sábado, 22 de janeiro de 2005

As Rainhas da Idade da Pedra andam aí...

Poucas semanas antes do lançamento do muito aguardado Lullabies To Paralyze os Queens of The Stone Age farão uma curta digressão europeia que passará por França, Alemanha e Reino Unido.

Que inveja!

De qualquer forma, em jeito de antecipação ao novo trabalho, com data de lançamento prevista para 22 de Março, podem ouvir uma amostra do primeiro single no sítio oficial da banda.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

Cristina Branco - Ulisses

Apreciação final: 7/10
Edição: Janeiro 2005
Género: Tradicional/Fado Moderno



Apresentado pela própria cantora, não como um disco de fado, mas como um registo de música portuguesa, Ulisses é uma pertinente viagem à tradição do património musical nacional. Desengane-se quem pensa que este disco se resigna perante a referência estanque do fado e da guitarra portuguesa. Podem ouvir-se temas em espanhol ou em inglês, ainda que todo o disco se desenrole sob a primazia do fado, a influência primária de Cristina Branco. As canções desprendem-se do formato rígido da canção tradicional portuguesa e, aceitando a sua intercessão decisiva, embarcam em excursões venturosas, qual bravo Ulisses, por horizontes ignotos de melopeias cativantes. Ulisses leva o fado a portos clandestinos, onde se depositam embriões de fatalista saudade e se deixam raízes de uma nova e incerta portugalidade, trajada de vestes hodiernas e orgulhosamente só no timbre das cordas de uma guitarra. A divagação, o amor, o adeus, o regresso são presença constante, trama de um opus inovador e arrojado. Tal como Ulisses, regressado a casa após jornadas intermináveis, o fado com Cristina Branco regressa a casa, afinal nunca de lá partira, apenas se revestira de ornatos aprumados. Cristina não renega as suas origens, antes as mostra de outro jeito, cheio de sensualidade e intuição.

É fado ou não? Será essa uma inquietação pertinente quando se fala de Cristina Branco? Ulisses é um passo em frente, piscando o olho ao que fica para trás e Cristina fá-lo como ninguém. Ulisses é um acto singular de quase-perfeição; saber porque Cristina Branco tem mais sucesso além-fronteiras do que cá dentro é o verdadeiro desafio. Esperemos que o público português faça o justo preito à cantora e admita, por uma vez, que a sua música não é estranha, antes entranha. Cristina Branco assume de corpo e alma o medrio do fado e deixar o fado crescer não é subtrair-lhe virtudes.

Detroit Cobras - Baby

Apreciação final: 6/10
Edição: Novembro 2004
Género: Rock Revivalista



Os Detroit Cobras fizeram parte de um movimento que impulsionou o renascimento em Detroit de um certo revivalismo rock, assumidamente saudosista dos The Stooges. Baby, o seu mais recente trabalho, é um disco de covers que recupera temas dos anos 50 e 60, completamente transfigurados em aparente delírio turbo, uma simbólica associação à cidade dos motores. Sem dúvida, os Detroit Cobras respiram energia e exploram-na com sabedoria, Rachel Nagy faz lembrar Chrissie Hynde ou Blondie, mas as faixas não conseguem o auge que obstinadamente perseguem. Do alinhamento constam temas dos The Animals, The Kinks, Who ou Bobby Womack, entre outros.

Baby fica na sombra dos originais, mas não envergonha os Detroit Cobras. O disco, se não encontra outro desígnio, tem charme bastante para consolar a líbido de amantes ocasionais em noites quentes de rock'n roll. Tem saudades do twist?

Dogs Die In Hot Cars - Please Describe Yourself

Apreciação final: 8/10
Edição: Agosto 2004
Género: Indie Pop



O perfume peculiar da pop dos Dogs Die In Hot Cars é captado neste primeiro longa duração do grupo, um disco que assume as suas raízes britânicas, não receia assumi-las com uma sobriedade notável, sugerindo outros trilhos para a redescoberta da tradição pop em terras de Sua Majestade. Ao escutar Please Describe Yourself imediatamente me lembrei dos Talking Heads, deixei-me embalar pela toada de "Lounger" ou "I Love You 'Cause I Have To" e percebi que os Dogs Die In Hot Cars não são brincadeira. A viveza copiosa deste registo não deixará ninguém indiferente, estes escoceses elevam a pop a uma exuberância criativa perfeitamente consciente do seu valimento, sem margem para pieguices ou trejeitos duvidosos. Tudo aqui é minuciosamente colocado no seu lugar, num imparável desfile eufónico de onze canções.

Nos moldes em que os compatriotas Franz Ferdinand recriaram o rock, os Dogs Die In Hot Cars importam uma metamorfose para a pop. O resto é feito pela irreverência em inconsciente afrontamento das regras (eles dizem que detestam "Come On Eileen" e fazem por provar que a atmosfera alegre desse tema era uma fraude, se comparada com o ambiente dos Dogs), uma sonoridade única e folgazona, excelente letras e uma sagacidade criativa que marca uma nova etapa para a pop. A dado momento Please Describe Yourself alvitra a melhor máxima auto-descritiva da banda: "I get up when I like/Wear anything I like/Don't keep up with the cool/Make up my own rules". Pois bem, este trabalho mostra bem que, se ainda não renovaram as regras da pop, os Dogs Die In Hot Cars estão no bom caminho para serem os primeiros a fazê-lo. Excelente disco.

The Streets - A Grand Don't Come For Free

Apreciação final: 7/10
Edição: Maio 2004
Género: Electrónica/Rap



Mike Skinner é o mentor do projecto The Streets e trouxe à festiva música de garagem típica do Reino Unido uma perspectiva de outsider, com influência óbvias da atmosfera hip-hop ou jungle beats. Se o primeiro trabalho do músico (Original Pirate Material, 2002) tinha pontuado um inovador panorama na electrónica inglesa, este subjuga outras barreiras. É sobretudo um registo fleumático e bem britânico que, sem oferecer singles orelhudos, acaba por compôr um registo complexo, paradoxalmente simples, simultaneamente moderno e tradicional. O ambiente é elegante, feito de enunciações do quotidiano, acompanhadas por instrumentalizações minimalistas de bom tom e com uma produção refinada.

Skinner é um contador de histórias e A Grand Don't Come For Free é um disco conceptual, centrado em caracteres romanescos que se movem imponentes face à música, dela fazendo parte e nela se expondo. A ironia e o sarcasmo também marcam presença, em textos positivamente volúveis, mais ou menos sérios, mas docemente reais. Este trabalho alarga fronteiras e deve ser ouvido repetidamente. Conceda-se a primazia às histórias e vai descobrir-se que A Grand Don't Come For Free é mais um engenhoso livro musicado do que propriamente um disco de canções valiosas.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

Tom Jobim Lounge

Apreciação final: 2/10
Edição: Novembro 2004
Género: Chillout/Lounge/Bossa Nova



Sabe-se que as editoras gostam de exaurir o espólio dos grandes nomes da música, especialmente depois do seu desaparecimento. Tom Jobim Lounge é mais uma intempestiva amostra dos danos que uma pseudo-reconversão pode provocar num legado musical valioso. Felizmente a obra de mestre Jobim é de tal jeito excelsa que nos permite simplesmente renegar esta abjecção musical. Só quem não conhece e percebe o trabalho do grande compositor brasileiro é que se atreveria a poluir deste forma os verdadeiros clássicos da bossa nova. Modernidade, sim....mas não assim! E ver aqui Carlinhos Brown, Lenine, Martinho da Vila e Ivan Lins em desvarios recicladores de Jobim é seguramente brincadeira de mau gosto.

