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quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Blood on the Wall - Awesomer

Apreciação final: 7/10
Edição: The Social Registry, Setembro 2005
Género: Rock Revivalista
Sítio Oficial: www.bloodonthewall.com








A carga nostálgica do segundo álbum dos nova-iorquinos Blood on the Wall só pode ter resultado de um entre dois factores: ou os irmãos Shanks se deixaram cristalizar num confortável registo sonoro que recarrega (imita?) as munições dos Sonic Youth, dos Pixies e dos Violent Femmes, também dos mais velhinhos Stooges e Cramps, ou, por outro lado, eles são mesmo assim e contentam-se com uma polpa deliciosamente retro. Awesomer é um transplante que faz uma tradução anacrónica dos conceitos indie do arranque da década de 90 e da escola punk dos 70's. O som desfaz-se em paisagens negras e devaneios etilizados de índole apocalíptica, com ângulos da mais rude e mordente pop. A guitarra e o baixo fervilham nesse abismo de ideias díspares, juntando-as como peças de um puzzle truncado. O ouvinte fica refém deste desatino turbulento, numa excursão alucinada aos quatro cantos do rock, com paragens rápidas. E porque em Awesomer o tempo é unidade diminuta, os momentos são pungentes e fervorosos, quase asfixiantes, não receiam expôr as brechas de uma certa puberdade criativa e ironizam abertamente, ao jeito de uma farsa, os despojos musicais que resgatam do passado.

Awesomer é uma espécie de máquina do tempo musical porque nos reporta a eras que viram explodir a irreverência e a depravação no rock e, mesmo não promovendo a ascensão de algo particularmente novo, tem o mérito de espicaçar memórias caídas em torpor e agitar a cena rock de NY. Isto é rock esquizofrénico e desmazelado mas tem coração. Soa relativamente trasladado, é certo, mas tem vida e formas próprias. Afinal, que melhor preito pode render-se ao rock dito clássico do que receber com agrado as suas normas, incutir-lhes um temperamento remoçado e umas nuances pessoais e fabricar um disco apetecível? Foi isso mesmo que os Blood on the Wall conseguiram com este Awesomer que, como o título indica, é um segundo álbum ainda mais impressivo que o trabalho de estreia.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Fiona Apple - Extraordinary Machine

Apreciação final: 6/10
Edição: Epic, Outubro 2005
Género: Pop Alternativa
Sítio Oficial: www.fiona-apple.com








A dissecação do último trabalho de Fiona Apple impõe umas considerações prévias. Segundo se diz, a etiqueta da compositora, a Epic Records, vinha mantendo este trabalho nas prateleiras, desde 2003, sob o pretexto de não ser suficientemente vendável. Contudo, as sessões de gravação originais, sob a produção de Jon Brion, começaram a circular clandestinamente pela internet ainda no começo deste ano, em resposta aos anseios de fãs ávidos por um álbum novo - a última edição da cantora remontava a 1999 - motivando um estranho burburinho em torno das novas canções e precipitando o seu lançamento oficial, em Outubro. Por decisão de Apple, as composições mereceram nova masterização (à excepção do tema título e de "Waltz (Better Than Fine)") e o álbum saiu para as lojas. A estética carnavalesca da produção de Brion, se emendava com propriedade algumas composições de Apple, parecia algo hiperbólica noutras, tornando a música da compositora um pouco mais fechada e impenetrável. E essa assinatura progressista não era a que interessava à Epic. Pode dizer-se que a edição publicada das canções tem menos liberdade artística; o trabalho de Mike Elizondo (produziu Eminem, 50 Cent e Gwen Stefani, entre outros) retirou o peso da excentricidade de Brion e abriu a música de Apple. Mesmo assim, as músicas não são imediatas, exibem um trejeito pop pouco comum, quase barroco, a piscar o olho à maleabilidade jazz e escondendo as melodias por detrás de um código musical complexo. Chame-se-lhe pop erudita, esta música não encaixa na classe da pop mais amiga do ouvido, é de outra linhagem, lavrada sob cláusulas diferentes de exuberância orquestral. Os elementos centrais, o piano e a voz de Apple, são amparados por arranjos nobres, embora as versões finais de Elizondo soem mais ligeiras.

