quinta-feira, 19 de maio de 2005

O aguadeiro de Sevilha

Clique na imagem para ampliar

Diego Velasquez, 1620

13 & God

Apreciação final: 7/10
Edição: Anticon/Alien Transistor, Maio 2005
Género: Electrónica/Rap Alternativo







Quando o formato hip-hop se cruza com a axiomática da electrónica, renova a escala do seu som e adquire outros tons. E se a fusão é entre a prolífica dupla Mc Doseone/Jel (dos Themselves) e os membros dos germânicos Notwist, a semente do disco é prometedora. Ainda que as respectivas gamas sonoras pudessem parecer a priori perfeitamente imiscíveis, os dois projectos fizeram uma digressão conjunta em 2004. Desse feliz encontro haveria de nascer o projecto 13 & God. Talvez o disco não seja tão electrizante quanto seria de esperar, é marcado por uma fino low-profile e por um tom simultaneamente directo e vanguardista. Por isso, não se trata de um registo de consumo imediato, o mérito das canções só sobrevem com audições repetidas. Indisfarçável mesmo é o talento dos músicos envolvidos, provado nas simetrias simbióticas que se arquitectam no tecido das composições e na fusão engenhosa da evocação claustrofóbica do industrial dos Themselves e do romantismo espacial da pop dos Notwist. Se a união era improvável, o desfecho é um mutante único, cheio de vividez e de detalhes mistos. A síntese vai além do expectável, é invulgar e sombria, igualmente original e imprevisível.

13 & God é o fruto de um ensemble que aprova com distinção um rifão que nem sempre é honrado no mundo da música: o todo é mais do que a mera soma das partes. Da adição dos intervenientes, nasceu um som novo. Ganham os adeptos da música derrubadora de fronteiras. Esperam-se os próximos capítulos.

Azul

Clique na imagem para ampliar


Título: Azul
Autor: Ana Pinto
Fonte: Olhares

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Eels - Blinking Lights and Other Revelations

Apreciação final: 8/10
Edição: Vagrant, Abril 2005
Género: Cantautor/Indie Rock/Indie Pop







Os Eels são Mark Oliver Everett. Cantor, compositor e intérprete, E - como é conhecido - é o mentor deste singular projecto, apesar de os Eels se apresentarem colectivamente. A exposição mediática do grupo (ou de E?) foi amplificada com a recente participação em diversas bandas sonoras para a sétima arte que serviram de cartão de visita para a imagem de marca do som dos Eels: produção hiperbólica, voz frágil e contextos líricos iconoclastas. A isso, acresce um espectro sónico ecléctico e versátil, particularmente sensível neste duplo-álbum Blinking Lights and Other Revelations. O disco acolhe as cordas, os metais e outras texturas sonoras organicamente faustosas e, partindo dessa gama de simetrias multicoloridas, aventura-se em incursões prudentes por registos variegados, sob uma matriz comum de composição. E aí reside o mérito maior: a música de E tece uma graciosa e unida teia de sentimentos melancólicos, ataviados com mestria em canções honestas e urdidas com elegância.

O detalhe de Blinking Lights and Other Revelations sublima a constatação inegável de que Everett é um dos melhores compositores da música americana no tempo corrente. Será redundante dizer que o disco é intimista e sombrio, são-no também os restantes títulos dos Eels, mas tais atributos ganham outras medidas nesta edição. Blinking Lights and Other Revelations é uma colecção indispensável de canções que, concebido com o fito de ser obra magna, apenas não goza esse privilégio por perder alguma coesão ao longo de trinta e três faixas(!). Fossem escolhidas as melhores dos dois discos que compõe Blinking Lights and Other Revelations e reunidas num só tomo e estaríamos perante o mais que provável disco do ano. Ainda assim, há aqui trechos excelsos, verdadeiras lições de vida que nos fazem apartar do tempo e do espaço e partir numa excursão introspectiva e ambivalente, de ironia e sinceridade, pelas porções indecifráveis do eu que E nos subtrai engenhosamente e devolve, depois, na forma de música.

Mary Timony - Ex Hex

Apreciação final: 7/10
Edição: Lookout!, Abril 2005
Género: Indie Rock







A ex-vocalista dos Helium retoma, no seu último trabalho, o enfoque da fórmula rock, puxando para a primeira linha do registo a intervenção da guitarra devidamente adornada por percussões enérgicas. A esse nível não é indiferente a produção de Brendan Canty, baterista dos Fugazi. Os ritmos do disco são entrelaçados e aceitam uma harmonia angular e incisiva, em profícuo contraste com a voz frágil de Timony. O imaginário oblíquo da cantora encaixa num som de arpejos quase medievais que não sucumbem numa formatação mais contemporânea e progressiva. Ex Hex é, por isso, um tomo de delgadas trovas de rock cru e invocativo. Além disso, o álbum centra os intuitos de Timony, voltando costas ao anacronismo dos registos anteriores e trazendo-a a um registo moderno.