Perdoa-os António, eles não sabem o que fazem...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005

Beulah - Yoko

Apreciação final: 8/10
Edição: Setembro 2003
Género: Indie Pop-Rock/Lo-Fi



Os californianos Beulah terminaram a sua carreira em Agosto de 2004, deixando um legado registado em quatro álbuns. Yoko foi o último trabalho da banda e eterniza com propriedade a pop amadurecida do colectivo americano, talvez num registo mais escuro, mas simultaneamente bravo no sentimentalismo, segurado por instrumentalizações de bom nível e uma produção suficientemente acertada para salientar o dadivoso espírito das composições.

O coração lírico deste disco vagueia entre uma declaração de lamento e um visão de redenção sobre o sentimento. O registo é mais reflexivo do que os anteriores, mais orgulhosamente ensimesmado, definidor de uma identidade muito própria. E os Beulah eram isso mesmo, em doutrinas contíguas com os Flaming Lips ou os Wilco. Yoko não é um feito genial, mas deixa prova da insígnia de experiência dos Beulah. Ao escutar este trabalho, especialmente faixas do melhor indie pop dos últimos tempos como "Landslide Baby", "Me And Jesus Don't Talk Anymore" e "Fooled With The Wrong Guy" não pode deixar de lamentar-se que os Beulah já não existam. Ninguém lhes rouba um lugar especial no panteão da indie. E no álbum de memórias dos apreciadores de boa música está seguramente este Yoko.

Nomeações BAFTA

Foram anunciados no passado dia 17, os nomeados para os prestigiados prémios BAFTA, atribuídos anualmente pela Academia de Cinema do Reino Unido.

A lista completa de nomeados - pode consultar aqui - permite projectar os filmes favoritos para os Óscares.

Assim, em paralelo com a lista dos Globos de Ouro americanos, destacam-se claramente alguns títulos e actores/actrizes para as principais categorias dos Óscares:

- The Aviator (Martin Scorsese), Despertar da Mente (Michel Gondry) - o preferido dos utilizadores do Imdb.com (ver aqui) e À Procura da Terra do Nunca (Marc Forster) parecem ter a nomeação certa para a categoria de melhor filme;

- Jamie Foxx (Ray), Jim Carrey (Despertar da Mente), Johnyy Depp (À Procura da Terra do Nunca) e Leonardo DiCaprio (The Aviator) devem surgir sem surpresa na lista para a estatueta de melhor actor;

- as coisas estão menos consensuais na categoria das actrizes mas creio que Hillary Swank (Million Dollar Baby), Annette Bening (Being Julia) e, eventualmente, Kate Winslet (Despertar da Mente) devem ser nomeadas pela academia de Hollywood;

- para o galardão de melhor filme estrangeiro, uma referência para a nomeação mais que provável de Mar Adentro (Alejandro Amenábar) e Diarios de Motocicleta (Walter Salles).

A este propósito, uma menção para os favoritos da prestigiada publicação PREMIERE. Uma nota de surpresa (...ou não!) para as eventuais nomeações de Javier Bardem (Mar Adentro) - algo que o actor espanhol (talvez o melhor europeu no momento) já fez por merecer - e de Catalina Sandino Moreno (Maria Cheia de Graça). Quanto ao resto, não há grande surpresas...mas será que a academia vai mesmo ignorar o belo Despertar da Mente?

Mantém-se a expectativa, a divulgação da lista final dos nomeados para os Óscares será feita no próximo dia 25. Desde já, fica a notícia de que a cerimónia será conduzida pelo comediante Chris Rock.

Concurso de Novas Bandas da Casa da Música

A Casa da Música no Porto está a promover o Concurso Estado da Nação - Concurso de Bandas Emergentes da Casa da Música destinado a novos projectos musicais, sem qualquer contrato discográfico. O envio de maquetes deve ser feito até ao próximo dia 30 de Janeiro.

O regulamento pode ser consultado aqui.

Kasabian em digressão

A tournée dos Kasabian no Reino Unido foi alargada, fruto da massiva procura de bilhetes para os concertos. Os rapazes de Leicester merecem...







Na forja dos New Order

O novo álbum dos New Order chega a 28 de Março. Waiting For The Siren's Call é o nome. Serão capazes de fazer mais segundas feiras azuis?









Exposição de Paula Rego em Serralves

Não esquecer que a exposição da obra de Paula Rego só estará patente no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves até ao próximo dia 23 de Janeiro. Não me perdoo a mim mesmo se não prestar essa homenagem à pintora portuguesa. Mais de cem mil pessoas já o fizeram...









Beck de volta

O novo trabalho de Beck, intitulado Epro, tem lançamento previsto para Março. Diz quem já ouviu que se trata de um regresso às origens, algo mais próximo de Loser.

A Les Inrockuptibles diz o seguinte:

"Comme aux grands jours de Loser, toutes les lubies de Beck (du blues au hip-hop, du punk rock au folk) y sont maltraitées. Une musique ivre, rugueuse, libre, joviale et d'une coolitude inégalable, qui agitera les hanches comme les zygomatiques. Cerise sur le cake de Beck : Jack White est au générique. Pour découvrir Epro, il vous faudra cependant attendre jusqu'à mi-mars..."

Novo disco de Yeah Yeah Yeahs

Quem também já prepara um novo disco são os Yeah Yeah Yeah's. O propósito do grupo é a reinvenção do seu próprio som. Estou em pulgas...

Na Pitchfork escreve-se assim:

"The band has already recorded an untitled track, according to guitarist Nick Zinner. "I mixed it in L.A. a few days ago with [engineer] Alan Moulder, owner of the best ears in this universe. It sounds amazing and lush and heavy as fuck, and also is very indicative of our next step." If Zinner's facility with adjectives does not entirely convince you, a look at Alan Moulder's resume offers potential support for 'heavy' and, well, especially 'lush'-- he was one of the great studio men of the shoegaze era, building his early career with production and engineering work for My Bloody Valentine, The Jesus & Mary Chain, Ride, Curve, Lush, and Swervedriver, although his recent work leans more toward cash machines like Marilyn Manson, A Perfect Circle, Zwan, and, most recently, The Killers."

Outra assinatura de Aphex Twin...

Analord é o novo heterónimo de Richard James (aka Aphex Twin). Depois de percorrer diversas fases de uma metamorfose estranha, cujas etapas mais célebres foram AFX, Brad Strider, Polygon Window e Aphex Twin, o músico apresenta-se agora como Analord. Sob esse nome, foi lançado um vinil de duas faixas, sugestivamente intitulado Analord 10.











terça-feira, 18 de janeiro de 2005

Devendra Banhart - Niño Rojo

Apreciação final: 7/10
Edição: Setembro 2004
Género: Folk-Pop Alternativo/Cantautor/Lo-Fi



Devendra Banhart é um artista multifacetado e isso repercute-se no seu trabalho musical. A profusão da sua escrita íntima é um espelho da alma, traduzindo-se numa atmosfera espiritual, serenamente introspectiva, as mais das vezes reveladora de uma rica e divertida essência compositora. Niño Rojo é resultado das mesmas sessões de gravação de que resultou o brilhante Rejoicing The Hands.