Extraordinary Machine não é a prodigiosa bateria de canções de charme que a versão bootleg prometia. Depois de escutar o projecto inicial, a versão de Elizondo redunda numa depreciação da arte inegável de Apple. Brion havia moldado a música de Apple muito além das delineações pop, adicionando-lhe argumentos ímpares e um traço de sedução subliminar, elevando a voz de Apple a uma imponência não vista antes. Nesta edição, o toque de Elizondo subjuga a amplitude dos arranjos de cordas a ângulos cliché do rock alternativo e a beats desajustadas. A edição oficial de Extraordinary Machine é, ainda assim, um disco decente mas não pode deixar de considerar-se que fica muito aquém daquilo que Jon Brion urdira inicialmente. Nesta, como noutras edições, o assombro mercantil tolheu a arte. Para mal de Apple. E da Epic que, afinal, ao procurar um disco vendável, produziu um valente incentivo ao download ilegal da versão original.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Exercício espiritual

Exercício espiritual

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora.

Mário Cesariny

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Dionysos - Monsters in Love

Apreciação final: 7/10
Edição: Tréma/Universal, Setembro 2005
Género: Pop-Rock Alternativo
Sítio Oficial: www.dionyweb.com








Os Dionysos acreditam que as venturas dos amores não estão vedadas aos monstros. A sétima arte corrobora com exemplos: Lugosi e Oldman emprestaram o olhar vítreo ao enamoramento de Drácula, Karloff e De Niro deram o amor à criatura de Frankenstein, o colossal King Kong derrete-se por loiras...Este é o mote fantasioso do quinto longa-duração deste quinteto francês. Repescando figuras de contos de terror ou fundando novas criaturas, o vocalista e mentor do grupo, Matthias Malzieu, constrói uma autêntica galeria de aberrações, versando sobre os vestígios de humanidade dissimulados no rosto de um monstro. Esta faceta indulgente é a premissa de uma hora de puro entretenimento, a fazer lembrar os filmes de Tim Burton ou os livros de Lewis Carroll. Musicalmente, a proposta convoca uma pletora de estilos (e instrumentos), desde o rock folclórico de "Giant Jack", o trinado de "Le retour de Bloody Betty" e a pujança saloon de "Lips Story in a Chocolate River", à quietude melancólica de "Métamorphose de Mister Chat" (num crescendo que começa por lembrar a chanson française e encerra com o traço moderno dos The Strokes) ou de "Missacacia", a puerilidade cativante da melodia da excelente "L'Homme qui pondait des oeufs", o envolvimento das cordas de "Broken Bird", a sedução instrumental do par guitarra/violino de "I Love Liou" ou a revigorante "Old Child". Para apimentar o embrulho, os rapazes até incluíram, escondida no alinhamento, uma reprise humorada de "I Did Acid With Caroline", de Daniel Johnston.

A despeito de não oferecer substâncias novas e de conter momentos menos felizes, Monster in Love é o disco mais melódico dos Dionysos e cobre uma paleta de géneros tão variada quanto uma salada chinesa. Depois, a comicidade absurda das palavras e o surrealismo das histórias reforçam a peculiaridade de composições que, não sendo originais nos conceitos e nas matrizes, têm a aptidão de despertar as várias gamas de sensações auditivas do ouvinte, ao mesmo tempo. Entretenimento castiço. Ironicamente, ou talvez não, para um álbum sobre monstros e os seus amores e desamores, a única coisa que este disco não consegue é suscitar medo. Como podemos não simpatizar com as alegorias de Giant Jack, Mister Chat, Bloody Betty ou Giant John e o seu sanglophone?


Para ouvir estas amostras vai precisar do Real Player. Descarregue-o aqui

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

The Clientele - Strange Geometry

Apreciação final: 7/10
Edição: Merge, Outubro 2005
Género: Pop Alternativo
Sítio Oficial: www.theclientele.co.uk








Os The Clientele são britânicos, têm um som outonal e rendem homenagem aos ambientes melódicos da pop dos anos 60 e 70, numa toada introspectiva e delicada. A gentilidade orgânica das composições envolve o auditor em truques harmónicos, com percussões brandas e guitarras liderantes - filtradas por efeitos de tremolo e reverb - e a poesia cantada de Alasdair Maclean, num registo ressonante e que, em alguns intantes do disco, reacende na memória os resquícios do saudoso John Lennon. A essa deliciosa ilusão (não é uma colagem) não é indiferente a doutrina retro das composições, uma máxima sublinhada no abeiramento ao romantismo hippie dos Velvet Underground ou dos Byrds e aos ângulos pouco convencionais dos Television. Depois, há uma dimensão poética que se gruda ao tecido musical e lhe empresta fábulas de paixões mal resolvidas em busca de catarses metafísicas, com pitadas de surrealismo. No fundo, o propósito maior é a construção de uma ode de fantasias à cidade de Londres, por inerência à Inglaterra contemporânea, ao Homem e ao amor. Com a neblina das esquinas de Londres e folhas cadentes dos plátanos do Hyde Park como pano de fundo, o devaneio ultra-sonhador dos The Clientele é exequível. Desde que falem baixinho.

