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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Subtle - Yell & Ice

8/10
Lex Records
EMI Music
2007
www.subtle6.com



Activa há cerca de uma década, a etiqueta Anticon foi a invenção colectiva de uma trupe de músicos decididos a oferecer espaço editorial a um género musical com pouca divulgação nos canais mainstream e que, entre inúmeras derivações estéticas e tangências experimentalistas com outros géneros - aí se tornando o palco de genuínos híbridos musicais - acolheu aquilo a que as convenções chamam de underground rap como axioma dominante (ou, para todos os efeitos, como "rampa de lançamento" para outros horizontes). Não demorou até que, num mercado global (e, a uma escala mais pequena, nos Estados Unidos) habitualmente "amarrado" a convenções estéticas e, por isso, guardando uma reserva de gente sequiosa de sensações rap novas, começassem a despontar a ousadia e as abstracções dos protagonistas da Anticon, então solenemente apresentados ao mundo num colectivo com o mesmíssimo nome da editora e um tomo único, com o pomposo (e ambicioso) título de Music For the Advancement of Hip Hop. Corria o ano de 1999 e esse testemunho "progressista" conjunto de gente como Alias, Jel, Odd Nosdam, Sole, Doseone ou Pedestrian deu uma impactante pedrada no charco, sacudindo espíritos ociosos e, sobretudo, demarcando-se das tendências mais ligeiras (e previsíveis) para que o universo rap (ou como, depois, se rebaptizou ao serviço de géneros mais levianos, o orbe hip hop) paulatinamente se havia voltado. Lançada a novel onda de criatividade, a solo ou em grupo, os membros da editora (e suas afinidades artísticas e projectos paralelos), ergueram um catálogo diversificado, um verdadeiro caleidoscópio de manipulações do underground rap (maioritariamente) e algumas especulações e proximidades com fórmulas do indie rock ou da electrónica. cLOUDDEAD (Doseone + Odd Nosdam + Why?), Themselves (Doseone + Jel + Dax Pierson) , 13 & God (Jel + Doseone + Notwist) ou Subtle (Doseone + Jel + Dax Pierson + Alexandre Kort + Marty Dowers + Jordan Dalrymple), ou mesmo os projectos individuais Dosh, Why? ou Bracken, tornaram-se faces notadas da editora e da sua postura, dando mostras da imparável verve dos seus membros-fundadores e amigos e, acima disso, definindo uma linguagem artística singular que, fruto de ambições pessoais dos músicos ou do apetite crescente dos mercados discográficos, se foi dispersando por outras editoras.

Também assim sucedeu com os Subtle, uma espécie de ampliação do conceito Themselves que, além de Doseone (vocais), Jel (percussão) e Dax Pierson (teclas), acolheu o guitarrista Jordan Dalrymple, o violoncelista Alexander Kort e o clarinetista Marty Dowers. O "crescimento" instrumental deu outra amplitude ao traço costumeiro da tripla, depressa afirmando um colectivo com vontade de ensaiar outras invenções. A fórmula conheceria, em pouco tempo, a consagração merecida - depois de anos a ficarem-se pela "palmadinha nas costas" da crítica especializada - com o magnífico For Hero: For Fool, do ano transacto. Se esse disco se soltara definitivamente de quaisquer amarras estruturais (nesse particular, marcando diferenças as inflexões vocais de Doseone), cruzando uniformidades rap com cores e bizarrias da electrónica ou do rock experimental, Yell & Ice é uma breve (nove trechos) colecção de revisões de alguns dos temas emblemáticos do antecessor. Mais do que fixarem objectivas na mera tarefa de remisturar as construções, os Subtle desmontam as canções em partes, baralham-nas, somam novas vozes (Tunde Adebimpe, dos TV on the Radio, Chris Adams, de Bracken, Yoni Wolf ou Dan Boeckner, dos Wolf Parade), cortam excertos, alongam, desconcertam. Pelo meio, com títulos novos como se impunha (tal a quase impossibilidade de associar novas proles e os originais que as inspiraram), cabem também peças integralmente originais. Assinado com os predicados do costume, o novo opus não só não destoa do cancioneiro Subtle (e da maravilhosa baixela de sons com ele imediatamente conotada), como fica muito próximo do brilhantismo encriptado e escuro de For Hero: For Fool. Óptimas notícias, portanto. Fica o aviso: fulgurante e irresistível vício à vista...