O que se pode dizer sobre a música de Banhart? É docemente minimalista, um suco supremo resgatado da ilusória opulência da produção de estúdio, uma asseveração estreme e delicada, sem presunções, apenas Banhart. Niño Rojo é tudo isso sem tiques estéticos: o trovador Banhart e a sua guitarra acústica em melodias maduras de exortação espiritual.

Ouvir Banhart é escutar as confissões ocultas do génio, além de qualquer movimento cultural ou fenómeno musical, de verdade ingénua e beleza pura, em formas básicas de surrealismo tocante. Banhart é americano nas raízes, mas universal na criação. Ouvir Niño Rojo é experimentar a sensação esotérica de intimidade com harmonias pouco convencionais, pelo gosto adquirido nas vocalizações hipnóticas e no artesanato sonoro do compositor.

The Thrills - Let's Bottle Bohemia

Apreciação final: 7/10
Edição: Setembro 2004
Género: Pop-Rock Alternativo



Os irlandeses The Thrills estão de volta, depois do ecoante sucesso de So Much For The City. Neste novo trabalho, mantém-se a fórmula pop evoluída do primeiro álbum, embora a produção não seja tão perfeita e a parte lírica esteja uns furos abaixo. Contudo, Let's Bottle Bohemia é divertido e promissor, confirmando os The Thrills como um dos mais consistentes projectos pop da actualidade.

A confiança da banda é notória no trabalho de composição, verdadeiramente cuidadoso, enérgico e estilizado. Além disso, neste registo há uma propositada tendência para misturar as influências antigas da banda com uma produção hi-fi. Se essa fusão era arriscada, o produto final faz prova do talento dos The Thrills e, não sendo uma obra genial, é um documento do melhor que a pop ainda tem para oferecer.

Let's Bottle Bohemia acaba por ser uma ponderada reinvenção do conceito da banda, com estilo e mestria. Aguardemos novos desenvolvimentos destes irlandeses...

Panda Bear - Young Prayer

Apreciação final: 4/10
Edição: Setembro 2004
Género: Espiritual/Minimalista



Young Prayer não é um disco. Dito assim, parece estranho quando se fala de uma edição discográfica. A verdade é que este trabalho de Panda Bear, membro dos Animal Collective, se aproxima mais de uma bizarra eulógia do que de um registo musical. A isso não será estranho o facto de o trabalho em questão ter sido escrito no seguimento do falecimento do pai do autor.

Young Prayer é uma elegia de meditação sobre a morte, marcada pelas vocalizações em falsete, sem palavras e erraticamente afagadas por mimos de guitarra acústica. Há aqui um apelo comovente à espiritualidade, quase renascentista, tão incorpóreo quanto a música pode ser e devoto a um misticismo etéreo. Não se trata de um registo mórbido, tampouco de um rito funéreo, antes uma lamentosa prostração perante a fragilidade da vida. Como produto musical, ainda que honesto, está longe de ser um tomo desejável.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

Vencedores dos Globos de Ouro 2005

Foram atribuídos na noite de ontem os Golden Globe Awards de 2005, galardões que servem de antecâmara para os Óscares e que permitem inferir, na maior parte das vezes, do favoritismo para as estatuetas da Academia de Hollywood. Para a história fica a lista de vencedores dos Globos de Ouro e respectiva ordenação dos nomeados por categoria:


MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL
1. Sideways (Alexander Payne)
2. Despertar da Mente
3. The Incredibles - Os Super Heróis
4. O Fantasma da Ópera
5. Ray

MELHOR ACTOR - COMÉDIA/MUSICAL
1. Jamie Foxx (Ray)
2. Jim Carrey (Despertar da Mente)
3. Paul Giamatti (Sideways)
4. Kevin Kline (De-Lovely)
5. Kevin Spacey (Beyond The Sea)

MELHOR ACTRIZ - COMÉDIA/MUSICAL
1. Annette Bening (Being Julia)
2. Ashley Judd (De-Lovely)
3. Emmy Rossum (O Fantasma da Ópera)
4. Kate Winslet (Despertar da Mente)
5. Renée Zellweger (Diário de Bridget Jones 2)

MELHOR FILME - DRAMA
1. The Aviator (Martin Scorsese)
2. Closer
3. À Procura da Terra do Nunca
4. Hotel Rwanda
5. Kinsey
6. Million Dollar Baby

MELHOR ACTOR - DRAMA
1. Leonardo DiCaprio (The Aviator)
2. Javier Bardem (The Sea Inside)
3. Don Cheadle (Hotel Rwanda)
4. Johnny Deep (À Procura da Terra do Nunca)
5. Liam Neeson (Kinsey)

MELHOR ACTRIZ - DRAMA
1. Hillary Swank (Million Dollar Baby)
2. Scarlett Johansson (Love Song For Bobby Long)
3. Nicole Kidman (Birth)
4. Imelda Staunton (Vera Drake)
5. Uma Thurman (Kill Bill vol. 2)

Outros prémios:

Melhor Actor Secundário - Clive Owen (Closer)
Melhor Actriz Secundária - Natalie Portman (Closer)
Melhor Realizador - Clint Eastwood (Million Dollar Baby)
Melhor Filme Estrangeiro - The Sea Inside
Melhor Argumento - Sideways
Melhor Banda Sonora Original - The Aviator
Melhor Canção Original - "Old Habits Die Hard" (Mick Jagger & David Stewart) (Alfie)

William Shatner - Has Been

Apreciação final: 7/10
Edição: Outubro 2004
Género: Spoken Word/Pop-Rock



Quando no apogeu do estrelato de Star Trek, William Shatner lançou The Transformed Man (1968), um bem sucedido registo de spoken word, re-interpretando canções famosas e recitando poesia, ninguém parece tê-lo levado a sério. O disco era algo bizarro, mesmo pomposo, mas lançou pistas desafiantes que só viriam a ser descobertas mais tarde. Hoje, aquele título tornou-se objecto de culto e foi com alguma expectativa que abordei este Has Been.

Shatner integra a palavra com a honra que ela merece, embala-a serenamente na música, em jeito entretido e honesto. A existência, o trabalho, o medo, o desapontamento, o lamento e o quotidiano são os temas que preenchem o imaginário de Has Been. Uma nota de realce para o facto de, à excepção de dois temas, as composições deste trabalho serem assinadas pelo próprio Shatner. O registo parece autobiográfico, às vezes jocoso, sempre inspirado. Não é definitivamente um disco de canções, é uma declaração em discurso directo, em tom de confessionário, murmurado e sensual, apoiado em melodias bem construídas e numa boa produção sonoplástica.

Has Been não chega ao brilhantismo do registo de '68 mas é, sem margem para hesitações, um disco a descobrir. Feita a proposta, não pode deixar de concluir-se que é um grande disco do Cpt. Kirk.

Neurosis - The Eye Of Every Storm

Apreciação final: 7/10
Edição: Junho 2004
Género: Metal Alternativo/Industrial/Experimental



O espaço sónico dos americanos Neurosis faz uma abordagem anfibológica do universo metal, conferindo-lhe uma decoração mais versátil, às vezes lembrando Marilyn Manson ou Moonspell, outras apelando a Tom Waits em versão lunática-pesada, ancorados num leito de águas turvas e agitadas, num visceral assomo neurótico. Mas a ambiguidade não reside aí, prende-se antes com a presença de elementos sedutores, marcados na integração de secções melódicas, quase sempre crescentes, em caminhos ascéticos para codas vivazes.