Strange Geometry é o segundo longa-duração do trio inglês e, nesta etapa, o som deles foi amplificado; mantém a harmonia de proporções do costume mas ganhou a ajuda da interferência esporádica de elementos de cordas. Contudo, essa contingência, ainda que beneficie o som do grupo, alerta as consciências mais desatentas para a cristalização da fórmula dos The Clientele, particularmente sentida no recalcamento dos conceitos basilares do disco. O desfile de canções transforma-se, assim subliminarmente, num cortejo iterativo, ao ponto de por vezes se confundirem as composições. Não obstante alguns lances inspirados, este disco vem provar uma coisa: a estranha geometria dos The Clientele é um recreio de malabarismos com linhas muito rectas e volumes pouco atrevidos.

A sina dos animais

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Franz Marc, The Fate of the Animals, 1913

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Ennio Morricone - Crime and Dissonance

Apreciação final: 8/10
Edição: Ipecac Records, Setembro 2005
Género: Instrumental/Banda Sonora
Sítio Oficial: www.enniomorricone.com
www.ipecac.com








A alusão ao nome do compositor Ennio Morricone remete-nos imediatamente para o imaginário dos tempos áureos do spaghetti western, mormente para o clássico O Bom, o Mau e o Vilão (1966), de Sérgio Leone, cuja banda sonora - escrita por Morricone - ascendeu aos anais da música para a sétima arte. Contudo, reduzir o impacto da música do maestro italiano a essa esfera é uma asserção redutora. Com mais de cinco centenas(!) de bandas sonoras escritas, o vínculo de Morricone aos westerns é apenas uma pequena porção do seu trabalho. Dispersas em dezenas de filmes italianos com pouca expressão do início da década de 70 (1969-1974), as composições compiladas neste duplo CD revelam aspectos menos divulgados da música de Morricone. Aqui, a linguagem musical é diferente da combinação rock/clássica avant-garde que revolucionou os filmes de cowboys. Não surpreende que a edição tenha a chancela da etiqueta de Mike Patton (Ipecac). Embora a escolha das faixas seja da responsabilidade de Alan Bishop, a aura sonora deste trabalho traça paralelas com os esquemas experimentais dos ambientes sonoros de Patton. De facto, as trinta composições de Morricone que enchem este Crime and Dissonance fazem apelo a uma atmosfera ambígua, algures entre a inventividade do jazz, o psicadelismo (des)construtor de formalismos e o vigor experimental de Part ou Ligeti. Depois, vagueiam como vigilantes, sobre a orgânica precisa das composições, os vultos de interferências célebres: os ambientes de espionagem James Bond, o groove esporádico de Miles Davis, os orgãos e jogos melódicos do barroco, o laconismo das cordas, as vocalizações esparsas (ora assombradas, ora hedonistas), os efeitos sonoros de requinte.

A sugestão imagética deste álbum percorre as insinuações cinematográficas do terror, do suspense, do sexo e da espionagem. É um disco declaradamente obscuro e lúgubre; rebusca os vectores mais grotescos da música de Morricone e expõe a virtuosa controvérsia do seu génio. Crime and Dissonance é o resumo musicado de uma infinidade de emoções, como uma película que corta e cola os pedaços mais inquietantes de um punhado de filmes e que se vê em fast forward, sem tempo para recuperar o fôlego ou para fugir à constrição claustrofóbica que reduz os hemisférios do cérebro. Ao escutar este Crime and Dissonance apetece fechar os olhos, abraçar a magnitude de cada amostra de sons, perceber a integridade de cada peça e desenhar romanticamente na mente uma fita cinematográfica repleta de vilões vencedores e sem lugar para heróis. Música desta não se ouve. Vê-se e sente-se. De preferência com a porta fechada, não vá aparecer por aí alguma criatura tresmalhada ou um espião desorientado.

domingo, 4 de dezembro de 2005

10 discos de relance



Colder - Heat (5/10)

O som exuberante da electrónica do projecto Colder aproveita um balanço ao jeito dos Laydtron, embora com um sentido melódico diferente: às texturas IDM junta-se a voz, numa espécie de produto futurista que, com maneirismos dub, se converte num género musical de hipnose negra e esdrúxula que, mais do que não alcançar o brilhantismo a que se propõe, fica aquém dos seus próprios limites.
(Output, Outubro 2005)






Boitezuleika - Éramos Assim (7/10)
www.boitezuleika.com
Depois do primeiro lugar no concurso Quinta dos Portugueses, da Antena 3, a banda portuense estreia-se em disco. Francisco Almeida e seus pares folheiam páginas de uma cronologia musical de vários sotaques, com referências a Godinho, Fausto, Palma, Buarque ou José Mário Branco, num registo que embrulha a bossa nova, com uma toada jazz contemporânea e que vem o provar, sob esta aparência rebelde, está uma banda que promete acometimentos maiores.
(Zona Música, Junho 2005)







