quinta-feira, 25 de novembro de 2004

Mata Ratos - És Um Homem Ou És Um Rato? (CD, 2004)

Apreciação final: 3/10

Mata Ratos é Mata Ratos. Punk rudimentar, pretensamente divertido, sarcasmo q.b. e uma dose generosa de insurreição, muitas vezes a descambar para um mau gosto descabido. É preciso dizer mais?

Clinic - Winchester Cathedral (CD, 2004)

Apreciação final: 5/10

Os Clinic são um quarteto de Liverpool caracterizado por um som alternativo, na linha do pós-punk de garagem, com alguns traços de dub e pop . Winchester Cathedral é o seu terceiro registo e talvez o menos bem conseguido da sua carreira. Além de errarem a captação das glórias passadas, os Clinic parecem ter corrompido a chama que tornava o seu trabalho interessante. A banda perdeu a face negra, a introspecção criativa, a inventiva amamentação da criação. Aqui, soam a degenerescência, apesar de algumas faixas serem regulares ("Home" e "The Magician" honram o nome dos Clinic), salvando o disco do fracasso inteiro.

Winchester Cathedral não é mau, está longe de ser bom, é enfadonho. E quando um disco aborrece, não resiste muito tempo no leitor de cd's...

Steve Earle - The Revolution Starts...Now (CD, 2004)

Apreciação final: 6/10

Depois de uma fase mortificante, manchada pela adição às drogas ilícitas e por uma estadia na prisão, Steve Earle retorna com The Revolution Starts...Now, um prolífico e eficiente manifesto de puro activismo político. O disco é profundamente dominado pelas circunstâncias da política internacional, pela guerra no Iraque e pelas incursões militares do regime de Bush.

As canções são histórias curtas, relatos escritos com mestria, versando a insignificância do indivíduo, face aos senhores da guerra. Além da política, o registo é um tomo de composições irreverentes, vogando em parte incerta, entre Petty, Rouse, Springsteen, Lanegan e Young, com uma dose de zombaria oportuna e sarcasmo provocador. O resto é feito pela argúcia de um artista consagrado, um músico experimentado e um escritor de canções de méritos reconhecidos. Chama-se Steve Earle. A gama sonora varia do country puro ("Home To Houston"), ao rock e ao reggae ("Condi, Condi", dedicada a Condoleeza Rice).

Os destinatários do álbum: apreciadores de boa música e...George W. Bush!

quarta-feira, 24 de novembro de 2004

Eagles Of Death Metal - Peace Love Death Metal (CD, 2004)

Apreciação final: 8/10

Os Eagles of Death Metal são mais um projecto paralelo de um dos membros dos Queens of The Stone Age., neste caso o vocalista Josh Homme, aqui na bateria, apresentado no disco pelo alter-ego Carlo Von Sexron. A curiosidade em torno deste grupo começou no festival Lolapalooza de 2003, quando Homme,durante uma actuação dos Queens, utilizou uma t-shirt dos Eagles Of Death Metal. Aproveitando uma pausa na actividade dos Queens Of The Stone Age, na ressaca do enorme sucesso de Songs For The Deaf, foi lançado este Peace Love Death Metal.

Não se deixem iludir pelo nome, nada nesta banda é death metal. O rock'n'roll dita as leis, as composições baseiam-se em riffs de guitarra cativantes, com batidas ritmadas que obrigam os ossos a mexer. Há aqui inspirações óbvias nos Stones, em Iggy Pop e Stealer's Wheel (ouvir a versão de "Stuck In The Middle With You" re-baptizada "Stuck In The Metal"). Basicamente, os Eagles Of Death Metal soam a puro entretenimento, têm talento a rodos e são uma agradável surpresa para o panorama do rock, permanentemente carenciado de novas referências e edições com mérito. Peace Love Death Metal é uma delas.

Audição durante horas a fio é o que se recomenda... Um dos melhores discos deste ano.

A Perfect Circle - Emotive (CD, 2004)

Apreciação final: 5/10

O projecto A Perfect Circle derivou da experiência conjunta de James Maynard Keenan e Billy Howerdel nos Tool. Se estes marcaram os anos 90 com o seu art-rock único, bordado pela desconstrução dos temas, sem um tecido rígido, os A Perfect Circle registam uma fórmula diferente, embora com idênticas regras de composição. Ainda assim, as canções são mais precisas e na estrutura tradicional de verso-refrão-verso-refrão, o que não acontece nos registos dos Tool.

Este Emotive é um disco de versões, uma colheita de temas de protesto político travestidos pelo formato dos A Perfect Circle. E aqui reside o problema essencial do disco, uma vez que as faixas eleitas têm origens dissímeis do grupo de Keenan. Disso resulta o facto de que as doze canções do alinhamento são praticamente irreconhecíveis, não fossem por demais conhecidas as versões originais. A título de exemplo, o tema "Imagine", de John Lennon, toma aqui uma afinação lúgubre, num tom funéreo, desajustado do fito primaz da canção.Também a famosa "What's Going On", de Marvin Gaye, é transfigurada num psicadélico exercício de puro rock industrial. As faixas mais aceitáveis são "When The Levee Breaks" (Led Zeppelin) e "Fiddle And The Drum" (Joni Mitchell). Uma nota para mencionar a presença de dois originais, "Passive" e "Counting Bodies Like Sheep To The Rhythm Of War Drums" (uma fusão de Pink Floyd com Marilyn Manson - interessante!).

Emotive é definitivamente um retrocesso no percurso dos A Perfect Circle, apesar da honestidade da proposta. O trabalho pode revelar-se curioso, para quem deseja apreciar a agilidade das covers, mas é um produto musical secundário.

Scarface - A Força do Poder (Filme, 1983)

Apreciação final: 5/10

Realizado por Brian de Palma em 1983, Scarface relata a ascensão do emigrante cubano Tony Montana (Al Pacino) no submundo do crime de Miami. À medida que o negócio da droga cresce, as inimizades, as megalomanias e as inseguranças do gangster começam a minar fatalmente o seu império.

A nota mais convincente deste filme é a interpretação de Al Pacino, irrepreensível como sempre, apoiado por Steven Bauer, posteriormente esquecido em filmes de série-B. O enredo é equilibrado, as interpretações secundárias são razoáveis e a realização é mediana - não é seguramente o melhor filme de Brian de Palma. Uma referência bastante negativa para a banda sonora, de muito mau gosto e perfeitamente desajustada do filme.

Creio que este filme tem sido sobre-avaliado e não fosse o desempenho de Al Pacino e o produto final seria pouco mais do que medíocre. Ainda assim, um filme recomendável para os cinéfilos que apreciam histórias de gangs de droga e a envolvente do mundo do crime.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Rammstein - Reise, Reise (CD, 2004)

Apreciação final: 5/10

Os alemães Rammstein estão de volta. Reise Reise é o seu novo trabalho. Três anos depois de Mutter, é notória a semelhança com o trabalho anterior, mantém-se o acento tónico nas guitarras pungentes, na forte presença da voz de Till Lindemann e nos coros e arranjos orquestrais dramáticos.

