segunda-feira, 18 de julho de 2005

O beijo

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Max Ernst, The Kiss, 1927

Clap Your Hands Say Yeah

Apreciação final: 8/10
Edição: Clap Your Hands Say Yeah, Junho 2005
Género: Indie Pop
Sítio Oficial: www.clapyourhandssayyeah.com







Quinteto de Brooklyn, os Clap Your Hands Say Yeah apresentam-se numa edição de autor de que muito se tem falado (e escrito) em terras de Tio Sam. Entre os cotejos recidivos com os Violent Femmes, os Arcade Fire ou Talking Heads (dá para mascarar?), Alec Ounsworth e seus pares inventaram um disco que, além de revigorar o conceito art-pop, os leva um pouco adiante daqueles estímulos, num registo profundamente emocional e singularmente apelativo e que, graças a uma dinâmica invulgar de incitamentos criativos, se reinventa ao longo das doze faixas de um alinhamento melodioso. O júbilo das harmonias não é, contudo, feito de instantes excessivamente melosos, antes deriva de uma orgânica instrumental expedita e da elasticidade vocal de Ounsworth que, sem pejo de comparações e sem a asfixiante obsessão de criar a next big thing, afirmam um estilo próprio. E se é certo que não se trata de uma assinatura particularmente inovadora - o traço dos Clap Your Hands Say Yeah não mudará o curso da música - não é menos verdade que este disco homónimo propõe um corpo convincente de canções (o tema circense de abertura é a única falha) e que certifica os CYHSY como mais que provável revelação do ano.

Clap Your Hands Say Yeah tem qualquer coisa de enleante e docemente assombrado e conduz o ouvinte a um retemperante universo de paisagens sónicas louçãs, desenhadas com a mestria, o talento e a perseverança de uma banda que nos lega uma obra digna de repousar nas nossas memórias por muito tempo. Os Clap Your Hands Say Yeah são rock, pop, indie, retro, art...E depois de escutar este disco é (quase) impossível não sentir um impulso repentino e inadiável para bater palmas e clamar a plenos pulmões: Yeeeaaahhhhh!!.

Posto de escutaIn This Home on IceUpon This Tidal Wave of Young BloodOver and Over Again (Lost & Found)
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sexta-feira, 15 de julho de 2005

Xiu Xiu - La Forêt

Apreciação final: 7/10
Edição: 5 Rue Christine, Julho 2005
Género: Pós-Rock/Experimental/Noise/Electrónica
Sítio Oficial: www.xiuxiu.org








Desde o despretensioso Fabulous Muscles (2004), o projecto Xiu Xiu entrou impetuosamente na relação de culto de muitos melómanos - o autor desta peça incluído - e, por força disso, o lançamento do novo trabalho era aguardado com expectativas avultadas. O conceito sonoro das canções de Jamie Stewart mantém o acento tónico numa espessa fusão de géneros paradoxais, em reflexo de emoções rebuscadas e pactos ininteligíveis. Em La Forêt há, contudo, uma diferença: a electrónica incisiva e quase percuciente do trabalho anterior ("Muppet Face" é a faixa mais parecida) é aqui trocada por um background mais ecléctico, com vibrafones e harpas. A esses elementos juntam-se a orgânica idiossincrásica dos Xiu Xiu, as melodias irresolutas, a voz frágil, estruturas temporais irregulares e os espasmos inesperados de noise music. Além disso, as palavras prosseguem em surreais devaneios de lamento, em demanda de uma purgação improvável nas campinas estéreis dos sonhos, do ódio e do amor.

La Forêt é um disco ambivalente e perturbador que oculta, sob as chagas e traumas das árvores de uma imensa floresta negra imaginária, a puerilidade cacofónica das texturas que, afinal, é o testemunho cabal da robustez das composições. Mais (a)variado do que Fabulous Muscles, este álbum converte-se numa psicadélica confissão, numa expiração de demónios interiores que, além da beleza sinistra da música, mostra ao ouvinte um enternecedor triunfo do crepúsculo sobre a aurora, a subjugação romântica do resplendor solar ao lado lunar da alma. Uma fábula com remate inditoso pode também ser delicadamente bela...assim é a floresta negra e esdrúxula dos Xiu Xiu.

Posto de escutaCloverMuppet FacePox
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quinta-feira, 14 de julho de 2005

O palhaço

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Georges Rouault, The Clown, 1907

AFX - Analord (Vol. 1-11)

O galês Richard D. James, mais conhecido pelo epíteto Aphex Twin, é um dos ícones do vanguardismo na música electrónica, partindo de formatos techno (o preceito base do seu percurso artístico) e acolhendo interposições da música ambiente, do acid, do drum'n'bass e da IDM (Intelligent Dance Music). Movendo-se habilmente nesses cenários, o produtor e instrumentalista adoptou o cognome AFX e lançou a colecção Analord, um grupo de edições single em vinil, com lançamento na primeira metade deste ano. Pode escutar amostras de todos os volumes aqui.


Analord 1 (4/10)
Formalmente complexo e ritmicamente elaborado, o primeiro volume desta colecção apresenta um precisão quase mecânica e electrizante, recheada com uma opulência orgânica que preenche as composições com certo dislate. As melodias são reduzidas ao mínimo, em sete faixas de pura IDM e techno experimental com mais quilos.
(Rephlex, Janeiro 2005)





Analord 2 (6/10)
Numa toada ligeiramente menos pesada e mais simples do que a do tomo anterior, Analord 2 é mais melódico e subliminarmente mais pausado, deixando espaço para a intervenção individual dos instrumentos e para a incursão por espaços mais contemplativos.
(Rephlex, Janeiro 2005)





Analord 3 (7/10)
Com texturas ricas em detalhes e nuclearmente centradas, é o fascículo mais inventivo e experimental da série e deriva de estruturas techno para outras abordagens electrónicas, com melodias adiadas e um som mais urbano do que os dois volumes anteriores.
(Rephlex, Fevereiro 2005)