Os Neurosis fazem um metal atípico, não se limitam a descargas baldas de decibéis, procuram construir um bizarro cerimonial de exaltação da melancolia negra, com algumas pitadas de gótico, cujo cunho mais notado é a alternância entre a acalmia lassa e o estampido áspero. A sonoridade é próxima dos Cult of Luna, embora menos agreste. Sem dúvida, um registo que merece ser explorado por aqueles que apreciam a busca de novos caminhos para a música.

A.C. Newman - The Slow Wonder

Apreciação final: 7/10
Edição: Junho 2004
Género: Indie Pop-Rock



A.C. Newman é o líder dos The New Pornographers, aqui num registo a solo. Ao escutar este trabalho pela primeira vez, a ideia que me invadiu o espírito, ainda que hesitante foi: isto não é muito Beatles? A resposta surgiu resoluta, algumas audições depois: sim, mas é bom! Trata-se de um disco pessoal, com alguma ousadia criativa, num estado revelador do bom momento de Newman.

The Slow Wonder remete-nos para a nostalgia dos 60's, aqui registada em mimetismos sóbrios, sem resvalar para o plagiato, antes mostrando a riqueza da escrita de Newman, suportada por uma produção de excelência sem tiques de exibicionismo. Onze temas da melhor indie pop que 2004 viu nascer e que se recomendam aos saudosistas de Lennon. Aos outros também.

domingo, 16 de janeiro de 2005

À Procura da Terra do Nunca

Apreciação final: 8/10
Edição: 2004
Género: Drama/Biografia





Quando o universo se confunde com as quimeras das crianças, fundem-se matérias de uma singela beleza, criam-se paisagens encantadoras, firmadas em simetrias de ingenuidade virgem, em busca de cenários puros, algures numa terra de nunca, liberta de adulterações. Essa foi a inspiração de James Barrie (Johnny Depp) para a construção da fábula clássica de Peter Pan. Numa fase em que estava desacreditado, só através do convívio afável com quatro adolescentes e a sua convalescente mãe, o escritor encontrou o estro para compôr a antiga peça, projectando sinais do quotidiano no texto ficcionado.

A atmosfera onírica deste filme de Mark Forster (Monster's Ball - Depois do Ódio) faz lembrar, a espaços, O Grande Peixe de Tim Burton, embora num registo substancialmente diferente, mais dirigido à fantasia genuína das crianças. À Procura da Terra do Nunca é, antes de mais, um documento cinematográfico precioso, um manifesto de remissão das utopias frustradas da infância, convertidas em defraudos da idade adulta e de como o crescimento do ser lhe retira a candidez de petiz.

Suportado por um argumento excelente (do melhor que vi nos últimos tempos) e representações soberbas (a nomeação não deve escapar a Depp e, porque não, ao jovem Freddie Highmore?), À Procura da Terra do Nunca remete-nos para o mundo de Peter Pan, da fada luminosa Sininho, de piratas, tubarões e crocodilos e, mais do que isso, leva-nos à inevitável e comovente ilação de que deixámos de ser crianças. Um filme notável e mágico que, não agradando a todos, desarma habilmente as defesas dos que assumem a criança que reside em si.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

Mirah - C' mon Miracle

Apreciação final: 7/10
Edição: Maio 2004
Género: Indie Rock/Cantautor




O mais fresco trabalho da muito low profile Mirah é mais um fascículo da enciclopédia de fatias do quotidiano da cantautora americana, aqui em tons despidos de excentricidades fúteis, quase esqueletais, reduzidos à sua essência acústica e apresentados na delgadeza de um objecto reflexivo e delicado.

O trabalho é menos radioso que os anteriores, não captura o auditor de imediato, mas consegue escapar à modorra, pela robustez e maturidade das composições, revelando uma Mirah mais madura, muito segura de si e com um sentido de oportunidade apurado. Aí reside o ápice do disco: Mirah cresceu! E é um deleite vislumbrar-lhe o cunho do requinte, sem perder de vista o alento eclético que sempre a norteou. Ao repelir alguns caprichos de registos anteriores, Mirah lançou-nos o mais pessoal obséquio da sua carreira: escutar C'mon Miracle é aceitar o convite furtivo para invadir o seu universo proibido e irrevelável, um raro privilégio que não podemos enjeitar.

Bandex

Apreciação final: 7/10
Edição: Setembro 2004
Género: Chillout/Sampling/New Jazz/Soul/Fusão/Beats



As sementes do projecto Bandex estão algures em 2002, naquilo que começou por ser uma mera recreação dos irmãos Gelpi. Desde então, o grupo cultivou uma síntese sonora que compreende o lounge relaxante, uma dose sensata de new jazz, música latina e muito estilo e bom gosto.

A nota que sobra imediatamente do primeiro contacto com o álbum de estreia deste colectivo nacional é a maturidade das composições, assentes em texturas sonoras suculentas, com samples e teclas, intercessões de guitarra eléctrica e percussões impelentes à dança. A música resulta transversal, de espírito aberto e inventivo, ainda que não inovador. De qualquer jeito, trata-se de um registo meritório, a roçar o trip hop, outras vezes o acid jazz e outras a não se parecer com coisa nenhuma. Os Bandex são isso mesmo, convidam-se a integrar um género de chillout que recebe diversas influências. A curiosidade: a capa do disco revela lombadas de uma colecção de discos vinil onde se detectam, entre outros, Primal Scream, Hendrix, Depeche Mode, Ramones e New Order. Se a estes juntarmos Beck, Moby e, principalmente, Manu Chao, temos uma ideia, ainda que redutora, do universo que os Bandex fizeram para si neste registo e que, numa manobra de marketing quase filantrópico, disponibilizam para download no seu sítio oficial.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

Novo colaborador - O Bardo

Mais uma vez, redobro os agradecimentos a todos os que passam e passaram por este espaço.

Aproveito também para apresentar o novo colaborador do apARTES para a temática da literatura. As minhas boas vindas a "O Bardo" e o meu agradecimento pela disponibilidade para participar no apARTES.

Que este espaço possa crescer cada vez mais, que alargue as suas fronteiras a outros terrenos, que outros colaboradores possam apresentar a sua disponibilidade.

Saudações a todos.
Obrigado.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

Vladimir Nabokov - Lolita

Lolita é indubitavelmente a obra mais célebre de Nabokov. É a história sobejamente conhecida da relação amorosa entre um intelectual de meia-idade e uma menina caprichosa de 12 anos. A partir desta sinopse poder-se-ia pensar que assim que se conhece o fio condutor da história esta fica desprovida de interesse. Puro engano. Ela é composta por uma riqueza narrativa inefável que não é mais do que o produto da mestria e do domínio de linguagem do escritor russo. A história, apesar de nunca evidenciar grandes reviravoltas ou uma sucessão de acontecimentos apaixonantes,
acaba por nos prender dada a inegostável panóplia de recursos que Nabokov possui. O romance centra-se na figura de Humbert Humbert, um indivíduo grotesco, abjecto e insólito e, por isso mesmo, uma das personagens mais marcantes da literatura universal. As suas idiossincrasias e os tumultos que o assolam são-nos revelados como se o próprio Humbert Humbert fosse uma personagem real e não de ficção.
A sátira aparece furtivamente ao longo desta obra mas engrandece-a. É um livro obrigatório que nos imerge na voragem das suas linhas mas que só será realmente apelativo para os que acham a leitura um acto imensamente prazente e que se deliciam ao absorver a arte da escrita subjacente neste romance.

