terça-feira, 12 de abril de 2005

Paisagem

Clique na imagem para ampliar

Byron Browne, 1958

6 rapidinhas



The Wrens - The Meadowlands (7/10)
Terceiro disco do quarteto de New Jersey, The Meadowlands é um disco de canções de bom nível, numa toada indie pop que percorre diversos quadrantes do espectro sónico e que demostra a amplitude dos The Wrens, sem minorar o charme intimista da sua escrita.
Absolutely Kosher, 2003



Moving Units - Dangerous Dream (6/10)
Revivalismo pós-punk repetitivo, guitarras angulares, ritmos exacerbados e...nada de novo.
Palm Pictures, 2003



EZ Special - Leitmotiv (4/10)
Pop choramingas, pretensamente honesta, feita de canções fáceis e cuja dimensão se esgota na limitada virtude artística de um qualquer spot publicitário sobre telemóveis.
Polydor, Fevereiro 2005



Boss AC - Ritmo, Amor e Palavras (7/10)
Hip-hop mainstream na língua de Camões, com o tacto libertino de um dos melhores MC's nacionais.
Norte Sul, Março 2005



Better Than Ezra - Before The Robots (5/10)
Canções de rock melodioso a piscar o olho à pop de grande escala, sem impressionar os ouvidos mais exigentes.
Artemis, Abril 2005



3 Guys Never In (6/10)
Disco de estreia de um trio francês que aposta em batidas minimalistas no estilo de Aphex Twin, com vocalizações a lembrar Tindersticks em timbres acessíveis de electrónica ligeira que roça as fronteiras da pop alternativa.
Artisan, Fevereiro 2005

segunda-feira, 11 de abril de 2005

O Enigma do Desejo

Clique na imagem para ampliar

Salvador Dali, óleo, 1929

The Decemberists - Picaresque

Apreciação final: 8/10
Edição: Kill Rock Stars, Março 2005
Género: Indie Rock







O mais recente trabalho de Colin Meloy e seus pares é um disco profusamente teatral, desde logo atestado na sugestão burlesca do título, Picaresque. Todavia, as composições deste trabalho não se resumem a esse adjectivo, crescem bem além dos registos anteriores da banda, demonstrando uma vitalidade imprevista e uma noção de acuidade assinalável. Os ritmos são melífluos e moldam uma atmosfera simultaneamente melancólica e apaixonada, de onde deriva a condição dramática e teatral do trabalho, exposta com uma produção prestadia. O ajuste do produtor Chris Walla dá ao som dos Decemberists estados triunfantes não ouvidos em registos anteriores e oferece o condimento maiuscúlo à fórmula indie rock do grupo.

Picaresque é uma tragicomédia bizarra com um protocolo vaudeville em que a paleta de sons variados enriquece a facúndia de Meloy, ajudando a formar um tomo de composições sólidas, o melhor trabalho dos The Decemberists. Meloy escreve: "I'm a writer, a writer of fictions" (vide "The Engine Driver"). Picaresque traz-nos essas alegorias únicas e é um seguro passo em frente do colectivo americano rumo ao destino que o seu potencial prometia. Recomendável.

The Evens

Apreciação final: 7/10
Edição: Dischord, Março 2005
Género: Indie Rock







Desde o lançamento de The Argument (2001), último trabalho dos Fugazi, não havia notícias de Ian MacKaye. O vocalista junta-se a Amy Farina (a baterista dos Warmers) no projecto The Evens e o disco homónimo resultou das sessões de gravação realizadas durante o Verão de 2004. The Evens exibe uma condição rock contemplativa, de uma orgânica quase esqueletal, dada a produção minimalista arriscada, que em algumas faixas é esticada aos limites do absurdo. Contudo, a agilidade das composições não sai minimamente beliscada pelo desafio, antes favorece a convicção anti-perfunctória do disco.