Analord 4 (5/10)
A quarta extensão da colecção Analord retoma percursos mais harmoniosos e de concordâncias melódicas, ainda que abreviados a uma lógica electrónica feita de sons esparsos e sintéticos que povoam ritmos mais ou menos definidos e subconscientemente mais sombrios.
(Rephlex, Fevereiro 2005)





Analord 5 (5/10)
Mais experimental e utopista, é também o registo mais vago da série, com duas composições de rumo incerto, pausadas e sorumbáticas, e que alinham com algum desajuste as batidas computorizadas por um fio de prumo invisível.
(Rephlex, Março 2005)





Analord 6 (6/10)
Beats bem urdidas e composições coerentes, com alguma esquizofrenia orgânica, e que, não abandonando o vector experimental, seguem uma regra melódica razoável e bem próxima do arquétipo Aphex Twin.
(Rephlex, Março 2005)





Analord 7 (7/10)
Espaço mais melodioso e que enquadra, numa amálgama acid/house/techno devidamente ponderada, uma noção de música de câmara, também ambiental (especialmente em "Lisbon Acid"). O experimentalismo é mais moderado (a excepção é "Pitcard") e a riqueza orgânica mantém-se.
(Rephlex, Abril 2005)





Analord 8 (7/10)
Talvez o mais dançável e mais profícuo dos tomos da série, não perde de vista os ingredientes clássicos de AFX, aqui re-equilibrados num timbre low profile e simultaneamente mais enigmático.
(Rephlex, Maio 2005)





Analord 9 (6/10)
Batidas mais aceleradas, misturadas com ruídos estranhos e volubilidade lento-rápido, a culminar em descargas eléctricas inopinadas, num estilo que memora o projecto Venetian Snares e que deixa uma margem reduzida para o meneio da melodia.
(Rephlex, Junho 2005)





Analord 10 (6/10)
Apenas duas faixas em discurso directo e mais suave, com percussões mais elásticas e que pontuam composições mais dilatadas mas sem rasgos inventivos assinaláveis.
(Rephlex, Junho 2005)





Analord 11 (5/10)
Um pouco mais revivalista do que qualquer um dos outros volumes da série Analord, há aqui reminiscências dos anos 80, com sintetizadores mais melódicos e sons distorcidos, num retiro quase tímido e devoto da meditação.
(Rephlex, Julho 2005)

terça-feira, 12 de julho de 2005

Whitey - The Light at the End of the Tunnel is a Train

Apreciação final: 7/10
Edição: 1234 Records, Fevereiro 2005
Género: Electroclash/Electrónica/Fusão
Sítio:www.1234records.com








O reputado multi-instrumentalista e produtor britânico Nathan J. Whitey apresenta-se num álbum em nome próprio, depois de se ter dado a conhecer às lides musicais em virtuosas remisturas de Bloc Party, Kyllie Minogue, Soulwax ou New Order. Neste trabalho, fazendo jus à sua condição de artesão dos sete ofícios, o músico assina todas as instrumentalizações e vozes do álbum, compondo um corpo de canções que se repartem em dois tons: por um lado, há um fino travo electro-clash, sublinhado nas primeiras quatro faixas do alinhamento - onde a sedução do rock de garagem, navegando nos graves do baixo, se confunde com a batida metronómica do funk - e, por outro, no resto do disco, um trejeito sonoro mais introspectivo, mais manipulador das virtudes electrónicas e mais contemplativo (com menos fé?). A essa aparente bifurcação, quiçá penalizadora da coesão do registo, se associa uma energia convulsiva e um elemento-surpresa impregnado de infusões da música de dança e do rock, nas mais variadas formas.

The Light at the End of the Tunnel is a Train é um volume discográfico de vistas largas e meneia-se com sensualidade entre as fronteiras de um género musical fresco e criativo, também gerador de impulsos indomáveis cujo resultado óbvio é o irreprimível desejo de bater o pé na cadência das composições de Whitey. E seguir-lhes o embalo dançável que se segura na voz enigmática, às vezes sinistra, do músico britânico. Depois há influências prestigiantes: New Order, Colder, Jesus and Mary Chain, Kraftwerk, Suicide, um cheirinho de Queens of the Stone Age (em "Halfway Gone")...é preciso dizer mais? Um disco (e um artista) a descobrir. Sem rótulos.

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Excited People

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Emile Nolde, Excited People, 1913

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Sufjan Stevens - Illinois

Apreciação final: 9/10
Edição: Asthmatic Kitty, Julho 2005
Género: Indie Pop-Rock/Folk/Cantautor
Sítio Oficial: www.sufjan.com








Segundo capítulo da mais improvável missão discográfica da história - pretensamente Sufjan Stevens intende fazer um disco de homenagem por cada um dos cinquenta estados americanos - Illinois é um trabalho ambicioso e aromatizado pelo olores graciosos das composições épicas de Stevens: a harmonia das melodias suaves, o espírito pioneiro de assimilação do rock clássico com um certo vanguardismo folk e uma dose reforçada de criatividade ambígua e artesanal, vertida em orquestrações e vocalizações pomposas. O alinhamento do álbum está dividido em vinte e duas faixas, fragmentos genuínos de um retrato expositor das feições distintivas do Illinois, também do microcosmo americano, reproduzido fielmente em narrativas que assumem, entre outras coisas, as formas amalgamadas de rapazes choradores, de mulheres com cancro, de desfiles e coretos, de padrastos e serial killers (por aqui figura o vil John Wayne Gacy que entre 1972 e 1978 torturou, violou e assassinou 33 jovens rapazes...). E da substância musical que provém de Illinois ressalta o engenho de Stevens, igualmente hábil e sensível, seja a musicar o flanco negro dos retalhos que colheu no passado do Illinois, ou a mostrar-nos a disparidade complacente das cores garbosas de outros recortes. Em ambos os registos, sobressai o sentido das composições, apoiadas em arranjos de eleição, os verdadeiros catalisadores da irresistível sedução de um corpo de canções adultas e eruditas, com o sublime recato das grandes obras.

