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terça-feira, 31 de julho de 2007

Fridge - The Sun

6/10
Domino
AnAnAnA
2007
www.myspace.com/
fridgemusic



Embora para muitos o conceito Fridge não seja mais do que uma mera incógnita, foi nele que o (hoje) consagrado Kieran Hebden (o cérebro da insígnia Four Tet) fez o tirocínio nas lides musicais, ao lado do baterista Sam Jeffers e do baixista Adem Ilhan (também ganhou notoriedade solo com a assinatura Adem). Curiosamente, a reputação crescente dos trajectos individuais de Hebden e Adem e a confirmação das suas competências como produtores viriam a votar ao quase esquecimento o título Fridge, facto comprovado pelo pousio de seis anos que antecedeu este The Sun. Pode, portanto, falar-se da reunião de um trio de amigos e da regeneração de uma fórmula musical que, em finais da década de 90, embora partindo de uma formação clássica de trio rock, aproveitou o embalo da moda experimentalista do pós-rock - pelo menos no seu desembaraço formal - reformatando-o pelo prisma da electrónica minimalista que, entre outras luminárias, buscava no jazz (e na subsequente integração de diversos condimentos instrumentais) a referência quintessencial. O longo interregno de seis anos (e a consequente separação de águas entre o folk de vanguarda de Adem e as propostas de anarquismo orgânico de Hebden) parece não ter deprimido fatalmente a empatia musical que unia os músicos e, nesse particular, o disco dá provas de razoável sobrevivência do discurso "histórico" dos Fridge. Ainda assim, um ou outro instante inspirado (como "Oram" ou "Eyelids"), não evitam a conclusão de que a mescla nem sempre soa tão genuína como noutros tempos e parece respirar segundo a regra equilibrista (entre pesados egocentrismos) do ora-agora-brilhas-tu-ora-agora-brilho-eu, o que, em último caso, atravanca as reais hipóteses de The Sun se afirmar como obra de estética definida ou como declaração de válido renascimento dos Fridge.

Posto de escuta EyelidsOramInsects

sexta-feira, 30 de março de 2007

Kieran Hebden & Steve Reid - Tongues




O casual encontro entre o percussionista Steve Reid e o mentor do projecto de electrónica abstracta Four Tet, Kieran Hebden, conhece novo desenvolvimento, depois do imprevisto sobressalto que as sessões improvisadas registadas no duplo The Exchange Sessions, do ano transacto, conseguiram junto da comunidade melómana. Reid é um consagrado do orbe clássico do jazz - ainda que no injustamente "relativizado" papel de assistente de Ornette Coleman, Sun Ra, Miles Davis, James Brown ou Fela Kuti - e procura, neste Tongues, convergências com uma estética electrónica fiel à fruição na informalidade (aí residindo um importante factor de paridade entre os universos representados pelos dois músicos) e os sons de síntese, substâncias obviamente mais caras aos mundos de Hebden. No fundo, a proposta não diverge substancialmente dos trabalhos anteriores, assemelhando-se à continuidade lógica do entrosamento entre dois músicos que, sendo cultores de idiomas e gerações sonoras distintas, parecem ter encontrado uma linguagem comum. Pena é que Reid e Hebden se tenham imposto um certo pragmatismo temporal, ao contrário do que acontecera nas gravações da Exchange, trinchando os improvisos em volta dos cinco ou seis minutos. Com isso, os trechos resultam mais lacónicos e "convencionais", assim prescindindo de parte nuclear dos processos de especulação e experimentalismo, mormente através do abreviamento dos ciclos de crescimento das ideias. E esse (dispensável) compromisso de urgência, em último caso, subtrai algum fascínio às peças, não obstante a riqueza conceptual do disco.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Kieran Hebden & Steve Reid - The Exchange Session, Vols. 1 & 2

Apreciação final: 6/10 (Vol. 1)
7/10 (Vol. 2)

Edição: Domino Records,
Março 2006 (Vol. 1)
Junho 2006 (Vol. 2)

Género: Música Improvisada



Sorver música com o esteio experimental dos volumes The Exchange Session não é assunto universal, ou não fosse o vanguardismo uma escola pouco estimada pelas massas, normalmente partidárias dos géneros de consumo directo. Orquestrações com olhos postos na incerteza das épocas vindouras são, as mais das vezes, produtos proscritos ou, por pura condescendência de mentes mais irrequietas e curiosas, espécimes consagrados a pequenos nichos de melómanos. Não é que o futuro não espicace o sujeito regular, antes lhe interessa o cómodo lucro de escutar música presente, sem ousar a previsão de conjecturas do amanhã. A esses, a pesquisa visionária de Kieran Hebden e Steven Reid pouco dirá. Aos outros, para melhor entenderem a lavra audaz destes músicos, talvez se imponha um breve resenha do seu trajecto.

O inglês Kieran Hebden foi um teenager rockeiro, admirador das sentenças de Hendrix e dos Led Zeppelin, e estreou-se nas lides musicais nos Fridge, trupe de rascunhos lo-fi, um registo musical díspar do seu projecto mais ilustre, o pseudónimo Four Tet, exímio laboratório de divagação electrónica. Já Steve Reid, inventor de outra geração, subscreve causas diferentes. Reputado produtor e percussionista jazz, conta centos de gravações, algumas delas como parte da comitiva de amigos célebre como Miles Davis, Dexter Gordon, Sun Ra, Archie Shepp, Fela Kuti e James Brown. Feito o obséquio das apresentações, retenhamos a atenção no porte da música.

Repartida em dois volumes, a série The Exchange Session é uma sociedade de sons pautada pelo improviso. Gravadas ao vivo, as peças não permitem mais do que animações em tempo real à orgânica de Hebden, assim compelido a seguir a escolta percussiva de Reid. Efectivamente, é a percussão que dá o mote, marcando o pulso e regendo o compasso, mas isso não esfria a detonação erudita de ruídos e samples, num ímpeto pouco domesticável. Hebden fica sem âncora e, curiosamente, a sua música adquire, na interacção com Reid, outra cinética, com margem para contorcionismos e excentricidades não escutadas na assinatura Four Tet. Depois, a parcimónia de Reid reduz a percussão à sobriedade groove mais solúvel com as megalomanias pós-industriais de Hebden, excepção feita a alguns címbalos mais calorosos, amplificação que em nada encurta o plano lacónico de Reid, por oposição à incontinência quase lunática de Hebden. Como se fossem irmãos coevos de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. O entrosamento e as modulações são superlativos, especialmente tendo em conta que estes são os primeiros trabalhos deste par. Pode chamar-se a isto jazz livre ou futurista, no encalço dos esboços dos Spring Heel Jack, embora aqui se adensem as expressões sintéticas do fantástico e se almejem horizontes menos rigorosos: os filões de música anti-probabilidades, deformadora das estruturas convencionais e plena de inventividade.

Com sinergias mais vincadas, as construções de Vol. 2 mostram melhor fluência sequencial e, com isso, acercam-se de um auge incerto (para os próprios músicos), zénite esse que fica um tanto distante em Vol. 1, tomo mais prolixo e, consequentemente, de estruturas mais difusas. Ainda assim, o referencial dos dois volumes é muito semelhante e baseia-se numa lógica de progressão em transgressão, o que é o mesmo que dizer crescimento sem regra. E, vistas (e ouvidas) bem as coisas, a colecção The Exchange Session é uma generosa propaganda da música improvisada, a cargo de dois músicos destros nas suas artes e que encontram, melhor ou pior, calhas comuns nas atipicidades do jazz e da electrónica.