Aparentemente dissonante, Ex Hex é um disco denso e agitadamente taciturno, também hipnótico. A pecha maior que a produção não disfarça completamente: falta-lhe a integridade de som de uma banda completa. Ainda assim, Ex Hex é uma escuta obrigatória para os partidários de um estilo rock que, bebendo da fonte Sonic Youth, tem um cunho próprio bem definido.

Fences

Clique na imagem para ampliar

Título: Fences
Autor: Vasco Casquilho
Fonte: Mindlooks

terça-feira, 17 de maio de 2005

Estudo para o nu agachado

Clique na imagem para ampliar

Francis Bacon, 1952

The Go-Betweens - Oceans Apart

Apreciação final: 8/10
Edição: Yep Roc Records, Maio 2005
Género: Indie Pop







Os australianos The Go-Betweens há muito tomaram um posto privilegiado na quintessência do universo da pop alternativa, especialmente à custa do sublime 16 Lovers Lane (1988), obra incontornável da carreira do ensemble de Brisbane. Curiosamente, foi depois da edição desse mítico disco que o grupo se desmembrou, defraudando o culto de uma numerosa legião de séquitos. O reencontro viria inevitavelmente a acontecer em 2000 com The Friends Of Rachel Worth. Oceans Apart é o terceiro lançamento da segunda vida dos The Go-Betweens e facilmente se distingue dos irmãos mais recentes, simbolizando os momentos mais inspirados desde 1988.

A produção do disco - a cargo de Mark Wallis que havia produzido 16 Lovers Lane - é soberba, elevando o som do grupo a uma limpidez imaculada, nem sempre audível noutros álbuns. Desta vez, os arranjos de cordas foram sensatamente trocados por sápidos instantes de sopros e metais que, aqui e ali, pontuam notas de inovação. Depois, as composições melódicas de Forster e McLennan são iridescentes e polidas, como que buriladas até ao mais ínfimo pormenor da delicadeza romântica da sua medula.

Oceans Apart revigora a energia do colectivo australiano, captando a substância originária de antanho e acrescentando-lhe, na simbiose musical ingénita de Forster e McLennan, o privilégio rigoroso da unidade, mediante a integração assisada da melodia, dos coros vocais harmónicos e das instrumentais sedutoras. Oceans Apart propõe um interessante axioma: é a consagração definitiva da segunda encarnação dos The Go-Betweens. Cabe-nos usufruir do momento.

Festa no céu

Clique na imagem para ampliar

Título: Festa no Céu
Autor: José Eduardo
Fonte: 1000Imagens

segunda-feira, 16 de maio de 2005

7 rapidinhas


Boom Bip - Blue Eyed in the Red Room (5/10)
Paisagens sonoras feitas de melodias electrónicas e ritmos pausados, a afrouxar as fronteiras do hip-hop e recheadas de melancolia instrumental mas sem rasgos significativos de inventividade.
(Lex, Março 2005)







Built Like Alaska - Autumnland (6/10)
Orgânicamente elaborado e assente em toadas lentas, o mais recente trabalho dos Built Like Alaska remexe na sensibilidade folk e percorre com minúcia o espectro da nostalgia, piscando hipnoticamente o olho a uma certa pop quase barroca e à fórmula do rock independente.
(Future Farmer/Sweat of the Alps, Fevereiro 2005)








The A-Frames - Black Forest (6/10)
Trio de Seattle, os The A-Frames são artesanos de um rock preguiçoso, um som irreverentemente cru e caótico, com laivos de psicadelismo, e cuja mecânica essencial encaixa numa reinvenção única das raízes do punk.
(Sub Pop, Março 2005)







Adrian Belew - Side One (7/10)
Um guitarrista de primeira água apresenta um rock desregrado e com tendência experimental, onde cabem influências da fórmula progressiva e de Zappa.
(Sanctuary, Janeiro 2005)







Julian Cope - Citizen Cain'd (6/10)
Edição dupla de rock directo e instrumentalmente incisivo, com vocalizações dissimuladas entre as distorções e ruídos típicos de uma gravação rudimentar que invoca a matriz da tradição blues e lhe infunde uma esquizofrénica miscelânea de ingredientes. O desfecho: um álbum psicadélico de garagem, saído da mente de um engenhoso druida cujo filão de criatividade mais original parece ter-se esgotado no passado.
(Head Heritage, Janeiro 2005)





