segunda-feira, 28 de março de 2005

George Orwell - 1984

Este é provavelmente o mais célebre romance de George Orwell tendo sido publicado pela primeira vez em 1949. Foi projectado pelo autor desde 1943, mas, no entanto só pôde ser redigido entre 1947 e 1948 em plena eclosão da tuberculose que haveria de ser responsável pela sua morte.

Através de uma engenhosa alegoria o escritor elabora uma previsão satírica e pessimista do mundo em que a repressão e o controlo constituem os alicerces da sociedade totalitária vigente em 1984. Retrata o paroxismo de um sistema ditatorial caracterizado por um evidente avanço tecnológico no qual não há lugar à improvisação, tendo todos os elementos da engrenagem o dever inexorável de cumprir o seu papel conforme os trâmites instituídos. Mediante um sistema de vigilância contínua e uma propaganda manipuladora observa-se uma obediência cega ao Big Brother, a figura central da tirania e aquele que tudo vê, inculcando o medo nas populações.

Uma obra perfeitamente actual apesar de ter sido escrita há mais de meio século. Se entendida como uma profecia pode ser inquietante mas se percebida como apenas uma crítica mordaz criada no clima de instabilidade do pós-guerra é apenas mais um bom livro que, como qualquer outro bom livro, dá que pensar.

Blasted Mechanism - Avatara

Apreciação final: 7/10
Edição: Metrodiscos/Universal, Março 2005
Género: Electro-Rock/Dub-Rock/Etno-Rock







A saga evolutiva dos Blasted Mechanism prossegue imune a qualquer forma de desgaste e, acima disso, com o veio inventivo e versátil que caracteriza o percurso de Karkov, Valdiju e companhia. Avatara é a mais recente transformação da espécie humanóide que preenche o espaço inspirador da banda nacional e que, nesta fase, parece agregar as deambulações tribais e funk da génese inicial com a maquinação electro-rock do último registo, Namaste. Neste registo, o universo sónico é preenchido por uma indisfarçável aproximação à textura reggae-dub de uns Asian Dub Foundation, apimentada por uma perspectiva afro-industrial única e que se verte em instrumentalizações de nível supremo. A produção de Avatara é inteligente, destacando a orgânica do colectivo português e a espontaneidade das colagens sonoras do disco.

A lista de convidados inclui a cantora Maria João (empresta um cunho singular aos temas "Power On" e "Pink Hurricane"), o grupo hip-hop Dealema (introduzem o português na atmosfera Blasted Mechanism) e o DJ Nelassassin. A presença catalítica destes ilustres músicos é vector coadjuvante da metamorfose, em invocação venerada de uma avatara incapturável. Avatara é uma excursão a uma galáxia incerta onde divindades excêntricas assumem formas proto-humanas e dançam com alarde ao som de profusões rítmicas agitadas, também letárgicas, no cumprimento de cerimoniais de exaltação espiritual. Os Blasted Mechanism estão mais místicos, Avatara é quase imaterial, mas pode muito bem ser o melhor disco da mais carismática banda nacional.

quinta-feira, 24 de março de 2005

50 Foot Wave - Golden Ocean

Apreciação final: 8/10
Edição:Throwing Music, Março 2005
Género: Rock Alternativo/Punk Revivalista







Kurt Cobain vive.

Depois da dissolução dos Throwing Muses, a incansável Kristin Hersh e o baixista Bernard Georges, fundaram o trio 50 Foot Wave, na companhia do baterista Rob Ahlers. Desta vez a proposta é declaradamente rock, num estilo que apela à ressuscitação dos Nirvana, tal a similitude com a mítica banda de Cobain. A vitalidade de Golden Ocean é impressionante, recuperando a tradição Seatle da arte três acordes, conjugados com uma dinâmica fervorosa e letras directas e provocantes. Depois, a alma confrontante e vibrante de Hersh enche este profícuo oceano dourado. Os 50 Foot Wave recolocam o rock no mapa, acolhem a herança do punk e de Cobain e trazem-na de jeito explosivo para o novo século, provando inequivocamente que este estilo jamais morrerá e não pereceu com os Nirvana.

Adrenalina a rodos, dureza q.b. e satisfação garantida assumem a trindade que define Golden Ocean. Não importa o veículo que Hersh utiliza para expôr o sentimento, este trabalho torna óbvio que a sua veia criativa ainda há-de surpreender-nos mais. Nesta transformação rock ela é excepcionalmente ruidosa, destila raiva em vocalizações angustiadas que encaixam comodamente nas composições do trio americano. Golden Ocean é um soco no estômago dos acomodados, uma bofetada no rosto dos apáticos, um safanão nos ideais clássicos. Um disco rock como todos os álbuns rock deviam ser.

Kurt Cobain vive. O rock também.

The Wedding Present - Take Fountain

Apreciação final: 7/10
Edição: Manifesto, Fevereiro 2005
Género: Indie Pop-Rock







Formados em 1985 na cidade inglesa de Leeds, os The Wedding Present estão de volta, nove anos depois do último álbum de originais. David Gedge, entretanto também envolvido no extinto projecto de tons ambientais Cinerama, retomou a escrita com os seus parceiros e recuperou o nome da banda. Dessa reunião surgiu "Take Fountain", um álbum engenhado com o singela formosura do sentimento. O descontetamento é a pedra de toque basilar para a construção de um disco de canções intensas, com minúcia na integração dos instrumentos. Gedge e Cleave são artesãos de peças catárticas, não imediatamente apreensíveis, mas que, se degustadas com serena perseverança, se revelam artefactos sónicos subliminarmente belos.

Take Fountain é um registo eloquente de confissões acérbicas que aproxima o passado romântico de Gedge da procura de ambientes mais cinematográficos dos Cinerama. A profecia melodramática de Take Fountain, ainda que possa soar um pouco datada, é afinal a remissão de um quadro sonoro que serviu de inspiração aos ícones da pop britânica contemporânea. Take Fountain merece uma escuta atenta; exumam-se as raízes da energia agridoce à Morrissey e descubra-se o apaixonado envolvimento de um disco harmonioso e íntegro.

quarta-feira, 23 de março de 2005

A Guy Called Gerald - To All Things What They Need

Apreciação final: 5/10
Edição: K7, Fevereiro 2005
Género: Techno Ambiental/Dança/Jungle/Drum'n'bass







Gerald Simpson já conta alguns anos de edições discográficas e deu-se à pretensão de percorrer praticamente todos os campos da electrónica, tornando-se um compositor inovador do techno e do house. Ainda que alguns dos seus trabalhos não tenham merecido relevo assinalável, o nome de Simpson surge na primeira linha do vanguardismo e da reinvenção da electrónica. O pico do seu percurso foi Black Secret Technology, um saudoso clássico de 1995. O mais recente trabalho do músico/produtor, To All Things What They Need, suscita imensas questões: onde param a visão, a versatilidade de estilo e a abertura de espírito de Simpson? O disco não tem um padrão sónico definido, vagueia indiferente aos formatos típicos, fundindo pedaços de harmonias de cariz oriental com sons electrónicos, combinados com a poesia spoken word de Ursula Rucker ou com batidas jazz, ou ainda com momentos intensos de reverberação de sensações.

To All Things What They Need lança uma atmosfera gentil e profunda que destila, sem propósito definido, uma sensualidade palpável. O problema? Não é pioneiro, nem é clássico. A milhas do brilhantismo do passado, Simpson parece fatigado de si mesmo e, embora não roube as ilusões aos seus séquitos, não conseguirá cortejar admiradores adicionais com este trabalho. A pontuar positivamente o disco, as colaborações de Rucker e Finlay Quaye que derramam nas composições aquela pitada de inconformismo que falta ao próprio Gerald Simpson no resto de To All Things What They Need.