Mice Parade - Bem-Vinda Vontade (4/10)
http://fat-cat.co.uk
Sonoridades electro-acústicas que desenham atmosferas de contemplação sem nada de especialmente deslumbrante. Adam Pierre é um americano e molda substâncias pós-rock que, ainda que recuperem a pureza da guitarra clássica, não lhe oferecem a grandeza na composição que se impunha.
(Bubble Core/Fat Cat Records, Abril 2005)






Autechre - Untilted (5/10)
www.warprecords.com/autechre
Sean Booth e Rob Brown sugerem um som mecânico, com uma orgânica de precisão matemática e um compromisso melódico niilista. Chame-se-lhe IDM ou electrónica experimental, a verdade é que da lógica de crescendo das faixas não brota nada além de uma matriz de padrões algo repetitivos e que fazem desta edição mais um disco de beats - fruto de um laboratório electrónico - do que propriamente uma proposta com cabeça, tronco e membros.
(Warp, Abril 2005)






Pernice Brothers - Discover a Lovelier You (7/10)
www.pernicebrothers.com
Melodias directas e suaves, poemas sentidos e um registo vocal de crooner são as regras dos Pernice Brothers. O formato é vincadamente pop, sem as afectações do mainstream e é alvo de uma produção de grande nível. Embora o impacto das composições já não seja o mesmo de outrora, a sonoridade é excelente e merece uma escuta atenta.
(Ashmont/Caompact Records, Junho 2005)






Thunderbirds Are Now - Justamustache! (6/10)
www.thunderbirdsarenow.com
Rock oriundo de Detroit e que faz a fusão da electricidade na guitarra com os sintetizadores. O revivalismo punk marca pontos, emparelhado com outras influências (electro-punk?, new wave?), na voz andrógina de Ryan Allen (ele parece um adolescente de doze anos...ou uma colegial de dezasseis!). Justamustache é um disco entretido, mas pouco mais.
(French Kiss, Março 2005)






Jaga Jazzist - What We Must (7/10)
www.jagajazzist.com
Naturais da Noruega, os Jaga Jazzist trazem-nos uma junção hábil da urbanidade jazz e da versatilidade electrónica. A mistura é equilibrada e promove uma sonoridade progressista, com um núcleo melódico glacial e mesmeriano, à custa de arranjos de nível superior e da intrínseca capacidade de construir grandes canções a partir de pequenas ideias. Um disco recatado e tímido para descobrir com uma vénia.
(Ninja Tune, Abril 2005)







Editors - The Back Room (7/10)
Além da muito badalada semelhança com os Interpol, os produzem um rock alternativo conciso, ciente das suas próprias fronteiras e cujos contornos melódicos são desenhados por um curioso jogo de guitarras dialogantes. A voz grave de Tom Smith encaixa em composições bem estruturadas, na estreia prometedora em disco de uma banda à procura do seu teatro de drama musical.
(Kitchenwave, Agosto 2005)

Posto de escutaBloodOpen Your Arms


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Afu-Ra - State of the Arts (5/10)
www.afu-ra.com
Aaron Phillip é um visionário nova-iorquino que remexeu a doutrina do hip-hop trazendo-lhe o coração da cultura rasta e infundindo-lhe uma sonoridade renovada, por força da aproximação dos conceitos da soul, da disco, do reggae e do funk. Nesta edição, o valimento está mais nas beats e menos no discurso. Musicalmente falando, o disco é uma excursão com méritos mas perde peso nas letras. E isso nunca é bom para um pretenso MC.
(DeConInc/SoHipHop, Junho 2005)






Liz Phair - Somebody's Miracle (4/10)
www.lizphair.com
A viragem pop do álbum anterior de Phair não augurava nada de bom para uma compositora cuja sensibilidade lo fi lhe rendera, no passado, a admiração da comunidade indie. O novo disco confirmou as piores expectativas. Liz Phair é, hoje, uma cantora pop prontinha para os escaparates de uma qualquer estação televisivia mainstream. Mesmo a MTV que sempre lhe torceu o nariz.
(Capitol, Outubro 2005)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Keith Fullerton Whitman - Multiples

Apreciação final: 8/10
Edição: Kranky, Maio 2005
Género: Electrónica Vanguardista
Sítio Oficial: www.keithfullertonwhitman.com








