terça-feira, 19 de abril de 2005

The Books - Lost And Safe

Apreciação final: 8/10
Edição: Tomlab, Abril 2005
Género: Pós-Rock/Electrónica experimental







O terceiro registo dos nova-iorquinos The Books inaugura um estilo novo para o dueto norte americano, onde a voz (Nick Zammuto) aceita um compromisso maior. As vocalizações desformadas encaixam numa orgânica apurada, feita de guitarras eléctricas tratadas que se repetem em trejeitos minimalistas apetecíveis. As mudanças recorrentes na textura das composições rearmam persistentemente a estrutura ambígua de um disco que se transfigura da musicalidade da spoken word ao eclectismo do experimentalismo electrónico. A intervenção anfibológica dos samples não perturba o charme do discurso, antes promove afinadas sinergias que, por serem autênticas, parecem o desfecho lógico da contingente e feliz genuinidade de um encontro ocasional. E a música dos The Books é isso mesmo, é verosímil no seu não-planeamento e na simetria de elementos aparentemente incongruentes. Raramente um disco com samples consegue a integridade de Lost And Safe.

Definir Lost And Safe é ser inevitavelmente redutor; o capricho dos The Books é, neste trabalho, trocado por um registo mais directo e que investiga a face crua do som, moldando-a com a volubilidade da electrónica. A isso acrescem os conteúdos líricos do disco, em motejo cíclico do modo de vida americano e que De Jong e Zammuto resumem num aforismo irónico: "I want all of the American people to understand that it is understandable that the American people cannot possibly understand.” Agora nós?

Alasdair Roberts - No Earthly Man

Apreciação final: 7/10
Edição: Drag City, Março 2005
Género: Tradicional/Cantautor/Indie Rock







O escocês Alasdair Roberts é um protegido de Will Oldham (a.k.a. Bonnie "Prince" Billy), desde que este o descobriu, em 1996, num ensemble folk britânico, os Appendix Out. Neste registo, com produção a cargo de Oldham, Roberts celebra as memórias musicais da Escócia, deixando-se contagiar pelo tom solitário e sombrio dos cantos melancólicos de oito peças tradicionais do seu país natal. Sugeridos na feição de trovas medievas e lamentosas, os relatos cantados de estórias de amor, de traição e de morte assumem uma primorosa simplicidade e percorrem, com lata sensibilidade, o espectro dramático do sentimento humano. A nota de destrinça de No Earthly Man é a autenticidade do registo sónico, com uma produção de fino recorte e composições francas que fazem a ponte entre os recortes lacónicos de um tempo remoto, em que a morte passeava pelas ruas, e a urbanidade das texturas hodiernas, sem macular a herança musical da Escócia.

No Earthly Man é um documento envolvente, dispensa artifícios de estúdio e converte, na candura do som mínimo, com raro tacto, o assombro de cançonetas de estórias cruéis em tocantes peças de embalo.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Out Hud - Let Us Never Speak Of It Again

Apreciação final: 7/10
Edição: Kranky, Março 2005
Género: Electrónica Alternativa







O segundo trabalho dos californianos Out Hud, colectivo onde figuram três elementos dos !!! e que se move no universo indefinido do dance-punk, aceita repercussões do disco sound. A abordagem é um pouco mais electrónica do que no trabalho de estreia, ajudando à definição de uma sonoridade viçosa. A isso também não é indiferente o protagonismo vocal assumido pelos elementos femininos do grupo, a baterista Phyllis Forbes e a violoncelista Molly Schnick, que puxam o som do grupo para um registo mais pop. A mecânica instrumental e a produção fazem o resto, compondo um disco intuitivamente dançável; entre a libertação libidinosa das batidas e o devaneio asinino das letras, a convocação irresistível ao saracoteio das ancas parte de ângulos electrónicos em direcção a desafios sónicos revigorantes.

A destreza elástica da escrita dos Out Hud tem uma dimensão complexa e desembaraça-se habilmente de convencionalismos castradores, produzindo uma tensão enérgica e hipnótica que, com delicada afeição, compõe um espaço sónico entretido fundado no pós-punk e na pop dos anos 80 e onde o fino travo house se funde com um suave timbre dance club.