Sem título

Clique na imagem para ampliar
Título: Sem Título
Autor: Mário Ferreira
Fonte: 1000Imagens










Acima das nuvens só a Vasco da Gama e o astro rei.

terça-feira, 22 de março de 2005

Emiliana Torrini - Fisherman's Woman

Apreciação final: 7/10
Edição: Rough Trade, Fevereiro 2005
Género: Pop Alternativa







À primeira escuta de Fisherman's Woman, Emiliana Torrini assemelha-se a uma daquelas vozes típicas da Escandinávia, repletas de candura e elegância e contadoras de histórias peculiares e bizarras. A similitude não é falsa já que Torrini é meio-islandesa-meio-italiana e esses antecedentes projectam-se vincadamente na sua proposta musical. A fragilidade inocente da sua voz repousa em texturas sónicas minimalistas, essencialmente acústicas, feitas de instantes esparsos da guitarra ou do piano, em reflexos judiciosos das nuances dos contextos líricos.

Fisherman's Woman é um aconchego tocante, sublinhado pelo romantismo contemplativo de Torrini, num verdadeiro porto de abrigo do turbilhão do quotidiano que faz um apelo irresistível à introspecção e meditação. Björk e Carina Round povoam o imaginário criativo de Torrini e este disco acaba por ser uma pequena pérola, recheada com momentos encantadores, que tocam pela singeleza quase ingénua e que, por não se abeirarem da mais egrégia condição, não deixam de constituir instantâneos da vida real. Fisherman's Woman é uma íntima serenata que desarma o ouvinte, levando-o à revelação da sua face mais sorumbática para, de seguida, lhe renovar o ânimo com a mesma sinceridade e optimismo.

Sem título

Clique na imagem para ampliar
Autor: Hugo Dias
Título: Sem título
Fonte: 1000Imagens












Diluo-me nas águas deste rio e ao sabor da corrente, partilhando o espaço com troncos e galhos, sigo em direcção ao infinito.

Boa composição, bom preto e branco.

segunda-feira, 21 de março de 2005

MU - Out Of Breach (Manchester's Revenge)

Apreciação final: 7/10
Edição: Output, Fevereiro 2005
Género: House/Electro-Punk







Oriundo de Sheffield, o projecto Mu é um devaneio artístico de Mutsumi Kanamori e do seu marido Maurice Fulton, um produtor multifacetado e cuja marca se associa ao universo house. Em Out Of Breach (Manchester's Revenge) a doutrina é a mesma, ainda que reconvertida a uma perspectiva alucinada, quase paranóica. O registo é dificil de catalogar com precisão. Ainda assim, há sinais de house minimamente dançáveis, temperados com mister pela inclusão de ruídos esparsos e sons obtusos que provocam sinergias raras. Kanamori é irreverente, provocante e hostil, em cada palavra proferida detona raivas interiores, expõe-nas de jeito simultaneamente agressivo e humorado.

Out Of Breach (Manchester's Revenge) é um daqueles discos viciantes, uma afronta compulsiva ao conforto do auditor é às limitadas convenções da música. O único senão desta bela obra: algumas faixas não atingem a fasquia de genialidade de "Out Of Breach", (a excelente) "Tigerbastards" ou "Paris Hilton". Não fosse esse o caso e estaríamos na presença de um dos mais inspirados trabalhos de electrónica psicadélica dos últimos tempos.

Ritmos de clube nocturno, ruído experimental, vocalizações insanas são os ingredientes dos Mu. O propósito não podia ser mais freak: fazer grooves dançáveis, capazes de, com a mesma intensidade criativa, seduzir pela sedição folgazã e persuadir pela força magnética da insanidade.

50 Cent - Massacre

Apreciação final: 6/10
Edição: Aftermath, Março 2005
Género: Hardcore Rap







Apadrinhado por Eminem (também faz uma perninha neste disco), despontou para o sucesso em 2003. Curtis Jackson III de nascença, o rapper 50 Cent está de volta com Massacre, o sucessor do aclamado Get Rich Or Die Tryin' (mais de onze milhões de cópias vendidas). Massacre traz histórias de gangsters e gangs, batidas sedutoras, alguns laivos de brilhantismo e...50 Cent. A obsessão com as armas - o próprio rapper já foi baleado nove vezes! - marca o conteúdo lírico do disco, ao longo de 22 faixas e 78 minutos. Não é um pouco demais?

Massacre é o disco de um rapper rico - a faixa "Piggy Bank" goza com essa condição - e cuja consciência crítica parece ter sido amenizada pelo peso a mais nos bolsos. Aqui, a regra é o sublinhado da personalidade e da ostentação em detrimento da técnica. Massacre é um exercício egocêntrico, de alguém que aponta o dedo à violência nas ruas com um altruísmo duvidoso. Ainda assim, este registo contém algumas faixas de bom nível e que não desiludirão a enorme legião de adeptos deste controverso ícone do universo hip-hop.

domingo, 20 de março de 2005

Dead Vlei - Namíbia

Clique na imagem para ampliar
Título: Dead Vlei-Namíbia
Autor: Luís Louro
Fonte: 1000Imagens








A imensidão do deserto da Namíbia preenche completamente o imaginário de qualquer aventureiro. E esta foto demostra o porquê.

sexta-feira, 18 de março de 2005

Venetian Snares - Rossz Csilag Allat Szuletett

Apreciação final: 8/10
Edição: Planet Mu, Março 2005
Género:Electrónica Experimental/Fusão







O projecto Venetian Snares é uma criação de Aaron Funk, um renomado produtor do meio drum'n'bass. A estreia do músico em 1999, numa pequena editora local de Minneapolis, foi o primeiro passo de um percurso que haveria de torná-lo um dos nomes mais respeitados no universo da electrónica experimental. Rossz Csillag Allat Szuletett é o décimo segundo trabalho de estúdio do músico. A inspiração base deste trabalho veio de uma viagem de Funk à Hungria, no decurso de uma digressão europeia.

As batidas clássicas de Funk estão aqui, embora em ambientes de maior amplitude, graças à integração equilibrada de construções sinfónicas de cordas e paisagens sónicas ambientais. O resultado é pouco menos que brilhante, as composições são pomposas e cerimoniais e percorrem, em ritmos variáveis, os contornos imaginários de uma opulenta ópera, de um concerto ressonante de cordas ou de um exercício solitário de pianista acasalados neste registo com mestria com o alvoroço criativo dos grémios de jazz e com a libertinagem dos clubes nocturnos do mundo drum n'bass.

Rossz Csillag Allat Szuletett traz algo de verdadeiramente novo, a união improvável de estilos aparentemente desarmónicos é surpreendentemente charmosa e tocante, transcendendo os limites dos géneros musicais e criando uma obra maior. O disco é tecnicamente impressionante e único, incarna quase na perfeição o espírito do experimentalismo e, embora possa não ser imediatamente apelativo para alguns, apaixonará irremediavelmente os adeptos do vanguardismo.

Madeleine Peyroux - Careless Love

Apreciação final: 7/10
Edição: Rounder, Setembro 2004
Género: Jazz Vocal







A ela chamam a Billie Holiday dos anos 90. Talvez Madeleine Peyroux traga à memória a lendária voz aveludada da cantora jazz dos anos 40 e 50 mas há algumas diferenças. De qualquer jeito, Peyroux conquistou a admiração dos adeptos do jazz vocal ligeiro, muito à custa de Dreamland (1996). Desta vez, contando com a produção de Larry Klein, um nome pouco ligado a esta esfera musical, a cantora percorre alguns temas da pop, da country e também velhos clássicos, moldados ao supremo tempero da sua voz e ao formato jazzy. Entre as faixas adoptadas estão composições originais de Leonard Cohen, Bob Dylan, Elliot Smith, Hank Williams, entre outros.