A música vanguardista é multiforme e não se regula por normas temporais. Num despique destemido com a inevitabilidade do tempo, faz-se protagonista de palcos futuristas, com cenários incertos e adornos dos mais alucinantes pigmentos. Assim é também a proposta de Keith Fullerton Whitman. O conceito é electrónico, na raíz da pura combinação de sons sintéticos improvisadamente mecanizados, numa dinâmica que integra elementos minimalistas. Whitman é, ele mesmo, um minimalista e um desintegrador; as suas composições são ensaios tão credíveis, da melhor música gerada artificialmente, que parecem ser fruto da inteligência artificial de uma máquina. Os tons são frios e, abreviando-se à sua interioridade essencial, encenam peças musicais perturbantes. São-no porque repisam incessantemente os mesmos aforismos. E dessas aliterações, no fundo a força motriz das melodias, despontam uma liga coesa de elementos sónicos (o piano e a guitarra encaixam nos ingredientes electrónicos) e um manancial de estímulos sensoriais. Como no rondó de uma sinfonia. Talvez seja isso que Whitman nos dá em Multiples, uma espécie de tentáculo subconsciente e menos convencional da música clássica, em que os instantes de modernidade se confundem com os esboços de uma atmosfera classicista. O traço é melancólico, mesmo abrasivo, mas atribui-se uma dimensão maximizadora do dramatismo teatral e do compromisso emocional.

A vocação mítica de Multiples (e o empenho etimológico de Whtiman) é reforçada pelo recurso a artefactos analógicos, instrumentos que remontam às primícias da música electrónica e que fornecem o músculo e a alma mais oportunos ao vanguardismo nostálgico que Whitman ensaia neste álbum. Há algo de quintessencial neste fascículo da mais pura doutrina musical; há uma aposição dos parâmetros da electrónica, também uma revisão do seu perímetro, num verdadeiro exercício de antropologia musical. Como se isso não fosse o bastante, algures nas alamedas misteriosas da universalidade deste documento, está um compositor de elite, capaz de urdir melodias ressonantes, cheias de elasticidade e com um halo de intemporalidade. Relembrando meados dos anos 70, época em que a electrónica era prerrogativa reservada a músicos de formação ilustre que dominassem a tecnologia, o último opus de Whitman é, em simultâneo, uma edição académica vintage, um disco apaixonado e experimental e um abrigo sem trivialidades. Multiples é um recurso imperdível para ouvidos treinados e amantes do refrescante arrojo da diferença.

Os bêbados ou festejando o S. Martinho

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José Malhoa, Os Bêbados ou Festejando o S. Martinho, 1907

Wallflower

Wallflower

Come friend,
I have an old story to tell you

Listen.
Sit down beside me and listen.
My face is red with sorrow
and my breasts are made of straw.
I sit in the ladder-back chair
in a corner of the polished stage.
I have forgiven all the old actors for dying.
A new one comes on with the same lines,
like large white growths, in his mouth.
The dancers come on from the wings,
perfectly mated.

I look up. The ceiling is pearly.
My thighs press, knotting in their treasure.
Upstage the bride falls in satin to the floor.
Beside her the tall hero in a red wool robe
stirs the fire with his ivory cane.
The string quartet plays for itself,
gently, gently, sleeves and waxy bows.
The legs of the dancers leap and catch.
I myself have little stiff legs,
my back is as straight as a book
and how I came to this place
the little feverish roses,
the islands of olives and radishes,
the blissful pastimes of the parlor
I'll never know.

Anne Sexton

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Rosie Thomas - If Songs Could Be Held

Apreciação final: 6/10
Edição: SubPop/Musicactiva, Novembro 2005
Género: Indie Pop-Rock/Folk-Pop/Cantautor
Sítio Oficial: www.rosiethomas.com








Rosie Thomas já não é segredo para ninguém. Voz delicada de rebuçadinho de menta em cima de alegações musicais introspectivas com vocação acústica, assim se diz a sua graça numa pauta. E assim se contam as histórias deste If Soungs Could Be Held, o terceiro longa-duração da cantautora americana. Não sendo uma obra imprevisível, este disco é, ainda assim, um depoimento franco de uma compositora que mira a sua reprodução no espelho e a verte abertamente em eufonias simples. E é precisamente dessa simplicidade cândida que derivam as causas mais profundas destas canções, ao jeito de confidências obscuras. O tom charmoso dos trabalhos anteriores é recapitulado aqui, até reforçado, à custa do alargamento da paleta de arranjos, num registo intimista e plácido que esquadrinha as inclinações do amor, os vazios da ausência, a mortalidade e a transcendência. Rosie Thomas move-se com segurança nestes terrenos, buscando todas as minudências de um retrato pessoal honesto, desta vez mais à custa de metáforas e ficções. Dito isto, porque é que o álbum parece incapaz de cintilar? Na senda de Joni Mitchell mas cada vez mais parecida com Sarah McLachlan ou Tori Amos, Thomas concebeu um disco de canções meio-termo entre a compaixão e o optimismo, baseadas em melodias acessíveis e que, em contraste com o passado da intérprete, surgem aqui despojadas do precioso garbo indie. Thomas a piscar o olho ao mainstream?