De resto, a composição continua a ser rudimentar, assente em estruturas harmónicas simples, refrões tão orelhudos quanto possível, palavras em alemão e quilos de watts. Uma nota de destaque para o segundo single deste trabalho, "Amerika", que não sendo o melhor tema deste disco, contém referências hostis aos EUA, uma afronta aberta ao regime norte-americano, e para o tema "Los" com uma abordagem acústica ao metal.

Definitivamente, este trabalho é mais do mesmo e não trará novos adeptos aos Rammstein. Para os seguidores habituais do grupo alemão, mais um título para a colecção.

Manuel Paulo - O Assobio Da Cobra (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

O músico e compositor português Manuel Paulo, depois de participações em discos de Rui Veloso, Rio Grande, Cabeças No Ar e Ala dos Namorados, aventura-se no primeiro disco a solo. Em O Assobio Da Cobra, assume a parceria com João Monge, célebre letrista nacional, seu companheiro na Ala dos Namorados, e ambos desenham canções de partilha do mesmo imaginário musical. O mote do trabalho é a mulher, com tudo o que ela representa, os afectos e as relações. Segundo notas dos autores, as composições deste trabalho foram surgindo sem qualquer pretensão comercial, pensadas para determinadas vozes. E os convidados são de eleição, uma lista das melhores vozes a cantar em português: Rui Veloso, Arnaldo Antunes, Sérgio Godinho, Zeca Baleiro, Jorge Palma, Dany Silva, Camané, Manuela Azevedo, Arto Lindsay, Tim e Vitorino, entre outros. Se esta lista não é suficiente para convencer os mais cépticos, acresce o facto de no alinhamento do disco estarem canções de muito bom nível, com um sentido estético apurado, uma composição talentosa e harmonias sonoras que nos transportam da primeira à última faixa.

O resultado é pouco menos que brilhante e O Assobio da Cobra revela-se como uma das melhores amostras da música portuguesa deste ano. Apresentado como a banda sonora de um filme por fazer, este disco de Manuel Paulo pode muito bem ser o score musical das nossas vidas. Altamente recomendável, é claro.

Nick Drake - Made To Love Magic (CD, 2004)

Apreciação final: 6/10

Nick Drake era um trovador de emoções transparentes, de sentimentos vertidos em canções sinceras, de uma honestidade tão despida quanto a sua percepção estética. Não lhe foi feita justiça em vida, muito por culpa da sua relutância em actuar ao vivo, mas Drake merece um lugar nos recantos mais sombios das nossas memórias, nos espaços imaginários da mais soturna beleza, os mesmos sítios que o inspiravam para as singulares criações musicais que nos legou. Em cada acorde das suas músicas sentem-se a melancolia despojada, as frustrações sentimentais, a profunda depressão que lhe irrompia por entre os poros da epiderme.
Este Made To Love Magic é a resposta editorial à incessante busca de novo material de Drake e corresponde a uma série de outtakes e outras versões de temas que integraram o álbum Time Of No Reply. Porque nem todo o material aqui contido é inteiramente novo, este título tem um valor relativo para os coleccionadores da obra de Nick Drake.

Do alinhamento do disco fazem parte algumas grandes canções como "River Man", "Time Of No Reply", "Clothes Of Sand" ou "Thoughts Of Mary Jane". O formato obedece às regras acústicas, como sempre, e é impossível não gostar deste registo.

Ryuchi Sakamoto - Moto.Tronic (CD, 2003)

Apreciação final: 5/10

Ryuchi Sakamoto é um afamado músico japonês que emergiu nos anos 80 como um dos mais inventivos compositores, tendo participado em diversas bandas sonoras e editado vários registos em disco. Este Moto.Tronic é um apanhado da sua carreira, recolhendo temas dos seus discos mais bem sucedidos.

O trabalho de Sakamoto é comummente associado ao rompimento de fronteiras musicais, à fusão de géneros e culturas musicais. Se é verdade que o seu percurso inclui abordagens à pop japonesa, à clássica, à música experimental, às bandas sonoras e à world music, o díficil é mesmo encontrar um linha de rumo que persista no seu trabalho, que sobrevenha do confronto de estilos vários; esse problema é vício básico deste registo. Juntar no mesmo disco composições de estilos tão radicalmente díspares, além de confundir o ouvinte, baralha o exacto engenho de Sakamoto. Na abertura do disco, ao pop de "Forbidden Colours", seguem-se um instrumental de piano, uma incursão pela música brasileira e um tema da banda sonora de O Último Imperador. Esta irritante propensão para a mistura repete-se ao longo do disco e, se não desvirtua o valor individual das peças do alinhamento, compõe um registo ambíguo, dividido e, consequentemente, confuso.

Moto.Tronic, sendo uma espécie de antologia, não faz justiça ao talento de Sakamoto e é um testemunho desordenado da profícua carreira do músico japonês.

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

Misteriosa Obsessão (Filme, 2004)

Apreciação final: 2/10

Telly Parretta (Julianne Moore) é uma mãe angustiada e profundamente deprimida, em terapia psiquiátrica para superar a perda do seu filho de oito anos, vítima de um acidente de aviação. Quando o marido, Jim Paretta (Anthony Edwards), e o psiquiatra, Jack Munce (Gary Sinise) lhe confidenciam que o filho Sam nunca existiu e que as suas memórias são apenas uma construção da sua mente, Telly sente-se traída. Pelo meio, conhece Ash (Dominic West), pai de uma outra criança desaparecida, com uma história semelhante à de Telly. Os dois partem numa desenfreada missão de busca da verdade, da sua identidade e, acima de tudo, da sanidade que acreditam não ter perdido.

A narrativa revela algum dinamismo, as interpretações são razoáveis, mas o desenlace do filme é ainda mais patético do que o título.

Uma perda de tempo.

Tróia (Filme, 2004)

Apreciação final: 5/10

Recentemente editado em DVD, Tróia é uma adaptação da história épica da Guerra de Tróia, descrita por Homero na Ilíada. O ano é 1193 A.C.. O príncipe troiano Páris (Orlando Bloom) mantém um relação secreta com Helena (Diane Kruger), rainha de Esparta, casada com Menelaus (Brendan Gleeson). A descoberta da afronta adúltera à civilização grega conduz ao conflito, os gregos invadem a cidade troiana. Aquiles (Brad Pitt), o maior e mais sangrento guerreiro, era o herói dos gregos. Heitor (Eric Bana), o filho de Príamo (rei de Tróia) e irmão de Páris, era o símbolo da pertinácia troiana contra a invasão grega.

A sumptuosidade da história merecia um filme melhor, uma obra mais imponente, capaz de render à obra de Homero a homenagem mais ajustada. O argumento deste Tróia é um embuste, desfaz a beleza ímpar do relato de Homero. A maior falha: a quase-preterição dos Deuses. Como pode isso fazer-se num filme sobre a Grécia Antiga? A vida dos gregos (dos troianos também) gravita, na obra de Homero, em torno da determinante influência dos Deuses, da venerada adoração dos crentes pelos entes divinos. Com esta omissão perdeu-se o elemento poético da história, o ingrediente supremo da grandiosidade da obra. Como se não bastasse, são numerosas as imprecisões e os desvios em relação ao texto original, quase sempre para pior.