Careless Love é um tomo elegante e sentimental, mesmo romântico, e produz alguns momentos musicais de bom nível. As instrumentalizações são apuradas e Peyroux demonstra uma maturação no canto que não se ouvira no registo anterior. Tal como nesse trabalho, a voz assume o protagonismo central, acomodada entre instrumentos interventivos que lhe sublimam o timbre. Ao escutar Careless Love percebe-se o porquê dos recorrentes cotejos com Holiday. Os traços paralelos são óbvios, o que não belisca o talento de Peyroux, antes a catapulta para um estatuto singular que ainda não foi capaz de assumir por completo. Este registo marca o estádio mais recente desse processo de crescimento e, não cativando distinções máximas, deixa manifestamente patente valimento da cantora. Que Peyroux não tome novamente oito anos para editar um disco e a sua voz há-de render-lhe um lugar especial no cenário jazz universal.

quinta-feira, 17 de março de 2005

Six Organs Of Admittance - School Of The Flower

Apreciação final: 7/10
Edição: Drag City, Janeiro 2005
Género: Experimental/Pós-Rock/Indie Rock/Minimalista






Os californianos Six Organs Of Admittance formaram-se em 1998, sob a orientação do guitarrista Ben Chasny, oriundo dos Plague Lounge. A participação do músico nos Comets Of Fire trouxe-o ao conhecimento de um público mais alargado, especialmente depois do aclamado Blue Cathedral.

O registo mais recente pelos Six Organs é um tomo de faixas enigmáticas e atmosféricas, onde a guitarra de Chesny assume protagonismo central na composição de texturas sombrias, serenamente pontuadas pela percussão e pelo trabalho de teclas. O convite é apelativo, quase hipnotizador, feito de sons envolventes e íntimos. As vocalizações reiteram a sugestão, não se insinuam abusivamente, antes se retraiem e cedem as honras centrais aos instrumentos e à pureza da escrita. School Of The Flower expande-se da singeleza poética e emancipa-se como obra graciosa e taciturna. É uma licção de gestos multidimensionais e divagantes, que tocam a ínfima condição humana na candidez do acústico.

School Of The Flower não terá os holofotes da fama, está destinado a passar incógnito para as mentes mais distraídas, mas é uma colecção rara e sublime de música transcendental que merece ser escutada com reverência. Uma viagem fantástica a um mundo de sossego cujo pecado maior reside, após quarenta minutos de hipnose, no termo do disco. Não será um disco inesquecível, a espaços soa um pouco iterativo, mas sucede no fito de aliciar a face mais fantasiosa da mente. School Of The Flower é um suave embalo para aquietar espíritos menos tranquilos. Um recomendável triunfo da ambiguidade musical.

Doves - Some Cities

Apreciação final: 6/10
Edição: Capitol, Março 2005
Género: Pop Alternativa






Oriundos de Manchester, os Doves são hoje uma das mais sólidas referências da pop britânica. Some Cities, o terceiro longa duração dos britânicos, é um pouco diferente dos registos anteriores. A consciência hínica desses álbuns parece ter sido deixada de parte neste trabalho. Some Cities é mais directo e objectivo, encerrando em si mesmo um menor pretensiosismo comercial e, por força disso, uma consciência introspectiva acrescida. O som dos Doves é, agora, uma pop madura e sofisticada, com pitadas de reflexão dramática. Definição de um estilo? Talvez.

Some Cities é o primeiro registo da banda em três anos e revela uma tendência inquietante para, mantendo fidelidade às suas raízes, alargar o leque de admiradores do grupo inglês, na procura do interesse simultâneo de gregos e troianos. O encargo é custoso, especialmente para uma banda que parte de um universo dominado pelos Oasis ou pelos Coldplay. O resultado é ambivalente: os Doves respeitam o seu próprio património e reconvertem-no com a sobriedade que o talento musical lhes assegura. Some Cities é um título ambicioso, dispõe alguns temas interessantes mas não se livra da sombra de The Last Broadcast, o melhor trabalho do grupo. Ainda assim, este disco mostra uma banda empenhada em redimensionar o seu som, tornando-o mais arty e evoluído o que, por si só, merece um aplauso sincero. Esperam-se outras edições.

quarta-feira, 16 de março de 2005

Queens Of The Stone Age - Lullabies To Paralyze

Apreciação final: 7/10
Edição: Interscope/Universal, Março 2005
Género: Hard Rock






Coloco o CD no leitor. Escuto a voz cavernosa de Mark Lanegan numa canção de embalar. Ele não deixou a banda? Ter-me-ei enganado no disco? Não, 1 minutos e 25 segundos depois explode "Medication" com a voz dissimulada de Josh Homme e as guitarras insinuantes dos Queens of The Stone Age. Descansa o espírito. Esfrego as mãos e aguço o espírito crítico. Depois de Songs For The Deaf a fasquia está alta para os ex-Kyuss. Lullabies To Paralyze é o quarto registo (esquecendo a colecção de B-Sides intitulada Stone Age Complication) de uma banda que dá corpo ao estatuto único de bastião do rock old fashion, de mensageiro de um género que esbraceja para fugir à extinção. Se neste registo era previsível a ausência de Dave Grohl (Foo Fighters, ex-Nirvana), já seria menos presumível o afastamento de Nick Oliveri, parceiro de Homme desde os tempos dos Kyuss e um dos átomos primazes do grupo. Aliás, a química rock dos Queens derivava essencialmente das sinergias entre a dupla agora desfeita. Também a percussão é indiscutivelmente inferior à do álbum anterior. Joey Castillo não é Grohl, as batidas soam demasiado certas, falta-lhes aquele irreverente devaneio rítmico que o ex-Nirvana introduzia com sabedoria.

Ouvir Lullabies To Paralyze é tocar um produto rock genuíno, sem misturas. Contudo, o registo ressente-se das feridas auto-infligidas da banda. Sem Oliveri e Lanegan, Homme dispõe de um arsenal mais reduzido, por muito que reconverta o som do grupo, até se atrevendo a tangências com a vocação contemporânea do rock. Mesmo assim, se é verdade que os Queens Of The Stone Age nunca serão os mesmos sem a excentricidade de Oliveri, não é menos preciso dizer-se que continuam firmes e vigorosos, talvez um pouco mais experimentais (especialmente a segunda metade do álbum) e, acima disso, seguem convictamente os preceitos rock que ajudaram a criar. Homme pode estar mais só, os Queens giram agora exclusivamente em seu torno, mas continuam excitantes como sempre, ainda que sem o brilho de Songs For The Deaf. Lullabies To Paralyze não embala nem paralisa porém traz uma dinâmica solução com todos os ingredientes que compõe o espaço ambivalente em que se movem Homme e os (cada vez mais) seus Queens Of The Stone Age: muita erva e bom rock.

RPWL - World Through My Eyes

Apreciação final: 7/10
Edição: Inside Out Music, Fevereiro 2005
Género: Rock Neo-Progressivo/Pop Alternativa






A música de Yogi Lang, o mentor do projecto germânico RPWL, é uma criativa combinação de pop elaborada com os ingredientes mais refinados do rock elitista, aqui e ali a recordar os Pink Floyd, de resto a principal influência dos RPWL. As texturas líricas do disco percorrem hiperbolicamente os preceitos morais e a contemplação crítica do globo terrestre. Presunçoso? Talvez um pouquinho descabido. Ainda assim, World Through My Eyes é um tomo de rock progressivo suficientemente crescido para ser levado a sério. Embora algumas faixas pendam para uma certa ligeireza, há neste título composições sólidas que conquistarão sem embaraço os fãs deste género musical. O formato tipo: guitarras complexas, teclas atmosféricas, vocalizações oníricas e letras idealistas com pitadas de world music (recurso à cítara e a percussões exóticas).