Illinois é um disco único, uma pedra preciosa burilada até ao mais ínfimo pormenor, um guião musical gigantesco e intenso que capta, vencido o crivo da moldagem de Stevens, a identidade de um estado, de um país. Depois de ter escutado este disco, quem ousará dizer que não conhece o Illinois? E alguém se dará ao luxo de não ouvir? Obrigatório (e candidato a melhor do ano...), imperdível, excepcional. Só escutando com reverência este Illinois, se crê que ainda se fazem discos assim...

Posto de escutaJohn Wayne Gacy, Jr.The Man of Metropolis Steals Our HeartsThey Are Night Zombies!
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Down the River

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Título:Down The River
Autor:Bruno Alves
Fonte: 1000Imagens

sexta-feira, 8 de julho de 2005

My Education - Italian

Apreciação final: 8/10
Edição: Thirty Ghosts Records, Maio 2005
Género: Pós-Rock/Rock Ambiente/Lo-Fi
Sítio Oficial: www.myeducationmusic.com








"Uma parte de cacofonia rock espacial, uma porção de extermínio vertiginoso do punk e uma parcela de tropeções na música ambiental". Estes três terços apresentam os My Education no seu sítio oficial. Acima de tudo, eles são um colectivo de cariz instrumental cuja perícia mais notada é a construção de paisagens sónicas de excelência ímpar, à custa do recurso a fórmulas pós-rock que integram, com a erudição de cadências lentas a inferirem um clímax imprevisto, as guitarras e violinos etéreos, as teclas destemidas e as percussões coadjutoras. Óbvio é o temperamento apocalíptico das composições, vagamente produtoras de um peculiar paradoxo: vestem-se de jeito babélico, na forma de uma falácia de caos e revelam-se genuinamente sentidas e estruturadas, sob o falso manto de desordem que, afinal, dá abrigo a um disco organicamente opulento e com um sentido de precisão único. O balanço do disco divide-se entre a permissão do ruído e a sua acomodação à pronúncia elegíaca das sublimes harmonias. A mestria quase inocente dos músicos, as sinergias que se impõe naturalmente entre eles e a fluidez e vivacidade das texturas ajudam a fazer de Italian uma experiência imperdível.

Italian não mudará a face do pós-rock mas é tão encantadoramente versátil que merece figurar entre a colecção de discos de qualquer melómano. Importa que eles recorram às convenções dos Godspeed You Black Emperor? Resta deixarmo-nos levar pelo acalento melancólico do segundo álbum do ensemble texano, rumo a vácuos imateriais onde cabe apenas uns caos simétrico de sons que nos remete para um imaginário colectivo feito de contemplação e da revelação do vigor intrínseco às sombras da alma. Obrigatório descobrir.

Escute integralmente as faixas "Snake in the Grass", "Plans A Through B" e "Thanksgiving" na Grafonola

quinta-feira, 7 de julho de 2005

Dream Theater - Octavarium

Apreciação final: 5/10
Edição: Atlantic, Junho 2005
Género: Metal Progressivo/Heavy Metal
Sítio Oficial: http://www.dreamtheater.net








Os dezasseis anos de edições discográficas dos nova-iorquinos Dream Theater são o mais apurado testemunho do acerto de um trajecto firme que os confirma na primeira linha do metal contemporâneo, ainda que neste Octavarium se adivinhe um compromisso de proximidade a sons mais imediatos do que os do passado. A progressividade deixou de ser um dogma imperioso? E esse revés não está sozinho: o disco indicia, na derrapagem imediatista de algumas faixas ("I Walk Beside You" não parece ter sido escrita por...Bono??), um desvirtuamento mainstream da doutrina do quinteto americano. Os ingredientes combinados em Octavarium são os do costume - a solidez dos riffs de guitarra, a primazia da voz de LaBrie, as percussões interventivas - mas a receita reagente que os combina é incapaz de produzir o vigor combustível de outros álbuns e, pior do que isso, parece apta a implodir e envolver no descaminho a intenção do auditor descobrir o disco, antes mesmo de lhe tomar o gosto.

Octavarium é suposto ser o mais recente registo de um discurso sónico progressivo mas, entre os vários passos em falso do alinhamento, percebem-se vestígios de comedimento criativo e de uma tendência escusada para distender as composições até ao raiar do tolerável. Mas nem tudo se dispersa em Octavarium: "Panic Attack" (a melhor do disco), "Sacrificed Sons" e "The Root of All Evil" incorporam a imaterialidade do legado da banda e simulam estímulos sensoriais que agradarão aos fãs incondicionais dos Dream Theater. E Octavarium é uma edição mesmo só para indefectíveis...

Posto de escutaThe Root of All EvilPanic AttackSacrificed Sons
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Yesterdays

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Título: Yesterdays
Autor: Mark Kerr
Fonte: Sítio

terça-feira, 5 de julho de 2005

Complicado - Haunted

Apreciação final: 8/10
Edição: Bor land, Maio 2005
Género: Indie Pop-Rock/Experimentalismo/Pós-Rock
Sítio Oficial: www.complicado.net








Raramente um disco consegue apurar tão bem a simbiose entre a prolixa disseminação dos estilhaços (re)colados de uma existência urbana e o recolhimento contemplativo do sujeito. Neste caso, o protagonista é o portuense Miguel Gomes (o músico por detrás do Complicado) e o conceito musical navega em águas dúbias, com uma acalmia folk a servir de pano de fundo, por vezes a atrever-se em trejeitos rock, sem renunciar a um vínculo desafiador de convenções, onde cabem, sem preconceitos, ruídos quase psicadélicos, em cruzamento pacífico com a indispensável assiduidade da guitarra acústica e de percussões minimalistas. Das meta-canções de Haunted, em permanentes derivações pelos ramais da imaginação de Miguel Gomes, deriva um manifesto íntimo que não se impõe restrições artísticas e que se deixa domar apenas pela força motriz das suas próprias quimeras. O resto é uma sugestão sensitiva em cadência tarda, um mix de emoções confessadas em solilóquios velados e que não se envergonham da sua timidez lo-fi. Apetece revisitar Haunted sem cessar e (re)descobrir os imensuráveis detalhes não percebidos antes e que se desenham como reticências num verso branco.

