
Apreciação final: 8/10
Edição: 2004
Género: Drama/Biografia
Quando o universo se confunde com as quimeras das crianças, fundem-se matérias de uma singela beleza, criam-se paisagens encantadoras, firmadas em simetrias de ingenuidade virgem, em busca de cenários puros, algures numa terra de nunca, liberta de adulterações. Essa foi a inspiração de James Barrie (Johnny Depp) para a construção da fábula clássica de Peter Pan. Numa fase em que estava desacreditado, só através do convívio afável com quatro adolescentes e a sua convalescente mãe, o escritor encontrou o estro para compôr a antiga peça, projectando sinais do quotidiano no texto ficcionado.
A atmosfera onírica deste filme de Mark Forster (Monster's Ball - Depois do Ódio) faz lembrar, a espaços, O Grande Peixe de Tim Burton, embora num registo substancialmente diferente, mais dirigido à fantasia genuína das crianças. À Procura da Terra do Nunca é, antes de mais, um documento cinematográfico precioso, um manifesto de remissão das utopias frustradas da infância, convertidas em defraudos da idade adulta e de como o crescimento do ser lhe retira a candidez de petiz.
Suportado por um argumento excelente (do melhor que vi nos últimos tempos) e representações soberbas (a nomeação não deve escapar a Depp e, porque não, ao jovem Freddie Highmore?), À Procura da Terra do Nunca remete-nos para o mundo de Peter Pan, da fada luminosa Sininho, de piratas, tubarões e crocodilos e, mais do que isso, leva-nos à inevitável e comovente ilação de que deixámos de ser crianças. Um filme notável e mágico que, não agradando a todos, desarma habilmente as defesas dos que assumem a criança que reside em si.