World Through My Eyes pode não ser uma obra genial, afinal tudo o que nele se inscreve soa um pouco a dejá vu, mas servirá o propósito de catapultar (finalmente!) os RPWL para a primeira linha da tendência contemporânea do rock artístico. Aos poucos, a antiga banda de covers dos Pink Floyd vai tomando o espaço sónico que o seu talento reclamava há já algum tempo. World Through My Eyes é indispensável para os séquitos dos saudosos Pink Floyd; para os outros melómanos, é um cartão de visita apurado de um dos mais consistentes projectos musicais da Europa. Uma nota apenas para mencionar a participação de Ray Wilson (Genesis) no tema "Roses".

Posto de escutaSleepRosesSea-Nature

Luz

Clique na imagem para ampliar
Título: Luz
Autor: José Pinto
Fonte: 1000Imagens









Mais uma estrada, mais um caminho de vida. Seja pela floresta ou pelo deserto o caminho a seguir revelar-se-á antes de mais no nosso mais profundo ser.

Óptima luz e bom enquadramento.

terça-feira, 15 de março de 2005

4 discos em 4 parágrafos


Sage Francis - A Healthy Distrust


Apreciação final: 8/10
Edição: Epitaph, Fevereiro 2005
Género: Rap Underground

Sage Francis é nome de culto da cena underground, adepto da metáfora vitriólica como arma de arremesso, acolhedor do espírito rap. Neste A Healthy Distrust, Sage Francis percorre transversalmente esse universo, recupera-o à sua postura essencial, integrando-o inteligentemente com outras influências sonoras que conferem ao disco o toque ecléctico. A transcendência fica provada pelo patrocínio de Will Oldham (a.k.a. Bonnie "Prince" Billy) à excelente "Sea Lion". O resto é feito em discurso directo, provocador e incitativo, um verdadeiro manifesto activista, também politicamente polémico e introspectivo. A Healthy Distrust é rebelde e conjuga substância com estilo. Galvanizador.






Kaiser Chiefs - Employment


Apreciação final: 7/10
Edição: Universal, Março 2005
Género: Indie Rock/Pós-Punk

Os Kaiser Chiefs integram-se na recente reinvenção do rock britânico e que, entre outros, trouxe à ribalta bandas como os Franz Ferdinand, os Futureheads, os Bloc Party e os Dogs Die In Hot Cars. A proposta é simples: rock descomprometido, com tiques de electroclash e Devo ou Red Hot Chilli Peppers(!), numa atmosfera versátil e divertida que provocantemente ostenta uma miscelânea ponderada de estilos. Os rapazes de Leeds saiem-se bem, ainda que lhes falte aquela pontinha de genialidade que faz a diferença entre um disco mediano e uma obra prima. Employment não atinge tal estatuto mas oferece-nos ensejo adequado para uma visita ao mais moderno rock do Reino Unido.






The Others - The Others


Apreciação final: 6/10
Edição: Mercury, Março 2005
Género: Indie Rock

Imprevisibilidade. Este é o conceito base do rock dos The Others, marcado por uma envolvente contagiante de irreverência, num estilo solto e desassombrado e assumidamente agitado. As vocalizações do controverso Dominic Master (namora com um transexual a quem dedica o tema "Johan" e consome regularmente drogas) sublinham essa condição, acrescentando-lhe a rebeldia que locupleta o tacto e sentido de proporção das composições. Ainda assim, apesar de ser um disco estimulante, The Others não traz nada de defintivamente novo e assina por baixo do denominador comum da mediania.




Black Label Society - Mafia


Apreciação final: 6/10
Edição: Artemis Records, Março 2005
Género: Hard-Rock

Zakk Wylde é o nome por detrás do projecto Black Label Society. Para os desconhecedores, o homem foi guitarrista de suporte do mediático Ozzy Osbourne. De resto, essa ligação preenche o espaço sónico de Mafia, já que o tom do disco se abeira, as mais das vezes com jeito de plágio, dos preceitos musicais de Osbourne. Dito isto, é escusado mencionar que as referências musicais vêm do hard-rock herdeiro dos 70's, das guitarras sonantes e das baladas choradinhas quase obrigatórias neste tipo de edição. Rock para fãs.

segunda-feira, 14 de março de 2005

Pela estrada fora

Clique na imagem para ampliar
Título: Pela estrada fora
Autor: Erik Reis
Fonte: 1000Imagens












Pela estrada fora, o caminho de todos nós.

Definição e enquadramento muito bons.

domingo, 13 de março de 2005

Clem Snide - End Of Love

Apreciação final: 6/10
Edição: SpinART, Fevereiro 2005
Género: Indie Rock






Naturais de New Jersey, os Clem Snide estão de volta com o seu quinto álbum de originais. Quem conhece e aprecia o tom do grupo não sairá desiludido da descoberta de End Of Love. A orgânica do disco respeita a tradição dos Clem Snide, há espaço para baladas emocionais e para espaços sónicos mais agitados, com um suave travo de country, mais ou menos dissimulado entre acordes outonais e vocalizações serenas. Eef Barzalay, vocalista e principal mentor do projecto, sempre procurou o refúgio de ambientes surreais para as letras do grupo e, neste trabalho, a introspecção é sobre a natureza do amor, o mistério nos actos de Deus, a vida e a morte.

O som dos Clem Snide tem algo de meticulosamente doce e tristemente contemplativo e apesar de neste registo a escrita de Barzalay se tornar ligeiramente enfadonha, conquista-nos pela singeleza das canções e pela honestidade criativa. End Of Love não é um tomo de instantes geniais mas é suficientemente digno de louvor para merecer uma escuta. A ironia, o humor e a sensibilidade são os denonimadores comuns de composições menos inspiradas (à excepção da brilhante "Jews For Jesus Blues" e da lindíssima "Made For TV Movie") do que é costume no colectivo americano mas que, ainda assim, não deslustram a pose consciente e reflexiva dos Clem Snide.

sexta-feira, 11 de março de 2005

Eluvium - Talk Amongst The Trees

Apreciação final: 7/10
Edição: Temporary Residence, Março 2005
Género: Música Ambiente/Experimental/Slowcore/Minimalista






Sob o nome Eluvium está o americano Matthew Cooper. A proposta deste músico é um apelo a tramas musicais complexas e minuciosas, feitas de tons longos e derivações graduais, integralmente instrumentais, de cariz ambiental e melancólico. As cadências rítmicas são lentas, arrastam-se romanticamente num delgado fio de prumo, em esquemas simétricos cuja repetição se torna o factor primaz de sedução do ouvinte. O espaço harmónico do disco é preenchido com a mestria de um artesão competente, ilustrado na capa pelos cenários enevoados onde se movem ascéticas figuras humanas, com ar incógnito e triste, sem destino aparente, em peregrinações vadias e incertas por universos ignotos.

Talk Amongst The Trees é caloroso, íntimo e aconchegante. A intensidade quase cinematográfica das composições confere ao álbum uma grandeza glacial que, partindo do rigor no pormenor, atinge a emancipação da excelência minimalista. A imagética do álbum é soberba, o recato em lugares ocultos é a promessa. Cooper cumpre-a com decoro sem deslumbrar. É nas estruturas sónicas que reside o óbice maior do disco: a incapacidade para fugir ao embaraço do repisar que, não desgostando o auditor, reduzirá certamente o tempo de vida do fonograma no leitor. Ainda assim, Talk Amongst The Trees é um título aconselhável aos admiradores de música ambiental elegante.