Haunted é uma proposta imperdível - mais uma pérola resgatada do anonimato da cena musical portuguesa pela mão da etiqueta nortenha Bor land - e um disco simultaneamente ecléctico e simples. Do rock-blues de "Tonight", à privacidade de "Half Dead Body", ao timbre instrumental de "On The Way Back From The Beach" ou à pop calmante de "Sweet Monkey of Mine", Haunted inventa esqueletos de composições honestas e deixa-nos o encargo de dar-lhes corpo na mente. E não é custoso. Complicado mesmo é manter o álbum fora do leitor de cd's.

Posto de escutaTonightFor You to Dance300 000 Whores
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segunda-feira, 4 de julho de 2005

5 rapidinhas


The Residents - Animal Lover (7/10)
Pós-rock experimental e vanguardista é a receita invulgar dos The Residents. Trata-se de um disco conceptual e ambíguo que aborda, em levitações ininteligíveis, o relacionamento homem/animal. Pormenor intrigante: cada canção é uma história e é acompanhada por um texto que situa a bizarria das respectivas personagens. Hiperbólico e deliciosamente inventivo, Animal Lover é, sem ceder a facilitações, um disco metafórico de fantasias cativantes, uma fábula musicada em tramas sónicas complexas. Múltiplas camadas e elementos se sobrepõem nas texturas, sublinhadas pela integração de vozes em coro, expandidas a uma dimensão quase operática, e de instrumentalizações quase lunaticamente despropositadas. O desfecho é imprevisível, depende da mente aberta do auditor, mas apresenta-se sombrio e místico, prosseguindo a saga de originalidade do grupo e assumindo proporções de grandiosidade quase épica, sempre num registo taciturno mas irresistivelmente inovador.
(Mute U.S., Fevereiro 2005)

Ouça integralmente o tema "Dead Men" na Grafonola.





Vive La Fête - Grand Prix (6/10)
Revivalismo 80's numa toada electrónica de um projecto belga cuja sonoridade característica se baseia em batidas sexy, vocalizações em francês na voz sedutora de Els Pynoo e orgânicas bem urdidas pela inspiração de Danny Mommens (ex-baixista dos dEUS). Menos efusivo do que Nuit Blanche (2003), este trabalho mantém a assinatura típica da dupla, embora denuncie um certo comodismo do grupo a uma fórmula interessante e bem ponderada mas a que se associa, em vários instantes do disco, uma enfadonha imagem de condução em piloto automático.
(Lowlands, Março 2005)

Ouça integralmente o tema "Hot Shot" e "Litanie des Seins" na Grafonola.





Mary Gauthier - Mercy Now (8/10)
Escritora de canções algures entre o country e a folk enraizada na mais profunda tradição musical americana, Gauthier (deve ler-se "Go-Shay") compõe momentos de rara beleza e honestidade poética, sobre desolação e frustrações. A guitarra acústica, os instrumentos de cordas e a o embalo da voz de Gauthier fazem um disco sublime, com algo de profético e que afirma definitivamente uma senhora que merece reconhecimento como o equivalente feminino de Johnny Cash ou de Townes Van Zandt.
(Lost Highway, Fevereiro 2005)

Ouça integralmente os temas "Wheel Inside the Wheel" e "Drop in a Bucket" na Grafonola.





Jori Hulkkonen - Dualizm (4/10)
Neste trabalho, o músico finlandês evita aproximações às estruturas habituais e divide-se em dois registos diferentes: a melodia suave e profunda, onde se sente menos à vontade, e a batidas mais dançáveis, o cunho omnipresente nos seus sets. Em ambos os casos, notam-se, em partes iguais, uma certa veneração à eletro-pop dos anos 80 e uma insípida criatividade, a revelar um artista claramente necessitado de impulsos mais fortes.
(F Communications, Abril 2005)

Ouça integralmente o tema "Dislocated" na Grafonola.





Martha Wainwright (7/10)
Irmã de Rufus, filha de Loudon Wainwright III e Kate McGarrigle...é preciso dizer mais? Só por filiação já valeria a pena descobrir Martha Wainwright mas a jovem cantora/intérprete vai além da inspiração da progénie e, numa gentil toada pop de fusão da country e da folk, arquitecta um disco melodioso. Uma voz carismática e versátil, emoção q.b. e canções serenas e bem escritas sobre segredos indecrifráveis fazem desta edição um disco curioso, de uma intérprete que, demarcando-se do prestígio do seu apelido, encontra um espaço próprio para afirmar os seus méritos.
(Zöe, Março 2005)

Ouça integralmente os temas "Far Away" e "Bloody Mother F.... Asshole" na Grafonola.

quinta-feira, 30 de junho de 2005

5 rapidinhas no universo da electrónica


Hiltmeyer Inc. - Sendling 70 (7/10)
Radicado na Alemanha, o projecto Hiltmeyer Inc. permanece injustamente apartado dos holofotes da fama. Entre os inúmeros méritos de um disco profusamente sedutor, está um timbre electrónico disco que induz impulsos dançantes graças a composições subliminarmente techno e imbuídas de um apurado sentido de proporção e bom gosto. Recomendável.
(Gomma, Fevereiro 2005)

Ouça integralmente as faixas "Narcotic!" e "Finalahh" na Grafonola.