Os contextos líricos do registo são meditabundos e contemplam visões sócio-políticas pertinentes e cáusticas. A essência das letras é sublinhada por instrumentalizações conexas, em diálogo permanente, essencialmente numa estrutura bateria-guitarra. A esse propósito, Farina não é meramente subsidiária, assume protagonismo igual ao de Mackaye, dotando o disco de raras percussões de excelente nível e acrescentando às harmonias melodiosas do guitarrista uma infalível noção de consistência e completude. The Evens é um registo de bom nível com uma única mácula: composições deste nível mereciam as sinergias orgânicas de serem moldadas por um ensemble com mais músicos.

New Order - Waiting For The Siren's Call

Apreciação final: 6/10
Edição: London, Março 2005
Género: Pop-Rock Alternativo







Os New Order são uma daquelas bandas que dividem opiniões; se para uns os britânicos se limitam, de disco em disco, ao exercício repetitório de auto-plágio, para outros o colectivo de Manchester é um dos espécimes mais consistentes da cena alternativa. Waiting For The Siren's Call é o trabalho mais recente e ajuda à confusão: são eles consistentes ou repetitivos? O som luxuriante dos New Order mantém-se, as canções são resistentes mas parecem ter perdido o mesmerismo de outrora. O álbum percorre o património sónico do grupo que, se provocou convulsões no panorama da música no passado, não tem hoje essa força propulsora.

Waiting For The Siren's Call ostenta a assinatura inconfundível dos New Order. Virtude ou pecadilho? Certamente o cunho do grupo não tem hoje o mesmo valimento: a espaços soam datados os sintetizadores limpos, as guitarras mexidas e a voz de Bernard Sumner. Ainda assim, este álbum não envergonha a história do grupo que nasceu das ruínas dos Joy Division e, embora não mostre nada verdadeiramente novo, confirma o estatuto à-margem-de-modas dos New Order.

Maresias #51

Clique na imagem para ampliar

Título: Maresias #51
Autor: Nanã Sousa Dias
Fonte: 1000Imagens


Somos demasiado pequenos num mundo tão fabuloso e extraordinário. Contudo, julgamo-nos a razão da sua existência, o fim para o qual tudo converge. Nada de mais errado.
Olhemos à nossa volta...

Belo Preto & Branco.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Guitarra

Clique na imagem para ampliar

Pablo Picasso, 1913, colagem

Mando Diao - Hurricane Bar

Apreciação final: 7/10
Edição: Mute, Março 2005
Género: Garage Rock/Rock Revivalista







O intento dos suecos Mando Diao é baralhar a pujança entusiasta do rock de garagem com os tiques melódicos da pop britânica. A sonoridade do último trabalho do colectivo escandinavo, Hurricane Bar é viçosa, imediata e jubilosa. As vozes diáfanas dos dois vocalistas, Björn Dixgärd e Gustaf Norén, revestem a orgânica melodiosa do disco, pontuada pelo abeiramento a um universo sónico imaginário num estilo rock Strokes-meet-Oasis. Percebe-se um aprazível travo revivalista ("God Knows" não tem uns pozinhos de Beatles?) que, não merecendo honras de protagonismo central, serve de sopro inspirador às composições. As canções apresentam-se sem pretensões, aceitam um confronto puramente mecânico com as suas influências e, mesmo privadas daquela pontinha de sentimento que as agarraria a outro patamar, são o garante de cinquenta e dois minutos de agrado auditivo.

Hurricane Bar é uma edição recomendada aos nostálgicos do rock dos 70's e que não receiem ver o encéfalo infectado por uma desusada virose que, tomando de assalto o sistema nervoso central, impele a levantar do sofá as nádegas ociosas, a recuar no tempo, a correr para a cozinha com as passadas estorvadas pelas bocas-de-sino, a tomar a mão da mulher que já foi namorada e a relembrar a pergunta que se impunha nos bailes da época: a menina dança? Disco de puro rock hodierno, com raízes num passado saudoso e que continuará a encantar gerações. Irresistível.