Prefuse 73 - Surrounded By Silence

Apreciação final: 6/10
Edição: Warp, Março 2005
Género: Rap Underground/Experimental/Techno Ambiental






Scott Herren é o produtor hip-hop por detrás do pseudónimo Prefuse 73. Nesta edição, o terceiro trabalho sob este nome, mantém-se a premissa requintada dos registos anteriores: promover a reinvenção do rap underground pela via do abeiramento a sonoridades techno. O tom prolífico deste Surrounded By Silence permite interpretações díspares. Se por um lado, sublinha a espessura das composições de Herren, por outro, pinta em relevo uma certa inconsistência criativa que joga em seu desfavor. Ainda assim, o mérito maior de Surrounded By Silence é a potência anti-fronteiras, num cortejo de temas variados que, afinal, são a prova última de duas coisas de idêntico valimento: a alucinada propensão de Herren para a inspiração ou a inclinação inopinada de revisitar a etologia do hip hop.

A atmosfera do disco é de luxúria instrumental, uma espécie de staccato que incorpora sabiamente os samples, os orgãos e os instrumentos de sopro em texturas capazes de mudar, com análoga competência, da toada experimental ou ambiental para o registo irreverente do underground rap. A proposta é tentadora mas o encargo temerário de aglutinar vários espaços sónicos, sejam eles exógenos (a colaboração neste disco dos The Books, El-P, Ghostface, Aesop Rock, Broadcast, RZA, Beans e dos mexicanos Café Tacuba é o ingrediente) ou façam parte do portfolio de Herren, é processo espinhoso. E se, no decurso dessa tarefa articulatória, Herren escreve pedaços de méritos inegáveis não é menos certo o enfado que deriva da exposição a um demorado desfile de vinte e uma faixas.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

Dogville

Apreciação final: 8/10
Realização: Lars Von Trier
Edição: 2003
Género: Drama



Trabalho excelso de Lars Von Trier, Dogville é uma fita inquietante que expõe, de jeito cru, a aleivosa condição da humanidade, a tentação do abuso que se encobre por detrás dos princípios morais da sociedade conservadora dos Estados Unidos, no tempo da Grande Depressão. Grace (Nicole Kidman) é uma bela fugitiva que encontra refúgio na rústica comunidade isolada das Montanhas Rochosas que serve de título ao filme. Com o apoio de Tom (Paul Bettany), o auto-proclamado líder intelectual da aldeia, Grace convence as gentes da terra a esconderem-na dos gangsters que a perseguem, em troca de horas de trabalho diário em prol da comunidade. Contudo, a cada dia, as exigências multiplicam-se...

Dogville parte de uma mise-en-scéne invulgar, inteiramente filmada em estúdio e recorrendo a cenários minimalistas que trazem à memória a visão despida de Brecht. No fundo, o dinamarquês Lars Von Trier constrói uma magnífica parábola na forma de peça de teatro, narrada brilhantemente por John Hurt. As casas de Dogville e a rua central (Elm Street) são incorpóreas, resumem-se a esparsos objectos de mobília, portas e pinturas no chão, expondo a exacta natureza dos habitantes e compondo um espaço quase intemporal onde o espectador projecta os mais variados mitos simbólicos. Da desmontagem das máscaras de Dogville deriva uma velada reflexão sobre a sociedade americana e as repercussões das políticas sociais, da corrupção e da violência. A esse propósito, a fotomontagem que encerra o filme, acompanhada pela canção "Young Americans" de Bowie, é um epílogo de ironia infalível.

Como produto cinematográfico, Dogville expõe os actores ao limite do risco, impelindo-os a uma técnica de representação que obriga à figuração mental dos cenários. O desenho e composição das personagens de Kidman (simultaneamente emotiva e glacial), Harriet Andersson, Lauren Bacall, Bettany, e demais actores, é de nível soberbo. O enredo, apesar da extensão do filme (178 minutos), não tem momentos de enfado, remexe recorrentemente a consciência do espectador, confrontado-o com alegorias dos medos ocultos que guarda de si mesmo. A realização de Von Trier amolda-se ao feitio dramatúrgico do enredo, a câmara é apenas um agente subsidiário dos actores, não se insinua, reserva-se a um voyeurismo secundário que, por fim, força o espectador à desassossegadora incumbência de testemunhar de perto a série de eventos.