If Songs Could Be Held é um disco que suporta um manto de vulnerabilidade - o que não é necessariamente mau - e que, ainda que embrulhe algumas composições de forma distinta (até há um dueto com Ed Harcourt, numa cover dos Everly Brothers), não acrescenta substâncias novas ao património de Rosie Thomas. Afinal, If Songs Could Held parece ter sido forjado no ludibriante limbo entre a independência do universo indie e os apetecíveis dólares da pop mainstream. Fruto dessa imprecisão e algumas concessões, o último de Rosie Thomas nem é pop nem é indie e apenas causará impressão notável nos seguidores indefectíveis da cantora. Agradar simultaneamente a gregos e a troianos nunca foi obra fácil...

Philippe de Sousa - Boîte à Petits...

Apreciação final: 7/10
Edição: Audeo, Novembro 2005
Género: Guitarra Portuguesa/Instrumental
Sítio Oficial: www.audeo.co.pt








O guitarrista Philippe de Sousa nasceu em França mas não mascara, nas harmonias da sua música, as raízes da ascendênia portuguesa, mormente na afinidade com a guitarra portuguesa e a escola clássica da canção nacional, o fado. Mas Philippe não é um fadista, a sua arte é uma jornada apátrida pelos quatro cantos do mundo musical. Com o mesmo enternecimento, Philippe acolhe a saudade chorosa do fado tradicional, a cadência do corridinho algarvio, a sedução temperada do tango, o embalo melancólico das canciones de cuna, as mágoas e pesares da América Latina, o floreio estético do klezmer, os aromas do folclore dos Balcãs, o arrojo experimental do jazz e a amplitude sonora da música de câmara. O fraseado instrumental de Phillippe é, assim, desembaraçado e traz a guitarra portuguesa num discurso de vários idiomas musicais, evocando tradições cruzadas com a modernidade, em trejeitos musicais sem bruniduras excessivas. Esta caixinha de Philippe é um caleidoscópio universal que nos descarrega na mente um imaginário perdurável, acordando em nós a suspeita de saudade de coisas que não vivemos ou não conhecemos. Nesse sentido, este disco é a estampa musical de um amanhã sem acanhamento das suas raízes, marcando o desígnio renovador de um instrumentista de eleição, sem adulterar a majestade das suas influências. Elas estão aqui, nas tramas das composições como nas pautas, são testemunhas ajudantes. O resto é de Philippe.

Boîte à Petits... é um documento feito de pedaços instrumentais em que a guitarra portuguesa se rodeia de outros instrumentos (xilofone, contrabaixo, guitarra clássica, violino e alguma percussão) e se (re)inventa, umas vezes num jeito mais técnico (como na notável "Carrossel"), outras num prisma menos lacónico (o tema título). Neste álbum, a fantasia quase pueril das composições torna-se o catalisador de uma viagem sem eixos, também sem peias, a um destino multiangular. E um disco assim é um saboroso convite à ilusão, um exercício prestidigitador que deslumbra, a despeito de algumas porções menos conseguidas, os cantos mais protegidos de qualquer criatura melómana.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

A normalidade amanhã...se me deixarem

Graças à gentileza do meu servidor de internet (Netcabo), fiquei privado de aceder à rede durante quatro dias e, por isso, não pude actualizar este espaço ao ritmo costumeiro.

Espero retomar a normalidade a partir de amanhã. Se a tal me deixarem...afinal só pago quase 36 euros por mês!

Saudações musicais.

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Deerhoof - The Runners Four

Apreciação final: 7/10
Edição: Kill Rock Stars, Outubro 2005
Género: Noise Rock/Experimental/Pós-Rock
Sítio Oficial: http://deerhoof.killrockstars.com