Franz Ferdinand

Apreciação final: 8/10
Edição: Abril 2004
Género: Indie Rock



Já todos escreveram e falaram sobre os escoceses Franz Ferdinand. Poucos se recordarão do EP Darts Of Pleasure, o primeiro impulso do que havia de tornar-se um dos mais engenhosos projectos musicais do ano transacto e que incluía o single "Take Me Out", granjeador de honras fora do comum no airplay das rádios, um pouco por todo o planeta, catapultando os Franz Ferdinand para o estrelato, bem além daquilo que a própria banda teria alguma vez sonhado. E a que se deve este brusco sucesso de grande escala? Em primeiro lugar, à habilidade quase hedonista dos Franz Ferdinand, perfeitamente audível no disco: o álbum é exactamente aquilo que o grupo queria, com um estilo e energia contagiantes, indiferente aos espartilhos do "parece bem" e à prudência do "deve ser assim". Este é o som deles, de mais ninguém, pode ser teatral, extravagante, alvoroçado, até um pouco volátil, mas é único.

Franz Ferdinand é um desfile de composições com deliciosos tiques revivalistas, a lembrar os tempos oleosos da brilhantina, das camisas de popelina e do sapatinho polido, captando essa atmosfera, colorindo-a com cores recentes em borrifos de urbanidade contemporânea. As canções são versáteis como actos de fruição sem impurezas, devidamente joeirados para se livrarem das contaminações do mainstream e mostrarem a alma e o coração aberto dos Franz Ferdinand. Quase se pode palpar a honestidade desta oferenda que vibra nos tímpanos de jeito atordoante, mas nos subjuga implacavelmente, por força da sedução viciante da música retro e da libertinagem dos contextos líricos. Dificil mesmo é não gostar de Franz Ferdinand, mais árduo ainda é não reputar este registo como um dos melhores de 2004.

Posto de escutaBarnes & Noble

Clã - Rosa Carne

Apreciação final: 8/10
Edição: Maio 2004
Género: Pop-Rock Alternativo



Rosa Carne foi apresentado como um disco declaradamente feminino, não apenas no objecto das letras, também na assunção de um espírito confessadamente sensual, mesmo insinuante. O grupo portuense envolve a beleza esmagadora da voz delicada de Manuela Azevedo em cenários ignotos, criados por arranjos musicais ricos, a roçar uma opulência que deriva da maturidade do colectivo da Invicta.

Ouvir Rosa Carne é embarcar numa expedição a universos femininos, aqueles em que se esgaravatam sentimentos e se expõem receios, onde se sopesam prós e contras com indecisão. A ambiência sonoplástica do disco é soberba, menos pop, e sublinha a convocação a esse mundo simulteamente violento e doce, feito de flores e lascívia carnal. As canções parecem atadas por empatias sinérgicas, como que dependentes entre si, rumo a uma plenitude conjunta que faz de Rosa Carne o projecto mais destemido dos Clã, num autêntico golpe de anca feminino, validado por um libidinoso pestanejar de olhos, que nos invade a mente, nos toma o corpo e sobrepuja todas as resistências. Não será o melhor trabalho dos Clã?

Posto de escutaCDGO.com

Slipknot - Vol. 3 : The Subliminal Verses

Apreciação final: 6/10
Edição: Maio 2004
Género: Metal Alternativo



A explosão do nu-metal do final dos anos 90 bolçou várias bandas para a fama. De entre os inúmeros projectos musicais que sobejam desse auge, destacam-se os Slipknot, projecto musical de Iowa que colhe a sua inspiração em rancores e fúrias teen, expressas na rudeza auto-destrutiva das letras, na intensa agressividade niilista das vozes guturais e na lógica de confronto hostil pretensamente com motivações catárticas. Essa energia negativa é destilada na distorção das guitarras eléctricas, em percussões furiosas e em cenários líricos violentos e depressivos.

O som é intenso e poderoso, numa espécie de artesanato sónico visceral que continua a distinguir os Slipknot dos restantes projectos nesta área. O problema reside na presença de algumas faixas acústicas, em ruptura clara com a filosofia do grupo e que desvirtuam o senso global do registo. Se os Slipknot se proclamam os mensageiros da fúria rebelde de uma geração, que assumam de corpo inteiro o encargo. Conseguem imaginar um mascarado de guitarra acústica na mão?

Vol. 3: The Subliminal Verses é um disco dicotómico: as faixas heavy são de excelente nível, as restantes...nem sequer deviam estar! Será esta divisão sinónimo de uma versatilidade discutível ou de uma aproximação ainda mais duvidosa a outros públicos? Aguardam-se outros capítulos...

Posto de escutaBarnes & Noble

terça-feira, 11 de janeiro de 2005

Despertar da Mente

Apreciação final: 8/10
Edição: 2004
Género: Drama/Romance





A memória, um fiel depositário de reminiscências, é o mais tangível elo entre o sujeito enquanto ser e a teia de vínculos que arquitecta com os outros, o espaço e o tempo. Sem ela, perde-se a porção mais elementar da idiossincrasia do indivíduo, desfazem-se laços, desmoronam-se momentos. Este filme de Michel Gondry aborda com inteligência a ténue supremacia das memórias e a irresolução do sujeito face ao ensejo de apagar imagens não queridas. No fundo, Gondry propõe-nos, pela dedução da força anamnésica do amor, um ensaio sobre as relações humanas, a irreversibilidade do sentimento e as repercussões indeléveis do pretérito. Concomitantemente, mostra-nos com singeleza que, por vezes, o mais acertado remendo para as omissões do presente jaz algures nas recônditas memórias do passado.

A densidade do argumento é o diapasão que conduz as brilhantes actuações de Jim Carrey e Kate Winslet. Carrey no desempenho mais exigente da sua carreira, também o mais distante do registo costumeiro, demonstra inequivocamente aptidões só afloradas em Truman Show e The Majestic, acercando-se da ribalta que reclama para si - merecerá a atenção da Academia de Hollywood desta vez? Por seu lado, Winslet cativa o espectador, num desempenho que secunda com propriedade o de Carrey, verdadeiramente intenso e genuíno. Uma nota ainda para a presença de Elijah Wood, Kirsten Dunst e, acima destes, um actor com uma ascensão prometedora e cujo nome convém reter: Mark Ruffalo.

O Despertar da Mente é um filme comovente - não no sentido lamecha do termo - cujo mote toca a todos e apela a uma reflexão interior sobre o valimento da condição humana, vertido na natureza dos seus afectos e na insuficiente ciência da memória. Sem dúvida, um dos melhores títulos de 2004.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Spring Heel Jack - Sweetness Of Water

Apreciação final: 7/10
Edição: Junho 2004
Género: Avant-Garde Jazz/Experimental/Improviso



O futuro não tem limites, dilata-se num traço temporal imaginário que corta avidamente o vácuo e o parte, assomando obstinado em sentidos ignotos, algures no desconhido, sumido em dimensões do porvir. A música dos Spring Heel Jack está em nenhures, não é pretérita, nem exclusivamente vanguardista, bamboleia titubeante nessa linha invisível, onde o tempo deixa de o ser e de onde emergem ruídos dissolvidos, em fugiras prolixas de contornos mal definidos, numa selva nocturna de voluptuosidade intensa.