They Might Be Giants - Here Come The ABCs

Apreciação final: 7/10
Edição: Disney Sound, Fevereiro 2005
Género: Pop Alternativa






Os They Might Be Giants tornaram-se, no final da década de 80, um dos mais improváveis exemplos de êxito da esfera alternativa. A referência sónica do colectivo de Boston combina um sentido de humor único, quase bizarro, com uma estética melodiosa puerilmente vanguardista, irreverente e inovadora. Neste registo, o grupo demonstra um apreço especial pelas músicas de cariz educacional, dirigindo-se especialmente às faixas etárias mais jovens. Here Come The ABCs é declaradamente um título para a criança que reside em cada adulto. O objectivo: ensinar o alfabeto de uma forma divertida e despreocupada, com um fundo musical num estilo Beatles-meet-Cake. Conseguido o fito pedagógico, sobra espaço para texturas sónicas cultas, diversificadas q.b. e com um vigor recreativo singular. Here Come The ABCs é um daqueles discos docemente ingénuos que nos conquistam por força da diversão e que nos remetem a tempos em que nada marcávamos numa folha de papel que não tivesse forma de garatuja e desejávamos afincadamente aprender o código de escrita dos adultos.

Ouvir Here Come The ABCs é reviver pedaços inócuos da infância, é esquadrinhar minuciosamente cada recanto do baú das lembranças e recuperar sem acanhamentos a fantasia de crescer. Musicalmente, Here Come The ABCs não é uma peça excelsa, o mérito maior é a versatilidade na afluência de géneros, mas toca-nos com tal melindre que é impossível não sentir um prazer jovial que raras vezes se proporciona. Recomendável.

quinta-feira, 10 de março de 2005

Madredeus - Faluas do Tejo

Apreciação final: 7/10
Edição: EMI, Fevereiro 2005
Género: Fado Sinfónico






Os Madredeus retomam no novo trabalho a adoração da cidade de Lisboa, na linha do que haviam feito com Ainda, editado por ocasião do filme Lisbon Story do cineasta Win Wenders. Faluas do Tejo é, antes de mais, uma digna ode à capital nacional e cujas raízes se inscrevem na mais profunda tradição musical portuguesa, aqui como que revisitada com o tempero da urbanidade moderna, em nostálgica contemplação do fado clássico. As composições não fogem ao feitio típico do colectivo, embora assumam um vigor criativo substancialmente distinto de Um Amor Infinito (2004), resultante das mesmas sessões de gravação. A voz de Teresa Salgueiro é refulgente, como sempre, Ayres Magalhães e seus pares secundam-na com propriedade. Mas isso vem acontecendo há anos na carreira do ensemble lisboeta. E é esse o principal desafio dos Madredeus: resistir à tentação de recorrer ao precioso ajutório do piloto automático, agora que o grupo leva a sua carreira numa aconchegante (e potencialmente negligente...) velocidade de cruzeiro que resulta da maturação criativa e da afirmação de um estatuto. Não se pense que Faluas do Tejo não está à altura dos Madredeus. Certamente está e esse é o seu maior vício: limita-se à condição de alinhado com um contínuo traço de rumo que os Madredeus vêm desenhando e que com apatia (consciente?) não se esforçam por reinventar. Mantêm-se as deambulações musicais que convertem o fado a uma amplitude quase sinfónica, sem lhe subtrair um mílimetro de intensidade emocional.

Faluas do Tejo é um tributo sincero dos Madredeus à sua cidade; é capaz de incutir as costumeiras sensações divagantes no ouvinte mas não vence o agastamento de perceber a acomodação do grupo ao espaço sónico que o celebrizou (justamente) e a consequente evolução na continuidade que, afinal, para músicos do calibre destes, é a asseveração última de letargia na criação, a derradeira involução. Faluas do Tejo é um documento oportuno na carreira do mais internacional projecto musical português, mas não seria de esperar um pouco mais?

Norma Jean - O God, The Aftermath

Apreciação final: 7/10
Edição: Solid State, Março 2005
Género: Harcore Metal/Noisecore






A fasquia estava elevada depois do lançamento de Bless The Martyr and Kiss The Child (2002). Além disso, a substituição do vocalista Josh Scogin por Cory Brandan (ex-Eso Charis) colocava algumas inquietantes dúvidas quanto a este trabalho. O God, The Aftermath não deslustra
a assinatura dos Norma Jean, a raiva apaixonada mantém o padrão agressivo de sempre, o arsenal do grupo é o mesmo. Os contextos líricos são marcados por um fervor de dor e fé, entre o ódio e a esperança; o discurso é ameaçador, induz catarses dramáticas e a tensão de confronto é permanente. A produção de Matt Bayles (responsável por duas grandes edições do ano transacto- Panopticon (Isis) e Leviathan (Mastodon)) é soberba, sublevando o som dos Norma Jean.

Hoje por hoje, os Norma Jean são um dos mais estimulantes projectos da cena metal, ainda que neste registo se note alguma repetitividade na escrita. De qualquer forma, O God, The Aftermath é uma inesgotável fonte de energia espásmica com força abrasiva suficiente para seduzir apreciadores em grande escala. Metal atípico para despedaçar os tímpanos mais resistentes. Explosivo.

quarta-feira, 9 de março de 2005

4 discos em 4 parágrafos


Apreciação final: 6/10
Edição: Hefty, Janeiro 2005
Género: Pós-Rock/Electrónica Experimental






L'Altra - Different Days
Oriundos de Chicago, os L'Altra são sonhadores. O som típico do colectivo americano encaixa na definição de um experimentalismo electrónico com nostalgia da dream pop, num registo as mais das vezes minimalista, com ritmos tardos e atraentes. A simplicidade é nota dominante do disco, sempre com arranjos pertinentes, num álbum harmonioso que toca os temas da solidão e do isolamento com uma lisura assinalável. Depois, a voz é a protagonista maior da envolvente emocional do álbum, interrompida pontualmente por momentos musicais intensos, de amplitude cinematográfica. A intimidade do registo não é beliscada, o mérito maior do disco é confinar-se a si mesmo e, no seio da própria quietude, deixar sintomas de redenção e catarse. Os momentos altos do disco, à falta de composições sublimes, acontecem nas sinergias vocais entre Lindsay Anderson e Joseph Costa. Different Days é triste sem deprimir, a força das palavras puxa-nos para um imaginário que vale a pena visitar.





Apreciação final: 7/10
Edição: V2, Maio 2004
Género: Indie Rock/Punk Revivalista






Icarus Line - Penance Soirée
Icarus Line é sinónimo de irreverência e rebelião contra convencionalismos. O espaço sónico em que se movem é dominado pelas reminiscências dos saudosos Stooges. Penance Soirée é libertinamente rock, em todas as formas e géneros, com um denominador comum: um som rude e cru, do princípio ao fim do disco. A produção minimalista sublinha a crueza do som do quinteto americano. Ainda que a similitude das composições penalize a criatividade do disco, a versatilidade dos Icarus Line é notória; eles são capazes de assegurar a mesma consistência em registo noise-rock, em tom pós-punk, até em toada grunge, aqui e ali com pitadas de industrial ou blues. Penance Soirée é um ataque sujo e desassombrado às regras do rock, tem alma selvagem e niilista. Divertimento assegurado.