Dogville é uma experiência abstracta de cinema inovador, assente em representações supremas e num argumento inteligente onde o drama do abuso de poder, a tortura psicológica e a depravação do humanismo sob a capa dos bons costumes são os preceitos. A convicção descrente de Lars Von Trier sai reforçada pela moral da história, projectada no desfecho da bela Grace: a pureza vencida pelo suplício. Dogville é uma lição de vida inesquecível e altamente recomendável.

Amanhã posso estar longe

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Romare Bearden, 1967

6 rapidinhas



Hammock - Kenotic (7/10)
Projecto de electrónica ambiente fundida com suaves atmosferas de guitarras pós-rock, em desafios permanentes ao ouvinte que o incitam a deixar-se levar pelo embalo hipnótico de uma escrita vívida e melancolicamente apaixonada (leia-se tipo Sigur Rós).
(HMK, Março 2005)





V/A - Verve Remixed 3 (5/10)
Terceiro volume da colecção de remixes do catálogo jazz da Verve por artistas reputados da electrónica, Verve Remixed 3 divide méritos em prejuízo da consistência: se há temas que atingem um nível alto, sem desvirtuarem excessivamente o original (a versão de "Speak Low" de Billie Holiday, a cargo dos Bent, é um exemplo), outros há que se divorciam de um tal jeito que perdem os vestígios da obra-mãe.
Verve, Abril 2005






Daedelus - Exquisite Corpse (7/10)
Electrónica quase sinfónica a chamar o imaginário do cinema dos anos 40, com fragmentos subliminares de bossa nova e pós-rock, emparelhados com um fino travo de experimentalismo e uma justa aproximação vocal à atmosfera hip-hop.
(Mush, Março 2005)






William Elliot Whitmore - Ashes To Dust(7/10)
Blues, Gospel, Country e Folk são sinónimos da tradição musical americana mais profunda de que a voz cava de William Elliot Whitmore e a tendência de sedução minimalista das suas canções são aptos mensageiros.
(Southern, Fevereiro 2005)






Copeland - In Motion (4/10)
Rock mainstream sem nada de especialmente inovador e que resvala para a mediocridade do canto choradinho onde nem sequer falta a inevitável balada de piano.
(Militia, Março 2005)






Heikki - 2 (7/10)
Pop alternativa feita de novas sonoridades em desprezo pelo conservadorismo das convenções, 2 é uma experiência gratificante, de tons invulgares, de um duo sueco (as vozes em côro preenchem as composições) que se move com fluidez na descoberta de caminhos alternativos para a pop.
(Magic Marker, Setembro 2004)



quarta-feira, 13 de abril de 2005

Redondo

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Elaine de Kooning, 1960

Fantômas - Suspended Animation

Apreciação final: 8/10
Edição: Ipecac, Março 2005
Género: Metal Experimental







O anterior registo dos Fantômas, Delirium Cordia (2004), era uma extravagância ominosa de metal experimental, com uma única faixa de 74 minutos e virava do avesso a consciência do auditor, expondo-o à atmosfera sombria dos filmes de terror e à grotesca face negra do medo. Pois bem, o super-grupo liderado por Mike Patton está de volta. Ao longo de trinta faixas, intituladas segundo os dias de Abril, Patton, Osborne, Dunn e Lombardo promovem uma ousada (des)construção do universo dos desenhos animados, através de uma re-intrepretação do legado dos lendários compositores dos cartoons da Warner, Carl Stalling, Milt Franklin, Raymond Scott e dos efeitos sonoros de Treg Brown. Suspended Animation integra alguns samples antigos dos Looney Tunes que servem de pretexto à catarse macabra e negra dos Fantômas. Partindo daí, as composições fazem colagens onomatopaicas que juntam o timbre encantatório das animações à excêntrica e intrincada demência sónica típica dos Fantômas, com as vocalizações indecifráveis de Patton, os acordes triturantes de Osborne, o baixo assombroso de Dunn e a frenética percussão de Lombardo. A esta combinação improvável, afinal o elemento magnetizador do disco, acresce a aptidão pragmática do quarteto para metamorfosear abruptamente o seu registo, variando das texturas evocativas e ambientais para o speed metal ou o jazz.