F.S. Blumm - Zweite Meer (7/10)
A guitarra acústica é cristalina e faz o epicentro das composições, enriquecidas pela introdução de sonoridades menos vulgares (xilofones, marimbas, acordeões, vibrafones, etc.). O resultado é um álbum instrumental de melancolia graciosa em canções electrónicas sem estrutura definida, com o surreal devaneio de um pintor sobre a tela virgem.
(Morr Music, Abril 2005)

Ouça integralmente a faixa "Nie" na Grafonola.





J. Viewz - Muse Breaks (6/10)
Israelita, 23 anos, Jonathan Dagan é o mentor de J. Viewz. Ele é drum'n'bass, é downtempo, é chill out e tem um fino travo a jazz Davis. Versátil e variado Muse Breaks é um disco de vibrações relaxantes que, sem ser especialmente inovador, consegue encontrar pontos de equilíbrio (e de talento...) entre a atmosfera dos Air e o universo dos Royksöpp.
(Deeplay Music, Março 2005)

Ouça integralmente a faixa "Worth Light" na Grafonola.





Tosca - J.A.C. (6/10)
Os Tosca dispensam apresentações. O mais recente trabalho de Huber & Dorfmeister foi escrito durante uma mudança importante na vida dos músicos: ambos se tornaram pais! Dedicado aos respectivos filhos - a sigla título do disco é homenagem aos respectivos nomes - o disco insiste na fórmula habitual da dupla, sem surpresas, mas sublinhando o timbre sensual costumeiro, em jeito de serenata electrónica pautada pela prudência de dois criativos que já conheceram fases mais douradas.
(K7, Junho 2005)

Ouça integralmente a faixa "The Big Sleep" na Grafonola.





Ellen Allien - Thrills (5/10)
Natural de Berlim, Ellen Allien é uma DJ que nos propõe um techno com laivos de experimentalismo e beats cativantes mas que escorregam perigosamente para uma impressão monótona, fruto do registo monocórdico e da similitude embaraçosa entre as composições.
(Bpitch Control, Junho 2005)

quarta-feira, 29 de junho de 2005

Manhã na aldeia depois do nevão

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Kazimir Malevich, Morning in the Village After Snowstorm, 1912

Oneida - The Wedding

Apreciação final: 7/10
Edição: Jagjaguwar, Maio 2005
Género: Pós-Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.enemyhogs.com








A estética sonora dos Oneida é como um poliedro vago e indefinido cujas faces são substâncias musicalmente diversas e que coexistem harmonicamente, ao ponto de fundarem dependências simbióticas entre si e concorrerem, com símile pertinência, para um produto musical maiúsculo. Depois, a vincada tendência do grupo de Brooklyn para a autenticidade e, em virtude disso, para o estiramento recorrente do seu manancial criativo, ainda que à sombra do mundo mainstream, faz deles uma das alusões óbvias do circuito indie. Em The Wedding o colectivo americano mantém o substracto do seu registo habitual, uma espécie de rock semeado nas cordas de uma guitarra, vertiginosamente sinfónico, e aglutinador do heavy metal etiquetado dos 70's ("Did I Die?" não é muito Black Sabbath e Deep Purple?) e do pós-rock psicadélico e experimental. O arrojo dos Oneida é, neste trabalho, preenchido pelo recurso aos ritmos electrónicos omnipresentes no disco e que, sem diminuir o mérito das cordas, as relega para planos alternativos. Mais geometricamente profundo e experimentalmente melodioso do que Secret Wars (2004), este álbum é também menos mecânico e psicadélico (menos rock?). A esse redimensionamento do som dos Oneida, mais centrado no onírico intimismo da folk, sem repelir o amparo ritual das distorções e dos riffs, correspondem inferências que, depois de audições sucessivas de The Wedding, insistem em ostentar a categoria desafiante de quebra-cabeças.

The Wedding é o sétimo registo da carreira dos Oneida e é feito de melodias pouco convencionais e complexas. A disparidade de estilos (inconsistência ou versatilidade?) torna-o um álbum intrigante e tremendamente apelativo. A mais recente mutação dos Oneida é esotérica e imoderada e, por isso, traz excessos e disparos fora do alvo...mas não é do desmando que brotam os predicados do génio? E quem se atreve a faltar a um matrimónio em que os actores principais, além de serem artesãos de escol, se alcunham de Hanoi Jane, Kid Millions e Bobby Matador?

Shhh

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Título: Shhh
Autor: Mark Kerr
Fonte: Sítio

segunda-feira, 27 de junho de 2005

Belle & Sebastian - Push Barman to Open Old Wounds

Apreciação final: 8/10
Edição: Matador, Maio 2005
Género: Indie Pop/Compilação
Sítio Oficial: www.belleandsebastian.com








Com cerca de uma década de actividade e oriundos de Glasgow (Escócia), os Belle & Sebastian erigiram um edifício sónico quase intemporal e, em volta de um ideal de quimera pop, produzem um som íntimo e caprichoso, de graciosidade bucólica e tom serenador. Neste Push Barman to Open Old Wounds a sugestão é uma recolha dos E.P. 's gravados pelo septeto escocês entre os anos de 1997 e 2001, sendo certo que esse formato era o escape dos Belle & Sebastian para projectar inflexões criativas e optimizar o seu arsenal de composições. De resto, a feição das vinte e cinco canções arroladas nesta edição (disco duplo) é demonstrativa da vocação da banda para tecer delicados instantes de pop sofisticada, profundamente emotiva e esmerada nos arranjos barrocos. Mais do que uma mera colecção de raridades e faixas não editadas em álbum, talvez este Push Barman to Open Old Wounds seja o documento mais representativo da matéria dos B&S, um fidedigno cartão de visita para a afabilidade do seu mundo onírico e obscuro, reverenciador de uma fórmula pop nostálgica do espírito 60's - com alguma coisa (ou não?) de Velvet Underground, de Nick Drake ou dos Felt - a que se juntam, com versatilidade, a melancolia introspectiva e a quietude sorumbática da folk.