Apreciação final: 7/10
Edição: Island, 1979 Re-edição: Koch, Fevereiro 2005
Género: Pós-Punk






The Slits - Cut
As Slits foram uma das mais significativas bandas punk femininas dos anos 70. The Cut foi originalmente lançado em 1979 e é agora re-editado pela Koch. Redescobrir o som das Slits é experiência única. A musicalidade quase amadora deste registo, algures entre o ska e o reggae, com vocalizações que se assemelham a cantos tribais dispersos e sem rumo não será do agrado de todos. Desengane-se quem espera um disco catalogável. Nada disso. O devaneio do grupo é tal que as composições jamais se apegam a formatos tradicionais, antes vagabundeam por diversos géneros, guiadas por vozes em teimosa conspiração contra-regras. A insanidade cativante deste trabalho e o seu espírito jovial e rebelde conferem-lhe nota máxima na originalidade. O valimento das composições está no invulgar véu de trivialidade que as cobre e que, afinal, é a derradeira barreira para a sua emancipação definitiva. Tiremos a mantilha às The Slits. Talvez um dia Tarantino as descubra.





Apreciação final: 6/10
Edição: SpinART, Outubro 2004
Género: Pós-Rock/Indie Rock






The Dears - No Cities Left
Canadianos. Pop-Rock elaborado, quase orquestral, maduro. Voz (Murray Lightburn) elegante. Produção cuidada. Amores perdidos, lamentos desolados, solidão, adeus. O mais recente trabalho dos The Dears é uma súmula de boas ideias desnaturadas à força do melodramatismo excessivo. Salva-se o esqueleto musical que se percebe além do dó nas palavras. Aí reside a força matriz de uma banda pop madura, consistente, capaz de momentos orgânicos airosos, a lembrar os Smiths. Esteticamente bom, liricamente hiperbólico, No Cities Left é apenas a sombra do disco que poderia ter sido.

terça-feira, 8 de março de 2005

Andrew Bird - Andrew Bird & The Mysterious Production Of Eggs

Apreciação final: 8/10
Edição: Righteous Babe, Fevereiro 2005
Género: Cantautor/Indie Pop-Rock






Andrew Bird era originalmente um violinista. Dessa formação clássica derivam alguns vectores essenciais da escrita do cantautor de Chicago: a orgânica, a sofisticação, algum maneirismo e uma refinada consciência de melodia. Se os quatro registos anteriores do autor são a prova evidente da versatilidade camaleónica que empresta à composição, nela infundindo um leque lato de inspirações e um toque pessoal único. Neste registo, provavelmente o mais ambicioso da carreira do compositor, a música é delicada, serena e evoluída. O tecido orgânico deste álbum é fiado com uma súbtil captação de sentimento, desafiando o auditor a resistir ao magnetismo invencível das canções. A vivacidade tímida das composições marca pontos do princípio ao termo do disco, confirmando Bird como autor de eleição, um polímato entre Buckley, M. Ward, Banhart e Wainwright.

A composição e as intrumentalizações são soberbas, sobrepujando conceitos e fronteiras e compondo um título rico, assumidamente ecléctico e deliciosamente melancólico. Depois, da aparente complexidade sónica ressalta uma integridade marcante, onde os instrumentos, a voz, a letra são fracções cujo sentido maior reside na junção. O desfecho é um disco absorvente, uma obra simples que cresceu das suas fundações e se tornou um pomposo caleidoscópio de sons diferentes. O segredo de Bird desmonta-se pouco a pouco, o ouvinte é encantado (também surpreendido) a cada instante. Andrew Bird & The Mysterious Production Of Eggs é um dos momentos altos do ano.

Ben Lee - Awake Is The New Sleep

Apreciação final: 6/10
Edição: New West, Fevereiro 2005
Género: Pop Alternativa




O australiano Ben Lee despontou em idade adolescente para o sucesso com os Noise Addict. O percurso a solo, iniciado em 1999, conferiu-lhe a maturidade musical e a definição de conceitos que procurava. Awake Is The New Sleep é o novo registo de Lee e percorre cenários sónicos de melodias gentis e introspectivas e pop alternativa sem pretensões. A maturação criativa do compositor atinge neste trabalho níveis não antes conseguidos, repercutidos na ressonância emocional das canções, sublinhada inteligentemente pela simplicidade da produção.

Awake Is The New Sleep exala sinceridade, percebe-se o tacto do cantor na humilde purgação das frustrações através da música. Mas da audição atenta do disco sobeja uma conclusão óbvia: trata-se de um disco com méritos acrescidos ainda que peque por uma subliminar inaptidão para agarrar o ouvinte. É inegável que aqui estão boas canções pop, a fazer lembrar um Dando, e embora o disco seja coeso e íntimo, perde em brilho o que lhe sobra de atitude Calimero. Mesmo assim, Awake Is The New Sleep é um álbum que merece uma escuta atenta. Curiosidade intrigante: a ritmada "Catch My Disease" faz menção ao airplay de Good Charlotte, Sleepy Jackson, Beyoncé(!) e ao próprio Lee. Todos no mesmo saco?

Vôo

Clique na imagem para ampliar
Título: Voo
Fotógrafo: Marco Santos
Fonte: Autor







Voar, desejo do homem desde tempos imemoriais. Criar asas e partir em direcção ao céu infinito. Dançar com as aves, brincar com as nuvens, rodopiar na imensidão do espaço.

Captei esta imagem num dia em que passeava pela praia. Ao fotografar o objecto voador tentei enquadrá-lo com o candeeiro, dando assim uma melhor noção da altura.

segunda-feira, 7 de março de 2005

Kronos Quartet - Mugam Sayagi (The Music Of Franghiz Ali-Zadeh)

Apreciação final: 7/10
Edição: Nonesuch, Janeiro 2005
Género: Clássica Contemporânea



Franghiz Ali-Zadeh é uma compositora clássica do Azerbaijão e tem como influências John Cage, George Crumb e Alban Berg. A música que cria é evocativa e imaginosa, por vezes experimental e delirante. Aqui, servida com gentileza pelo talento do Kronos Quartet, ganha uma amplitude vertiginosa, se não pela rapidez, pela frágil subtileza dos violinos aguçados do quarteto. As melodias são desoladas, descrevem concisamente estados de alma muito próprios, abruptamente sucedidos por comoções insurrectas. Depois, insurge-se o silêncio, reclama para si o espaço que partilha com instrumentos insólitos. Faz-se a ponte entre o passado e o presente, em reflexos ensimesmados, numa mistura de sons e texturas. Os retratos de Mugam Sayagi (em português, "no estilo de mugam" - género poético-musical do Azerbaijão) são de uma imperial ave vertebrada, um deslumbrante avejão que esvoaça junto às orlas do sonho e cujo imparável fluxo de vigor provem do delicado esmero do Kronos Quartet.

Mugam Sayagi é uma edição estimulante. Dá-nos vestígios de uma tradição musical perdida na Ásia, submersa nas águas do Cáspio e resgatada do desconhecimento pela mão do estimulante Kronos Quartet. Vale a pena escutar de espírito aberto e voejar desregradamente pelas paisagens de uma identidade musical melancólica, intimamente minimalista e saborosamente desordenada.

Ghost - Hypnotic Underworld

Apreciação final: 7/10
Edição: Drag City, Janeiro 2004
Género: Experimentalismo/Art Rock



Os Ghost são um colectivo nipónico liderado pelo guitarrista Masaki Batoh e cuja sonoridade é vincadamente experimentalista, de raíz psicadélica e com uma intensidade libertina que, de tão orgânica e confiante, faz deles um dos mais desafiantes projectos musicais actuais. Não se trata de uma música imediatamente inteligível, deve ser ruminada com demora e minuciosamente desfiada, até que nela se descortinem os inúmeros mini-corpos que se unem na composição de um elemento maior. O enigma é desvelado lentamente em peças de inspiração: Pink Floyd, Jethro Tull, música celta, ambientes orientais. Os Ghost compõem heterofonias aparentemente discordantes com percussões intermitentes, explosões electrónicas, cordas intervenientes, saxofones, xilofones, violoncelos, contrabaixos, flautas, banjos, harpas celtas, etc, etc, etc... Dessa miríade de ingredientes brotam hinos de som erudito e espírito revolucionário. Os silêncios são permanentemente adiados, os instrumentos vencem-nos com uma precisão científica. O resultado é um trabalho arriscado e conceptual, de art rock de elite.

