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sexta-feira, 10 de março de 2006

A Naifa - 3 Minutos Antes da Maré Encher

Apreciação final: 7
Edição: Zona Música, Março 2006
Género: Pop/Fado/Experimental
Sítio Oficial: www.anaifa.com/








Depois da prometedora estreia com Canções Subterrâneas (2004), o segundo andamento d' A Naifa investe em lema semelhante, o que é o mesmo que dizer que Luís Varatojo (guitarra portuguesa), João Aguardela (baixo) e Mitó Mendes (voz) prosseguem no ousada expediente de propôr indumentárias alternativas para a mais tradicional das formas de expressão musical lusas: o fado. Para os mais puristas, a sugestão atípica chegará a ser iconoclasta, no sentido de mesclar abertamente os acordes imaculados da guitarra portuguesa com elementos electrónicos que lhe colam um rótulo de modernidade. Para ouvidos adestrados, o segundo tomo deste talentoso projecto nacional é mais uma amostra com apetite reformista, mais solta e madura que o primeiro ensaio, também mais confiante. A voz de Mitó parece ter sido talhada à justa para a lida destas canções (e destes poemas), sempre aveludada e mais elástica e precisa do que em Canções Subterrâneas. Varatojo é mais cirúrgico e completo e pontua a orgânica das melodias; depois, a marcação do baixo eléctrico de Aguardela, secundado pela bateria do versátil Paulo Martins (Ramp), dão um embalo invulgar às canções. Nunca o fado se vestiu assim.

Da escola tradicional do fado, das alusões ao simbolismo da gasta e tacanha "casa portuguesa", das senhorinhas de xaile, do tempo dos crochés de rendas em cima do televisor e da camilha da sala, das memórias de Amália ou Paredes, resta aqui apenas uma vénia. Sem pretensões ou tabus, A Naifa não é já fado, é uma coisa maior (ou mais pequena, que importa?), é guitarra portuguesa pouco convencional, é voz de fadista, é amanhã. Um futuro já ensaiado nas malhas do primeiro álbum e retomado agora. E o fado, por mais brasonado que seja, caminha nas mesmas urbes dos outros géneros e não tem que se acanhar por casar pontualmente com a electrónica ou com o metrónomo de um baixo eléctrico. O resto é atmosfera. Misturar o baralho do fado e voltar a dar. Fado ou pop, mais ou menos óbvio, A Naifa é profundamente portuguesa. 3 Minutos Antes da Maré Encher sacode a dialéctica do fado e, só por isso, atrai alguma controvérsia. Mas um álbum assim tanto deliciosamente venturoso e criativo merece o mesmo lar da mais fina tradição musical nacional. Uma casa portuguesa, com certeza.

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

A Naifa - Canções Subterrâneas (CD, 2004)

Apreciação final: 7/10

O projecto A Naifa personifica o mais inventivo conceito musical da música portuguesa contemporânea. O quarteto é formado por Maria António Mendes (voz), Luís Varatojo (ex-Peste & Sida, Despe & Siga e Linha da Frente), João Aguardela (baixo) e Vasco Vaz (bateria).

O formato musical acolhe as raízes da canção popular lisboeta, assente na guitarra portuguesa, feita dos tradicionais timbres lamentosos, aqui hodiernos em simultâneo, abraçados por percussões modernas, promovendo a mais original recriação do fado que alguma vez se deu a conhecer. O requinte das composições é a nota dominante, o bom gosto marca pontos nas onze faixas que compõem o alinhamento, contribuindo para a criação de um dos melhores discos nacionais deste ano.

Os A Naifa trazem-nos um fado novo, remodelado e totalmente original, não sonegando a sua formatação original mas acrescentando-lhe pacíficas pitadas de modernidade que agradarão aos apreciadores da inovação musical e não desiludirão os séquitos do fado mais tradicional. Excelente primeiro disco deste projecto, a prometer façanhas ambiciosas para o futuro. António Variações inovou a música em Portugal, os A Naifa são os senhores que se seguem...