Suspended Animation é uma edição desarmante, um exercício contorcionista de aglutinação de géneros, uma visão polissémica do conceito música. Aparentemente desconexo e caótico, o álbum mantém uma incomum coerência orgânica, num estilo bizarro, semelhante a Fantômas (1999), mas com ideias remoçadas. Suspended Animation é um oxímoro que mistura candura e insanidade, um registo imperdível para os amantes da imprevisibilidade na música e do cada vez mais confirmado génio louco de Mike Patton.

Jeff Hanson

Apreciação final: 7/10
Edição: Kill Rock Stars, Março 2005
Género: Indie Pop-Rock








O segundo trabalho do antigo vocalista dos M.I.J. visita a atmosfera contemplativa do primeiro registo e vem provar o engenho de Hanson na composição de canções ternas e acolhedoras. Recorrendo a falsetes peculiares que confundem o seu registo vocal com uma angélica voz feminina, Hanson escreve canções meditativas sobre amores perdidos e introspecções, em tons indie pop que se dividem entre a intimidade do timbre acústico e o vigor das orquestrações colectivas. O detalhe do álbum é aprimorado pelo requinte das interferências delicadas do piano, do violino, do acordeão e do violoncelo e pelo arrebatador e frágil sussurro da voz invulgar de Hanson. As composições são pequenos fragmentos poéticos de um diário revelado, com uma aura de tocante sinceridade e inventam um esconderijo cândido de recolhimento, onde se cruzam melancolicamente as mágoas pungentes e as esperanças deprimidas.

Jeff Hanson é um cantautor sublime, um trovador de emoções tresmalhadas que brotam viçosas, depois de, purgadas nas cordas de uma guitarra, vencerem as vertigens de silêncios negros dos abismos da alma. Com lugar estreito para a originalidade, ainda assim Jeff Hanson merece figurar entre as predilecções dos melómanos para este ano.

terça-feira, 12 de abril de 2005

Paisagem

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Byron Browne, 1958

6 rapidinhas



The Wrens - The Meadowlands (7/10)
Terceiro disco do quarteto de New Jersey, The Meadowlands é um disco de canções de bom nível, numa toada indie pop que percorre diversos quadrantes do espectro sónico e que demostra a amplitude dos The Wrens, sem minorar o charme intimista da sua escrita.
Absolutely Kosher, 2003



Moving Units - Dangerous Dream (6/10)
Revivalismo pós-punk repetitivo, guitarras angulares, ritmos exacerbados e...nada de novo.
Palm Pictures, 2003



EZ Special - Leitmotiv (4/10)
Pop choramingas, pretensamente honesta, feita de canções fáceis e cuja dimensão se esgota na limitada virtude artística de um qualquer spot publicitário sobre telemóveis.
Polydor, Fevereiro 2005



Boss AC - Ritmo, Amor e Palavras (7/10)
Hip-hop mainstream na língua de Camões, com o tacto libertino de um dos melhores MC's nacionais.
Norte Sul, Março 2005



Better Than Ezra - Before The Robots (5/10)
Canções de rock melodioso a piscar o olho à pop de grande escala, sem impressionar os ouvidos mais exigentes.
Artemis, Abril 2005



3 Guys Never In (6/10)
Disco de estreia de um trio francês que aposta em batidas minimalistas no estilo de Aphex Twin, com vocalizações a lembrar Tindersticks em timbres acessíveis de electrónica ligeira que roça as fronteiras da pop alternativa.
Artisan, Fevereiro 2005

segunda-feira, 11 de abril de 2005

O Enigma do Desejo

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Salvador Dali, óleo, 1929

The Decemberists - Picaresque

Apreciação final: 8/10
Edição: Kill Rock Stars, Março 2005
Género: Indie Rock







O mais recente trabalho de Colin Meloy e seus pares é um disco profusamente teatral, desde logo atestado na sugestão burlesca do título, Picaresque. Todavia, as composições deste trabalho não se resumem a esse adjectivo, crescem bem além dos registos anteriores da banda, demonstrando uma vitalidade imprevista e uma noção de acuidade assinalável. Os ritmos são melífluos e moldam uma atmosfera simultaneamente melancólica e apaixonada, de onde deriva a condição dramática e teatral do trabalho, exposta com uma produção prestadia. O ajuste do produtor Chris Walla dá ao som dos Decemberists estados triunfantes não ouvidos em registos anteriores e oferece o condimento maiuscúlo à fórmula indie rock do grupo.

