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terça-feira, 24 de junho de 2008

Sigur Rós - Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust

8/10
Beggars XL
2008
www.sigurros.com



O crescimento mediático do colectivo islandês Sigur Rós é imagem representativa das duas faces de um percurso fiel a uma estética singular (e, por isso, marginal aos discursos dominantes). Se, por um lado, a recorrência (e consequente depuração) de uma linguagem musical própria foi factor de angariação de fãs aderentes a esse microcosmo estético particular (forjado no lado "ambiental" da melancolia), assim se fundando a identidade inconfundível da banda, não é menos verdade que, depois de um quarteto de álbuns estruturalmente muito semelhantes, o risco de cristalização do conceito estaria presente. Antecipando a proximidade da estagnação, os Sigur Rós perceberam a necessidade de reinventar-se e da oportunidade de somar outras valências à fórmula musical que inventaram. Hvarf-Heim, prenda acústica do Natal do ano transacto, constituíra primeiro momento do fôlego revisor que, tranquilamente, trouxe o quarteto nórdico ao exercício de transição que é Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust. Não se trata de fazer um motim contra o passado, tampouco de dispensar os ensinamentos do sucesso armazenado, mas há no quinto opus de estúdio dos Sigur Rós uma vontade de atalhar por outros caminhos. A esse desejo de romper o saudável hermetismo de discos anteriores, não são estranhas a produção de Flood (dos Nine Inch Nails) que, sem beliscar a toada minimalista e ambiental da banda, lhe confere expansão, e a escrita mais transgressora da banda - os corolários moram na pseudo-psicadélica na "Gobbledigook" (foi você que pediu Arcade Fire?), na luminosa "Inní mér syngur vitleysingur", ou na primeira aventura em língua inglesa ("All Alright"). Em tudo o resto, a substância maior é aquele imo de dolência deprimida que os Sigur Rós musicam como ninguém e que faz deles verdadeiramente especiais. E música como a que se escuta no impronunciável Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust (a tradução livre seria: "com um zumbido nos ouvidos, tocamos sem fim") não só guarda a essência quase épica do universo Sigur Rós, como lhe abre o espírito a outras luzes. A lágrima escorre sobre um sorriso.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Sigur Rós - Hvarf/Heim

6/10
EMI/XL Records
2007
www.sigur-ros.co.uk



Dificilmente o novo trabalho dos Sigur Rós se tornaria um acontecimento mediático extraordinário pela música nele contida, em virtude do duplo CD dos islandeses vir recheado de material já conhecido dos indefectíveis da banda. O primeiro disco (Hvarf), com apenas cinco faixas para trinta e cinco minutos de música, dá porte de estúdio a algumas composições que a banda mostrou em palco nos últimos anos mas que não conseguiram espaço em gravações anteriores (faça-se a excepção a "Von", recuperada do debute discográfico homónimo). Na essência, o quinteto de peças não foge muito da matriz característica do cancioneiro Sigur Rós; hoje por hoje, contando mais de uma década de actividade, os islandeses são uma entidade reconhecida do pós-rock contemplativo, feito de melancolias planantes, com forte impacto cénico e pejadas de insinuações "orquestrais". Depois, há o mágico falseto de Jon Birgisson, afinal o mediato cicerone para o glacial (e, porque não dizê-lo, labiríntico) universo de sonhos que a caravana de instrumentos tão bem desenha acima da vulgaridade. O único óbice, de resto perfeitamente notório neste Hvarf, é que a consistência e a fidelidade estética dos Sigur Rós ao estilo que fundaram começa a confundir-se com estagnação e, em consequência, acaba por revelar algum conformismo e inaptidão da banda para derivar por outros atalhos do seu próprio cardápio de ideias. Valha-nos a particularidade de o segundo disco (Heim) destapar revisões acústicas de alguns dos temas mais conhecidos dos islandeses, com a bem-vinda ajuda das cordas e alquimias das compatriotas Amiina. Aí, sem o alarde cosmético dos efeitos de estúdio, percebe-se melhor o sucesso da equação Sigur Rós. Mostradas na sua dimensão mais visceral, as canções seguram uma impressiva carga emotiva e convertem-se num curioso exercício de música de câmara, onde o recato e a intimidade somam outros planos às melodias verbalizadas sem mácula por Birgisson. E, com essa renovada estruturação, até esquecemos por momentos que já conhecíamos estas canções e que a fórmula já está um bocadinho gasta...

