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domingo, 3 de junho de 2007

The National - Boxer

8/10
Beggars Banquet
Popstock
2007
www.americanmary.com



Quando eles editaram, há um par de anos, o orgulhoso Alligator (terceiro tomo do seu percurso), emprestando à pop a imponência da solenidade e o recato clássico de uns Tindersticks (nesse particular, os vocais de Matt Berning aceitam algumas coordenadas de Stuart Staples) ou dos momentos mais soturnos de Nick Cave, Leonard Cohen ou dos American Music Club, então apanhando desprevenidos os críticos e os melómanos mais atentos às margens do mainstream, percebeu-se que havia nos The National sustento para uma obra maior. Não é surpresa, portanto, que o sucessor desse trabalho reforce a convicção de que estamos perante um dos ensembles mais inspirados (e de crescimento mais consistente) do cenário rock alternativo americano das últimas temporadas. Boxer é feito de canções erguidas sobre uma base acústica (piano e/ou guitarra) de castiça intimidade (a que melhor serve às temáticas de privação que povoam a imagética emocional do disco), com uma escrita garbosa e, sobretudo, capaz de produzir uma saudável distância para os clichés depressivos que normalmente pontuariam este tipo de canções. Para esse facto, concorre decisivamente a assimétrica alquimia dos arranjos orquestrais do australiano Padma Newsom (dos Clogs) que, sem roubar as canções à órbita intimista e misantrópica (quase sempre direccionada para as depressões da urbanidade), lhes soma uma frágil e trémula luminosidade, ao jeito de factor redentor. E é, também, essa ambivalência emocional das canções, entre a desolação e as probabilidades da esperança mais esquiva (mas sempre presente), que faz deste Boxer uma das mais virtuosas colecções de canções deste ano.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

5 rapidinhas


Scout Niblett - Kidnapped by Neptune (6/10)
Muitas vezes comparada a P.J. Harvey, Björk ou Cat Power, Scout Niblett subscreve, no terceiro registo de estúdio da carreira, a mesma fantasia rock de outros tempos, assente numa voz melíflua que afronta rumores angulares de guitarra e percussões rudimentares. A orgânica é minimalista e quase desarrumada; as estruturas deixam o ouvinte num estado hipnótico do qual desperta, em alguns instantes do disco, com a frustração de não descobrir o clímax anunciado. O vanguardismo poeirento e experimental de Niblett (alguns temas parecem B-sides dos Nirvana ou de Harvey) saúda-se embora pareça orfão de uma definição mais rigorosa das composições. Se alguma vez Niblett lá chegar, talvez melhor se descodifique a espiritualidade e o mistério das suas fórmulas.
Too Pure, Maio 2005








Flipsyde - We the People (5/10)
Crítica social em formato hip-hop com um fundo musical que explora, com alma latina, a soul e o funk é a proposta dos Flipsyde. Eles foram a banda de suporte dos Black Eyed Peas e as semelhanças entre os projectos não são mera coincidência, ainda que os Flipsyde assumam outras considerações políticas e abracem uma sonoridade ligeiramente mais rock que, aqui e ali, faz lembrar Dave Mathews (ouça-se "Angel") ou os Living Colour (especialmente na faixa "Time"). We the People é jovial, tem uma boa dinâmica e, apesar da produção desproporcionada, não deixa de ser uma estreia suficiente deste quarteto americano.
Interscope, Junho 2005








Armando Teixeira - Made to Measure (6/10)
Responsável pelos projectos Bullet e Balla, Armando Teixeira tem sido um dos compositores nacionais mais activos nos últimos tempos. Este disco, lançado numa edição limitada e exclusiva de comemoração do décimo primeiro aniversário da Fonoteca Municipal de Lisboa, é uma mostra do trabalho menos popular do músico, também da sua faceta mais (des)construtivista. Do alinhamento fazem parte alguns trechos musicais que integraram espectáculos teatrais, uma faixa dedicada a Carlos Paredes (anteriormente incluída na compilação Movimento Perpétuo) e o inédito "Les Mutations". Made to Measure é um disco de estúdio e que põe à prova a destreza de Teixeira com samples e loops, num registo próximo de Bullet que acolhe o lounge, o jazz, a música tribal e a electrónica. O principal problema: as aptidões do músico surgem aqui sem a homogeneidade de outros trabalhos. Ainda assim, Vladimir Orlov mantém o toque de inspiração.
Fonoteca Municipal de Lisboa, Maio 2005







The National - Alligator (7/10)
Algures entre a folk americana mais vernácula e a pop viva da Grã-Bretanha está o som dos The National. A proposta é um pop-rock maduro e reflectido, à custa de canções de balanço intuitivo, com uma produção reservada mas competente e alguns refrões que se entranham subitamente. Amores deteriorados, relações humanas e contemplação metafórica são a espinha dorsal deste Alligator. Não há um pouquinho de Cave ou Tindersticks também?
Beggars Banquet, Abril 2005








The Perceptionists - Black Dialogue (7/10)
Mr. Lif, Akrobatik e DJ Fakts One são os protagonistas do conceito the Perceptionists. Aqui não há lugar a paninhos quentes, o discurso é directo, ácido, sem rodeios, e manifestamente propenso ao esquentamento das orelhas de George W. Bush e Dick Cheney e restantes membros da administração americana. "Where are the weapons of mass destruction?/we've been looking for months and we ain't found nothin'/please Mr. President tell us somethin'/we knew from the beginning that your ass was bluffin'" é glosado na faixa "Memorial Day" e resume a alma rebelde da tripla. O resto é underground rap não contaminado com as perversões do mainstream, muito scratching e um mosaico sonoro sem vergonha da electrónica. Hip-hop à moda antiga.
Definitive Jux, Março 2005