A doutrina primaz é o inventividade do jazz, longe os tempos em que o drum'n'bass era o dogma incontestável para Coxon e Wales. Sweetness Of Water é provocante, lança um desafio ao ouvidor que, tomado pela modernidade da babel dos Spring Heel Jack, se deixa fascinar pelo indício da desordem que lhe serena o ânimo mas que, em sucessivas picadas de improviso, lhe renovam o repto a cada segundo. Depois, a elegância esdrúxula e a dinâmica mutante das composições criam uma simetria estética sem igual, fazendo prova do estatuto de criadores ímpares dos Spring Heel Jack.

Sweetness Of Water não é um disco generalista, mas encerra em si o primor do experimentalismo e do improviso. Altamente recomendável aos fãs do género.

Posto de escutaBarnes & Noble

José Mário Branco - Resistir é Vencer

Apreciação final: 6/10
Edição: Abril 2004
Género: Música de Intervenção/Jazz/Pop Erudito



O mais recente trabalho de José Mário Branco, dedicado ao povo maubere, é um tomo firmemente político, uma asserção corrosiva sem temor de afrontar juízos instituídos, pelo vigor das letras e usando a canção como arma de arremesso.

A qualidade das instrumentalizações pauta um discurso mordaz, legando um documento para as gerações mais jovens, para que não esqueçam valores que se tomam por garantias mas que, afinal, se aligeiram em cada dia.

José Mário Branco é um homem de crenças, não deixa que as convicções adquiridas se corroam pelo entorpecimento do sucesso e Resistir É Vencer atesta essa condição. Os poemas são de excelente nível, o disco é um dos melhores trabalhos da carreira do músico. Nas palavras do próprio: "Sou português, pequeno-burguês de origem, filho de professores primários. Faltam-me dentes. Sou o José Mário Branco, 61 anos, do Porto. Muito mais vivo que morto. Contai com isto de mim. Para cantar. E para o resto." Neste disco, está o canto...e está o resto.

Posto de escutaSítio Oficial

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

The Arcade Fire - Funeral

Apreciação final: 7/10
Edição: Setembro 2004
Género: Rock Indie/Pós-Rock/Experimental



O quinteto canadiano The Arcade Fire é uma brava quadrilha de assalto às emoções, com um som empoeirado, alimentado pelo rancor profundo, na invocação recorrente de cenários pós-apocalíticos feitos de um romantismo feroz e com a beleza brutal de vistas metaforicamente quebradiças, de uma fragilidade esmerada. A música é melódica, assume uma teatralidade introspectiva, percorrendo os temas do amor, do suicídio, da morte e da mundanidade do quotidiano, em perspectivas insanas de libertação exuberante. E o propósito é seguramente atingido, sem refrear ânimos, em dez faixas consistentes e equilibradas.

Funeral é a banda sonora de uma geração assombrada pela frustração, a inquietude, a tragédia e o consequente isolamento auto-infligido. Este disco é um registo negro, simultaneamente capaz de desatar enigmas da alma, desprendê-la da exiguidade das suas fronteiras e trazê-la, resoluta, ao confronto tenaz dos seus receios. E, então, do lúgubre se fará luz, e de Funeral surgirá uma plangente celebração à pura emoção humana.

Posto de escutaBarnes & Noble

Tv On The Radio - Desperate Youth, Blood Thirsty Babes

Apreciação final: 7/10
Edição: Março 2004
Género: Experimental/Indie Rock/Pós-Rock



Se o refinamento da complexidade musical tem um nome, chama-se TV On The Radio. Rotular a música do grupo de Brooklyn é tarefa custosa, tal a amplitude de fontes inspiradoras a que recorrem. Há aqui um irreverente espírito pós-punk, envolvido em atmosferas electrónicas singelas. Se o EP Young Liars havia sido uma imprevista surpresa, assinalando o recrudescimento de um dos mais excepcionais actos musicais do novo século, este Desperate Youth, Blood Thirsty Babes suplantou as mais imoderadas expectativas.

A inteireza do som do grupo espelha a peculiar alquimia dos Tv On The Radio, traduzida em vocalizações dominadoras, inclinadas para o experimentalismo das instrumentalizações, sempre densas mas concomitantemente simples. Não há limites para os Tv On The Radio, a incorporação justa do soul e do jazz no mundo do rock indie é a proposta. Aceitemos o alvitre, sem indulgências fingidas e escutemos Desperate Youth, Blood Thirsty Babes com a atenção devida. Afinal, é o testemunho de um conflito assumido entre a voz e a máquina e da tensão da fusão multi-cultural do grupo. Deste liame, nasceu o disco. Sejamos árbitros privilegiados da querela.

Posto de escutaBarnes & Noble

Sloppy Joe - Flic Flac Circus

Apreciação final: 6/10
Edição: Fevereiro 2004
Género: Reggae/Ska/Pop/Dub/Funk



A música dos portugueses Sloppy Joe é descomprometida, vive da liberdade de acolher diversas influências e fundi-las com mestria, numa trama sónica de inspiração ska, ampliada a uma multiculturalidade desembaraçada.

A primeira ideia que ressalta da audição de Flic Flac Circus é que estamos no backstage de um espéctaculo circense, em que arlequins alegram crianças, domadores refream feras e saltimbancos desafiam o risco, ao som dos saudosos Mler If Dada. Mas os Sloppy Joe fazem mais do que isso e, sem se arrogarem videntes de um novo género, constroem um disco cujo objectivo primaz é a descontracção pelo divertimento. E nesse desígnio, são bem sucedidos.

Posto de escutaCDGO.com

quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

Animal Collective - Sung Tongs

Apreciação final: 8/10
Edição: Junho 2004
Género: Rock Indie/Experimental



O projecto nova-iorquino Animal Collective é um devaneio de David Porter (apresentado como Awey Tare) e Noah Lennox (nickname: Panda Bear) e explora uma invulgar intersecção entre o folk americano e texturas ambientais, com um psicadelismo retorcido e melodias escuras. Sung Tongs foi um dos trabalhos mais elogiados de 2004, resgatando o grupo do quase-anonimato a que estava votado, apesar do êxito de Here Comes The Indian (2003).

A primeira ideia a reter deste Sung Tongs é o imediatismo acrescido das faixas, bastante mais acessíveis do que as do seu anterior trabalho, sem no entanto perderem o efeito surpresa a que o duo nos habituou, pela invenção de faixas únicas, extravagantes e criativas, com uma dose proporcional de uma euforia que se confunde com ingenuidade. Não se trata de inexperiência ou inabilidade dos Animal Collective, apenas da assunção ciente de uma candura pueril, tão libertina quanto inconsciente, na criação das canções; o resultado chama-se Sung Tongs, é estreme, é encantador e propõe um desígnio que tem tanto de inverosímil quanto de raro: fazer da mais primária música, uma peça intemporal. Se é verdade que os Animal Collective soam mais melodiosos aqui, não o é menos que Sung Tongs está submerso num caos deliciosamente organizado de águas imiscíveis que se misturam, afinal apenas um secreto ponto de encontro para danças de celebração e epifânias momentâneas.

É verdade que o disco pode parecer, para os menos identificados com os Animal Collective, uma visão exageradamente vanguardista de uma improvável fusão entre os Beatles e Simon & Garfunkel. Para os outros, Sung Tongs é único, um idílico poiso de sonho, uma viagem catártica à criança dentro de cada um de nós.

