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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Burial - Untrue

8/10
Hyperdub
Flur
2007
www.myspace.com/
burialuk



A promoção de alguns artífices das órbitas dubstep londrinas das margens para a primeira linha da música britânica, no ano transacto, demonstrou o interesse dos públicos por uma forma de musicalidade com identidade urbana e, por isso, marcada pela densidade emocional das depressões e misantropias modernas. Escuro na essência e formalmente descomprometido, quer no tempo quer nas suas referências estruturantes, o entendimento que protagonistas como Burial (e, depois dele, Kode9, o boss da Hyperdub) fizeram da expressão musical acabou por consistir, também, num fino retrato do desconforto do sujeito urbano face às exigências imprescindíveis da sociabilização nas metrópoles. Nesse particular, a geração dubstep dá voz musical a uma espécie de segunda vaga de misfits, depois da leva rebelde que ergueu o punk ao estatuto de discurso libertário no 70's, na época com a visibilidade e o bizarro impacto que se conhece. Claro que, sob o ponto de vista formal, não se adivinha anarquismo (ou sequer uma insinuação distante dele) na música de Burial. Trata-se, sobretudo, de música feita para acomodar intelectos mais inquietos com o mundo à sua volta mas que, ao invés de apontarem frustrações e sentimentos de exclusão (essa a premissa explosiva do punk) a qualquer alvo fácil, se viram para dentro e buscam respostas solitárias de sobrevivência. É, portanto, uma revolução silenciosa, acima de tudo mental e pessoal, tímida e contemplativa.

Depois de um primeiro álbum homónimo muito aplaudido, continua a saber-se pouco sobre este Burial. Dele se percebera, nesse primeiro exercício, que ser um discípulo dubstep não é necessariamente um embaraço para buscar outras fórmulas formais. Untrue reforça essa ideia, trazendo-nos grande parte das iguarias do debute (é inconfundível a matriz de beats deste senhor) mas somando-lhes, por comparação com o antecessor, um ênfase maior nas vocalizações. Esse compromisso acrescido com as vozes, ainda que filtradas e espectrais, dá ao som de Burial uma dimensão mais "humana" - por oposição aos frios maquinismos do primeiro registo - e com uma impressão melódica mais contínua (a magnífica "Archangel" é o melhor exemplo disso). Depois, além da miscigenação mais ou menos evidente com outras descendências da música de dança londrina, é notório o cuidado no detalhe das construções, fazendo de Untrue uma obra de estruturas mais complexas do que o primeiro disco, sem prejuízo da natureza esparsa típica da sub-cultura Burial. Ele é porta-voz de um silencioso motim de desajustados (os tais misfits de segunda geração) que, afinal, partindo das íntimas inquietudes e assombros da alma (a sua e a dos ouvintes-seguidores), não é mais do que o desejo de integração nas urbes modernas, despidas de afeições e tomadas pelo amor próprio. Untrue pode muito bem ser a luminária invisível com que esses espíritos inquietos se esquivam do egoísmo para respirarem melhor. E é, indiscutivelmente, um grande disco.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Burial - Burial

Apreciação final: 8/10
Edição: Hyperdub, Junho 2006
Género: Electrónica Vanguardista/Dub Alternativo/Trip Hop
Sítio Oficial: www.hyperdub.net/burial.html








Com morada fixa na cena underground dos clubes de dança de Londres, o obscuro Burial apresenta-se. Primeiro disco de um projecto musical de que pouco mais se sabe além das origens londrinas, Burial é uma colecção de electrónica perturbante, a primeira edição de uma pragmática sonora quase clandestina a crescer além da órbita de clubes restritos da capital inglesa. O rótulo é recente, chamam-lhe dubstep, degeneração sintética essencialmente instrumental e combustível de inquietações, por força da evocação de ambientes negros, ao jeito de máquinas sobrenaturais. O jogo de Burial é mecânico e faz agitar as ilhargas do ouvinte, à custa de lhe acirrar o espírito, com sombras musicadas e hologramas de ondas sonoras. Sons reais e sons adivinhados, coisas que se insinuam e sorrateiramente arrombam os vales do silêncio, ecoando no ar como suspiros do desconhecido, aceitando a trepidação de percussões vendedoras de ilusões. Há na música de Burial uma cólera reprimida, um alento rave que se enreda numa improvável e dócil confissão, aceitando o motim emocional e fazendo dele discurso. Minimais, por vezes, e de dinâmica industrial, noutros instantes, as meditações musicadas de Burial comprometem-se com uma deriva indecisa entre o frémito do drum'n'bass (escola inicial de Burial), o torpor progressivo do dub e os arrepios do trip-hop.

Burial é o requiem taciturno dos arcanos pós-apocalípticos de uma cidade futurista. Urbano e complexo, o álbum tem músculo e tem alma. E sangue frio que esquenta em lumes brandos. Trechos fracturados, com as elipses de uns Autechre em união de facto com a alquimia Massive Attack. Capaz de suscitar estados de espírito contrastantes, é nos ápices com samples vocais que o disco atinge píncaros, mesmo quando é redundante, como na incorpórea "Forgive", ou na assimétrica pièce de resistance "U Hurt Me". Esquecendo alguma inconsistência do conjunto que é descendência própria da anarquia conceptual do underground, Burial é peça essencial da electrónica menos convencional. Beats programadas, samples e preciosismos técnicos ao serviço do intelecto: as gloriosas máquinas cogitabundas de Burial.

Posto de escutaBoomkat