Push Barman to Open Old Wounds não é apenas um alvo para coleccionadores ou para séquitos dos B&S. Trata-se de um edição incontornável que recolhe algumas das melhores canções do grupo escocês e é um testemunho dos préstimos de uma banda que evoca um imaginário quintessencial de saudade e contemplação, registado em composições primorosas que, se deleitarão sem reservas os seguidores dos Belle & Sebastian, trarão novos fãs ao ensemble de Stuart Murdoch. Assim se dêem as devidas honras à coesão e pertinência desta compilação que mostra mais dos B&S do que qualquer um dos registos anteriores do grupo isoladamente exibia. Imperdível.


Do Not Enter


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Título: Do Not Enter
Autor: Mark Kerr
Fonte: Sítio

sábado, 25 de junho de 2005

System of a Down - Mezmerize

Apreciação final: 8/10
Edição: Columbia, Maio 2005
Género: Metal Alternativo
Sítio Oficial: www.systemofadown.com








Serj Tankian (voz), Daron Malakian (guitarra), Shavo Odadjian (baixo) e John Dolmayan (bateria) são os System of a Down. Andam por cá desde 1995 e quem não os conhece passa ao lado de uma das bandas metal mais criativas do planeta. A marca do quarteto são as estruturas de acordes simples, seguidoras da lógica trash, as alternâncias psicadélicas entre a melodia vocal e o tom confrontador das distorções e dos clamores de Tankian e uma frenética predisposição para partir tudo o que houver de ser partido. Mezmerize é a primeira parte de uma edição dupla prevista para 2005 (a outra metade chegará às lojas em Novembro) e é uma amostra refinada do que os rapazes são capazes de fazer. A irreverência e a frescura combustível das texturas é a costumeira, as letras são activistas e quase revolucionárias, sublinhando sardonismos que percorrem, com idêntica validez, a esfera da política, da sexualidade, da cegueira social e o leque completo de extravagâncias que compõem as fantasias dos System of a Down. Além disso, o valimento supremo de Mezmerize é ser capaz de, não renunciando à sua condição metaforicamente histriónica, produzir um ímpeto imparável de energia que serve, simultaneamente, um fito catártico e moralizador. Depois, as composições acertam na mouche, alinhando com os melhores momentos da carreira do grupo e formando um insuperável assalto aos sentidos, a prova última da ousadia ímpar dos System of a Down.

Mezmerize é um epítome notável das potencialidades do quarteto, ao nível do surpreendente Toxicity (2001), e certifica os System of a Down como um dos conceitos musicais mais irreverentes e dinâmicos do universo metal. Com este trabalho, eles continuam a protagonizar uma aragem fresca de renovação das fronteiras, mais do que isso, assumem de corpo inteiro a afronta ao sistema. Mezmerize é corrosivo mas incorruptível. Genuíno e combativo, pode muito bem ser o disco metal do ano. Aguarda-se a sequela...

quarta-feira, 22 de junho de 2005

Guapo - Black Oni

Apreciação final: 6/10
Edição: Ipecac, Março 2005
Género: Rock Progressivo/Vanguardista/Experimental
Sítio Oficial: www.ipecac.com








Formados em 1994, os britânicos Guapo são porta-vozes de uma mensagem sónica fora do comum, difundida na volúvel forma de uma massa indomável de ruídos hipnóticos, experimentalismos catárticos e um compromisso devaneador com a progressividade. Confuso? Pois bem, a luxúria instrumental de Matt Thompson (baixo/guitarra), Dave Smith (percussões) e Daniel O'Sullivan (teclas) é propositadamente evocadora de um imaginário contido de tumultos, ritmos maníacos, obsessivamente negadores do silêncio e veneradores do legado kraut-rock, do vanguardismo minimalista e, mais do que isso, da dimensão sinfónica das composições. Da atitude escorreita das cinco faixas que compõem o alinhamento deriva um magnetismo quase telepático e inebriante, rumo a um clímax que, se é confirmado em certos instantes do disco, parece inacessível noutros. Black Oni é isso mesmo: um cerimonial de virtuosismo e ambição, um festim de volúpia instrumental. Contudo, é difícil ouvir o álbum e não sentir a moléstia de um certo comodismo formalista da banda. Supostamente, Black Oni é a segunda parte de uma trilogia começada com Five Suns (2002) e, embora se apresente num registo mais criativo e sombrio - algures entre a excentricidade aterradora do padrinho Mike Patton, a pujança eléctrica de Sunn O))) e a prolificidade dos Mars Volta - a banda continua a dar primazia ao quase-improviso em detrimento da composição. O frenesim sonoro resulta carnavalesco, mecânico e hiperbólico, resvalando as mais das vezes para a previsibilidade o que, não suprimindo a excelência dos músicos, atenua a robustez das texturas.

Black Oni é um artefacto sonoro válido na precisão lacónica da sua insanidade. Não mais do que isso. E aí se acha a nódoa que mancha este pano. O comedimento na alienação criativa traz a estas composições dos Guapo a mesma invalidez que o humedecimento provoca a um fósforo. As sucessivas audições do álbum confirmam a conclusão óbvia: Black Oni é mesmo um fósforo humente que, ao invés de servir o seu propósito ignífero, se torna tão vão quanto um simples palito. Ainda assim, o disco é um exercício recomendado a melómanos com paciência para confiar que, logo que o dito fósforo fique enxuto, venha a ser capaz de produzir uma chama vivaz. Sem compromisso.