Hypnotic Underworld é uma experiência deliciosamente caótica, uma pitoresca matiz de matérias diversas que, mais do que hipnotizar, nos rouba qualquer volição. Ouvi-lo é tomar parte de um universo proibido, é invadir um mundo esquisito, de assombrações cativantes, de fantasmas sedutores. Juntemo-nos ao incógnito ritual das almas perdidas e repousemos no submundo convulso que os Ghost genialmente criaram e a que só falta uma brisa para ser uma obra-prima.

Sta. Helena

Clique na imagem para continuar
Título: Sta. Helena
Fotógrafo: Marco Santos
Fonte: Autor







Nos dias que correm a fé continua a movimentar milhões de pessoas. Em tempos dominados pela tecnologia poder-se-ia pensar que a ciência tende a dominar o campo religioso, mas certamente tal suposição será uma utopia. As crenças tendem a evoluir e a fé permanecerá.

Fotografia captada num acto religioso católico, em plena Serra do Montemuro, concelho de Castro Daire. A névoa que se pode ver no canto superior esquerdo deve-se aos fogos que assolavam a região no verão de 2003.

sexta-feira, 4 de março de 2005

Moby - Hotel

Apreciação final: 5/10
Edição: V2/BMG, Março 2005
Género: Pop-Rock/Techno-Pop/Club-Dance/Rock



Richard Melville Hall é um artista controverso. Se o alter ego artístico - Moby - deu um rosto ao universo techno, empurrando-o do anonimato para o mediatismo mainstream, essencialmente graças à exploração comercial do ubíquo Play (1999), os puristas do género não viram com bons olhos a sua banalização e consequente desvirtuação. Indiferente às vozes discordantes, Moby firmou a sua marca inconfundível: a fusão da electrónica disco com outros ritmos, da pop à música ambiente e/ou de dança.

Baby Monkey (2004) do projecto paralelo Voodoo Child, prometia a reconciliação de Moby com a forma que o notabilizou e que dele fez um símbolo do underground techno do início da década de 90. Contudo, se 18 (2002) já mostrava uma derrapagem pop, Hotel confirma o nova-iorquino no estatuto de estrela pop, com os respectivos tiques irritantes. Moby é hoje inventor de hinos indisfarçavelmente pop e verteu essa condição na escrita de Hotel. O registo é ostensivamente mainstream, com melodias primárias, refrões orelhudos e instrumentalizações descuidadas. Moby desnaturou a trama sónica típica, desobrigou-se dos preceitos fundamentais e construiu um tomo que avilta títulos de antanho, piscando despudoradamente o olho às venturas comerciais. A medula de Hotel é desarmoniosa e incapaz de redimir Moby da degeneração. A salvar o disco da ruína integral, a voz quente de Laura Dawn e "I Like It" e "Forever", os únicos mensageiros do passado que Moby parece renegar.

Tweaker - 2 A.M. Wake Up Call

Apreciação final: 7/10
Edição: Waxploitation/BMG, Abril 2004
Género: Rock Alternativo/Electrónica



Antigo membro dos Nine Inch Nails, Chris Vrenna é a cabeça dos Tweaker. O corpo sonoro é sombrio e melodioso, algo teatral e industrial. Um pormenor: Vrenna não canta no disco, antes convidou ilustres vocalistas como David Sylvian, Jennifer Charles (Elysian Fields), Will Oldham e Robert Smith (Cure), entre outros. A orgânica do registo é aprimorada, contemplando ingredientes electrónicos acurados, cruzados parcimoniosamente com a guitarra de Clint Walsh.

A onda sad do disco é infundida em ritmos tardos, pontuados com polidez pela(s) voz(es). Nelas reside a versatilidade maior de 2 A.M. Wake Up Call: não é um trabalho enfadonho, retém o interesse do auditor até à última faixa. Cada composição evolui segundo vectores próprios, constrói a sua fracção livre de um universo comum que só se fecha na conjunção das doze faixas e que tem três faces: puro talento, electrónica de elite, rock.

2 A.M. Wake Up Call é um daqueles discos que apetece ouvir vezes sem conta, até descobrir-lhe todas as minudências, todos os pormenores que se escondem nas texturas intrincadas do som. E eles são muitos. Não apetece acordar às duas da matina para o escutar?

VHS or Beta - Night On Fire

Apreciação final: 6/10
Edição: Astralwerks, Setembro 2004
Género: Indie Rock/Electro-Rock/Dance-Punk



O segundo longa duração dos americanos VHS or Beta é um tomo de dance-punk circunspecto, na linha dos Radio4. Night On Fire tem estilo, é festivo, irónico e acolhedor. O revivalismo disco funde-se com tecidos rock, aproximando o som do grupo, a espaços, da electrónica retro tipo Duran Duran ou The Cure. Re-invenção ou pilhagem do património 80's? A obsessiva tendência para a cópia faz o disco tombar, vencido pelas silhuetas das suas idolatrias. Depois, é notoriamente excessiva a exuberância das texturas instrumentais, feitas de hiperbólicas interposições que, por tanto insistirem na busca da suprema opulência, apenas conseguem o frenesi inevitável da desordem.

Night On Fire é apenas uma proposta honesta; uma mais na desmedida imensidão de alvitres desta espécie que inundaram o mercado discográfico no ano de 2004. Merece uma escuta? Definitivamente, sim. Mas com a mente aberta para descobrir uma nostálgica banda copy-paste dos 80's cujo maior mérito, até à data, é despertar-nos a vontade de sacar os velhinhos vinis dos Cure da prateleira.

quinta-feira, 3 de março de 2005

Luz

Clique na imagem para ampliar
Título: Luz
Fotógrafo: Marco Santos
Fonte: Autor







Uma simples composição onde a beleza da luz em chama nos continua a cativar. Desde as origens.

Mr. Scruff - Keep It Solid Steel 1

Apreciação final: 7/10
Edição: Ninja Tune, Outubro 2004
Género: Electrónica Ambiente/Dub/Trip-Hop/Mix



Com Keep It Solid Steel 1 o britânico Andy Carthy, conhecido por Mr. Scruff, investiu numa infusão de estilos sonoros variados, percorrendo os ambientes aconchegantes do reggae, da soul, do funk, do hip-hop, do jazz e, aqui e ali, da clássica e da electrónica. Claro está que este registo é um mix-album construído com soberba inventividade por Mr. Scruff. Da extensa lista de samples - retirados da série Solid Steel da Ninja Tune - destacam-se os nomes de Erykah Badu, Bacalov, Soul II Soul ou Pharoah Sanders. O grande mérito deste registo é recolher ingredientes de discos pouco conhecidos e cuja qualidade facilmente acelera instintos dançarinos. Deixemo-nos embalar pois Keep It Solid Steel 1 é puro regozijo.

Feeder - Pushing The Senses

Apreciação final: 6/10
Edição: Echo, Janeiro 2005
Género: Pop-Rock



Quinte registo de estúdio do colectivo de Newport, Pushing The Senses aproxima os Feeder do som pop do momento, na onda dos Keane, Snow Patrol, mesmo Coldplay, ainda que se note uma inflexão no discurso típico dos Feeder: estão mais melancólicos, o disco é um pouquinho menos rock. A esse pormenor não terá sido estranho o suicídio do baterista Jon Lee, três anos antes da edição deste trabalho. E este desvio do grupo não será penalizador? Esta psicótica mudança afasta os Feeder das idiossincrasias que construiram no passado e confunde o auditor. Afinal, Pushing The Senses é um disco pop simpático mas assemelha-se a uma amálgama desordenada de emoções taciturnas que desiludirá os incondicionais adeptos do que os Feeder foram.