A realização do alemão Wolfgang Petersen é insipiente, incapaz de "agarrar" as cenas mais importantes do filme e delas criar momentos intensos. O desembarque dos gregos, com a sua gigantesca armada, as próprias sequências da batalha, são reduzidas a pequenas perspectivas, a ângulos desajustados, corrompe-se a magia que se impunha. A fita acaba por ser uma oportunidade perdida para o realizador alemão. É certo que nem tudo é mau, Bana tem um bom desempenho, Pitt também, mas isso não chega para fazer deste filme aquilo que ele deveria ter sido.

A expectativa era grande, a desilusão é bem maior. Fica por fazer "o" filme sobre a Guerra de Tróia. O génio de Homero deve estar a revirar-se no túmulo.

Luke Haines & The Auteurs - Das Capital (CD, 2003)

Apreciação final: 6/10

Luke Haines é um dos mais respeitados compositores do Reino Unido, graças ao seu trabalho com os The Auteurs, ou noutros projectos, como os Black Box Recorder (numa lógica mais próxima das sonoridades downtempo), os Baader Meinhof (um conceito tipicamente funk). Esta edição é uma compilação dos melhores temas do trabalho com os The Auteurs, caracterizados por um som na linha da pop melódica, com canções inteligentes. Contudo, neste Das Capital as músicas foram todas regravadas, com uma nova orquestração, a cargo de uma orquestra sinfónica. A reciclagem dos temas é oportuna, os novos arranjos de cordas assentam na perfeição e conferem um ambiente diferente ao som de faixas clássicas no trabalho de Luke Haines, como "Baader Meinhof", "Starstruck" ou "Future Generation".

As notas internas do disco estabelecem o conceito base deste registo, a hostalgia, uma permanente hostilidade face à nostalgia, de resto, um registo que sempre caracterizou o percurso de Haines. O estilo musical é elegante e irreverente, com algum glamour e os arranjos clássicos são um primor que confere uma nova dimensão à música dos The Auteurs, claramente influenciada por George Harrison e David Bowie, encontrando paralelo em artistas como Stephen Malkmus, os Suede e os Pulp e alguns trabalhos dos Radiohead.

Vale a pena ouvir e descobrir o trabalho dos Auteurs, aqui revisitado com requinte.

To My Surprise (CD, 2003)

Apreciação final: 7/10

Os To My Surprise são um dos mais improváveis projectos musicais que descenderam do estrelato dos Slipknot. Shawn Crahan, também conhecido como Clown, o percussionista daquela banda do Iowa e mentor do conceito To My Surprise, começou a trabalhar neste projecto em 2003, atingindo um som completamente diferente do que seria de esperar de um músico com as suas ligações musicais, integralmente oposto ao dos Slipknot e quase impossível de classificar.

O alinhamento deste disco é ecléctico, vai desde a pop introspectiva e artística, ao mais puro experimentalismo psicadélico, influenciado pelas raízes do metal. O resultado é imprevisto, uma surpresa modelar, numa espécie de aproximação subtil ao rock dos anos 60 dos Beatles, ao psicadelismo dos Faith No More e ao experimentalismo tentador dos Flaming Lips.

Retirado o disfarce do palhaço ensanguentado dos Slipknot, Shawn Crahan revela que há nele algo mais do que decibéis potentes e batidas dominadoras e produz e compõe um disco curioso, polido, interessante e que merece continuidade. A escutar com atenção.

Homicídios Ocultos (Filme, 2004)

Apreciação final: 4/10

A recém-promovida detective Jessica Sheppard (Ashley Judd) descobre-se no centro da sua própria investigação, no primeiro caso de homícidio. A vida errática e promíscua da detective, o sexo ocasional e o álcool, contribuem para as frequentes perdas de consciência de Jessica. As inquietações multiplicam-se à medida que a vida pessoal da agente se mistura com os crimes investigados, quando se descobre que as vítimas foram antigos amantes da detective. A proximidade de John Mills (Samuel L. Jackson), o mentor de Jessica, e Mike DelMarco (Andy Garcia), o seu parceiro policial, vai desempenhar um papel crucial no desfecho do enredo.

O filme não traz nada de novo, recolhe ideias de outros projectos do mesmo género e embrulha-as numa amálgama sem nexo. O resultado é um produto vão, previsível, sem fruição para o espectador. Chamar-lhe thriller policial é conferir um rótulo que Twisted - Homícidos Ocultos não merece. Nem Samuel L. Jackson ou Andy Garcia salvam este filme frouxo.

Bill Evans Trio - Waltz For Debby (CD, 1961)

Apreciação final: 8/10

Falar de Bill Evans é discursar sobre um dos nomes mais importantes do jazz. Neste registo de 1961, ainda na companhia do seu lendário trio, formado com Scott LaFaro (baixo) e Paul Motian (bateria), gravado na mítica Village Vanguard, o músico percorre alguns standards, numa arquitectura harmónica muito equilibrada, na construção sólida de diversos fragmentos melódicos, apresentados em simultâneo, ao ouvido do auditor. Do alinhamento do trabalho fazem parte alguns clássicos, refinados pelo talento de Evans, tais como "My Foolish Heart" (Washington/Young), "Milestones" (Miles Davis), "Detour Ahead" (Carter/Ellis/Frigo) e "Porgy" (George Gershwin).

O som ambiente de pub é notório, condimentando o disco com o ingrediente perfeito para fazer dele um oportuno testemunho do talento ao vivo do trio. Bill Evans marcou (e continua a marcar) o jazz pela profundidade dos seus temas, ao invés do virtuosismo, e compôs algumas das mais lembradas obras em piano, neste género musical. A experiência de Waltz For Debby é fascinante, mostrando composições elaboradas e calmas, óptimas para ouvir em dias de chuva. O som de Evans é cristalino, as notas do seu piano parecem gotas de chuva tocando o leito de um rio; depois há LaFaro, provavelmente o melhor baixista da sua geração, e Motian, discreto e competente, como sempre. Trata-se de um registo recomendável, depois de Sunday At The Village Vanguard, mesmo para quem não é apreciador de jazz.

Ennio Morricone & Dulce Pontes - Focus (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Ennio Morricone é provavelmente o compositor mais falado do século XX, muito por culpa das mais de 500(!) bandas sonoras que compôs. Neste registo, depois de já ter colaborado com a cantora na canção "A Brisa do Coração", para o filme Afirma Pereira, o maestro junta-se à portuguesa Dulce Pontes e recupera alguns dos temas clássicos do seu songbook, aproveitando também temas que fazem parte do património musical de Portugal. De entre as canções retiradas de filmes, destaque para "A Rose Among Thorns" (de A Missão), a arrepiante "Your Love" (de Era Uma Vez No Oeste) e "Cinema Paradiso" (do filme com o mesmo nome).