Picaresque é uma tragicomédia bizarra com um protocolo vaudeville em que a paleta de sons variados enriquece a facúndia de Meloy, ajudando a formar um tomo de composições sólidas, o melhor trabalho dos The Decemberists. Meloy escreve: "I'm a writer, a writer of fictions" (vide "The Engine Driver"). Picaresque traz-nos essas alegorias únicas e é um seguro passo em frente do colectivo americano rumo ao destino que o seu potencial prometia. Recomendável.

The Evens

Apreciação final: 7/10
Edição: Dischord, Março 2005
Género: Indie Rock







Desde o lançamento de The Argument (2001), último trabalho dos Fugazi, não havia notícias de Ian MacKaye. O vocalista junta-se a Amy Farina (a baterista dos Warmers) no projecto The Evens e o disco homónimo resultou das sessões de gravação realizadas durante o Verão de 2004. The Evens exibe uma condição rock contemplativa, de uma orgânica quase esqueletal, dada a produção minimalista arriscada, que em algumas faixas é esticada aos limites do absurdo. Contudo, a agilidade das composições não sai minimamente beliscada pelo desafio, antes favorece a convicção anti-perfunctória do disco.

Os contextos líricos do registo são meditabundos e contemplam visões sócio-políticas pertinentes e cáusticas. A essência das letras é sublinhada por instrumentalizações conexas, em diálogo permanente, essencialmente numa estrutura bateria-guitarra. A esse propósito, Farina não é meramente subsidiária, assume protagonismo igual ao de Mackaye, dotando o disco de raras percussões de excelente nível e acrescentando às harmonias melodiosas do guitarrista uma infalível noção de consistência e completude. The Evens é um registo de bom nível com uma única mácula: composições deste nível mereciam as sinergias orgânicas de serem moldadas por um ensemble com mais músicos.

New Order - Waiting For The Siren's Call

Apreciação final: 6/10
Edição: London, Março 2005
Género: Pop-Rock Alternativo







Os New Order são uma daquelas bandas que dividem opiniões; se para uns os britânicos se limitam, de disco em disco, ao exercício repetitório de auto-plágio, para outros o colectivo de Manchester é um dos espécimes mais consistentes da cena alternativa. Waiting For The Siren's Call é o trabalho mais recente e ajuda à confusão: são eles consistentes ou repetitivos? O som luxuriante dos New Order mantém-se, as canções são resistentes mas parecem ter perdido o mesmerismo de outrora. O álbum percorre o património sónico do grupo que, se provocou convulsões no panorama da música no passado, não tem hoje essa força propulsora.

Waiting For The Siren's Call ostenta a assinatura inconfundível dos New Order. Virtude ou pecadilho? Certamente o cunho do grupo não tem hoje o mesmo valimento: a espaços soam datados os sintetizadores limpos, as guitarras mexidas e a voz de Bernard Sumner. Ainda assim, este álbum não envergonha a história do grupo que nasceu das ruínas dos Joy Division e, embora não mostre nada verdadeiramente novo, confirma o estatuto à-margem-de-modas dos New Order.

Maresias #51

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Título: Maresias #51
Autor: Nanã Sousa Dias
Fonte: 1000Imagens


Somos demasiado pequenos num mundo tão fabuloso e extraordinário. Contudo, julgamo-nos a razão da sua existência, o fim para o qual tudo converge. Nada de mais errado.
Olhemos à nossa volta...