Vic Chesnutt - Ghetto Bells (7/10)
Pleno de urbanidade e sentido de proporção, o mais recente trabalho do compositor paraplégico da Geórgia é um disco sem medo do risco, de emoções fortes e contrastantes que recebe com agrado o númen da soul e do blues, moldando-o à mistura fina da voz cava de Chesnutt com o talento de músicos de eleição como o guitarrista Bill Frissell, o teclista Van Dyke Parks e o baterista Don Heffington.
(New West, Março 2005)







Akron/Family (7/10)
Desafio pós-rock místico e experimental com vocalizações invulgares e sons atípicos que compõem uma orgânica atmosférica e sedutora, de momentos com beleza transcendental e que merecem uma escuta veneradora. Primeiro disco de um projecto que promete vingar e que cruza destramente o universo folk com a grandeza etérea de outros mundos.
(Young God, Março 2005)

domingo, 15 de maio de 2005

A vida é um milagre

Apreciação final: 7/10
Realizador: Emir Kusturica (2004)
Actores: Slavko Stimac, Natasa Solak, Vesna Trivalic e Vuk Kostic
Género: Drama/Comédia
Duração: 155 mins.









A mais recente alegoria do esdrúxulo Emir Kusturica é uma fita repleta das costumeiras intenções ideológicas do cineasta bósnio, onde não faltam as alusões inevitáveis ao conflito bélico que assolou a Bósnia na década de 90, tema que cruza transversalmente a obra do cineasta. Desta vez, a acção decorre numa comunidade rural das montanhas daquela república dos Balcãs, durante o ano de 1992, no pleno dealbar da disputa. O afável Luka (Slavko Stimac), o chefe da estação de caminhos-de-ferro, simultaneamente idealizador da recém-criada rede ferroviária da rústica comunidade, é casado com a volúvel Jadranka (Vesna Trivalic), uma deprimida cantora lírica que, apartada da ribalta por força do matrimónio, teima em adestrar-se no trecho primaz de Anna Karenina, conservando a esperança de um regresso irrelizável aos palcos.A eclosão da guerra e a frenética sucessão de eventos subsequentes, entre os quais a incorporação no exército do filho do casal, Milos (Vuk Kostic), vai sacudir a pequena aldeia e abalar o conformismo dos seus habitantes. O ónus do conflito e a chegada da bela muçulmana Sabaha (Natasa Solak), uma prisioneira de guerra, vão pôr à prova as utopias de Luka.

A Vida é um Milagre é um filme que incorpora os excessos que habitualmente (e habilmente) condimentam a obra de Kusturica: a bizarria hiperbólica das personagens, dos cenários e do enredo, o recurso quase contínuo à música de metais (escrita pelo próprio) como parte da equação de completude de cada cena e, não menos idiossincrático, o emprego de subterfúgios surrealistas a tocar as raias da verosimilhança. Como sempre, Kusturica convoca um bestiário ironicamente simbólico e activamente participativo que ajuda à definição de ritmos do filme e à construção de um traço satírico incomum. A título de exemplo, há uma jumenta suicida que, qual Karenina, ferida de amores, espera pacientemente na linha por um comboio que ponha termo à sua existência infeliz.

Se a primeira parte do filme apresenta os protagonistas e contextualiza a sua vivência despojada, a segunda parte, em simultâneo com sopros de ódio da guerra, expõe o paradoxo de uma história de amor e amantes amaldiçoados, uma réstia de fulgor incandescente e sensual a sobreviver por entre as ruínas e a negrura. O epílogo de A Vida é um Milagre perfaz um desfecho clássico, digno de uma ópera de Puccini, numa cena que não enjeita a propriedade da combinação do absurdo do universo complexo de Kusturica e a fantasiosa condição do amor concretizado.

Em A Vida é um Milagre a saturação poética de Kusturica dá sentido a uma narrativa ágil, bem construída e suportada em bons desempenhos de representação. Com engenho metafórico, o realizador bósnio arquitecta uma sólida celebração da vida, mostrando sem acanhamento o rídiculo e a farsa da guerra. A Vida é um Milagre é um retalho shakespeariano do universo grotesco e caótico de Kusturica que, parecendo absurdo e inverosímil, se assemelha a um retrato sarcástico do mundo real.