A orquestração singular deste trabalho, o talento de composição de Morricone, em junção com a voz única da diva Dulce Pontes, conferem a este disco uma grandiosidade ímpar, digna de despertar sumptuosos cenários na nossa mente e fazer recordar momentos esporádicos de magia da sétima arte. Este disco merece ser tratado como um documento solene, um registo soberano da excelência da música, uma ode made in heaven à perfeição da voz. Recomendável, uma obra-prima.

A Naifa - Canções Subterrâneas (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

O projecto A Naifa personifica o mais inventivo conceito musical da música portuguesa contemporânea. O quarteto é formado por Maria António Mendes (voz), Luís Varatojo (ex-Peste & Sida, Despe & Siga e Linha da Frente), João Aguardela (baixo) e Vasco Vaz (bateria).

O formato musical acolhe as raízes da canção popular lisboeta, assente na guitarra portuguesa, feita dos tradicionais timbres lamentosos, aqui hodiernos em simultâneo, abraçados por percussões modernas, promovendo a mais original recriação do fado que alguma vez se deu a conhecer. O requinte das composições é a nota dominante, o bom gosto marca pontos nas onze faixas que compõem o alinhamento, contribuindo para a criação de um dos melhores discos nacionais deste ano.

Os A Naifa trazem-nos um fado novo, remodelado e totalmente original, não sonegando a sua formatação original mas acrescentando-lhe pacíficas pitadas de modernidade que agradarão aos apreciadores da inovação musical e não desiludirão os séquitos do fado mais tradicional. Excelente primeiro disco deste projecto, a prometer façanhas ambiciosas para o futuro. António Variações inovou a música em Portugal, os A Naifa são os senhores que se seguem...

Kings Of Leon - A-Ha Shake Heartbreak (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

O novo trabalho dos Kings of Leon, quarteto de Nashville, segue a linha dos trabalhos anteriores, recorrendo a um rock de garagem, sem pretensões comerciais, arranjado em composições originalmente franqueadas e descomprometidas. As influências são as mesmas, os Stones, Neil Young ou Tom Petty, sempre cunhadas com o som único dos Kings. Depois de Youth And Young Manhood, um registo que redimiu o rock'n'roll e o trouxe a fórmulas revivalistas, este A-Ha Shake Heartbreak prossegue a revitalização da proposta, oferecendo um alinhamento moderado e manso, saborosamente despretensioso e libertino, revelando uma superior maturidade do quarteto. Gosto muito de "King Of The Rodeo", "Taper Jean Girl" e a muito retro "Pistol Of Fire" (J. Fogerty deve adorá-la!).

Quem não conhece os Kings Of Leon tem aqui um ensejo seguro para perceber o porquê da crescente onda de popularidade do grupo nas ondas underground da América. Aqueles que os descobriram no álbum anterior vão perceber que a banda segue viva, cengenhosa e sem medo de buscar o seu espaço.

Jane Monheit - Taking A Chance On Love (CD, 2004)

Apreciação final: 6/10

Em 1998, ganhou uma bolsa de estudo do Instituto Thelonious Monk para prosseguir os seus estudos musicais. Dois anos mais tarde, Jane Monheit estava ao nível de Diana Krall, como uma das principais vozes femininas do jazz.

Este é o seu terceiro trabalho em disco e contém canções de Cole Porter, Fats Waller ou George Gershwin. Só por estas referências já valeria a pena escutar o disco, juntem-se-lhes as insignes qualidades vocais de Monheit e o resultado é um registo estimulante, extremamente apelativo e constitui o melhor longa duração da cantora. A matiz sonora do disco contempla alguns standards americanos, balançados pela sensibilidade da pop e pela fértil complexidão do jazz. Na primeira gravação para uma major, no caso a Sony Classical, os convidados são ilustres: Ron Carter (baixo), Christian McBride (arranjos), Michael Bublé (em dueto) e o guitarrista Romero Lubambo.

Uma nota para os excelentes arranjos orquestrais, retendo uma tal simplicidade que consente o relevo da voz de Jane Monheit. As canções são recordações da infância da cantora, associadas aos musicais da MGM e perfilham o formato teatral a que se propõem, ao invés da absorta concepção de estúdio.

Definitivamente, um registo digno de apreço, especialmente aconselhado para os seguidores dos clássicos americanos e dos musicais dos anos 70.

quarta-feira, 17 de novembro de 2004

Ausência "forçada"



Decerto terão já percebido que foi quebrado o ritmo habitual de colocação de novos posts. A verdade é que o meu pc avariou e estarei impossibilitado de colocar novos apARTES até à próxima semana. Por esse motivo, as minhas desculpas.

Obrigado.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Lhasa - The Living Road (CD, 2003)

Apreciação final: 8/10

Lhasa de Sela é uma das intérpretes méxico-americanas mais carismáticas, acolhendo os costumes sonoros das suas raízes e acrescentando-lhes um cunho pessoal muito próprio.

Se o registo anterior, La Llorona, editado cinco anos antes, tinha deixado pistas quanto ao talento inegável da cantora, este The Living Road superou as mais ambiciosas expectativas. As músicas são sofisticadas, sensuais e modernas, apoiadas na voz linda de Lhasa, e falam de viagens na estrada (aquelas que a cantora fez com a família pela Europa, em digressão com um circo?) ou na vida. O alinhamento do registo contempla canções interpretadas em três línguas diferentes: castelhano, francês e inglês.

Trata-se de um trabalho essencial, de que é impossível não gostar, com a doce sedução dos ritmos latinos, alentados por uma voz melíflua e talentosa e com uma produção cristalina.

Um grande disco. Uma grande senhora da música mundial.

Moonspell - Antidote (CD, 2003)

Apreciação final: 8/10

Antidote marca o regresso dos portugueses Moonspell às edições em disco, desta vez num lançamento conjunto com José Luís Peixoto. O disco é acompanhado por um livro ("Antídoto") do escritor com pequenas peças inspiradas em cada uma das faixas do alinhamento.

O registo é cavado e revoltoso, muito maduro, asseverando a rodagem do grupo de Fernando Ribeiro na sua senda pelo mundo do metal gótico, universo onde reúnem o apoio de imensos séquitos, aquém e além-fronteiras. O sexto trabalho da banda mereceu uma produção assisada, apoiada no seu som cru e duro, partindo para a concepção de texturas complexas, feitas de angústias obscuras e de gritos lancinantes de reflexão interior. O nível das composições é soberbo, como nunca antes na carreira do grupo, contribuindo para fazer deste Antidote o trabalho mais ambicioso e mais bem conseguido dos Moonspell.

Ursula Rucker - Silver Or Lead (CD, 2003)

Apreciação final: 6/10

Ursula Rucker é a mais notada mensageira de um género musical que funde o hip-hop com a soul e com o new jazz. A matiz de Rucker é inconfundível e simboliza a criação de uma ordem musical inovadora, fundada por um discurso pertinaz, vertido em entrechos líricos de consciência social, de apelo à feminilidade e à cultura negra. Depois do sucesso com Supa Sista, a cantora-poeta está de regresso com Silver Or Lead.