Belo Preto & Branco.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Guitarra

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Pablo Picasso, 1913, colagem

Mando Diao - Hurricane Bar

Apreciação final: 7/10
Edição: Mute, Março 2005
Género: Garage Rock/Rock Revivalista







O intento dos suecos Mando Diao é baralhar a pujança entusiasta do rock de garagem com os tiques melódicos da pop britânica. A sonoridade do último trabalho do colectivo escandinavo, Hurricane Bar é viçosa, imediata e jubilosa. As vozes diáfanas dos dois vocalistas, Björn Dixgärd e Gustaf Norén, revestem a orgânica melodiosa do disco, pontuada pelo abeiramento a um universo sónico imaginário num estilo rock Strokes-meet-Oasis. Percebe-se um aprazível travo revivalista ("God Knows" não tem uns pozinhos de Beatles?) que, não merecendo honras de protagonismo central, serve de sopro inspirador às composições. As canções apresentam-se sem pretensões, aceitam um confronto puramente mecânico com as suas influências e, mesmo privadas daquela pontinha de sentimento que as agarraria a outro patamar, são o garante de cinquenta e dois minutos de agrado auditivo.

Hurricane Bar é uma edição recomendada aos nostálgicos do rock dos 70's e que não receiem ver o encéfalo infectado por uma desusada virose que, tomando de assalto o sistema nervoso central, impele a levantar do sofá as nádegas ociosas, a recuar no tempo, a correr para a cozinha com as passadas estorvadas pelas bocas-de-sino, a tomar a mão da mulher que já foi namorada e a relembrar a pergunta que se impunha nos bailes da época: a menina dança? Disco de puro rock hodierno, com raízes num passado saudoso e que continuará a encantar gerações. Irresistível.

Glenn Hughes - Soul Mover

Apreciação: 7/10
Edição: Sanctuary, Janeiro 2005
Género: Hard Rock







Antigo baixista dos Deep Purple, Glenn Hughes move-se na atmosfera hard rock com a agilidade de um veterano da esfera mais pesada da música. A versatilidade das suas vocalizações multidimensionais ajudou-o a consolidar um estatuto ímpar e um culto de seguidores atentos à recorrente reinvenção do seu estilo. Na companhia usual do seu guitarrista de eleição J.J. Marsh e do teclista Ed Roth, a surpresa está na bateria, reservada a Chad Smith (Red Hot Chilli Peppers). A aparição pontual de Dave Navarro (guitarra dos Jane's Addiction) é um dos segredos de Soul Mover. A química entre os músicos é sensível ao ponto do registo sugerir a presença de uma banda de longa data, ao invés de um registo de Hughes a solo. A esse facto não são indiferentes a produção cristalina e a estrutura das composições.

Glenn Hughes é um ícone firme do rock e prova-o à saciedade em grande estilo com Soul Mover, um tomo equilibrado e intuitivo que agradará aos seguidores deste género musical e a qualquer melómano que procure um disco que rompa declaradamente com a modorra da cultura rock-feito-à-pressão.

Sem título

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Título: Sem título
Autor: desconhecido
Fonte: Reportage (GettyImages)


A primavera está aí e toda a explosão de vida que lhe está associada. Desfrute.

Belo macro.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

13 rapidinhas


La Funk Mob - Bad Seeds (1993-1997) (6/10)
Colecção de electrónica francesa feita com percussões variadas e versáteis, uma leve semelhança com Thievery Corporation, infusões de R&B e hip-hop. (LO.SU,2004)






Theory Of A Deadman - Gasoline (4/10)
Proposta rock que flutua no universo Nickelback (Chad Kroeger é amigo da banda), onde cabeludos com uma atitude pretensamente cool choramingam empunhando guitarras eléctricas.
(Roadrunner, Março 2005)






Chuck Shuldiner - Zero Tolerance (5/10)
Edição póstuma de raridades e temas experimentais inacabados de Chuck Schuldiner, o pai do death metal, que pereceu em 2001, deixando um legado precioso e gerador de um culto em torno do seu nome.
(Candlelight, Fevereiro 2005)






Clutch - Blast Tyrant (6/10)
Hard rock com o vírus dos blues, deliciosamente old fashion e a fazer lembrar Ozzy Osbourne ou os saudosos Led Zeppelin.
(DRT Entertainment, 2004)






Rilo Kiley - More Adventurous (6/10)
Disco essencialmente acústico de um quarteto californiano que se move gentilmente e com ironia entre o universo relaxante da pop alternativa e o espaço intimista da folk tradicional.
(Brute/Beaute, 2004)