Posto de escutaBarnes & Noble

cLOUDDEAD - Ten

Apreciação final: 7/10
Edição: Março 2004
Género: Underground/Rap Alternativo/Experimental



A música do trio cLOUDDEAD é uma misteriosa e inopinada experiência sonora, recorre a uma combinação invulgar de conceitos experimentais e de música ambiente, com vocalizações anormais que, muitas vezes, fazem lembrar mantras tibetanas. Ten é um tomo bizarro, colhe influências de Eno, abraça-as com surrealismo e revela-se conscientemente psicadélico. Se à primeira escuta, este registo parece difuso e desorientado, com o tempo Ten transforma-se numa valiosa peça de música moderna.

Ten é um daqueles discos que se venera ou se odeia, a peleja é um desafio mordaz à opinião, mas os cLOUDDEAD fizeram um bom trabalho. Já o haviam feito no registo anterior, neste Ten seguem as suas próprias pisadas e o disco, se perde para aquele em originalidade, ganha-lhe no aprumo do talento dos músicos e não envergonha as expectativas dos seguidores do grupo.

Os tons suspensos de orgão arrumam o cenário e os longos ruídos esparsos abrem trilhos para a peregrinação das palavras, tornando o disco absorvente e muito experimental, volátil e paranóico, num espírito de confrontação livre, visceral e intenso.

Posto de escutaBarnes & Noble

The Stills - Logic Will Break Your Heart

Apreciação final: 6/10
Edição: Outubro 2003
Género: Rock Indie/Pós-Rock/Experimental



O quarteto canadiano The Stills move-se sob as influências dos Echo & The Bunnymen, os The Clash, os Joy Division ou os The Smiths. As aparições recentes em concertos dos The Rapture, Yeah Yeah Yeahs ou The Streets conferiram-lhes alguma notoriedade na cena rock internacional.

Logic Will Break Your Heart foi o seu álbum de estreia e, não indiferente às influências pós-punk, o disco é sólido, imaginativo e tem glamour. A sua sonoridade é uma espécie de art-pop obscura, com percussões assinadas com veemência e riffs de guitarra convenientes. Não se trata de um registo brilhante, longe disso, mas ouvir Logic Will Break Your Heart não é uma experiência despicienda. Aguardam-se novos passos dos The Stills.

Posto de escutaBarnes & Noble

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

Luna - Rendezvous

Apreciação final: 6/10
Edição: Outubro 2004
Género: Pop Alternativa



Rendezvous foi escrito sob o anúncio da dissolução dos Luna e apresenta-se como cartão de despedida de um dos projectos mais sólidos da pop alternativa. Em comparação com os registos anteriores, este trabalho revela percussões mais sacudidas, encaixadas na estética melodiosa do grupo. A voz de Dean Wareham conduz-nos numa incursão por paisagens primaveris de veludo (os Velvet Underground andam por aqui...), feitas de sons gentis e íntimos, compassivos e tristes, plácidos e relaxantes. Mas os sonhos também podem ser superficiais e, à excepção de "Malibu Love Nest", nenhum dos temas se liberta de uma certa indiferença (reflexo directo da condição divorciante da banda?).

Rendezvous é apenas o retrato de uma despedida que os Luna ficam a dever a si mesmos...ou o testemunho de um trajecto que não chegou a ser o que devia ter sido.

Posto de escutaBarnes & Noble

John Frusciante - Shadows Collide With People

Apreciação final: 7/10
Edição: Fevereiro 2004
Género: Pop-Rock Alternativo/Pós-Punk



Ele é mais conhecido como guitarrista dos Red Hot Chilli Peppers mas já leva alguns anos de edições a solo. Este registo foi o quarto desses trabalhos e é aquele que mais se aproxima do formato da sua banda de origem, pela convocação persistente de sonoridades mainstream, feitas de canções estruturadas e de refrões mais orelhudos. Se as gravações anteriores avocavam uma postura declaradamente introspectiva, este mostra-se menos cerrado, mais directo, mais facilmente assimilável, sem resvalar para o simplismo. Não se trata de pop MTV, o preceito é distinto, a doutrina é a alternativa.

Shadows Collide With People mantém o traço típico dos trabalhos prévios de Frusciante, moldado de uma forma diferente e que revela um compositor assisado e confiante. O vigor propagável dos Red Hot é posto de lado, Shadows Collide With People deve ser ouvido de roupão e chinelos, ao quentinho da lareira.

Posto de escutaBarnes & Noble

Swayzak - Loops From The Bergerie

Apreciação final: 5/10
Edição: Setembro 2004
Género: Techno Minimalista/ Club-Techno



A música do trio londrino Swayzak não é fácil de classificar, é marcadamente electrónica, acolhe influências do dub e do novo jazz, numa mistura que parecendo sedutora, em Loops From The Bergerie depressa se mostra um mistifório. Desta vez, Brown, Taylor e o recém-recrutado Paterson refugiaram-se num antigo castelo dos Alpes Franceses (o Bergerie do título) e produziram um registo que está longe de trabalhos editados no passado. Loops From The Bergerie é repetitivo, enfadonho, pouco criativo, apraz a espaços mas defrauda a seguir. As vocalizações não se ajustam à orgânica do disco e a reinvenção do conceito musical do grupo soa a Royksopp, sem o brilhantismo destes, ou aos Depeche Mode numa noite de ressaca depressiva.

Esta viragem dos Swayzak não será muito bem acolhida pelos seus seguidores mais próximos, mas conquistará os adeptos da techno minimalista. A produção é de bom nível e salva o disco de um desempenho medíocre.

Posto de escutaBarnes & Noble

Thievery Corporation - Babylon Rewound

Apreciação final: 5/10
Edição: Novembro 2004
Género: Electrónica/Club-Jazz/New-Jazz/Dub



Babylon Rewound reduz as principais faixas de The Richest Man In Babylon (2002), álbum dos Thievery Corporation, à essência dub. As propostas de remistura são da autoria dos próprios, de Kid Loco e Voidd.

A nota dominante é o relaxe, num embalo de reggae. Contudo, o grande problema deste registo é perceber se foram as faixas pervertidas ou, ao invés, se ganharam com a metamorfose. A desvirtuação da sua condição inicial não lhes desfez os méritos? O critério é o do ouvinte, sendo certo que o registo é mais indicado para os admiradores do grupo. Para espicaçar os menos afoitos, o grupo incluiu um tema não editado antes, "Truth And Rights". Mesmo assim, nada neste registo prende o auditor e difícil mesmo é manter o disco no leitor por muito tempo. Um arrebique nem sempre alinda...

Posto de escutaBarnes & Noble

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

Secret Chiefs 3 - Book Of Horizons

Apreciação final: 7/10
Edição: Maio 2004
Género: Rock Experimental



Book Of Horizons é o mais recente alvitre dos Secret Chiefs 3. Para quem não sabe, este ensemble é o alter-ego dos Mr. Bungle. Todavia, aqui, o ênfase não está nas capacidades vocais de Patton mas sim no virtuosismo instrumental, na versatilidade da escrita de Spruance e, acima de tudo, na elástica deferência a estilos aparentemente imiscíveis. O tecido sónico é muito variado, sem se tornar difuso, acolhe uma míriade de influências e espreme-as até lhes haurir a essência.

Este trabalho é ambicioso, também por isso arriscado, mas alguma vez o risco foi problema para Patton e seus pares? Neste registo, o objectivo é compilar faixas de seis bandas diferentes, todas lideradas por Trey Spuance (mentor dos SC3): The Forms (rock negro), Ishraqiyun (rock híbrido de inspiração asiática), UR (rock vanguardista), Electromagnetic Azoth (electro-acústica), Holy Vehm (death metal) e Traditionalists (Ambiente experimental).