O seu canto é feito de rumorejos, de raivas refreadas e dores profundamente sofridas, numa toada de rap de retruque, num discurso directo e pungente que deixa a nu as verdades mais agrestes. A mensagem é animosa, crua, rude e acre. Silver Or Lead é um profuso ensinamento de vida. Uma nota para a excelência da produção musical, a cargo de nomes como Jazzanova, King Britt e 4Hero.

A irreverência independente de Ursula Rucker, a sua rebeldia assanhada, pousada na excelência dos ingredientes musicais, compõem um disco harmonioso, vivo e calmamente revolucionário.

Karminsky Experience Inc. - The Power Of Suggestion (CD, 2003)

Apreciação final: 6/10

A tendência actual da música electrónica tem levado à inundação do mercado de produtos musicais do género downtempo, com batidas mais lentas e pausadas, ao estilo de Thievery Corporation ou St. Germain. O duo Karminsky Experience Inc. segue essa tendência e, de entre os inúmeros projectos musicais nesta área, é um dos mais aclamados e consistentes, muito à custa deste The Power Of Suggestion.

A presença de elementos electrónicos é subtil, inscrita num plano meticuloso de encaixe na programação das batidas. O alinhamento do disco é bastante congruente, lançando mão de um som cativante, em certo jeito nocturno e enérgico, com imenso estilo. A composição é relativamente versátil, embora existam propostas com mais acerto neste formato. Ainda assim, o disco é uma boa sugestão para um final de dia de trabalho ou para a manhã depois de uma noitada na discoteca. Gosto particularmente de "Belly Disco" (mais próxima do disco sound) ou de "A Little Happening" (mais jazz).

Mola Dudle - O Futuro Só Se Diz Em Particular (CD, 2003)

Apreciação final: 7/10

O conceito Mola Dudle é a prova mais evidente de que em Portugal também há música descaradamente livre, lesta a agarrar a experimentação e a originalidade, a fazer delas a arma de arremesso contra a opressão do mainstream. O grupo foi originalmente formado por Nanu e Miguel Cabral. Em Mobília, o seu registo anterior, a dupla tinha ousado fazer música a partir de panelas, água, televisores, atendedores de chamadas, estores, armários e outros artefactos, produzindo um registo fora do vulgar e aliciante.

Neste trabalho, os Mola Dudle prosseguem na via da inovação, na descontracção criativa, no recurso à electrónica, aos loops, na incursão às sonoridades estranhas e na assunção de vocalizações propositadamente dissonantes e elásticas. Mas a dupla não está sozinha, recruta o precioso ajutório de Manuela Azevedo (Clã), Armando Teixeira (Balla, Bullet e Bizarra Locomotiva), Nuno Rebelo (Mler If Dada) e do produtor Mário Barreiros. Com esta ajuda, os Mola Dudle dão um passo em frente, desmancham a fórmula dos simulacros de canções do trabalho anterior e produzem doze canções íntegras, evocando os tempos perdidos dos loucos anos 20, dos primeiros dias da rádio, do culto do espectáculo, do glamour da moda, do cinema e do cabaret.

O projecto Mola Dudle é uma lufada de ar fresco no panorama da música nacional e é digno de os mais justos elogios. O Futuro Só Se Diz Em Particular é uma reflexão que não merece ser ignorada.

Bright Eyes - Lifted Or The Story Is In The Soil, Keep Your Ear To The Ground (CD, 2002)

Apreciação final: 7/10

Bright Eyes é o projecto musical de Conor Oberst, um jovem cantautor do Nebraska. Com apenas quatorze anos, Oberst foi guitarrista dos Commander Venus, surpreendendo o mundo indie. A banda dissolveu-se depois de lançar dois álbuns e criar a sua própria editora, a Saddle Creek. Esta etiqueta é a responsável pelos lançamentos do projecto Bright Eyes.

Este registo é um produto intrincado, com uma solidez assinalável e não é monótono. A voz de Oberst é quente, às vezes abrasiva, sempre íntima. O disco compõe uma história sonora que nos toca a todos, um relato profundamente enternecedor, um desejo abstracto que não devemos reprimir para lhe percebermos a pureza. As músicas são essencialmente acústicas, enriquecidas por uma produção equilibrada e letras depressivamente reflexivas, num comovente tom auto-biográfico.

Bright Eyes é uma curiosa sublimação da vida, das frustrações, dos amores, dos desejos íntimos e dos segredos ocultos.

Fantômas - Fantômas (CD, 1999)

Apreciação final: 7/10

O projecto Fantômas é mais uma das inúmeras metamorfoses de Mike Patton. Aqui, o cantor faz-se acompanhar por Buzz Osborne (guitarrista dos Melvins), Trevor Dunn (baixista dos Mr. Bungle) e Dave Lombardo (baterista dos Slayer). Este trabalho, de título homónimo, foi o primeiro deste quarteto de luxo e é um disco apóstata, renegador das convenções do rock moderno. Antes de ouvirem este registo, esqueçam tudo o que escutaram até hoje. Preparem-se para um experiência sem igual, durante os quarenta e três minutos duma suposta banda sonora original, inteiramente composta por Patton, para uma história de banda desenhada, pseudo-intulada "Amenaza Al Mundo". O alinhamento contém 30 mini-faixas, numeradas pelas páginas imaginárias do comic book.

Fantômas é um trabalho completamente original, satiricamente não convencional, em que Patton usa a voz como um instrumento, vociferando sílabas indecifráveis, num estilo onomatopaico. O talento dos quatro músicos é a nota dominante, o produto final é magnífico e diabolicamente arrebatador.

Se esperam algo na linha dos Faith No More ou dos Mr. Bungle, esqueçam. Mas se são suficientemente open-minded para receber a suprema inovação, preparem-se para idolatrar Fantômas.

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

My Morning Jacket - It Still Moves (CD, 2003)

Apreciação final: 8/10

Os My Morning Jacket são originários de Louisville, nos EUA. O conceito musical gira em torno do vocalista e principal compositor, Jim James. O seu som é marcado pela country, com algum psicadelismo, muita solidão e assombros q.b.

Neste It Still Moves a originalidade das composições de James mantém-se, pintando paisagens de emoções através das melodias apelativas, da excelência da composição e da estrutura rítmica complexa. Com este trabalho, os My Morning Jacket provam que merecem um lugar de destaque na alternativa actual, pelo renovação da música americana, na mesma linha de Neil Young, embora com uma toada diferente, assente em canções tentadoras e virtuosas, com uma voz serena e guitarras amenas, em tons amistosos de aliança com o ouvinte. "Mahgeetah", "Dancefloors" e "Master Plan" são excelentes. Algumas faixas fazem-me recordar os saudosos Creedence Clearwater Revival, embora sejam mais elaboradas.

Aqueles que não conhecem os My Morning Jacket, podem tomar este It Still Moves como uma amostra representativa do moderno rock-country americano.

