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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Sunset Rubdown - Random Spirit Lover


8/10
Jagjaguwar
Sabotage
2007
www.sunsetrubdown.net




Ramificação directa dos mediáticos Wolf Parade (algumas vezes iniquamente desconsiderado com o rótulo de projecto "secundário"), o quarteto Sunset Rubdown começou por ser uma invenção individual de Spencer Krug, crescendo depois para o formato de banda, como noutros casos da cena musical de Montreal - onde cada vez mais (e melhor) se aproveitam sinergias criativas (o próprio Krug está nos Wolf Parade, nos Sunset Rubdown, nos Frog Eyes e nos Swan Lake). Assim se reuniu, nos últimos anos, uma família de intérpretes que, conhecendo nos Arcade Fire o topo do reconhecimento internacional de uma estética cheia de particularidades e derivações, vai construindo um cancioneiro pop para o novo século. No caso dos Sunset Rubdown, e marcando distâncias para o pendor mais pragmático dos Wolf Parade, a coisa assume proporções quase vaudeville, sobretudo na forma como são exploradas as dimensões mais teatrais (e hiperbólicas) de melodia, ora com a tentação das vertentes progressivas e arty do rock, ora no recato dos registos mais minimalistas. Em qualquer dos casos, Random Spirit Lover é um produto manifestamente tenso e nervoso, obcecado com o detalhe e as sucessivas mutações e nunca deixaria de ser um álbum de absorção lenta. Demora a chegar-se à intimidade com um discurso tão variegado e de arquitectura tão minuciosa e ambivalente entre a delicada transparência e a labiríntica opacidade. Mas, uma vez dados os ouvidos ao dédalo - com a paciência para desfiar pormenores e preciosidade melódicas "encobertas" - a surpresa faz-se regra a cada variação tonal, a cada camada de som que se acrescenta às outras e a cada flutuação da voz. Isto é pop sem receio da ambição, a tentar os máximos do épico (pelo menos tanto quanto pode ser-se épico nos dias de hoje) e, com subtileza, elegância e elevação técnica, o resultado é glorioso. Basta deixar que a perplexidade das primeiras audições dê lugar ao conforto de perceber que, por detrás da imensa pompa instrumental e da encriptação da música, há circunstâncias novas para desvendar em cada peça e em cada visita.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Sunset Rubdown - Shut Up I Am Dreaming

Apreciação final: 8/10
Edição: Absolutely Kosher, Maio 2006
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.absolutelykosher.com








O projecto Sunset Rubdown é um dos filões paralelos do teclista/voz dos canadianos Wolf Parade, Spencer Krug. Além deste side-project, ele também faz uma perninha nos eléctricos Frog Eyes, mas foi ao serviço dos WP que conquistou notoriedade, especialmente depois do distinto debute, com o justamente aclamado Apologies to Queen Mary (2005). Neste Shut Up I Am Dreaming, a afinidade com a pop artística é uma constante, seja pelo empréstimo das bizarrias dos conterrâneos Arcade Fire, seja pelos vectores oníricos das camadas de som e do variado arsenal instrumental que enche os ambientes do disco. Teclas de famílias diversas, xilofones errantes, guitarras e batidas processadas ajudam à formação de fantasias musicais multicor que, piscando o olho ao balanço de canções para adormecer criancinhas, nunca chegam a soar pueris. Vistas bem as coisas, o conceito Sunset Rubdown é rival dos Wolf Parade porque, além de trazer o mesmo líder criativo, ameaça, no mínimo, equiparar-se-lhe nos predicados. Não bastasse isso e, entre os créditos do disco, se descobre o voluntarismo de produtor de um padrinho de luxo. Isaac Brock (Modest Mouse), nada menos. Meta-se tudo no mesmo cântaro, baralhe-se com o cânone vanguardista de Bowie no final da década de 70, algumas insinuações barrocas e andamentos de danças de câmara ébrias, a luz do teatro de sonhos de Krug e arranjos quase-sinfónicos e eis um vislumbre do novo Sunset Rubdown. Meritórios os balões de ar (leia-se, retoques esmerados) que arredam o tomo do risco de se despenhar nos abismos da hipérbole e entregam esta dezena de eufonias à causa própria.

Shut Up I Am Dreaming faz arte da subtileza. Krug é daqueles artesãos que não armam peças vãs; as suas composições reproduzem fielmente um cosmos de sons matizados e cores garridas, o triunfo das doces torções infantis e preciosismos estilísticos de uma fita de Burton. Real vs. imaginário. Nesse universo dual, Krug sobrevive sem a matilha com quem partilhou os palcos da fama no ano transacto, sem contudo se desatar do peripatetismo dos puzzles da parada de lobos. Mas em Shut Up I Am Dreaming os enigmas de Krug são outros. Afinal, depois de tamanha pândega como a que dispunha Apologies to Queen Mary, era de esperar que o rapaz tirasse um tempo para o descanso. Não façamos barulho, deixemos Krug dormir e sonhar. E sondemos, de mansinho, o seu mundo de fantasias. Porque sonhos como Shut Up I Am Dreaming não acontecem todos os dias.