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Nudez ao fim do dia


Título: Nudez ao fim do dia
Autor: Aguinaldo C. Vera-Cruz
Fonte: 1000Imagens

Mariza - Transparente

Apreciação final: 8/10
Edição: EMI, Abril 2005
Género: Fado







A produção do brasileiro Jacques Morelenbaum para o mais recente trabalho de Mariza faria adivinhar a concertação do seu fado com as sonoridades do outro lado do Atlântico. De resto, as insistentes confidências públicas da cantora pelo desejo em render uma homenagem a outros sons da lusofonia, como as mornas e a bossa nova, deram azo à expectativa de que Transparente fosse o primeiro produto desse intento. Contudo, não é imediatamente sensível esse propósito. A nota dominante da intervenção do director artístico de Caetano Veloso é a transmutação das eufonias de Mariza em momentos musicais de nobreza maior, graças à inclusão de trechos de cordas que cumprem cabalmente a função de alindamento das texturas da incontornável guitarra portuguesa. Neste registo, a voz harmoniosa de Mariza soa cristalina como nunca, as composições desfilam exibindo ostensivamente a magnificiência da sua simplicidade. A esse propósito, os méritos da fadista e de Morelenbaum fazem jus ao título do disco, formando um tomo de canções transparentes e respeitadoras da tradição musical portuguesa e que, sem beliscar a pureza do seu legado, a enriquecem oportunamente com a intercessão de instrumentos estranhos ao universo do fado como o acórdeão, a flauta e o violoncelo.

As palavras são de Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Alexandre O'Neill, entre outros, e acrescentam retalhos de alma portuguesa ao embalo melancólico do fado alfacinha. Transparente é um trabalho excelso e que traz vestígios de um devir inventivo para Mariza, em que o balanço de outros ritmos virá a matizar o fado com cores híbridas e dar-lhe uma dimensão universal. "Fado Português de Nós", uma deliciosa combinação fado-samba, é um sinal dessa metamorfose que, se descontenta puristas, faz o encanto dos melómanos mais audazes. Profundamente portuguesa e orgulhosamente do mundo, Mariza (e o quase imaculado Transparente) devem ser convidados de honra de qualquer amante de música de qualidade.

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Cavalos de Corrida


Edgar Degas, 1866-68

Aimee Mann - The Forgotten Arm

Apreciação final: 7/10
Edição: Superego, Maio 2005
Género: Cantautor/Pop-Rock Alternativo







Aimee Mann dispensa apresentações, especialmente desde que musicou o filme Magnolia (1999) de Paul Thomas Anderson. Depois disso, o belíssimo Bachelor N.º 2 (2000) lançou-a definitivamente para o estrelato. The Forgotten Arm é o quinto álbum de estúdio e avoca a fórmula típica da autora: uma voz inconfundível e composições pop-rock adultas. Neste trabalho, a cantora esquadrinha a vulnerabilidade e a insignificância do ser humano, incorporadas habilmente no relato (numa dúzia de composições) da relação ambígua entre o boxeur John (um ex-combatente do Vietname) e a sua amada Caroline. As utopias do casal desmoronam-se na acareação com a realidade, as promessas sumem-se no tempo e as drogas são o veículo catártico das frustrações.

The Forgotten Arm é um álbum conceptual, também o mais complexo de Mann. A coesão do registo é assegurada pelas sinergias entre canções, pequenos quinhões de uma história comum cujo significado primaz só pode ser entendido no todo monolítico. Depois, as melodias cativantes e a voz doce engalanam o desastre da narrativa, compondo um paradoxo de beleza única. A futilidade das adições e as cicatrizes da desilusão são expostas com franqueza e com o toque subtil das grandes obras. The Forgotten Arm embevece pelo realismo do enredo e pela tangibilidade da mágoa através dos acordes do piano ou da guitarra. Escutar o mais recente trabalho de Aimee Mann é perscrutar a essência da vida humana e o insustentável ónus do sonho. Tocante.

Okkervil River - Black Sheep Boy

Apreciação final: 7/10
Edição: Jagjaguwar, Abril 2005
Género: Indie Rock







Texanos de origem, os Okkervil River são capazes de juntar um certo garbo instrumental a textos profundos que se movem gentilmente entre as fracturas da emoção humana e a intimidade da confissão. De resto, Black Sheep Boy aceita esse preceito, serve-se de uma toada taciturna que, em simultâneo, é o catalisador do turbilhão de sentimentos que preenche o espaço sónico do disco e, com semelhante destreza, é a panaceia para as convulsões internas do processo. Nessa medida, Black Sheep Boy é paradoxal como um conflito que apazigua. Os arranjos são augustos e secundam agilmente o discurso quase histérico de Will Sheff. Não se pense que o disco destila raivas cadentes. Puro engano. Os contextos são outros: filhos desaparecidos e/ou abusados, amigos perdidos, amores desencontrados e relações humanas frustradas. A meditação altruísta assenta em canções melódicas e cuidadosamente urdidas, divididas entre o galanteio à atmosfera mexida do rock e o secretismo íntimo da balada indie. Em ambos os formatos, os Okkervil River têm êxito e dão a Black Sheep Boy a ambivalência de um vigor terno e de uma fragilidade tocante.