The Faint - Wet From Birth (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

O grupo norte-americano The Faint já passou por diversas mudanças e, após cada uma delas, surgiu mais expedito, captando novas impressões e prosélitos incondicionais. A evolução partiu da pop lo-fi, influenciada pelo punk, para um som mais elaborado. Depois de em 2001 terem atingido um considerável êxito com Danse Macabre, os The Faint amadureceram, adoptando uma doutrina mais eclética, perfeitamente demonstrada neste Wet From Birth, o seu quarto longa duração.

A subtileza dos elementos electrónicos, as guitarras engenhosas e as percussões fortes são os ingredientes principais deste registo. Os anos oitenta são ainda a sua inspiração primaz, embora o grupo tenha conseguido o passo em frente, pela integração de novos instrumentos e pela introdução de conceitos modernos e ambiciosos. Todavia, a composição musical é um pouco previsível, induz monotonia no ouvinte. Ainda assim, há momentos especiais neste disco, com alguma puerilidade mas irreverentes e satíricos, como "Erection" (a la Depeche Mode), "Dropkick The Punks", "Phone Call" ou "Desperate Guys". Neste trabalho, são facilmente detectáveis as semelhanças com os Radio 4.

Wet From Birth é uma mistura do melhor e do pior dos The Faint. Mas devem ouvi-lo.

Metric - Old World Underground, Where Are You Now? (CD, 2003)

Apreciação final: 7/10

Este é o segundo trabalho dos nova-iorquinos Metric. A sonoridade deste projecto musical é pautada pelo new wave e traduz-se num rock fresco, alternativo, reflexivo e exuberante. Os mais astutos notarão analogias com Cat Power e, mais vagamente, com Yeah Yeah Yeahs.

A voz ingénua de Emily Haines (Broken Social Scene) dirige o disco para a junção de um alinhamento harmonioso, em tons cativantes e melancólicos. A produção é bastante razoável e ajuda à criação de faixas graciosas, com estilo e intimamente vividas. As melodias são simplistas, fundindo uma dance-punk acessível com os ingredientes da new wave. Contudo, os Metric raramente fogem desse formato, a inovação é abreviada, fica a promessa de cultivar estas raízes, em busca de um trabalho melhor.

21 Gramas (Filme, 2003)

Apreciação final: 8/10

Este filme retrata a história de três pessoas: o matemático Paul Rivers (Sean Penn), casado com Christina Peck (Charlotte Gainsbourg), uma emigrante inglesa, uma mulher de classe média alta (Naomi Watts), casada e com duas filhas e Jack Jordan (Benicio del Toro), um ex-presidiário que encontrou no Cristianismo e na fé a força para construir a sua família.

Um acidente de viação vai cruzar os destinos destas pessoas. O filme é um ensaio sobre os afectos, a fé, a coragem, o desejo, o sentimento de culpa, a fragilidade da vida e o irreversível cunho de cada momento no curso da existência.

O filme é psicologicamente denso, a realização de Alejandro González Iñarritu (Amor Cão) é sublime, os desempenhos de Sean Penn, Del Toro (nomeado para o Óscar de Desempenho Secundário) e Naomi Watts (nomeada para o Óscar de Melgor Actriz) roçam o brilhantismo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

Maria João e Mário Laginha - Tralha (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Depois do estrondoso sucesso do disco de versões Undercovers, a dupla Maria João / Mário Laginha está de volta, desta vez com um trabalho de originais. Tralha marca o retorno à receita dos registos prévios destes músicos, embora este se revele mais cerrado, menos definido, assente em anamneses da vida, adornadas com sonoridades do jazz, da étnica, da fusão e alguma pop, com carradas de virtuosismo. Maria João e Laginha, distintos como sempre, oferecem-nos uma experiência obrigatória, recheada de imprevistos, pequenas tralhas que se amontoam, propositadamente desarrumadas. Acoitemos o alvitre, escutemos com reverência, deixemos a moleza vencer, recostemo-nos e mantamos a Tralha desarrumada. É assim que ela faz sentido.

O requinte, o garbo, o bom gosto e a ousadia para fantasiar sonhos desmedidos marcam pontos neste trabalho. Com a voz doce de Maria João e o piano cicerone de Mário Laginha, faz-se o par perfeito; a eles se juntam Miguel Ferreira (sintetizador e teclas), Helge Norbakken (percussão), Yuri Daniel (baixo), Alexandre Frazão (bateria) e Mário Delgado (guitarras).

Quem se avezou ao tom orelhudo de Undercovers não encontrará neste disco um sucessor justo. Mas quem aprecia a música genuína desta dupla nacional, achará em Tralha um registo raro, robusto, franco e virtuoso.

Spektrum - Enter The...Spektrum (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Os Spektrum são um projecto musical curioso, abraçando uma sonoridade não usual, uma versão alternativa do funk, aformoseada com elementos electrónicos escolhidos com ponderação, que lhe conferem novas vestes, perfeitamente minimalistas, ajustadas a uma produção hábil.

A voz nasalada de Lola Olafisoye assenta como uma luva na textura rítmica das faixas, produzindo um tomo de música electrónica serena, com bom gosto e um esmerado sentido de oportunidade. Este registo é uma boa fonte de novas inspirações, projectando outros horizontes musicais. A estrutura musical faz lembrar, a espaços, os ambientes sonoros de Vikter Duplaix ou de Ursula Rucker.

Kasabian - Kasabian (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Os ingleses Kasabian surgiram em 1999 e despertaram as apáticas consciências britânicas. Quem não conhece os Kasabian pode imaginar um rock sem medo da electrónica. Depois de várias edições em single, os Kasabian finalmente atingiram o sucesso merecido, com este trabalho a atingir lugares de destaque nas tabelas de vendas do Reino Unido.

O registo é uma excelente apresentação deste projecto, um testemunho certo da renovação da brit-pop, aqui deliciosamente moderada pelas batidas electrónicas. Os Stone Roses ou os Primal Scream não se envergonharão.

O rock não está morto. Estão cá os Kasabian para o salvar. Eles são excitantes, modernos, inovadores e a sua estreia promete.

Colateral (Filme, 2004)

Apreciação final: 6/10

Tom Cruise no primeiro papel de vilão da sua carreira. Se outros motivos de interesse não existissem, este, por si só, seria bastante para suscitar curiosidade. Cruise não desilude, também não deslumbra, mas o filme é mais do que isso. A personagem principal, o assassino profissional Vincent, é um homem insensível, contratado para eliminar as cinco testemunhas chave de um processo judicial contra um cartel da droga. Vincent contrata os serviços do taxista Max (Jamie Foxx), a sua viatura é o meio de transporte entre os locais de crime. Com a sucessão de acontecimentos, a sobrevivência de ambos depende da sua união.

A recreação está garantida, a acção decorre numa sequência harmoniosa que traduz no espectador a ilusão de personificar um desesperado refém do encarniçado Vincent. Excelente trabalho de realização de Michael Mann e boas interpretações de Cruise e Foxx.

Mark Lanegan Band - Bubblegum (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Mark Lanegan está de volta. O ex-vocalista dos Screaming Trees continua a produzir discos a solo.