Glenn Hughes - Soul Mover

Apreciação: 7/10
Edição: Sanctuary, Janeiro 2005
Género: Hard Rock







Antigo baixista dos Deep Purple, Glenn Hughes move-se na atmosfera hard rock com a agilidade de um veterano da esfera mais pesada da música. A versatilidade das suas vocalizações multidimensionais ajudou-o a consolidar um estatuto ímpar e um culto de seguidores atentos à recorrente reinvenção do seu estilo. Na companhia usual do seu guitarrista de eleição J.J. Marsh e do teclista Ed Roth, a surpresa está na bateria, reservada a Chad Smith (Red Hot Chilli Peppers). A aparição pontual de Dave Navarro (guitarra dos Jane's Addiction) é um dos segredos de Soul Mover. A química entre os músicos é sensível ao ponto do registo sugerir a presença de uma banda de longa data, ao invés de um registo de Hughes a solo. A esse facto não são indiferentes a produção cristalina e a estrutura das composições.

Glenn Hughes é um ícone firme do rock e prova-o à saciedade em grande estilo com Soul Mover, um tomo equilibrado e intuitivo que agradará aos seguidores deste género musical e a qualquer melómano que procure um disco que rompa declaradamente com a modorra da cultura rock-feito-à-pressão.

Sem título

Clique na imagem para ampliar

Título: Sem título
Autor: desconhecido
Fonte: Reportage (GettyImages)


A primavera está aí e toda a explosão de vida que lhe está associada. Desfrute.

Belo macro.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

13 rapidinhas


La Funk Mob - Bad Seeds (1993-1997) (6/10)
Colecção de electrónica francesa feita com percussões variadas e versáteis, uma leve semelhança com Thievery Corporation, infusões de R&B e hip-hop. (LO.SU,2004)






Theory Of A Deadman - Gasoline (4/10)
Proposta rock que flutua no universo Nickelback (Chad Kroeger é amigo da banda), onde cabeludos com uma atitude pretensamente cool choramingam empunhando guitarras eléctricas.
(Roadrunner, Março 2005)






Chuck Shuldiner - Zero Tolerance (5/10)
Edição póstuma de raridades e temas experimentais inacabados de Chuck Schuldiner, o pai do death metal, que pereceu em 2001, deixando um legado precioso e gerador de um culto em torno do seu nome.
(Candlelight, Fevereiro 2005)






Clutch - Blast Tyrant (6/10)
Hard rock com o vírus dos blues, deliciosamente old fashion e a fazer lembrar Ozzy Osbourne ou os saudosos Led Zeppelin.
(DRT Entertainment, 2004)






Rilo Kiley - More Adventurous (6/10)
Disco essencialmente acústico de um quarteto californiano que se move gentilmente e com ironia entre o universo relaxante da pop alternativa e o espaço intimista da folk tradicional.
(Brute/Beaute, 2004)






Broken Social Scene - You Forgot It In People (7/10)
Os canadianos Broken Social Scene são artesão de ambientes pós-rock contemplativos, de estruturas orgânicas complexas, em que a voz é subsidiária útil para o chamamento de uma estética variada e madura que pisca, aqui e ali, o olho à face experimental dos Sonic Youth.
(Paper Bag, 2002)






Emilie Simon - La Marche de L'Empereur (6/10)
Música ambiente experimental, de aparência quebradiça e amplitude cinematográfica, serviu de banda sonora ao filme homónimo de Luc Jacquet, compondo uma estrutura agridoce de conto-de-fadas que cruza, com mestria, a doçura de uma voz tímida com a acidez sinistra do peso dos instrumentos.
(Barclay, Janeiro 2005)





Funami - Funami (7/10)
Os Funami são um segredo bem guardado, uma dupla luso-canadiana (Tiago Conceição e Alex Desilets) cujo fito original é a exploração de novas dimensões musicais, dando à voz a missão ventríloqua de imitar instrumentos, desenhando ambientes futuristas em que as máquinas se permitem a subjugação aos primórdios da música. (Transformadores, Janeiro 2005)






