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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Scout Niblett - It's Up to Emma


7,6/10
Drag City, 2013

O desfile lírico do novo álbum de Scout Niblett não deixa espaço para segundas interpretações: mora nestas entrelinhas uma história de amor corrompido e as suas incontornáveis ondas de choque emocional. Pouco importam as causas e se o agente corruptor é o tempo, as circunstâncias, os momentos ou os delitos de carácter, o que sobra é uma desolação que ensaia, depois, várias formas de catarse, ora vingativa, ora indulgente. Da reunião dessas energias, nasceu um dos mais pessoais registos de Niblett, também um dos mais viscerais e, por isso mesmo, servido sem adornos estéticos, antes laconicamente resumido à guitarra isolada de sempre, com pontuais aparições da percussão a sublinharem a aspereza e a gravidade do discurso. 

Não é facto novo esta confessada inaptidão de Niblett para os relacionamentos emocionais, ela tem feito disso a matéria-prima de um cancioneiro que subscreve, sem se fechar nela, uma noção de canção saudosa do grunge mais depressivo. Nesse particular, embora cáusticas e tensas como antes, as canções de It's Up to Emma são produto de um conforto maior na mágoa, daquela habituação à desilusão a que as convenções sociais chamam envelhecimento. Aos 40 anos, Niblett já somou muitos quilómetros na estrada da vida e a redenção, não obstante continuar a fomentar ilusões, não é já uma obsessão.

PODE LER ESTE E OUTROS CONTEÚDOS EM WWW.ACPINTO.COM

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Diálogos Atípicos

O primeiro avanço para o novo (e quinto) disco de Scout Nibblet (This Fool Can Die Now) é demonstrativo de como a melancolia (e a tomada de consciência da perda e da ausência) pode ser pano de fundo para uma melodia simples e bem construída. Nesta canção, a voz de companhia, num diálogo surrealista entre a protagonista e uma personificação da morte (coisa que repesca o imaginário de O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman), é Will Oldham (ele dá a sua voz a mais três temas no álbum). Não é à toa que esta inglesa tem sido considerada o reflexo britânico de Cat Power; aqui, são notórias as referências aos momentos mais taciturnos da americana. E também se expõe o lado mais sereno de Nibblet, por oposição à escrita mais acerba que desvenda noutras composições.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

5 rapidinhas


Scout Niblett - Kidnapped by Neptune (6/10)
Muitas vezes comparada a P.J. Harvey, Björk ou Cat Power, Scout Niblett subscreve, no terceiro registo de estúdio da carreira, a mesma fantasia rock de outros tempos, assente numa voz melíflua que afronta rumores angulares de guitarra e percussões rudimentares. A orgânica é minimalista e quase desarrumada; as estruturas deixam o ouvinte num estado hipnótico do qual desperta, em alguns instantes do disco, com a frustração de não descobrir o clímax anunciado. O vanguardismo poeirento e experimental de Niblett (alguns temas parecem B-sides dos Nirvana ou de Harvey) saúda-se embora pareça orfão de uma definição mais rigorosa das composições. Se alguma vez Niblett lá chegar, talvez melhor se descodifique a espiritualidade e o mistério das suas fórmulas.
Too Pure, Maio 2005








Flipsyde - We the People (5/10)
Crítica social em formato hip-hop com um fundo musical que explora, com alma latina, a soul e o funk é a proposta dos Flipsyde. Eles foram a banda de suporte dos Black Eyed Peas e as semelhanças entre os projectos não são mera coincidência, ainda que os Flipsyde assumam outras considerações políticas e abracem uma sonoridade ligeiramente mais rock que, aqui e ali, faz lembrar Dave Mathews (ouça-se "Angel") ou os Living Colour (especialmente na faixa "Time"). We the People é jovial, tem uma boa dinâmica e, apesar da produção desproporcionada, não deixa de ser uma estreia suficiente deste quarteto americano.
Interscope, Junho 2005








Armando Teixeira - Made to Measure (6/10)
Responsável pelos projectos Bullet e Balla, Armando Teixeira tem sido um dos compositores nacionais mais activos nos últimos tempos. Este disco, lançado numa edição limitada e exclusiva de comemoração do décimo primeiro aniversário da Fonoteca Municipal de Lisboa, é uma mostra do trabalho menos popular do músico, também da sua faceta mais (des)construtivista. Do alinhamento fazem parte alguns trechos musicais que integraram espectáculos teatrais, uma faixa dedicada a Carlos Paredes (anteriormente incluída na compilação Movimento Perpétuo) e o inédito "Les Mutations". Made to Measure é um disco de estúdio e que põe à prova a destreza de Teixeira com samples e loops, num registo próximo de Bullet que acolhe o lounge, o jazz, a música tribal e a electrónica. O principal problema: as aptidões do músico surgem aqui sem a homogeneidade de outros trabalhos. Ainda assim, Vladimir Orlov mantém o toque de inspiração.
Fonoteca Municipal de Lisboa, Maio 2005







The National - Alligator (7/10)
Algures entre a folk americana mais vernácula e a pop viva da Grã-Bretanha está o som dos The National. A proposta é um pop-rock maduro e reflectido, à custa de canções de balanço intuitivo, com uma produção reservada mas competente e alguns refrões que se entranham subitamente. Amores deteriorados, relações humanas e contemplação metafórica são a espinha dorsal deste Alligator. Não há um pouquinho de Cave ou Tindersticks também?
Beggars Banquet, Abril 2005








The Perceptionists - Black Dialogue (7/10)
Mr. Lif, Akrobatik e DJ Fakts One são os protagonistas do conceito the Perceptionists. Aqui não há lugar a paninhos quentes, o discurso é directo, ácido, sem rodeios, e manifestamente propenso ao esquentamento das orelhas de George W. Bush e Dick Cheney e restantes membros da administração americana. "Where are the weapons of mass destruction?/we've been looking for months and we ain't found nothin'/please Mr. President tell us somethin'/we knew from the beginning that your ass was bluffin'" é glosado na faixa "Memorial Day" e resume a alma rebelde da tripla. O resto é underground rap não contaminado com as perversões do mainstream, muito scratching e um mosaico sonoro sem vergonha da electrónica. Hip-hop à moda antiga.
Definitive Jux, Março 2005