Bela Toscana

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Título: Bela Toscana
Autor:Luis Zilhão
Fonte: 1000Imagens

segunda-feira, 20 de junho de 2005

The White Stripes - Get Behind Me Satan

Apreciação final: 7/10
Edição:V2, Junho 2005
Género: Indie Rock/Blues Alternativo
Sítio Oficial: www.whitestripes.com








Naturais de Detroit, Jack e Meg White dispensam apresentações. Eles são a alma dos White Stripes, bizarro projecto rock alternativo que, à custa de um formulário minimalista, se propõe a reinvenção do rock, tributando veneração a um certo revivalismo, sempre timbrado com o cunho idiossincrático dos Whites, seja no discurso assertivo da guitarra de Jack ou na irreverência das percussões de Meg. Contudo, em Get Behind Me Satan há algo de diferente, um pormenor distintivo que expande os limites da linguagem musical do grupo: a guitarra eléctrica é preterida - o disco só tem três faixas eléctricas - em favor do piano, dos efeitos de percussão e da marimba. Esta substituição instrumental não falha o propósito de captar a quididade específica dos Stripes mas reviça, num jeito menos ortodoxo, os padrões da dupla americana. Daí deriva uma assinatura sónica diferente, menos combustível do que no passado, igualmente espontânea, mas com o traço de rascunho de um trabalho de transição: viragens ininterruptas e inflitrações de elementos inopinados. A estrutura ambígua e minimalista do tecido sónico do grupo resiste à reconstituição instrumental e até adquire dimensões novas, pescadas de arquétipos artísticos estranhos aos Stripes. Estes indícios de reencaminhamento dos White Stripes são um depoimento inabalável de maturidade que, se resvalam para a excentricidade (ou incompletude?) em determinados instantes de Get Behind Me Satan, não deixam de confirmar a dupla como uma das mais sólidas referências do ideário rock hodierno.

Get Behind Me Satan é uma colecção de canções ostensivamente garridas que se apartam da equação guitarra + bateria típica do grupo e que resgatam, com a erudição dos músicos maiores, incógnitas de espaços sónicos virgens. Desta álgebra indagatória dos White Stripes, vertida no quinto registo de estúdio, provém um impulso perverso de confronto que dividirá os fãs do grupo: os Stripes estão mais crescidos, mudaram e orgulham-se da transformação. Apreciarão os séquitos da sua música? Escutado o disco, percebidos os seus méritos e falhas, resta uma dúvida: o aforismo bíblico que baptiza o disco reclama o amparo ou proclama a subjugação do Príncipe das Trevas? De qualquer jeito, Get Behind Me Satan consagra uns White Stripes surpreendentemente menos rock e mais melódicos mas insuperavelmente cativantes. Como sempre.

O banho da criança

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Mary Cassat, Child's Bath, 1893

domingo, 19 de junho de 2005

Ölga - What Is

Apreciação final: 7/10
Edição: Borland, Fevereiro 2005
Género: Experimentalismo/Pós-Rock
Sítio: www.olgamusic.com








Os lisboetas Ölga formaram-se em 2001 e, dois anos volvidos, lançaram o seu primeiro E.P., re-editado no ano seguinte pela etiqueta Borland. Este é o seu primeiro longa-duração e apresenta o traço emblemático da banda, uma combinação sensata de sons multicoloridos, rematada com um sublime traço de exotismo atávico, a remeter para ambientes asiáticos e memoriais de ancestralidade. É nessa linha que as percussões insistentes pontuam um cortejo narrativo de emoções não contaminadas pelo assombro hedonista do comercialismo, antes emancipadas na sua intensidade sensorial. Os Ölga estão à procura de um assinatura sonora e recorrem com propriedade à dinâmica do experimentalismo, não se cingem à canção rígida, aventuram-se no prazer da descoberta. Depois do achado, juntam o improviso, qual especiaria condimentícia, sem desatinos, sem evasivas. O resultado é uma massa sonora fluente e subliminarmente psicadélica que, a cada audição, desenrola um palimpsesto em que se sobrepõem, sem se melindrarem, a antiguidade das pautas de cítaras e liras e a modernidade das atmosferas electrónicas e dos violoncelos e violinos delirantes.

What Is é uma jornada intemporal por um caminho vagamente definido, um percurso etéreo de melancolias inveteradas pelo lirismo e pela ambivalente postura das composições, divididas entre o intimismo dos pequenos recatos (dos silêncios?) e a intensidade eléctrica das dissonâncias (do ruído?). Paradoxal, imaginativo e não convencional, What Is é um segredo bem guardado da lusa música que merece ser desvendado sem parcimónia.

Posto de escutaMoneyThe HuntHassana

quinta-feira, 16 de junho de 2005

Colleen - The Golden Morning Breaks

Apreciação final: 8/10
Edição: Leaf, Maio 2005
Género: Pós-Rock/Experimental/Ambiente
Sítio Oficial: www.colleenplays.org








Considerar a música da francesa Cecile Schott, artisticamente baptizada como Colleen, apenas minimalista e ambiental é fazer uma simplificação tosca dos mandamentos musicais da jovem gaulesa. Com um quase ingénuo simplismo, Schott arquitecta cenários melódicos e oníricos, abreviados a uma condição mínima, é certo, mas que encerram uma íntima aliança entre o tom compassado da folk acústica e as nuances electrónicas apaixonadas dos timbres de trovadores renascentistas, em que o mutismo é subjugado pela harmonia das guitarras, aqui mais imaginadas do que tocadas, e pela hipnose caleidoscópica da lira, da harpa, da viola da gamba e das teclas. Embrulhado em melodias quebradiças, o discurso de Colleen é uma expressão graciosa numa linguagem musical multicultural, mesmo intemporal, cruzadora de gerações e técnicas, simultaneamente ancestral e moderna. Além disso, a substância nascida do manancial de instrumentos de The Golden Morning Breaks é romanticamente perturbadora e remete o ouvinte para um escapismo quimérico, para um imaginário etéreo de fábulas e alegorias, um mundo dual de encantamentos meditativos e sonhos poéticos.

The Golden Morning Breaks é uma passagem de nostalgia interminável e de langor prostrado, mas é também uma porta aberta para universos mágicos de arte bucólica. Neste trabalho, Colleen é feiticeira de adágios mesmerizadores e transparentes que reclamam (e merecem...) audições sucessivas, até que se alquebrem as resistências derradeiras do ouvinte e, finalmente se revele, no impulso inofensivo da sua candura, o irresistível primor das composições. Não é um disco generalista, tampouco será um tomo de consumo imediato, mas destapadas as virtudes da sua essência, The Golden Morning Breaks é uma incursão invulgar (e obrigatória) ao planeta quase inabitado das utopias.