O primeiro disco sob o epíteto da Mark Lanegan Band é este Bubblegum e surgiu depois da participação do músico no álbum Songs For The Deaf dos Queens Of The Stone Age. O som é menos intimista e integra as atmosferas nocturnas e melancólicas dos trabalhos anteriores com a influência rock dos outros projectos musicais em que o cantor esteve envolvido. A esse propósito, uma nota para destacar as contribuições de Josh Homme e Nick Oliveri, ambos dos Queens of The Stone Age, e de P.J. Harvey, na excelente "Hit The City".

Bubblegum merece ser explorado com reverência. O rock melancólico é aqui mais eléctrico, menos misantropo e, por isso mesmo, mais açambarcador.

Sparta - Porcelain (CD, 2004)

Apreciação final: 6/10

Depois de em 2001 os At The Drive-In terem acedido à antecâmara da dissolução, alguns dos seus membros começaram a trabalhar sob o nome Sparta. Um ano mais tarde, lançaram o primeiro EP e, ainda nesse ano, surgiu o primeiro longa duração.

Porcelain é o segundo trabalho deste quarteto texano. O registo parte em busca de uma sonoridade própria, distinta do seu antecessor. Assenta num rock tenso e complexo, desimpedido e natural, com variações meticulosas, mantendo uma linha de rumo que não satura o ouvinte, apesar da aparente semelhança entre as composições do alinhamento.

Os ouvidos mais atentos encontrarão aqui vestígios dos The Cure, de alguma coisa dos U2, ou mesmo dos Quicksand. Pessoalmente, julgo que existem melhores propostas para este tipo de produto, mas o rock alternativo só tem a ganhar com o aparecimento de projectos consistentes como os Sparta.

Gothika (Filme, 2003)

Apreciação final: 5/10

Uma psiquiatra desperta como paciente no asilo prisional em que trabalha, sem recordação de um horrendo crime que lhe é imputado. Enquanto tenta recuperar a memória e provar a sua inocência, é manipulada por uma entidade sobrenatural à procura de uma vingança. Este é o mote do filme Gothika, que conta com a oscarizada Halle Berry no papel principal.

O argumento poderia ser interessante, a intriga poderia funcionar, não fosse dar-se o caso do final ser demasiado previsível, plagiando outros filmes do género e defraudando as expectativas criadas no espectador. Uma nota para a presença de Penélope Cruz - a primeira cena do filme é o seu momento mais alto - e uma razoável prestação de Halle Berry.

Os medos e a crença no sobrenatural continuam a ser largamente explorados em Hollywood mas, as mais das vezes, e neste Gothika também, o produto resulta meão, não traz nada de novo e, por isso mesmo, pode revelar-se uma cabal perda de tempo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

Fatboy Slim - Palookaville (CD, 2004)

Apreciação final: 8/10

Norman Cook é o homem por detrás do projecto Fatboy Slim. O ex-baixista dos Housemartins concebeu este conceito musical. O cruzamento sensato do house, do acid, do funk, do hip-hop, da electrónica e do techno conferiu-lhe o estatuto de um dos produtores mais respeitados da Grã-Bretanha.

Palookaville mostra um Fatboy Slim mudado, com um renovado interesse no hip-hop, temperado com engenho pela boa música de dança. Trata-se de um produto maduro, pertinente e que agradará tanto aos seguidores de Fatboy como a outros públicos não familiarizados com o músico, provando a sua versatilidade musical e o sentido apurado da conveniência da aposta na renovação . O disco é um turbilhão de descobertas e de surpresas, um sortilégio arrebatador.

Nada soa a Fatboy Slim. Ele soa a música de casta. É em Palookaville que vive o novo funk. Um dos melhores do ano.

Joseph Malik - Aquarius Songs (CD, 2004)

Apreciação final: 6/10

A dupla Joseph Malik (músico) / David Donnelly (produtor) granjeou alguma notoriedade no circuito underground no final dos anos 90. Em 2002, com o sucesso do longa duração Diverse, um esplêndido registo de fusão do folk acústico com a soul e o jazz, a dupla passou a ser reconhecida como uma referência essencial da música moderna.

Este trabalho inaugura pontes para um porvir venturoso, em busca de uma nova soul, com a importação de batidas renovadas, vocalizações oportunas e uma composição refinada e perspicaz. Há aqui lugar para as guitarras acústicas, os pianos, as cordas, os loops e a voz agradável de Malik.

Um sólido passo em frente de Joseph Malik.

Perry Blake - Songs For Someone (CD, 2004)

Apreciação final: 6/10

Perry Blake é um irlandês que colhe influências de Nick Drake, David Sylvian, Scott Walker, Leonard Cohen e Brian Ferry. Se o disco California já tinha deixado uma óptima impressão, este Songs For Someone segue uma fórmula símile, apelando a uma presença vocal encorpada, uma produção de excelência e a uma sonoridade moderna e cativante.

O talento de composição de Blake é incontestável, já tinha sido denunciado no registo antecessor, e ganha uma nova dimensão neste trabalho. É verdade que as faixas não divergem muito e a audição contínua do disco desperta a sensação embusteira de que se escuta sempre a mesma canção. Mas os ouvidos mais atentos percebem a raíz da música genuína de Blake. E depois da descoberta, é impossível não gostar.

Otep - House Of Secrets (CD, 2004)

Apreciação final: 6/10

Os Otep formaram-se em 2000, quando a homónima vocalista se juntou aos restantes membros e começaram a actuar em clubes modestos. A controvérsia sobre alegados rituais de antropofagia nas actuações e o continuado apelo ao misticismo e ao oculto favoreceram a geração de uma imagem enigmática, digna de encómios de Marilyn Manson.

Neste disco, o grupo estabelece novas fronteiras para o seu metal. A sanha, a angústia, a tortura, o sofrimento e a agressividade são mais contidas, a maior parte das faixas do disco alinha num registo mais detractor reflexivo, numa espécie de visita a uma casa que sonega os segredos da violência doméstica e do isolamento. A doutrina gótica e o death metal são aqui acolhidos, com algum comedimento, sem se perder o dinamismo potente do disco. Ainda assim, o quinhão maior do disco é sinistramente calmo, abrindo espaço a angustiadas asserções sobre estados de alma.

Apesar de terem elevado a fasquia da composição acima dos trabalhos anteriores, os Otep ainda parecem indagar o seu estilo. De qualquer forma, um registo aconselhável a quem gosta de Slipknot ou Sepultura.

Eyvind Kang - Virginal Co Ordinates (CD, 2003)

Apreciação final: 7/10

Kang é um distinto violinista de Seattle, fortemente associado à música vanguardista experimental. Já tocou com nomes como Bill Frisel, John Zorn ou Wayne Horvitz.

Virginal Co-Ordinates está ligado ao Festival Internacional de Música de Bolonha e foi escrito para uma orquestra de 16 elementos (o ensemble Playground), com o apoio de seis músicos, entre os quais, o próprio Kang e o irreconhecível vocalista Mike Patton (Faith No More e Tomahawk). Este registo abraça sonoridades que sugerem músicas costumeiras do Oriente e o experimentalismo minimalista, com superiores arranjos orquestrais.