The Zutons - Who Killed The Zutons (7/10)
Britânicos de origem, oz Zutons criaram um universo próprio, com um traço vincadamente rock e divertido, versátil o suficiente para percorrer a ingenuidade do garage rock com a mesma intimidade com que sobrevoam a estratosfera do saudável revivalismo.
(Deltasonic, 2004)






Husky Rescue - Country Falls (6/10)
Dos finlandeses Husky Rescue esperam-se vozes rumorejantes e embalos lentos de beleza glacial, numa visão alternativa do planeta rock, onde a atmosfera é distintamente hipnótica e se arreda de clichés fúteis, abrindo espaço para uma invulgar combinação de matizes sonoras que coabitam pacificamente, sem brilhantismo. (Minty Fresh, Abril 2005)






Télépopmusik - Angel Milk (5/10)
O trio de gurus da electrónica parisiense regressa com a fórmula de sedução trip hop, aqui apimentada pela grandeza ambiental das composições e pelo recurso a vozes etéreas, sem fugir à mediania.
(EMI, Março 2005)






Garbage - Bleed Like Me (5/10)
A assinatura de Shirley Manson e seus pares sobreviveu às convulsões internas da banda e Bleed Like Me é apenas mais um tomo de pop-rock directo, simples e honesto, até apelativo, mas inábil na tarefa de acrescentar ingredientes originais ao mundo Garbage.
(Geffen, Abril 2005)





Joy Zipper - American Whip (6/10)
Melodias, harmonias e afluxos de criatividade fazem a pop alternativa do duo americano Joy Zipper que, neste trabalho, expõe a face sombria da vida, nas drogas e na demência, mantendo a equidistância dicotómica entre a perturbação e o romantismo.
(Danger Bird, 2004)





Sem título

Clique na imagem para ampliar


Título: Sem título
Autor: Fernando Ladeira
Fonte: 1000Imagens


Com o aproximar da época estival, as populações voltam a temer o
flagelo dos incêndios. Cabe a todos nós contribuir para que esta
desgraça tenha um fim.
Um voto de solidariedade para com todos os soldados da paz.

Magnífica fotografia. Bom enquadramento, belas cores e óptima composição.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Amazona Ferida

Clique na imagem para ampliar

Franz von Stuck, óleo, 1904

Thee A Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & The Tra-La-La Band - Horses In The Sky

Apreciação final: 7/10
Edição: Constellation, Março 2005
Género: Pós-Rock Experimental







O terceiro e mais recente álbum dos A Silver Mt. Zion, projecto paralelo dos Godspeed You Black Emperor!, aqui apresentado como Thee A Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & The Tra-La-La Band é um registo reflexivo, das cordas do violoncelo ou da guitarra emergem vozes em coros de efeito hipnótico e repetitivo. A presença emocional de Horses In The Sky é tocante e vulnerável, refaz-se da aparente simplicidade e desordem das composições e avoca de corpo inteiro a exposição corrosiva da angústia. A fragilidade do discurso que timidamente viola, com voz trémula, uma imensidão de silêncios é a asserção última da mortalidade. Os A Silver Mt. Zion devotam um tributo catártico à dor, ao rancor, à solidão e à inveja, em arpejos invulgares, tons monocórdicos e insistentes, como o pêndulo frágil da vida.

Horses In The Sky é um álbum enigmático que, sendo lhano, não nos chega directamente, entranha-se demoradamente e mostra-se com desassombro em talhadas de um modus vivendi auto-indulgente e que busca a redenção na exibição das cicatrizes. Este trabalho incutiu uma lógica de variação na estética do colectivo canadiano, convertendo o conceito musical do grupo a uma dimensão orgânica mais rica, ainda que aquém da amplitude dos Godspeed. Mesmo assim, Horses In The Sky é um tomo consistente e que merece uma escuta de qualquer melómano curioso que se preze, especialmente pelas pérolas musicais que assistem no seu recanto à procissão dominadora das vozes.