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Coldplay - X & Y

Apreciação final: 7/10
Edição: EMI, Junho 2005
Género: Pop-Rock








Três anos depois da edição de A Rush of Blood to the Head (2002), disco que validou definitivamente os Coldplay como emblema mais luminoso da cena pop britânica e universal, os pressupostos do quarteto britânico liderado por Chris Martin são idênticos: harmonias suculentas e zelosas, cenários introspectivos e um timbre pop etéreo inconfundível. Se é verdade que o efeito novidade se esbateu nos primeiros dois discos dos Coldplay e não consta abertamente do repertório de X & Y, é também um facto que a banda se desafia a si mesma neste trabalho, (re)dispondo os ingredientes sónicos e destapando critérios renovados. Vestígios de maturação criativa? De facto, o núcleo essencial da assinatura Coldplay sai reforçado deste trabalho e os rapazes deixam ainda margem para redimensionar a produtividade das composições, conferindo-lhes uma dimensão teatral com um toque de fertilidade orgânica. O imaginário de X & Y é povoado pela dúvida, pelo anseio, pela esperança e pelo amor, trazidas ao ouvinte na voz dúctil de Martin. Formulismo? Talvez...mas quando uma banda se cinge a uma fórmula ergonómica e a administra como ninguém, o mérito é óbvio. Além do mais, X & Y invoca elementos novos: teclas a ambientar, num estilo Brian Eno, percussões mascaradas de dançarinas, a nostalgia da pop 80's e guitarras com trejeitos de bússola.

X & Y não é um disco memorável mas é uma réplica consistente à onda de expectativas quase irrealistas em torno do disco e um depoimento consistente de uma banda cujo propósito maior é fazer a melhor pop do planeta. E se com Parachutes (2000) e A Rush of Blood to the Head (2002) eles estavam perto desse objectivo, com X & Y juntam um ponto final indelével à sua declaração de afirmação sincera: os Coldplay são o mais conforme projecto musical a ocupar o trono da pop. Com canções como "Square One", "What If" ou "Talk", eles merecem-no inteiramente.

Posto de escutaSquare OneWhat IfTalk

O Maquinista

Apreciação final: 7/10
Realizador: Brad Anderson (2004)
Actores: Christian Bale, Jennifer Jason Leigh, Aitana Sánchez-Gijón, John Sharian
Género: Thriller/Drama
Duração: 102 mins.








Recentemente lançado no mercado DVD nacional, O Maquinista é uma fita perturbadora e ambígua e um thriller psicológico visualmente veemente, condição sublinhada pelos tons pardos da película e pela magreza esquelética de Christian Bale. Um trabalhador industrial, Trevor Reznik (Bale), padece de insónias incomuns que duram há cerca de um ano e que o debilitaram gravemente. Assombrado pelo aparecimento intrigante de um ameaçador novo colega de trabalho (John Sharian não faz lembrar o Coronel Kurtz, de Brando, em Apocalypse Now?), Reznik embarca numa paranóia crescente de delírios persecutórios, na orla vaga entre dois mundos: a realidade e a sua mente. E quando, subitamente, descobre alguns post-it no seu apartamento, com uma adivinha do jogo do enforcado, a trama psicológica adensa-se...

O Maquinista é uma agil desconstrução da desintegração mental de um homem, corroborada pela degradação física - Christian Bale perdeu quase trinta quilos para desempenhar este papel - de um homem solitário que encontra companhia nos braços da prostituta Stevie (Jennifer Jason Leigh) ou nas conversas de balcão com a bela Marie (Aitana Sánchez-Gijón). Num dos desempenhos mais exigentes da sua carreira (Equilibrium, American Psycho), Christian Bale é demolidor e expande, paradoxalmente, a comunicação física a níveis não vistos antes, graças à redução da expressão à tibieza física e a profundidade depressiva do olhar, fiéis tradutores da instabilidade psíquica da personagem. Depois, as reminiscências de um passado de contornos incertos assaltam permanentemente a mente de Reznik, dando ensejo a uma certa antecipação do espectador que atinge a culminância no súbito e desconcertante (não inesperado...) remate do filme. E aí se acha o engano maior d' O Maquinista: o enredo retalhado de Scott Kosar não escapa a certos clichés e, ainda que seja um exercício bem governado sobre a putrescência mental e a alucinação, não associa um simbolismo metafórico ao ónus da culpa, ao terror psicológico, ao mistério negro e à inadequação de Reznik. A realização de Brad Anderson é, contudo, engenhosa e resgata o filme da colagem a outros títulos do género, propondo um puzzle inteligente, de cariz algo hitchcockiano, sem abusar da violência gráfica da figura de Reznik e construindo habilmente um universo nocturno de purgação kafkiana, belo na negrura e ambiguidade.

O Maquinista é um thriller negro de surrealismo subliminar e progressivo que, suportado na sublime interpretação de Bale (esquecido pela Academia?), disseca cruamente a ressonância psíquica da culpa na mente humana. Ainda que invoque um imaginário não apelativo a todos os apreciadores casuais de cinema, trata-se de um filme enigmático que, não sendo uma obra suprema, contém um vigor inquietante que vai usurpar demoradamente a memória do espectador. A descobrir.

Composição Triangular

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Título: Composição Triangular
Autor:Manuel Moura Galrinho
Fonte: 1000Imagens

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Eugénio de Andrade (1923-2005)


Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

in O Sal da Língua, Eugénio de Andrade

Nesta madrugada, deixou-nos um dos vultos maiores da cultura nacional, o poeta Eugénio de Andrade. Que estas palavras imortais lhe façam o justo requiem.

Procissão de Corpus Christi

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Amadeo de Souza Cardoso, Procissão de Corpus Christi, 1913