Contendo alguns dos melhores temas da carreira do grupo texano ("For Real", por exemplo), Black Sheep Boy parte do tema homónimo que Tim Hardin escreveu em 1967 e segue numa expedição contemplativa pela dor da espécie humana. A única mácula: não se percebe uma evolução no som do grupo. Ainda assim, o charme rústico deste trabalho e o traço idiossincrásico do ensemble texano são garantia de entretenimento.

Flower


Título: flowerjpg
Autor: Kevin Oke
Fonte: Travel Photography

quarta-feira, 11 de maio de 2005

Retrato de Natasha Nesterova


Mikhail Nesterov, 1906

Architecture in Helsinki - In Case We Die

Apreciação final: 8/10
Edição: Bar/None, Março 2005
Género: Electrónica Alternativa/Pop Alternativa







Não se deixe enganar pelo nome, os Architecture in Helsinki são um octeto australiano (de Melbourne). Normalmente reconhecidos pela completude invulgar do seu som, especialmente em virtude do recurso a um vasto arsenal de instrumentos - entre eles estão a tuba e o clarinete - os músicos tecem protótipos sónicos que misturam com engenho a orgânica electrónica e o imaginário da pop naïf. Neste In Case We Die, o registo é multidimensional e corta transversalmente uma miríade de influências, resultando numa massa acústica inédita e marcada por oscilações contínuas no alinhamento do disco e variações em frenesi nas faixas. A produção cristalina é o pedestal acertado para a condição vibrante da face instrumental, a que se juntam espectros vocais diversificados (os oito elementos do grupo dão um contributo). Tudo junto, In Case We Die assemelha-se a um ponderado laboratório de experiências sonoras, confirmando os Architecture in Helsinki como artesãos na primeira linha da reinvenção das estruturas da música. A indefinição e o caos do espaço criativo do grupo é, neste caso, o mérito maior do disco.

Versatilidade a rodos, talento à larga e uma noção de liberdade criativa nos limites da sensatez são os condimentos essenciais de In Case We Die. Encaixá-lo no escaparate ordenado de um género musical na loja de discos do quarteirão? Impossível. Ouvi-lo? Obrigatório.

British Sea Power - Open Season

Apreciação final: 7/10
Edição: Rough Trade, Abril 2005
Género: Indie Pop-Rock







Oriundos de Brighton, os British Sea Power trazem-nos o segundo longa duração da sua existência, depois do bem sucedido The Decline of British Sea Power (2003). Neste trabalho, a regra é símil: o colectivo britânico já desenhou um estilo próprio, feito de vocalizações diáfanas, arranjos de cordas coadjuvantes e de um pacto sinergético entre as guitarras acústicas e eléctricas. É verdade que os rapazes tocam, aqui e ali, a exuberância dos The Cure e dos Pixies e também visitam as ruínas dos Joy Division, mas é transgressão estimar tão ilustres númenes? A essas referências, os British Sea Power acrescentam o carimbo da sua estética, graças a uma escrita atmosférica, com tiques pop cada vez mais convidativos.

Repleto de urbanidade e de contemplação sombria da vida moderna, Open Season é um corpo vivo de boas canções, inventadas com a probidade das composições despojadas. A junção comedida de texturas sónicas com as guitarras acústicas e o piano compõe uma lição pomposa que ajuda a aprofundar a grandeza conceptual dos British Sea Power, aqui renovada com sensibilidade acrescida. Profusamente emocional e imune a chichés, Open Season é um tomo intrigante e belo, a que só parece faltar um rasgo de imprevisibilidade que lhe rompa a coesão monolítica. Ainda assim, Open Season é uma edição meritória e favorece a promoção dos British Sea Power a um estatuto relevante.

Umbrellas at the Night Market, Laos


Título: Umbrellas at the Night Market, Laos
Autor: Kevin Oke
Fonte: Travel Photography

terça-feira, 10 de maio de 2005

Matrix Strawberry



Título: Matrix Strawberry
Autor: Pedro Flávio
Fonte: 1000Imagens

Of Montreal - The Sunlandic Twins

Apreciação final: 8/10
Edição: Polyvinyl, Abril 2005
Género: Indie Pop-Rock







O sétimo disco dos americanos Of Montreal (não, não são oriundos dessa cidade canadiana!) adopta as máximas habituais do grupo, com acento tónico em melodias pop exuberantes, feitas de ritmos invulgares (com recurso a elementos electrónicos e guitarras) e vocalizações de amenidade onírica. A riqueza orgânica da escrita de Kevin Barnes (voz) ajuda ao devaneio sonhador do auditor que, suportado no fulgor magnético das treze composições que fazem o alinhamento do disco, é indício vincado da propensão viciadora de The Sunlandic Twins. A estrutura fantasiosa deste trabalho promove uma infalível e divertida catarse, uma purificação emocional imparável, pela regeneração de um universo de inocência que, não sendo frívolo, incita ao encantamento.