Asian Dub Foundation - Tank

Apreciação final: 7/10
Edição: EMI, Fevereiro 2005
Género: Electrónica de Fusão







Os britânicos Asian Dub Foundation juntaram-se em 1993 e conquistaram um estatuto especial no seio do universo da electrónica de dança. Editado em Fevereiro último, o mais recente trabalho do grupo, Tank, é um impetuosa declaração política com uma fervorosa condição anti-guerra. Musicalmente, o álbum está envolto numa aura de pulsações ritmadas e consistentes, a fazer jus à assinatura dos londrinos, a que acrescem plásticas confidências de elementos orquestrais que reavivam o património sónico dos filmes Bollywood. A arquitectura de Tank é engenhosa, assenta em composições estáveis mas que apenas esporadicamente se livram do guião típico dos Asian Dub. E isso não tem que ser necessariamente negativo, já que a música é multifacetada, convida as cítaras e as texturas dub e enfeita-as recorrendo a percussões moldadas com alento quase jungle e um brilho sublinearmente oriental.

Tank é provocante e inflamado e revela o talento criativo indomável do colectivo dos auto-proclamados guerreiros ingleses, ao serviço da denúncia pejorativa de um mundo em guerra. A vibração incomum e a energia electrizante deste Tank brotam da natureza hip-hop das vocalizações mas também da produção cuidada e da convicção da electrónica e da programação. A massa aglutinadora de géneros que sobra de Tank é o testemunho de uma banda que funde estilos sem medo de firmar opiniões. Com um tolerável quinhão de erros, Tank deixa um rasto psicossomático: faz-nos mexer, pela mecânica dos ritmos, e pensar, pela acuidade das letras.

Saul Bellow (1915-2005)

Faleceu nesta madrugada o escritor Saul Bellow.

Nascido em Montreal em 1915, Saul Bellow acabou por crescer em Chicago, tendo frequentado a universidade local. Graduou-se em antropologia e sociologia pela Northwestern University em 1937.

A sua primeira novela, Dangling Man, foi publicada em 1944. Três anos mais tarde, surgiu The Victim. Da sua obra fazem parte os seguintes títulos (tradução portuguesa entre parentesis):


The Adventures of Augie March (laureado com o National Book Award,1954)
Seize The Day (Agarra o dia, 1956)
Henderson The Rain King (1959)
Herzog (Herzog,1964)
Mosby's Memoirs And Other Stories (1968)
Mr. Sammler's Planet (1970)
Humboldt's Gift (vencedor do prémio Pullitzer,1975)
To Jerusalem and Back. A Personal Account (1976)
Him with His Foot in his Mouth and Other Stories (1984)
More Die of Heartbreak (Morrem Mais de Mágoa,1987)
The Bellarosa Connection (A Organização Bellarosa,1989)
A Theft (1989)
Something to Remember Me By (1992)
Ravelstein (Ravelstein,2000)

Em 1965, o escritor foi reconhecido com o International Literary Prize (por Herzog), tornando-se o primeiro cidadão americano agraciado com tal distinção. O reconhecimento maior do percurso do romancista haveria de ser consagrado com o Prémio Nobel da Literatura, atribuído ao escritor em 1976.

Hipos

Clique na imagem para ampliar

Título: Hipos
Autor: Luís Louro
Fonte: 1000Imagens



O mundo animal e o seu fascínio.

terça-feira, 5 de abril de 2005

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Beck - Guero

Apreciação final: 7/10
Edição: Interscope, Março 2005
Género: Pop-Rock Alternativo