O disco é brilhante, tornou-se o mais exigente e mais bem conseguido de Eyvind Kang, chamando um som cândido e absolutamente virginal que alimenta ambientes sonoros invulgares.

Altamente recomendável, é claro.

Vincent Van Gogh - Noite Estrelada (Quadro, 1889)



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Van Gogh foi um dos mais incompreendidos pintores do seu tempo. O seu génio está bem patente neste óleo. Crê-se que o quadro retrata a história do Génesis e o nascimento da igreja cristã. Trata-se de uma equilibrada fusão entre a serenidade e o caos, a paz e os distúrbios cósmicos.

Leonard Cohen - Dear Heather (CD, 2004)

Apreciação final: 6/10

Leonard Cohen está de volta. Dear Heather assinala o septuagésimo aniversário do poeta canadiano e soleniza a sua experiência de vida e os seus trinta e seis anos a escrever canções. Este registo é uma lacónica exaltação da vida, uma retrospectiva dos antigos amigos e mentores, das numerosas amantes, dos efeitos dramáticos do 11 de Setembro. O cantor contempla o seu passado, ufana-se trazendo à memória uma existência farta de histórias e peripécias, em que as perdas não são um termo, antes mostram uma porta para o astúcia e o agradecimento.

O rejuvenescido septuagenário apresenta-nos um disco descomprometido, sem espartilhos, finamente desregrado e confesso. As letras são inteligentes, serenamente budistas, mordazes e com o excêntrico humor do costume. Há também ensejo para uma homenagem à poesia de Lord Byron, na primeira faixa do álbum, baseada no poema "Go No More A-Roving". O registo vocal de Cohen é quase sepulcral, feito de sussuros e cicios intensos, em tons melancólicos, noctívagos e absortos. Uma nota de destaque para a produção ponderada de Sharon Robinson e o contributo vocal de Anjani Thomas em algumas faixas do disco.

Só um escritor de canções como Cohen seria capaz de nos confiar uma obra deste calibre, aos setenta anos. Não é o seu melhor disco, há algumas instrumentalizações duvidosas, mas vale a pena ouvir este trabalho e acolher as lições do grande mestre.

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

Gotan Project - Inspiración, Espiración (CD, 2004)

Apreciação final: 6/10

Depois do sucesso estrondoso de La Revancha Del Tango (2001), graças à inovadora receita de junção da moderna música electrónica com o mais clássico tango, os Gotan Project estão de volta com um disco de remixes. O alinhamento é composto por temas originais e versões de músicas escolhidas pelo trio parisiense. De entre as versões, uma nota para mencionar a presença de temas de Cerioti, Chet Baker, Peter Kruder e do inevitável Piazzolla. Apesar da diversidade dos temas escolhidos, o alinhamento demonstra uma coesão assinalável e cativa o auditor.

Há aqui jazz, drum n' bass, tribal, hip-hop, chill-out, new wave e muito, muito tango. O trabalho é semelhante ao seu antecessor, o acordeão continua a pautar os ritmos; não se revelam pistas para uma renovação do conceito dos Gotan Project mas, ainda assim, o disco é muito interessante e merece ser ouvido com atenção. Especialmente bem conseguidas são as versões de "Round About Midnight" (Chet Baker), "The Man" (Kruder), "Percusion pt. 1" (Domingo Cura) e "La Del Ruso" (original dos Gotan Project, remisturado pelos Calexico).

A inspiração está no tango. A expiração é a incessante versatilidade.

Sigur Rós - Von (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Os Sigur Rós conquistaram o seu lugar no universo da música quando, no ano 2000, apresentaram Agäetis Byrjun, mostrando ao mundo um som franco e desembaraçado, ritmado com melodias calmosas, desobrigando o ouvido dos pragmatismos do mainstream. O experimentalismo misantropo, o repetido apelo a encenações acústicas melancólicas, são a pedra angular deste grupo islandês.

Este Von, originalmente editado em 1997, e agora finalmente disponível no mercado europeu, constituiu o primeiro longa duração dos Sigur Rós. Aqui, o som é mais sombrio, apelativamente caliginoso, remetendo-nos para as fachadas mais negras de nós e aquietando as avantesmas que maculam o espírito. Neste trabalho, o experimentalismo maravilha, a banda exibe uma maturidade surpreendentemente precoce. O resultado é excelente. O disco pega-nos desde o primeiro segundo, levando-nos numa aliciante viagem ao mundo de sonhos dos Sigur Rós, fazendo-nos devanear e perceber que a tristeza não tem que ser depressão. A voz é enigmática, não tem pejo em expôr a ausência de regras, mas mostra-se gentilmente sedutora.

Quem ouviu os trabalhos mais recentes dos Sigur Rós, não se arrependerá de escutar este Von, o gérmen da excelência. Quem não os conhece, vai perceber em Von o porquê do êxito dos Sigur Rós no circuito alternativo. Uma excelsa banda sonora para dias com muita chuva.

quinta-feira, 28 de outubro de 2004

Ausente por uns dias...

Antes de mais, aproveito este post para agradecer a todos os que tiveram a amabilidade de visitar este espaço. Espero que o tenham achado agradável e que regressem sempre que possível. Se quiserem deixar sugestões, críticas ou propostas de colaboração, sintam-se convidados a utilizar o meu e-mail.

Estarei ausente do Porto até a próxima quarta-feira e isso vai impedir-me de colocar novos artigos neste blog. De qualquer forma, prometo voltar e continuar a partilhar convosco as minhas opiniões.

Acrescento ainda que, como já repararam os mais atentos, os artigos deste blog são maioritariamente dedicados à música, a àrea com que estou mais ligado e à qual consigo aceder com mais prestidão. Espero, no futuro, contando com o contributo de eventuais interessados, alargar este espaço a outras manifestações de arte, com uma regularidade maior.

Por agora, é tudo. Desfrutem e comentem. Ou escrevam.
Obrigado.

Craig Armstrong - Piano Works (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Craig Armstrong é um célebre produtor escocês responsável por diversas bandas sonoras dos anos 90 e cujos trabalhos mais mediáticos estão ligados à produção dos U2, de Madonna, das Hole e das Spice Girls. Mais recentemente, esteve ligado às bandas sonoras de filmes de sucesso do realizador Baz Luhrmann, nomeadamente Romeo + Juliet (1998) e Moulin Rouge (2001).

Neste disco, as músicas são reduzidas à sua estrutura primária, o minimalismo é o denominador comum, o piano o instrumento único. O registo abdica da programação electrónica que acompanhava os trabalhos anteriores do escocês e atinge um nível de intimidade atraente, com fluidez e graciosidade, à base de notas vibrantes e puras, executadas com mestria. O ouvinte sente-se tomado por uma estranha letargia, ao longo de 19 faixas que percorrem temas antigos de Armstrong, aqui reduzidos a notas de piano, e temas originais escritos propositadamente para este trabalho.

Piano Works é definitivamente o trabalho mais maduro de Craig Armstrong, também por isso o mais exigente, o mais íntimo e profundo, um insólito acto solene de celebração da música.