Broken Social Scene - You Forgot It In People (7/10)
Os canadianos Broken Social Scene são artesão de ambientes pós-rock contemplativos, de estruturas orgânicas complexas, em que a voz é subsidiária útil para o chamamento de uma estética variada e madura que pisca, aqui e ali, o olho à face experimental dos Sonic Youth.
(Paper Bag, 2002)






Emilie Simon - La Marche de L'Empereur (6/10)
Música ambiente experimental, de aparência quebradiça e amplitude cinematográfica, serviu de banda sonora ao filme homónimo de Luc Jacquet, compondo uma estrutura agridoce de conto-de-fadas que cruza, com mestria, a doçura de uma voz tímida com a acidez sinistra do peso dos instrumentos.
(Barclay, Janeiro 2005)





Funami - Funami (7/10)
Os Funami são um segredo bem guardado, uma dupla luso-canadiana (Tiago Conceição e Alex Desilets) cujo fito original é a exploração de novas dimensões musicais, dando à voz a missão ventríloqua de imitar instrumentos, desenhando ambientes futuristas em que as máquinas se permitem a subjugação aos primórdios da música. (Transformadores, Janeiro 2005)






The Zutons - Who Killed The Zutons (7/10)
Britânicos de origem, oz Zutons criaram um universo próprio, com um traço vincadamente rock e divertido, versátil o suficiente para percorrer a ingenuidade do garage rock com a mesma intimidade com que sobrevoam a estratosfera do saudável revivalismo.
(Deltasonic, 2004)






Husky Rescue - Country Falls (6/10)
Dos finlandeses Husky Rescue esperam-se vozes rumorejantes e embalos lentos de beleza glacial, numa visão alternativa do planeta rock, onde a atmosfera é distintamente hipnótica e se arreda de clichés fúteis, abrindo espaço para uma invulgar combinação de matizes sonoras que coabitam pacificamente, sem brilhantismo. (Minty Fresh, Abril 2005)






Télépopmusik - Angel Milk (5/10)
O trio de gurus da electrónica parisiense regressa com a fórmula de sedução trip hop, aqui apimentada pela grandeza ambiental das composições e pelo recurso a vozes etéreas, sem fugir à mediania.
(EMI, Março 2005)






Garbage - Bleed Like Me (5/10)
A assinatura de Shirley Manson e seus pares sobreviveu às convulsões internas da banda e Bleed Like Me é apenas mais um tomo de pop-rock directo, simples e honesto, até apelativo, mas inábil na tarefa de acrescentar ingredientes originais ao mundo Garbage.
(Geffen, Abril 2005)





Joy Zipper - American Whip (6/10)
Melodias, harmonias e afluxos de criatividade fazem a pop alternativa do duo americano Joy Zipper que, neste trabalho, expõe a face sombria da vida, nas drogas e na demência, mantendo a equidistância dicotómica entre a perturbação e o romantismo.
(Danger Bird, 2004)





Sem título

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Título: Sem título
Autor: Fernando Ladeira
Fonte: 1000Imagens


Com o aproximar da época estival, as populações voltam a temer o
flagelo dos incêndios. Cabe a todos nós contribuir para que esta
desgraça tenha um fim.
Um voto de solidariedade para com todos os soldados da paz.

Magnífica fotografia. Bom enquadramento, belas cores e óptima composição.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Amazona Ferida

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Franz von Stuck, óleo, 1904

Thee A Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & The Tra-La-La Band - Horses In The Sky

Apreciação final: 7/10
Edição: Constellation, Março 2005
Género: Pós-Rock Experimental







O terceiro e mais recente álbum dos A Silver Mt. Zion, projecto paralelo dos Godspeed You Black Emperor!, aqui apresentado como Thee A Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & The Tra-La-La Band é um registo reflexivo, das cordas do violoncelo ou da guitarra emergem vozes em coros de efeito hipnótico e repetitivo. A presença emocional de Horses In The Sky é tocante e vulnerável, refaz-se da aparente simplicidade e desordem das composições e avoca de corpo inteiro a exposição corrosiva da angústia. A fragilidade do discurso que timidamente viola, com voz trémula, uma imensidão de silêncios é a asserção última da mortalidade. Os A Silver Mt. Zion devotam um tributo catártico à dor, ao rancor, à solidão e à inveja, em arpejos invulgares, tons monocórdicos e insistentes, como o pêndulo frágil da vida.