O entusiasmo pela experimentação, os esquemas do noise, um sentido melódico invulgar e uma voz de colegial perversa são os ingredientes substanciais do pandemónio dos Deerhoof. Desta vez, porém, o grupo de São Francisco decidiu serenar um pouco e concebeu um disco que se desvia da intensidade apaixonada de outros trabalhos, focando a exuberância sonora numa toada mais pausada, menos rebelde e, sobretudo, procurando uma abordagem mais subtil ao tradicional desalinho de ideias. Das estruturas caóticas e do ruído noise rock resta pouco neste The Runners Four, ainda que a dinâmica inconstante e as variações continuadas nas melodias revelem o traço usual do colectivo americano. A criatividade sai incólume do processo de desaceleração de ritmos, ao ponto de a banda apresentar um dos seus desempenhos mais eclécticos, trocando o grotesco pelo sensível, numa evocação catártica das anomalias do amor. The Runners Four é um álbum contextualmente sentimental e, ao invés de confiar na imprevisibilidade do som típico do quarteto, refugia-se no conforto de uma extensão mais convencional para captar o regozijo inato destes músicos e moldá-lo a um oferecimento menos efusivo. Mas não menos inspirado. Em boa verdade, as canções (se assim se podem chamar) são menos extremistas mas não deixam de acrescentar outros traços à marca sonora dos Deerhoof. O quilate dos predicados pop de Satomi e companhia é exibido num jeito simples, mostrando um segmento menos revelado na banda, sem espasmos, sem contracções, sem explosões de adrenalina.

The Runners Four sacrifica os devaneios experimentais do grupo e abeira-se do trato das convenções pop, com composições a rondarem os três minutos e a encaixarem em métricas melódicas mais acessíveis. O lado espásmico e multidimensional do rock parece ter sido vencido por um jogo musical mais aberto, de maquinações mais subtis e menor risco. Ainda assim, The Runners Four é um tomo de canções que (a)prova as aptidões dos Deerhoof em terrenos pouco explorados (por eles). Contudo, se os Deerhoof querem introduzir novidades num universo abundante em tresvarios e o fazem à custa da aproximação a convenções que habitualmente rejeitam, o gesto torna-se destemido. Mas a verdade é que eles o fazem com distinção e ainda afrontam ironicamente o auditor ao fecharem o disco com "Rrrrrrright", uma composição no melhor estilo Deerhoof, como que afirmando o efectivo móbil de The Runners Four: tomem lá um álbum pop que a gente já volta!

Doze moradas de silêncio

Doze moradas de silêncio

Hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!).
Coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos,
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira.
Na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje

Al Berto

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Rogue Wave - Descended Like Vultures

Apreciação final: 7/10
Edição: SubPop Records/Musicactiva, Outubro 2005
Género: Indie Pop-Rock
Sítio Oficial: www.roguewavemusic.com








Não pode dizer-se que as canções de Zach Rogue são feitas de ofícios desconhecidos. A erudição indie rock do projecto Rogue Wave já havia sido vincada com afinco no anterior longa-duração, o altivo Out of the Shadow (2004). É por isso que a surpresa não mora neste Descended Like Vultures; o disco vai na peugada harmónica do antecessor, com melodias de apego instantâneo em que a voz melíflua de Rogue se escora num encadeamento instrumental de requinte. As composições alternam entre o registo da balada melancólica e intimista, o formato rock vítreo e as doces pronúncias pop. Contudo, em contraste com o primeiro trabalho, as manipulações da produção deste Descended Like Vultures (a cargo de Bill Racine) são mais incisivas, causando um descaminho superficial do som do grupo em relação ao volume atmosférico de Out of Shadow. A cosmética dos truques de estúdio submeteu a música dos Rogue Wave à inevitabilidade cósmica da gravidade e, com isso, mesmo abreviando o jogo de espaços do grupo e o prisma atmosférico do trabalho prévio, não minorou o temperamento espontâneo das canções. E é disso que trata Descended Like Vultures. É um disco de canções com sopro firme e de charme apurado.

Descended Like Vultures é um álbum sem pontas vulgares e ilustrado com canções que nos roubam à inércia, à custa de melodias douradas mas sem a transcendência sacralizada em Out of Shadow. E é pena que, no decurso da criação deste disco, se tenha extraviado, algures nos confins da racionalidade, a matéria que haveria de fazer deste Descended Like Vultures a obra que merecia ser. Mesmo assim, a despeito de algumas superficialidades e porque a pop não é refém choramingas da razão (ou do tempo), o novo dos Rogue Wave não é um fascículo indiferente.

terça-feira, 22 de novembro de 2005

Broken Social Scene

Apreciação final: 8/10
Edição: Arts & Crafts, Outubro 2005
Género: Indie Pop/Experimental
Sítio Oficial: www.arts-crafts.ca








Quando cerca de uma quinzena de pessoas concentram noções musicais num objecto comum é de esperar que o produto dessa experiência conjunta seja uma síntese versátil. Um disco feito nesses moldes reclama também uma dinâmica de grupo bem oleada e a reflectida alocação das diferentes perspectivas de criação. O projecto Broken Social Scene é uma dessas trupes musicais (neste momento tem dezassete elementos) e nasceu da amizade entre Kevin Drew e Brendan Canning e foi-se alargando a músicos convidados ilustres como Evan Cranley (dos Stars), Emily Haines (dos Metric) ou Leslie Feist. As composições de tão ambicioso ensemble são férteis em imprevistos e fomentam, num estilo lustroso e desembaraçado, a expansão de ideias, graças a uma orgânica instrumental sem vácuo e a uma miríade de vozes desiguais. Depois, a desinibição das faixas manifesta-se nas excentricidades pop e no senso melódico de um trabalho que alcança o raro fito de juntar diversos talentos individuais num todo sinérgico. Da miscelânea faz-se harmonia. Do caos nasce magia.