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Os Sigur Rós em casa

O regresso dos islandeses Sigur Rós acontecerá ainda neste Outono e com um projecto ambicioso. Além do novo álbum, baptizado Hvarf-Heim, a banda vai aventurar-se nas edições vídeo, com o lançamento de Heim. Segundo informações divulgadas no MySpace do ensemble escandinavo, o filme cobrirá não apenas os vulgares excertos de actuações da última digressão dos Sigur Rós, mas mostrá-los-á em moldes próximos do formato documentário, a mostrar a banda "por dentro". Mais pormenores sobre o filme, podem ser consultados aqui. Fica o trailer de apresentação. Venha o álbum também.


quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Sigur Rós - Takk...

Apreciação final: 7/10
Edição: Geffen, Setembro 2005
Género: Pós-Rock/Experimental
Sítio Oficial: www.sigur-ros.co.uk








Nascidos em 1994, no seio da cerração e do frio da Islândia, os Sigur Rós já firmaram um código musical próprio, em violação de convenções e avocando um singular pacto com o som. A marca do colectivo nórdico distingue-se pela construção de uma atmosfera celestial (e mesmeriana) que deriva de uma orgânica sonora delicada - onde coabitam meticulosamente o piano, a guitarra, os sopros e substâncias etéreas (como a voz de Jonsi Birgisson) - e farta de teatralidade extraterrena. É essa a intuição que se desprende dos acordes volantes, das notas movediças e do feitiço vocal dos Sigur Rós; é a contemplação subconsciente de uma outra dimensão, de um universo paralelo que não existe mas que germina infalivelmente em altares imaginários no espírito do auditor. Takk ("Obrigado" em islandês) é o fruto glacial mais recente dos Sigur Rós e, mantendo a acuidade típica do grupo, mostra composições menos rebeldes, também mais próximas do formato canção, ainda que conservando uma feição distintiva dos islandeses que divide o seu som, com erudição, entre a ampliação orquestral e o intimismo despojado. Takk - o primeiro disco cantado em islandês e não no dialecto imaginado pelo grupo para os outros discos - é também o registo mais acessível e directo dos Sigur Rós. As texturas divulgam um compromisso instrumental acrescido, a voz é relegada, torna-se eventual como um recurso acidental. Depois, o quarto disco do ensemble escandinavo busca êxtases menos funestos e reencontra-se pacificamente com a ingenuidade do bucólico, num jogo ambivalente que constrói um repto inquietante à emoção e oferece, de seguida, a catarse para os sobressaltos induzidos.

Esgotado o efeito novidade, mantêm-se a mística fria e a magia quase mitológica de um dos mais inventivos conceitos da cena musical. Sem surpresas técnicas, Takk é contagiante e menos hermético do que os antecessores e expande a música dos Sigur Rós para a contemplação e a materialidade. Feito de música mais tangível, Takk remete-nos para uns Sigur Rós ditosos (em euforia?), sem hipoteca da sua condição dramática, mas aquém do zénite experimental de Agaetis Byrjun. Ainda assim, Takk é um encantatório anúncio do Outono que se avizinha e impõe um conselho: quando as temperaturas baixarem, nada melhor do que esquentar orelhas com headphones ao som do último trabalho dos Sigur Rós. Um takk para os rapazes também por isso.

Posto de escutaGlósóliSaeglopurGong

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

Sigur Rós - Von (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

Os Sigur Rós conquistaram o seu lugar no universo da música quando, no ano 2000, apresentaram Agäetis Byrjun, mostrando ao mundo um som franco e desembaraçado, ritmado com melodias calmosas, desobrigando o ouvido dos pragmatismos do mainstream. O experimentalismo misantropo, o repetido apelo a encenações acústicas melancólicas, são a pedra angular deste grupo islandês.

Este Von, originalmente editado em 1997, e agora finalmente disponível no mercado europeu, constituiu o primeiro longa duração dos Sigur Rós. Aqui, o som é mais sombrio, apelativamente caliginoso, remetendo-nos para as fachadas mais negras de nós e aquietando as avantesmas que maculam o espírito. Neste trabalho, o experimentalismo maravilha, a banda exibe uma maturidade surpreendentemente precoce. O resultado é excelente. O disco pega-nos desde o primeiro segundo, levando-nos numa aliciante viagem ao mundo de sonhos dos Sigur Rós, fazendo-nos devanear e perceber que a tristeza não tem que ser depressão. A voz é enigmática, não tem pejo em expôr a ausência de regras, mas mostra-se gentilmente sedutora.

Quem ouviu os trabalhos mais recentes dos Sigur Rós, não se arrependerá de escutar este Von, o gérmen da excelência. Quem não os conhece, vai perceber em Von o porquê do êxito dos Sigur Rós no circuito alternativo. Uma excelsa banda sonora para dias com muita chuva.