The Sunlandic Twins é uma edição caleidoscópica que nos povoa o imaginário com melodias apelativas e multidimensionais que fazem a prova derradeira da elasticidade do som do colectivo norte-americano. Às composições não faltam preciosos interlúdios instrumentais que lhes conferem uma grandeza extra, bem como as vozes em coros uníssonos, umas vezes apaixonantes, em outros instantes mais próximas do assombro, sem perderem o sentido de coesão. O desfecho é um disco versátil, não volúvel, com intervalos de criatividade suficientemente latos para o consagrarem como uma das experiências musicais deste ano. The Sunlandic Twins não é um disco genial mas tem substância q.b. para assumir a serventia de acompanhamento musical numa tarde primaveril.

Edan - Beauty and the Beat

Apreciação final: 8/10
Edição: Lewis, Março 2005
Género: Hip-Hop Alternativo/Sampling







Edan Portnoy pode ser um intérprete ignorado pelos circuitos mainstream do hip-hop mas o seu nome não é indeferente à comunidade underground, no seio da qual conquistou um estatuto exclusivo, mercê da força aglutinadora da sua música e da ubiquidade da sua influência. Como se isso não bastasse, o músico de Boston ainda acumula, com particular nobreza, os artifícios de programador e sampler. Beauty and the Beat é o segundo longa-duração de Portnoy e cuida de venerar o rap de outrora, ao mesmo tempo que lança mão de inéditas proximidades a outros sons, em especial o eletro-jazz e o rock. Nessa medida, o registo assume proporções conceptuais, seja pelo viço inscrito na orgânica musical ou pelo estado idiossincrásico do conteúdos líricos.

Edan Portnoy parece ter encontrado, com o conciso Beauty and the Beat, o seu porto seguro na revoltosa cena underground. O disco é um decreto formal de fusão de influências que percorrem décadas e que acolhem, com idêntica propriedade, o psicadelismo genial de Hendrix ou a crua veemência dos Ultramagnetic MC's e dos Wu-Tang Clan. A colagem de sons é equilibrada e produz, sílaba a sílaba, tom a tom, um fluxo criativo demasiado fértil para se circunscrever ao mundo hip-hop; Beauty and the Beat é coisa maior, serve como declaração de uma classe sónica distinta e colectora de influxos tão retro quanto avant-garde. Uma edição imperdível.

segunda-feira, 9 de maio de 2005

Geometrias


Título: Geometrias
Autor: Victor Melo
Fonte: 1000Imagens

Buck 65 - This Right Here is Buck 65

Apreciação final: 7/10
Edição: V2, Fevereiro 2005
Género: Hip-Hop Alternativo







O canadiano Buck 65 conta uma década de gravações hip-hop invulgares que, assumindo a postura reactiva desse universo, contemplam estruturas sónicas mais elaboradas, algures entre o rap underground, a electrónica e mesmo a folk, essencialmente graças à introdução de percussões originais, guitarras assombradiças e efeitos electrónicos pouco vulgares. This Right Here is Buck 65 é uma recolha do melhor material do músico e serve como cartão de visita ao mundo bizarro de Richard Terfry (nome de baptismo de Buck 65), um contador de histórias pitorescas e grotescas, como "Centaur", que revela a história da aberração de um homem cujo orgão copulador tem uma dimensão anormal. Com este e outros relatos, o canadiano pretende invadir o mercado americano com uma edição consistente e inventiva, que, se pode não encantar os puristas do mundo hip-hop porque o abre a outras sonoridades, será uma prazenteira surpresa para quem aprecia as criações musicais que derrubam fronteiras de géneros.

O mérito maior de This Right Here Is Buck 65 é o casamento simbiótico das texturas hip-hop com estilos aparentemente imiscíveis, sejam eles a tradição musical folk da América do Norte, o dub das gerações electrónicas ou o formato rock (ouça-se "463"). A astúcia e o sentido de oportunidade dos universos de Terfry são vertidos em composições igualmente requintadas e desvairadas que merecem um justo louvor. Mais do que rap, mais do que outra coisa qualquer, This Right Here is Buck 65 é uma amostra do que Terfry é capaz de fazer (e faz bem...) e deixa pistas para um porvir que é credor de atenção. Recomendável.