Book Of Horizons é um título original, diferente do convencionalismo reinante e apartado da banalidade geral. Não é um disco de consumo fácil, deve ser digerido com demorado desvelo, até se lhe perceberem os méritos. E só então, se torna um registo tremendamente apelativo e um seguro testemunho da melhor produção experimental.

Posto de escutaBarnes & Noble

Donna Maria - Tudo É Para Sempre

Apreciação final: 6/10
Edição: Outubro 2004
Género: Electrónica/Fusão/Pop



Os lisboetas Donna Maria são a nova amostra da moderna música portuguesa, acolhem as raízes mais profundas da portugalidade musical, desde o fado de Amália à pop Variações e fundem-nas com as ambiências das beats electrónicas hodiernas. A lista de ilustres colaborações inclui os nomes de Vitorino, Paulo de Carvalho, Pedro Luís e a Parede, Letícia Vasconcelos, Ciro Cruz, Paulinho Moska e Gil do Carmo.

O acento tónico deste álbum é a ousadia honrosamente portuguesa, metida entre a urbanidade contemporânea e o desafio permanente às normas da tradição, pautado por arranjos musicais de excelência e melodias e poemas que sobressaiem. Não há aqui modas, nem falsos pretextos ou arrogâncias, apenas o caminho de vanguarda para a pop nacional. E os Donna Maria, a par dos A Naifa, com menos brilho do que estes, seguem esse trilho.

Ney Matogrosso, Pedro Luís e a Parede - Vagabundo

Apreciação final: 7/10
Edição: Abril 2004
Género: Pop-Rock/Tropicalista/Fusão/Samba



Depois de alguns momentos esporádicos de colaboração, Matogrosso e a banda Pedro Luís e a Parede decidiram editar um álbum conjunto, suportado por uma digressão que correu o Brasil de uma ponta a outra. As influências das quatorze faixas que constituem o alinhamento de Vagabundo são variadas: "Assim Assado" (Secos & Molhados), "Disritmia" (Martinho da Vila), "A Ordem é Samba" (Jackson do Pandeiro), entre músicas da carreira de Matogrosso e da Parede.

O registo é bastante equilibrado, as faixas são obstinadamente integradas com homogeneidade e merecem um tratamento musical de excelente nível, sobrando a harmonia da união entre os músicos. A exuberância da voz de Matogrosso encontra o poiso perfeito nas ondulações sonoras de castidade musical de Pedro Luís e a Parede, conferindo a Vagabundo uma atmosfera de pop-rock tropicalista que faz deste trabalho um dos melhores do ano recém-terminado no Brasil. Altamente recomendável.

domingo, 2 de janeiro de 2005

Marlango

Apreciação final: 7/10
Edição: Novembro 2004
Género: Jazz-Pop/Pop Alternativo



A cantora e actriz Leonor Watling encabeça o projecto Marlango, reconhecidamente uma das revelações mais surpreendentes do ano de 2004 em Espanha. O disco é intimista, revela uma aproximação ao poder dos sentidos, numa viagem pela chanson francesa com o espírito da soul e o embalo do jazz em pano de fundo e o fantasma de Tom Waits como cicerone. A enriquecer o registo marcam pontos a voz sensual de Watling, o talento virtuoso dos músicos e a atracção irresistível das canções. O resto é o bom gosto que dita. Um disco serenamente relaxante, de méritos inquestionáveis na originalidade, com breves pitadas nobres a fazer lembrar P.J. Harvey, The Pretenders ou Maria Rita.

Marlango é uma lufada de ar fresco no panorama da música espanhola e europeia e deixa a promessa de feitos mais ambiciosos para um futuro próximo. Leonor Watling canta melhor do que nunca, faz-se acompanhar dos melhores músicos de Espanha e o resultado só podia ser um disco de bom nível, apontado por várias publicações da especialidade como o melhor título do ano no país vizinho. A ouvir sem reservas.

Posto de escutaIt's All Right

Carlos Libedinski - Narcotango

Apreciação final: 7/10
Edição: Dezembro 2004
Género: Electrónica/Tango/Fusão



O registo Narcotango mostra a fusão entre a atmosfera do tango argentino e os ambientes sonoros da electrónica contemporânea. As semelhanças com o projecto Gotan Project são intuitivas, embora os elementos electrónicos adquiram aqui outra exuberância e uma complexidade de nível superior. Ainda assim, a pedra de toque é a sensualidade rítmica do tango, vincada pela emancipação do acordeão e dos luxuosos ingredientes de cordas.

Narcotango é um tomo promissor, feito da mais moderna música electrónica de fusão, propositadamente exibicionista, declaradamente garboso e intensamente contagiante. O apelo à sumptuosidade sónica não cai em exageros vazios, antes inventa uma visão renovada do estilo clássico da música tradicional da Argentina. O arrojo de Libedinski é maior do que o dos Gotan Project, o compromisso com o passado é menor, a sugestão de futuro é arriscada. Porém, o desfecho é tentador e merece ser ouvido com insistência. Se Piazzolla tivesse trabalhado com os Massive Attack teria feito um disco assim.

sábado, 1 de janeiro de 2005

Cult Of Luna - Salvation

Apreciação final: 8/10
Edição: Outubro 2004
Género: Metal Alternativo / Gótico Minimalista / Metal Experimental



Salvation é o mais recente trabalho dos suecos Cult Of Luna. Já sabemos que o seu som nunca será mainstream, não é esse o fito. Os Cult Of Luna limitam-se a construir paisagens sónicas enigmáticas e pesadas, sem partidas e sem destinos, alargando as fronteiras do metal a outras paragens, recheadas de experimentalismo e versatilidade, trazendo-os ao estatuto de expoentes máximos como mensageiros de um novo metal, a par dos Isis, ou mesmo dos Tool. A exploração deste álbum merece ser demorada, penetrando-lhe as entranhas até extrair os raros momentos de beleza profundamente negra que os Cult Of Luna arquitectam. A voz angustiada é discreta, apenas completa as faixas, desviando a atenção do ouvinte para o essencial: a natureza simultaneamente corrosiva e doce deste Salvation.

É certo que o disco não agradará a todos, mas não deixa de ser um dos melhores trabalhos de 2004. Se é apreciador de metal vanguardista, inspirado nos contextos negros do gótico, Salvation é um disco recomendável.

Flunk - Morning Star

Apreciação final: 7/10
Edição: Outubro 2004
Género: Electrónica / Downbeat



O quarteto Flunk é de origem norueguesa e pulou para o estrelato graças à invulgar versão de "Blue Monday" incluída no seu registo anterior, For Sleepyheads Only. Se esse trabalho revelava algum viço e uma inteligente tendência para apimentar a electrónica com vocalizações oportunas e alguma irreverência, este Morning Star subjuga as melhores expectativas. Curiosamente, este disco também inclui uma versão dos New Order, tendo a escolha recaído em "True Faith". Quanto ao resto, o cenário é idêntico: texturas downbeat, cruzadas com ingredientes pop, uma voz serena e cativante, muito a la Björk, e uma boa dose de talento. Morning Star não é uma obra-prima mas servirá o propósito de saudar o novo ano com música de qualidade.

A gentilidade dos elementos electrónicos toma-nos desde o início do disco, embala-nos numa incursão pelo mundo hipnotizador das beats, numa flutuação leve pelo éter onírico da moderna atmosfera dos Flunk. Sente-se, relaxe e ouça.