O californiano Beck Hansen é um ícone da comunidade alternativa cujas referências musicais se desdobram em espectros caleidoscópicos que percorrem, com idêntico engenho e propriedade, os universos do rock, da pop, do hip-hop, da country, do jazz, do funk e dos blues. A estes cenários juntam-se os fragmentos inventivos que Beck infunde na escrita, tornando-a imprevisível, também vibrante, na promoção de um género musical livre de tipificações ou preconceitos e que, catalisando sinergias entre estilos musicais aparentemente inconciliáveis, define uma identidade sónica maior. Este é o estatuto âncora de Beck, simultaneamente lisonjeiro e responsabilizador, construído com discos-referência como Mellow Gold (1994) ou Odelay (1996), colocando a fasquia da exigência a níveis arriscados e que fazem dos seus lançamentos discográficos casos descomedidamente mediáticos e pontos de mira para a crítica especializada. Três anos depois do acústico e íntimo Sea Change, onde a guitarra era a companheira fiel da voz, Beck traz-nos Guero, um registo que, contando com a produção dos Dust Brothers, se abeira da fórmula de sucesso de Odelay. Guero assemelha-se a uma revisitação da estética artesanal de fusão de géneros que celebrizou Beck e que, afinal, é o formato onde a elasticidade criativa do músico melhor respira. Não se trata de um registo tão surpreendente e revigorante como Odelay, ainda que o cunho distinto de Beck preencha as treze faixas do disco, com a serena maturidade de trintão a ocupar o posto da irreverência desafiante dos vinte anos. A isso se deve a maturidade de Guero, um disco de canções versáteis que se valem do arsenal inventor de Beck e resgatam a quintessência do seu património artístico. Mas, para alguém cujo propósito inconformista é o dogma primaz, Beck refreou o ímpeto renovador, optando por amparar-se em passadas seguras por caminhos experimentados antes ao invés de sondar os terrenos bravios da inovação. E num músico como Beck o retraimento calculista é sinónimo de conformismo.

Guero é uma tragicomédia equilibrada e inteligente, um retrato existencial onde se cruzam os destinos de amores perdidos e más fortunas, aqui e ali com um subliminar toque latino, mas onde a ciência esquizofrénica de Beck parece agrilhoada e se resume a um punhado de colagens nostálgicas. "E-Pro", o single rock de avanço deste trabalho e também o tema mais radio-friendly, é uma espécie de reciclagem de "Loser" ou "Novocain", partindo de riffs de guitarra e batidas fortes e culminando num refrão orelhudo. Em "Qué Onda, Guero", "Hell, Yeah" e "Farewell Ride" as incursões ao universo hip-hop marcam pontos. Depois, há sinais de brasilidade nas percussões de "Missing" e "Earthquake Weather", preenchidas com ornatos orquestrais de bom nível. "Broken Drum" é tipicamente Beck e pisca o olho às modernas tendências do rock. A super-produzida "Scarecrow" é uma deliciosa reconversão do folk americano, essencialmente acústica, em oposição a "Rental Car" ou "Emergency Exit", as composições com mais quilos, quer pelo recurso às distorções quer pelo chamamento de vocalizações mais psicadélicas.
Em suma, Guero é um trabalho ecléctico e de bom nível e não desiludirá os seguidores do percurso de Beck mas fica aquém no fito de fazer renascer a aura genial de Odelay. Mas não seria isso pedir um pouco demais?

Giuseppe Verdi - Aida

Numa edição DVD de 2000, com a etiqueta da prestigiada Deustsche Grammophon está disponível no mercado nacional o registo da exibição da mítica ópera Aida, de Giuseppe Verdi, no The Metropolitan Opera, em 1989. A gravação, vencedora de um Emmy, integra um elenco de luxo com Plácido Domingo (Radamés), Aprile Millo (Aida), Dolora Zajick (Amneris) e Sherrill Milnes (Amonasro), entre outros.

A peça de Verdi, dividida em quatro actos, é servida por cenários sumptuosos e por uma encenação imponente. A bela história de amor entre a escrava etíope Aida e o capitão de guarda egípcio Radamés, durante o conflito bélico entre os seus países, serve de pretexto para uma das obras primas da ópera clássica. A perícia do excelso maestro James Levine e da orquestra residente do The Metropolitan Opera confere à composição de Verdi a amplidão sonora que a interpretação única das vozes reclama. Esta exibição proporciona momentos inesquecíveis como o solilóquio de Aida no final da primeira cena do Acto I, desolada com a nomeação de Radamés para liderar o exército egípcio na guerra contra o seu país, ou a Marcha Triunfal de regresso de Radamés ao Egipto.