Rhythm & Sound - See Mi Yah

Apreciação final: 6/10
Edição: Burial Mix, Março 2005
Género: Dub Experimental/Reggae







Os Rhythm & Sound são Moritz von Oswald e Mark Esnestus e vêm de Berlim. Em See Mi Yah a proposta é singular: partir de um ritmo único e vesti-lo com texturas sónicas diferentes ao longo de onze faixas. Assim, a composição que baptiza o álbum é o pano de fundo do alinhamento de um disco que a apresenta em dez versões vocalizadas e uma abordagem instrumental. A entoação primaz é a escola do reggae, tocada ao de leve por um fino travo de techno minimalista. Se cada um dos vocalistas convidados parece ser capaz de emprestar um contributo válido ao ritmo-base, a obra global não mascara a inevitável marca de repetição ecoante que se instala no ouvinte. Embora cada faixa mostre sinais destrinçadores e contribua para um registo monolítico, quase impenetrável, o tom monocórdico do álbum fá-lo resvalar para um maçador desfile de um dub sincopado e repetitivo.

See Mi Yah é ritmo proveitoso mas escutá-lo incessantemente durante cerca de quarenta e sete minutos é coisa que os ouvidos menos treinados enjeitam. Apenas para fãs de dub-reggae ou para melómanos indefectíveis.

sexta-feira, 6 de maio de 2005

Remodelação do apARTES


O apARTES foi alvo de uma profunda remodelação gráfica e de uma reordenação de conteúdos. Em virtude desse processo de mudança, algumas das novas funcionalidades deste espaço ainda não funcionam na plenitude. A esse propósito, a equipa do apARTES agradece a todos os utilizadores que detectem problemas o envio de um mail para o endereço acpinto@gmail.com com um relato sucinto do erro, de forma a que o apARTES seja gradualmente aperfeiçoado.

Em nome da equipa do blog, espero que as mudanças sejam do agrado dos frequentadores habituais deste sítio e presto o meu sincero agradecimento pela preferência.

Mais novidades serão anunciadas em breve.

Obrigado.
O apARTES é vosso.

Palma no CCB

E porque estamos no final da semana, deixo-vos uma sugestão para hoje à noite, para começarem o fim-de-semana, numa das melhores companhias do panorama musical português.

Jorge Palma & Os Demitidos
Centro Cultural de Belém - Lisboa (21 h)
Preço dos bilhetes: de 10€ a 30€

Após uma passagem pelos palcos do Porto, para brindar com o público o lançamento do seu novo álbum Norte, Jorge Palma apresenta-se hoje nos palcos de Lisboa, já uma carreira brilhante de 3 décadas.

E porque, para além de magnífico compositor, é um poeta genial, sugiro que no final do concerto, passem uma vista de olhos pelo novo livro "Na Terra dos Sonhos", um songbook, que compila todos os poemas do cantor e contém ainda oito inéditos, escritos em inglês.

Abram o espírito...e deixem-se contagiar por um espectáculo que poderá ser visto vezes sem conta e que, no final, deixará sempre a sensação de que estamos prontos para mais...

terça-feira, 3 de maio de 2005

Recital de Mário Laginha


Porque não, depois de mais um dia de trabalho, esquecer o trânsito e deixar-se seduzir por uma boa proposta?

Berenice Concertante
Recital por Mário Laginha

O pianista e compositor Mário Laginha, autor da música original para Berenice, peça actualmente em cena na Sala Garrett do Teatro D. Maria II, apresenta um recital com os temas especialmente compostos para este espectáculo.

5 de Maio- às 18.30h
Sala Garrett- Teatro nacional D. Maria II
Lisboa
Recital: 5€
Recital + espectáculo da noite: 10€

16 rapidinhas



Magnolia Electric Co. - What Comes After The Blues (7/10)
Estreia em estúdio de Jason Molina (ex-Songs:Ohia), o registo invoca a tradição country mais profunda da América e molda-a, em composições harmónicas que a espaços lembram Neil Young, à forma do mais apurado sedativo para um dia de stress.
(Secretly Canadian, Abril 2005)






Corrosion of Conformity - In The Arms of God (6/10)
Rock pesado que não resvala para o facilitismo do nu metal mas cuja fonte inspiradora se resume a colagens mais ou menos assumidas de lugares comuns (leia-se Metallica ou Ozzy) bastante déjá-vu.
(Sanctuary, Abril 2005)






Le Peuple de l' Herbe - Cube (5/10)
Disco fresco e mexido, de ambiente cinematográfico tipo James Bond cruzado com referências hip-hop e tribais, sem espaço para ideias novas.
(PIAS, Fevereiro 2005)




The Presidents of The U.S.A. - Love Everybody (7/10)
Proposta rock descomprometida e viçosa, em homenagem reverente à tradição punk e que assegura, se não algo mais, pelo menos o entretenimento irresistível do auditor.
(Pusa Music, Agosto 2004)