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Subtle - For Hero: For Fool

Apreciação final: 8/10
Edição: Astralwerks, Outubro 2006
Género: Experimental Rap/Underground
Sítio Oficial: www.subtle6.com








Essencialmente reconhecido, desde as primeiras audições, como um produto híbrido, importa recuar às origens de For Hero: For Fool para perceber de que é feita a nascente de criatividade do projecto Subtle. Os mentores são os americanos Adam Drucker e Jeffrey Logan, citados no universo artístico como Doseone e Jel, respectivamente, aqui num convívio criativo com Dax Pierson (recentemente imobilizado por um acidente de viação e ajudante do par nos Themselves e nos 13&God, ensemble conjunto com os germânicos Notwist) e outros três compinchas (o violoncelista Alexander Kort, o multi-instrumentista Marty Dowers e o percussionista/guitarrista Jordan Dalrymple). Dos dois primeiros, além de trajectos individuais algo descontínuos, conhecem-se os conceitos Anticon e Themselves e a afinidade com os seminais cLOUDDEAD (Drucker), corolário incontornável da cena underground rap. São estas coordenadas que situam os horizontes de For Hero: For Fool, com o rap a servir de medidor de azimutes, mas sempre disposto a intersecções com outras escolas, guardando virtudes de todas. É assim que se constrói um disco de eclectismo raro, com uma alma genuinamente indie e uma roupagem densa. Coeso e com critério formal na mescla de estilos, o álbum agarra, numa penada, a substância de um hip-hop de medidas largas, festivo e enérgico, e dá-lhe cor com as matizes de um electro-rock de passo mexido, roçando um sentido de urgência que apenas não se sente quando, sem deslizar para o cliché, os trechos tocam o refrãozinho pop. Além do soberbo contexto instrumental dos trechos, sobra a pirotecnia das cordas vocais de Doseone; umas vezes, conforme os cânones hip-hop mais clássicos, é nos momentos em que a voz de Doseone se vira do avesso que melhor se percebe a sua importância no produto final. A sofisticação da porção instrumental do disco, na linha do anterior trabalho da senha Subtle, não teria o mesmo alcance sem os malabarismos vocais de Doseone, decididamente mais estremados do que antes e com um encaixe rítmico algo alheado do torpor (intencional) que se lhe ouve nos cLOUDDEAD. A excentricidade instrumental dos Subtle, coisa que pode ser confundida com uma algazarra de sons de esqueleto beats, é o sedimento infalível para a verve de Doseone.

For Hero: For Fool não é disco de órbita única, nem de época alguma. É, isso sim, um esforço visionário de experimentalismo que, em razão de uma dinâmica de variações incessantes, se revela um produto fértil em atmosferas e, mais do que isso, sacia apetites modais com emoções díspares. Sem parênteses e com criatividade a rodos. Pouco importa se o disco é estruturalmente discrepante quando visto (e ouvido) como peça inteira - no sentido de que cada trecho é um mundo distinto - uma vez que as composições, de per si, são tão abundantes em ideias que merecem descodificação individual. Os Subtle têm um som próprio (sublimado em For Hero: For Fool), cheio de electrónica progressiva, psicadelismo, algum rock e muito rap. Por essas e por outras, vale a pena escutar um dos grandes discos do ano.

domingo, 20 de fevereiro de 2005

Subtle - A New White

Apreciação final: 6/10
Edição: Outubro 2004
Género: Underground Rap/Rock Experimental/Rap Alternativo



A cosmologia hip-hop é confinada a espaços definidos: a uma cidade, a um beco, a uma rua. Não obstante, a condição urbana e panfletária desse universo e a irrefutável ascendência sobre as gerações mais jovens alargaram a escala de influências do conceito e generalizaram a mensagem, agravando-lhe o risco. O género tornou-se popular, emancipou-se, mas parece escorregar perigosamente para o mainstream. Ossificação à vista? O sexteto Subtle - Doseone (cLOUDDEAD) é um sexto do colectivo - encarrega-se de nos provar o contrário. A New White é uma visão amorfa do rap, uma criação anidiana do fenómeno hip-hop. E a que soam os Subtle? A versatilidade, a invenção, a criatividade, a surpresa. O som é um feitiço camaleónico, enigmático, complexo. Um buraco negro no underground. Subversor? Experimental.

Ingredientes: Instrumentações maioritariamente acústicas, guitarras, sopros, um drum kit e um violoncelo eléctrico, subtileza musical, melodias, ritmos sólidos.

A New White é um peça de ate, revela-se aos pedaços, audição a audição, exibindo uma textura densa e um gracioso travo onde reside a sua resistência ao tempo. Quando os outros perecerem nas memórias, os Subtle e A New White ainda estarão por cá.