Horses In The Sky é um álbum enigmático que, sendo lhano, não nos chega directamente, entranha-se demoradamente e mostra-se com desassombro em talhadas de um modus vivendi auto-indulgente e que busca a redenção na exibição das cicatrizes. Este trabalho incutiu uma lógica de variação na estética do colectivo canadiano, convertendo o conceito musical do grupo a uma dimensão orgânica mais rica, ainda que aquém da amplitude dos Godspeed. Mesmo assim, Horses In The Sky é um tomo consistente e que merece uma escuta de qualquer melómano curioso que se preze, especialmente pelas pérolas musicais que assistem no seu recanto à procissão dominadora das vozes.

Asian Dub Foundation - Tank

Apreciação final: 7/10
Edição: EMI, Fevereiro 2005
Género: Electrónica de Fusão







Os britânicos Asian Dub Foundation juntaram-se em 1993 e conquistaram um estatuto especial no seio do universo da electrónica de dança. Editado em Fevereiro último, o mais recente trabalho do grupo, Tank, é um impetuosa declaração política com uma fervorosa condição anti-guerra. Musicalmente, o álbum está envolto numa aura de pulsações ritmadas e consistentes, a fazer jus à assinatura dos londrinos, a que acrescem plásticas confidências de elementos orquestrais que reavivam o património sónico dos filmes Bollywood. A arquitectura de Tank é engenhosa, assenta em composições estáveis mas que apenas esporadicamente se livram do guião típico dos Asian Dub. E isso não tem que ser necessariamente negativo, já que a música é multifacetada, convida as cítaras e as texturas dub e enfeita-as recorrendo a percussões moldadas com alento quase jungle e um brilho sublinearmente oriental.

Tank é provocante e inflamado e revela o talento criativo indomável do colectivo dos auto-proclamados guerreiros ingleses, ao serviço da denúncia pejorativa de um mundo em guerra. A vibração incomum e a energia electrizante deste Tank brotam da natureza hip-hop das vocalizações mas também da produção cuidada e da convicção da electrónica e da programação. A massa aglutinadora de géneros que sobra de Tank é o testemunho de uma banda que funde estilos sem medo de firmar opiniões. Com um tolerável quinhão de erros, Tank deixa um rasto psicossomático: faz-nos mexer, pela mecânica dos ritmos, e pensar, pela acuidade das letras.

Saul Bellow (1915-2005)

Faleceu nesta madrugada o escritor Saul Bellow.

Nascido em Montreal em 1915, Saul Bellow acabou por crescer em Chicago, tendo frequentado a universidade local. Graduou-se em antropologia e sociologia pela Northwestern University em 1937.

A sua primeira novela, Dangling Man, foi publicada em 1944. Três anos mais tarde, surgiu The Victim. Da sua obra fazem parte os seguintes títulos (tradução portuguesa entre parentesis):


The Adventures of Augie March (laureado com o National Book Award,1954)
Seize The Day (Agarra o dia, 1956)
Henderson The Rain King (1959)
Herzog (Herzog,1964)
Mosby's Memoirs And Other Stories (1968)
Mr. Sammler's Planet (1970)
Humboldt's Gift (vencedor do prémio Pullitzer,1975)
To Jerusalem and Back. A Personal Account (1976)
Him with His Foot in his Mouth and Other Stories (1984)
More Die of Heartbreak (Morrem Mais de Mágoa,1987)
The Bellarosa Connection (A Organização Bellarosa,1989)
A Theft (1989)
Something to Remember Me By (1992)
Ravelstein (Ravelstein,2000)

Em 1965, o escritor foi reconhecido com o International Literary Prize (por Herzog), tornando-se o primeiro cidadão americano agraciado com tal distinção. O reconhecimento maior do percurso do romancista haveria de ser consagrado com o Prémio Nobel da Literatura, atribuído ao escritor em 1976.