Twin.
(Rephlex, Março 2005)





Analord 7 (7/10)
Espaço mais melodioso e que enquadra, numa amálgama acid/house/techno devidamente ponderada, uma noção de música de câmara, também ambiental (especialmente em "Lisbon Acid"). O experimentalismo é mais moderado (a excepção é "Pitcard") e a riqueza orgânica mantém-se.
(Rephlex, Abril 2005)





Analord 8 (7/10)
Talvez o mais dançável e mais profícuo dos tomos da série, não perde de vista os ingredientes clássicos de AFX, aqui re-equilibrados num timbre low profile e simultaneamente mais enigmático.
(Rephlex, Maio 2005)





Analord 9 (6/10)
Batidas mais aceleradas, misturadas com ruídos estranhos e volubilidade lento-rápido, a culminar em descargas eléctricas inopinadas, num estilo que memora o projecto Venetian Snares e que deixa uma margem reduzida para o meneio da melodia.
(Rephlex, Junho 2005)





Analord 10 (6/10)
Apenas duas faixas em discurso directo e mais suave, com percussões mais elásticas e que pontuam composições mais dilatadas mas sem rasgos inventivos assinaláveis.
(Rephlex, Junho 2005)





Analord 11 (5/10)
Um pouco mais revivalista do que qualquer um dos outros volumes da série Analord, há aqui reminiscências dos anos 80, com sintetizadores mais melódicos e sons distorcidos, num retiro quase tímido e devoto da meditação.
(Rephlex, Julho 2005)

terça-feira, 12 de julho de 2005

Whitey - The Light at the End of the Tunnel is a Train

Apreciação final: 7/10
Edição: 1234 Records, Fevereiro 2005
Género: Electroclash/Electrónica/Fusão
Sítio:www.1234records.com








O reputado multi-instrumentalista e produtor britânico Nathan J. Whitey apresenta-se num álbum em nome próprio, depois de se ter dado a conhecer às lides musicais em virtuosas remisturas de Bloc Party, Kyllie Minogue, Soulwax ou New Order. Neste trabalho, fazendo jus à sua condição de artesão dos sete ofícios, o músico assina todas as instrumentalizações e vozes do álbum, compondo um corpo de canções que se repartem em dois tons: por um lado, há um fino travo electro-clash, sublinhado nas primeiras quatro faixas do alinhamento - onde a sedução do rock de garagem, navegando nos graves do baixo, se confunde com a batida metronómica do funk - e, por outro, no resto do disco, um trejeito sonoro mais introspectivo, mais manipulador das virtudes electrónicas e mais contemplativo (com menos fé?). A essa aparente bifurcação, quiçá penalizadora da coesão do registo, se associa uma energia convulsiva e um elemento-surpresa impregnado de infusões da música de dança e do rock, nas mais variadas formas.

The Light at the End of the Tunnel is a Train é um volume discográfico de vistas largas e meneia-se com sensualidade entre as fronteiras de um género musical fresco e criativo, também gerador de impulsos indomáveis cujo resultado óbvio é o irreprimível desejo de bater o pé na cadência das composições de Whitey. E seguir-lhes o embalo dançável que se segura na voz enigmática, às vezes sinistra, do músico britânico. Depois há influências prestigiantes: New Order, Colder, Jesus and Mary Chain, Kraftwerk, Suicide, um cheirinho de Queens of the Stone Age (em "Halfway Gone")...é preciso dizer mais? Um disco (e um artista) a descobrir. Sem rótulos.

Espreite a grafonola para ouvir quatro temas completos deste álbum.

Excited People

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Emile Nolde, Excited People, 1913