O apontamento dominante de Broken Social Scene é a surpreendente coesão das composições, em torno de uma abstracção pop profundamente cativante e que, embora pareça menos afoita em determinados momentos do disco, remete o auditor para uma grandeza orquestral incomum, mais própria para uma jam session, feita de colagens experimentais, de batidas ora trôpegas ora diligentes, de enredos de guitarra, de reviravoltas e ripostas frenéticas. Broken Social Scene é um álbum de outra dimensão, um exercício exploratório sem alavanca ou travão, um impossível delírio criativo, uma paleta de cores garridas e detalhadas. Ao ouvi-lo, vez após vez, apetece desdobrar-lhe as nuances e tirar o chapéu a uma banda (ou orquestra?) que vale por uma dúzia. Uma constelação brilha mais do que uma estrela só...

O terceiro longa-duração destes canadianos é uma colecção de impulsos musicais cheios de méritos, ainda que a algumas das faixas falte o suculento magnetismo de "Ibi Dreams of Pavement", "Swimmers" (com a voz de Feist) ou "Superconnected", exemplos do melhor indie pop deste ano. Por isso, Broken Social Scene não será o disco magno de 2005, mas estará certamente presente nos best of de muitos melómanos por esse mundo fora. Imperdível.

Morte de Marat

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Edvard Munch, Death of Marat I, 1907

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Animal Collective - Feels

Apreciação final: 8/10
Edição: Fat Cat, Outubro 2005
Género: Folk Experimental/Rock Experimental
Sítio Oficial: http://fat-cat.co.uk/








Quem ainda não conhece os Animal Collective, nesta altura do campeonato, não é merecedor do sentido auditivo. Sediados em Nova Iorque, Avey Tare e Panda Bear (a eles se juntam Deakin e Geologist) irromperam para o estrelato no ano transacto, com o deliciosamente alienado Sung Tongs, trazendo uma rajada de ar fresco (o substantivo lufada não faz justiça, por inteiro, à façanha dos Animal Collective) ao marasmo que, por vezes, firma estabelecimento no circuito mais experimental da música alternativa. E se há adeptos incondicionais do experimentalismo, mesmo da ousadia criativa sem fronteiras, são certamente estes dois rapazes. A música que assinam é, antes de mais, um turbilhão de emoções, umas vezes psicadélicas, outras vezes poéticas e sempre com um fundo musical viçoso, praticamente impossível de seriar mas, acima de tudo, encantadoramente inovador. Essa doutrina exploratória continua a ser o fio condutor de Feels, embora seguindo motes um tanto distintos. O cotejo inevitável com o trabalho anterior leva a uma inferência óbvia: não há limites para os Animal Collective! Eles são saudavelmente irrequietos, não se acomodam a formalismos e procuram uma fórmula musical cuja virtude maior é a transgressão de regras e o cruzamento de géneros. Assim, é comum encontrar nas composições da dupla americana, ainda que atrás de uma camuflagem oportuna, os feitios da folk mais intimista (particularmente sensíveis na segunda metade de Feels) ou os saracoteios das seitas rock'n'roll dos anos 50 e 60, aqui baralhados com pedaços de percussão quase tribalista e vocalizações voláteis. Chamar apenas folk electrónica à reacção química espontânea que é a música dos Animal Collective é ser restritivo. E ter ouvidos curtos.

Feels é mais aberto (e menos acústico) e acessível do que outros frutos do ensemble americano mas não deixa de renovar o culto a uma miríade de atalhos musicais que se projectam na mente do auditor, como pedaços fracturados de imagens e memórias. Cada canção é um manancial mágico de conceitos, a caminho de clímaces impacientes que se insinuam obstinadamente, quais réplicas antes das inquirações. Essas surgem depois, nos silêncios do fim do disco, quando o auditor, embevecido pela excursão inesperada a um sítio de quimeras, se deixa levar pela ressonância das melodias e não resiste ao impulso de voltar à primeira faixa. Mas as respostas, audição após audição, não aparecem. Antes, se renovam as perguntas. Porque assim continua a bucólica e esotérica maravilha dos Animal Collective. Os Beatles em Marte talvez fossem assim...