Uma edição recomendável para os admiradores do trabalho de Verdi e de uma das suas mais comoventes composições.

Esperança no olhar

Clique na imagem para ampliar
Título: Esperança no Olhar
Autor: Jorge Casais
Fonte: 1000Imagens


Um olhar repleto de expressão, onde os olhos azuis celestes deixam
transparecer algo profundo e inocente.

Bom enquadramento, óptimo arranjo, belo momento.

quinta-feira, 31 de março de 2005

O que a água me deu

Clique na imagem para ampliar

Frida Kahlo, 1938, óleo

2 discos em 2 parágrafos

Apreciação final: 8/10
Edição: XL, Março 2005
Género: Electrónica/Dance







M.I.A. - Arular

Electrónica ilusivamente sem dominação, originalidade em compassos frenéticos e irreverência fina são os ingredientes de M.I.A.. A musa por detrás do epónimo é Maya Arulpragasam, uma britânica com ascendência no Sri Lanka. A sua música densa é ingenitamente dançável e recolhe influências de géneros diversos, desde o rock à electrónica underground, misturados com exuberância e num tom festivo. O registo resulta enigmático e contrastante, também fatalmente sedutor, e demonstra potencial suficiente para gerar um culto à volta de M.I.A.. Arular é um filho bastardo da eletro-pop, uma súmula caótica de vocalizações exuberantes, percussões cacofónicas e muita electrónica. Arular é uma das mais compensadoras revelações deste primeiro quarto de 2005.




Apreciação final: 6/10
Edição: Brush Fire Records, Março 2005
Género: Pop-Rock Alternativo






Jack Johnson - In Between Dreams

O cantor/compositor Jack Johnson é um amante das guitarras acústicas e dos acordes travados com que compõe músicas simples. A voz adocicada do músico assenta na perfeição na textura limpa das composições, destacada pelos arranjos minimalistas. In Between Dreams é o seu mais recente trabalho e, não tivesse sido antecedido por três álbuns muito semelhantes, e seria uma registo valoroso. Assim, sendo-lhe destinado um pouso à sombra dos discos anteriores, In Between Dreams não pode deixar de ser considerado como mais-do-mesmo. A fórmula é a que trouxe Johnson ao estrelato e às graças do actor Ben Stiller. Não há mutações, não há rasgos especiais de criatividade, apenas a linha de rumo que o músico definiu para si e que, sendo apelativa, é marcada pela tendência repetitiva da sua escrita.

quarta-feira, 30 de março de 2005

David com a cabeça de Golias

Clique na imagem para ampliar

Caravaggio, 1606/7

6 discos em 6 parágrafos

Apreciação final: 6/10
Edição: V2, Março 2005
Género: Pop-Rock Alternativo





Stereophonics - Language.Sex.Violence.Other?

O quinto trabalho dos galeses Stereophonics indica um rumo diferente para a banda de Kelly Jones. A matriz primária de "Language.Sex.Violence.Other?" é ostensivamente rock. A confiança do grupo na escrita (especialmente de Jones) deste registo é quase palpável, numa viragem vibrante que percorre as mais variadas gamas do rock, desde o mainstream dos U2 ao ruído pós-Nirvana, sem esquecer as tendências recentes do Reino Unido. Um passo em frente de uma banda cuja consciência criativa foi capaz de sobreviver à mediocridade insípida dos últimos registos. Em "Language.Sex.Violence.Other?" só falta aquela pontinha de génio que faz a diferença. Ainda assim, a honestidade da mudança merece uma escuta.