Ted Leo & The Pharmacists - Shake The Sheets (6/10)
Pop alternativa com trejeitos de rock'n' roll entretido, feita de tons apelativos, guitarras angulares e refrões sensíveis que garantem a excitação mínima.
(Lookout, Outubro 2004)






Six Feet Under - 13 (4/10)
Death metal que bebe de influências mais meritórias e que, ainda que descarregue alguns quilos de volts em determinados instantes do disco, não escapa à incómoda sensação de plágio.
(Metal Blade, Março 2005)

Posto de escutaWormfood13This Suicide





Apocalyptica (5/10)
Os finlandeses que se celebrizaram com as versões de Metallica no violoncelo, prosseguem na tentativa de afirmar o seu próprio trabalho, combinando, com sucesso variável, as sonoridades de cordas clássicas com o formato mainstream do metal.
(Universal, Março 2005)






Kick Bong - A Cup Of Tea? (6/10)
Electrónica ambiente e experimental que recorre ao sampling com propriedade e que atinge, sem transcendências, uma solução de dub assinada com algum psicadelismo e uma interessante noção de proporção.
(Ultra Vista, Janeiro 2005)






Meshuggah - Catch Thirty Three (7/10)
Os suecos Meshuggah moldam uma atmosfera metal progressista e com algum experimentalismo (lembra-se dos Isis?).
(Nuclear Blast America, Maio 2005)




Venetian Snares - Winnipeg is a Frozen Shithole (6/10)
Aaron Funk apresenta-se desta vez num registo electrónico mais mecânico, menos melódico, menos acessível, com uma orgânica lustrosa e elaborada a que só falta o toque de genialidade de outros trabalhos.
(Sublight Records, Fevereiro 2005)






Gorillaz - Demon Days (7/10)
Versatilidade a rodos, acento tónico no aligeiramento do preceito hip-hop costumeiro e reforço das texturas indie compõe um registo sólido, coeso e recheado de boas composições.
(Virgin, Maio 2005)




De-Phazz - Natural Fake (6/10)
Os prolíficos De-Phazz regressam na fórmula habitual, os ritmos dançáveis que fundem a electrónica com a sensualidade do chill-out e dos embalos latinos, mas sem fugir à mediania.
(Universal, Abril 2005)






Damon & Naomi - The Earth Is Blue (7/10)
Sexto registo de uma dupla que se move nos terrenos da dream pop e que escreve paisagens sónicas de brilho e candura singulares, com vozes hipnóticas de melancolia. Emocionalmente poderoso.
(20/20/20, Fevereiro 2005)






Dead Meadow - Feathers (7/10)
Rock declaradamente pós-grunge, organicamente preciso e urdido com parcimónia, elevando vozes vagas e ambientes contemplativos a um estatuto merecedor de atenção.
(Matador, Fevereiro 2005)






Dirty Americans - Strange Generation (3/10)
Sugestão pretensamente rock que se limita a copiar os trejeitos das tendências mais ligeiras.
(Roadrunner, Maio 2004)

Posto de escutaDead ManControlNo Rest





Esbjörn Svensson Trio - Viaticum (7/10)
Um dos segredos mais bem guardados do jazz escandinavo, o trio sueco apresenta uma escrita de bom nível, no formato piano/bateria/contrabaixo, permitindo-se o devaneio de algum improviso que, se retira formalismo ao disco, conquista os adeptos do virtuosismo.
(ACT Records, Janeiro 2005)

segunda-feira, 2 de maio de 2005

Damien Jurado - On My Way To Absence

Apreciação final: 6/10
Edição: Secretly Canadian, Abril 2005
Género: Cantautor/Indie Rock







Damien Jurado é um contador de histórias. Fá-lo com o enleio da música e a sua matriz é simples: músicas esqueletais com destaque para as melodias da voz e a guitarra. O recurso a universos imaginários e distópicos povoados por almas extraviadas e em trânsito para estados incertos é comum neste trabalho, na linha do que Jurado havia feito com Where Shall You Take Me?(2003). Os tecidos sónicos exprimem a diáfana forma das confissões, umas vezes mais negras, outras mais vívidas, sempre cortantes, no feitio de melodias íntegras de humanidade. Se os arranjos minimalistas elevam as composições de Jurado a fasquias mais generosas, o comedimento criativo do músico veda o disco a façanhas mais ambiciosas.

On My Way To Absence é um passo temerário de Jurado mas produz a prova derradeira de que o músico vagueia em marés de dúvida, algures entre a aposta segura nas raízes da folk que lhe renderam o estatuto merecido que ostenta e a viragem para outros destinos sónicos que, por ora, mais não farão do que semear a confusão entre os seus séquitos.