A estrutura angular do som dos galeses parece ter-se esboroado na constrangedora propensão baladeira, já detectada no álbum anterior, que desvirtua a alma dos compositores de Buck Rogers, Tangerine ou Crash. Indiscutivelmente, os Feeder prosseguem a degeneração, perderam o norte e arriscam o sumiço dos adeptos de longa data. Perde o universo indie, ganha o mundo mainstream. Por fim, Pushing The Senses empurra-nos os sentidos não na orientação típica dos Feeder mas na de uma outra coisa qualquer em que eles se transformaram. Finados os Feeder, salva-se a pop.

Soilwork - Stabbing The Drama

Apreciação final: 5/10
Edição: Nuclear Blast America, Março 2005
Género: Heavy Metal/Death Metal



Formados em 1997 na Suécia, os Soilwork desenharam um percurso firme na esfera metal, cruzando a faceta melódica do death metal nórdico com diversas influências relevantes de outros géneros. A nota dominante do som dos Soilwork é o imediatismo capaz de satisfazer os instintos primais de força abundante na distorção das guitarras e nas batidas aceleradas. Stabbing The Drama tem isso mas é redundante numa fórmula tipo-nu metal, num estilo próximo dos Fear Factory, embora com toques melódicos mais definidos.

A tendência recente do death metal sueco tem sido a perversão das origens, os Soilwork caminham nesse sentido com uma produção demasiado polida, vocalizações limpas demais e composições menos sombrias. Objectivo? Rumo? Em boa hora os Dark Tranquility deram sinais de inverter este pendor, retomando com isso a incontestada liderança da cena metal de Gotemburgo. Quanto aos Soilwork, resta esperar que sejam capazes de perceber que nem sempre o trajecto mais imediato é o mais assisado.

quarta-feira, 2 de março de 2005

Thievery Corporation - The Cosmic Game

Apreciação final: 6/10
Edição: ESL Music, Fevereiro 2005
Género: Downbeat



Rob Garza e Eric Hilton regressam num jogo cósmico com os ingredientes do costume (batidas electrónicas equilibradas, vocalizações variadas, dub, cítaras e sinais de brasilidade). Desta vez fazem-se acompanhar por uma ilustre legião de vocalistas convidados e parceiros na composição: The Flaming Lips, David Byrne, Perry Farrell (Jane's Addiction), Sista Pat, entre outros. O resto é o traço holográfico inconfundível da dupla, de contínua divagação em tapete voante pela identidade sonora da Índia, do Brasil e da Jamaica. Espaço para a novidade? Não. Embora o registo mostre mais alento e alma, não chega a livrar-se da incómoda analogia a trabalhos anteriores de Garza e Hilton. E isso joga em seu desabono. Ainda assim, a dupla mantém-se tranquilamente acima da linha de medianidade do prolixo universo downtempo.

Midnight Movies

Apreciação final: 6/10
Edição: Emperor Norton, Agosto 2004
Género: Indie Rock



Depois de algumas distinções na cidade natal de Los Angeles, os Midnight Movies aventuram-se no primeiro registo de estúdio. Eles são um trio: Gena Olivier (voz, bateria), Larry Schemel (guitarra) e Jason Hammons (teclas, guitarra). Lançado em Agosto de 2004 e só agora disponível no mercado nacional, Midnight Movies é um tomo de composições que fazem lembrar, a espaços, os Yo LA Tengo e os Stereolab. A onda ominosa e fantasmagórica dos Midnight Movies perfaz um protótipo de som negro, de ambiente cinematográfico, com algumas melodias luzidias. A voz emocional de Olivier traz Nico à memória, em tons estóicos e encaixa nos tecidos noir fiados por guitarra e teclas. Estilo a rodos. Mas como se desata um nó tão fechado? Aí reside o busílis do disco: o estilo sobrepõe-se à substância, subtraindo matéria ao registo. As sombras art-rock de Midnight Movies arrastam o disco para um inquietante deslize na escrita. É certo que o disco contém lances aptos, mas não evita a fatigante intuição do dejá-vu.

Midnight Movies tem faculdades inegáveis, é um disco aprimorado cujo senão fundamental não deslustra o trio americano. E deixa pistas sobre uma banda competente o bastante para fazer bem melhor.

Jorge Cruz - Sede

Apreciação final: 6/10
Edição: EMI, Outubro 2004
Género: Pop-Rock



Depois de ter dado a voz aos Superego e ao projecto O Pequeno Aquiles, Jorge Cruz avançou para um disco a solo. "Sede" é um tomo de composições de bom nível, com presença dominante da guitarra acústica, em ritmos lentos de um pesaroso chorar. Jorge Cruz é um baladeiro que se aventura noutros substratos com denominador comum: a solidão e a misantropia. O compositor subscreve uma aliança universal (blues, jazz e fado andam por aqui...) de amores perdidos, em auto-indulgência da sede de amor. O registo é íntimo como um livro aberto em que a voz elástica de Cruz (a dicção não faz lembrar Viviane dos Entre Aspas?) espalha honestidade e expõe fragmentos de uma existência que, afinal, é nossa também.

Um segredo bem guardado da música nacional, Jorge Cruz é um sério pretendente ao escol do património sónico nacional, assim seja capaz de injectar na escrita o fluido vivo que há-de saciar-lhe a sede.

Leaf

Clique na imagem para ampliar
Título: Leaf
Autor: MNaylor55
Fonte: Nature Photo Gallery








Agora que as primeiras gotas deste inverno se fizeram sentir, chegou o momento de a vida germinar com outro fulgor. Nas florestas o solo outrora seco bebe sofregamente a água carinhosamente libertada pelos céus.

Belo macro de simples organismos que nos passam despercebidos todos os dias.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

Antony And The Johnsons - I Am A Bird Now

Apreciação final: 8/10
Edição: Fevereiro 2005
Género: Pop Alternativo/Slowcore



O segundo trabalho dos Antony & The Johnsons é um disco profundo, daqueles que se entranham sem pedir licença, dos que nos roubam ao afã existencial e nos instigam a suster a corrente irreversível da vida. Apetece ficar imóvel sob o jugo sublimado da voz andrógina e trémula de Antony e do capricho galhardo da sua escrita. I Am A Bird Now é feito de canções encantadoras, também inquietantes, assentes numa matriz de arranjos harmoniosos de piano e voz que destaca a sinceridade agridoce da proposta. A enriquecer a casta deste registo, Rufus Wainwright, Boy George, Devendra Banhart e Lou Reed dão uma ajuda respeitosa.

I Am A Bird Now é um tomo de beleza desconcertante e irresistível, despido de artifícios - como a fotografia de Peter Hujar a retratar a transexual Candy Darling (1974) na cama que seria o seu leito de morte; a voz de Antony leva-nos pela mão em divagações românticas sobre amores impossíveis, purgatórios negros, a ambiguidade dos géneros e o medo da solidão. O disco é uma majestosa epifânia ao expressionismo de uma voz com emoção transcendental e a simplicidade de uma utopia maravilhosa de criança (lembram-se de Joanna Newsom?). I Am A Bird Now é belo, calmoso e quente na forma mágica de uma fantasia de que não se desperta de moto próprio. Registo imperdível, I Am A Bird Now é um daqueles discos que se pensavam extintos.