Posto de escutaSupermanDakotaRewind




Apreciação final: 7/10
Edição: V2, Março 2005
Género: Pop Alternativo






Brendan Benson - The Alternative To Love

A música de Brendan Benson é limpa e viçosa e apela a um universo de canções de uma pop evoluída e madura, saudosa dos Beatles e alinhada com Evan Dando ou Brian Wilson. O ritmo dançável, as vozes de suporte, os genuínos riffs de guitarra , as incursões suaves pela electrónica e o tempero do imaginário Lennon compõem este The Alternative To Love. O disco revela-se numa fórmula charmosa, ainda que peque por se apegar a ela num jeito polido demais, incapaz de incutir aquele elemento de destrinça que o catapultaria para outro nível. De qualquer forma, um disco pop delicioso e versátil que, sem correr grandes riscos, é um deleite para os ouvidos. Recomendável.





Apreciação final: 6/10
Edição: Atlantic, Março 2005
Género: Indie Rock/Garage Rock






Louis XIV - The Best Little Secrets Are Kept

O quarteto americano Louis XIV combina com glamour uma vertente hedónica luxuriante e lasciva com as alegorias e os desmandos de uma fórmula rock desregrada, saudosa da década de 70. A atmosfera deliciosamente retro é pautada por textos pró-obscenidade, retirados de um imaginário de exaltação da sexualidade, e por texturas sónicas enérgicas que, sublinhando uma insanidade rock saudável, não apagam a mediania do apego a lugares comuns.





Apreciação final:6/10
Edição: Island, Março 2005
Género: Pop-Rock Alternativo/Electro-Rock Revivalista






The Bravery

Seguidores de uma tendência de fusão entre a new wave dos anos oitenta e o rock moderno, os The Bravery apresentam um som que traz à memória, em porções indissociáveis, a voz de Robert Smith e a música dos Duran Duran. Mas The Bravery acrescenta a esse espaço um cunho próprio, onde as guitarras se impõe um alvoroço revivalista muito fashion e cuja combinação equilibrada com elementos electrónicos produz uma toada sedutora e dançável. Contendo algumas faixas de bom nível, o registo é penalizado pelo descuido criativo de outras. Ainda assim, The Bravery é um tomo que, não revolvendo as estruturas do rock revivalista, assegura o mínimo entretenimento.





Apreciação final: 6/10
Edição: Zona Música, Março 2005
Género: Pop-Rock






Margarida Pinto - Apontamento

Margarida Pinto era a voz doce e meiga que guiava o projecto Coldfinger. No seu primeiro trabalho a solo, Apontamento, há uma toada subtilmente jazz que suporta composições maduras e inteligentemente construídas. As letras vêm do universo Pessoa e da própria cantora, responsável também pela escrita da maior parte das canções. A diferença em relação aos Coldfinger: texturas sónicas mais acústicas que sublevam a voz de Margarida. O problema: não há em Apontamento nada de verdadeiramente novo, as canções achegam-se perigosamente da mediania, não se desatando dos seus próprios limites. A graciosa voz de Margarida Pinto merece mais.




Apreciação final: 7/10
Edição: Tomlab, Fevereiro 2005
Género: Indie Rock






Patrick Wolf - Wind In The Wires

Patrick Wolf é um artista multifacetado. Wind In The Wires é o seu mais recente trabalho. As composições aceitam a fórmula de crescendo, onde os instrumentos se acrescentam gradualmente com aptidão, compondo um corpo final homogéneo e que apaixona pela raridade. A voz incomum dá expressão a músicas que cruzam com parcimónia a electrónica e o classicismo dos elementos de cordas, em pedaços cuja funcionalidade maior é a sua aparente desconexão que, afinal, resulta numa aglutinação sedutora de clímax nos refrões acolhedores. Essencialmente orgânico e elegante, Wind In The Wires mistura pós-modernismo e antiguidade, caminhando em passadas fiéis a um estilo cuja lei essencial é a invenção de coisas novas.

terça-feira, 29 de março de 2005